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Portas do Ródão

por desvela, em 16.07.11
Nesta sequência de "portas", e tal como Olinda, também nos lembrámos das Portas do Ródão... e que estariam na zona atribuída aos Carpetanos, povo ibérico.
Aqui falha-nos o último volume de Pinho Leal que poderá ter algum comentário a propósito de Vila Velha de Rodão. Encontrámos menção a Vila Velha de Ródão na Corografia (1708) de António Carvalho da Costa, mas não especifica o que significará "velho" neste caso, poderá remeter-se à formação da nacionalidade, ou anterior. Nos territórios adjacentes, mas em ponto bastante mais elevado, encontra-se o Castelo de Wamba (ou Vamba).
Um bom texto relativamente a reabilitação arqueológica desse Castelo e da Capela próxima, pode ser encontrado na Associação de Estudos do Alto Tejo.

Focando-nos mais na Portas do Ródão, começamos por uma gravura antiga, de 1823 (por William Westall)
Passage of the Tagus at Villa-Velha  (Westall, 1823)

Quer-nos parecer que a paisagem mudou consideravelmente, já que as escarpas parecem na gravura muito mais acentuadas, se atendermos a imagens mais recentes da mesma vista de jusante (poente):

Podemos falar em exagero do artista... porém não parece ser o caso de Westall, e temos alguma confirmação da diferença pela imagem vista do lado nascente (C. Turner, 1811):
Pass of the Tagus at Villa Velha into Alemtejo (C. Turner, 1811)

Parece ter havido entretanto uma erosão acentuada, já que as imagens do Séc. XIX dão uma ideia de cortes limpos, quebrando a rocha a pique, algo que se terá atenuado significativamente nestes séculos seguintes. Por outro lado, nota-se na imagem de Turner que o rio seria razoavelmente baixo, não se notando o forte caudal. Sobre esse assunto, fomos encontrar uma outra referência:
A pouca distância do porto de Villa-Velha, corre o Tejo por entre dois altos montes de finíssimo mármore, formando uma espécie de garganta, a que chamam as portas do Rodão. Pelas influências do, Marquez de Pombal se fez o mesmo, rio navegavel até ao porto de Villa Velha, que fica dentro desta garganta. Junto do porto havia huma Fazenda e Casas, em cuja porta se viam as armas, do Marquez, que são huma Estrella entre uma, quaderna, de crescentes.   (Poesias de Cruz e Silva, 1805)
Ou seja, concluímos que os cortes abruptos, vistos nas gravuras do início do Séc. XIX, eram provável resultado da "fresca intervenção" do Marquês de Pombal, no sentido de tornar o rio mais navegável.
Tal como acontecia com o Rio Douro, que tinha uma forte cascata perto de S. João da Pesqueira, chamado o "Cachão do Douro", é possível que algo semelhante se passasse nas Portas do Rodão.
Acrescentamos este texto de J. J. Forrester (1854):
The Tagus (that beautiful river which our forefathers used to ascend without difficulty as far as Toledo [cf. Faria e Sousa]) has been fearfully neglected. During the winter season, in some situations, the current is five feet per second; and at the place called Vallada, where the river is 1330 feet wide, the volume of water that descends in that time is not less than 100,000 cubick feet. At the Portas do Rodão, 150 feet wide, the current is twelve feet per second; so that a volume of 7776 millions of cubick feet of water passes through this gorge in one day.
The Portas do Rodão, on the Tagus, are similar to the Cachão on the river Douro, that is to say, during the wet season, the passage being narrow, the river above naturally overflows its banks, and lays the country under water. Now one of two things,— either widen the passage to give egress to the waters, or store them up for irrigation purposes, preserves for fish, &c. The idea is not originally ours. It is the conviction of the much-injured and persecuted Portuguese author, Bento De Moura (born 1702), who proposed to construct a dam and form an enormous deposit of water, 20 leagues square, during the winter, so as to leave its rich deposits and manure on the land, and prepare it for cultivation in the summer. "Rivers," says Senhor de Moura, "bring down earth in proportion of 15 to 1 of sand. From 5 to 25 years, 1000 moios of earth would be deposited, and would produce 10,000 moios of grain, or in a few years the deposits would yield ten times their weight in grain."
Ou seja, no sentido inverso ao do Marquês, Bento de Moura tinha proposto construir uma barragem.
Isto é interessante, pois podemos ter uma ideia da consequência dessa barragem:
Por uma simples inspecção de altitude a 200 metros (as montanhas laterais ultrapassam os 300 m), o terreno formaria uma bacia natural que se estenderia até Idanha-a-Nova, criando um lago artificial... seria esta a ideia de Bento de Moura. Assim, se havia alguma represa natural de água, parece certo que o Marquês acabou com ela... e com um nível baixo, a navegabilidade ficou também comprometida, excepto para pequenas embarcações, conforme se pode ver nas gravuras.

As gravuras não mencionam o nome Ródão... o acrescento de Ródão a Vila Velha pareceu-nos ser posterior às invasões francesas, mas o registo de 1708 não deixa dúvidas sobre a origem anterior do nome. Não queremos deixar de notar uma associação fonética de Ródão a Ródano, e alguma semelhança na paisagem das Gargantas do Ródano (Rhône)... 
Gargantas do Ródano (imagem)

Castelo de Wamba
O rei visigodo Wamba (672-680) ficou ligado a uma antiga fortaleza, no monte norte das Portas do Ródão, da qual ainda se mantém uma torre quadrada interessante:
Torre de Wamba (Portas do Rodão)

A associação a Wamba é discutida, mas atendendo a que os visigodos tiveram o cuidado de renomear Idanha como Egitania, reconstruí-la depois da destruição sueva... e outros detalhes (Pinho Leal diz que Wamba seria natural da zona), mostrará o interesse que os visigodos tiveram pela região.

Com as Portas do Ródão fechadas ao Tejo, este formaria um lago interior que se estenderia até à zona de Idanha-a-Nova, e anteriormente talvez mesmo próximo de Idanha-a-Velha. Estas vilas que aparecem hoje como isoladas nos limites montanhosos da Serra da Estrela, poderiam ter tido um lago natural resultante da acumulação de águas do Tejo. Uma primeira cedência da rocha teria causado a deslocalização de Idanha-a-Velha para Idanha-a-Nova, mas a ideia de navegabilidade do Marquês teria terminado com qualquer ideia de recuperar o lago interno, conforme parecia pretender Bento de Moura.

Pinho Leal diz que "alguns" davam também o nome de Hircania a Idanha-a-Velha (que diz ser uma das primeiras vilas lusitanas, fundada c. 500 a.C.)... lembrando-nos que o mar Hircanio era exactamente a designação do Cáspio, não deixamos de ver aqui uma alusão a um mar interno. Egitania foi um bispado importante na época visigoda, e a cidade terá mudado de nome para Eydaia na época árabe, de onde viria o nome Idanha. A nova Idanha parece ser só mencionada já com D. Sancho I.

Serras
Sendo uma zona de grifos, e outras aves de rapina ou não, em belos parques naturais, não deixamos de mencionar outras "portas" semelhantes, na vizinha Extremadura espanhola.
--- O Parque Natural de Monfrague
Salto do Gitano - o Tejo no Parque Natural de Monfrague
--- Canchos de Ramiro

 
Canchos de Ramiro e ponte sobre o Alagon 
(afluente do Tejo) [imagens]

Ou seja, as portas do Ródão não são muito diferentes da paisagem que o Tejo e afluentes fazem ao "furar" as serras da Extremadura ou Alentejo.
E aqui convém mencionar a noção de "Serra"... porque é nestas formações que ela ganha sentido.
Estas formações características da Estremadura espanhola e portuguesa, ou do Alentejo, surgem como linhas montanhosas bem definidas como se pode ver no mapa (em cima, também na zona de Castelo de Vide/Marvão). São praticamente linhas montanhosas singulares cujos "dentes" são os picos oscilantes... e por isso têm verdadeira analogia com a noção de "serra", da lâmina de corte. A generalização desta palavra a qualquer conjunto montanhoso fez perder a particularidade destas formações quase laminares. Não havendo distinção particular entre o nome desta estrutura "de serra" e os conjuntos montanhosos, poupa-se qualquer justificação particular para a singularidade que estas montanhas exibem enquanto serras - linhas bem definidas de montanhas que aparecem como autênticos muros na paisagem.


Nota: (17/07/2011)
Texto consideravelmente reeditado e corrigido no dia seguinte, por nos ter escapado a menção a Vila Velha do Ródão na Corografia de António Carvalho da Costa, de 1708:
A Villa Velha de Ródão fica cinco léguas de Castelo-Branco para o Sul, & está fundada num tezo, que banha o rio Tejo: tem 160 vizinhos com uma Igreja Parroquial, Vigararia da Ordem de Christo, & Commenda, de que é Comendador o Conde de Atouguia; tem mais Casa da Misericordia, & uma Ermida de N. Senhora do Castelo, imagem milagrosa, aonde concorre em romaria muita gente do Alentejo, & de outras partes. O seu termo é fertil de pão, azeite, linho, & tem muita caça, & colmes, com algum vinho.

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publicado às 23:42


Às Portas Cáspias

por desvela, em 16.07.11
A progressão de Alexandre Magno em direcção ao Oriente tem um episódio que foi retratado num romance iniciado no Séc. III, com variações no primeiro período medieval, denominado o "Romance de Alexandre". As variações incluem uma exploração subaquática do próprio Alexandre... 
Romance de Alexandre (edição russa, Séc. XVII)

... o que pelo menos mostrará que a ideia de explorar os fundos marinhos não foi certamente ideia recente, e esteve presente, pelo menos no imaginário humano, desde a Antiguidade.

Porém o episódio que talvez tenha ficado como mais simbólico é a estória de Alexandre definir uma muralha contra Gog e Magog, personagens bíblicos, episódio que até se encontrará mencionado no Corão (na identificação de Alexandre a Dhul Qarnayn).
A ideia terá sido construir uma muralha (ou portas de ferro...) para impedir uma invasão dos povos do norte, descritos como Gog e Magog, enquanto gigantes lendários. Esta invocação tem sido atribuída a uma tentativa de controlar invasões do Norte, e diverge desde se considerar o perigo das Amazonas, o perigo dos Godos, ou até a ameaça Mongol. Neste último sentido é atribuída uma confusão entre a muralha de Alexandre e a própria muralha da China... feita com o mesmo propósito!
No sentido de associar os Godos a Gog fala-se na semelhança do nome (Goth e Gog), e finalmente o próprio romance estabelece uma relação com Taléstris, uma rainha amazona. 
A conexão com as rainhas amazonas tinha já outro protagonista anterior. 
Com efeito, a rainha amazona Tomiris (ou Thamiris), como vingança da morte de seu filho, teria ordenado que a cabeça de Ciro fosse mergulhada em sangue:
Rubens: a cabeça de Ciro é entregue a Tomiris 
A história oficial não confirma este funesto destino para Ciro, o Grande, que assim terminaria a sua imensa saga de conquistas numa vingança Amazona. Há alguma consonância em reportar a sua morte em batalha com os Citas... designação geral onde se poderiam enquadrar as Amazonas, ou pelo menos uma rainha Tomiris.

No mesmo sentido, Alexandre Magno parece ter reportado uma proposta de casamento com uma princesa ou rainha dos Citas, que poderia ser Taléstris, entendida enquanto amazona.
Parece haver uma certa relutância em aceitar um reino com um poder no feminino, neste caso o reino das Amazonas, sendo que há diversas evidências de sociedades matriarcais. Por outro lado, constata-se ainda que todos os grandes impérios da Antiguidade tiveram como limite de progressão as paragens mais setentrionais... os romanos debatiam-se dificilmente com os godos, e parece nunca terem conseguido um controlo sobre a parte norte do Mar Negro.

Conforme temos aqui insistido, é bastante natural que a configuração geográfica fosse especialmente diferente, e estava a alterar-se na altura de Alexandre (ou mesmo já de Ciro), com a diminuição do nível do mar. As terras contíguas aos montes Urais deixavam de estar isoladas enquanto ilhas num Oceano setentrional, e ao fechar-se progressivamente num Mar Negro, por um lado, e num Mar Cáspio, pelo outro... tornava mais real a ameaça de invasão por povos desse mítico Norte de citas, tártaros, ou amazonas...
Um desses pontos de ligação seria exactamente o istmo (ou península) caucasiana.
A construção de uma defesa que permitisse evitar a invasão terrestre, que entretanto se tornava possível, aproveitando a cadeia montanhosa do Cáucaso, é algo que parece fazer sentido estratégico.

Portas Cáspias de Derbent
Essa linha de defesa foi aliás efectuada em Derbent.
As Portas Cáspias de Derbent parecem datar pelo menos do período sassânida persa, mas podem bem assentar numa linha de defesa já anterior. Uma parte é mesmo conhecida como Muralha de Alexandre, e ainda que não seja reportada a Alexandre, pode bem resultar de uma construção Seleucida, imediatamente posterior.

 

Portas Cáspias de Gorgan
De forma semelhante, na parte sudeste do Mar Cáspio, estão as Muralhas de Gorgan, já datadas pelo menos até ao império Parto-Persa, império sucessor dos Seleucidas macedónicos, em 247 a. C. Estas muralhas estendem-se por uma vasta linha, que as torna segundas em comprimento, com 195 Km. Sendo claramente superadas em extensão pela imensa Muralha da China, o propósito seria possivelmente o mesmo, evitando uma invasão tártara pelas margens do Cáspio.
  

Como Gorgan estaria na rota de progressão de Alexandre, pode ser considerado mais natural associar-lhe estoutra muralha. Porém, parece mais natural que no curto e intenso reinado de Alexandre apenas se possa ter planeado tal empreendimento. Qualquer concretização ligada a Alexandre deverá ser relegada para a dinastia do seu sucessor, o general Seleuco.

Gog e Magog
O Mar Cáspio que agora tende a desaparecer, seria a zona de defesa perante as ameaças de Citas, Tártaros ou Mongóis. A identificação dos gigantes bíblicos Gog e Magog (neto de Noé) aos Citas é feita por Flávio Josefo, com uma conotação de povos bárbaros, e que são até ligados ao Apocalipse!
Independentemente disso, os gigantes Gog e Magog são até considerados como patronos da City de Londres e estão ligados a mitos de gigantes nas ilhas britânicas:
Caricatura que mostra como os gigantes Gog e Magog 
sustentam o Paddy inglês.

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publicado às 07:55


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