Site Meter

Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Superstição Colombina

por desvela, em 31.05.17
Um filme muito interessante de 2009, intitulado "Mr. Nobody", começa por abordar uma questão comportamental de pombos, que foi associada à nossa ideia de superstição. As experiências foram começadas por volta de 1948 por Burrhus Skinner, e envolviam a cognição de pombos.
Mr. Nobody (filme de 2009) - Pigeon Superstition

A primeira sequência de imagens são de uma experiência diferente - Robert Epstein em 1984 apresentou um pombo que resolveu o chamado "problema da caixa e banana", cuja resolução era suposta ser exclusiva da macacada. No caso, empurrar uma caixa para lhe permitir alcançar a banana (conforme já vimos os corvos suplantam estas proezas).
No entanto, as imagens seguintes, já com locução, explicam a associação dos pombos a acções que levavam à abertura da portinhola com comida, como o simples premir de um botão com o bico.
Só que Skinner reparou em algo diferente... ao não associar nada à abertura da portinhola, era o próprio pombo que associava algum dos seus movimentos a essa abertura. Conforme é dito, o comportamento do pombo passava a ser aquele que fizera antes da porta abrir. Se batera as asas, vai bater as asas, acreditando que isso irá abrir a portinhola.
Quando o pombo bicava o botão da porta, havia uma causalidade efectiva, engendrada pelos promotores da experiência. Porém, depois, o que o pombo fazia (como bater asas) não se relacionava em nada com a abertura da portinhola... mas o pombo repetia o movimento, acreditando numa causalidade, e que assim não seria mais do que simples superstição.

No título coloquei o epíteto "colombina" não apenas por se relacionar com pombos, mas porque vou associar este episódio ao navegador Colombo... mas poderia associar-se a muito mais gente.

Interessa que as interacções que temos com o mundo são interpretadas no sentido de influenciar o resultado... procuram-se relações de causa-efeito, para que, com mais ciência ou mais fé, ao repetir as mesmas causas, se preveja o mesmo efeito.

Uma inteligência primária é associada a quem conhece causas que influenciam resultados. Essa inteligência primária é científica quando a comunidade constata (ou aceita) essa causalidade, e vai ao ponto de falar em "leis". À ciência aplicada pouco interessa entender a causalidade... constatando que existe relação, aceita-a como "lei da natureza".
Nesse sentido, o que o pombo fez quando bicou no interruptor, ou quando bateu as asas, foi o mesmo tipo de associação primária entre esse acto e o abrir da portinhola. A interpretação de que bicar o interruptor é ciência, e o bater de asas é superstição, não pertence ao entendimento do pombo, pertence ao entendimento de quem faz a experiência.

Não existe apenas esta inteligência primária... há ainda uma inteligência secundária, que manipula a inteligência primária. A inteligência secundária pode dispensar o entendimento primário, fazendo uso indirecto dele, vendo os primários como "patos" a serem usados ou caçados.
A sociedade apenas estimula o desenvolvimento da inteligência primária, já que a outra forma é simples arte do jogo, do trafulha, do especulador, do manipulador, que normalmente detém o poder.
Por exemplo, a um jogador de póquer interessa fazer crer ao opositor a previsão do seu jogo, para depois o surpreender em contrário, quando a quantia em jogo for apreciável.
Ou seja, uma inteligência secundária parasita as inteligências primárias, fomentando a sua credulidade num entendimento previsível, para tirar partido disso. Em muitos aspectos, essa inteligência secundária é uma inteligência feminina, porque as mulheres, afastadas de um protagonismo directo, aprenderam a influenciar os parceiros para agir de acordo com os seus interesses, sem o mostrar. Digamos que se o pombo tinha que perceber que movimento fazia abrir a portinhola, a pomba teria apenas que usar o seu charme para o convencer a partilhar a comida.
O mesmo padrão matriarcal acabou por ser seguido depois no controlo das civilizações. A elite, tal como a bela pomba, apenas precisava de se mostrar como apetecível, ou desejável, para receber presentes de agrado dos pombos. Claro que em casos extremos, também convinha à elite poder ser ameaçadora... não por si, mas compensando elementos agressivos nesse sentido, ou seja, uma tropa.
Porém, a forma mais subtil de prender um sábio ao seu orgulho, é desafiá-lo a construir a melhor prisão, e colocá-lo dentro como último teste... enfim, evadindo-se, seria por falha do projecto - a prisão inviolável.

Para a elite, ao tempo de Colombo, a América era um segredo de Polichinelo. Mas, por oclusão, o prato forte do jogo era apenas a Índia, a China ou o Japão, relatados por Marco Polo... e foi nesse sentido que o pombo colombino seguiu o caminho de oriente pelo ocidente. Enquanto o pombo colombino batia as asas, visitando a cada vez a sua Índia, chamando "índios" aos nativos americanos, a real pomba espanhola recebia os novos territórios sem esforço. E se o pombo colombino caiu em ridículo com a evidência da ilusão, os benefícios desse erro não tardaram a render em ouro à nobreza espanhola.

Ocorre, por demasiadas vezes, a manipulação duma inteligência primária que, em troca de pequenos prémios, aceita dar tudo o que tem, a promotores secundários, que visam os mesmos objectivos, mas sem para isso fazerem esforço algum. No entanto, quer na situação primária, quer na situação secundária, a inteligência visa usufruir do mesmo resultado, apenas usando meios diferentes. Quer o rei, que manda construir, quer o sábio que constrói, ambos visam a construção da mesma prisão inviolável, independentemente de um visar colocar lá o outro.
A inteligência secundária funciona como predadora da primária, tal como em trocas energéticas de sobrevivência, os carnívoros se alimentam de herbívoros... e é mais ou menos neste nível que se coloca a acção das agências de "inteligência", ditas de espionagem.
A competição a nível superior não é no nível dos super-canívoros, é simplesmente uma reflexão sobre o próprio uso da inteligência. Ou seja, um terceiro nível é apenas final se reflectir sobre o próprio uso da inteligência, sobre o seu propósito. Este terceiro nível não visa os mesmos objectivos, não se interessa sobre a matéria produzida, mas sim pela razão global que une as duas concepções anteriores, tipicamente locais e limitadas.

Por exemplo, nas mitologias clássicas os deuses não se tornaram deuses por nenhuma razão lógica... simplesmente nasceram deuses. O que os cientistas tentaram fazer durante estes tempos foi construir razões mais lógicas, mais sustentáveis, para terem poderes sobrenaturais, e acima disso, quem fomenta o desenvolvimento científico, usa esses poderes a seu belo prazer, com o intuito de a eles ter direito, sem quase nada fazer por isso. A um terceiro nível interessa saber se esta relação, se esta circunstância de desenvolvimento e relacionamento, tem algum sentido global acima desse propósito básico de supremacia local e limitada. Interessa entender qual a consistência global e final de um universo que se envolve no desenvolvimento destas diversas conexões.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:44


Camara obscura

por desvela, em 03.05.17
Quem já esteve num quarto completamente escuro, com a luz a entrar apenas por uma pequena frincha, poderá ter observado o fenómeno da "câmara escura" - ou seja, vemos reflectido numa parte do tecto ou da parede do quarto, o que se passa na rua... mais do que isso, passa-se como um filme a cores!

O princípio base de qualquer aparelho fotográfico, inclusive das actuais câmaras digitais, é esse princípio da câmara escura... que estranhamente não é muito divulgado, mas que muito provavelmente seria do conhecimento pré-histórico.

Para ilustrar o assunto, usamos as experiências que Abelardo Morell fez recentemente nalguns quartos, com paisagens que são por si esclarecedoras do local onde foram feitas.
Abelardo Morell - Camera Obscura (longa exposição em quartos escuros) 
- quarto no Hotel Frantour em Paris (1999), e quarto no Hotel Loews em Filadélfia (2014).

A questão que se pode colocar, para quem desconhece fotografia, é a de como as paisagens exteriores acabam por ficar tão nitidamente reflectidas no interior das paredes do quarto escuro?
- Bom, esse é o princípio da câmara escura...
... a luz entra dentro da câmara (do quarto) por um pequeno orifício, as imagens aparecem invertidas, e apresentam melhor definição quando o buraco é mais pequeno... tendo por outro lado a desvantagem de que se entrar menos luz, ver-se-à muito pior a imagem exterior. Quando o buraco aumenta de dimensão, ainda que entre mais luz, as imagens acabam por ficar muito mais desfocadas.
No caso das experiências feitas por Abelardo Morell, como ele visou uma grande definição, o orifício deveria ser pouco maior que o buraco de uma agulha, o que implicava tão pouca luz, que as fotos que vemos em cima tiveram entre 5 e 10 horas de exposição.

Interessa aqui notar que este tipo de fenómeno é perfeitamente natural e visível em múltiplas situações, não sendo necessária exposição exagerada. A wikipedia tem uma página muito boa sobre a câmara escura, onde é ilustrado um exemplo visível no sótão do castelo de Praga:
Sótão de Castelo em Praga faz câmara escura com imagem do Palácio no exterior. (wikipedia)

Interessa que independentemente de se conseguir registar a imagem numa película, ela seria visível desde tempos imemoriais, especialmente em cavernas.
Por exemplo, na Idade do Gelo, devido ao frio, se os homens tentassem tapar a entrada, um simples buraco nessa cobertura iria provocar o efeito de câmara escura nas paredes da caverna...
Isso permitiria, por outro lado, que as paredes da caverna (próximas do exterior) servissem como telas prontas a uma cópia do desenho projectado naturalmente - ainda que de forma invertida.
Tanto mais, quanto aos pedreiros foi possível com tijolos tornar quartos escuros, e notar que uma pequena abertura de luz permitiria ver o exterior reflectido nas paredes, como uma imagem fotográfica. Assim, tais técnicas estariam ao dispor desde o tempo das primeiras construções.

Portanto, a ideia subjacente à fotografia existia há milénios. Se Platão na Alegoria da Caverna falava em sombras projectadas, o seu discípulo Proclo no Séc. V, comentava o assunto em termos do efeito de reflexão que pode ser visto na câmara escura.

O processo foi usado muito certamente para fazer desenhos, ou para treinar o traço, sobre a imagem desenhada. Não é assim de excluir que alguns desenhos, até pré-históricos, tenham sido feitos acompanhando o traço visível na parede rochosa.
Os quadros romanos mais realistas, como os retratos de Fayum, podem ter sido elaborados usando esta técnica, colocando a pessoa retratada no exterior, e o pintor no interior de uma câmara escura.
É pelo menos reportado que alguns quadros holandeses do Séc. XV, e seguintes, podem ter sido produzidos desta forma, e é assumido que se tratou de uma técnica de pintura até ao aparecimento das primeiras fotografias no Séc. XIX.
Ou seja, a grande novidade no Séc. XIX foi apenas o conseguir-se fixar a imagem, usando uma emulsão de prata muito sensível à luz... mas nem será de excluir que existissem outras substâncias que reagindo à luz, como a fotossíntese, permitissem um registo da imagem vista.

Um exemplo assumido da técnica da Camara Obscura é visto nas pinturas de Canaletto, nomeadamente nas suas paisagens de Veneza. Além disso, pelo simples uso de uma lente prismal, temos o princípio da Camara Lucida (ou câmara clara) que permite a projecção do que se vê numa mesa de pintura.
A tese de que este tipo de técnicas permitiu a grande diferença entre as pinturas pré-renascentistas e as pinturas realistas seguintes foi defendida por Hockney e Falco.
Convém notar que com o aparecimento e divulgação da fotografia, ficando mais clara a facilidade de fazer quadros realistas, isso levou ao aparecimento das técnicas alternativas de pintura - que se seguiram, desde o impressionismo até aos estilos completamente abstractos e desligados da realidade.

Como mágicos que não gostam de revelar os seus segredos, com medo do público achar menos fascinante o seu trabalho de ilusão, também os pintores não gostaram de ser associados a estas técnicas de simplificação, que usavam o auxílio da câmara escura, da câmara clara, ou outros artifícios com espelhos ou lentes... 
Sempre que existiu uma diferença significativa entre o conhecimento do mago e a ignorância do espectador foi possível iludir plateias. Se algumas destas ilusões eram assumidas como tal, para conforto do espectador, muitas outras foram usadas como simples truques de magia visando captar uma credulidade religiosa... e isso seria tanto mais facilitado quando se visava impressionar crianças, ou camponeses menos instruídos, sendo ainda claro que não foi preciso muito para iludir um desaparecimento da Estátua da Liberdade perante uma plateia incrédula.

Finalmente, só uma pequena nota acerca da palavra "câmara"... que, como se poderá ler no Vocabulário de Bluteau, trata-se "da casa em que se dorme", ou melhor, a "câmara" é onde está a "cama", portanto um local privado, com pouca luz. Desse significado antigo, aos outros significados que se lhe seguiram, que foram desde "camareiro" (moço que assistia o senhor na câmara), a "camarata" ou "camarada", na partilha de camas, até às "câmaras" municipais, foi apenas um pequeno passo de privacidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:38


dos Comentários (29) - quinas otomanas

por desvela, em 30.04.17
Adiciono um comentário de David Jorge que nos chegou por email.
Respeita a uma bandeira que se pode ver num atlas otomano de 1551, e onde figura bem destacada sobre Istambul. Curiosamente essa bandeira é muito parecida com o padrão português das quinas - talvez apenas com a diferença do uso das cores estar invertido.
Quinas habituais no Séc. XV 
- vermelho circunda o fundo azul com as quinas (brancas ou pretas)

------------------------------------------
Mais uma vez lhe escrevo para lhe divulgar um mistério que me deixou algo perplexo.
Recentemente adicionei mais um atlas "arabe" à biblioteca:
1551 - Mohammmad, Ali ibn Ahmad ibn  - Atlas Portulano do Mediterrâneo - الصفاقسى

A Galica coloca-o por meados de 1551.

A maioria das cartas estão orientadas por meio de setas que "tudo indicaria" apontam para Norte.
Como exemplo coloco as seguintes imagens:



... etc. Até aqui não há nada de invulgar. 
A única carta que não tem a seta a apontar para Norte, apontando ela para ESTE, tem uma bandeira muitíssimo estranha sobre Istambul.


É uma bandeira com 5 besantes "azuis" sobre fundo vermelho.

Há semanas que procuro, sem sucesso, qualquer indicio histórico do império otomano que possa justificar esta bandeira.

Terá havido algum erro clínico na pintura desta bandeira especifica que levasse a uma má interpretação?
As restantes têm o mesmo padrão "entrelaçado" (desenhado muito fino talvez a lápis) no centro, no entanto apenas têm 4 pintas não 5 como esta.
As únicas bandeiras otomanas que encontrei até agora com a forma idêntica a esta são completamente vermelhas com texto a dourado, (o conteúdo é semelhante ao da bandeira antiga da dinastia Nasrid de Granada).


No entanto nenhuma destas bandeiras tem o que quer que seja a ver com a bandeira nessa carta.

__________________________________________
Email de David Jorge  (21 de Abril de 2017)
__________________________________________

Ver também a misteriosa bandeira com 5 quinas apresentada em Jerusalém no Livro de Marinharia:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:19


Vale da Sombra da Morte

por desvela, em 23.04.17
A Guerra da Crimeia (1853-56) foi o primeiro grande conflito a ter documentação fotográfica, uma boa parte pelo fotógrafo inglês Roger Fenton, e sendo particularmente célebre a fotografia que ficou conhecida como "Valley of the Shadow of Death" (invocando o Salmo 23 do Velho Testamento):
Guerra da Crimeia - Valley of the Shadow of Death, por Roger Fenton

O único factor que identifica tratar-se de uma foto de guerra são as balas de canhão dispersas, acumuladas numa estrada, num vale da Crimeia, onde se deu a desastrosa "carga de cavalaria ligeira".

Num conflito que consta com centenas de milhares de mortos, nas fotografias de Fenton não se vê um único... e esse é um ponto interessante, não se conhecerem fotografias das vítimas. Fenton regista poses em campo de comandantes, de soldados, a disposição de navios, e até ilustra mesmo a sua caravana fotográfica, mas o mais que se lhe conhece é a foto de um ferido a ser assistido:
Roger Fenton: Um zuavo (francês argelino) ferido é assistido, pose das tropas, 
caravana fotográfica de Fenton, e inúmeros navios no porto de Balaclava 

Coloca-se então a questão - havia alguma proibição efectiva à divulgação de fotos de mortos?
Certamente que não seria muito conveniente ver a parte desgraçada, onde do heroísmo restavam apenas um empilhar de mortos em poses tenebrosas. A questão seria mais de saber se se tinha tratado de uma opção circunstancial, ou generalizada... 

Na década de 1850 as fotografias davam os seus primeiros passos, após os primeiros daguerreotipos, inventados duas décadas antes, e eram já vários os fotógrafos que se aventuravam pelo mundo, como o caso de Felice Beato, que divulgou as primeiras fotos da China e Japão. 

Em 1860, aquando da 2ª Guerra do Ópio, Felice Beato mostra a incursão anglo-francesa nos Fortes Taku, com toda a crueza do resultado em morte dos defensores chineses:
Felice Beato (1860) - tomada dos Fortes Taku na 2ª Guerra do Ópio.

Portanto, ainda que houvesse alguma tentativa de contenção, Felice Beato terá arranjado forma de fazer chegar e divulgar as suas fotografias na Europa.
Já antes, em 1859, no decurso da 2ª Guerra de Independência Italiana, na batalha de Melegnano, aparecera uma fotografia dos corpos mortos em combate.
Cemitério de Melegnano após a batalha (1859) - imagem da foto estereoscópica

É significativa a abundância de fotos estereoscópicas, visíveis em perspectiva a 3 dimensões, logo no início das próprias imagens fotográficas. A técnica não sendo complicada, acabou por ser progressivamente abandonada, nas décadas seguintes - mas ainda hoje poderia ser facilmente retomada (como uma novidade com mais de 150 anos...)
Outro aspecto curioso, que se pode ver nas fotografias de Felice Beato, era a sua pintura posterior, como neste exemplo, das suas muitas fotografias do Japão:
Felice Beato - Samurais japoneses - fotografia pintada (imagem).

Finalmente, o aspecto menos glorioso da guerra acabou por ser espelhado nos fotógrafos da Guerra Civil Americana, nomeadamente Mathew Brady, Alexander Gardner ou Timothy O'Sullivan, que focam particularmente a carnificina ocorrida, nos momentos históricos mais significativos - como no caso da Batalha de Gettysburg (1863):
Timothy O'Sullivan (1863) Batalha de Gettysburg - corpos de soldados unionistas (imagem)

Há uma diferença significativa entre o que se passa nos últimos 150 anos, e antes disso...
A partir de 1850 as técnicas fotográficas generalizam-se muito rapidamente, e desde aí todos os acontecimentos relevantes, que não foram apenas episódios muito pontuais, em sítios remotos, foram fotografados. Se as fotografias foram tornadas acessíveis ou não... pois isso já é um assunto diferente, dado que continua a haver um profundo secretismo histórico que compromete heranças de estados e nações. Mas é claro que há uma diferença muito significativa entre os quadros encomendados, com um certo cariz heróico na guerra, e a crueza da realidade que é captada por uma máquina fotográfica, como se vê bem neste último exemplo de Gettysburg, que fotografa os vencedores... mortos no campo de batalha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:48


Ao mau mar ia (3)

por desvela, em 13.04.17
Para terminar os textos sobre a cartografia portuguesa, sobre as cartas de marear do Séc. XV, que serão mais tarde abandonadas, é talvez mais significativo o caso da carta "Pedro Reinel a fez" já que mistura a representação dos portulanos, essencialmente feitos pelo rumo com a bússola (ou agulha de marear), com uma referência aos paralelos. Aliás, é considerado que esse é o primeiro mapa que se conhece com uma escala de latitudes.
"Pedro Reinel a fez" - o primeiro mapa com escala de latitudes.

As linhas de rumo numa carta de marear são fixadas num certo pólo arbitrário, distinto do pólo norte, mas fixando uma direcção a partir daí, funcionam como meridianos, definindo um círculo maior.
Ao contrário, ao fixar a posição de latitude, os paralelos são círculos menores (à excepção do Equador), e deixam de pretender ter uma distância constante em graus, caindo-se no problema típico dos planisférios, como na projecção de Mercator, em que há uma excessiva distorção junto aos pólos - por exemplo, o Círculo Polar Árctico tem menos de metade do comprimento do Equador.

No entanto, a grande vantagem de usar as latitudes, em conjunto com a orientação do rumo da bússola, era a de permitir definir não apenas uma direcção, mas também uma forma de medir o afastamento já feito, seguindo nessa direcção. Ou seja, poderia dar-se uma direcção SO para seguir na bússola, até se atingir uma certa latitude, por exemplo, a latitude de um trópico de Cancer, e aí mudar para uma outra direcção até outra latitude. Essa seria a principal novidade que as cartas portuguesas traziam face às representações anteriores. 

Pedro Nunes descreve no tratado em defesa da carta de marear uma diferença principal para vantagem dos nossos marinheiros:
Levavam cartas mui particularmente rumadas, e não já as de que os antigos usavam, que não tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha. E pode ser que seja esta a razão, porque não se atreviam a navegar senão com vento próspero, que é a popa, e iam sempre ao longo da costa, enquanto podiam, como verá quem diligentemente ler em Ptolomeu as navegações que os antigos faziam pelo mar da Índia.As nossas cartas são muito diferentes delas, porque repartimos as agulhas que em todo o lugar nos representam o horizonte, em 32 partes iguais, e podemos governar a uma parte destas quanto espaço queremos, sem embargo que no processo do caminho se mudem os horizontes e alturas.
reforçando mais à frente - "… senão que a carta não é planisfério, que nos faça quanto avista aquela imagem e semelhança do mundo, que fazem os de Ptolomeu, e outros que aí há, nos quais há somente paralelos e meridianos."

Portanto, a grande diferença das cartas de marear é que, para além de outros truques escondidos, estavam particularmente adaptadas à arte de navegação com bússola, e nisso faziam grande diferença das cartas antigas. Terá sido essa maior diferença que terá permitido a Roma autorizar uma exploração para além dos limites restritos pela antiga concepção do mundo. 
A linha que partia para Oeste, numa rosa-dos-ventos em Lisboa, não seria o paralelo de Lisboa, seria um meridiano com pólo em Lisboa. Ainda que para distâncias próximas a diferença não fosse muito grande, para maiores distâncias a distorção levaria a conceitos completamente diferentes, como podemos ver na imagem seguinte:
Diferença entre a linha paralela (rosa) e uma linha meridiana na carta de marear (vermelho).

Também por isso, o limite de distorção que esse rumo por linhas meridianas seguiria, acabava por ficar delimitado pela junção de novas rosas-dos-ventos, definindo um certo limite de aplicabilidade para o uso de um rumo constante. Parece ainda claro que havia ainda um misto de novidade e incompreensão de associar o pólo norte magnético ao pólo norte, ou mesmo para além disso, acreditando numa certa infalibilidade da navegação por bússola, algo que só veio a ser melhor esclarecido por João de Lisboa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:43


Ao mau mar ia (2)

por desvela, em 14.03.17
O mapa que considero de referência, para compreender a cartografia portuguesa é, sem dúvida, o globo de João de Lisboa. As semelhanças com o actual símbolo da ONU, não são mera coincidência, resultam de adoptar uma representação polar, e focar ou não no meridiano de Greenwich.
 
Globo de João de Lisboa. Símbolo da ONU (com 33 sectores)

Ora, no caso do Globo de João de Lisboa, apenas 3/4 do mapa correspondem a uma representação, o quadrante superior deve ser negligenciado, conforme indicam as meias flores de lis. Isto tanto pode ser visto, como uma indicação de ocultação, como uma indefinição da demarcação na zona do anti-meridiano das Tordesilhas, ou ainda como resultado da projecção cónica que João de Lisboa fez:
Globo de João de Lisboa (c. 1514), e uma projecção cónica actual pelo meridiano de Greenwich.
A principal diferença é a ausência da Austrália, e a distorção no hemisfério sul é um pouco diferente 

Em João de Lisboa, o  foco central é o Pólo Norte, e o círculo (amarelo), que une os 16 focos (a que fizemos referência no texto anterior) é o Equador:
O globo de João de Lisboa com os 16 focos no Equador, e ocultando um quarto do mapa. 

Outra observação interessante, consiste em focar no losango vermelho, a meio do mapa.
Focando nesse quadrado, compreendemos melhor o mapa de Reinel de 1504,
porque a parte americana aparece desta forma no topo dos mapas, confundindo a parte setentrional com zonas árcticas, quando correspondem apenas à costa atlântica norte-americana.
Também o mapa polar de Vesconte de Maggiolo (indicado num comentário de David Jorge), irá colocar as terras com esta orientação, mas com uma incerteza e qualidade muito inferiores:
Vesconte de Maggiolo - representação polar em 1511.
A confusão entre as representações dos portulanos com as latitudes aparece no mapa de Cantino, que usa não 1 mas sim dois círculos com 16 focos (o que nos dá um total de 33 focos):

Desenhando os dois círculos evidentes no mapa de Cantino, agora no Globo de João de Lisboa, verificamos quais eram as duas regiões que procuravam ser representadas, com as "novas" informações que o espião do Duque de Ferrara conseguira obter pelos mapas portugueses em 1502.

Penso que estes casos tornam bastante evidente como o globo de João de Lisboa era uma peça de cartografia que suplantava tudo o que se conhecia fora de Portugal e de 1514 até cerca de 1764, nesses 250 anos, ficou como uma das melhores representações... que nos chegaram até hoje.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:51


Ao mau mar ia (1)

por desvela, em 12.03.17
Como hoje em dia, a orientação terrestre se baseia essencialmente no conhecimento da latitude e longitude, acaba por ser fortemente negligenciada a possibilidade de se fazerem mapas, sem usar nem uma coisa, nem outra.
As cartas de marear não apresentavam linhas de longitude, ou sequer de latitude, porque não precisavam... a ideia era simplesmente usar a bússola.
Por exemplo, como se poderiam marcar os Açores num mapa?
Chegados aos Açores, se tomassem um rumo constante na bússola, digamos ENE (Lés-Nordeste), chegariam à Bretanha. Inversamente, se partissem da Bretanha com um rumo constante oposto OSO (Oés-Sudoeste), rumariam em direcção ao Açores. 
Isto não seria suficiente para marcar os Açores numa carta. Mas poderiam fazer o mesmo com qualquer outra direcção da bússola. Saindo dos Açores com rumo ESE (Lés-Sudeste), chegariam a um ponto na costa marroquina. Inversamente, partido desse ponto na direcção oposta ONO (Oés-Noroeste), chegariam aos Açores. 

Exemplificamos essa marcação num mapa de Reinel, vendo como a intersecção de uma rota OSO vinda da Bretanha, com uma rota ONO vinda de um cabo de Marrocos, definiria apenas uma possibilidade de marcação dos Açores no mapa. Alternativamente, como é óbvio, poderia usar-se a navegação oeste, partindo da costa portuguesa.
A intersecção de um rumo OSO saindo da Bretanha, com um rumo ONO vindo
de um cabo marroquino, levaria a uma marcação da posição dos Açores.

É claro que este método não era muito exacto, porque não teria em conta o desvio da rota (a então chamada "derrota"), que acontecia pelas correntes marítimas. De qualquer forma seria preferível a um cálculo de latitude, que implicava céu limpo, à noite, para medir a altura da Estrela Polar, ou de dia, para calcular a altura do sol ao meio-dia... especialmente dados os erros, também pelas oscilações no navio. A longitude seria ainda muito mais difícil de registar, e basicamente só haveria uma ideia aproximada, pelo tempo da viagem.

A bússola não dependia do estado do tempo, permitindo manter a direcção fixa. 
Mais importante, como as correntes eram sempre as mesmas, não interessava muito se a marcação estava certa... o que importava é que mantendo um rumo fixo iam lá chegar - os mapas estavam feitos para serem usados com bússola, em pontos específicos, e seguindo outras rotas é que seria natural perderem-se.

Explicaremos depois como a bússola em conjunto com o cálculo da latitude, dispensava praticamente o cálculo da longitude. Foi praticamente isso que os portugueses passaram a utilizar, especialmente a partir do reinado de D. João II, usando para marcar a latitude, o astrolábio, o quadrante, ou a balestilha. 
Repare-se que os poucos portulanos antigos, do Séc. XV e anteriores, nem tão pouco indicam o Trópico de Cancer, mas essa marcação de latitude passou a ser obrigatória em todos os mapas do Séc. XVI (como já se vê no mapa de Cantino, 1502).

Convém agora dizer que há uma característica comum à maioria dos portulanos, e que não é notada à primeira vista... uma marcação de um círculo com 16 focos de referência secundários.
Isso ocorre desde os mapas de Abraham Cresques (também com Pizzigano), mas vamos evidenciar isso com os mapas de Pedro Reinel:
Carta "Pedro Reinel me fez" (1485), evidenciando o círculo onde ficam as rosas dos ventos
e os 16 focos (a vermelho com rosa-dos-ventos, a azul, sem rosa-dos-ventos)
No caso do mapa de 1485, há uma rosa-dos-ventos central, de onde saíram 16 direcções cardinais, e a uma distância fixa do compasso, desenha-se um círculo onde vão ficar os 16 focos. 
Em 5 desses focos há novas rosas-dos-ventos, nos outros 11 não... a razão para esta escolha, desconheço qual seja.

Noutro mapa de Reinel (1504), passa-se o mesmo:
Carta "Pedro Reinel a fez" evidenciando a rosa-dos-ventos central, de onde saem 16 direcções para o mesmo número de focos (pontos a vermelho, com rosa-dos-ventos, e pontos a azul, sem rosa-dos-ventos).
Agora passamos a ter 9 pontos com rosas-dos-ventos, e 7 pontos sem rosas-dos-ventos. Neste mapa já aparece a exigência papal, de apontar o Leste (direcção de Jerusalém) com uma cruz. Tem ainda uma outra novidade - uma escala para latitudes, aliás duas - uma ligeiramente inclinada, o que mostra que pretende mostrar que a latitude vai exigir dois tipos de representação, com uma pequena correcção a Ocidente, em paragens americanas, para a mediação do Tratado de Tordesilhas.

A mesma ocorrência do círculo é notada no seguinte mapa de Reinel de 1535:
Mapa atribuído a Pedro Reinel (1535) - neste caso há uma rosa-dos-ventos extra (verde, à direita)
Dos 16 focos, agora há 10 com rosas-dos-ventos, e 6 focos simples (a azul). Este mapa já evidencia como latitudes, o Trópico de Cancer e o Equador.

Podemos colocar uma questão... qual a necessidade que havia de colocar as rosas-dos-ventos, e os outros focos, no mapa?
Por um lado, poderiam ser usados para definir melhor os contornos locais... no sentido em que mudariam os pontos de referência, noutras partes do globo. Mas como estas rosas-dos-ventos são indistintamente colocadas em terra ou no mar, o seu significado carece de melhor explicação.
Para esse efeito, no próximo texto, iremos ver como fica o Globo de João de Lisboa, e o Mapa Cantino (no caso do Mapa Cantino há mesmo dois círculos evidenciados).

Quanto ao título do texto, é uma simples modalidade de entender "mau maria" - uma expressão corrente sem aparente sentido, mas se for ao "mau mar ia"... muitos foram os que se perderam no mau mar, não apenas por tempestades, mas sobretudo por enganos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:41


Piri, Piri, Reis e Reinel

por desvela, em 08.03.17
Acerca dos recentes comentários de Maria da Fonte e David Jorge, sobre Piri Reis, notei que apesar de já ter falado desde 2010 várias vezes do assunto e até num comentário de 2013 ter deixado uma imagem comparativa entre o mapa de Piri Reis e o globo no Atlas Miller, os textos nos comentários acabam menos visíveis ao fim de algum tempo, e como então dizia... não há nada melhor do que colocar explicitamente a comparação para que se veja bem a coincidência entre os mapas de: 
- Reis & Rei-nel 


As 5 zonas identificadas em ambos os mapas são praticamente coincidentes.

O único mistério que permanece é o mapa de Piri Reis ter toda a publicidade e protagonismo, enquanto os mapas de Pedro Reinel são normalmente esquecidos... mesmo sendo idênticos.
Neste caso é tanto mais ridículo, quanto o mapa de Piri Reis mostra apenas uma parte do mapa mundi que está no Atlas Miller, que é mais completo (e tem co-autoria atribuída a Lopo Homem e Jorge Reinel).
Tanto mais caricato, quanto é até dito que o mapa de Piri Reis é baseado em mapas portugueses, e depois é esquecido convenientemente este mapa igual do Atlas Miller...  

Poderíamos dizer... ah, mas o mapa de Reis será 6 anos anterior ao mapa de Reinel. 
Até poderia ser, mas o mais natural é serem ambos cópias de um mapa anterior.

Conforme está extensamente descrito em 
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/03/piri-reis-oronce-fine.html
as inscrições do mapa de Piri Reis, sugerem que se referia a uma cópia do mapa que vinha do tempo de Alexandre Magno... ou até talvez anterior, dada a linha costeira!

Como voltei a falar da questão do alinhamento piramidal (num postal anterior), no mapa de Piri Reis está colocada uma rosa dos ventos sobre a ilha de Santa Helena, que evidencia a ligação, conforme ilustrei... Ainda mais ficou evidenciado que a linha de costa se adequaria a um baixo nível do mar, conforme podia ocorrer na Idade do Gelo:
 

Quanto à direcção que vem das pirâmides de Gizé, passa pelas ilhas de Fernando Pó, Príncipe, São Tomé, e Santa Helena... convém lembrar que passa depois pelo Estreito de Magalhães.

Ora, se o Estreito de Magalhães não é evidenciado no mapa de Piri Reis, está bastante evidente que no Atlas Miller há uma abertura (ou mesmo duas), que indiciam uma passagem exactamente no Sul da América, na posição do Estreito. As duas aberturas fazem sentido porque uma seria pelo Estreito de Magalhães e a outra pelo Estreito de La Maire (passada a Terra do Fogo).

O único inconveniente "destas coisas" é que o Atlas Miller é de 1519 e a passagem do Estreito foi feita por Magalhães em 1 de Novembro de 1520... mas também não é novidade que o próprio Magalhães dizia que seguia cartografia existente em Lisboa.

A última observação, a respeito do nome, é que não é de negligenciar que uma adaptação para turco do nome Pedro Reinel, fosse entendida como Piri Reis... e ainda que possa ter existido o almirante turco, e lhe tenha sido feita uma biografia, nada disso inviabiliza que tratassem o cartógrafo português como uma variante do mesmo nome. Afinal também no Ocidente os nomes árabes eram suficientemente alterados - Ibn Sina passou a Avicena, ou Al Quarismi passou a Algarismo...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:02


Órion... cinto no equador

por desvela, em 01.03.17
(continuação)
Deixei por terminar o texto anterior, com um assunto aparentemente semelhante - as estrelas do cinto de Órion, mas bastante distinto no conteúdo. 

(6) Uma coisa são as interpretações humanas dos conjuntos estelares, outra coisa diferente é a relação directa que se pode estabelecer entre uma posição na Terra e uma posição no Céu.
Ou seja, se um local na Terra é identificado pelo par (Latitude, Longitude), também qualquer estrela no céu pode ser identificada pelo par (Latitude, Longitude). 
Por exemplo, ainda que não seja muito comum ver planisférios celestes, encontramos um razoavelmente bom, associado à Expedição Apollo 11: 
Planisfério Celeste (missão Apollo 11):
a vermelho - minha indicação das estrelas de Órion -  o cinto está praticamente sobre o equador celeste
O equador celeste é uma marcação que não é arbitrária, está completamente ligado à rotação terrestre e ao equador terrestre, conforme é explicado nesta imagem (wikipedia)

Portanto, no que diz respeito à Latitude, tal como no caso terrestre, há uma única forma de a definir. 

Ao contrário, no que diz respeito à Longitude, no caso terrestre houve sempre várias convenções. Actualmente, e desde o Séc. XIX, ficou convencionado ser marcado pelo Meridiano de Greenwich, pelo domínio da marinha britânica, mas antes disso houve outros marcos. 
Como Ptolomeu que definiu o zero, no extremo ocidental do "mundo conhecido", usou-se muitas vezes a Ilha do Ferro nas Canárias como marcação do "Meridiano Zero" (aliás com a indicação de que estaria 20º a oeste de Paris, o que facilitava as contas aos franceses).
Ainda que as Flores sejam as ilhas açorianas mais ocidentais, é natural que o nome "Ilha do Marco", associado à Ilha do Corvo, pudesse ter a ver com alguma associação temporária desta ilha ao extremo mais ocidental... podendo ter sido usada como referência de longitude.

O caso mais interessante, e que é reflectido no Globo de João de Lisboa, toma a embocadura do Amazonas como marco para o Meridiano Zero. É adequado pela curiosidade do Amazonas desaguar em latitude zero... e de ser a marcação feita por D. João II para o Meridiano das Tordesilhas. Como se não bastasse essa coincidência, a ilha na foz do Amazonas era designada "grande Ilha de Joannes" (sendo agora designada Ilha de Marajó).

(7) A marcação do Meridiano Zero numa Carta Celestial também é de, certa forma, arbitrária... ainda que possa ser ligada aos meridianos correspondentes a equinócios... ou solstícios.
Ralativamente ao solstício de Verão, a estrela mais brilhante que se aproxima deste ponto será Betelgeuse, também ela na constelação de Órion, mas não sobre o Equador Celeste.
Assim, a definir-se alguma correspondência entre pontos do Equador Celeste e Equador Terrestre, o que pareceria melhor como marcação poderia ser justamente o Ilhéu das Rolas, em São Tomé (ou ainda a Ilha do Príncipe, escolhendo a do meio como referência... também esta supostamente referindo-se ao Príncipe - futuro D. João II).

(8) O interesse desta marcação de referência, seria que todas as estrelas do céu teriam um lugar único correspondente em Terra. Da mesma forma, as constelações ocupariam um lugar determinado no espaço terrestre. Com essa posição de Órion como referência, colocada sobre as Ilhas de São Tomé, obteríamos uma sobreposição com as constelações da seguinte forma:

... onde praticamente grande parte da Europa Ocidental corresponderia ao espaço da Constelação de Auriga, enquanto que a parte da Europa Oriental corresponderia à Constelação de Perseu. Neste caso, com a deslocação de Órion para latitudes equatoriais, é a constelação de Touro que ocupará o lugar do Egipto/Sudão (a de Carneiro, o lugar da Arábia; a de Peixes, o sul da Índia, etc.)

No que diz respeito à constelação de Auriga, a sua estrela mais brilhante é Capella, que tem coordenadas (declinação ou latitude) 45º59'... sendo o Monte Branco o ponto geográfico mais importante próximo daquela latitude, com 45º55'... sendo a questão de longitude igualmente próxima, mas mais variável, dependendo da definição da origem. 

Interessa notar apenas, que se tentássemos estabelecer alguma relação entre a posição das estrelas e posição de cidades antigas conhecidas, não se vislumbra nenhuma correlação neste sentido. Se essa associação pode ser vista de modo genérico, com a posição das constelações, como observámos no texto anterior, tendo por base a associação do Egipto a Órion, nada de semelhante se parece passar usando a identificação entre os dois equadores (celestial e terrestre).
Ou seja, caso tenha havido alguma associação directa - ligando lugares no céu a lugares na Terra, tal aconteceu apenas de forma genérica e pouco precisa, não se vislumbrando nenhuma ligação de grande precisão, feita por intencionalidade humana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:59

A notícia aparece no Expresso, num breve artigo de Virgílio Azevedo, e foi aqui indicada por um comentador anónimo:
S. Miguel já era povoada 150 anos antes da descoberta oficial dos Açores

Um estudo que procurava determinar a vegetação antiga dos Açores, baseado em sedimentos de poléns, esporos, depositados na Lagoa Azul, concluiu que a ilha de S. Miguel teria habitação humana, por volta do ano 1287, ou seja, 150 anos antes da data oficial reconhecida para a descoberta dos Açores.
O artigo científico está publicado aqui (o acesso é condicionado à subscrição da revista), mas o resumo é acessível:

"Vegetation and landscape dynamics under natural and anthropogenic forcing on the Azores Islands: A 700-year pollen record from the São Miguel Island
- Quaternary Science Reviews. Volume 159, 2017, Pages 155–168.
- Autores: Valentí Rull, Arantza Lara, María Jesús Rubio-Inglés, Santiago Giralt, Vítor Gonçalves, Pedro Raposeiro, Armand Hernández, Guiomar Sánchez-López, David Vázquez-Loureiro, Roberto Bao, Pere Masqué, Alberto Sáez
- Instituições dos autores: Institute of Earth Sciences Jaume Almera, Botanic Institute of Barcelona; CBIO - Univ. Açores; Instituto Dom Luiz - Univ. Lisboa; CICA - Univ. da Coruña; Edith Cowan University, Joondalup, Australia; ICTA - Universitat Autònoma de Barcelona; University of Western Australia, Crawley.
Resumo: The Azores archipelago has provided significant clues to the ecological, biogeographic and evolutionary knowledge of oceanic islands. Palaeoecological records are comparatively scarce, but they can provide relevant information on these subjects. We report the palynological reconstruction of the vegetation and landscape dynamics of the São Miguel Island before and after human settlement using the sediments of Lake Azul. The landscape was dominated by dense laurisilvas of Juniperus brevifolia and Morella faya from ca. 1280 CE to the official European establishment (1449 CE). After this date, the original forests were replaced by a complex of Erica azorica/Myrsine africana forests/shrublands and grassy meadows, which remained until ca. 1800 CE. Extractive forestry, cereal cultivation (rye, maize, wheat) and animal husbandry progressed until another extensive deforestation (ca. 1774 CE), followed by the large-scale introduction (1845 CE) of the exotic forest species Cryptomeria japonica and Pinus pinaster, which shaped the present-day landscape. Fire was a significant driver in these vegetation changes. The lake levels experienced a progressive rise during the time interval studied, reaching a maximum by ca. 1778–1852 CE, followed by a hydrological decline likely due to a combination of climatic and anthropogenic drivers. Our pollen record suggests that São Miguel were already settled by humans by ca. 1287 CE, approximately one century and a half prior to the official historically documented occupation of the archipelago. The results of this study are compared with the few palynological records available from other Azores islands (Pico and Flores).
Traduzindo rapidamente, a paisagem era dominada por laurissilvas, cuja presença hoje é apenas significativa na Ilha da Madeira (a Laurissilva da Madeira é paisagem UNESCO). Essa vegetação foi substituída com a colonização oficial no Séc. XV, e depois mudada de novo nos séculos XVIII e XIX. 
A análise dos pólens sugere adicionalmente a ocupação humana por volta de 1287 (ou seja, em reinado de D. Dinis).

No artigo do Expresso refere-se que "... há historiadores que defendem que os Açores já eram conhecidos antes, baseados em mapas de 1339 onde as ilhas do Corvo e de São Miguel já estão assinaladas, embora com nomes diferentes (Corvinaris e Caprara, respetivamente)"... e o mapa/portulano de 1339 é atribuído a Angelino Dulcert, onde aparecem as ilhas, mas a uma latitude mais condicente com Madeira e Porto Santo.

Parte do mapa de Angelino Dulcert -1339 (wikipedia), com ilhas nomeadas.

Os pequenos esporos, tal como estes mapas antigos revelam apenas uma parte da evidência, que espera que uma espora decisiva nos cavalgue das trevas, para a luz. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:44


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Maio 2017

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D