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Conan, o bretão

por desvela, em 17.12.12
Do longínquo tempo em que o governador da Califórnia representava, não no protocolo, mas sim no cinema, conhecemos um dos personagens fabulosos que marcou gerações - Conan, o Bárbaro:
Arnold Schwarzenegger em Conan (1982, 84)

Conan foi visto como um produto de fantasia moderna, iniciada com o livro de R. Howard, em 1932, depois em banda-desenhada, e passados 50 anos aparece o filme. Era assim mais fácil a Howard introduzir um nome esquecido que foi visto como herói noutro contexto:
Conan, primeiro rei da Bretanha (383-427)

Conan, aparece ainda na fábula como Cimério, ligando-o a outros cimérios, apesar de Howard referir que se tratava de um celta... como o próprio nome indicia (Conan é um nome comum na Bretanha). É natural que Howard ligasse Cymmerian a Cymry - o nome celta de Gales, e que Hyboria invocasse a Hibernia-Irlanda. Com a grande excepção do Rei Artur, os mitos que surgiram na época de queda do Império Romano e transição para a época medieval, acabaram mais ou menos esquecidos, e toda essa época aparece envolta numa enorme névoa histórica.

A informação sobre Conan está, no entanto, bem detalhada na obra de 1854, de Charles Barthelemy:
Histoire de la Bretagne, ancienne et moderne
que toma o moto atribuído a Conan: "Malo mon quam foedari"... "antes morrer que me manchar", e associa os arminhos no escudo da Bretanha a um episódio que Conan tomara como bom presságio - ao desembarcar nas costas da Bretanha, alguns arminhos refugiaram-se sob o seu escudo. 

 
Um arminho. Escudo da Bretanha, com o símbolo dos arminhos.

Talvez não seja despropositado notar que se o latim "ermini" se mantém no catalão, não difere muito no francês "hermines". Ou seja, também poderíamos ter o nome "hermínios" em vez de "arminhos"... e os Montes Hermínios dariam significado a uma fauna entretanto extinta em Portugal (manter-se-à na Galiza).

Antes de retomar o lendário Conan, neste caso o bretão, é adequado numa veneta falar dos Venetos. Charles Barthelemy inicia a sua história com as dificuldades que Júlio César teria sentido na tentativa de anexação da Bretanha (ou Armorica), especialmente no que dizia respeito aos Venetos.
Acontecia que os Venetos eram navalmente superiores aos Romanos... no Oceano Atlântico os quadrirremes eram pouco eficazes, e os Venetos manobravam superiormente apenas com velas.
Barthelemy refere que, finalmente, com um expediente engenhoso, os romanos conseguiram cortar as cordas que operavam o velame, permitindo a abordagem aos navios. A maioria dos barcos venetos foi subjugada, e a independência da Bretanha/Armorica perdeu-se num só dia de batalha. Sucessivamente todos os portos se renderam... Júlio César foi implacável contra os Venetos que não escolheram morrer, e a história de uma Bretanha independente seria retomada quando entra Conan em cena - no final do Séc. IV.

Ora, como é natural, o nome "Venetos" sugere outra região... a "Venetia", a região de Veneza.
Essa ligação foi estabelecida (cf. Vénètes), e também outra ligação com a região de Gwynedd (Gales), denominada Venedotia pelos romanos.
Temos assim uma ligação marítima entre Gales, Bretanha e Veneza... havendo ainda quem adicione uma região polaca, ou eslava, referente aos Wendes, que migrariam para a Sérvia.
Coincidência?
Pelo critério etimológico, não podemos deixar de relembrar a conexão por Gal... deixando Portu-gal, passando à Galiza, aos Gauleses, Galeses, Galicia (Ucrânia/Polónia), ou até à Galatia (Turquia). Isto praticamente evidencia uma conexão marítima de grande escala fora do Mediterrâneo.
Para relembrar esta ligação, feita por onde antes a terra era mar, coloco de novo o mapa ilustrativo:

e assim, a propósito deste texto, notar que há uma razão para uma Grã-Bretanha e outra "pequena" Bretanha - pelo menos em tempos anteriores ambas teriam sido ilhas. César conquista uma Bretanha, Cláudio conquistará a outra, ou parte dela (os Pictos resistirão na Escócia). O mesmo nome, e a sua proximidade, parece prestar-se a confusões nas referências históricas.
Aliás Barthelemy refere que essa conexão entre as Bretanhas era tão presente, que durante vários séculos o rei comum residia em Trinovante - Londres. Conan partiu da Grã Bretanha para conquistar a Bretanha.

Como se as duas ligações marítimas apontadas não fossem suficientes, temos ainda os Pictones na França, ao sul da Bretanha, e os Pictos na Escócia. Etimologicamente ligam-se Vene, Gal, Picto, a distintas partes marítimas.
Coincidência? - A genética falou antes de a calarem... lê-se no Scotsman.com de 21/09/2006:
uma notícia que mostra como a maioria dos ingleses, escoceses e galeses descendem das mesmas tribos que os povos da Península Ibérica, concluindo aliás serem migrações destes.
(...) a research team at Oxford University has found the majority of Britons are Celts descended from Spanish tribes who began arriving about 7,000 years ago.
Even in England, about 64 per cent of people are descended from these Celts, outnumbering the descendants of Anglo-Saxons by about three to one.
The proportion of Celts is only slightly higher in Scotland, at 73 per cent. Wales is the most Celtic part of mainland Britain, with 83 per cent.
Previously it was thought that ancient Britons were Celts who came from central Europe, but the genetic connection to populations in Spain provides a scientific basis for part of the ancient Scots' origin myth.
The Declaration of Arbroath of 1320, following the War of Independence against England, tells how the Scots arrived in Scotland after they had "dwelt for a long course of time in Spain among the most savage tribes".
Olhando para a Declaração de Arbroath, dirigida ao Papa, a "coisa" torna-se ainda mais clara:
Most Holy Father, we know and from the chronicles and books of the ancients we find that among other famous nations our own, the Scots, has been graced with widespread renown.  It journeyed from Greater Scythia by way of the Tyrrhenian Sea and the Pillars of Hercules, and dwelt for a long course of time in Spain among the most savage peoples, but nowhere could it be subdued by any people, however barbarous.  Thence it came, twelve hundred years after the people of Israel crossed the Red Sea, to its home in the west where it still lives today.  The Britons it first drove out, the Picts it utterly destroyed, and, even though very often assailed by the Norwegians, the Danes and the English, it took possession of that home with many victories and untold efforts; and, as the histories of old time bear witness, they have held it free of all servitude ever since.  In their kingdom there have reigned one hundred and thirteen kings of their own royal stock, the line unbroken by a single foreigner.
Não restam muitas dúvidas de como as gaitas (de foles) são comuns a Trás-os-Montes e à Escócia. Também não restam muitas dúvidas de como "os mitos" que foram passando, nas "crónicas dos antigos", são afinal "mitos" com alguma "sustentação genética". Em 1320 os escoceses acabavam de receber uma das duas partes principais dos templários perseguidos em França... Se pelo lado português, os templários se estabeleceram na Ordem de Cristo, pelo lado escocês acabaram por formalizar a Maçonaria, de onde terá saído o "rito escocès".

É ainda interessante estes escoceses traçarem a sua origem a tempos de migrações da "Grande Cítia", ou seja da zona Tartária, a norte do Mar Negro e mar Cáspio. Depois de viverem muito tempo na Península Ibérica, acabam por aportar na Irlanda ("... its home in the west"), e numa grande contracção de tempo falam da destruição dos Pictos e invasões vikings... Para entender melhor isto, é preciso recorrer a Nennius, e à sua Historia Brittonum, do Séc. VIII - o que merece um texto separado.
Por outro lado, o traço genético é mais alargado, e não diz respeito apenas aos escoceses, inclui especialmente os galeses, e por isso reporta a tempos bem mais antigos, talvez próximos dos 5000 a.C. sugeridos pelo estudo genético.
Mas para não alongar nesta variante, voltamos a Conan...

Barthelemy começa por abordar o assunto referindo Cohel (nat King Cole) e o irmão Octavius (Outam), últimos reis de Trinovante-Londres. Diz que Cohel seria pai de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino... tese controversa que procurou ligar a consagração imperial de Constantino em York, a uma ascendência britânica. Apesar da origem de Santa Helena ser algo incerta, há enormes hiatos temporais nestas versões. Se a Europa continental tinha um unificador em Carlos Magno, os britânicos procuraram associar-se a Constantino "Magno". Através de Geoffrey de Monmouth, outra referência incontornável para este período britânico, o rei Artur seria descendente do rei Cohel.

Conan aparece como protagonista na sucessão de Octavius seu tio (ou pai?), numa altura em que o imperador romano Graciano estava prestes a ser defrontado por Maximus, um general romano da Hispânia.
Maximus estaria destacado na Grã Bretanha, e como no caso de Constantino, as legiões britânicas irão apoiar a sua pretensão a Imperador Romano. Ele surge como sucessor de Octavius pelo casamento com a filha Elen (outra Santa Helena). A esta sucessão opõe-se Conan, segundo diz Barthelemy, e aparecerá contra Maximus ao lado dos Pictos e Escotos.
Conan perde a batalha, e as legiões proclamam Maximus imperador romano. Maximus tem planos maiores, e propõe a Conan uma aliança para a invasão da Bretanha. Em 383 d.C. Conan desembarca ao serviço desse plano de Maximus, tem os arminhos a recebê-lo, e em breve terá um reino sob seu poder. Maximus prossegue, derrota Graciano na batalha de Lutécia, e durante 4 anos será imperador romano.

Magnus Maximus, Imperador Romano do Ocidente (384-388)

Maximus é primeiro visto como usurpador, mas é aceite com o co-imperador Valentiniano II, até que o tenta depor. Apesar do seu êxito no Império Romano do Ocidente, acabará por ser morto por Teodósio I, Imperador do Oriente, que irá recolocar Valentiniano II no Ocidente. Como era habitual em Roma, a mulher (Elen) e os filhos, serão também mortos. O senado romano declara a sua "memória danada"... e por isso é natural que pouca memória oficial da época se tenha mantido. Na tradição galesa, o nome de Maximus é Macsen Wledig, e Conan Meriadoc aparece como irmão de Elen, sua mulher. 

Com a aniquilação de Maximus, Conan não deixa de ficar no poder da Bretanha mais 40 anos, de acordo com Barthelemy. A incursão de Maximus acaba por deixar o Império do Ocidente fragilizado, e Honório, sucessor de Valentiniano II, terá por ter que negociar as diversas concessões de poder aos suevos, alanos, e godos. Roma já não controlaria a maior parte da Gália e Hispânia. Também a Bretanha teria um acordo de autonomia com Honório.
Assim, o período de Conan acaba por reflectir, segundo Barthelemy, uma grande estabilidade e independência, que atraírá o mundo celta à Bretanha, face ao desmoronar do mundo romano. O sucessor de Conan, será o seu filho Salomon, e apesar de Conan ter favorecido o cristianismo, não deixa de ser interessante este nome, e notar que Maximus teria sido acusado de "judaísmo", por Santo Ambrósio, por se ter oposto ao incêndio de uma sinagoga em Roma...

Finalmente, Barthelemy vai associar Conan a um outro episódio marcante - o martírio de Santa Ursula e das 11 000 virgens. Conan terá solicitado a mão da filha de Dionote, rei da Grã Bretanha, e Ursula terá partido também com a missão de "cristianizar o bárbaro". Por resultado de tempestade, o barco teria sido desviado para uma embocadura do Reno na Holanda, onde Ursula teria sido presa e depois morta pelos Hunos. Desde 406 d.C. que os Hunos tinham forçado a migração das tribos germânicas para oeste do Reno, e essa pressão levara às primeiras incursões bárbaras a que Honório cedeu. Quanto às 11000 virgens, o número é emblemático, por ser implausível que Ursula fosse acompanhada em tal número.
Assim, levantam-se hipóteses instrutivas de como alguma informação é facilmente deturpável ou interpretativa. Uma hipótese diz que "XI M V" foi entendido como 11 mil virgens e deveria ser 11 mártires virgens... outra diz que se referia a Ursula como virgem com 11 anos, etc.
Este exemplo é instrutivo porque são muitas as abreviaturas em latim, o que deixa alguma margem de interpretação e possível distorção face ao conteúdo original dos textos.

Conclusão. Barthelemy refere que Ana da Bretanha, bem como todos os duques anteriores, orgulhava-se da sua ascendência até Conan. A Bretanha seria definitivamente incorporada no Reino da França pelo casamento de Ana da Bretanha, e a sua autonomia seria depois limitada.
A ascendência de Conan seria bretã, não seguia a linhagem goda que resultaria na aristocracia europeia depois das invasões bárbaras. Também dificilmente se poderá invocar uma ascendência germânica aos godos, já que os Alamani eram uma confederação de Suevos. Os suevos acabaram por ser dominados pelos visigodos na Hispania, e por isso grande parte do que se chamaria "alemães" seriam muito mais suevos, de ligação celta, em grande parte inseridos no mundo romano. Os godos teriam uma origem diversa e alargada, sendo escandinava pela parte visigoda, até à Cítia/Tartária (zona Khazar) pela parte ostrogoda.
As monarquias estabelecidas na Europa acabarão todas por ter essa linhagem goda (os monarcas suevos não a teriam e não eram reconhecidos em Roma). Assim, quando os escoceses invocam a sua migração a partir da Cítia, estão a invocar a mesma zona geográfica dos ostrogodos, e talvez a mesma nobreza goda para justificar as pretensões de realeza.
No entanto, pelo traço genético, a população das ilhas britânicas terá essencialmente a mesma origem ibérica, e esse traço alagar-se-ia por uma civilização atlântica que incorporaria ainda a costa francesa, e poderia mesmo chegar a paragens mais orientais, remontando a épocas de ligação com o Mar Negro.
Na parte ocidental, há evidentes traços de ligação cultural, denominada celta, que vão das ilhas britânicas à parte ibérica, onde os monumentos de pedra, de "brita", os menires, cromeleches, dólmens, estão bem presentes. A tradição naval seria uma ligação, tornada clara na menção que se faz acerca da superioridade dos barcos venetos bretões face aos romanos, e a que se ligará também certamente um conexão fenícia.
Toda a mitologia celta britânica, acabará por se fundar numa nacionalidade perdida, desde o tempo do Rei Artur, e de Avalon. As invasões dos Anglos, Saxões e Normandos, acabam por reduzir os bretões praticamente a servos, como é bem ilustrado no conto de Robin Hood. Isso não acontece apenas na Grã Bretanha, por todo o lado, a cultura "celta" permanecerá como um resquício pagão popular. Porém, não apenas pelo nome, a Britania, acabará por conseguir trazer lendas que se perderam noutros tempos e lugares.

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publicado às 21:57


3 comentários

De Sid a 18.12.2012 às 14:43

(Antes de terminar)
Já li por aqui que temos os Alelos mais antigos. Bom, não sei bem do que falo, mas sei que li.

De Alvor-Silves a 18.12.2012 às 16:31

Maria da Fonte... certamente que foi ela que escreveu. Infelizmente, já não vem aqui tantas vezes quanto antes, senão ela esclareceria melhor o assunto.
Aliás, sobre este assunto celta, ela também deixou aqui bastante informação... mas não sei bem de onde vinha a documentação em que ela se baseava.
É meio complicado escrever em causa própria, porque pode sempre afirmar-se que é um "excesso de nacionalismo". Por isso é que ter o pessoal de Oxford e os escoceses a concluir a sua proveniência hispânica é mais relevante do que ter os nacionais a dizê-lo.
A outra coisa engraçada é o RNA dos faraós... que também é "hispânico".
Leite de Vasconcelos dizia que a Península Ibérica não era um lugar de passagem, mas sim de destino.
Do ponto de vista estratégico, é difícil encontrar lugar mais adequado num qualquer mapa-mundi, é uma quase-ilha central entre a Ásia e América, e a sua única ligação a terra tem como defesa natural os Pirinéus. A península itálica seria o equivalente no Mediterrâneo, mas os Alpes não a rodeiam da mesma forma.
Objectivamente, quem quisesse estabelecer uma plataforma de controlo da Europa, América e África, escolheria a Ibéria.

De Sid a 19.12.2012 às 02:31

Acho que foi num comentário do Sr. José Manuel.

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