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Torres de Hércules

por desvela, em 31.07.11
As Colunas de Hércules foram um ponto marcante, colocado como referência na maioria dos textos da Antiguidade. O estatuto lendário de Hércules acabou por identificar essas colunas com os montes situados de um e outro lado do Estreito de Gibraltar, a saber o Monte Calpe em Gibraltar, e o Monte Abila (ou será Avila?) em Ceuta. Porém, os antigos escritores romanos consideraram a hipótese das colunas terem mesmo existido. A cidade de Cadiz (ou Gades) mantém o mito das colunas no seu brasão e a inscrição Plus Ultra:
 

Acontece que, para além destas colunas, podemos encontrar as Torres de Hércules...
Essas torres estiveram sinalizadas em mapas e textos até há bastante pouco tempo!
Encontramos isso ainda num mapa de 1715:
Mapa em detalhe (zonu.com)

E mesmo numa descrição marítima de 1812 vemos que restava uma Torre, que passava a chamar-se "Torregorda"... Ao contrário do que esperava, foi estranhamente difícil encontrar menção a essas torres, cito a este propósito um dos poucos textos que encontrei online:
En Cádiz existían dos torres llamadas de Hércules en 1550, una donde hoy está torregorda y la otra como doscientos pasos más cerca de la ciudad, ambas iguales de altura, dice Adolfo de Castro, la ultima de ellas posiblemente fue destruida cuando el saqueo de los ingleses, porque en el siglo XVII solo se habla de una torre.
Esta fue totalmente destruida en el terremoto acaecido el 1 de Noviembre de 1753[!! 1755]. Por otro lado, las dos columnas del non plus ultra del que habla los antiguos historiadores pudieron ser las dos torres que señalaban la entrada del Puerto de Cádiz, una en la punta de la isla de San Sebastián, donde hoy está el faro, y otra también altísima, e igual en el Cabo Candor. Servían para avisar con fuego nocturno la entrada y el peligro de los puertos.
Portanto, percebemos que havia duas torres em 1550 (o que se vê no mapa de 1715), e que uma delas foi destruída no terramoto de 1755 (o ano 1753 estará errado no texto). A acção desse terramoto estendeu-se até Cadiz, como vemos! Será aqui útil referir a expressão associada a esse terramoto:
Caiu o Carmo e a Trindade...
Muito do que havia para cair, caíu, e o que não caiu na altura, caiu depois, e já não se recompôs!
Como a segunda torre estava de pé, segundo texto publicado em 1812, mas depois desapareceu, consideramos a hipótese de actuação napoleónica...

Como seriam essas Torres?
Podemos ter uma razoável ideia neste site ou neste, pela ilustração num mapa de N. J. Visscher de 1660:
No canto superior direito desse mapa podemos ver (nas duas versões cores/preto-branco):
Ao contrário, num mapa semelhante constante da Universidade de Évora, encontramos o mapa com figuras recortadas! O que havia nessas figuras, que mereceu o recorte e a exclusão a olhos vindouros?

Uma das figuras que não está recortada, mas deixa algum mistério é a ponte de Segovia!
Também essa ponte de Segóvia já não existirá... deixamos aqui as imagens encontradas nos mapas referidos em cima:
Não sabemos se esta ponte caiu com o Carmo ou com a Trindade... há ainda outras duas construções nos outros cantos do mapa, que não conseguimos identificar.

Ainda sobre a questão de Torres de Hércules, já falámos sobre a Torre pentagonal de Coimbra...
... mas voltamos a acrescentar referências. Uma por António Francisco Barreto, outra de António Coelho Gasco, mas a mais enfática está na Revista Universal Lisbonense onde se começa por citar Almeida Garrett (D. Branca):
Alli o berço foi da lusa gloria; Creral-o hoje sepulcral moimento; D'essa gloria defunta
Ruínas tristes; Esbroardos pardieiros - oh, vergonha! São as torres...
 mas o autor do artigo continua, e cito:
(...) de mais longe vem o nefando empenho de apagar memórias do que fomos, arrasando os mais famosos monumentos de nossas glórias; julgamos por isso mais execráveis os antigos demolidores, que são os patriarcas d'essa abominável seita, cujo compromisso cifra todos os seus preceitos no único: "Aniquilar tudo o que recorde façanhas portuguezas".
e informa que o projecto do Marquês de Pombal para a destruição da Torre, ou segundo a versão politicamente correcta da nossa História - para construir o Observatório Astronómico, tinha sido entretanto abandonado... porque "não estava livre de abalos ocasionais pelo rolar dos carros nas calçadas, condição essencial que deve satisfazer todo o local destinado para observações". Depois, já no Séc. XX foi construído algo semelhante a um Observatório Astronómico de Coimbra, do outro lado do rio...
Digamos que se o Carmo caiu por mão de Neptuno, a Trindade deve ter caído por mão do Marquês e acólitos...
Fala-se ainda de que pelo menos a pedra com a inscrição "Quinaria turris Herculea fundata manu" deveria ter sido preservada!... Havia uma outra inscrição, que reportava a D. Sancho e ao ano (hispânico) de 1232, e deveria remeter para a construção da torre adicional... também essa parece ter desaparecido... coisas de invasões talvez! Se os culpados não podem ser internos, vêm os externos... e aqui os séculos de permanência árabe dificilmente podem ser vistos como motivo de destruição das nossas antiguidades, conforme podemos comprovar nos vários exemplos!

O artigo fala ainda do "arco da traição", e o arco do castelo, que tinha grossas portas chapeadas e cravadas de ferro, ambos teriam sido arrasados pela Câmara Municipal em 1836. Continuava por isso a reescrever-se a História, agora por mão do "mano Pedro", já que o "mano Miguel" tinha sido derrotado em 1834, e Maria II, filha de Pedro IV, era já rainha.
O autor do artigo, R. de Gusmão, termina assim:
Restos venerandos do alcaçar coimbrão, testemunha das nobres proezas de nossos maiores, poupe-vos a cólera dos homens d'hoje a aniquilação! O pó dos séculos, em que jazeis involtos, cegue os olhos incuriosos dos que ousarem desbaptizar-vos do sólo em que vos encravaram homens d'outras eras.
Se o brasão de Cádis mantém ainda a figura de Hércules, o problema identificado por Gaspar Barreiros - que ouvia tudo ser atribuído a Hércules, terá sido eliminado definitivamente pelo Marquês e sucessores que o compararam ao herói mítico, colocando-o em pedestal máximo lisboeta, acompanhado também por um leão. Não terão sido dois leões, talvez por modéstia... afinal tinha edificado alguma coisa sobre o destruído, mas não teria destruído tudo sozinho.
Não tem a maça nem a maçã de Hércules, por aí ficámos com o "anónimo" homem da maça e com "algo" ao lado, já que ninguém quererá ver Ládon. Cortados os braços, retiradas a maça e a maçã... o que resta do homem?

Desterrados das suas sepulturas, desonrados os feitos, nomeados outros heróis, desses fantasmas doutrora ainda não terá sido silenciado por completo o registo, e é certo que o peso dos assombros passados parece pesar agora como assombração.

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publicado às 23:57


Cavalaria e Cavalos Lusitanos

por desvela, em 29.07.11

Colocamos aqui uma importante contribuição de Calisto sobre a cavalaria e os cavalos lusitanos, recebida por email, na sequência da discussão sobre o Cavaleiro do Corvo.



--------------------- email de Calisto Barbuda ------------------------

Concordo sobre quem seriam os cavaleiros Lusitanos. 
A maior referência que encontrei estavam associados aos Coni, por outro lado a melhor zona de criação de cavalos é a Andaluzia incluindo o território a Sul de Portugal, é claro que esta questão é um pouco melindrosa, visto que há quem diga que, quem defende esta ideia é Iberista. O cavalo na Andaluzia famoso no séc XV a XVII, poderá ser descendente do de Portugal, e até concordo com as razões apontadas:
- Platão coloca na Andaluzia, mais concretamente na Bética a criação de cabras e carneiros.
- Do lado do Tejo Português temos planícies fabulosas para a criação de cavalos.
- Por outro lado (e em tempos mais recentes) repare-se que os reinos Árabes foram sendo empurrados para Sul e já não se podia escolher as terras entre o Tejo e Guadalquivir para continuar a selecionar e melhorar cavalos, já não havia Santarém (cf. [1]).
Posto isto, a faixa geográfica com que ficamos presumo que seja a dos Cónios.
"(...) Além destas referências ao modo de combater peculiar aos povos ibéricos e seus cavalos, que demonstram uma ininterrupta sequência milenária, existem outras que o designam como único. São elas as descrições do emprego de cavaleiros ibéricos na Itália ou Norte da África em que se diz que aqueles tinham que levar seus cavalos e quando era impossível o seu transporte, tinham pelo menos que levar os seus arreios, demonstrando assim que lhes eram peculiares e únicos." (cf. [2])
Uma coisa curiosa é o seguinte detalhe, os cavaleiros Ibéricos eram conhecidos com 'frenati', conduzidos com um freio (cf. [2]), ou seja o freio em vez do bridão (utilizados por todos os outros povos, salvo o erro) permite uma condução com uma só mão (poderia lhe dar o exemplo das touradas, mas infelizmente hoje já não há ninguém que utilize uma só mão para conduzir o seu cavalo perante qualquer situação), e para completar deixo-lhe um texto que encontrei na internet: 
"Em nenhum outro local existem evidências da existência de cavalos montados há tanto tempo. Embora noutras paragens, como na Grécia ou no Egipto, também já se utilizasse o cavalo na guerra, essa utilização era sempre feita como animal de tiro, puxando os carros de combate. Isto permite-nos colocar a hipótese da origem ibérica da própria equitação. A confirmar-se, o cavalo Peninsular seria, então, o primeiro cavalo de sela conhecido.
Os cavaleiros ibéricos evoluíam nos campos de batalha de uma forma característica. Tirando enorme partido da obediência e agilidade das suas montadas, movimentavam-se com rápidas transições e bruscas mudanças de direcção, o que dificultava em muito as manobras dos seus inimigos. Esta equitação peculiar, foi dada a conhecer ao mundo pelos Cynetes, quando esta tribo do sudoeste da Península combateu na Grécia contra os Atenienses, auxiliando a vitória dos Espartanos na guerra do Peloponeso (séc. IV a.C.). Tal facto justifica a origem do termo “gineta”, ainda hoje utilizado para classificar esta forma de montar.
Seleccionado, durante séculos, como suporte de uma técnica específica de combater, o cavalo Peninsular vai surpreendendo, pelas suas invulgares capacidades, todos os que contra ele se batem. É o caso de Romanos e Mouros, que o vieram encontrar na Península e prontamente reconheceram as suas inegáveis qualidades." (cf. [3])
Rapidamente se percebe que os ataques de cavalaria, na minha opinião, seriam quase actos "individuais", e não através de uma estrutura de combate sólida e coesa.
E isto tem uma ligação curiosa com a Guerra de Tróia, uma vez que a estrutura militar muda depois da dita guerra.

Sobre o cavalo Ibérico eu sabia alguma coisa, tal como sobre equitação do séc XVIII/XIX (nomeadamente Francesa), mas sobre a cavalaria na Antiguidade é que não sabia quase nada.
Antes da idade do Bronze o papel da cavalaria era essencialmente desempenhado por carros ligeiros puxados por cavalos.

Quando os Persas foram derrotados por Alexandre o Grande, o carro de combate puxado por cavalos já era obsoleto, no entanto continuaram a ser usados, por exemplo, pelos povos do sul da Grã-Bretanha quando da Invasão Romana comandada por Júlio César (55,54 a.C.), por essa altura, os carros já eram usados praticamente em cerimónias ou em corridas.
Xenofonte (430-355 a.c.) escreveu o mais antigo tratado conhecido de equitação ( há um mais antigo escrito por Simão/Simião, mas não se conhece o seu conteúdo), é interessante encontrar lá coisas que ainda hoje em dia fazemos, no entanto a ideia com que fiquei foi que ele preconizava uma cavalaria montada e não atrelada, uma força de cavalaria pequena mas bem treinada.
Xenofonte

O que de seguida transcrevo já não me lembro qual foi a fonte:
"Para os gregos montar a cavalo é um hábito que vem depois do cavalo atrelado. Mesmo com Homero as passagens são mal interpretadas pois todo o tom da poesia épica prova que a condução era a prática comum. Os heróis combatem em carros de combate, a maior parte do exército a pé, mesmo em viagens sobre montanhas eram feitas com carros de cavalos" 
Esta questão da viagens é curiosa, é que para a deslocação com carros de cavalos a rede viária Grega deveria rivalizar com a Romana.
Continuando: 
"Não se sabe quando, mas ao longo dos séculos houve uma mudança. Facto: jogos Olímpicos (776 a.C) em que originalmente a única prova era corrida de carros, só na 33º Olimpíada (648 a.C) aparece corrida de cavalos.
Em batalha o carro de cavalos desaparece antes das guerras persas (499-448 a.C), mas o seu lugar não foi preenchido até depois delas. Na guerra de maratona (guerra greco-persa 490 a.C) os atenienses não tinham cavalaria. Havia criação de cavalos provavelmente para corridas. Sem duvida foi o contacto com a cavalaria persa que levou à organização de um corpo de cavalaria ateniense. Os gregos nunca conseguiram a revolução na arte militar que deu à cavalaria um papel decisivo. Isto estava reservado para os Macedónios."
Um aparte, talvez para perceber a influência Persa é que Xenofonte em 401 alistou-se no exército de Ciro irmão de Artaxerxes II na luta contra este, juntou-se depois aos espartanos e lutou contra Atenas e Tebas na batalha de Coronea 394 a.C.
Continuando: 
"A cavalaria Grega era usada para assediar um exército em marcha ou completar uma vitória já garantida. Só os ricos serviam na cavalaria. O solo e morfologia grega não se adptavam/adaptam à criação de cavalos ao contrário dos tessalianos. Já eram reconhecidos desde os primeiros tempos, mas para o carro e não para cavaleiro. Encontram-se raças descritas nas éguas do rei Diomedes (trabalhos hercules), que comiam carne humana, os cavalos de Rhesus (rei tarcio que combateu ao lado dos troianos), Aquiles e Orestes nas corridas descritas por Sophocles “Electra”- finalmente da mitologia para a história, Bucephalo de Alexandre. Outras raças eram Argive, Acarnanian, Arcadian, e Epidaurian."
Sobre a Peninsula Ibérica nunca encontrei nada sobre carros de cavalos, tudo o que encontrei referia-se a cavalos montados, e isto deixa-me baralhado...
Da outra vez eu referi que foram levados cavaleiros Ibéricos por Dionísio tirano de Siracusa nas guerras do Peloponeso (369 a.C.), a forma de combater e montar em nada era semelhante à forma Grega de então. Também referi que : 
"(...) cavaleiros ibéricos na Itália ou Norte da África em que se diz que aqueles tinham que levar seus cavalos e quando era impossível o seu transporte, tinham pelo menos que levar os seus arreios, demonstrando assim que lhes eram peculiares e únicos."  (cf. [2]) 
ou seja teríamos mais uma vez a vantagem tecnológica do nosso lado.

Disse também (desta vez um pouco mais completo) que:
"(...) outros narram muitos combates singulares de cavaleiros íberos com Cartagineses e Romanos por onde se infere não só a superioridade ibérica neste género de combates, como ainda que ele era um apanágio ibérico. O mesmo se pode verificar mais tarde das crónicas moiras do século XI, de Abu Bakr al Tartusi, autor de Sirg al Muluk, em que cita um combate de um cristão com moiros das hostes de Al Nansur Ibn Amin, em que o Cristão venceu sucessivamente três adversários antes de ser vencido. No final, frisa-se que o vencedor era um homem da fronteira, habituado às lutas com Cristãos e diz-se que como aquele guerreiro nas hostes árabes não havia ‘- nem mil, nem quinhentos, nem cem, nem cinquenta, nem vinte, nem dez’."  (cf.[2]) 
por aqui consegue-se visualizar como seria a forma de combater Ibérica (apesar de se referir ao séc XI presumo que podemos transportar o mesmo para os anteriores).

Continuando com os Gregos: 
"Alguns séculos depois da guerra de Tróia, os tempos mudaram na Hélade e muitos costumes locais foram substituídos. Os gregos já não podiam mais viver sob aquele tipo de sociedade, na qual monarcas mandavam com poderes irrestritos, e isso demandava alterações radicais. Contudo, vale lembrar que Ílion não foi o único reino destruído naquela época. Segundo o historiador Robert Drews, da Universidade de Vanderbilt (Estados Unidos), inúmeros palácios caíram naquele período, causando o fim da Idade do Bronze. Tebas, Micenas, Tirinto e Canaã tiveram o mesmo destino da cidade de Príamo. 
Um dos motivos foi a mudança na estrutura militar. No caso da Hélade, os gregos abriram mão das eficientes cavalarias e, com isso, desenvolveram um novo tipo de estratégia bélica para fortalecer as infantarias. O problema é que, até então, os carros de guerra eram as armas mais eficazes de combate: um condutor bem treinado guiava a biga enquanto "passageiros" atiravam lanças e flechas nos inimigos. Os novos exércitos foram obrigados a encontrar formas de combater essas máquinas militares de forma mais eficiente. 
Com isso, as batalhas envolvendo cavalarias e bigas foram substituídas por pelejas entre homens a pé, os cidadãos-soldados: pessoas que passavam a fazer parte da sociedade de forma mais incisiva e, além disso, vivenciavam a rotina do exército e da polis. 
Assim, os clãs foram extintos, para que todos os homens fossem agrupados em uma mesma cidade, onde poderiam treinar em conjunto por mais tempo para se preparar melhor para a guerra. Isso fez que não tivessem apenas relações familiares, mas sim com os pares, criando um sentimento de cidadania colectiva. Era uma forma de despertar conceitos cívicos nas pessoas. Além disso, os heróis também se transformaram em figuras ultrapassadas. Não havia mais espaço para guerreiros como Aquiles e Heitor, que deixavam os companheiros para trás a fim de ir de encontro ao adversário para obter glórias individuais. Tudo passa a girar em torno da sobrevivência da cidade: os soldados deveriam permanecer unidos no campo de batalha para minimizar os riscos de derrota e, desta forma, resguardar a polis.  
O herói homérico, o bom condutor de carros, podia ainda sobreviver na pessoa do hippeis; já não tem muita coisa em comum com o hoplita, esse soldado-cidadão. O que contava no primeiro era a façanha individual, a proeza feita em combate singular", explica o helenista Jean-Pierre Vernant em seu clássico As origens do pensamento grego. "Mas o hoplita não conhece o combate singular; deve recusar, se lhe oferecer, a tentação de uma proeza puramente individual. É o homem da batalha de braço a braço, da luta ombro a ombro. Foi treinado em manter a posição, marchar em ordem, lançar-se com passos iguais contra o inimigo, cuidar, no meio da peleja, de não deixar sem posto. 
Nesse novo conceito de exército, as infantarias dependiam muito da força do conjunto e da unidade, portanto, todos os homens deveriam se unir como um só bloco para vencer as batalhas. Surgem aí as temíveis falanges, em que os guerreiros passavam a vida toda treinando para desenvolver uma "dependência" de um para com o outro. Deste modo, os generais formavam unidades de combate sólidas e coesas - como ocorreu com a eficiente infantaria de Esparta, que de tão competente foi apelidada de "usina de cadáveres" durante a Segunda Guerra Médica.  
Com a mudança, os monarcas também perderam seu espaço, afinal, os homens já viviam em conjunto para o bem comum da polis, então, sentiam-se capazes de decidir os rumos políticos da cidade-estado. O cidadão passa a se confundir com o soldado, pois a partir do momento em que ganha direitos, também assume seus deveres com a defesa da pátria. Os reis espartanos foram reduzidos a meros generais, sem desempenhar funções administrativas, mas apenas militares. Em seu lugar, quem passou a tomar as decisões políticas foram os conselhos criados pelo legislador Licurgo, que na verdade são os primeiros focos de instituições democráticas no Mundo Antigo. 
O período da grande batalha de Tróia e das memoráveis aretéias entre heróis lendários chegava ao fim porque os homens, treinados para ficar unidos nas guerras, passaram a querer lutar juntos para decidir os rumos da comunidade, de forma coletiva. Caem os reis e, no lugar, ergue-se a imponente democracia."A formação do exército no período clássico carrega elementos das relações sociais, tanto no caso dos espartanos como dos atenienses", explica Álvaro Allegrette, da PUC. "Com as mudanças sociais, as pessoas passaram a viver em comunidade e, assim, as relações entre os cidadãos fica mais evidente." 
A polis, explica Werner Jaeger, representa um princípio novo para os helenos, com reflexos importantes para a vida nas cidades, e surge também a definição de Estado, criado em Esparta: essa instituição pública representa, pela primeira vez, o agente educador do povo. 
Hesíodo, outro poeta grego da Antiguidade, dizia que o heroísmo não surge apenas nos combates. Segundo ele, em O Trabalho e os Dias, o verdadeiro herói mítico e exemplar é forjado em qualquer situação nas quais a disciplina é necessária para enaltecer as qualidades humanas. Um desses momentos era o acto de erguer-se na ágora e, dotado de um senso cidadão apurado, incitar o povo a votar por mudanças importantes para a vida colectiva. Isso reforça a idéia de que era fundamental aprimorar a erudição do povo. A educação seria, portanto, uma forma de obter mais condições de tomar decisões coletivas corretas. Surgem, assim, os políticos (a própria palavra deriva de polis)." 
(ver referência [4])
A cavalaria (penso eu) é boa para partir formações de infantaria (coisa que os cavaleiros Ibéricos eram exímios), a nova estrutura militar Grega parece uma forma de combater a cavalaria, digo eu...
Continuando: 
"a Tessália era, amplamente, conhecida por produzir exímios cavaleiros e experiências posteriores em guerras, tanto com como contra o Império Persa ensinaram aos Gregos o elevado valor da cavalaria em ações de perseguição e em escaramuças.
Em contrapartida, a Macedónia, ao norte, desenvolveu uma forte cavalaria pesada que culminou nos hetaroi (cavalaria dos Companheiros) de Filipe II e de Alexandre o Grande. Além desta cavalaria pesada, o exército de armas combinadas macedónio também empregou soldados de cavalaria ligeira, chamados "prodromoi, em missões de exploração e de cobertura. Foram também empregues os ippiko, soldados de cavalaria média, armados com lança e espada, protegidos com uma couraça de pele, cota de malha e chapéu, usados como exploradores e caçadores a cavalo. Esta cavalaria era usada em conjunto com a infantaria ligeira e a famosa falange macedónica. A eficiência do sistema de armas combinadas foi demonstrado nas conquistas asiáticas de Alexandre o Grande."  (cf. [5])
Sobre esta cavalaria média, armados com lança e espada, fez-me lembrar a lança contrapesada dos Ibéros. Encontra um texto interessante aqui: 
O Eng.Fernando Sommer de Andrade e o Cavalo Lusitano (pitamarissa.wordpress.com)
A maioria (se não toda) da informação sobre o cavalo Ibérico encontra com Sommer d'Andrade.

Posto isto continuo sem perceber o que levou a cavalaria Ibérica evoluir da forma que evoluiu, talvez a equitação tenha começado aqui na Península.

Referências:
[1] Arsénio Raposo Cordeiro: Cavalo Lusitano. O filho do vento. Edições INAPA, 1989.
[2] Fernando D'Andrade: O cavalo Lusitano. Lisboa, 10 Março 1986.
[3] http://www.lusitanos.org/pdf.pdf
[4] http://www.revistafilosofia.com.br/ESLH/Edicoes/17/imprime125438.asp
[5] http://dicionario.sensagent.com/cavalaria/pt-pt/#Gr.C3.A9cia_antiga_e_Maced.C3.B3nia

Puro Sangue Lusitano

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publicado às 07:11


Cavalaria e Cavalos Lusitanos

por desvela, em 28.07.11

Colocamos aqui uma importante contribuição de Calisto sobre a cavalaria e os cavalos lusitanos, recebida por email, na sequência da discussão sobre o Cavaleiro do Corvo.



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Concordo sobre quem seriam os cavaleiros Lusitanos. 
A maior referência que encontrei estavam associados aos Coni, por outro lado a melhor zona de criação de cavalos é a Andaluzia incluindo o território a Sul de Portugal, é claro que esta questão é um pouco melindrosa, visto que há quem diga que, quem defende esta ideia é Iberista. O cavalo na Andaluzia famoso no séc XV a XVII, poderá ser descendente do de Portugal, e até concordo com as razões apontadas:
- Platão coloca na Andaluzia, mais concretamente na Bética a criação de cabras e carneiros.
- Do lado do Tejo Português temos planícies fabulosas para a criação de cavalos.
- Por outro lado (e em tempos mais recentes) repare-se que os reinos Árabes foram sendo empurrados para Sul e já não se podia escolher as terras entre o Tejo e Guadalquivir para continuar a selecionar e melhorar cavalos, já não havia Santarém (cf. [1]).
Posto isto, a faixa geográfica com que ficamos presumo que seja a dos Cónios.
"(...) Além destas referências ao modo de combater peculiar aos povos ibéricos e seus cavalos, que demonstram uma ininterrupta sequência milenária, existem outras que o designam como único. São elas as descrições do emprego de cavaleiros ibéricos na Itália ou Norte da África em que se diz que aqueles tinham que levar seus cavalos e quando era impossível o seu transporte, tinham pelo menos que levar os seus arreios, demonstrando assim que lhes eram peculiares e únicos." (cf. [2])
Uma coisa curiosa é o seguinte detalhe, os cavaleiros Ibéricos eram conhecidos com 'frenati', conduzidos com um freio (cf. [2]), ou seja o freio em vez do bridão (utilizados por todos os outros povos, salvo o erro) permite uma condução com uma só mão (poderia lhe dar o exemplo das touradas, mas infelizmente hoje já não há ninguém que utilize uma só mão para conduzir o seu cavalo perante qualquer situação), e para completar deixo-lhe um texto que encontrei na internet: 
"Em nenhum outro local existem evidências da existência de cavalos montados há tanto tempo. Embora noutras paragens, como na Grécia ou no Egipto, também já se utilizasse o cavalo na guerra, essa utilização era sempre feita como animal de tiro, puxando os carros de combate. Isto permite-nos colocar a hipótese da origem ibérica da própria equitação. A confirmar-se, o cavalo Peninsular seria, então, o primeiro cavalo de sela conhecido.
Os cavaleiros ibéricos evoluíam nos campos de batalha de uma forma característica. Tirando enorme partido da obediência e agilidade das suas montadas, movimentavam-se com rápidas transições e bruscas mudanças de direcção, o que dificultava em muito as manobras dos seus inimigos. Esta equitação peculiar, foi dada a conhecer ao mundo pelos Cynetes, quando esta tribo do sudoeste da Península combateu na Grécia contra os Atenienses, auxiliando a vitória dos Espartanos na guerra do Peloponeso (séc. IV a.C.). Tal facto justifica a origem do termo “gineta”, ainda hoje utilizado para classificar esta forma de montar.
Seleccionado, durante séculos, como suporte de uma técnica específica de combater, o cavalo Peninsular vai surpreendendo, pelas suas invulgares capacidades, todos os que contra ele se batem. É o caso de Romanos e Mouros, que o vieram encontrar na Península e prontamente reconheceram as suas inegáveis qualidades." (cf. [3])
Rapidamente se percebe que os ataques de cavalaria, na minha opinião, seriam quase actos "individuais", e não através de uma estrutura de combate sólida e coesa.
E isto tem uma ligação curiosa com a Guerra de Tróia, uma vez que a estrutura militar muda depois da dita guerra.

Sobre o cavalo Ibérico eu sabia alguma coisa, tal como sobre equitação do séc XVIII/XIX (nomeadamente Francesa), mas sobre a cavalaria na Antiguidade é que não sabia quase nada.
Antes da idade do Bronze o papel da cavalaria era essencialmente desempenhado por carros ligeiros puxados por cavalos.

Quando os Persas foram derrotados por Alexandre o Grande, o carro de combate puxado por cavalos já era obsoleto, no entanto continuaram a ser usados, por exemplo, pelos povos do sul da Grã-Bretanha quando da Invasão Romana comandada por Júlio César (55,54 a.C.), por essa altura, os carros já eram usados praticamente em cerimónias ou em corridas.
Xenofonte (430-355 a.c.) escreveu o mais antigo tratado conhecido de equitação ( há um mais antigo escrito por Simão/Simião, mas não se conhece o seu conteúdo), é interessante encontrar lá coisas que ainda hoje em dia fazemos, no entanto a ideia com que fiquei foi que ele preconizava uma cavalaria montada e não atrelada, uma força de cavalaria pequena mas bem treinada.
Xenofonte

O que de seguida transcrevo já não me lembro qual foi a fonte:
"Para os gregos montar a cavalo é um hábito que vem depois do cavalo atrelado. Mesmo com Homero as passagens são mal interpretadas pois todo o tom da poesia épica prova que a condução era a prática comum. Os heróis combatem em carros de combate, a maior parte do exército a pé, mesmo em viagens sobre montanhas eram feitas com carros de cavalos" 
Esta questão da viagens é curiosa, é que para a deslocação com carros de cavalos a rede viária Grega deveria rivalizar com a Romana.
Continuando: 
"Não se sabe quando, mas ao longo dos séculos houve uma mudança. Facto: jogos Olímpicos (776 a.C) em que originalmente a única prova era corrida de carros, só na 33º Olimpíada (648 a.C) aparece corrida de cavalos.
Em batalha o carro de cavalos desaparece antes das guerras persas (499-448 a.C), mas o seu lugar não foi preenchido até depois delas. Na guerra de maratona (guerra greco-persa 490 a.C) os atenienses não tinham cavalaria. Havia criação de cavalos provavelmente para corridas. Sem duvida foi o contacto com a cavalaria persa que levou à organização de um corpo de cavalaria ateniense. Os gregos nunca conseguiram a revolução na arte militar que deu à cavalaria um papel decisivo. Isto estava reservado para os Macedónios."
Um aparte, talvez para perceber a influência Persa é que Xenofonte em 401 alistou-se no exército de Ciro irmão de Artaxerxes II na luta contra este, juntou-se depois aos espartanos e lutou contra Atenas e Tebas na batalha de Coronea 394 a.C.
Continuando: 
"A cavalaria Grega era usada para assediar um exército em marcha ou completar uma vitória já garantida. Só os ricos serviam na cavalaria. O solo e morfologia grega não se adptavam/adaptam à criação de cavalos ao contrário dos tessalianos. Já eram reconhecidos desde os primeiros tempos, mas para o carro e não para cavaleiro. Encontram-se raças descritas nas éguas do rei Diomedes (trabalhos hercules), que comiam carne humana, os cavalos de Rhesus (rei tarcio que combateu ao lado dos troianos), Aquiles e Orestes nas corridas descritas por Sophocles “Electra”- finalmente da mitologia para a história, Bucephalo de Alexandre. Outras raças eram Argive, Acarnanian, Arcadian, e Epidaurian."
Sobre a Peninsula Ibérica nunca encontrei nada sobre carros de cavalos, tudo o que encontrei referia-se a cavalos montados, e isto deixa-me baralhado...
Da outra vez eu referi que foram levados cavaleiros Ibéricos por Dionísio tirano de Siracusa nas guerras do Peloponeso (369 a.C.), a forma de combater e montar em nada era semelhante à forma Grega de então. Também referi que : 
"(...) cavaleiros ibéricos na Itália ou Norte da África em que se diz que aqueles tinham que levar seus cavalos e quando era impossível o seu transporte, tinham pelo menos que levar os seus arreios, demonstrando assim que lhes eram peculiares e únicos."  (cf. [2]) 
ou seja teríamos mais uma vez a vantagem tecnológica do nosso lado.

Disse também (desta vez um pouco mais completo) que:
"(...) outros narram muitos combates singulares de cavaleiros íberos com Cartagineses e Romanos por onde se infere não só a superioridade ibérica neste género de combates, como ainda que ele era um apanágio ibérico. O mesmo se pode verificar mais tarde das crónicas moiras do século XI, de Abu Bakr al Tartusi, autor de Sirg al Muluk, em que cita um combate de um cristão com moiros das hostes de Al Nansur Ibn Amin, em que o Cristão venceu sucessivamente três adversários antes de ser vencido. No final, frisa-se que o vencedor era um homem da fronteira, habituado às lutas com Cristãos e diz-se que como aquele guerreiro nas hostes árabes não havia ‘- nem mil, nem quinhentos, nem cem, nem cinquenta, nem vinte, nem dez’."  (cf.[2]) 
por aqui consegue-se visualizar como seria a forma de combater Ibérica (apesar de se referir ao séc XI presumo que podemos transportar o mesmo para os anteriores).

Continuando com os Gregos: 
"Alguns séculos depois da guerra de Tróia, os tempos mudaram na Hélade e muitos costumes locais foram substituídos. Os gregos já não podiam mais viver sob aquele tipo de sociedade, na qual monarcas mandavam com poderes irrestritos, e isso demandava alterações radicais. Contudo, vale lembrar que Ílion não foi o único reino destruído naquela época. Segundo o historiador Robert Drews, da Universidade de Vanderbilt (Estados Unidos), inúmeros palácios caíram naquele período, causando o fim da Idade do Bronze. Tebas, Micenas, Tirinto e Canaã tiveram o mesmo destino da cidade de Príamo. 
Um dos motivos foi a mudança na estrutura militar. No caso da Hélade, os gregos abriram mão das eficientes cavalarias e, com isso, desenvolveram um novo tipo de estratégia bélica para fortalecer as infantarias. O problema é que, até então, os carros de guerra eram as armas mais eficazes de combate: um condutor bem treinado guiava a biga enquanto "passageiros" atiravam lanças e flechas nos inimigos. Os novos exércitos foram obrigados a encontrar formas de combater essas máquinas militares de forma mais eficiente. 
Com isso, as batalhas envolvendo cavalarias e bigas foram substituídas por pelejas entre homens a pé, os cidadãos-soldados: pessoas que passavam a fazer parte da sociedade de forma mais incisiva e, além disso, vivenciavam a rotina do exército e da polis. 
Assim, os clãs foram extintos, para que todos os homens fossem agrupados em uma mesma cidade, onde poderiam treinar em conjunto por mais tempo para se preparar melhor para a guerra. Isso fez que não tivessem apenas relações familiares, mas sim com os pares, criando um sentimento de cidadania colectiva. Era uma forma de despertar conceitos cívicos nas pessoas. Além disso, os heróis também se transformaram em figuras ultrapassadas. Não havia mais espaço para guerreiros como Aquiles e Heitor, que deixavam os companheiros para trás a fim de ir de encontro ao adversário para obter glórias individuais. Tudo passa a girar em torno da sobrevivência da cidade: os soldados deveriam permanecer unidos no campo de batalha para minimizar os riscos de derrota e, desta forma, resguardar a polis.  
O herói homérico, o bom condutor de carros, podia ainda sobreviver na pessoa do hippeis; já não tem muita coisa em comum com o hoplita, esse soldado-cidadão. O que contava no primeiro era a façanha individual, a proeza feita em combate singular", explica o helenista Jean-Pierre Vernant em seu clássico As origens do pensamento grego. "Mas o hoplita não conhece o combate singular; deve recusar, se lhe oferecer, a tentação de uma proeza puramente individual. É o homem da batalha de braço a braço, da luta ombro a ombro. Foi treinado em manter a posição, marchar em ordem, lançar-se com passos iguais contra o inimigo, cuidar, no meio da peleja, de não deixar sem posto. 
Nesse novo conceito de exército, as infantarias dependiam muito da força do conjunto e da unidade, portanto, todos os homens deveriam se unir como um só bloco para vencer as batalhas. Surgem aí as temíveis falanges, em que os guerreiros passavam a vida toda treinando para desenvolver uma "dependência" de um para com o outro. Deste modo, os generais formavam unidades de combate sólidas e coesas - como ocorreu com a eficiente infantaria de Esparta, que de tão competente foi apelidada de "usina de cadáveres" durante a Segunda Guerra Médica.  
Com a mudança, os monarcas também perderam seu espaço, afinal, os homens já viviam em conjunto para o bem comum da polis, então, sentiam-se capazes de decidir os rumos políticos da cidade-estado. O cidadão passa a se confundir com o soldado, pois a partir do momento em que ganha direitos, também assume seus deveres com a defesa da pátria. Os reis espartanos foram reduzidos a meros generais, sem desempenhar funções administrativas, mas apenas militares. Em seu lugar, quem passou a tomar as decisões políticas foram os conselhos criados pelo legislador Licurgo, que na verdade são os primeiros focos de instituições democráticas no Mundo Antigo. 
O período da grande batalha de Tróia e das memoráveis aretéias entre heróis lendários chegava ao fim porque os homens, treinados para ficar unidos nas guerras, passaram a querer lutar juntos para decidir os rumos da comunidade, de forma coletiva. Caem os reis e, no lugar, ergue-se a imponente democracia."A formação do exército no período clássico carrega elementos das relações sociais, tanto no caso dos espartanos como dos atenienses", explica Álvaro Allegrette, da PUC. "Com as mudanças sociais, as pessoas passaram a viver em comunidade e, assim, as relações entre os cidadãos fica mais evidente." 
A polis, explica Werner Jaeger, representa um princípio novo para os helenos, com reflexos importantes para a vida nas cidades, e surge também a definição de Estado, criado em Esparta: essa instituição pública representa, pela primeira vez, o agente educador do povo. 
Hesíodo, outro poeta grego da Antiguidade, dizia que o heroísmo não surge apenas nos combates. Segundo ele, em O Trabalho e os Dias, o verdadeiro herói mítico e exemplar é forjado em qualquer situação nas quais a disciplina é necessária para enaltecer as qualidades humanas. Um desses momentos era o acto de erguer-se na ágora e, dotado de um senso cidadão apurado, incitar o povo a votar por mudanças importantes para a vida colectiva. Isso reforça a idéia de que era fundamental aprimorar a erudição do povo. A educação seria, portanto, uma forma de obter mais condições de tomar decisões coletivas corretas. Surgem, assim, os políticos (a própria palavra deriva de polis)." 
(ver referência [4])
A cavalaria (penso eu) é boa para partir formações de infantaria (coisa que os cavaleiros Ibéricos eram exímios), a nova estrutura militar Grega parece uma forma de combater a cavalaria, digo eu...
Continuando: 
"a Tessália era, amplamente, conhecida por produzir exímios cavaleiros e experiências posteriores em guerras, tanto com como contra o Império Persa ensinaram aos Gregos o elevado valor da cavalaria em ações de perseguição e em escaramuças.
Em contrapartida, a Macedónia, ao norte, desenvolveu uma forte cavalaria pesada que culminou nos hetaroi (cavalaria dos Companheiros) de Filipe II e de Alexandre o Grande. Além desta cavalaria pesada, o exército de armas combinadas macedónio também empregou soldados de cavalaria ligeira, chamados "prodromoi, em missões de exploração e de cobertura. Foram também empregues os ippiko, soldados de cavalaria média, armados com lança e espada, protegidos com uma couraça de pele, cota de malha e chapéu, usados como exploradores e caçadores a cavalo. Esta cavalaria era usada em conjunto com a infantaria ligeira e a famosa falange macedónica. A eficiência do sistema de armas combinadas foi demonstrado nas conquistas asiáticas de Alexandre o Grande."  (cf. [5])
Sobre esta cavalaria média, armados com lança e espada, fez-me lembrar a lança contrapesada dos Ibéros. Encontra um texto interessante aqui: 
O Eng.Fernando Sommer de Andrade e o Cavalo Lusitano (pitamarissa.wordpress.com)
A maioria (se não toda) da informação sobre o cavalo Ibérico encontra com Sommer d'Andrade.

Posto isto continuo sem perceber o que levou a cavalaria Ibérica evoluir da forma que evoluiu, talvez a equitação tenha começado aqui na Península.

Referências:
[1] Arsénio Raposo Cordeiro: Cavalo Lusitano. O filho do vento. Edições INAPA, 1989.
[2] Fernando D'Andrade: O cavalo Lusitano. Lisboa, 10 Março 1986.
[3] http://www.lusitanos.org/pdf.pdf
[4] http://www.revistafilosofia.com.br/ESLH/Edicoes/17/imprime125438.asp
[5] http://dicionario.sensagent.com/cavalaria/pt-pt/#Gr.C3.A9cia_antiga_e_Maced.C3.B3nia

Puro Sangue Lusitano

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publicado às 23:11


Sapiens Sapiens

por desvela, em 28.07.11
Por vezes chego a ter quase 100 janelas abertas, que poderiam dar para uma meia-dúzia de temas, e acabo por escolher um tema diferente... é o caso hoje, retomando uma conversa de há um ano atrás, com a Maria da Fonte.

Na estória da evolução humana, faz-se uma distinção entre Homo Sapiens e Homo Sapiens Sapiens.
Normalmente evito falar aqui de aspectos filosóficos, mas como neste caso são importantes na história, é conveniente clarificar algumas coisas, de que ninguém fala.

A matéria associou-se em diversas estruturas, mas podemos considerar apenas três grupos.

(1) Não animal. Inclui-se aqui tudo o que é mineral e vegetal. A estrutura interna destes corpos não define nenhuma acção própria. Não há nenhuma estrutura de decisão interna, por falta de qualquer sistema nervoso.

(2) Animal (não sapiens). Um animal define-se pela existência de sistema nervoso interno, que lhe permite assimilar informação externa, e com base nisso decidir uma acção internamente... que se transforma numa acção, normalmente num movimento.

Antes de passar ao terceiro grupo, é importante dizer algo acerca desta diferença, já que isto está longe de ser uma divisão biológica simples. Junta-se no mesmo grupo insectos, peixes, aves, répteis, mamíferos, etc... Este problema é normalmente varrido para debaixo do tapete, mas o próprio Darwin o terá reconhecido como objecção à sua teoria de evolução, dado que havia uma evidência de um grande salto entre o período pré-Câmbrico, onde não havia animais, e o súbito aparecimento de animais nos registos fósseis. Isto é conhecido como a "Explosão" Câmbrica... já que, tal como "a vida", os animais parecem ter surgido "do nada".

Formação da blástula nos animais, que dará a pele externa,
segue-se a formação da gástrula, que produz a pele interna, e o tubo digestivo.

A necessidade de sistema nervoso está ligada a uma mudança topológica importante... o corpo dos animais desenvolve-se em torno de um tubo - o tubo digestivo. Isto só é possível em 3 dimensões... se existissem apenas duas dimensões, um tubo digestivo partiria o animal em duas partes desconexas!

Nos animais a necessidade de alimento está ligada à necessidade de acção no sentido da sua procura... digamos que não bastaria que o animal estivesse à espera que o alimento "lhe viesse parar à boca"! Seria mais eficaz deslocar-se, e controlar esse movimento... isso requeria um processo de decisão interna, que ficou definido por um sistema nervoso (do mais simples ao mais complicado).

Esse processo de decisão interna poderia ser inicialmente simples e até simulável computacionalmente. Há nos animais conjuntos de acção-reacção que são previsíveis, mas nem sempre. Digamos que estamos ainda longe de reduzir a acção de muitos animais a simples leis matemáticas. Aliás, a simulação computacional ainda deixa a desejar mesmo no que diz respeito ao crescimento dos vegetais.

Há uma outra diferença dramática que terá ocorrido. Uma coisa é os animais alimentarem-se de nutrientes ou outros vegetais, outra coisas é os animais passarem a alimentar-se de animais... 
Isto terá complexificado muito os sistemas nervosos. Para além de decisões baseadas numa simples procura de alimento, os sistemas nervosos entraram em competição de sobrevivência. Teriam que prever modos de ataque/defesa relativamente a outros animais.

Para prever as acções de outros animais, não bastaria um sistema nervoso, é preciso simular internamente uma realidade, e ajustar as acções com base nessa simulação. Começando nos predadores, mas também estendido às presas, houve necessidade de um cérebro.
O cérebro, com base nos dados dos sentidos, construía a sua própria simulação de realidade, com vista a antecipar o passo seguinte. Essa simulação simplificada constituía a base para uma realidade por antecipação. As acções dos animais deixaram de reflectir apenas a realidade, passaram a reflectir ainda a sua previsão da realidade futura, e para isso seria necessária uma memória. 
Não necessariamente uma memória literal, mas comprimida pela interpretação. Distinguimos ainda esta memória que requer aprendizagem individual, de um processo de interpretação inato que pode reflectir uma aprendizagem da espécie, plasmado nos genes. A aprendizagem individual será feita pela experiência de vivência particular, e é especialmente notada em animais que têm ainda uma infância acompanhada pelos progenitores.
Cognição simples nos animais, que não requer memória individual.
Cognição nos animais, em que a memória individual influi na interpretação.

Esta inclusão de memória permite ao animal prever uma situação funesta, por ausência de soluções na sua interpretação e no resultado de qualquer sua acção. Há ainda uma capacidade de interagir com outros elementos, e o desenvolver rudimentar de uma linguagem. Essa linguagem reflectirá informações directas sobre a sua interpretação - uma das acções pode ser justamente a vocalização.
Há, no entanto, um aspecto importante... o próprio indivíduo não é objecto de interpretação.

(3) Animal sapiens.
O terceiro caso reflecte justamente a situação em que o intérprete (ou o interpretado) pode ser alvo de adicional interpretação. Aqui o único caso conhecido será o do Homem, mas é indiferente se for ou não único... e estabelecemos o mesmo esquema:
A novidade (mais uma vez misteriosa... e exclusiva do Homem) é a colocação de um nível de interpretação sujeito a interpretação.
A interpretação final, que determina a acção, tem em conta que há um interveniente (o próprio) que interpreta a informação actual em conjunto com a que está armazenada na memória.
Na prática são colocadas ao mesmo nível todas as informações, mas o indivíduo tem consciência do seu processo interpretativo, tendo consciência de si (do eu) na formação do raciocínio.

Não vou entrar em mais detalhes. É fácil perceber que colocar um novo nível de interpretação não adianta nada ao processo cognitivo... mas pode ter consequências.

O Homem foi classificado como Sapiens, mas não apenas... para designar a nossa subespécie (a única sobrevivente...) foi denominado Sapiens Sapiens! Ora, conforme eu referia há um ano, isto sugere conhecimento sobre o conhecimento... o que seria correcto, se atribuíssemos a outros animais a sua capacidade de conhecimento.
Porém, pode tratar-se doutra coisa. Quando temos a capacidade de misturar a interpretação com a informação da realidade e memória, podemos transmiti-la de forma distorcida. Como a linguagem é apenas resultado de uma interpretação individual, ela pode passar a criar uma farsa, em substituição da realidade. 
Para elementos numa sociedade, excessivamente dependentes da sua interacção por via da linguagem, a realidade pode passar a ficção se a fonte for falsa. Passam a viver numa realidade criada pelos elementos que difundem a informação. 
Conforme referimos aqui, há um ano, a alegoria da caverna de Platão(*) alertaria apenas para a ilusão sensorial? Não procuraria ser antes uma mensagem sobre a ilusão política, avisando sobre a nossa credulidade na informação e formação social?

Como terminar com esse ciclo vicioso de mentiras, em que as acções são determinadas pela deformação informativa? O ponto principal será sem dúvida restabelecer uma fonte informativa que não se destine a condicionar os cidadãos a uma ficção, ou a transmitir mensagens codificadas para determinados intervenientes. Isso não é acção individual isolada, cada interveniente tem que ter capacidade de assinalar de onde provém a fonte que revela, e até dar a sua honesta opinião sobre ela.
Caso contrário... ficamos atónitos à espera de ver até onde é que a farsa tem capacidade de nos levar!


Nota:
(*) Na linha de Platão, segue-se como discípulo Aristóteles que foi tutor de Alexandre Magno. Por isso, é mais ou menos claro que o problema tinha sido colocado a Alexandre, e que a sua ofensiva contra o Império Persa, e depois na Índia, pode ter tido como objectivo uma resolução tempestiva. Tão tempestiva quanto a duração do seu reinado... aliás nenhum dos sucessores retomou esse desígnio.

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publicado às 16:52


Sapiens Sapiens

por desvela, em 28.07.11
Por vezes chego a ter quase 100 janelas abertas, que poderiam dar para uma meia-dúzia de temas, e acabo por escolher um tema diferente... é o caso hoje, retomando uma conversa de há um ano atrás, com a Maria da Fonte.

Na estória da evolução humana, faz-se uma distinção entre Homo Sapiens e Homo Sapiens Sapiens.
Normalmente evito falar aqui de aspectos filosóficos, mas como neste caso são importantes na história, é conveniente clarificar algumas coisas, de que ninguém fala.

A matéria associou-se em diversas estruturas, mas podemos considerar apenas três grupos.

(1) Não animal. Inclui-se aqui tudo o que é mineral e vegetal. A estrutura interna destes corpos não define nenhuma acção própria. Não há nenhuma estrutura de decisão interna, por falta de qualquer sistema nervoso.

(2) Animal (não sapiens). Um animal define-se pela existência de sistema nervoso interno, que lhe permite assimilar informação externa, e com base nisso decidir uma acção internamente... que se transforma numa acção, normalmente num movimento.

Antes de passar ao terceiro grupo, é importante dizer algo acerca desta diferença, já que isto está longe de ser uma divisão biológica simples. Junta-se no mesmo grupo insectos, peixes, aves, répteis, mamíferos, etc... Este problema é normalmente varrido para debaixo do tapete, mas o próprio Darwin o terá reconhecido como objecção à sua teoria de evolução, dado que havia uma evidência de um grande salto entre o período pré-Câmbrico, onde não havia animais, e o súbito aparecimento de animais nos registos fósseis. Isto é conhecido como a "Explosão" Câmbrica... já que, tal como "a vida", os animais parecem ter surgido "do nada".

Formação da blástula nos animais, que dará a pele externa,
segue-se a formação da gástrula, que produz a pele interna, e o tubo digestivo.

A necessidade de sistema nervoso está ligada a uma mudança topológica importante... o corpo dos animais desenvolve-se em torno de um tubo - o tubo digestivo. Isto só é possível em 3 dimensões... se existissem apenas duas dimensões, um tubo digestivo partiria o animal em duas partes desconexas!

Nos animais a necessidade de alimento está ligada à necessidade de acção no sentido da sua procura... digamos que não bastaria que o animal estivesse à espera que o alimento "lhe viesse parar à boca"! Seria mais eficaz deslocar-se, e controlar esse movimento... isso requeria um processo de decisão interna, que ficou definido por um sistema nervoso (do mais simples ao mais complicado).

Esse processo de decisão interna poderia ser inicialmente simples e até simulável computacionalmente. Há nos animais conjuntos de acção-reacção que são previsíveis, mas nem sempre. Digamos que estamos ainda longe de reduzir a acção de muitos animais a simples leis matemáticas. Aliás, a simulação computacional ainda deixa a desejar mesmo no que diz respeito ao crescimento dos vegetais.

Há uma outra diferença dramática que terá ocorrido. Uma coisa é os animais alimentarem-se de nutrientes ou outros vegetais, outra coisas é os animais passarem a alimentar-se de animais... 
Isto terá complexificado muito os sistemas nervosos. Para além de decisões baseadas numa simples procura de alimento, os sistemas nervosos entraram em competição de sobrevivência. Teriam que prever modos de ataque/defesa relativamente a outros animais.

Para prever as acções de outros animais, não bastaria um sistema nervoso, é preciso simular internamente uma realidade, e ajustar as acções com base nessa simulação. Começando nos predadores, mas também estendido às presas, houve necessidade de um cérebro.
O cérebro, com base nos dados dos sentidos, construía a sua própria simulação de realidade, com vista a antecipar o passo seguinte. Essa simulação simplificada constituía a base para uma realidade por antecipação. As acções dos animais deixaram de reflectir apenas a realidade, passaram a reflectir ainda a sua previsão da realidade futura, e para isso seria necessária uma memória. 
Não necessariamente uma memória literal, mas comprimida pela interpretação. Distinguimos ainda esta memória que requer aprendizagem individual, de um processo de interpretação inato que pode reflectir uma aprendizagem da espécie, plasmado nos genes. A aprendizagem individual será feita pela experiência de vivência particular, e é especialmente notada em animais que têm ainda uma infância acompanhada pelos progenitores.
Cognição simples nos animais, que não requer memória individual.
Cognição nos animais, em que a memória individual influi na interpretação.

Esta inclusão de memória permite ao animal prever uma situação funesta, por ausência de soluções na sua interpretação e no resultado de qualquer sua acção. Há ainda uma capacidade de interagir com outros elementos, e o desenvolver rudimentar de uma linguagem. Essa linguagem reflectirá informações directas sobre a sua interpretação - uma das acções pode ser justamente a vocalização.
Há, no entanto, um aspecto importante... o próprio indivíduo não é objecto de interpretação.

(3) Animal sapiens.
O terceiro caso reflecte justamente a situação em que o intérprete (ou o interpretado) pode ser alvo de adicional interpretação. Aqui o único caso conhecido será o do Homem, mas é indiferente se for ou não único... e estabelecemos o mesmo esquema:
A novidade (mais uma vez misteriosa... e exclusiva do Homem) é a colocação de um nível de interpretação sujeito a interpretação.
A interpretação final, que determina a acção, tem em conta que há um interveniente (o próprio) que interpreta a informação actual em conjunto com a que está armazenada na memória.
Na prática são colocadas ao mesmo nível todas as informações, mas o indivíduo tem consciência do seu processo interpretativo, tendo consciência de si (do eu) na formação do raciocínio.

Não vou entrar em mais detalhes. É fácil perceber que colocar um novo nível de interpretação não adianta nada ao processo cognitivo... mas pode ter consequências.

O Homem foi classificado como Sapiens, mas não apenas... para designar a nossa subespécie (a única sobrevivente...) foi denominado Sapiens Sapiens! Ora, conforme eu referia há um ano, isto sugere conhecimento sobre o conhecimento... o que seria correcto, se atribuíssemos a outros animais a sua capacidade de conhecimento.
Porém, pode tratar-se doutra coisa. Quando temos a capacidade de misturar a interpretação com a informação da realidade e memória, podemos transmiti-la de forma distorcida. Como a linguagem é apenas resultado de uma interpretação individual, ela pode passar a criar uma farsa, em substituição da realidade. 
Para elementos numa sociedade, excessivamente dependentes da sua interacção por via da linguagem, a realidade pode passar a ficção se a fonte for falsa. Passam a viver numa realidade criada pelos elementos que difundem a informação. 
Conforme referimos aqui, há um ano, a alegoria da caverna de Platão(*) alertaria apenas para a ilusão sensorial? Não procuraria ser antes uma mensagem sobre a ilusão política, avisando sobre a nossa credulidade na informação e formação social?

Como terminar com esse ciclo vicioso de mentiras, em que as acções são determinadas pela deformação informativa? O ponto principal será sem dúvida restabelecer uma fonte informativa que não se destine a condicionar os cidadãos a uma ficção, ou a transmitir mensagens codificadas para determinados intervenientes. Isso não é acção individual isolada, cada interveniente tem que ter capacidade de assinalar de onde provém a fonte que revela, e até dar a sua honesta opinião sobre ela.
Caso contrário... ficamos atónitos à espera de ver até onde é que a farsa tem capacidade de nos levar!


Nota:
(*) Na linha de Platão, segue-se como discípulo Aristóteles que foi tutor de Alexandre Magno. Por isso, é mais ou menos claro que o problema tinha sido colocado a Alexandre, e que a sua ofensiva contra o Império Persa, e depois na Índia, pode ter tido como objectivo uma resolução tempestiva. Tão tempestiva quanto a duração do seu reinado... aliás nenhum dos sucessores retomou esse desígnio.

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publicado às 08:52


As sete monarquias

por desvela, em 27.07.11
Segundo Manuel de Figueiredo teriam existido 7 monarquias até à época em que escrevia:

  • 1ª Monarquia - Assírios (2183 a.C - 823 a.C) - de Nembroth (Nimrod) a Sadanalapo (Sardanapalo)
  • 2ª Monarquia - Medas e Caldeus (823 a.C - 531 a.C) - de Arbaces a Astiages; de Beloco Sul (??) a Baltazar (Belshazar)
  • 3ª Monarquia - Pérsia (531 a.C - 329 a.C) - de Ciro II a Dario III
  • 4ª Monarquia - Macedónica (329 a.C - 46 a.C) - de Alexandre Magno à linha sucessória dos generais
  • 5ª Monarquia - Romana (46 a.C. - 331 d.C) - de Júlio Cesar a Constantino Magno
  • 6ª Monarquia - Constantinopla (331 d.C - 800 d.C) - de Constantino Magno a Carlos Magno
  • 7ª Monarquia - Germânica (800 d.C - .... ) - de Carlos Magno até então (1603).
A 7ª Monarquia terá terminado em 1806, pois de facto com Francisco II terminou o Sacro-Império Germânico... momentaneamente terá passado para Napoleão, que se sagra imperador em 1804, mas a potência que se estabeleceu como reinante foi a Inglaterra, de Jorge III, definitivamente com a vitória de 1815 em Waterloo. Esse domínio foi consolidado alguns anos depois, com a Rainha Vitória e Disraeli, mas já era efectivo desde a vitória na Guerra dos Sete Anos (1756-63). Podemos por isso falar de uma 8ª monarquia britânica, que se estende na Commonwealth.

O que era entendido por Figueiredo nesta divisão por monarquias seria a definição da potência dominante. Não vemos aí listada a Grécia, o Egipto, a Fenícia, ou Cartago... mas vemos uma sequência ininterrupta!
A origem está na Babilónia, e mantém-se nessa parte até ao advento de Alexandre... são quase 2000 anos, e como só Júlio César a levará para Roma, temos aí depois outros 2000 anos. 
Os grandes protagonistas, os "Magnos", estão aí listados, mas também estão outros personagens menos conhecidos.

(1) Para ilustrar Nimrod, que Figueiredo diz ser "o inventor da monarquia", basta apresentar o conhecido quadro de Bruegel sobre a Torre de Babel:
Nimrod é visto como alguém que desafiou o poder de Deus, procurando que o homem atingisse esse estatuto divino. Na prática teria tentado essa perfeição instaurando uma tirania, que originou fugas. Uma das fugas dessa tirania teria desembarcado em Lisboa, de acordo com Pinho Leal. Tendo havido múltiplas fugas, de cuja migração surgiram várias nações, faz sentido associá-lo à questão da divisão em várias línguas. O ponto comum dessas várias tribos dissidentes seria o repúdio à tirania de Nimrod.
Dante coloca-o preso no seu Inferno, soltando a frase enigmática: "Raphèl maí amèche zabí almi".

(2) Há um excepcional quadro de Delacroix que ilustra a queda de Sardanapalo... o último rei desta primeira monarquia, deposto por Arbaces.
Apesar de Arbaces ser uma figura "demasiado" pouco conhecida, terá dividido o poder entre duas potências - os Medas e os Caldeus/Babilónia. Aqui não haveria apenas uma potência, tendo surgido dois focos de poder. Assurbanipal e Nabucodonosor serão protagonistas desse domínio...
É difícil perceber até que ponto Figueiredo ignora tudo o resto... 
Por exemplo, nesta divisão, a Guerra de Tróia não tem qualquer efeito na alteração da potência dominante. A vitória dos Aqueus sobre os Troianos é um facto lateral que não teria tido importância no domínio da potência Assíria. Isto já para não falar na omissão dos reinos orientais, hindús, mongóis ou chineses... Sobre os Egípcios, Figueiredo irá fazer uma divisão em dinastias, mas não os inclui nas monarquias!
Uma possível interpretação é que se os Assírios exerciam um poder sobre o resto do mundo (pelo menos europeu), os Egípcios teriam conseguido apenas manter alguma independência.

(3) Da Babilónia, passamos a Persépolis com Ciro II, o Grande. Ciro derrotará os arianos, e estabelecerá o Império Aqueménida/Persa. Se na tradição bíblica as figuras anteriores são mal retratadas, o mesmo não se poderá dizer de Ciro, que libertará os judeus do seu cativeiro. 
Ciro visita os corpos do Rei de Susa (tornado seu aliado) e da mulher que se suicida.

Com Ciro há também uma substituição religiosa, com a instituição do Zoroastrismo, de Zaratustra, e parece ter havido alguma harmonia multicultural sob o seu império. No entanto, nem Ciro, nem Dario ou Xerxes, seus sucessores, iriam deixar a política de conquistas... tendo os gregos sido uns dos principais visados! É especialmente estranha esta insistência na rivalidade greco-persa que só se terá manifestado acentuadamente com os Aqueménidas, tendo passado despercebida antes, com Nabucodonosor ou Assurbanipal, por exemplo.

(4) Como contraponto, serão os gregos macedónios a conquistar a Pérsia e a destruir todo o legado cultural existente em Persépolis, com a vitória de Alexandre Magno sobre Dario III, em Ipsus, 333 a.C. Alexandre que morrerá aos 33 anos e por isso rapidamente a sua monarquia é dividida pelos generais.
O estatuto de potência única deixará de existir, convivendo na rivalidade entre Seleucidas, Antigonidas, e Ptolomaicos. É especialmente instrutiva a menção sobre o testamento de Alexandre, ao dizer que pretendia circumnavegar... a África(!), mas especialmente que pretendia uma migração de populações de ocidente para oriente e vice-versa, com o propósito de miscigenação. Que ocidente tinha ele em seu poder? Toda a sua conquista não tinha sido feita no sentido oriental?
Se este último desejo tivesse sido satisfeito, pois seria natural encontrar populações ocidentais deslocalizadas em territórios orientais, talvez mantendo o seu antigo nome, mas em territórios diversos, prestando-se à confusão!

(5) Este domínio multipartido dos generais de Alexandre será quebrado com a ascenção de Roma.
O protagonista fulcral será Júlio César... mas parece aqui claro que o seu principal papel na consolidação do império pelo lado romano ocorrerá na destituição do último reduto do legado de Alexandre. Ou seja, no domínio sobre o Egipto dos Ptolomeus... na cedência de Cleópatra. A última resistente vai sucumbir, depois da vitória de Octávio Augusto sobre Marco António.
César e Cleópatra

Porém, é aqui que importa parar um pouco... não há dúvida de que Roma passou a ser a monarquia dominante... mas, antes de Júlio César era uma República!
Ou seja, a Roma é dado este estatuto, de sucessor para a 5ª monarquia, justamente quando muda esse regime político... como se isso fosse condição necessária para um poder que já estava consolidado desde a queda de Cartago! (Roma já nessa época não teria rival à altura...)
Acrescenta-se a isto que os próprios romanos vão ficar muito limitados nas suas progressões.
Sintoma destas monarquias... atingem rapidamente uma grande expansão territorial, mas depois estabilizam nesses territórios, não havendo propriamente uma segunda expansão significativa.
Há vários factores, que há muito nos fazem suspeitar que este poder monárquico não seria o último degrau na cadeia de poder... Sejamos mais precisos. De que forma se instituiu o primeiro poder monárquico e de que forma caíu? Será que caíu? Será que não se manteve activo? 
Será que os magos afastados pelo Zoroastrismo Aqueménida não procuraram restabelecer o seu poder, nem que tivesse sido para isso necessário apoiar um Alexandre estrangeiro, que foi efémero no seu império... Podemos compreender as restrições romanas nas conquistas, mas dificilmente é compreensível a sua estagnação técnica e de exploração marítima... quanto mais não fosse, progredindo pela costa africana, como teria sido desejo de Alexandre. E essas mesmas restrições vão-se manter de umas monarquias para as suas sucessoras.

(6) A sexta monarquia parece ser uma passagem formal sem sobressaltos, feita pelo próprio Constantino. Há uma mudança de capital para Bizâncio, e uma mudança de religião... só isso são motivos para considerar uma diferença. Até porque a profunda divisão que se irá seguir, entre Império Romano Ocidental e Oriental, justifica isso mesmo.
Constantino - estátua em York, onde foi aclamado imperador.

Figueiredo acaba por considerar que a linha sucessória da Monarquia será continuada por Bizâncio, e só regressará ao lado Ocidental com Carlos Magno.

(7) A importância que é dada a Carlos Magno tem justamente a ver com essa recuperação do ceptro imperial para o lado ocidental, passando para o Sacro-Império Germânico - até à queda dos Habsburgos... formalmente representada na derrota austríaca contra Napoleão em Austerlitz.
Carlos Magno

Aliás, a relutância ibérica em abdicar do calendário hispânico, que começava em Augusto, estará ligada a essa reforma educacional medieval levada a cabo por Carlos Magno. Perante a derrota de Carlos Magno em Roncesvalles, os hispânicos não reconheciam por completo esse carácter imperial germânico, chancelado por interposto papal e cúria romana. Continuavam a colocar a sua monarquia de referência como sendo a de César e Augusto... vemos aqui como a questão religiosa não era tão importante quanto a política. O calendário com o Ano Domini, nascimento de Cristo, podia esperar pelos desenvolvimentos políticos. Assim, não é de estranhar os sucessivos contenciosos com o papado ao longo da 1ª Dinastia Portuguesa.
Poderiam navegar fora da chancela imperial, mas isso seriam actos não reconhecidos... até que com D. João I a situação muda. O calendário AD é finalmente aceite e o Infante D. Pedro vai-se colocar ao serviço do Imperador Segismundo, e segue-se a autorização de "des-cobrir". Os reinos europeus parecem independentes, mas estão interligados e condicionados pela chancela imperial que é efectivada pela cúria romana e bulas papais.

(8) O poder do Sacro-Império sofre um grande revés com a derrota dos Habsburgos espanhóis na Guerra dos Trinta Anos, entrando em declínio acentuado, concentrando-se especialmente em assegurar o poder do Império Austro-Húngaro. Perante esse desfecho, segue-se um período de nações, de absolutismo local, sem a restrição do poder imperial, e ficam por definir os territórios ainda "não descobertos"... Da Guerra dos Trinta Anos até à Guerra dos Sete Anos, esses "novos" territórios ficam em suspenso, e é após o desfecho vitorioso inglês, em 1763, que se seguem, passados poucos anos, as explorações de Cook.

A queda formal do Sacro-Império na derrota de Austerlitz, coloca um Napoleão na posição de reclamar o ceptro Imperial, e é mais curioso pois é ele próprio que decide colocar a coroa na sua cabeça, e depois na cabeça de Josefina... não haveria ninguém com mais poder do que o próprio!
Aparentemente seria assim, mas a partir daí acabaram-se as vitórias napoleónicas... e começa o acentuado declínio que o levará a Elba e depois a Santa Helena. Apesar dessas derrotas, a França emerge facilmente, sem os constrangimentos financeiros que vão atormentar os aliados ibéricos no Séc. XIX, destinados a pagar a factura das guerras. Isso tem um motivo estratégico... de qualquer forma, o Sacro-Império acabava de tombar graças à França e a Napoleão. O último episódio da transferência de poder, e fim completo do Império Austro-Húngaro, irá dar-se com a Primeira Guerra. E é claro que podemos ver a Segunda Guerra como uma tentativa gorada de recuperar o ceptro imperial para o lado germânico, entre múltiplos outros factores concorrentes e divergentes...
Porém, como dissemos, isto apenas revela uma componente da movimentações, pelo lado visível das monarquias dominantes, pelo que não podemos ignorar as componentes menos visíveis...

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publicado às 07:19


As sete monarquias

por desvela, em 26.07.11
Segundo Manuel de Figueiredo teriam existido 7 monarquias até à época em que escrevia:

  • 1ª Monarquia - Assírios (2183 a.C - 823 a.C) - de Nembroth (Nimrod) a Sadanalapo (Sardanapalo)
  • 2ª Monarquia - Medas e Caldeus (823 a.C - 531 a.C) - de Arbaces a Astiages; de Beloco Sul (??) a Baltazar (Belshazar)
  • 3ª Monarquia - Pérsia (531 a.C - 329 a.C) - de Ciro II a Dario III
  • 4ª Monarquia - Macedónica (329 a.C - 46 a.C) - de Alexandre Magno à linha sucessória dos generais
  • 5ª Monarquia - Romana (46 a.C. - 331 d.C) - de Júlio Cesar a Constantino Magno
  • 6ª Monarquia - Constantinopla (331 d.C - 800 d.C) - de Constantino Magno a Carlos Magno
  • 7ª Monarquia - Germânica (800 d.C - .... ) - de Carlos Magno até então (1603).
A 7ª Monarquia terá terminado em 1806, pois de facto com Francisco II terminou o Sacro-Império Germânico... momentaneamente terá passado para Napoleão, que se sagra imperador em 1804, mas a potência que se estabeleceu como reinante foi a Inglaterra, de Jorge III, definitivamente com a vitória de 1815 em Waterloo. Esse domínio foi consolidado alguns anos depois, com a Rainha Vitória e Disraeli, mas já era efectivo desde a vitória na Guerra dos Sete Anos (1756-63). Podemos por isso falar de uma 8ª monarquia britânica, que se estende na Commonwealth.

O que era entendido por Figueiredo nesta divisão por monarquias seria a definição da potência dominante. Não vemos aí listada a Grécia, o Egipto, a Fenícia, ou Cartago... mas vemos uma sequência ininterrupta!
A origem está na Babilónia, e mantém-se nessa parte até ao advento de Alexandre... são quase 2000 anos, e como só Júlio César a levará para Roma, temos aí depois outros 2000 anos. 
Os grandes protagonistas, os "Magnos", estão aí listados, mas também estão outros personagens menos conhecidos.

(1) Para ilustrar Nimrod, que Figueiredo diz ser "o inventor da monarquia", basta apresentar o conhecido quadro de Bruegel sobre a Torre de Babel:
Nimrod é visto como alguém que desafiou o poder de Deus, procurando que o homem atingisse esse estatuto divino. Na prática teria tentado essa perfeição instaurando uma tirania, que originou fugas. Uma das fugas dessa tirania teria desembarcado em Lisboa, de acordo com Pinho Leal. Tendo havido múltiplas fugas, de cuja migração surgiram várias nações, faz sentido associá-lo à questão da divisão em várias línguas. O ponto comum dessas várias tribos dissidentes seria o repúdio à tirania de Nimrod.
Dante coloca-o preso no seu Inferno, soltando a frase enigmática: "Raphèl maí amèche zabí almi".

(2) Há um excepcional quadro de Delacroix que ilustra a queda de Sardanapalo... o último rei desta primeira monarquia, deposto por Arbaces.
Apesar de Arbaces ser uma figura "demasiado" pouco conhecida, terá dividido o poder entre duas potências - os Medas e os Caldeus/Babilónia. Aqui não haveria apenas uma potência, tendo surgido dois focos de poder. Assurbanipal e Nabucodonosor serão protagonistas desse domínio...
É difícil perceber até que ponto Figueiredo ignora tudo o resto... 
Por exemplo, nesta divisão, a Guerra de Tróia não tem qualquer efeito na alteração da potência dominante. A vitória dos Aqueus sobre os Troianos é um facto lateral que não teria tido importância no domínio da potência Assíria. Isto já para não falar na omissão dos reinos orientais, hindús, mongóis ou chineses... Sobre os Egípcios, Figueiredo irá fazer uma divisão em dinastias, mas não os inclui nas monarquias!
Uma possível interpretação é que se os Assírios exerciam um poder sobre o resto do mundo (pelo menos europeu), os Egípcios teriam conseguido apenas manter alguma independência.

(3) Da Babilónia, passamos a Persépolis com Ciro II, o Grande. Ciro derrotará os arianos, e estabelecerá o Império Aqueménida/Persa. Se na tradição bíblica as figuras anteriores são mal retratadas, o mesmo não se poderá dizer de Ciro, que libertará os judeus do seu cativeiro. 
Ciro visita os corpos do Rei de Susa (tornado seu aliado) e da mulher que se suicida.

Com Ciro há também uma substituição religiosa, com a instituição do Zoroastrismo, de Zaratustra, e parece ter havido alguma harmonia multicultural sob o seu império. No entanto, nem Ciro, nem Dario ou Xerxes, seus sucessores, iriam deixar a política de conquistas... tendo os gregos sido uns dos principais visados! É especialmente estranha esta insistência na rivalidade greco-persa que só se terá manifestado acentuadamente com os Aqueménidas, tendo passado despercebida antes, com Nabucodonosor ou Assurbanipal, por exemplo.

(4) Como contraponto, serão os gregos macedónios a conquistar a Pérsia e a destruir todo o legado cultural existente em Persépolis, com a vitória de Alexandre Magno sobre Dario III, em Ipsus, 333 a.C. Alexandre que morrerá aos 33 anos e por isso rapidamente a sua monarquia é dividida pelos generais.
O estatuto de potência única deixará de existir, convivendo na rivalidade entre Seleucidas, Antigonidas, e Ptolomaicos. É especialmente instrutiva a menção sobre o testamento de Alexandre, ao dizer que pretendia circumnavegar... a África(!), mas especialmente que pretendia uma migração de populações de ocidente para oriente e vice-versa, com o propósito de miscigenação. Que ocidente tinha ele em seu poder? Toda a sua conquista não tinha sido feita no sentido oriental?
Se este último desejo tivesse sido satisfeito, pois seria natural encontrar populações ocidentais deslocalizadas em territórios orientais, talvez mantendo o seu antigo nome, mas em territórios diversos, prestando-se à confusão!

(5) Este domínio multipartido dos generais de Alexandre será quebrado com a ascenção de Roma.
O protagonista fulcral será Júlio César... mas parece aqui claro que o seu principal papel na consolidação do império pelo lado romano ocorrerá na destituição do último reduto do legado de Alexandre. Ou seja, no domínio sobre o Egipto dos Ptolomeus... na cedência de Cleópatra. A última resistente vai sucumbir, depois da vitória de Octávio Augusto sobre Marco António.
César e Cleópatra

Porém, é aqui que importa parar um pouco... não há dúvida de que Roma passou a ser a monarquia dominante... mas, antes de Júlio César era uma República!
Ou seja, a Roma é dado este estatuto, de sucessor para a 5ª monarquia, justamente quando muda esse regime político... como se isso fosse condição necessária para um poder que já estava consolidado desde a queda de Cartago! (Roma já nessa época não teria rival à altura...)
Acrescenta-se a isto que os próprios romanos vão ficar muito limitados nas suas progressões.
Sintoma destas monarquias... atingem rapidamente uma grande expansão territorial, mas depois estabilizam nesses territórios, não havendo propriamente uma segunda expansão significativa.
Há vários factores, que há muito nos fazem suspeitar que este poder monárquico não seria o último degrau na cadeia de poder... Sejamos mais precisos. De que forma se instituiu o primeiro poder monárquico e de que forma caíu? Será que caíu? Será que não se manteve activo? 
Será que os magos afastados pelo Zoroastrismo Aqueménida não procuraram restabelecer o seu poder, nem que tivesse sido para isso necessário apoiar um Alexandre estrangeiro, que foi efémero no seu império... Podemos compreender as restrições romanas nas conquistas, mas dificilmente é compreensível a sua estagnação técnica e de exploração marítima... quanto mais não fosse, progredindo pela costa africana, como teria sido desejo de Alexandre. E essas mesmas restrições vão-se manter de umas monarquias para as suas sucessoras.

(6) A sexta monarquia parece ser uma passagem formal sem sobressaltos, feita pelo próprio Constantino. Há uma mudança de capital para Bizâncio, e uma mudança de religião... só isso são motivos para considerar uma diferença. Até porque a profunda divisão que se irá seguir, entre Império Romano Ocidental e Oriental, justifica isso mesmo.
Constantino - estátua em York, onde foi aclamado imperador.

Figueiredo acaba por considerar que a linha sucessória da Monarquia será continuada por Bizâncio, e só regressará ao lado Ocidental com Carlos Magno.

(7) A importância que é dada a Carlos Magno tem justamente a ver com essa recuperação do ceptro imperial para o lado ocidental, passando para o Sacro-Império Germânico - até à queda dos Habsburgos... formalmente representada na derrota austríaca contra Napoleão em Austerlitz.
Carlos Magno

Aliás, a relutância ibérica em abdicar do calendário hispânico, que começava em Augusto, estará ligada a essa reforma educacional medieval levada a cabo por Carlos Magno. Perante a derrota de Carlos Magno em Roncesvalles, os hispânicos não reconheciam por completo esse carácter imperial germânico, chancelado por interposto papal e cúria romana. Continuavam a colocar a sua monarquia de referência como sendo a de César e Augusto... vemos aqui como a questão religiosa não era tão importante quanto a política. O calendário com o Ano Domini, nascimento de Cristo, podia esperar pelos desenvolvimentos políticos. Assim, não é de estranhar os sucessivos contenciosos com o papado ao longo da 1ª Dinastia Portuguesa.
Poderiam navegar fora da chancela imperial, mas isso seriam actos não reconhecidos... até que com D. João I a situação muda. O calendário AD é finalmente aceite e o Infante D. Pedro vai-se colocar ao serviço do Imperador Segismundo, e segue-se a autorização de "des-cobrir". Os reinos europeus parecem independentes, mas estão interligados e condicionados pela chancela imperial que é efectivada pela cúria romana e bulas papais.

(8) O poder do Sacro-Império sofre um grande revés com a derrota dos Habsburgos espanhóis na Guerra dos Trinta Anos, entrando em declínio acentuado, concentrando-se especialmente em assegurar o poder do Império Austro-Húngaro. Perante esse desfecho, segue-se um período de nações, de absolutismo local, sem a restrição do poder imperial, e ficam por definir os territórios ainda "não descobertos"... Da Guerra dos Trinta Anos até à Guerra dos Sete Anos, esses "novos" territórios ficam em suspenso, e é após o desfecho vitorioso inglês, em 1763, que se seguem, passados poucos anos, as explorações de Cook.

A queda formal do Sacro-Império na derrota de Austerlitz, coloca um Napoleão na posição de reclamar o ceptro Imperial, e é mais curioso pois é ele próprio que decide colocar a coroa na sua cabeça, e depois na cabeça de Josefina... não haveria ninguém com mais poder do que o próprio!
Aparentemente seria assim, mas a partir daí acabaram-se as vitórias napoleónicas... e começa o acentuado declínio que o levará a Elba e depois a Santa Helena. Apesar dessas derrotas, a França emerge facilmente, sem os constrangimentos financeiros que vão atormentar os aliados ibéricos no Séc. XIX, destinados a pagar a factura das guerras. Isso tem um motivo estratégico... de qualquer forma, o Sacro-Império acabava de tombar graças à França e a Napoleão. O último episódio da transferência de poder, e fim completo do Império Austro-Húngaro, irá dar-se com a Primeira Guerra. E é claro que podemos ver a Segunda Guerra como uma tentativa gorada de recuperar o ceptro imperial para o lado germânico, entre múltiplos outros factores concorrentes e divergentes...
Porém, como dissemos, isto apenas revela uma componente da movimentações, pelo lado visível das monarquias dominantes, pelo que não podemos ignorar as componentes menos visíveis...

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publicado às 23:19


O espírito da letra

por desvela, em 26.07.11
Este é um daqueles textos que já deveria ter sido escrito há mais tempo... e diz respeito à ortografia.
Antigamente, escrever-se-ia orthographia pela derivação do grego ορθογραφία.
Duarte Nunes de Leão, no Séc. XVI, é muito claro relativamente a este assunto - diz que não deveríamos perder a raiz histórica das palavras, e assim foi convenção europeia que o θ tinha como correspondente o th, e que o φ tinha correspondente no ph. 
Essa ligação histórica perdeu-se no português e castelhano no Séc. XX, já depois de se ter perdido no italiano, mas manteve-se no norte da Europa. O sul terá sido conduzido a uma via fonética...
A ligação fonética até nos poderia levar ainda a tempos mais remotos, mas na prática o que faz é conduzir-nos a uma baralhação de curto prazo, e acentuada perda de memória. 

Aliás, a sociedade está a ser induzida num processo de progressivo Alzheimer, em que só importa o que ocorre no dia de hoje, e que amanhã será esquecido, renascendo sempre infantilmente.
Isso será especialmente notado por quem se dedicar a inspeccionar o sótão da nossa História...

Até aqui... nada de muito novo, e por isso vamos buscar um livro de Plínio ao sótão.
No Livro VII, Cap. 57, Plínio tem um interessante texto sobre as diversas invenções humanas.
Vale a pena ler todas, mas vamos aqui falar da "invenção das letras".
Plínio considera serem de origem Assíria, o que mostra a sua sensatez, mas depois dá outras versões:
- no Egipto, inventadas por Mercúrio!
- pelos Sírios... digamos Fenícios, e que Cadmus teria levado 16 letras para Grécia.

Surge depois o ponto notável, ao estabelecer que outras letras estavam ligadas à Guerra de Tróia:
 θ ξ φ χ      - teriam sido inventadas por Palomedes (que enviou Ulisses a Tróia, e foi traído por ele);
 ζ  η  ψ ω    - teriam sido inventadas pelo poeta Simonides (à época das Termópilas).

Refere ainda que Aristóteles colocava como 18 e não apenas 16 letras originais, a saber:
α β γ δ ε ζ ι κ λ μ ν ο π ρ ς τ υ φ
a que correspondem
A B G D E Z I C L M N O P R S T U F
e em termos de sons, faltam apenas aqui o J e o V, que os gregos não usaram. Jasão era escrito Iasonas, por exemplo, enquanto que o V parece ter sido mesmo ausente.
A substituição dos B pelos V não é só pronúncia do Norte, é também sintoma grego... aliás convém referir que essa é uma relação que pode sustentar a suposta presença grega no Minho.

Estas 18 letras parecem mais plausíveis, pois o ζ e o φ seriam precisos para sons comuns como Z e F.
Já as restantes letras inventadas pelos gregos vieram acrescentar confusão...
- O θ pouco substitui o T, que passou a Th nas transcrições.
- O ξ poderia ser escrito Cs... a menos que tivesse sido pretendido fazer o som Ch. Isto é importante, porque a maioria das línguas europeias usa o som, mas não tem uma só letra para ele. Nós não dizemos "Alecsandre", dizemos "Alechandre"... Um substituto próximo seria o J para "Alejandre" (é isso que os espanhóis fazem, mas fazendo-o R), mas essa letra também não constava no grego.
- Quanto ao χ não fazia falta dado haver o κ ou o ς. O mesmo se passando com os  η, ψ, ω cujo som estava no E, PS, O... a menos que se pretendesse distinguir Ê e É ou Ô e Ó, mas devemos ter em atenção que os gregos usavam acentos.

Poderíamos continuar o relato de Plínio, para a surpreendente revelação de que os Babilónios/Caldeus, teriam registos das estrelas durante centenas de milhares de anos... mas vamos focar-nos na questão das letras.

Uma das letras que os gregos não tinham era o Y.
Já aqui falámos na confusão entre Lusitânia e Lysitânia, e relação com a Lídia ou a Lícia...
Convém perceber melhor porquê. É que o Y (ipsilon) foi usado como substituto do upsilon acentuado ύ e por isso, quando se escreve Cyprus, os gregos escrevem Κύπρος.
Certo!... Mas, e se por acaso se perder o acento na transcrição?
Bom, nesse caso passamos a Κυπρος, Cuprus, que já nada tem a ver com Chipre, tem a ver com Cobre, Cuprum, cujo símbolo químico é aliás Cu...
Acidental, dir-se-à habitualmente e repetidamente... tantos são os acidentes e as coincidências. Porém, voltamos a Plínio, que nos esclarece que a exploração do Cobre teria tido a sua origem onde? No Chipre, pois claro!

Será caso único? Claro que não é, é aliás muito frequente.
Estamos habituados a ouvir falar das Guerras Púnicas... e o que é que Púnico tem a ver com Cartago ou com os fenícios? A própria wikipedia explica:
O adjectivo "púnico" deriva do nome dado aos cartagineses pelos romanos 
(Punici) (de Poenici, ou seja, de ascendência fenícia)
Poenici... porque faltou o H, e deveria ser Phoenici.
Cai uma letra nas transcrições, a moda pega rapidamente, e a palavra passa a ser usada.
Tivesse a coisa sido necessária e os púnicos nada teriam a ver com os fenícios, sem que houvesse suspeita... de tal forma a fonética tinha sido corrompida.

Por isso, quando vamos buscar textos gregos e vemos Lysitanos, devemos lembrar que a diferença para com Lusitanos é só num acento: Λύσιτανῶν ou Λυσιτανῶν e graficamente, se quisermos admitir corrupção em textos antigos é fácil que Lusia: Λυσια, tenha passado para Lydia: Λύδια.
É por isso que é mais importante manter algum espírito e questionar a letra... os relatos de ouro nos rios vinha dos rios lusitanos, enquanto que o rio Pactolo do Rei Creso (ou Midas) só lendariamente foi associado a ouro.
Curiosamente, os franceses mantêm uma pronúncia ambígua no U fazendo soar um I, talvez justamente como resto desta ligação Upsilon-Ypsilon.

Lembrei-me disto, a propósito de uma interessante conversa com Calisto sobre os cavalos lusitanos. Dizia Calisto:
Os cavaleiros ibéricos evoluíam nos campos de batalha de uma forma característica. Tirando enorme partido da obediência e agilidade das suas montadas, movimentavam-se com rápidas transições e bruscas mudanças de direcção, o que dificultava em muito as manobras dos seus inimigos. Esta equitação peculiar, foi dada a conhecer ao mundo pelos Cynetes, quando esta tribo do sudoeste da Península combateu na Grécia contra os Atenienses, auxiliando a vitória dos Espartanos na guerra do Peloponeso (séc. IV a.C.). Tal facto justifica a origem do termo “gineta”, ainda hoje utilizado para classificar esta forma de montar.
Para além do interesse próprio do texto, que espero que o Calisto complete, a referência a Cynetes levou-me imediatamente à variação do Y em U, com a possibilidade de ser Cunetes, e assim referir-se aos Cúnios (ou Cónios). Isto tem algum relevo no sentido da discussão anterior, já que os lusitanos das montanhas, que combatiam a pé e em emboscada, não seriam esses típicos cavaleiros. Houve uma perda do legado dos Cúnios (passando tudo a Lusitano), cujas razões já aqui tentámos explicar...
A transformação do C em G, essa já é mais recente, mas também muito conhecida, por isso o Cynete passou a Ginete... mas de "ginetes" até à ligação com os cónios é que fica a grande distância da suposição de alteração.

Não se trata aqui de encontrar relações soltas... essas podem ser casuais, e haverá certamente muitas que nos levam em erro. Interessa mostrar os casos claros, e alertar para estas diferentes alterações.
A reconstrução tem que ser feita mais pelo espírito da consistência do que pela letra exacta.
Importaria não perder o rasto, já que ele fica mais ténue, a cada mudança ortográfica... perde-se a memória, e perde-se a identidade. Por vezes, surgem surpresas, pelo efeito oposto, como é o caso de Egito e Egitânia... mas dificilmente terá sido essa a intenção, pelo contrário! Temos que contar com os ingleses e franceses para manter a etimologia...

Curiosamente, e a propósito de Egipto, na menção grega de Estrabo tanto aparece Αἰγύπτῳ (Aegypto) como Αἰγυπτῳ (Aegupto)... e se os ingleses têm o Y correctamente, há muito que perderam o AE que era usado pelos romanos neste caso (e também em Etiópia). E se o som PT se mantinha à época romana, a haver alguma conexão em Egitânia, ela perder-se-à nas areias do tempo...

Terminamos apenas com um interessante pormenor, a propósito da relação entre C e G... a cidade de Málaga era denominada Malaca pelos romanos. Aqui não é preciso explicar sobre que outra Malaca falamos... interessa notar que estas alterações produzem um quase total despiste. Nem sequer podemos associar o G ao C... ambas foram terceiras letras de alfabeto, porque o G acabou por ser usado para se substituir a outras letras, ganhando um significado especial até como símbolo maçónico.
Da mesma forma, o H encontrado em textos gregos, como por exemplo em Ἡρακλῆς (Herácles: Hércules) será apenas a forma maiúscula do η (eta), pelo que Eracles seria apropriado... e é por essa razão que não nos importamos de tirar o H a hebreus, ficando Ebreus. Mas, o importante, é que essa razão não basta, é apenas mais um elemento para o acumular de razões... a letra conta, mas apenas como mais um elemento na consistência que pode dar corpo ao espírito de pesquisa.

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publicado às 07:55


O espírito da letra

por desvela, em 25.07.11
Este é um daqueles textos que já deveria ter sido escrito há mais tempo... e diz respeito à ortografia.
Antigamente, escrever-se-ia orthographia pela derivação do grego ορθογραφία.
Duarte Nunes de Leão, no Séc. XVI, é muito claro relativamente a este assunto - diz que não deveríamos perder a raiz histórica das palavras, e assim foi convenção europeia que o θ tinha como correspondente o th, e que o φ tinha correspondente no ph. 
Essa ligação histórica perdeu-se no português e castelhano no Séc. XX, já depois de se ter perdido no italiano, mas manteve-se no norte da Europa. O sul terá sido conduzido a uma via fonética...
A ligação fonética até nos poderia levar ainda a tempos mais remotos, mas na prática o que faz é conduzir-nos a uma baralhação de curto prazo, e acentuada perda de memória. 

Aliás, a sociedade está a ser induzida num processo de progressivo Alzheimer, em que só importa o que ocorre no dia de hoje, e que amanhã será esquecido, renascendo sempre infantilmente.
Isso será especialmente notado por quem se dedicar a inspeccionar o sótão da nossa História...

Até aqui... nada de muito novo, e por isso vamos buscar um livro de Plínio ao sótão.
No Livro VII, Cap. 57, Plínio tem um interessante texto sobre as diversas invenções humanas.
Vale a pena ler todas, mas vamos aqui falar da "invenção das letras".
Plínio considera serem de origem Assíria, o que mostra a sua sensatez, mas depois dá outras versões:
- no Egipto, inventadas por Mercúrio!
- pelos Sírios... digamos Fenícios, e que Cadmus teria levado 16 letras para Grécia.

Surge depois o ponto notável, ao estabelecer que outras letras estavam ligadas à Guerra de Tróia:
 θ ξ φ χ      - teriam sido inventadas por Palomedes (que enviou Ulisses a Tróia, e foi traído por ele);
 ζ  η  ψ ω    - teriam sido inventadas pelo poeta Simonides (à época das Termópilas).

Refere ainda que Aristóteles colocava como 18 e não apenas 16 letras originais, a saber:
α β γ δ ε ζ ι κ λ μ ν ο π ρ ς τ υ φ
a que correspondem
A B G D E Z I C L M N O P R S T U F
e em termos de sons, faltam apenas aqui o J e o V, que os gregos não usaram. Jasão era escrito Iasonas, por exemplo, enquanto que o V parece ter sido mesmo ausente.
A substituição dos B pelos V não é só pronúncia do Norte, é também sintoma grego... aliás convém referir que essa é uma relação que pode sustentar a suposta presença grega no Minho.

Estas 18 letras parecem mais plausíveis, pois o ζ e o φ seriam precisos para sons comuns como Z e F.
Já as restantes letras inventadas pelos gregos vieram acrescentar confusão...
- O θ pouco substitui o T, que passou a Th nas transcrições.
- O ξ poderia ser escrito Cs... a menos que tivesse sido pretendido fazer o som Ch. Isto é importante, porque a maioria das línguas europeias usa o som, mas não tem uma só letra para ele. Nós não dizemos "Alecsandre", dizemos "Alechandre"... Um substituto próximo seria o J para "Alejandre" (é isso que os espanhóis fazem, mas fazendo-o R), mas essa letra também não constava no grego.
- Quanto ao χ não fazia falta dado haver o κ ou o ς. O mesmo se passando com os  η, ψ, ω cujo som estava no E, PS, O... a menos que se pretendesse distinguir Ê e É ou Ô e Ó, mas devemos ter em atenção que os gregos usavam acentos.

Poderíamos continuar o relato de Plínio, para a surpreendente revelação de que os Babilónios/Caldeus, teriam registos das estrelas durante centenas de milhares de anos... mas vamos focar-nos na questão das letras.

Uma das letras que os gregos não tinham era o Y.
Já aqui falámos na confusão entre Lusitânia e Lysitânia, e relação com a Lídia ou a Lícia...
Convém perceber melhor porquê. É que o Y (ipsilon) foi usado como substituto do upsilon acentuado ύ e por isso, quando se escreve Cyprus, os gregos escrevem Κύπρος.
Certo!... Mas, e se por acaso se perder o acento na transcrição?
Bom, nesse caso passamos a Κυπρος, Cuprus, que já nada tem a ver com Chipre, tem a ver com Cobre, Cuprum, cujo símbolo químico é aliás Cu...
Acidental, dir-se-à habitualmente e repetidamente... tantos são os acidentes e as coincidências. Porém, voltamos a Plínio, que nos esclarece que a exploração do Cobre teria tido a sua origem onde? No Chipre, pois claro!

Será caso único? Claro que não é, é aliás muito frequente.
Estamos habituados a ouvir falar das Guerras Púnicas... e o que é que Púnico tem a ver com Cartago ou com os fenícios? A própria wikipedia explica:
O adjectivo "púnico" deriva do nome dado aos cartagineses pelos romanos 
(Punici) (de Poenici, ou seja, de ascendência fenícia)
Poenici... porque faltou o H, e deveria ser Phoenici.
Cai uma letra nas transcrições, a moda pega rapidamente, e a palavra passa a ser usada.
Tivesse a coisa sido necessária e os púnicos nada teriam a ver com os fenícios, sem que houvesse suspeita... de tal forma a fonética tinha sido corrompida.

Por isso, quando vamos buscar textos gregos e vemos Lysitanos, devemos lembrar que a diferença para com Lusitanos é só num acento: Λύσιτανῶν ou Λυσιτανῶν e graficamente, se quisermos admitir corrupção em textos antigos é fácil que Lusia: Λυσια, tenha passado para Lydia: Λύδια.
É por isso que é mais importante manter algum espírito e questionar a letra... os relatos de ouro nos rios vinha dos rios lusitanos, enquanto que o rio Pactolo do Rei Creso (ou Midas) só lendariamente foi associado a ouro.
Curiosamente, os franceses mantêm uma pronúncia ambígua no U fazendo soar um I, talvez justamente como resto desta ligação Upsilon-Ypsilon.

Lembrei-me disto, a propósito de uma interessante conversa com Calisto sobre os cavalos lusitanos. Dizia Calisto:
Os cavaleiros ibéricos evoluíam nos campos de batalha de uma forma característica. Tirando enorme partido da obediência e agilidade das suas montadas, movimentavam-se com rápidas transições e bruscas mudanças de direcção, o que dificultava em muito as manobras dos seus inimigos. Esta equitação peculiar, foi dada a conhecer ao mundo pelos Cynetes, quando esta tribo do sudoeste da Península combateu na Grécia contra os Atenienses, auxiliando a vitória dos Espartanos na guerra do Peloponeso (séc. IV a.C.). Tal facto justifica a origem do termo “gineta”, ainda hoje utilizado para classificar esta forma de montar.
Para além do interesse próprio do texto, que espero que o Calisto complete, a referência a Cynetes levou-me imediatamente à variação do Y em U, com a possibilidade de ser Cunetes, e assim referir-se aos Cúnios (ou Cónios). Isto tem algum relevo no sentido da discussão anterior, já que os lusitanos das montanhas, que combatiam a pé e em emboscada, não seriam esses típicos cavaleiros. Houve uma perda do legado dos Cúnios (passando tudo a Lusitano), cujas razões já aqui tentámos explicar...
A transformação do C em G, essa já é mais recente, mas também muito conhecida, por isso o Cynete passou a Ginete... mas de "ginetes" até à ligação com os cónios é que fica a grande distância da suposição de alteração.

Não se trata aqui de encontrar relações soltas... essas podem ser casuais, e haverá certamente muitas que nos levam em erro. Interessa mostrar os casos claros, e alertar para estas diferentes alterações.
A reconstrução tem que ser feita mais pelo espírito da consistência do que pela letra exacta.
Importaria não perder o rasto, já que ele fica mais ténue, a cada mudança ortográfica... perde-se a memória, e perde-se a identidade. Por vezes, surgem surpresas, pelo efeito oposto, como é o caso de Egito e Egitânia... mas dificilmente terá sido essa a intenção, pelo contrário! Temos que contar com os ingleses e franceses para manter a etimologia...

Curiosamente, e a propósito de Egipto, na menção grega de Estrabo tanto aparece Αἰγύπτῳ (Aegypto) como Αἰγυπτῳ (Aegupto)... e se os ingleses têm o Y correctamente, há muito que perderam o AE que era usado pelos romanos neste caso (e também em Etiópia). E se o som PT se mantinha à época romana, a haver alguma conexão em Egitânia, ela perder-se-à nas areias do tempo...

Terminamos apenas com um interessante pormenor, a propósito da relação entre C e G... a cidade de Málaga era denominada Malaca pelos romanos. Aqui não é preciso explicar sobre que outra Malaca falamos... interessa notar que estas alterações produzem um quase total despiste. Nem sequer podemos associar o G ao C... ambas foram terceiras letras de alfabeto, porque o G acabou por ser usado para se substituir a outras letras, ganhando um significado especial até como símbolo maçónico.
Da mesma forma, o H encontrado em textos gregos, como por exemplo em Ἡρακλῆς (Herácles: Hércules) será apenas a forma maiúscula do η (eta), pelo que Eracles seria apropriado... e é por essa razão que não nos importamos de tirar o H a hebreus, ficando Ebreus. Mas, o importante, é que essa razão não basta, é apenas mais um elemento para o acumular de razões... a letra conta, mas apenas como mais um elemento na consistência que pode dar corpo ao espírito de pesquisa.

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publicado às 23:55


Declinação magnética e longitude

por desvela, em 25.07.11
Já foi aqui colocada várias vezes a questão da longitude, mas faltará referir a forma que provavelmente seria mais usada - declinação magnética. Pensei em fazê-lo depois de ler o Tratado da Agulha de Marear, incluso no Tratado de Marinharia, mas a caligrafia não é das mais atractivas e compreensíveis... e por outro lado, tendo sido transcrito por Luís de Albuquerque, mereceu atenção recente por um especialista, não sendo necessária outra contribuição. 
Posso abordar a questão doutra forma.
Como o pólo norte e o pólo norte magnético são diferentes, é possível cruzar dados para ter uma noção da longitude.
Segundo Manuel de Figueiredo (Chronographia e repetório dos tempos, 1603, pág. 134), os marinheiros mais experimentados para além de saberem que as agulhas de marear "não atiravam direito ao verdadeiro pólo", diziam que se fixava em 8 partes do globo, uma das quais os Açores. Diz ainda que em Portugal tomavam 7º25' como declinação. Dá ainda a entender que esta diferença de norte estaria compreendida no tamanho da flor-de-lis que na rosa-de-ventos indicava o norte.
Como vemos, se não houvesse declinação nos Açores e havendo 7º em Portugal, entre os dois pontos seria marcada uma diferença contínua que permitiria avaliar a proximidade de um ou do outro ponto, não apenas em termos de latitude, mas assim também em termos de longitude. 
Seria isso que se usaria nas viagens regulares entre Portugal e os Açores, ou outras?
- Aqui o grande problema seria a estabilização da agulha em alto mar... no entanto, poderia ser usado.

Convém notar que o pólo norte magnético varia consideravelmente, sendo reportada a mudança de 1100 Km durante o Séc. XX, para além de variações diárias num órbita elíptica de 80 Km (ver wikipedia).
Ou seja, os valores reportados no Séc. XV estariam desactualizados nos Séc. XVI ou posteriores, e isso talvez justifique algumas consideráveis mudanças nos mapas que fossem assim construídos.
Mais, as agulhas também não apontam exactamente para o pólo norte magnético... complicando bastante as coisas!
Ou seja, a variação da declinação com a posição está longe de ser uma função simples, depende razoavelmente do local, como se pode ver num mapa de dados no ano 2000:


Para além dos Açores, Manuel de Figueiredo dá mais dois pontos de declinação zero (a 45º a noroeste e nordeste dessas ilhas), tornando claro que estavam cientes da complexidade das linhas. Dá-nos uma pista histórica para a localização das linhas no Séc. XVI, com 3 pontos para uma linha de declinação zero.
Qualquer mapa formado com base nas declinações magnéticas teria as deformações decorrentes da complexidade destas linhas, o que justificaria algumas formas mais estranhas nos mapas (mas não todas... algumas foram propositadas, como já sabemos).

Quanto à razão desta diferença magnética, diz Manuel de Figueiredo:
Ainda até agora se não deu na causa porque esta pedra de sevar não atira direita ao pólo do mundo, e nem por que atira para o norte, muitos dão muitas razões, mas nenhuma delas acerta(...)
Apesar da justificação com o núcleo ferro-magnético da Terra, a situação está longe de ser muito diferente da reportada por Figueiredo. Duvido que haja algum bom modelo capaz de prever a variação das linhas para saber onde estarão em 2050... onde há que ter em conta as anomalias.
Apesar de se pretender um grande conhecimento, o que se conhece do interior da Terra é tão pouco, ou menor, do que se conhece do espaço exterior. Pelo conhecimento da nossa crosta, pretendemos saber tudo... o que tem algo de simbólico, já que o egocentrismo e comunocentrismo (egocentrismo de uma comunidade) tem esta capacidade de, pela crosta, almejar conhecer o infinito e mais além...


Hiparco e longitudes
Acerca de latitudes e longitudes, Estrabo cita Hiparco (Livro 1, Cap.1):
`(...) For instance, no one could tell whether Alexandria in Egypt were north or south of Babylon, nor yet the intervening distance, without observing the latitudes. Again, the only means we possess of becoming acquainted with the longitudes of different places is afforded by the eclipses of the sun and moon.’ Such are the very words of Hipparchus.
Portanto, quando colocámos aqui a questão das medições de longitude, torna-se claro que elas se reportavam à Antiguidade, usando o método de eclipses que encontrámos descrito por Carvalho da Costa, e Manuel de Figueiredo. Este conhecimento nunca terá deixado de estar presente.

Como já dissémos, Estrabo tem muita informação, e aproveitamos para colocar mais algumas:
(1) Estrabo fala da circumnavegação da África por Menelau:
At the same time the idea of this circumnavigation, which owes its origin to Crates, is not necessary; we do not mean it was impossible, (for the wanderings of Ulysses are not impossible)
(2) Estrabo fala da "ideia de Colombo" de atingir a Índia:
So that if the extent of the Atlantic Ocean were not an obstacle, we might easily pass by sea from Iberia to India, still keeping in the same parallel; the remaining portion of which parallel, measured as above in stadia, occupies more than a third of the whole circle
 (3) Estrabo fala das tentativas de circumnavegação da Terra:
Nor is it likely that the Atlantic Ocean is divided into two seas by narrow isthmuses so placed as to prevent circumnavigation: how much more probable that it is confluent and uninterrupted! Those who have returned from an attempt to circumnavigate the earth, do not say they have been prevented from continuing their voyage by any opposing continent, for the sea remained perfectly open, but through want of resolution, and the scarcity of provision. 
(4) Estrabo fala sobre o que era conhecido:
For in the east the land occupied by the Indians, and in the west by the Iberians and Maurusians, is wholly encompassed [by water], and so is the greater part on the south and north. And as to what remains as yet unexplored by us, because navigators, sailing from opposite points, have not hitherto fallen in with each other, it is not much, as any one may see who will compare the distances between those places with which we are already acquainted.
O pouco que faltava para se encontrarem os que partiam da India e da Iberia/Mauritânia, poderia ser um pequeno istmo que impedia a circumnavegação, faltava a América central... faltava a resolução, faltavam as provisões... ou antes, faltava a licença de mencionar a Merica?

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