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O monte Oceano ou Siano

por desvela, em 28.04.11
Já abordámos aqui a figura de D. Fuas Roupinho, e retomamos o assunto da Nazaré.
Não será apenas pela questão do nível da água do mar formar a denominada Lagoa da Pederneira, mas também pela própria lenda da Nazaré, de que é mais conhecida a parte da caçada.

Manuel de Brito Alão, na Antiguidade da Sagrada Imagem de Nª. Srª. da Nazareth, em 1628, transmite uma sequência de acontecimentos que levaram à viagem do Sírio ou escultura em madeira de Nossa Senhora, da Nazaré na Galileia para a Nazaré portuguesa.

O relato de Brito Alão é de fácil leitura, e tem pormenores interessantes.
A história diz que antes da altura do rei Recaredo a imagem terá viajado para Hespanha pela mão de um monge grego de nome Syriaco, por razão de ameaça à veneração de imagens nessa época bizantina. Sendo uma imagem de madeira, a tradição leva a que tivesse sido esculpida pelo próprio São José (cf. wiki), ainda que Brito Alão não refira isso. A imagem teria ficado no Mosteiro de Cauliniana (ou Caloniana) perto de Mérida, e na altura da invasão árabe, diz Alão que o rei D. Rodrigo, juntamente com um monge (de nome Romano) teria levado um conjunto de relíquias para o litoral atlântico, mais concretamente, ao fim de 22 dias de viagem teriam chegado à Pederneira, Nazaré.
Levavam ainda consigo outras relíquias importantes, de São Bartolomeu e São Brás, que foram guardadas numa ermida no Monte de S. Bartolomeu, enquanto a imagem ficou escondida numa ermida no Sítio da Nazaré.
A escultura resistiu escondida durante a presença árabe, até que na altura da reconquista por D. Afonso Henriques, o almirante D. Fuas (por ocasião do milagre a que está associado) a veio a reencontrar, mandando construir uma capela. Esta capela foi depois transformada em santuário em 1377 por D. Fernando. 

Feita esta breve introdução, uma vez que a história, dita lenda, está documentada por texto encontrado por D. Fuas e deixado à Confraria da Nª. Srª. da Nazaré, passamos aos pormenores.

O monte de S. Bartolomeu é descrito por Brito Alão como sendo invulgar e notável, destacando-se no meio do areal circundante (agora uma extensa vegetação de pinhal). No entanto, de acordo com a wikipedia podemos ler que haveria uma outra toponímia antiga:
Monte Siano é designação nos relatos mais antigos. Será forma adjectiva de Sião, aparecendo na Bíblia monte de Sião ou Cidade de Sião como outra forma de nomear Jerusalém. A comunidade piscatória da Nazaré chama-lhe Monte Saião.
Brito Alão também fala dessa toponímia anterior, dizendo que o monte, antes de ser renomeado por acolher os restos de S. Bartolomeu, era denominado Monte Occeano.
Monte Oceano, depois Monte de S. Bartolomeu  (imagem)

Aparentemente as duas designações Oceano ou Siano são diferentes, mas são inegáveis as semelhanças fonéticas. Esta ligação explícita neste monte dá uma abrangência completamente diferente a uma eventual origem da palavra Sião por deturpação de Oceano.
Isto dá um significado ainda mais poético ao ler que "Sôbolos os rios da Babilónia", onde os escravos Ebreus choravam lembrando o Oceano, dito Siano, ou Sião... afinal reflexo ainda de cor azul, o Ciano (cor da bandeira de Israel). É claro que esta associação pode ser sempre vista como fortuita e frágil, mas não deixa de merecer menção de destaque no título.

Pederneira
O relato de Brito Alão fala de uma viagem de barco pela Lagoa da Pederneira, e encontrámos um registo interessante num blog sobre a Nazaré, que confirma a clara alteração da paisagem e do contorno marítimo, que nalgumas centenas de anos transformou um litoral recortado numa linha costeira quase contínua.
A vila da Pederneira é agora um bairro, no alto da Nazaré, sendo que a cidade é agora a povoação da praia se foi consolidando pelo recuo de águas, especialmente após o Séc. XVIII e XIX.
O nome não deixa de ser interessante, especialmente porque é associado a um pelourinho original, feito com um tronco de uma árvore fossilizada.
Pederneira - "pelourinho" na praça de Bastião Fernandes
(companheiro de Vasco da Gama), 
e vista sobre a actual Nazaré. (23/04/2011)

O nome Pederneira pode ser associado à pedra pederneira, um sílex que permite fazer fogo, e que teria por isso uma utilidade relevante em tempos remotos. Ao mesmo tempo, a povoação manteve uma ligação ancestral à pedra/tronco fossilizado, que mesmo em período cristão era colocada no cemitério local, até que o símbolo fálico ancestral foi substituir o pelourinho de D. Manuel, já no Séc. XX.
De qualquer forma, parece indiscutível que a vila da Pederneira têm uma história que se perde na noite e no esquecimento dos tempos... e lembramos aqui a referência de Brito Alão à Nossa Senhora da Memória, uma designação que assenta bem, dada a manifesta perda de memória colectiva.

Serra da Pescaria
Do outro lado do Rio Alcobaça encontra-se a chamada Serra da Pescaria(*), onde é possível encontrar em construções "modernas" a utilização de grandes pedras, sugerindo o seu aproveitamento popular de possíveis edificações muito anteriores. É difícil perceber o rasto antigo, quando têm por vezes aproveitamento caricato (ver o caso da caixa de correio no meio de megalitos), mas há uma quantidade assinalável de grandes paralelipípedos não formatados a construções modernas, talhados muito provavelmente há milénios...
 Megalitos antigos em construções "modernas" na Serra da Pescaria. (23/04/2011)

(*) Na mesma serra, junto à entrada do Rio Alcobaça, há também a antiga igreja visigótica de S. Gião, notando que o nome S. Gião foi por vezes transformado em S. Julião, como aconteceu em S. Julião da Barra.

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publicado às 07:37


O monte Oceano ou Siano

por desvela, em 27.04.11
Já abordámos aqui a figura de D. Fuas Roupinho, e retomamos o assunto da Nazaré.
Não será apenas pela questão do nível da água do mar formar a denominada Lagoa da Pederneira, mas também pela própria lenda da Nazaré, de que é mais conhecida a parte da caçada.

Manuel de Brito Alão, na Antiguidade da Sagrada Imagem de Nª. Srª. da Nazareth, em 1628, transmite uma sequência de acontecimentos que levaram à viagem do Sírio ou escultura em madeira de Nossa Senhora, da Nazaré na Galileia para a Nazaré portuguesa.

O relato de Brito Alão é de fácil leitura, e tem pormenores interessantes.
A história diz que antes da altura do rei Recaredo a imagem terá viajado para Hespanha pela mão de um monge grego de nome Syriaco, por razão de ameaça à veneração de imagens nessa época bizantina. Sendo uma imagem de madeira, a tradição leva a que tivesse sido esculpida pelo próprio São José (cf. wiki), ainda que Brito Alão não refira isso. A imagem teria ficado no Mosteiro de Cauliniana (ou Caloniana) perto de Mérida, e na altura da invasão árabe, diz Alão que o rei D. Rodrigo, juntamente com um monge (de nome Romano) teria levado um conjunto de relíquias para o litoral atlântico, mais concretamente, ao fim de 22 dias de viagem teriam chegado à Pederneira, Nazaré.
Levavam ainda consigo outras relíquias importantes, de São Bartolomeu e São Brás, que foram guardadas numa ermida no Monte de S. Bartolomeu, enquanto a imagem ficou escondida numa ermida no Sítio da Nazaré.
A escultura resistiu escondida durante a presença árabe, até que na altura da reconquista por D. Afonso Henriques, o almirante D. Fuas (por ocasião do milagre a que está associado) a veio a reencontrar, mandando construir uma capela. Esta capela foi depois transformada em santuário em 1377 por D. Fernando. 

Feita esta breve introdução, uma vez que a história, dita lenda, está documentada por texto encontrado por D. Fuas e deixado à Confraria da Nª. Srª. da Nazaré, passamos aos pormenores.

O monte de S. Bartolomeu é descrito por Brito Alão como sendo invulgar e notável, destacando-se no meio do areal circundante (agora uma extensa vegetação de pinhal). No entanto, de acordo com a wikipedia podemos ler que haveria uma outra toponímia antiga:
Monte Siano é designação nos relatos mais antigos. Será forma adjectiva de Sião, aparecendo na Bíblia monte de Sião ou Cidade de Sião como outra forma de nomear Jerusalém. A comunidade piscatória da Nazaré chama-lhe Monte Saião.
Brito Alão também fala dessa toponímia anterior, dizendo que o monte, antes de ser renomeado por acolher os restos de S. Bartolomeu, era denominado Monte Occeano.
Monte Oceano, depois Monte de S. Bartolomeu  (imagem)

Aparentemente as duas designações Oceano ou Siano são diferentes, mas são inegáveis as semelhanças fonéticas. Esta ligação explícita neste monte dá uma abrangência completamente diferente a uma eventual origem da palavra Sião por deturpação de Oceano.
Isto dá um significado ainda mais poético ao ler que "Sôbolos os rios da Babilónia", onde os escravos Ebreus choravam lembrando o Oceano, dito Siano, ou Sião... afinal reflexo ainda de cor azul, o Ciano (cor da bandeira de Israel). É claro que esta associação pode ser sempre vista como fortuita e frágil, mas não deixa de merecer menção de destaque no título.

Pederneira
O relato de Brito Alão fala de uma viagem de barco pela Lagoa da Pederneira, e encontrámos um registo interessante num blog sobre a Nazaré, que confirma a clara alteração da paisagem e do contorno marítimo, que nalgumas centenas de anos transformou um litoral recortado numa linha costeira quase contínua.
A vila da Pederneira é agora um bairro, no alto da Nazaré, sendo que a cidade é agora a povoação da praia se foi consolidando pelo recuo de águas, especialmente após o Séc. XVIII e XIX.
O nome não deixa de ser interessante, especialmente porque é associado a um pelourinho original, feito com um tronco de uma árvore fossilizada.
Pederneira - "pelourinho" na praça de Bastião Fernandes
(companheiro de Vasco da Gama), 
e vista sobre a actual Nazaré. (23/04/2011)

O nome Pederneira pode ser associado à pedra pederneira, um sílex que permite fazer fogo, e que teria por isso uma utilidade relevante em tempos remotos. Ao mesmo tempo, a povoação manteve uma ligação ancestral à pedra/tronco fossilizado, que mesmo em período cristão era colocada no cemitério local, até que o símbolo fálico ancestral foi substituir o pelourinho de D. Manuel, já no Séc. XX.
De qualquer forma, parece indiscutível que a vila da Pederneira têm uma história que se perde na noite e no esquecimento dos tempos... e lembramos aqui a referência de Brito Alão à Nossa Senhora da Memória, uma designação que assenta bem, dada a manifesta perda de memória colectiva.

Serra da Pescaria
Do outro lado do Rio Alcobaça encontra-se a chamada Serra da Pescaria(*), onde é possível encontrar em construções "modernas" a utilização de grandes pedras, sugerindo o seu aproveitamento popular de possíveis edificações muito anteriores. É difícil perceber o rasto antigo, quando têm por vezes aproveitamento caricato (ver o caso da caixa de correio no meio de megalitos), mas há uma quantidade assinalável de grandes paralelipípedos não formatados a construções modernas, talhados muito provavelmente há milénios...
 Megalitos antigos em construções "modernas" na Serra da Pescaria. (23/04/2011)

(*) Na mesma serra, junto à entrada do Rio Alcobaça, há também a antiga igreja visigótica de S. Gião, notando que o nome S. Gião foi por vezes transformado em S. Julião, como aconteceu em S. Julião da Barra.

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publicado às 23:37


São Vicente de Fora

por desvela, em 22.04.11
Os painéis de S. Vicente de Fora foram um dos primeiros temas que abordámos, há mais de um ano atrás.
Não vejo necessidade de grandes alterações ao que foi dito na altura... as correcções face à nova informação seriam entretanto pequenas e pontuais.
Talvez um dos aspectos a merecer alguma reflexão é ter D. Afonso Henriques empreendido uma viagem (em 1173) ao Cabo de S. Vicente, atendendo a que o Algarve estaria sob domínio mouro... S. Vicente estaria fora do território nacional. O historiador árabe Al-Idrisi salientava a presença de corvos no local da sua sepultura, designada igreja dos corvos: Kanīsah al-Ghurāb.

Para além da tradição acrescentar dois corvos, companheiros da embarcação que transportava os restos do santo, e que ficaram no símbolo de Lisboa... a tradição dizia ainda que nesse Promontório Sacro estariam os restos do Templo de Hércules. A conotação "sacro" perdia-se na memória até aos tempos de Hércules. Afonso Henriques define aí um novo ponto sagrado - as relíquias de S. Vicente. Esta substituição obliterou essa memória antiga, substituindo-a por uma outra, mais católica.

Somos depois levados ao templo de S. Vicente de Fora. Dizia a Ilustração Portuguesa de 1867:
Representamos hoje na nossa estampa o templo de "S. Vicente de Fóra", que foi erecto em tempo de El-Rei D. Sebastião, no local onde existia a ermida que memorara a primeira glória de Portugal: - queremos dizer, onde, na conquista de Lisboa, em tempo de El-Rei D. Afonso Henriques sagrando o terreno que serviu de cemitério aos soldados dedicados a Cristo, e ao levantamento de um novo reino, que tanto se há ilustrado na História.
 A estampa de S. Vicente de Fora, que se encontra no periódico, é a seguinte:
o que mostra que não houve propriamente grandes alterações face ao seu estado actual:
A estampa ilustrava o funeral de D. Pedro V, acontecimento particularmente sentido pela população.
Porém, se o relato da revista coincide com a história de D. Afonso Henriques e o cemitério dos Cruzados, já é muito menos concordante ao atribuir a construção ao reinado de D. Sebastião...
A afirmação é feita casualmente, como se fosse facto bem conhecido, não tendo em conta que a arquitectura não parece ser típica do Séc. XVI, sendo por isso hoje considerada a construção terminada 50 anos mais tarde, já no Séc. XVII, e sempre sob reinado filipino. Ter sido mausoléu da dinastia de Bragança talvez invocasse uma construção pela casa de Bragança no período de ocupação filipina.
Trata-se portanto de mais uma, das muitas obras executadas no reinado de D. Sebastião, rei que normalmente não é considerado pela sua faceta construtora.

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publicado às 07:33


São Vicente de Fora

por desvela, em 21.04.11
Os painéis de S. Vicente de Fora foram um dos primeiros temas que abordámos, há mais de um ano atrás.
Não vejo necessidade de grandes alterações ao que foi dito na altura... as correcções face à nova informação seriam entretanto pequenas e pontuais.
Talvez um dos aspectos a merecer alguma reflexão é ter D. Afonso Henriques empreendido uma viagem (em 1173) ao Cabo de S. Vicente, atendendo a que o Algarve estaria sob domínio mouro... S. Vicente estaria fora do território nacional. O historiador árabe Al-Idrisi salientava a presença de corvos no local da sua sepultura, designada igreja dos corvos: Kanīsah al-Ghurāb.

Para além da tradição acrescentar dois corvos, companheiros da embarcação que transportava os restos do santo, e que ficaram no símbolo de Lisboa... a tradição dizia ainda que nesse Promontório Sacro estariam os restos do Templo de Hércules. A conotação "sacro" perdia-se na memória até aos tempos de Hércules. Afonso Henriques define aí um novo ponto sagrado - as relíquias de S. Vicente. Esta substituição obliterou essa memória antiga, substituindo-a por uma outra, mais católica.

Somos depois levados ao templo de S. Vicente de Fora. Dizia a Ilustração Portuguesa de 1867:
Representamos hoje na nossa estampa o templo de "S. Vicente de Fóra", que foi erecto em tempo de El-Rei D. Sebastião, no local onde existia a ermida que memorara a primeira glória de Portugal: - queremos dizer, onde, na conquista de Lisboa, em tempo de El-Rei D. Afonso Henriques sagrando o terreno que serviu de cemitério aos soldados dedicados a Cristo, e ao levantamento de um novo reino, que tanto se há ilustrado na História.
 A estampa de S. Vicente de Fora, que se encontra no periódico, é a seguinte:
o que mostra que não houve propriamente grandes alterações face ao seu estado actual:
A estampa ilustrava o funeral de D. Pedro V, acontecimento particularmente sentido pela população.
Porém, se o relato da revista coincide com a história de D. Afonso Henriques e o cemitério dos Cruzados, já é muito menos concordante ao atribuir a construção ao reinado de D. Sebastião...
A afirmação é feita casualmente, como se fosse facto bem conhecido, não tendo em conta que a arquitectura não parece ser típica do Séc. XVI, sendo por isso hoje considerada a construção terminada 50 anos mais tarde, já no Séc. XVII, e sempre sob reinado filipino. Ter sido mausoléu da dinastia de Bragança talvez invocasse uma construção pela casa de Bragança no período de ocupação filipina.
Trata-se portanto de mais uma, das muitas obras executadas no reinado de D. Sebastião, rei que normalmente não é considerado pela sua faceta construtora.

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publicado às 23:33


Alemanha escandinava

por desvela, em 20.04.11
O Goticismo foi uma corrente escandinava que procurou recuperar o passado dos povos escandinavos, quase completamente ignorado. No final da Idade Média existiam registos das invasões vikings, mas era especialmente obscuro o passado anterior. Resistiu um relato bizantino de Jordanes, à época de Justiniano que relacionava os Godos à Escandinávia, nomeadamente reportando um rei mítico Berig que teria conduzido o seu povo para terras polacas. Seriam esses Godos, coligados com Romanos, que travariam o avanço Huno na Batalha dos Campos Catalaunicos, já em território Gaulês.

Um dos promotores da ligação entre os Godos e os Escandinavos foi Nicolaus Ragvaldi (arcebispo de Upsala) que no Concílio de Basileia em 1434 terá levantado uma pequena polémica relativamente aos lugares. Argumentaria que os lugares deveriam respeitar a prevalência dos bispos suecos, como legítimos descendentes dos Godos originais... ao que a delegação espanhola teria replicado que o valor estava nos Visigodos e Ostrogodos que tinham tido a iniciativa heróica de invadir o Império Romano.

Começa aqui a ligação dos Godos à Escandinávia e só posteriormente à Alemanha...
Ao contrário do que é normalmente considerado, os Romanos devem ter tido um controlo quase completo da Alemanha. É aliás claro que os Romanos não referenciam a península escandinava... e o seu mundo terminaria numa Germania de sentido lato. 
Se a fronteira germânica seria de alguma forma bem definida pelos Alpes no lado italiano, já não seria assim na parte gaulesa, onde só as florestas delimitariam alguma fronteira natural entre França e Alemanha... Tal como Adriano decidiu construir um muro para evitar os Pictos escoceses, e dada a suposta ameaça permanente, seria estranho se os Romanos não empreendessem um projecto dessa envergadura.

A revista alemã Der Spiegel publicou em 2008 o relato de achados romanos num campo de batalha 100 Km ao sul de Hanover. Para além de armamento, encontraram-se ainda moedas romanas.

Também há registos de moedas romanas na Dinamarca. Estes achados de moedas poderiam ser explicados por comércio, mas mais dificilmente se explica a larga penetração romana em território alemão, pelos artefactos de guerra. À luz da história oficial, após a vitória de Armínio (ou Ermínio, ou Hermann) sobre Varo na Batalha de Teutoburgo os Romanos nunca teriam conseguido ou até mesmo tentado passar o Reno. Estes artefactos vêm contar outra história...

A ausência de referência à Escandinávia e este avanço Romano, sugerem que a Germania poderia ter sido a Escandinávia. Isto parece estranho, mas também parece estranho o mapa de João de Lisboa que coloca uma Alemanha na posição da Escandinávia.
O nome Alemanha associado à Escandinávia (mapa de João de Lisboa)

Ou seja, quando os bispos suecos referiram no Concílio de Basileia essa ligação de Godos à Escandinávia, seguiam uma linha perdida na sua própria história.
A questão sueca e dinamarquesa será mais complicada do que a norueguesa. Se considerarmos um nível do mar ligeiramente superior, à época romana, uma boa parte norte da actual Alemanha estaria coberta por água, ou seria bastante pantanosa... e isso aconteceria igualmente com grande parte da Suécia, Finlândia e Dinamarca. Apenas a montanhosa Noruega deveria manter uma configuração semelhante. É aliás em Alta, na Noruega que é possível encontrar pinturas rupestres:
Pinturas rupestres em Alta, na Noruega

Parece plausível que os Romanos mantivessem um domínio sobre a maioria dos territórios da actual Alemanha, e o seu combate com os Godos poderia ser na Escandinávia, ou melhor, nos territórios dinamarqueses e alemães, que na altura seriam pantanosos ou formados por multiplas ilhas.

A migração para sul pode ter sido motivada por um decréscimo acentuado de temperatura...
Não nos devemos esquecer que todos os registos antigos apontam essencialmente para vestuários leves, em gregos e romanos, que dificilmente serviriam para suportar um inverno, mesmo mediterrânico. 

Houve um arrefecimento progressivo, que terá tornado inóspitas regiões mais a norte.
A migração escandinava acaba por ser bastante efectiva através das incursões vikings... e o apogeu dessa perturbação será a concessão da Normandia. É a partir da Normandia que Guilherme e Eustácio II vão liderar exércitos para conquistar a Inglaterra em Hastings.
Os reis normandos acabam por definir uma sua história em território europeu, com enorme influência nas dinastias inglesa e francesa, bem como em Nápoles e Sicília.

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publicado às 07:32


Alemanha escandinava

por desvela, em 19.04.11
O Goticismo foi uma corrente escandinava que procurou recuperar o passado dos povos escandinavos, quase completamente ignorado. No final da Idade Média existiam registos das invasões vikings, mas era especialmente obscuro o passado anterior. Resistiu um relato bizantino de Jordanes, à época de Justiniano que relacionava os Godos à Escandinávia, nomeadamente reportando um rei mítico Berig que teria conduzido o seu povo para terras polacas. Seriam esses Godos, coligados com Romanos, que travariam o avanço Huno na Batalha dos Campos Catalaunicos, já em território Gaulês.

Um dos promotores da ligação entre os Godos e os Escandinavos foi Nicolaus Ragvaldi (arcebispo de Upsala) que no Concílio de Basileia em 1434 terá levantado uma pequena polémica relativamente aos lugares. Argumentaria que os lugares deveriam respeitar a prevalência dos bispos suecos, como legítimos descendentes dos Godos originais... ao que a delegação espanhola teria replicado que o valor estava nos Visigodos e Ostrogodos que tinham tido a iniciativa heróica de invadir o Império Romano.

Começa aqui a ligação dos Godos à Escandinávia e só posteriormente à Alemanha...
Ao contrário do que é normalmente considerado, os Romanos devem ter tido um controlo quase completo da Alemanha. É aliás claro que os Romanos não referenciam a península escandinava... e o seu mundo terminaria numa Germania de sentido lato. 
Se a fronteira germânica seria de alguma forma bem definida pelos Alpes no lado italiano, já não seria assim na parte gaulesa, onde só as florestas delimitariam alguma fronteira natural entre França e Alemanha... Tal como Adriano decidiu construir um muro para evitar os Pictos escoceses, e dada a suposta ameaça permanente, seria estranho se os Romanos não empreendessem um projecto dessa envergadura.

A revista alemã Der Spiegel publicou em 2008 o relato de achados romanos num campo de batalha 100 Km ao sul de Hanover. Para além de armamento, encontraram-se ainda moedas romanas.

Também há registos de moedas romanas na Dinamarca. Estes achados de moedas poderiam ser explicados por comércio, mas mais dificilmente se explica a larga penetração romana em território alemão, pelos artefactos de guerra. À luz da história oficial, após a vitória de Armínio (ou Ermínio, ou Hermann) sobre Varo na Batalha de Teutoburgo os Romanos nunca teriam conseguido ou até mesmo tentado passar o Reno. Estes artefactos vêm contar outra história...

A ausência de referência à Escandinávia e este avanço Romano, sugerem que a Germania poderia ter sido a Escandinávia. Isto parece estranho, mas também parece estranho o mapa de João de Lisboa que coloca uma Alemanha na posição da Escandinávia.
O nome Alemanha associado à Escandinávia (mapa de João de Lisboa)

Ou seja, quando os bispos suecos referiram no Concílio de Basileia essa ligação de Godos à Escandinávia, seguiam uma linha perdida na sua própria história.
A questão sueca e dinamarquesa será mais complicada do que a norueguesa. Se considerarmos um nível do mar ligeiramente superior, à época romana, uma boa parte norte da actual Alemanha estaria coberta por água, ou seria bastante pantanosa... e isso aconteceria igualmente com grande parte da Suécia, Finlândia e Dinamarca. Apenas a montanhosa Noruega deveria manter uma configuração semelhante. É aliás em Alta, na Noruega que é possível encontrar pinturas rupestres:
Pinturas rupestres em Alta, na Noruega

Parece plausível que os Romanos mantivessem um domínio sobre a maioria dos territórios da actual Alemanha, e o seu combate com os Godos poderia ser na Escandinávia, ou melhor, nos territórios dinamarqueses e alemães, que na altura seriam pantanosos ou formados por multiplas ilhas.

A migração para sul pode ter sido motivada por um decréscimo acentuado de temperatura...
Não nos devemos esquecer que todos os registos antigos apontam essencialmente para vestuários leves, em gregos e romanos, que dificilmente serviriam para suportar um inverno, mesmo mediterrânico. 

Houve um arrefecimento progressivo, que terá tornado inóspitas regiões mais a norte.
A migração escandinava acaba por ser bastante efectiva através das incursões vikings... e o apogeu dessa perturbação será a concessão da Normandia. É a partir da Normandia que Guilherme e Eustácio II vão liderar exércitos para conquistar a Inglaterra em Hastings.
Os reis normandos acabam por definir uma sua história em território europeu, com enorme influência nas dinastias inglesa e francesa, bem como em Nápoles e Sicília.

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publicado às 23:32


Conde D.Henrique e as quinas

por desvela, em 17.04.11
Já aqui falámos sobre o Conde D. Henrique, a sua possível ascendência da casa de Bolonha, do Bulhão, e sobre as armas cujos bezantes lembrariam os das quinas. Isto resulta do relato de Damião de Góis, incluso despercebidamente na Crónica de D. Manuel.
Conde D. Henrique (na Epitome, de Faria e Sousa)

É claro que surgiram opiniões diversas, e Manuel Faria e Sousa (1590-1649), na Epitome de las Historias Portuguesas (escrita em espanhol e publicada em Bruxelas, 1677), diz o seguinte:
No se sabia, pues, de Enrique (como del Emperador Claudio Segundo) la patria, ni los padres, si bien le hazian sublime sus virtudes y sus hazañas , ascendencia mayor en todas edades, esplendor raro en qualquier Principe.
Faria e Sousa sintetiza como fabulosas as versões que o colocavam de Lorena (Bolonha, a versão de Damião de Góis), da Hungria ou Constantinopla, e sustém a tese de ser o quarto filho de Henrique, filho do primeiro duque de Borgonha, Roberto.

Muito posteriormente, em 1831, no ano seguinte à independência da Bélgica, a Academia de Ciências faz sair por António d'Almeida um exame das várias teses sobre o Conde D. Henrique. Em particular, é referida a hipótese de Damião de Góis, onde é considerado falso que:
-  o Conde D. Henrique seja segundo filho de Guilherme de Joinville, e por isso não pertenceria à casa dos duques de Lorena.
- pela parte materna seja descendente de D. Ramiro I, rei de Aragão - hipótese que Góis também sustinha.
- lhe tivesse sido dado o Condado de Astorga, ou ainda que tivesse vindo a Hespanha numa armada holandesa.

Basicamente a refutação sustenta que, sendo Guilherme de Joinville o filho mais novo de Eustácio II, então Henrique, o segundo filho de Guilherme, não estaria em condições de combater ao lado de Afonso VI de Leão contra o seu irmão Sancho, em 1072. Note-se ainda que Faria e Sousa coloca o casamento com D. Teresa em 1073. Como os filhos reconhecidos de Eustácio II (~1017-1087), com Ida de Lorena, foram nascidos entre 1056 (Eustácio III) e 1065 (Balduíno), um irmão mais novo colocaria de facto uma clara impossibilidade física.
Porém a questão é mais complicada... seguindo um link (enviado por Calisto) sobre a linhagem de Bolonha, encontramos um casamento prévio de Eustácio, com Goda, princesa de Inglaterra, em 1036, do qual não é suposto haver nenhum filho. Eustácio só teria filhos de Ida, ou possíveis ilegítimos...
Nesse mesmo link, citando um autor Murray (2000), somos levados à existência de um Guillaume, pela Genealogica comitum Boloniensium (séc. XIV), mas agora filho mais velho de Eustácio II. 
Curiosamente, a ordem seria: Guilherme, Godofredo, Balduíno, Eustácio III.
No link é colocada uma certa surpresa na existência deste Guillaume, mencionado por Damião de Góis. Acresce a suspeita de que não seria ilegítimo, pois Geoffrey, um outro bastardo de Eustácio II não é referido.
A participação de Eustácio II em Hastings, 1066 
(tapeçarias de Bayeux) [img]

A história de Damião de Góis faz sentido com uma ligeira alteração.
Do primeiro casamento, com Goda, Eustácio II poderia ter tido Guilherme. Depois, com Ida de Lorena, teria os restantes três. O sucesso dos filhos de Ida, Godofredo ao conquistar Jerusalém, e Balduíno, que se torna Rei de Jerusalém, deixam a posição de Guilherme frágil face aos restantes e em particular a Eustácio III, irmão dos outros dois. Seria assim, o irmão mais novo Eustácio III a herdar o condado de Bolonha - o único filho de Ida que deixaria descendência. 
Para contextualizar, há relatos de histórias que colocavam "Santa" Ida, e a gestação dos seus filhos, em paralelo com Santa Maria. O impacto da reconquista de Jerusalém era enorme, e mesmo um Guilherme filho de uma princesa inglesa (ou outra) apareceria diminuído face a Eustácio III, filho de Santa Ida. 

Este é um possível contexto explicativo para a tese de Damião de Góis, dando-lhe pelo menos o crédito de descobrir um Guilherme filho de Eustácio, entretanto apagado dos registos. No entanto, de acordo com as datas, há razão na crítica de António d'Almeida... um filho mais novo colocaria uma impossibilidade de datação.

Não deixamos de notar uma citação exagerada(?) que António d'Almeida faz sobre o túmulo do fundador da monarquia, com um letreiro de versos em latim, assinalado por Fr. António Brandão, que diria:
"... outro Alexandre jaz aqui, ou Júlio outro"
São ainda referidos os feitos do Conde D. Henrique numa jornada a Jerusalém, em 1103, de onde teria trazido importantes relíquias para Braga, dadas pelo (tio) rei Balduíno I.

Esta ligação a Jerusalém apareceu também referida em termos do brasão com os bezantes.
O nome bezante viria da moeda de ouro do Império Bizantino, que ficou colocado na heráldica de Bolonha, e também do duque da Cornualha (com 15 bezantes). Era uma característica de brasões de quem tinha participado nas Cruzadas.

Um link sobre a heráldica de Bolonha (também indicado por Calisto), mostra pormenores interessantes sobre a evolução dos bezantes no condado de Bolonha.
Primeiro, Eustácio II terá usado quatro bezantes, e o sucessor de Eustácio III já usava 6 bezantes, não parecendo por isso haver um limite, ou um valor fixo. O facto é mencionado como estranho nesse texto, e depois associado às cruzadas, ainda que sem justificação sobre o número.


Condado de Bolonha: 4 bezantes de Eustácio II, 
e 6 bezantes de Etienne du Blois [img]

No caso da monarquia portuguesa, conforme já referimos, houve também um acréscimo de 5 para 11, para que depois se fixasse em 5, na época de D. João II. Aí as quinas foram colocadas em orientação vertical, por uma questão de prestígio... como se algum prestígio tivesse sido recuperado.
A esse propósito, é interessante referir, que não escondendo a sua intenção de atingir Jerusalém, como objectivo final da empresa de Tanger, o infante D. Henrique usa como motto IDA.
A palavra IDA seria associada à "ida" a Jerusalém... mas por outro lado, é impossível ignorar que o nome de Ida estava também presente nos seus filhos, primeiros reis de Jerusalém. A verificar-se esta diferença de linhagem, o Infante D. Henrique talvez procurasse legitimar a linha de Guilherme, com uma nova conquista de Jerusalém. A atitude de D. João II parece indicar que no seu reinado o problema de legitimidade ancestral teria sido finalmente resolvido.

Quanto ao Condado de Bolonha, tal como no caso português, ele acabaria ainda por reduzir e fixar o número de bezantes em três, ao mesmo tempo que adoptava o cisne, associado à lenda do Cavaleiro do Cisne (Lohengrin... já mencionado aqui pela Maria da Fonte), bem ligada a Bolonha e Brabante.
  
Condado de Bolonha: número fixo de bezantes e o cisne [img]

A menção ao reino da Bélgica, fundado em 1830, está relacionada com a sua pretensa ligação ao senhorio do Bulhão, próximo de Bolonha, a que não será alheio o nome Balduíno, que os seus monarcas vieram a adoptar posteriormente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:16


Conde D.Henrique e as quinas

por desvela, em 16.04.11
Já aqui falámos sobre o Conde D. Henrique, a sua possível ascendência da casa de Bolonha, do Bulhão, e sobre as armas cujos bezantes lembrariam os das quinas. Isto resulta do relato de Damião de Góis, incluso despercebidamente na Crónica de D. Manuel.
Conde D. Henrique (na Epitome, de Faria e Sousa)

É claro que surgiram opiniões diversas, e Manuel Faria e Sousa (1590-1649), na Epitome de las Historias Portuguesas (escrita em espanhol e publicada em Bruxelas, 1677), diz o seguinte:
No se sabia, pues, de Enrique (como del Emperador Claudio Segundo) la patria, ni los padres, si bien le hazian sublime sus virtudes y sus hazañas , ascendencia mayor en todas edades, esplendor raro en qualquier Principe.
Faria e Sousa sintetiza como fabulosas as versões que o colocavam de Lorena (Bolonha, a versão de Damião de Góis), da Hungria ou Constantinopla, e sustém a tese de ser o quarto filho de Henrique, filho do primeiro duque de Borgonha, Roberto.

Muito posteriormente, em 1831, no ano seguinte à independência da Bélgica, a Academia de Ciências faz sair por António d'Almeida um exame das várias teses sobre o Conde D. Henrique. Em particular, é referida a hipótese de Damião de Góis, onde é considerado falso que:
-  o Conde D. Henrique seja segundo filho de Guilherme de Joinville, e por isso não pertenceria à casa dos duques de Lorena.
- pela parte materna seja descendente de D. Ramiro I, rei de Aragão - hipótese que Góis também sustinha.
- lhe tivesse sido dado o Condado de Astorga, ou ainda que tivesse vindo a Hespanha numa armada holandesa.

Basicamente a refutação sustenta que, sendo Guilherme de Joinville o filho mais novo de Eustácio II, então Henrique, o segundo filho de Guilherme, não estaria em condições de combater ao lado de Afonso VI de Leão contra o seu irmão Sancho, em 1072. Note-se ainda que Faria e Sousa coloca o casamento com D. Teresa em 1073. Como os filhos reconhecidos de Eustácio II (~1017-1087), com Ida de Lorena, foram nascidos entre 1056 (Eustácio III) e 1065 (Balduíno), um irmão mais novo colocaria de facto uma clara impossibilidade física.
Porém a questão é mais complicada... seguindo um link (enviado por Calisto) sobre a linhagem de Bolonha, encontramos um casamento prévio de Eustácio, com Goda, princesa de Inglaterra, em 1036, do qual não é suposto haver nenhum filho. Eustácio só teria filhos de Ida, ou possíveis ilegítimos...
Nesse mesmo link, citando um autor Murray (2000), somos levados à existência de um Guillaume, pela Genealogica comitum Boloniensium (séc. XIV), mas agora filho mais velho de Eustácio II. 
Curiosamente, a ordem seria: Guilherme, Godofredo, Balduíno, Eustácio III.
No link é colocada uma certa surpresa na existência deste Guillaume, mencionado por Damião de Góis. Acresce a suspeita de que não seria ilegítimo, pois Geoffrey, um outro bastardo de Eustácio II não é referido. 
A participação de Eustácio II em Hastings, 1066 (tapeçarias de Bayeux)

A história de Damião de Góis faz sentido com uma ligeira alteração.
Do primeiro casamento, com Goda, Eustácio II poderia ter tido Guilherme. Depois, com Ida de Lorena, teria os restantes três. O sucesso dos filhos de Ida, Godofredo ao conquistar Jerusalém, e Balduíno, que se torna Rei de Jerusalém, deixam a posição de Guilherme frágil face aos restantes e em particular a Eustácio III, irmão dos outros dois. Seria assim, o irmão mais novo Eustácio III a herdar o condado de Bolonha - o único filho de Ida que deixaria descendência. 
Para contextualizar, há relatos de histórias que colocavam "Santa" Ida, e a gestação dos seus filhos, em paralelo com Santa Maria. O impacto da reconquista de Jerusalém era enorme, e mesmo um Guilherme filho de uma princesa inglesa (ou outra) apareceria diminuído face a Eustácio III, filho de Santa Ida. 

Este é um possível contexto explicativo para a tese de Damião de Góis, dando-lhe pelo menos o crédito de descobrir um Guilherme filho de Eustácio, entretanto apagado dos registos. No entanto, de acordo com as datas, há razão na crítica de António d'Almeida... um filho mais novo colocaria uma impossibilidade de datação.

Não deixamos de notar uma citação exagerada(?) que António d'Almeida faz sobre o túmulo do fundador da monarquia, com um letreiro de versos em latim, assinalado por Fr. António Brandão, que diria:
"... outro Alexandre jaz aqui, ou Júlio outro"
São ainda referidos os feitos do Conde D. Henrique numa jornada a Jerusalém, em 1103, de onde teria trazido importantes relíquias para Braga, dadas pelo (tio) rei Balduíno I.

Esta ligação a Jerusalém apareceu também referida em termos do brasão com os bezantes.
O nome bezante viria da moeda de ouro do Império Bizantino, que ficou colocado na heráldica de Bolonha, e também do duque da Cornualha (com 15 bezantes). Era uma característica de brasões de quem tinha participado nas Cruzadas.

Um link sobre a heráldica de Bolonha (também indicado por Calisto), mostra pormenores interessantes sobre a evolução dos bezantes no condado de Bolonha.
Primeiro, Eustácio II terá usado quatro bezantes, e o sucessor de Eustácio III já usava 6 bezantes, não parecendo por isso haver um limite, ou um valor fixo. O facto é mencionado como estranho nesse texto, e depois associado às cruzadas, ainda que sem justificação sobre o número.
  
Condado de Bolonha: 4 bezantes de Eustácio II, e 6 bezantes de Etienne du Blois

No caso da monarquia portuguesa, conforme já referimos, houve também um acréscimo de 5 para 11, para que depois se fixasse em 5, na época de D. João II. Aí as quinas foram colocadas em orientação vertical, por uma questão de prestígio... como se algum prestígio tivesse sido recuperado.
A esse propósito, é interessante referir, que não escondendo a sua intenção de atingir Jerusalém, como objectivo final da empresa de Tanger, o infante D. Henrique usa como motto IDA.
A palavra IDA seria associada à "ida" a Jerusalém... mas por outro lado, é impossível ignorar que o nome de Ida estava também presente nos seus filhos, primeiros reis de Jerusalém. A verificar-se esta diferença de linhagem, o Infante D. Henrique talvez procurasse legitimar a linha de Guilherme, com uma nova conquista de Jerusalém. A atitude de D. João II parece indicar que no seu reinado o problema de legitimidade ancestral teria sido finalmente resolvido.

Quanto ao Condado de Bolonha, tal como no caso português, ele acabaria ainda por reduzir e fixar o número de bezantes em três, ao mesmo tempo que adoptava o cisne, associado à lenda do Cavaleiro do Cisne (Lohengrin... já mencionado aqui pela Maria da Fonte), bem ligada a Bolonha e Brabante.
  
Condado de Bolonha: número fixo de bezantes e o cisne

A menção ao reino da Bélgica, fundado em 1830, está relacionada com a sua pretensa ligação ao senhorio do Bulhão, próximo de Bolonha, a que não será alheio o nome Balduíno, que os seus monarcas vieram a adoptar posteriormente.

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publicado às 23:16


Hoje são campos onde foi Troya

por desvela, em 16.04.11
Na continuação da descrição da viagem de Filipe II, Lavanha fala de Salvaterra e Almeirim, dizendo:
De Salvaterra foi sua Majestade aos 9 a Almeirim, 2 léguas de Salvaterra, lugar onde os Reis de Portugal só iam passar os Invernos, e onde para sua habitação fundaram uns grandes paços com deleitosos jardins. E pela mesma causa edificaram nela casas os senhores e fidalgos que seguiam a Corte, com que se fez uma povoação em que toda a Corte se alojava; hoje são campos onde foi Troya, o mesmo fora dos Paços se senão repararam.
Lavanha alude a que seriam então campos onde antes fora Tróia, sem especificar a sua localização. Mas é curioso colocar aqui essa menção, a propósito de um possível abandono dos paços de Almeirim.
Antes disso falava de Setúbal, da seguinte forma
É uma das maiores e mais assinaladas vilas de Portugal, por causa do seu porto formado no rio Cadão, que ali entra no Oceano, e de uma língua de terra que o mar há estreitado.
O rio Cadão passará a Çadão e a Sado, sendo ao tempo dos romanos Calippo, o que dava a consistência à lenda de Ulisses e Calipso, filha de Gorgoris. 
Lavanha fala então da língua de terra, que hoje é Tróia, dizendo que seria essa chamada Cetobriga (de Ceto, peixe grande), associando o nome a "cidade de pescadores", invocando as ruínas com os tanques (que seriam para salgar os grandes peixes: atuns, corvinas), e outros edifícios de onde se tiravam estátuas, colunas, e inscrições, guardadas na casa do Duque de Aveiro. Continua, dizendo:
A estas ruínas chama o vulgo Troya, com que quer dar a entender que são da povoação que ali houve. A qual destruída (de que a causa se não sabe) se mudaram seus habitantes à outra banda do porto há mais de quinhentos anos, onde hoje está a vila do mesmo nome de nova Cetobriga, corrompido em Cetobra, e com maior corrupção Cetobala, e Setuval, como hoje se chama a Colónia de Cetobriga, e não povoação de Tubal.
Lavanha é suficientemente ambíguo. Apenas atribui a associação à população residente, e se levanta essa possível identificação de Tróias, acaba por dizer noutro sentido que Setúbal não estaria associada a Tubal.

 
Imagens das ruínas em Tróia (Setúbal) 

Convirá notar que será apenas após os descobrimentos que se torna evidente uma investigação histórica, com base em historiadores romanos, que procura levantar uma grandeza ibérica esquecida. Isso foi alvo de imediatas críticas, que levaram a uma anulação completa do assunto após o séc. XIX, associando este tema apenas a uma empresa propagandistica dos Habsburgos em Espanha, e assim ignorando as extensas fontes utilizadas e citadas, nomeadamente por Fr. Bernardo de Brito.

Houve talvez demasiado exagero pelo lado ibérico, o que levou a uma exagerada reacção com epicentro nos outros centros culturais europeus, especialmente franceses.
Uma associação que apareceria contraditória seria ligar a Tróia de Homero à Tróia de Setúbal.
Sendo considerado que Ulisses forma Lisboa no seu regresso da guerra de Tróia, esta cidade não estaria na Lusitania, nos domínios do Rei Gorgoris. Acresce que a península de Tróia não tem qualquer semelhança geográfica com a descrição da Tróia de Homero, embora o mesmo já não se possa dizer do outro lado, de Palmela à Serra da Arrábida (também dita Rábida).
Lavanha reporta a conquista de Palmela e Sesimbra (Cezimbra) por D. Afonso Henriques em 1165, por  resistência intermitente do rei mouro de Badajoz, e portanto muito depois da conquista de Alcácer do Sal em 1158 (cf. questão de Ourique).

O parque natural da Arrábida é uma zona razoavelmente pequena, mas com paisagens fascinantes, que encerram algumas estelas/inscrições à vista de todos, mas razoavelmente mal identificadas ou ignoradas. A zona deveria ser suficientemente rica em material arqueológico, mas não parece haver notícia de exploração sistemática com resultados significativos... o que se vem tornando habitual.


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publicado às 07:41


Hoje são campos onde foi Troya

por desvela, em 15.04.11
Na continuação da descrição da viagem de Filipe II, Lavanha fala de Salvaterra e Almeirim, dizendo:
De Salvaterra foi sua Majestade aos 9 a Almeirim, 2 léguas de Salvaterra, lugar onde os Reis de Portugal só iam passar os Invernos, e onde para sua habitação fundaram uns grandes paços com deleitosos jardins. E pela mesma causa edificaram nela casas os senhores e fidalgos que seguiam a Corte, com que se fez uma povoação em que toda a Corte se alojava; hoje são campos onde foi Troya, o mesmo fora dos Paços se senão repararam.
Lavanha alude a que seriam então campos onde antes fora Tróia, sem especificar a sua localização. Mas é curioso colocar aqui essa menção, a propósito de um possível abandono dos paços de Almeirim.
Antes disso falava de Setúbal, da seguinte forma
É uma das maiores e mais assinaladas vilas de Portugal, por causa do seu porto formado no rio Cadão, que ali entra no Oceano, e de uma língua de terra que o mar há estreitado.
O rio Cadão passará a Çadão e a Sado, sendo ao tempo dos romanos Calippo, o que dava a consistência à lenda de Ulisses e Calipso, filha de Gorgoris. 
Lavanha fala então da língua de terra, que hoje é Tróia, dizendo que seria essa chamada Cetobriga (de Ceto, peixe grande), associando o nome a "cidade de pescadores", invocando as ruínas com os tanques (que seriam para salgar os grandes peixes: atuns, corvinas), e outros edifícios de onde se tiravam estátuas, colunas, e inscrições, guardadas na casa do Duque de Aveiro. Continua, dizendo:
A estas ruínas chama o vulgo Troya, com que quer dar a entender que são da povoação que ali houve. A qual destruída (de que a causa se não sabe) se mudaram seus habitantes à outra banda do porto há mais de quinhentos anos, onde hoje está a vila do mesmo nome de nova Cetobriga, corrompido em Cetobra, e com maior corrupção Cetobala, e Setuval, como hoje se chama a Colónia de Cetobriga, e não povoação de Tubal.
Lavanha é suficientemente ambíguo. Apenas atribui a associação à população residente, e se levanta essa possível identificação de Tróias, acaba por dizer noutro sentido que Setúbal não estaria associada a Tubal.

 
Imagens das ruínas em Tróia (Setúbal) 

Convirá notar que será apenas após os descobrimentos que se torna evidente uma investigação histórica, com base em historiadores romanos, que procura levantar uma grandeza ibérica esquecida. Isso foi alvo de imediatas críticas, que levaram a uma anulação completa do assunto após o séc. XIX, associando este tema apenas a uma empresa propagandistica dos Habsburgos em Espanha, e assim ignorando as extensas fontes utilizadas e citadas, nomeadamente por Fr. Bernardo de Brito.

Houve talvez demasiado exagero pelo lado ibérico, o que levou a uma exagerada reacção com epicentro nos outros centros culturais europeus, especialmente franceses.
Uma associação que apareceria contraditória seria ligar a Tróia de Homero à Tróia de Setúbal.
Sendo considerado que Ulisses forma Lisboa no seu regresso da guerra de Tróia, esta cidade não estaria na Lusitania, nos domínios do Rei Gorgoris. Acresce que a península de Tróia não tem qualquer semelhança geográfica com a descrição da Tróia de Homero, embora o mesmo já não se possa dizer do outro lado, de Palmela à Serra da Arrábida (também dita Rábida).
Lavanha reporta a conquista de Palmela e Sesimbra (Cezimbra) por D. Afonso Henriques em 1165, por  resistência intermitente do rei mouro de Badajoz, e portanto muito depois da conquista de Alcácer do Sal em 1158 (cf. questão de Ourique).

O parque natural da Arrábida é uma zona razoavelmente pequena, mas com paisagens fascinantes, que encerram algumas estelas/inscrições à vista de todos, mas razoavelmente mal identificadas ou ignoradas. A zona deveria ser suficientemente rica em material arqueológico, mas não parece haver notícia de exploração sistemática com resultados significativos... o que se vem tornando habitual.


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