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Grande Alca e outras extinções

por desvela, em 27.11.12
Há já bastante tempo coloquei aqui um mapa datado de 1970, do Museu da Marinha, que pretendia ilustrar os descobrimentos portugueses.
Apesar do mapa dizer ser feito pelo "pessoal técnico do Museu da Marinha", não deixava de conter indicações algo enigmáticas. Uma que notei foi a presença de pinguins na Gronelândia, a que erradamente atribuí um erro de execução, e também a de cangurus na Austrália (algo que não se parece observar em nenhum mapa anterior a Cook):

Acontece que desenhar pinguins árticos num mapa de 1970 parece muito estranho, mas não o seria se fosse baseado num original, desconhecido... Porquê? Porque os últimos pinguins árticos foram mortos em 1844, perto da Islândia. Isso eu não sabia, e parece ser propositadamente pouco divulgado!
Encontrei essa informação neste blog: oeco.com.br, e daí encontrei depois a informação natural sobre as "grandes alcas" - assim se chamavam os pinguins do Ártico:

Assim, a menos que se pretenda a coincidência do erro, a ilustração do Museu da Marinha assentará num mapa que tinha esses pinguins do norte e que colocava a Terra de Corte Real sob coroa portuguesa. E como a coroa está aberta, não será provavelmente de D. Sebastião, que a veio a fechar, em sinal de independência ao poder imperial, será talvez do seu avô, D. João III. No entanto, tal como se ilustram os pinguins do norte, também aparecem desenhos de cangurus na Austrália, com uma imprecisão que até sugere autenticidade...

Sobre estes pinguins e sobre a presença portuguesa na Terra Nova e Canada, acho que é suficientemente esclarecedora a obra de Jean de Laet, "L'Histoire du Nouveau Monde...", 1640. 
Na página 33, introduz a Nova França e Terra Nova, atribuindo a descoberta da Terra Nova aos Cabotos, venezianos a serviço de Inglaterra, tal como Colombo seria genovês a serviço de Espanha.
A rivalidade Génova-Veneza, habitual na escolha dos Papas, era transportada na legalização da descoberta americana... um genovês para as Antilhas, em 1492, e um veneziano para as Satanazes - Terra Nova, em 1498. É praticamente óbvio que Génova e Veneza sabiam perfeitamente os contornos desse mundo, mas pelas suas limitações logísticas seguiam os cuidados necessários para a aceitação das descobertas - navegaram em serviço de potências externas.

No entanto, Laet não deixa de referir Gaspar Corte Real, dizendo 
"Pouco depois dos Cabotos, a saber no ano 1500, Gaspar Corterealis visita as mesmas terras a comando do rei de Portugal e as descobre pouco depois" (pág. 34). 
Algo perfeitamente justificável... D. Manuel queria definir as possessões outorgadas por Tordesilhas, e assim em 1500, dois anos depois da incursão de Caboto a norte, retira do encobrimento a Terra Nova e o Brasil. Durante um século os ingleses não mais se aventuraram aí e, até à morte de D. Manuel, ninguém reclamou a Terra Nova ou o Canadá.

Depois, Laet justifica o nome "Nova França", dizendo que se chama assim porque os franceses foram os primeiros a penetrar no meio do país, e a se estabelecer a mando do rei. Portanto, é suficientemente lúcido para não atribuir nenhum papel especial de descoberta a Jacques Cartier, que apenas ali chegou em 1535, uma quinzena de anos após a morte de D. Manuel, quase quarenta anos após Caboto.

É sempre instrutivo rever a carta "Pedro Reinel a fez", datada de 1504, mas que suspeitamos ser contemporânea ao Tratado de Tordesilhas. Para além das outras suspeitas, de representação implícita, atentemos aos nomes atribuídos à parte da carta respeitante à Terra Nova (clicar p/ aumentar):

De cima para baixo, podemos ver os nomes:

- y da fortuna,   - y da tormenta
- c do marco,     - sam joham
- sam pedro,      - y das aves
- a dos gamas,           - c de boa ventura
- y de boa ventura,    - c do marco
- y de frey luis,         - b de santa ana (?)
- y dos bacalhaos,     - b da comcepção
- c da espera,            - r das pa...
- r de sam (?)...
- c Raso
( mais em baixo: sam johã e santa cruz)







Uma boa parte destes nomes vai ser mantida na descrição de Jean de Laet, que fala no Cabo de Raz (cabo raso), na ilha das aves, na ilha dos bacalhaus, baía da concepção, na ilha de Frei Luís, e na ilha da tormenta (nome a que associava origem francesa, e de que já falámos a propósito de Melgueiro).

Os nomes portugueses ainda por lá estão: Baccalieu Island na Conception Bay (baía da Concepção), Bonavista, o Manuel's river e St. Johns, sendo o mais explícito Portugal Cove (já mencionado no Portugalliae.blogspot) que, tendo sido destruída e incendiada pelos franceses em 1696, talvez reporte a si o incidente ilustrado "na descida dos franceses à Terra Nova".

Jean de Laet dá-nos uma imagem diferente do simples aportar de Corte Real à Terra Nova. Numa citação (carta enviada a Hayklut), fala-se claramente numa seca de peixe (bacalhaus, claro) e no Cap. III, dá uma descrição dos portos que vão desde o Cabo Raso, falando nos nomes e seguindo as cartas portuguesas:
- Porto Formoso, Água Forte, Ponta do Farilhão, Iheu de Galeotas, Ponta de Ferro, Cabo de Esp(h)era,  St. Jean (São João), Baía da Concepcion, Ilha dos Bacalhaos, Cabo da Boa Vista, Ponta dos Ilhéus de Frei Luis... ilhas de S. Pierre - São Pedro, e ainda uma Ilha dos Pinguins - certamente as Grandes Alcas, que viriam a ser extintas dois séculos mais tarde.
Depois retornando ao Cabo Raso, no outro sentido, fala da Angra dos Trespassam, de um rio Chincheta, indo em direcção ao Cabo dos Bretões (Cap Breton) e passando pelo Porto dos Bascos... (o que dá uma clara ideia de que os pescadores da orla do atlântico, não apenas portugueses, mas também galegos, bascos, bretões e até irlandeses, cruzavam aqueles mares, pela abundância de peixe nos grandes bancos da Terranova).
Fala ainda claramente (pg. 40) de estabelecimentos portugueses na Ilha do Cap Breton, nomeando Ninganis ("enganos" hoje Ingonish, segundo o site dightonrock.com), que depois foi abandonado, bem como outros lugares, devido ao rigor climático. Também diz que os portugueses se tentaram estabelecer na Ilha de Sable, mas sem sucesso, como aconteceria com os franceses através do Marquês de la Roche.

Ou seja, acaba por ser através de Jean de Laet que temos o melhor panorama da presença portuguesa na Terra Nova. Sendo um relato francês, restam poucas dúvidas sobre a permanência naquelas paragens, pelo menos desde 1500 até 1696, aquando da "descida dos franceses"... 
Dada a existência de material estrangeiro atestando a presença nacional na Terra Nova e Nova Escócia (as Satanazes no mapa de Pizzigano de 1424), quanto mais não fosse pela presença para secar o bacalhau... percebe-se pouco a persistência interna em ignorar o assunto, talvez porque se tenha vergonha de assumir que a colónia foi abandonada à sua sorte.
Para além disso, existem mapas que atestam esse senhorio da Terra Nova e Lavrador ao Rei de Portugal e em particular aos Corte-Reais (cf. JM-CH, ver o Catálogo Huntington HM41- folha 4).

Note-se que "Canada" é uma palavra portuguesa antiga para medidas líquidas - era um duodécimo do almude, e dividia-se em seis quartilhos. À época de D. Manuel, uma "canada" seria um litro e meio, em Lisboa, e chegava a mais de dois litros a norte (ver "Mosteiro de St. Tirso", de F. Carvalho Correia). No site dightonrock.com fala-se num imposto de um décimo para o pescado na Terra Nova, sendo a "canada" um duodécimo do almude, não é de descartar que o termo se aplicasse nesse sentido de um imposto menor (8% em vez de 10%...).

Os pinguins do ártico acabaram por desaparecer, tal como praticamente a notícia dos portugueses que colonizaram a Terra Nova, ficou talvez a pequena "Portugal cove". Com o perigo da extinção dos bacalhaus no Canada, a criação de cotas restritivas no início dos anos 1970, e depois o fim dos navios coloniais em 1975, colocaram um ponto final na grande tradição marítima portuguesa. O patrocínio ao abate das frotas de pesca, no final dos anos 80, foi o golpe final. Em pouco menos de 10 anos, a tradição da nação de navegadores reduzia-se à pesca costeira artesanal.

Os colombos americanos
Termino com um outro apontamento de extinção surpreendente.
No Séc. XIX a colombofilia norte-americana parecia concentrar-se na figura de Colombo, recuperando o mito do descobridor caído em desgraça. Do outro lado, para os nativos pombos americanos, os pombos-migratórios, a columbofilia foi diferente. 
Último pombo-migratório (passenger pigeon) - Cincinati zoo.

Consta que os sociáveis pombos-migratórios infestavam os céus americanos, estimando-se em milhares de milhões a sua população. Porém, este sucesso reprodutivo acabaria por levar à sua extinção num curto período de tempo. Foi instaurada uma caça ao pombo, que só pode ser satirizada com o clássico "Stop the pigeon", ainda que este desfecho nada tenha de comédia:

Compreende-se o efeito devastador nas colheitas que poderia ter um bando de pombos com centenas de milhares de indivíduos, e nesse sentido a sua caça indiscriminada pode ser vista nesse contexto. Porém, ao que parece houve um autêntico patrocínio à exterminação completa, terá havido caçadores que sozinhos abateram mais de um milhão de aves.  Havia competições e jogos cujo objectivo era o extermínio. Quando alguns ambientalistas solicitaram uma protecção no estado do Ohio, em 1857, foi considerada absurda pelo número de pássaros existente. Em 1897 as leis de protecção foram ineficazes para travar a extinção. O último exemplar em cativeiro morreria em 1914 no zoo de Cincinati.

Os pombos eram associados a paragens euro-asiáticas, e foi talvez com alguma surpresa que foram sendo encontrados em todo o globo, na África tropical, nas Américas e até na Nova Guiné (onde a espécie "columba coronata" é algo curiosa).

Não me parece que o carácter migrátorio particular aos pombos americanos carregasse alguma mensagem perigosa que levasse a colombofilia a atacar a columbofilia. Já aqui falámos no papel simbólico mensageiro dos pombos, e do seu contraponto na falcoaria.
E acaba por ser simbólico termos as Pleiades, as pombas filhas de Atlas, na Hespérida ocidental, a América, termos um "Colombo" a desencobrir essas paragens,  e depois olhar para a foto de Martha, a última dos pombos-migratórios, vítimas de um holocausto programado:

Nota complementar (2/12/2012): 
Na sequência do comentário do José Manuel, lembrando o acordo de exploração de 1461, entre Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, que envolveu viagens ocidentais do pai dos Cortes-Reais, ficam aqui os links por ele indicados, que complementam a informação:
http://portugalliae.blogspot.ch/2009/06/o-amundsen-ex-quebra-gelo-sir-john.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pesca_do_bacalhau

Aproveito ainda para referir a página do Instituto Camões sobre Diogo Teive:
onde se fala da sua descoberta das ilhas do Corvo e Flores, em 1452, confirmada por cartas de régias de doação, de Afonso V. Em particular é relevante a informação do filho de Cristovão Colombo, que reportando uma viagem ocidental ao Faial de 150 léguas (aprox. 900 km), coloca Diogo Teive mais próximo da Terra Nova do que do Corvo ou Flores (a 200 km).
E também é relevante a informação de Lorenzo Anania já aqui citada, que fala sobre a partida (em 1576) de Aveiro de numerosa frota de navios para a pesca ao bacalhau na Terra Nova.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:23


Grande Alca e outras extinções

por desvela, em 26.11.12
Há já bastante tempo coloquei aqui um mapa datado de 1970, do Museu da Marinha, que pretendia ilustrar os descobrimentos portugueses.
Apesar do mapa dizer ser feito pelo "pessoal técnico do Museu da Marinha", não deixava de conter indicações algo enigmáticas. Uma que notei foi a presença de pinguins na Gronelândia, a que erradamente atribuí um erro de execução, e também a de cangurus na Austrália (algo que não se parece observar em nenhum mapa anterior a Cook):

Acontece que desenhar pinguins árticos num mapa de 1970 parece muito estranho, mas não o seria se fosse baseado num original, desconhecido... Porquê? Porque os últimos pinguins árticos foram mortos em 1844, perto da Islândia. Isso eu não sabia, e parece ser propositadamente pouco divulgado!
Encontrei essa informação neste blog: oeco.com.br, e daí encontrei depois a informação natural sobre as "grandes alcas" - assim se chamavam os pinguins do Ártico:

Assim, a menos que se pretenda a coincidência do erro, a ilustração do Museu da Marinha assentará num mapa que tinha esses pinguins do norte e que colocava a Terra de Corte Real sob coroa portuguesa. E como a coroa está aberta, não será provavelmente de D. Sebastião, que a veio a fechar, em sinal de independência ao poder imperial, será talvez do seu avô, D. João III. No entanto, tal como se ilustram os pinguins do norte, também aparecem desenhos de cangurus na Austrália, com uma imprecisão que até sugere autenticidade...

Sobre estes pinguins e sobre a presença portuguesa na Terra Nova e Canada, acho que é suficientemente esclarecedora a obra de Jean de Laet, "L'Histoire du Nouveau Monde...", 1640. 
Na página 33, introduz a Nova França e Terra Nova, atribuindo a descoberta da Terra Nova aos Cabotos, venezianos a serviço de Inglaterra, tal como Colombo seria genovês a serviço de Espanha.
A rivalidade Génova-Veneza, habitual na escolha dos Papas, era transportada na legalização da descoberta americana... um genovês para as Antilhas, em 1492, e um veneziano para as Satanazes - Terra Nova, em 1498. É praticamente óbvio que Génova e Veneza sabiam perfeitamente os contornos desse mundo, mas pelas suas limitações logísticas seguiam os cuidados necessários para a aceitação das descobertas - navegaram em serviço de potências externas.

No entanto, Laet não deixa de referir Gaspar Corte Real, dizendo 
"Pouco depois dos Cabotos, a saber no ano 1500, Gaspar Corterealis visita as mesmas terras a comando do rei de Portugal e as descobre pouco depois" (pág. 34). 
Algo perfeitamente justificável... D. Manuel queria definir as possessões outorgadas por Tordesilhas, e assim em 1500, dois anos depois da incursão de Caboto a norte, retira do encobrimento a Terra Nova e o Brasil. Durante um século os ingleses não mais se aventuraram aí e, até à morte de D. Manuel, ninguém reclamou a Terra Nova ou o Canadá.

Depois, Laet justifica o nome "Nova França", dizendo que se chama assim porque os franceses foram os primeiros a penetrar no meio do país, e a se estabelecer a mando do rei. Portanto, é suficientemente lúcido para não atribuir nenhum papel especial de descoberta a Jacques Cartier, que apenas ali chegou em 1535, uma quinzena de anos após a morte de D. Manuel, quase quarenta anos após Caboto.

É sempre instrutivo rever a carta "Pedro Reinel a fez", datada de 1504, mas que suspeitamos ser contemporânea ao Tratado de Tordesilhas. Para além das outras suspeitas, de representação implícita, atentemos aos nomes atribuídos à parte da carta respeitante à Terra Nova (clicar p/ aumentar):

De cima para baixo, podemos ver os nomes:

- y da fortuna,   - y da tormenta
- c do marco,     - sam joham
- sam pedro,      - y das aves
- a dos gamas,           - c de boa ventura
- y de boa ventura,    - c do marco
- y de frey luis,         - b de santa ana (?)
- y dos bacalhaos,     - b da comcepção
- c da espera,            - r das pa...
- r de sam (?)...
- c Raso
( mais em baixo: sam johã e santa cruz)







Uma boa parte destes nomes vai ser mantida na descrição de Jean de Laet, que fala no Cabo de Raz (cabo raso), na ilha das aves, na ilha dos bacalhaus, baía da concepção, na ilha de Frei Luís, e na ilha da tormenta (nome a que associava origem francesa, e de que já falámos a propósito de Melgueiro).

Os nomes portugueses ainda por lá estão: Baccalieu Island na Conception Bay (baía da Concepção), Bonavista, o Manuel's river e St. Johns, sendo o mais explícito Portugal Cove (já mencionado no Portugalliae.blogspot) que, tendo sido destruída e incendiada pelos franceses em 1696, talvez reporte a si o incidente ilustrado "na descida dos franceses à Terra Nova".

Jean de Laet dá-nos uma imagem diferente do simples aportar de Corte Real à Terra Nova. Numa citação (carta enviada a Hayklut), fala-se claramente numa seca de peixe (bacalhaus, claro) e no Cap. III, dá uma descrição dos portos que vão desde o Cabo Raso, falando nos nomes e seguindo as cartas portuguesas:
- Porto Formoso, Água Forte, Ponta do Farilhão, Iheu de Galeotas, Ponta de Ferro, Cabo de Esp(h)era,  St. Jean (São João), Baía da Concepcion, Ilha dos Bacalhaos, Cabo da Boa Vista, Ponta dos Ilhéus de Frei Luis... ilhas de S. Pierre - São Pedro, e ainda uma Ilha dos Pinguins - certamente as Grandes Alcas, que viriam a ser extintas dois séculos mais tarde.
Depois retornando ao Cabo Raso, no outro sentido, fala da Angra dos Trespassam, de um rio Chincheta, indo em direcção ao Cabo dos Bretões (Cap Breton) e passando pelo Porto dos Bascos... (o que dá uma clara ideia de que os pescadores da orla do atlântico, não apenas portugueses, mas também galegos, bascos, bretões e até irlandeses, cruzavam aqueles mares, pela abundância de peixe nos grandes bancos da Terranova).
Fala ainda claramente (pg. 40) de estabelecimentos portugueses na Ilha do Cap Breton, nomeando Ninganis ("enganos" hoje Ingonish, segundo o site dightonrock.com), que depois foi abandonado, bem como outros lugares, devido ao rigor climático. Também diz que os portugueses se tentaram estabelecer na Ilha de Sable, mas sem sucesso, como aconteceria com os franceses através do Marquês de la Roche.

Ou seja, acaba por ser através de Jean de Laet que temos o melhor panorama da presença portuguesa na Terra Nova. Sendo um relato francês, restam poucas dúvidas sobre a permanência naquelas paragens, pelo menos desde 1500 até 1696, aquando da "descida dos franceses"... 
Dada a existência de material estrangeiro atestando a presença nacional na Terra Nova e Nova Escócia (as Satanazes no mapa de Pizzigano de 1424), quanto mais não fosse pela presença para secar o bacalhau... percebe-se pouco a persistência interna em ignorar o assunto, talvez porque se tenha vergonha de assumir que a colónia foi abandonada à sua sorte.
Para além disso, existem mapas que atestam esse senhorio da Terra Nova e Lavrador ao Rei de Portugal e em particular aos Corte-Reais (cf. JM-CH, ver o Catálogo Huntington HM41- folha 4).

Note-se que "Canada" é uma palavra portuguesa antiga para medidas líquidas - era um duodécimo do almude, e dividia-se em seis quartilhos. À época de D. Manuel, uma "canada" seria um litro e meio, em Lisboa, e chegava a mais de dois litros a norte (ver "Mosteiro de St. Tirso", de F. Carvalho Correia). No site dightonrock.com fala-se num imposto de um décimo para o pescado na Terra Nova, sendo a "canada" um duodécimo do almude, não é de descartar que o termo se aplicasse nesse sentido de um imposto menor (8% em vez de 10%...).

Os pinguins do ártico acabaram por desaparecer, tal como praticamente a notícia dos portugueses que colonizaram a Terra Nova, ficou talvez a pequena "Portugal cove". Com o perigo da extinção dos bacalhaus no Canada, a criação de cotas restritivas no início dos anos 1970, e depois o fim dos navios coloniais em 1975, colocaram um ponto final na grande tradição marítima portuguesa. O patrocínio ao abate das frotas de pesca, no final dos anos 80, foi o golpe final. Em pouco menos de 10 anos, a tradição da nação de navegadores reduzia-se à pesca costeira artesanal.

Os colombos americanos
Termino com um outro apontamento de extinção surpreendente.
No Séc. XIX a colombofilia norte-americana parecia concentrar-se na figura de Colombo, recuperando o mito do descobridor caído em desgraça. Do outro lado, para os nativos pombos americanos, os pombos-migratórios, a columbofilia foi diferente. 
Último pombo-migratório (passenger pigeon) - Cincinati zoo.

Consta que os sociáveis pombos-migratórios infestavam os céus americanos, estimando-se em milhares de milhões a sua população. Porém, este sucesso reprodutivo acabaria por levar à sua extinção num curto período de tempo. Foi instaurada uma caça ao pombo, que só pode ser satirizada com o clássico "Stop the pigeon", ainda que este desfecho nada tenha de comédia:

Compreende-se o efeito devastador nas colheitas que poderia ter um bando de pombos com centenas de milhares de indivíduos, e nesse sentido a sua caça indiscriminada pode ser vista nesse contexto. Porém, ao que parece houve um autêntico patrocínio à exterminação completa, terá havido caçadores que sozinhos abateram mais de um milhão de aves.  Havia competições e jogos cujo objectivo era o extermínio. Quando alguns ambientalistas solicitaram uma protecção no estado do Ohio, em 1857, foi considerada absurda pelo número de pássaros existente. Em 1897 as leis de protecção foram ineficazes para travar a extinção. O último exemplar em cativeiro morreria em 1914 no zoo de Cincinati.

Os pombos eram associados a paragens euro-asiáticas, e foi talvez com alguma surpresa que foram sendo encontrados em todo o globo, na África tropical, nas Américas e até na Nova Guiné (onde a espécie "columba coronata" é algo curiosa).

Não me parece que o carácter migrátorio particular aos pombos americanos carregasse alguma mensagem perigosa que levasse a colombofilia a atacar a columbofilia. Já aqui falámos no papel simbólico mensageiro dos pombos, e do seu contraponto na falcoaria.
E acaba por ser simbólico termos as Pleiades, as pombas filhas de Atlas, na Hespérida ocidental, a América, termos um "Colombo" a desencobrir essas paragens,  e depois olhar para a foto de Martha, a última dos pombos-migratórios, vítimas de um holocausto programado:

Nota complementar (2/12/2012): 
Na sequência do comentário do José Manuel, lembrando o acordo de exploração de 1461, entre Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, que envolveu viagens ocidentais do pai dos Cortes-Reais, ficam aqui os links por ele indicados, que complementam a informação:
http://portugalliae.blogspot.ch/2009/06/o-amundsen-ex-quebra-gelo-sir-john.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pesca_do_bacalhau

Aproveito ainda para referir a página do Instituto Camões sobre Diogo Teive:
onde se fala da sua descoberta das ilhas do Corvo e Flores, em 1452, confirmada por cartas de régias de doação, de Afonso V. Em particular é relevante a informação do filho de Cristovão Colombo, que reportando uma viagem ocidental ao Faial de 150 léguas (aprox. 900 km), coloca Diogo Teive mais próximo da Terra Nova do que do Corvo ou Flores (a 200 km).
E também é relevante a informação de Lorenzo Anania já aqui citada, que fala sobre a partida (em 1576) de Aveiro de numerosa frota de navios para a pesca ao bacalhau na Terra Nova.

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publicado às 19:23


O panorama austral

por desvela, em 25.11.12
Uma das pequenas surpresas que ganhou uma popularidade turística foi o Ukulele, o cavaquinho havaiano, reportado como tendo sido levado por emigrantes madeirenses para o Havai. Conta a estória que após uma actuação entusiasmante, os havaianos, através do seu rei Kalakaua, começaram a incorporar o cavaquinho na sua música. Se nos parece que o fabrico do cavaquinho pode ter ajudado à música, nada na tradição musical portuguesa se compara aos sons havaianos que dali surgiram... Ao que parece os nativos não dão cavaco a essa estória oficial, e argumentam que a música é mais antiga. 
Talvez até a introdução do cavaquinho tivesse sido mais antiga, nalguma viagem Pacífica não registada, também levada a cabo por portugueses. Pragmaticamente o Rei Kalakaua teria concordado com a versão emigrante... afinal o que se teria passado noutras paragens Pacíficas não afigurava nada de pacífico.

Na página 230 da revista Panorama (Vol. 16) lê-se uma informação instrutiva:
- Os aborígenes australianos dividiam-se em dois grupos: - um de raça negra, semelhante à africana, e outro dos malaios-polinésios... que seria a raça dominante, e a única a impor resistência aos europeus.



Passados alguns anos, os aborígenes passaram a ser entendidos como sendo apenas os negros... os outros teriam desaparecido, como antevia já a revista Panorama. Dos malaios-polinésios podemos ter uma ideia do que se entendia como tal, olhando os Maoris da Nova Zelândia.
É muito natural que os maoris se estendessem da Nova Zelândia à Austrália, e não haveria aparente razão para excluir a Austrália das fixações dos polinésios, especialmente da sua costa oriental.
Já tinha aqui falado na possibilidade de um "reino pirata" na costa oriental australiana, para justificar as ilustrações dos mapas de Dieppe, e a prolongada ausência de exploração de um continente que ficava a distância de piroga das rotas comerciais dos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses ou ingleses... Não tinha considerado a hipótese de um reino polinésio hostil, cujo destino se esfumou na historiografia oficial, até ler este apontamento numa revista da época. 
O genocídio associado à Black War dos anos 1830's é essencialmente reportado à Tasmânia e à raça aborígene negra, e nunca me lembro de ler nenhuma referência a malaios-polinésios... percebe-se agora porquê - desapareceram todos!

Por isso, dado o modo de resolução destes problemas Pacíficos, entendem-se as colaborações mais pacíficas doutros reis, nomeadamente de Kalakaua, ainda que um século antes a vida de Cook tivesse terminado nas ilhas havaianas em 1779, de forma algo similar à de Magalhães.

Os polinésios surgem como um dos últimos mistérios à navegação... a menos que se aceite a tese dos acidentes sucessivos, a sua colonização do maior oceano terrestre, espalhando-se por todas as ilhas pacíficas, faz parecer a história das navegações europeias como aquilo que é - uma fantochada completa!
Em 1947 alguns noruegueses mostraram como seria possível navegar entre a América e a Polinésia, através da viagem da jangada Kon-Tiki (aka Viracocha)... ainda me lembro de ver o livro da expedição na estante lá de casa, foi uma aventura que teve sucesso mundial à época!
No entanto, a estória que iria ser vendida no pós-guerra seria outra, e estas aventuras revelam-se mais como desventuras, a quem não soprarem os ventos da boa ventura. E em navegações com ventos tão adversos, melhor é recolher o velame, ou ousar uma navegação à bolina, como faziam as primeiras caravelas.

Nesse sentido há alguma informação interessante compilada no artigo da Wikipedia "Theory of Portuguese Discovery of Australia", onde se reúnem algumas informações relevantes pelo lado português. Já que o material recolhido em terras australianas parece desaparecer ou ser desacreditado, alinhando toda a documentação oficial na fabulosa teoria do "grande continente difícil de encontrar", é especialmente interessante o mapa de Nicola Desliens (que se inclui nos mapas de Dieppe):

Nicola Desliens (1566)

... e é especialmente interessante ver um mapa onde não aparece o Japão, por isso suspeitaremos baseado em original anterior a 1544, mas onde a extensão australiana começa delineada, com o nome Java Maior, e com as respectivas bandeirinhas portuguesas...

Mas, ao contrário do que é popularizado, descobrir não é encontrar, é retirar do encobrimento, e isso só pode ser feito identificando primeiro o que o encobre. Ora, o encobrir resulta normalmente de calculadas vantagens face ao descobrir... e até que se torne por demais evidente que é pior desvelar o encobridor do que o encoberto, os ventos continuam a soprar no sentido errado da História.

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publicado às 07:52


O panorama austral

por desvela, em 24.11.12
Uma das pequenas surpresas que ganhou uma popularidade turística foi o Ukulele, o cavaquinho havaiano, reportado como tendo sido levado por emigrantes madeirenses para o Havai. Conta a estória que após uma actuação entusiasmante, os havaianos, através do seu rei Kalakaua, começaram a incorporar o cavaquinho na sua música. Se nos parece que o fabrico do cavaquinho pode ter ajudado à música, nada na tradição musical portuguesa se compara aos sons havaianos que dali surgiram... Ao que parece os nativos não dão cavaco a essa estória oficial, e argumentam que a música é mais antiga. 
Talvez até a introdução do cavaquinho tivesse sido mais antiga, nalguma viagem Pacífica não registada, também levada a cabo por portugueses. Pragmaticamente o Rei Kalakaua teria concordado com a versão emigrante... afinal o que se teria passado noutras paragens Pacíficas não afigurava nada de pacífico.

Na página 230 da revista Panorama (Vol. 16) lê-se uma informação instrutiva:
- Os aborígenes australianos dividiam-se em dois grupos: - um de raça negra, semelhante à africana, e outro dos malaios-polinésios... que seria a raça dominante, e a única a impor resistência aos europeus.



Passados alguns anos, os aborígenes passaram a ser entendidos como sendo apenas os negros... os outros teriam desaparecido, como antevia já a revista Panorama. Dos malaios-polinésios podemos ter uma ideia do que se entendia como tal, olhando os Maoris da Nova Zelândia.
É muito natural que os maoris se estendessem da Nova Zelândia à Austrália, e não haveria aparente razão para excluir a Austrália das fixações dos polinésios, especialmente da sua costa oriental.
Já tinha aqui falado na possibilidade de um "reino pirata" na costa oriental australiana, para justificar as ilustrações dos mapas de Dieppe, e a prolongada ausência de exploração de um continente que ficava a distância de piroga das rotas comerciais dos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses ou ingleses... Não tinha considerado a hipótese de um reino polinésio hostil, cujo destino se esfumou na historiografia oficial, até ler este apontamento numa revista da época. 
O genocídio associado à Black War dos anos 1830's é essencialmente reportado à Tasmânia e à raça aborígene negra, e nunca me lembro de ler nenhuma referência a malaios-polinésios... percebe-se agora porquê - desapareceram todos!

Por isso, dado o modo de resolução destes problemas Pacíficos, entendem-se as colaborações mais pacíficas doutros reis, nomeadamente de Kalakaua, ainda que um século antes a vida de Cook tivesse terminado nas ilhas havaianas em 1779, de forma algo similar à de Magalhães.

Os polinésios surgem como um dos últimos mistérios à navegação... a menos que se aceite a tese dos acidentes sucessivos, a sua colonização do maior oceano terrestre, espalhando-se por todas as ilhas pacíficas, faz parecer a história das navegações europeias como aquilo que é - uma fantochada completa!
Em 1947 alguns noruegueses mostraram como seria possível navegar entre a América e a Polinésia, através da viagem da jangada Kon-Tiki (aka Viracocha)... ainda me lembro de ver o livro da expedição na estante lá de casa, foi uma aventura que teve sucesso mundial à época!
No entanto, a estória que iria ser vendida no pós-guerra seria outra, e estas aventuras revelam-se mais como desventuras, a quem não soprarem os ventos da boa ventura. E em navegações com ventos tão adversos, melhor é recolher o velame, ou ousar uma navegação à bolina, como faziam as primeiras caravelas.

Nesse sentido há alguma informação interessante compilada no artigo da Wikipedia "Theory of Portuguese Discovery of Australia", onde se reúnem algumas informações relevantes pelo lado português. Já que o material recolhido em terras australianas parece desaparecer ou ser desacreditado, alinhando toda a documentação oficial na fabulosa teoria do "grande continente difícil de encontrar", é especialmente interessante o mapa de Nicola Desliens (que se inclui nos mapas de Dieppe):

Nicola Desliens (1566)

... e é especialmente interessante ver um mapa onde não aparece o Japão, por isso suspeitaremos baseado em original anterior a 1544, mas onde a extensão australiana começa delineada, com o nome Java Maior, e com as respectivas bandeirinhas portuguesas...

Mas, ao contrário do que é popularizado, descobrir não é encontrar, é retirar do encobrimento, e isso só pode ser feito identificando primeiro o que o encobre. Ora, o encobrir resulta normalmente de calculadas vantagens face ao descobrir... e até que se torne por demais evidente que é pior desvelar o encobridor do que o encoberto, os ventos continuam a soprar no sentido errado da História.

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publicado às 23:52


As Tulipas e os Futuros

por desvela, em 21.11.12
No início do Séc. XVII, a Holanda desenvolveu um particular gosto por tulipas, cujos bulbos podiam até ser comercializados com o valor de moeda. Uma das tulipas, denominada Semper Augustus foi negociada a valor recorde, uma pequena fortuna inalcançável ao normal cidadão holandês.


 
Publicidade ao investimento em tulipas e a famosa Semper Augustus  (wiki).


Esta importância das tulipas foi retomada em romance de 1850, de Alexandre Dumas, "A Tulipa Negra", talvez querendo alertar para o episódio, dado o peso que a especulação financeira retomava no final daquele século.
O fenómeno, que atingiu o pico máximo e o colapso em 1637, é chamado tulipomania, e tem características especulativas muito semelhantes a posteriores crises bolsistas.

(evolução exponencial dos preços entre 1634 e 1637)

Está documentada nesta altura uma forte publicidade e o aparecimento de "contratos de futuros". Estes contratos de futuros eram negociados com expectativas sobre o crescimento económico do valor dos bulbos de tulipas. O aumento dos preços permitia convencer a pagar alto pelo valor de tulipas que se iriam vender no futuro.
Estes mesmos contratos de futuros estiveram na origem da recente crise financeira de 2008, e não são por isso uma invenção recente, conforme é por vezes pensado. São uma arma financeira que permite o enriquecimento rápido de uns poucos, e a ruína abrupta de muitos mais... dito em poucas palavras, permite uma transferência e concentração de riqueza.

Por estranho que pareça, as pessoas parecem alertadas para os esquemas em pirâmide, ou outros contos do vigário, que aparecem aqui e ali (antigamente em cartas, hoje em emails), mas essas cautelas parecem desvanecer-se quando o intermediário aparenta uma credibilidade institucional.

As tulipas chegaram à Holanda originárias da Turquia, numa altura em que a jovem República Holandesa começava a crescer, recebendo o papel de potência marítima, para o qual foi crucial a emigração de muitos judeus, expulsos de Portugal e Espanha. Estes judeus, por sua vez, tinham a mesma origem remota que as tulipas que iriam ser negociadas na Holanda.

Aliás, convirá referir que este espírito capitalista, que desflorava nas tulipas holandesas, não terá tido muito provavelmente a sua estreia na Holanda. O primeiro registo de economia capitalista parece ter sido exercido pelos Khazares, da parte da Tartária contígua ao Mar Cáspio (que inclui as caucasianas Iberia e Albania), onde também surgiram os Otomanos que iriam arrasar Constantinopla.
A extensão do império Khazar até ao Séc. X.

Estes Khazares controlavam grande parte do comércio oriental, feito pela chamada "Rota da Seda", evitando o inicial bloqueio árabe, e a sua conversão ao judaísmo parece ter-se adequado à sua natureza de comerciantes. Sugere-se ainda que os Ashkenazi (basicamente os judeus europeus, de tez mais branca), são descendentes da emigração da Khazaria, que começou com o fim do império Khazar, basicamente desde o Séc. XI, tendo o seu apogeu com o fim da Idade Média, após a queda de Constantinopla. Podemos dizer que saíram da Iberia caucasiana em direcção à Ibéria atlântica, e depois à Holanda, onde foram reencontrar as tulipas nativas.
Bom, e se as tulipas lhes eram especialmente valiosas, por muito que fosse predominante o papel comercial judaico, na Holanda teriam que fazer um reinício, quase do zero. Porém, a nova Republica Holandesa permitia um sistema económico capitalista, que lhes era familiar, e que dominariam particularmente bem. Chegados sem bens notáveis, em breve consumariam uma transferência de riqueza que lhes permitira dominar a sociedade holandesa, em particular através da sua influência na Companhia das Índias Orientais, mas também através destes novos mecanismos especulativos, como foram os contratos de futuros feitos com tulipas.

Um simples bulbo de planta passava em dois ou três anos a valer mais que o ouro, e esta paranóia induzida aos holandeses terá permitido acumular fortunas a quem dominava perfeitamente as nuances do sistema capitalista.

A Holanda acaba por se definir como crucial para os acontecimentos seguintes. Curiosamente são os holandeses que fundam Nova York com o nome Nova Amsterdão, e o seu último governador, Peter Stuyvesant, é quem vai construir uma muralha que deu nome a Wall Street...
Chegada de Stuyvesant a Nova Amsterdão (1647-1664)

Porém esta muralha não resiste à nova Inglaterra de Carlos II (já casado com Catarina de Bragança), e em 1664 os ingleses acabam por conquistar esse território americano. A pequena Holanda não parece conseguir competir com a nova força da Inglaterra.
No entanto, alguns 25 anos mais tarde, em 1689, três anos depois da morte de Carlos II, o novo rei Jaime II, seu irmão, acaba por ser deposto através de uma invasão naval holandesa, comandada por Guilherme de Oranje, na chamada "Revolução Gloriosa". O pretexto que uniu o parlamento inglês ao soberano holandês, contra o rei legítimo, teria sido a crescente tolerância ao catolicismo.
Esta foi a única invasão que a Inglaterra sofreu desde Guilherme I, em Hastings (1066), e curiosamente seria levada a cabo por outro Guilherme. Porém, neste caso não houve praticamente resistência, devido ao apoio do parlamento, pelo que a revolução também traz o epíteto "sem sangue".

O que mais glorioso teve esta invasão de Guilherme III foi o crescimento do país invadido, e o declínio do país invasor. A Holanda acabou por perder o seu aspecto dominante, e a transferência de riqueza, que já se tinha visto ocorrer dos reinos ibéricos para a Holanda, passou da Holanda para a Inglaterra. O mundo financeiro que iria dominar os próximos séculos seria sediado na City de Londres, até passar depois para a muralha de Stuyvesant, Wall Street. A dimensão da Inglaterra permitia uma armada sem rival, para uma política global, algo que seria muito mais difícil de concretizar na frágil Holanda. Um mesmo rei permitiria essa transferência mais comodamente...
As províncias ultramarinas holandesas acabaram por ser anexadas pelos ingleses, mais tarde ou mais cedo. A Austrália manteve-se escondida até à chegada de Cook, bem como a própria Nova Zelândia, que tem o seu nome derivado de Zeeland, a província "conquistada ao mar" pelos holandeses. O facto da ilha ter nome derivado do holandês não parece importar na tentativa de atribuição a Cook.
Assim, a Holanda que sonhou os futuros nos bulbos de túlipa, acabou ver no futuro apenas uma lembrança do seu poder passado.

A mesma esperteza que transformou bulbos de túlipa em ouro, acabou por se manifestar de forma mais contundente na transformação da moeda. A moeda ligava-se ao ouro, que por tradição, desde a Antiguidade, era considerado um elemento valioso. No entanto, no Séc. XX, após a 1ª Guerra Mundial, e especialmente após a 2* Guerra, em Bretton Woods, vai terminar essa ligação ao metal. Já há muito que o gado servira de moeda de troca, e do pecuário saiu a palavra pecuniário, na tradição grega, ou que o sal servira de moeda de troca romana, de onde saíra a palavra salário. Quando se  emitem as primeiras notas de papel, há uma promessa de ligação a um metal depositado, mas essa ligação vai-se desvanecer.
O dinheiro reduz-se a uma troca de confiança assinada em papel de nota, em papel de acções, etc... deixará de ter correspondente em ouro. Tem correspondente em produtos e serviços pela confiança adquirida, mas também há uma "confiança imposta", que serve de "imposto" imperial.

Os bulbos de tulipas caíram porque a sua vulgarização levou a uma inevitável desvalorização, o mesmo ocorreu quando o mercado foi inundado recentemente por "contratos de futuros" sem futuro. Criaram-se perspectivas de fortuna para muitos, como se todos estivessem contentes por ir ganhar a lotaria, sem se dar conta que teriam que dividir o prémio entre si, e que não havia um grande prémio para cada um. Assim, acabamos por ter uma dívida mundial superior em muitas vezes ao produto bruto gerado. Parece importar pouco que o que foi emprestado simplesmente não existia, e que por isso quem o fez, tomou para si, a crédito, o futuro de todos, que não lhe pertencia, diluindo-o nesses contratos.
Assim, as novas gerações acabarão por ver o seu futuro hipotecado pelos contratos de futuros cobrados pelos bulbos de túlipa que a geração anterior contraiu, iludida pelo poder das flores.

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publicado às 07:27


As Tulipas e os Futuros

por desvela, em 20.11.12
No início do Séc. XVII, a Holanda desenvolveu um particular gosto por tulipas, cujos bulbos podiam até ser comercializados com o valor de moeda. Uma das tulipas, denominada Semper Augustus foi negociada a valor recorde, uma pequena fortuna inalcançável ao normal cidadão holandês.


 
Publicidade ao investimento em tulipas e a famosa Semper Augustus  (wiki).


Esta importância das tulipas foi retomada em romance de 1850, de Alexandre Dumas, "A Tulipa Negra", talvez querendo alertar para o episódio, dado o peso que a especulação financeira retomava no final daquele século.
O fenómeno, que atingiu o pico máximo e o colapso em 1637, é chamado tulipomania, e tem características especulativas muito semelhantes a posteriores crises bolsistas.

(evolução exponencial dos preços entre 1634 e 1637)

Está documentada nesta altura uma forte publicidade e o aparecimento de "contratos de futuros". Estes contratos de futuros eram negociados com expectativas sobre o crescimento económico do valor dos bulbos de tulipas. O aumento dos preços permitia convencer a pagar alto pelo valor de tulipas que se iriam vender no futuro.
Estes mesmos contratos de futuros estiveram na origem da recente crise financeira de 2008, e não são por isso uma invenção recente, conforme é por vezes pensado. São uma arma financeira que permite o enriquecimento rápido de uns poucos, e a ruína abrupta de muitos mais... dito em poucas palavras, permite uma transferência e concentração de riqueza.

Por estranho que pareça, as pessoas parecem alertadas para os esquemas em pirâmide, ou outros contos do vigário, que aparecem aqui e ali (antigamente em cartas, hoje em emails), mas essas cautelas parecem desvanecer-se quando o intermediário aparenta uma credibilidade institucional.

As tulipas chegaram à Holanda originárias da Turquia, numa altura em que a jovem República Holandesa começava a crescer, recebendo o papel de potência marítima, para o qual foi crucial a emigração de muitos judeus, expulsos de Portugal e Espanha. Estes judeus, por sua vez, tinham a mesma origem remota que as tulipas que iriam ser negociadas na Holanda.

Aliás, convirá referir que este espírito capitalista, que desflorava nas tulipas holandesas, não terá tido muito provavelmente a sua estreia na Holanda. O primeiro registo de economia capitalista parece ter sido exercido pelos Khazares, da parte da Tartária contígua ao Mar Cáspio (que inclui as caucasianas Iberia e Albania), onde também surgiram os Otomanos que iriam arrasar Constantinopla.
A extensão do império Khazar até ao Séc. X.

Estes Khazares controlavam grande parte do comércio oriental, feito pela chamada "Rota da Seda", evitando o inicial bloqueio árabe, e a sua conversão ao judaísmo parece ter-se adequado à sua natureza de comerciantes. Sugere-se ainda que os Ashkenazi (basicamente os judeus europeus, de tez mais branca), são descendentes da emigração da Khazaria, que começou com o fim do império Khazar, basicamente desde o Séc. XI, tendo o seu apogeu com o fim da Idade Média, após a queda de Constantinopla. Podemos dizer que saíram da Iberia caucasiana em direcção à Ibéria atlântica, e depois à Holanda, onde foram reencontrar as tulipas nativas.
Bom, e se as tulipas lhes eram especialmente valiosas, por muito que fosse predominante o papel comercial judaico, na Holanda teriam que fazer um reinício, quase do zero. Porém, a nova Republica Holandesa permitia um sistema económico capitalista, que lhes era familiar, e que dominariam particularmente bem. Chegados sem bens notáveis, em breve consumariam uma transferência de riqueza que lhes permitira dominar a sociedade holandesa, em particular através da sua influência na Companhia das Índias Orientais, mas também através destes novos mecanismos especulativos, como foram os contratos de futuros feitos com tulipas.

Um simples bulbo de planta passava em dois ou três anos a valer mais que o ouro, e esta paranóia induzida aos holandeses terá permitido acumular fortunas a quem dominava perfeitamente as nuances do sistema capitalista.

A Holanda acaba por se definir como crucial para os acontecimentos seguintes. Curiosamente são os holandeses que fundam Nova York com o nome Nova Amsterdão, e o seu último governador, Peter Stuyvesant, é quem vai construir uma muralha que deu nome a Wall Street...
Chegada de Stuyvesant a Nova Amsterdão (1647-1664)

Porém esta muralha não resiste à nova Inglaterra de Carlos II (já casado com Catarina de Bragança), e em 1664 os ingleses acabam por conquistar esse território americano. A pequena Holanda não parece conseguir competir com a nova força da Inglaterra.
No entanto, alguns 25 anos mais tarde, em 1689, três anos depois da morte de Carlos II, o novo rei Jaime II, seu irmão, acaba por ser deposto através de uma invasão naval holandesa, comandada por Guilherme de Oranje, na chamada "Revolução Gloriosa". O pretexto que uniu o parlamento inglês ao soberano holandês, contra o rei legítimo, teria sido a crescente tolerância ao catolicismo.
Esta foi a única invasão que a Inglaterra sofreu desde Guilherme I, em Hastings (1066), e curiosamente seria levada a cabo por outro Guilherme. Porém, neste caso não houve praticamente resistência, devido ao apoio do parlamento, pelo que a revolução também traz o epíteto "sem sangue".

O que mais glorioso teve esta invasão de Guilherme III foi o crescimento do país invadido, e o declínio do país invasor. A Holanda acabou por perder o seu aspecto dominante, e a transferência de riqueza, que já se tinha visto ocorrer dos reinos ibéricos para a Holanda, passou da Holanda para a Inglaterra. O mundo financeiro que iria dominar os próximos séculos seria sediado na City de Londres, até passar depois para a muralha de Stuyvesant, Wall Street. A dimensão da Inglaterra permitia uma armada sem rival, para uma política global, algo que seria muito mais difícil de concretizar na frágil Holanda. Um mesmo rei permitiria essa transferência mais comodamente...
As províncias ultramarinas holandesas acabaram por ser anexadas pelos ingleses, mais tarde ou mais cedo. A Austrália manteve-se escondida até à chegada de Cook, bem como a própria Nova Zelândia, que tem o seu nome derivado de Zeeland, a província "conquistada ao mar" pelos holandeses. O facto da ilha ter nome derivado do holandês não parece importar na tentativa de atribuição a Cook.
Assim, a Holanda que sonhou os futuros nos bulbos de túlipa, acabou ver no futuro apenas uma lembrança do seu poder passado.

A mesma esperteza que transformou bulbos de túlipa em ouro, acabou por se manifestar de forma mais contundente na transformação da moeda. A moeda ligava-se ao ouro, que por tradição, desde a Antiguidade, era considerado um elemento valioso. No entanto, no Séc. XX, após a 1ª Guerra Mundial, e especialmente após a 2* Guerra, em Bretton Woods, vai terminar essa ligação ao metal. Já há muito que o gado servira de moeda de troca, e do pecuário saiu a palavra pecuniário, na tradição grega, ou que o sal servira de moeda de troca romana, de onde saíra a palavra salário. Quando se  emitem as primeiras notas de papel, há uma promessa de ligação a um metal depositado, mas essa ligação vai-se desvanecer.
O dinheiro reduz-se a uma troca de confiança assinada em papel de nota, em papel de acções, etc... deixará de ter correspondente em ouro. Tem correspondente em produtos e serviços pela confiança adquirida, mas também há uma "confiança imposta", que serve de "imposto" imperial.

Os bulbos de tulipas caíram porque a sua vulgarização levou a uma inevitável desvalorização, o mesmo ocorreu quando o mercado foi inundado recentemente por "contratos de futuros" sem futuro. Criaram-se perspectivas de fortuna para muitos, como se todos estivessem contentes por ir ganhar a lotaria, sem se dar conta que teriam que dividir o prémio entre si, e que não havia um grande prémio para cada um. Assim, acabamos por ter uma dívida mundial superior em muitas vezes ao produto bruto gerado. Parece importar pouco que o que foi emprestado simplesmente não existia, e que por isso quem o fez, tomou para si, a crédito, o futuro de todos, que não lhe pertencia, diluindo-o nesses contratos.
Assim, as novas gerações acabarão por ver o seu futuro hipotecado pelos contratos de futuros cobrados pelos bulbos de túlipa que a geração anterior contraiu, iludida pelo poder das flores.

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publicado às 23:27


Cabeça perdida

por desvela, em 14.11.12
É complicado justificar o achado de uma escultura romana numa estação arqueológica mexicana, neste caso trata-se de uma cabeça fora do sitio...
Eventualmente isso levaria a admitir viagens pré-colombianas à América, e isso é um dos tabus em que ainda não há autorização para tocar.

Cabeça romana encontrada em Tecaxic-Calixtlahuaca (México)

É sempre engraçado e risível observar a reacção a estes achados. Arranja-se sempre uma objecção, por mais estúpida que se possa imaginar.
A solução neste caso foi assumir posteriormente que se tinha tratado de uma brincadeira de um estudante, nas escavações realizadas em 1933.
Quer o professor J.G. Payon, quer o estudante, já estão ambos mortos, e por isso a história nunca foi confirmada, terá sido apenas lançada para o ar depois, pretendendo-se remeter ao descrédito a importante descoberta que tinha escapado ao crivo censório.
Este tipo de atitudes difamatórias resultam bem numa estrutura piramidal académica. 
Aliás, o Prof. Hristov deixou na sua página elementos esclarecedores de como actua o sistema censório actual. Esta reacção de Paul Schmidt é instrutiva:
When Hristov was here, two or three years ago, he approached me to read the first draft of the article. At that time I told him something the old-timers know: A typical student prank; the figurine was planted in Don Pepe's [José Garcia Payón's] dig, the saying goes, by Hugo Moedano. Don Pepe took it so seriously that no one had the heart to tell him it was a joke. This I remember having been told by John Paddock, and others of the older generation –Jaime Litvak for example- had heard this. Hristov refused to check out the story; he told me he had not encountered a published reference to this anywhere!
      Taking into consideration Hristov's known unethical behavior and the obvious controversy which would result from the publication, I find it extremely hard to believe that two of the three serious and professional referees (and in this case perhaps five should have been consulted) would support the article. Consider that a preliminary version of the article was published in Arqueología Mexicana, causing Jaime Litvak to resign from the editorial board."
Paul Schmidt pretendia que por ter contado a Hristov a estorieta de John Paddock, de que o achado tinha sido uma partida estudantil, isso colocasse um ponto final no assunto. Como Hristov não acreditou numa estorieta não documentada, passou a ter "falta de ética". Schmidt queixava-se à revista  porque o artigo tinha passado por 3 referees, e não teria sido chumbado... diz ele que deveriam ter sido mais - de preferência que subscrevessem a estorieta, está visto!

Esta transcrição é elucidativa, e Paul Schmidt acaba por lançar mais crédito à descoberta com a sua carta pouco ética e ainda menos científica... parecendo que ele é que ficou com a cabeça perdida.
Ficamos assim a saber que basta invocar um diz-que-disse (sic. "the saying goes"), uma anedota estudantil, para invalidar achados arqueológicos incómodos.

Porém estas coisas não devem ser vistas isoladamente, há pontos comuns nestas desacreditações institucionalizadas. Há depois quem acredite seriamente, pelo simples facto de ter sido sempre admitido que se tratava de falsificação, como será o caso das Pedras de Ica.

Nesta cabeça, há porém algo mais complicado, porque é praticamente admitido que se trata de uma cabeça romana do Séc. III, que foi parar ao México. Dificilmente é de acreditar que o estudante mexicano tivesse acesso a tal coisa, e que levasse a brincadeira tão longe. Onde a teria arranjado? Não deveria haver em 1933 muitas esculturas romanas à solta em museus mexicanos. Porém este tipo de justificações, necessárias para validar a estorieta da brincadeira, não parecem ser necessárias.
O local de escavações foi datado entre 1476-1510, ou seja antes da presença espanhola. Ainda que fosse depois, perguntar-se-ia o que faria um soldado espanhol levar uma cabeça romana para o México? Era para lançar a confusão no Séc. XX? 

Esta cabeça não está fora do sítio, se atendermos o que fomos aqui recolhendo. Já Candido Costa falava nos achados ptolomaicos em Montevideo e também já aqui falámos da coluna romana que está na cidade de Natal, só para relembrar alguns dos outros exemplos.

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publicado às 05:38


Cabeça perdida

por desvela, em 13.11.12
É complicado justificar o achado de uma escultura romana numa estação arqueológica mexicana, neste caso trata-se de uma cabeça fora do sitio...
Eventualmente isso levaria a admitir viagens pré-colombianas à América, e isso é um dos tabus em que ainda não há autorização para tocar.
Cabeça romana encontrada em Tecaxic-Calixtlahuaca (México)

É sempre engraçado e risível observar a reacção a estes achados. Arranja-se sempre uma objecção, por mais estúpida que se possa imaginar.
A solução neste caso foi assumir posteriormente que se tinha tratado de uma brincadeira de um estudante, nas escavações realizadas em 1933.
Quer o professor J.G. Payon, quer o estudante, já estão ambos mortos, e por isso a história nunca foi confirmada, terá sido apenas lançada para o ar depois, pretendendo-se remeter ao descrédito a importante descoberta que tinha escapado ao crivo censório.
Este tipo de atitudes difamatórias resultam bem numa estrutura piramidal académica. 
Aliás, o Prof. Hristov deixou na sua página elementos esclarecedores de como actua o sistema censório actual. Esta reacção de Paul Schmidt é instrutiva:
When Hristov was here, two or three years ago, he approached me to read the first draft of the article. At that time I told him something the old-timers know: A typical student prank; the figurine was planted in Don Pepe's [José Garcia Payón's] dig, the saying goes, by Hugo Moedano. Don Pepe took it so seriously that no one had the heart to tell him it was a joke. This I remember having been told by John Paddock, and others of the older generation –Jaime Litvak for example- had heard this. Hristov refused to check out the story; he told me he had not encountered a published reference to this anywhere!
      Taking into consideration Hristov's known unethical behavior and the obvious controversy which would result from the publication, I find it extremely hard to believe that two of the three serious and professional referees (and in this case perhaps five should have been consulted) would support the article. Consider that a preliminary version of the article was published in Arqueología Mexicana, causing Jaime Litvak to resign from the editorial board."
Paul Schmidt pretendia que por ter contado a Hristov a estorieta de John Paddock, de que o achado tinha sido uma partida estudantil, isso colocasse um ponto final no assunto. Como Hristov não acreditou numa estorieta não documentada, passou a ter "falta de ética". Schmidt queixava-se à revista  porque o artigo tinha passado por 3 referees, e não teria sido chumbado... diz ele que deveriam ter sido mais - de preferência que subscrevessem a estorieta, está visto!

Esta transcrição é elucidativa, e Paul Schmidt acaba por lançar mais crédito à descoberta com a sua carta pouco ética e ainda menos científica... parecendo que ele é que ficou com a cabeça perdida.
Ficamos assim a saber que basta invocar um diz-que-disse (sic. "the saying goes"), uma anedota estudantil, para invalidar achados arqueológicos incómodos.

Porém estas coisas não devem ser vistas isoladamente, há pontos comuns nestas desacreditações institucionalizadas. Há depois quem acredite seriamente, pelo simples facto de ter sido sempre admitido que se tratava de falsificação, como será o caso das Pedras de Ica.

Nesta cabeça, há porém algo mais complicado, porque é praticamente admitido que se trata de uma cabeça romana do Séc. III, que foi parar ao México. Dificilmente é de acreditar que o estudante mexicano tivesse acesso a tal coisa, e que levasse a brincadeira tão longe. Onde a teria arranjado? Não deveria haver em 1933 muitas esculturas romanas à solta em museus mexicanos. Porém este tipo de justificações, necessárias para validar a estorieta da brincadeira, não parecem ser necessárias.
O local de escavações foi datado entre 1476-1510, ou seja antes da presença espanhola. Ainda que fosse depois, perguntar-se-ia o que faria um soldado espanhol levar uma cabeça romana para o México? Era para lançar a confusão no Séc. XX? 

Esta cabeça não está fora do sítio, se atendermos o que fomos aqui recolhendo. Já Candido Costa falava nos achados ptolomaicos em Montevideo e também já aqui falámos da coluna romana que está na cidade de Natal, só para relembrar alguns dos outros exemplos.

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publicado às 21:38


Hwui Shan e Fusang

por desvela, em 12.11.12
Na sequência do texto anterior, sobre a eventual presença de Cristo na Índia, comentei sobre o papel dos missionários budistas na divulgação da religião. Esse aspecto está bem salientado no livro 
"An Inglorious Columbus", de Edward Vining, 1885

O livro fala do relato missionário de Hui Shan, monge budista do Séc. V, que teria abordado o desconhecido país de Fusang em conjunto com um grupo de budistas do Afeganistão.  Este seria o mesmo Fusang reportado por Marco Polo, e que começava a constar na Cartografia do Séc. XVIII, conforme já aqui abordámos.
Na realidade este debate sobre uma Fusang americana começa a ser explícito em França, em 1761, por Joseph de Guignes, que lança nesse ano duas memórias (cf. wiki):
  • Recherches sur les Navigations des Chinois du Cote de l'Amerique, et sur quelques Peuples situés a l'extremite orientale de l"asie. (1761)
  • Le Fou-Sang des Chinois est-il l'Amérique? Mémoires de l'Académie des Inscriptions et Belles Lettres, tome 28, Paris, 1761
A Companhia das Índias Francesa cessaria funções pouco depois, e passados 5 anos Cook é autorizado a zarpar pelo Pacífico - o Fusang americano desaparece sem rasto. No entanto, durante o Séc. XIX e até à 1ª Guerra Mundial, a questão da ligação chinesa à América estará presente nas discussões, como verificámos com Cândido Costa
Dez anos antes de Vining, em 1875 Charles Leland já tinha lançado o livro:
 Fusang or the Discovery of America by Chinese Buddhist Priests in the Fifth Century
que praticamente aborda o mesmo tema. Ou ainda, 
Notices of Fusang de William Wells, 1881, traduzido de Ma Twan-Lin (Séc. XIII).

É perfeitamente natural que a determinação dos monges budistas, na propagação da sua religião, os tivesse levado a paragens americanas. As civilizações americanas, por exemplo a Azteca ou a Inca não parecem ter acolhido essa filosofia, e se os houve, não restaram nenhuns Budas de pé, nem sentados ou mesmo deitados... ainda que Vining tenha procurado encontrar poses budistas nalgumas figuras Aztecas. De acordo com Vining, a rota seguida por Hwui Shan teria sido a seguinte:
E. Vining - suposta navegação feita por Hwui Sheng

A terra de Fusang, Fu Sang Kwoh, situar-se-ia na região californiana, e já na parte mexicana encontramos assinalado o "país das mulheres"... lembrando a motivação feminina que levou à designação do Amazonas, já em plena América do Sul.

Fu sang seria o nome dado a uma árvore sagrada, associada ao Aloe ou Agave Americano (ver chinahistoryforum.com), ou Piteira, uma espécie de cacto que quando floresce produz uma notável árvore:
A "árvore" da Piteira - Aloe ou Agave Americano

Noutra versão, o nome Fu Sang é associado a uma outra árvore - a Amoreira. A este propósito, citamos Alexander M'Alan:
Mulberry land is there, say the Chinese.
Mulberry land is here, say the Mexicans.
no livro Ancient Chinese account of the Grand Canyon (1913).

Porém, de entre estes autores, Joseph de Guignes levanta uma hipótese surpreendente, e que foi fortemente rebatida pelos seus contemporâneos - Teria sido a China uma colónia egípcia?
E se a argumentação assentava essencialmente no carácter ideográfico de ambas as escritas, não sei por que razão não seria de levantar o recíproco... até porque o Egipto apareceu quase singular a ocidente na sua faceta ideográfica. Essa argumentação continha ainda a pretensão da ligação chinesa aos povos mexicanos, que também tinham desenvolvido escritas ideográficas.

É interessante encontrar estas possibilidades abordados no Séc. XVIII, e talvez só pecassem por tardias... e por mais inverosímeis que possam parecer, é mais estranho terem desaparecido, e no meio do politicamente correcto, numa altura em que sabemos já da existência de pirâmides na China, ninguém ousa retomar as ligações.

Será que os construtores de pirâmides estavam destinados a desenvolver escritas ideográficas? 
Não parecerá estranho terem sido desenvolvidas pirâmides no Egipto, na China, no México, e sempre associadas a povos com escritas ideográficas? Não será de suspeitar de um elo comum?
Para esse efeito, Vining vai buscar uma notável associação feita por Humboldt, entre a designação dos animais associados aos signos tibetanos e os hieróglifos mexicanos para a ordem dos dias, evidenciando uma coincidência que dificilmente se poderá tomar como acidental:
Tabela de Humboldt - signos tibetanos e dias mexicanos

Ainda que se ofereça perguntar por que razão os mexicanos falariam em tigres, talvez se trate de associação com o jaguar, não sendo de excluir outras possibilidades menos convencionais - afinal foram encontradas representações de leões - ver Leão de Techialoyan, e ver agora também as piteiras, que constavam na página ao lado...

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publicado às 05:31


Hwui Shan e Fusang

por desvela, em 11.11.12
Na sequência do texto anterior, sobre a eventual presença de Cristo na Índia, comentei sobre o papel dos missionários budistas na divulgação da religião. Esse aspecto está bem salientado no livro 
"An Inglorious Columbus", de Edward Vining, 1885

O livro fala do relato missionário de Hui Shan, monge budista do Séc. V, que teria abordado o desconhecido país de Fusang em conjunto com um grupo de budistas do Afeganistão.  Este seria o mesmo Fusang reportado por Marco Polo, e que começava a constar na Cartografia do Séc. XVIII, conforme já aqui abordámos.
Na realidade este debate sobre uma Fusang americana começa a ser explícito em França, em 1761, por Joseph de Guignes, que lança nesse ano duas memórias (cf. wiki):
  • Recherches sur les Navigations des Chinois du Cote de l'Amerique, et sur quelques Peuples situés a l'extremite orientale de l"asie. (1761)
  • Le Fou-Sang des Chinois est-il l'Amérique? Mémoires de l'Académie des Inscriptions et Belles Lettres, tome 28, Paris, 1761
A Companhia das Índias Francesa cessaria funções pouco depois, e passados 5 anos Cook é autorizado a zarpar pelo Pacífico - o Fusang americano desaparece sem rasto. No entanto, durante o Séc. XIX e até à 1ª Guerra Mundial, a questão da ligação chinesa à América estará presente nas discussões, como verificámos com Cândido Costa
Dez anos antes de Vining, em 1875 Charles Leland já tinha lançado o livro:
 Fusang or the Discovery of America by Chinese Buddhist Priests in the Fifth Century
que praticamente aborda o mesmo tema. Ou ainda, 
Notices of Fusang de William Wells, 1881, traduzido de Ma Twan-Lin (Séc. XIII).

É perfeitamente natural que a determinação dos monges budistas, na propagação da sua religião, os tivesse levado a paragens americanas. As civilizações americanas, por exemplo a Azteca ou a Inca não parecem ter acolhido essa filosofia, e se os houve, não restaram nenhuns Budas de pé, nem sentados ou mesmo deitados... ainda que Vining tenha procurado encontrar poses budistas nalgumas figuras Aztecas. De acordo com Vining, a rota seguida por Hwui Shan teria sido a seguinte:
E. Vining - suposta navegação feita por Hwui Sheng

A terra de Fusang, Fu Sang Kwoh, situar-se-ia na região californiana, e já na parte mexicana encontramos assinalado o "país das mulheres"... lembrando a motivação feminina que levou à designação do Amazonas, já em plena América do Sul.

Fu sang seria o nome dado a uma árvore sagrada, associada ao Aloe ou Agave Americano (ver chinahistoryforum.com), ou Piteira, uma espécie de cacto que quando floresce produz uma notável árvore:
A "árvore" da Piteira - Aloe ou Agave Americano

Noutra versão, o nome Fu Sang é associado a uma outra árvore - a Amoreira. A este propósito, citamos Alexander M'Alan:
Mulberry land is there, say the Chinese.
Mulberry land is here, say the Mexicans.
no livro Ancient Chinese account of the Grand Canyon (1913).

Porém, de entre estes autores, Joseph de Guignes levanta uma hipótese surpreendente, e que foi fortemente rebatida pelos seus contemporâneos - Teria sido a China uma colónia egípcia?
E se a argumentação assentava essencialmente no carácter ideográfico de ambas as escritas, não sei por que razão não seria de levantar o recíproco... até porque o Egipto apareceu quase singular a ocidente na sua faceta ideográfica. Essa argumentação continha ainda a pretensão da ligação chinesa aos povos mexicanos, que também tinham desenvolvido escritas ideográficas.

É interessante encontrar estas possibilidades abordados no Séc. XVIII, e talvez só pecassem por tardias... e por mais inverosímeis que possam parecer, é mais estranho terem desaparecido, e no meio do politicamente correcto, numa altura em que sabemos já da existência de pirâmides na China, ninguém ousa retomar as ligações.

Será que os construtores de pirâmides estavam destinados a desenvolver escritas ideográficas? 
Não parecerá estranho terem sido desenvolvidas pirâmides no Egipto, na China, no México, e sempre associadas a povos com escritas ideográficas? Não será de suspeitar de um elo comum?
Para esse efeito, Vining vai buscar uma notável associação feita por Humboldt, entre a designação dos animais associados aos signos tibetanos e os hieróglifos mexicanos para a ordem dos dias, evidenciando uma coincidência que dificilmente se poderá tomar como acidental:
Tabela de Humboldt - signos tibetanos e dias mexicanos

Ainda que se ofereça perguntar por que razão os mexicanos falariam em tigres, talvez se trate de associação com o jaguar, não sendo de excluir outras possibilidades menos convencionais - afinal foram encontradas representações de leões - ver Leão de Techialoyan, e ver agora também as piteiras, que constavam na página ao lado...

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