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O Carmo e a Trindade (4) - o "potro"

por desvela, em 31.01.16
Em dois postais anteriores, com o título "Fazer Gazeta" (1) e (2), trouxe aqui de novo o Processo dos Távoras, mas na perspectiva dos órgãos informativos da época - as gazetas. No primeiro, o incidente reportado na Gazeta de Lisboa, no segundo o incidente reportado no Universal Chronicle de Londres.
Um comentário de João Ribeiro remeteu para um antigo programa de José Hermano Saraiva, no arquivo da RTP, onde se abordava o assunto com "algum detalhe"... 
"O meu sítio de Belém" - José Hermano Saraiva.

Como este episódio já teve extenso tratamento por muita gente (inclusive uma série TV de Moita Flores), dificilmente trarei aqui algo de novo... para além de acumular com outros apontamentos depreciativos que aqui trouxe sobre a actuação do Marquês (que à época nem tampouco Conde era).

Porém há uma palavra-chave no processo que se chama "potro" e que não era nenhum cavalinho de estimação, era um cavalete de tortura, onde as pessoas eram amarradas e esticadas.
A tortura era supervisionada por um "cirurgião", Domingos Moreira Ramalho, dos "cárceres secretos" do Santo Ofício (... a maçonaria contava aqui com a melhor expertise da Santa Inquisição), que limitava a tortura ao ponto da vítima não poder recuperar do tratamento aplicado.
O método era sempre o mesmo... e os manos que gostam de lembrar o facínora em pedestais, podem ver a sua assinatura no processo, bem como a de José António de Oliveira Machado, que coordenou todo o processo formal - com alguns erros processuais (como se esquecer de notificar a Marquesa de Távora), que corrige posteriormente.
José Hermano Saraiva, muito condescendente com a versão oficializada, não deixa de lhe chamar "aborto jurídico"... com o exagero de colocar algo de "jurídico" no qualificativo.
Ainda hoje, temos essa herança legada nos nossos tribunais, onde há perfeitos "abortos jurídicos", como foi a condução do "Processo Casa Pia", uma vergonha nacional da pior espécie, que muito herdou do valor do testemunho dado a troco compensatório, sem reunir quaisquer provas decentes, e manipulando a opinião pública de forma indecente.

Salvador José Durão, de 19 anos, a principal testemunha recebeu 6000 cruzados pela denúncia (mas não terá passado a fidalgo, como o édito real prometia... enquanto Sebastião sim, passou a Conde de Oeiras), e junto com a sua paixoneta, Marianna Theresa, de 18 anos, filha de pedreiro (pouco livre), foram o par decisivo no arranjar da estória. Deles faz parte o primeiro apenso, onde se vê como ela evitou ser apresentada ao potro, quando hesitou.

O potro foi o principal meio usado pelo Marquês de Pombal, para obter as seguintes confissões pretendidas, no Processo dos Távoras. Dos 20 apensos com os interrogatórios há 17 que invocam o uso, enquanto outros confessam perante a perspectiva do seu uso, mas tirando algumas excepções, que resistiram, a maioria acaba por confessar... o quê? - pouco interessa, porque perante a tortura, a posição da vítima é terminar o suplício. 

Apenso 3 do Processo, onde se relata que o
estribeiro José Manuel tinha saúde para receber trato no "potro"

A situação é tanto mais ridícula que, tudo indica que nunca houve nenhum atentado, simplesmente o rei terá caído, e se terá aleijado desastradamente num braço. Isto fica mais ou menos indiciado pela forma como há necessidade de fazer prova do atentado... com juramentos de médicos, e com dois autos ridículos:
  • Auto de corpo de delito feito em uma casaca e veste de Sua Majestade
  • Auto de corpo de delito feito em uma sege (carruagem) de Sua Majestade

Portanto, sentiu-se necessidade de fazer prova que havia uma casaca com buracos e a carruagem tinha outro orifício, digno de grande bacamarte.

O que se segue é extraído da obra de Pedro de Azevedo, que fez em 1921 o excelente trabalho de transcrever o processo para impressão:
O Processo dos Távoras (1921) - transcrição
de que se recomenda leitura.
Aqui faço apenas apontamento das ocorrências da palavra "potro", em quase todos os apensos do processo, e que mostra bem o grau de violência exercido.
  • (pag. 31) ... como a criadagem confessou no potro

  • (pag. 79 - Apenso 3 - réu José Manuel, estribeiro do Duque) E pelo dito Réu dizer, que nada sabia, se mandou que o cirurgião tivesse a diligência sobre a saúde do Réu, e declarasse se tinha alguma enfermidade, que impedisse a dar-se-lhe tratos. E por constar que tinha saúde, e sem impedimento algum para se lhe darem tratos, assim o declarar debaixo do juramento de seu Oficio, de que fiz este termo, que todos assinamos. E logo foi mandado, que o Réu fosse posto no Potro, e atado. E executado assim, ao primeiro trato foi dito pelo Réu, que ele queria declarar a verdade, e que vinha a ser: Que ele Respondente ouvira que o Duque dissera a Duque/a sua mulher que «Assim como foi por huma parte, se fosse pela outra, que não escaparia» (...) 

  • (pag. 85 - Apenso 4 - Manuel da Costa, porteiro do Duque) [o mesmo discurso, do cirurgião - Domingos Monteiro Ramalho, dos cárceres secretos do Santo Ofício - avaliar se o réu tinha boa saúde para receber o tratamentoE logo foi mandado que o dito Reo fosse posto no Potro, e nelle atado, o que assim se executou pelos oficiais para isso determinados, e estando assim atado, e dado o primeiro grau do primeiro trato, e ainda incompleto o dito primeiro grau, disse que queria declarar a verdade, e que esta vinha a ser (...)

  • (pag. 88 - Apenso 5 - Manuel do Nascimento, cavalariça do Duque) [o mesmo discurso sobre a saúde para receber o tratamento do cirurgião Ramalho] E logo foi mandado, que o dito Reo fosse posto no Potro, e nelle alado, o que assim se executou pelos officiais, para isso determinados. E dando-se-lhe trez gráos do primeiro trato, dice que queria confessar, e declarar a verdade, com effeito dice, e declarou : «Que era verdade : Que na noute de trez' de Setembro próximo passado, pelas nove, ou dez horas sahirão da Cavalhariça do dito Duque dois cavallos, a que chamavão o Guardamor, e o Serra, cellados, e enfreados» (...)

  • (pag. 93 - Apenso 7 - António Dias, moço do Duque) [ idem ... tratamento do cirurgião Ramalho] E logo foi mandado, que o dito Reo fosse posto no Potro, e nelle atado, o que assim se executou pelos officiais para isso determinados. E estando assim atado perfeitamente dice o mesmo Reo, que queria confessar toda a verdade, que vinha a ser: «Que era verdade, que na noute de trez de Setembro lhe dera a elle Respondente dito Duque ordem pelas dez horas, e meia pouco mais ou menos, para que mandasse apparelhar as duas Facas, chamadas Palhavam, e Coimbra, e também os dois cavallos, (...)»

  • (pag. 97 - Apenso 8 - António Martins "Pagador", moço de estribaria do Duque) [não foi preciso o cirurgião Ramalho] E sendo-lhe dito que vistas as suas repostas, e culpa que lhe rezultava, estava condemnado a darem-se-lhe tratos. O que ouvido pelo Reo dice: «Que o deixassem considerar hum pouco sobre o que se lhe tinha perguntado». E logo dice : «Que era verdade, e agora lhe lembrava, que o dito Duque costumava hir muitas vezes, antes, e depois do referido insulto a São Roque a fallar com o Padre João de Mattos a Santo Antão, com Jozé Perdigão, com Thimoteo de Oliveira, e com Jacinto da Costa, e com este tratava, e fallava mais vezes do que ainda com os outros».
  • (pag. 99 - Apenso 9 - João Miguel, moço do Duque) [... tratamento do cirurgião Ramalho] E logo foi mandado, que o dito Reo fosse posto no Potro, e nelle atado, o que assim se executou, pelos officiais para isso determinados, e dando-se-lhe dois tratos espertos, e tornando-lhe a fazer perguntas, pertinazmente insistia o Reo em dizer, que nada sabia. E por dizer o cirurgião, que por ora não podia levar mais tratos, o mandarão aliviar delles, e que fosse recolhido para se curar, de que fiz este auto, que o Reo me rogou que por elle comnosco assignasse. E eu Jozé António de Oliveira Machado, que o escrevy, e assigney.

  • (pag. 112 - Apenso 11 - Manuel Alvares Ferreira, guarda-roupa do Duque) [... tratamento do cirurgião Ramalho] E logo foi mandado, que o dito Reo fosse posto no Potro, e atado, e executado assim, se lhe mandou declarasse a verdade pelo que respeitava a Terceiros. E por nada declarar, e dizer o cirurgião, que não podia levar mais tratos, se mandou aliviar, e recolher para se curar. E de tudo se fez este auto que todos assinamos. E por dizer o Reo, que não estava, nem podia assignar, rogou a mim Jozé António de Oliveira Machado, que por elle assignasse, o que fiz, e o escrevy. - Sebastião Jozé de Carvalho e Mello — Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira = Jozé António de Oliveira Machado = A rogo do Reo = Jozé António de Oliveira Machado.

  • (Apenso 12 - António Alvares Ferreira, irmão do anterior) [... confessa praticamente toda a versão]

  • (pag. 126 - Apenso 13 - Braz José, cabo de esquadra do filho do Marquês de Távora) [... tratamento do cirurgião] E logo mandarão que o Reo fosse deitado no Potro, e atado, o que assim se executou pelos officiais para isso determinados, e estando assim lhe fiz outra vez perguntas para que declarasse o que sabia a respeito de Terceiros, debaixo do juramento, que recebido tinha, e por dizer que nada sabia, lhe mandarão dar o primeiro trato, e por continuar na mesma negativa, se passou a dar-se-lhe mais meio trato, e estando nelle, pedio audiência, para confessar, a qual sendo-Ihe concedida, confessou com effeito o seguinte ; a saber : «Que na tarde do mesmo dia trez de Setembro, em que se commetteo o detestável insulto se juntarão, e conferirão, o Marquez Luiz Bernardo de Távora, com seu Irmão Jozé Maria de Távora, sobre os ciúmes que ao primeiro dos sobreditos tinha da Marqueza sua mulher, assentando em que se achavão offendidos, e em que se havião de vingar na preciozissima vida de Sua Magestade; o que elle Respondente sabia pelo ouvir dizer ao sobredito Marquez Luiz Bernardo de Távora, e ao dito seu Irmão Jozé Maria.» 

  • (pag. 129 - Apenso 14 - Joaquim dos Santos, cocheiro do Duque) [... tratamento do cirurgião]  E logo mandarão pôr ao Reo no Potro e nelle atar, o que assim se executou, e tornando a fazer-lhe as perguntas asima pelo que toca a Terceiro, tornou á dizer, que nada sabia. E dando-se lhe o primeiro trato, e trez gráos du segundo, sempre insistiu em negar. E por dizer o Cirurgião, que por ora não podia tolerar mais se mandou aliviar, e recolher para curar. E de tudo fiz este auto que assinamos.

  • (pag. 131 - Apenso 14 - Domingos Marques, moço de cavalariça do Duque) [... tratamento do cirurgião]  E logo mandarão que o Reo fosse posto no Potro, e nelle atado, o que assim se executou pelos officiais para isso determinados, e dando-se-lhe meio trato, dice que queria declarar a verdade, que vinha a ser. «Que era verdade que dois dias antes da noute, em que se derão os sacrílegos tiros em El Rey Nosso Senhor mandara o Marquez de Tavora Luiz Bernardo dois cavallos (...)»

  • (pag. 133 - Apenso 15 - José Fernandes, cavalariça do Marquês de Távora) [... tratamento do cirurgião Ramalho] E logo sendo mandado pòr no Potro, e atado nelle, que assim se executou pelos offíciais para isso determinados. E tendo-se-lhe dado hum esperto só dice, que o dito Marquez quazi sempre costumava vir pelas onze horas e meia noute, e que na dos referidos tiros não sahira a cavallo, que sahiria de sege, por que lhe não lembrava a noute. E logo o mandarão aliviar, e recolher para se curar, de que fiz este auto, que o rogo do Reo comnosco assignou

  • (pag. 135 - Apenso 15 - José António, bolieiro do Marquês de Távora) [... tratamento do cirurgião Ramalho]  E logo foi mandado pôr o dito Reo no Potro, e a elle atado, o que assim se executou, pelos ofhciais para isso determinados, e dando-se-lhe hum esperto, dice queria declarar a verdade, que era. Que na tarde precedente á noute, em que se derão os referidos tiros, sahira o dito Marquez seu amo na sege, e viera para caza do Duque de Aveiro, e ahi estivera thé a meia noute pouco mais, ou menos (...)

  • (pag. 137 - Apenso 15 - João Bernardo, moço do Marquês de Távora) [... tratamento do cirurgião Ramalho]  E logo mandarão que o Reo fosse posto no Potro, e nelle atado, o que assim se executou pelos officiais para isso determinados. E sendo outra vez perguntado pelas mesmas perguntas de baixo do juramento dos Santos Evangelhos, que já se lhe havia deferido, pelo que tocava a Terceiros. E por dizer que nada sabia se lhe dêo o primeiro grão do primeiro trato. E por dizer que queria declarar a verdade, sendo admittido dice. (...)

  • (pag. 143 - Apenso 16 - Luís Bernardo de Távora, filho do Marquês) [... tratamento do cirurgião Ramalho]  E logo foi mandado, que o Reo se deitasse no Potro, e se atasse, o que assim se executou, pelos officiais para isso determinados. E eu lhe tornei a dizer, que declarasse a verdade do que elle Reo sabia a respeito de Terceiros, e tendo trez quartos de tratos do primeiro trato, dice que queria declarar a verdade. E declarou sendo ouvido o seguinte. «Que elle Respondente se achara com o Marquez Francisco de Assiz de Távora seu Pai e com a Marqueza Dona Leonor de Távora sua Mãe, e com o Duque de Aveiro, em caza do mesmo Duque, onde assentarão de commum acordo, que subindo o Senhor Infante Dom Pedro ao Throno, tornaria ao seu antecedente poder o governo delle Mordomo Mor, e dos Religiosos da companhia de Jezus.» (...)

  • (pag. 150 - Apenso 17 - Jerónimo de Ataíde, Conde de Atouguia) [... tratamento do cirurgião Ramalho]   E logo foi mandado, que o Reo se pozesse no Potro, e que nelle se deitasse, o que assim se executou pelos officiais para isso determinados. E eu o tornei a admoestar para que declarasse a verdade do que elle Reo sabia a respeito de Terceiros, e por dizer que nada sabia, se lhe deo o tormento, que tolerou athé haver sofrido hum trato esperto inteiro, e hum quarto mais em ametade do corpo. E requerendo então se lhe suspendesse o tormento, por que queria dizer a verdade : E mandando suspender o mesmo tormento no grão em que se achava : Declarou nelle debaixo do juramento que tinha tomado, pelo que respeitava a Terceiros o seguinte :  (i) Que em caza do Duque de Aveiro se tinhão praticas com os parentes, das quais elle Duque, e a Duqueza sua mulher persuadirão aos Marquezes de Távora sogros delle Respondente, e a Manoel de Távora seu Tio a necessidade que havia de se effectuar a beneficio de todos o cazamento da Princeza Nossa Senhora com o Sereníssimo Senhor Infante Dom Pedro: E o muito que importava para se effectuar o dito cazamento, que se tirasse a El Rey Nosso Senhor a sua preciozissima e gloriozissima vida. (ii) Que em caza dos ditos Marquezes seus sogros, e principalmente a Marqueza Dona Leonor de Távora, se fallava no governo d'El Rey Nosso Senhor com aversão, e ódio, dirigindo-se a dita Marqueza em tudo pelo espirito, e conselhos do Padre Malagrida. 

  • (pag. 153 - Apenso 18 - José Mascarenhas, Duque de Aveiro) [... sem tratamento]  E sendo admoestado primeira, segunda, e terceira vez, que visse, que com a impenitencia, e com a negativa, fazia a sua culpa mais enorme; por quanto se provava plenamente, que elle sabia de sciencia certa a cauza da sua prizão. Respondeo, que tinha dito, e insistio em que nada mais tinha que accrescentar. (...) 
  • Respondeo insistindo em que nada soubera á cerca do referido insul
  • to, antes de commettido, e que so depois do mesmo insulto, perguntando 
  • ao Marquez de Anjeja, qual tinha sido a cauza da queixa de Sua Magesta
  • de, lhe respondeo, que fora huma queda. E que succedeo na tarde do dia 
  • próximo seguinte ao dito insulto. (...) [mas a dado momento o Duque de Aveiro, sem razão visível, muda o discurso por completo, e "por descargo de consciência" confessa o atentado... implicando jesuítas e Távoras]
  • (pag. 174 - Apenso 19 - José Maria, filho do Marquês de Távora) [... com tratamento do cirurgião Ramalho] E logo foi mandado, que o Reo fosse posto no Potro, e atado, que assim se executou pelos guardas para isso determinados; e eu lhe tornei a dizer que declarasse a verdade, do que elle Reo sabia sobre os cúmplices do delicto de que se trata. E pelo Reo dizer que nada sabia ao dito respeito porque havia contra elle Reo prova bastante; e por estar pertinazmente negativo, e por dizer o Cirurgião não podia tolerar, mais tormento, depois de haver sofrido trato, e meio, o mandarão tirar delle, e cesasse, e se recolheçe para se curar, e de tudo fiz este termo, que todos assignamos.
  • (pag. 180 - Apenso 20 - Francisco de Assis, Marquês de Távora) [... com tratamento do cirurgião Ramalho] E logo foi mandado, que o Reo se deitasse no Potro, e fosse atado nas pernas, e braços, o que assim se executou pelos officiais para isso determinados; E logo lhe tornei a fazer perguntas para que declarasse a verdade do que elle Reo sabia a respeito de Terceiros cúmplices no referid< delicto ; e pelo dito Reo tornar a dizer que nada sabia se lhe mandou dar o primeiro trato, e estando com elle apertado, lhe tornei a fazer pergunta na forma asima mencionada que declarasse a verdade á cerca dos cúmplices, esteve pertinazmente negativo no trato, e por o Cirurgião dizer que não podia tolerar outro por ser o Reo quebrado, e mostrar ser Asmático o mandarão tirar delle, que cessasse, e recolhese para se curar. E de tudo se fez este auto e termos que assinamos. = Sebastião Jozé de Carvalho e Mello = Pedro Gonsalves Cordeiro Pereira = Jozé António de Oliveira Machado. 

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publicado às 21:28

Charles Bethune na reedição inglesa do Séc. XIX faz comentários à tradução que Hakluyt tinha feito no final do Séc. XVI, mas vejamos um exemplo, para percebermos como as coisas não são assim tão simples. Galvão (ver em baixo) diz o seguinte:
  • Outros querem q nam passasse da serra Lioa, & que Publio depois dele descobrisse ate a Linha.
Bethune coloca uma nota na tradução de Hakluyt (pág. 40):
  • There be others that say that he passed not beyond Sierra Leona, but people it,(3) and afterwards discovered as far as the line. 
    • (3) And that afterwards he made public the discoveries as far as the line.
Primeiro Hakluyt entendeu que "Publio" significava "povoou", enquanto Bethune vai traduzir mudando para "publicou".
Em ambos os casos, o significado nada tem a ver com o original.
Se é estranho que Hakluyt não tivesse ajuda de nenhum português (havia bastantes à época na corte da rainha Isabel, uma vez que D. António, Prior do Crato, esteve por ali exilado...), mais estranho será Bethune propor-se corrigir a tradução de Hakluyt, sem contar com nenhum apoio português... ou digamos, se o tiveram foi mais como se o não tivessem.

Passei mais de duas horas a procurar quem seria o Publio de que Galvão fala, sem nenhum sucesso, mas não há dúvida que Galvão fala de um navegador, certamente romano, de nome Publius, que depois de Hannon teria atingido a "Linha", ou seja, o Equador.
Ora, que me lembre, tirando o mítico Eneias, não há propriamente nenhum nome de Roma associado a navegações... sendo certo que os romanos tinham barcos e pilotos para os comandar! O nome Publius é demasiado vulgar para permitir rápida inspecção dos casos possíveis, podendo ir de Virgílio até um governador de Malta que acolheu S. Paulo, entre muitos outros.
O que é certo é que esta navegação romana, que teria atingido a linha do equador, acabou por ficar perdida no nevoeiro histórico.

É claro que a malta historiadora tende a desvalorizar estas coisas, e acha perfeitamente normal que os romanos tivessem ficado quietinhos, no Mediterrâneo, o seu Mare Nostrum, e conforme ilustrei há uns tempos o panorama oficial fosse o da figura anexa (onde falta outro principal sinal vermelho... o do Mar Vermelho).

Assim, se procuro colocar algumas indicações para esta transcrição, a "coisa" pode revelar-se mais complicada nuns casos do que noutros.
Outro exemplo, ainda na parte que transcrevo em baixo, Galvão fala de cobras amestradas para guardar as hortas e plantações, algo que se passaria na África do Sul... e que desafia a imaginação que temos, associando cobras ao comportamento de cães. Usa ainda o relato do navegador veneziano Cadamosto (cujo nome é também escrito Cá da Mosto), colocado no reino de Budimol, em África (nome que só vimos associado a rei da Tailândia - Bhumibol), e que daria também conta dessa proeza antiga das cobras!
Acresce ainda o mito das sereias... ou seja de pescado com "rosto e forma" de mulher, e esse deixo-o sem mais comentários.

Finalmente acresce o relato das navegações ibéricas pelos anos 535 a.C., que já nessa época se estenderiam até às Índias e Arábias, onde faziam o comércio de especiarias. Charles Bethune procurou as fontes onde Galvão se poderia ter baseado, e cita Aristóteles (de mirandis in natura auditis), e Estrabão (livro 2, pág. 641, de Gaditanorum longinqua navigatione & ingentibus navibus) a este propósito.

Como dizia Galvão - por onde parece que naquelas partes havia muitos, & muitos anos que se navegavam...

________________________________________
DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

continuação de (2) (1) 

No ano de 520 antes do Nascimento de Christo dizem que Cambisis [Cambises], Rey da Persia, tomou o Egypto, ao qual sucedeu Dario filho de Ristassis [Histaspes], determinou de dar fim à empresa que El Rey Sesostres [Sesostris] começara, se lhe não fizeram certo que o mar Erithreo [mar Vermelho] era mais alto que a terra do Egipto, & chegando a água salgada ao rio Nillo perder-se-ia esta Província à fome & sede, porque dele se rega, & os moradores, & gados não bebem outra água, pelo que deixou de haver fim esta obra. 

Ainda que um pouco me aparte do propósito, não deixarei dir [de ir] tocando, em algumas cousas em que vou falando, por dar repouso a tão largo caminho. Tinham, os Egypcios, que em sua terra se criava a geração humana, & que ainda agora nascem nela uns bichos tamanhos como ratos, & se vêm muitos meio torrão & meio bicho, até de todo se despedir da terra: cuido que são estes os que quebram os ovos aos lagartos, que há muitos no rio Nilo, a que também chamam Cocodrilhos [crocodilos]. E querem ainda que em tempos passados fossem encantados, por onde não faziam mal a nenhuma pessoa, mas depois de se desfazerem sua figura de chumbo, com suas letras Egypcias, tornaram a matar a gente, alimárias, gados, & fazer muito dano, principalmente os que saem de água, & se vão pela terra dentro, que são muito mais peçonhentos que os que ficam no Nilo, que estes pescam da Cidade do Cayro [Cairo] para baixo, e os comem, e põem as cabeças pelo muro. 

Também se escreve que estes lagartos se deitam narea [na areia] ao longo da ribeira com a boca aberta, & que vêm umas aves brancas, pouco maiores que melroas, & se metem dentro, & comem aquela çugidade [sujidade] que têm entre os dentes, e gengivas, com que folgam muito; mas contudo cerram a boca para as comerem, o que fariam se a natureza as não provera de um ossinho agudo que tem na cabeça com que os picam no céu da boca, de maneira que a abrem, e o pássaro se vai embora, mas logo vêm outros que acabam de alimparlha [de lha limpar]. Também há nesta ribeira muitos cavalos marinhos [hipópotamos], e na terra quantidade de cegonhas, que têm guerra com as serpes [serpentes] que ali vêm de Arábia, e matam muitas delas, e assim estas cegonhas, como os bichos que comem os ovos dos lagartos, são dos Egypcios mui venerados. 

No ano de 485 antes da Encarnação de Christo, diz que mandou El Rey Xerxes a Sataspis, seu sobrinho, descobrir a Índia, o qual saiu pelo Estreito de Gibaltar [Gibraltar] fora, que está em trinta e seis graus da parte do Norte, e passou o Promontório Dafrica [de África], que é aquele que agora chamamos Cabo de Boa Esperança, que está da parte do Sul em trinta e quatro para cinco graus d'altura. E enfadado de tão grande navegação se tornou, como Bertolameu Dias [Bartolomeu Dias] em nossos tempos fez. 

Antes do Salvador do Mundo vindo 440 anos, Himeleõ [Himilcão], & Annõ [Hanão] seu irmão, capitães Cartagineses, governando a Andaluzia, partiram dela cada um com uma Armada. Himeleõ contra o Norte descobriu a Costa de Espanha, França, Frandes [Flandres], & Alemanha: & alguns querem que a Gótica, & que chegasse à Ilha de Thili [Thule], em Hislãda [Islândia], que está debaixo do circulo Artico em sessenta & seis graus do Norte, & puseram nisto dois anos na viagem, até chegarem a esta Ilha, que tem os dias de Junho de vinte duas horas, & as noites de Dezembro doutro tanto, pelo que é frigidíssima. Parece que bradam, & gemem os homens nela, por onde dizem que ali é o Purgatório de Sam Patrício. 

Tem esta Ilha três montes, que deitam fogo pelo pé, & em cima está nevada, & em um deles que se chama Ecla, é o fogo tão brando que não queima a estopa, e por outra parte tem tanta força que arde nagoa [na água], e consome-a toda. E assim dizem que há nesta Ilha duas fontes, uma como cera derretida, e outra que sempre ferve, e toda a cousa que lhe deitam dentro se converte em pedra, ficando em sua própria figura. 
Há mais nesta Ilha ussos [ursos], raposos, lebres, corvos, falcões, & outras aves, & alimárias bravas: & é tanta a erva, que a cegam duas vezes, para que os gados passem: & muitas vezes os tiram dela, para que não arrebentem de gordura. Há aí muy grandes, & disformes pescados, & tanto que põem aos navegantes medo, & de seus ossos, & costas fizeram uma Igreja. Não há aí pão, vinho, azeite, nem de que o façam, alumiam-se com o do pescado, porque em toda parte provê a divina magestade. 

O Capitão Anon tomou na mão a Costa Dafrica, e Guiné, e dizem que descobriu as Ilhas Bem afortunadas, que agora chamamos Canárias, & além delas outras que dizem Dorcadas [...Órcades?], Esperias [Hespéridas], & as Gorganas, que se agora chamam do Cabo Verde: e foram assim ao longo da Costa, até dobrar o Cabo de Boa Esperança: e tomando na mão a terra foram ao longo dela, a outro Cabo que se chama Aromatico [Aromata], e agora de Guardafuy, que está Lesteoeste com o Verde em quatorze graus da parte do Norte: e que chegara à costa Darabia [da Arábia], que está em dezasseis, e dezassete: e pusera cinco anos até tornar a Espanha. Outros querem que não passasse da serra Lioa [Serra Leoa], & que Publio [???] depois dele descobrisse até à Linha. 
Mas parece que não faria tão comprida navegação, pois gastou tanto tempo neste trabalho. Alguns contam agora que os habitadores desta Costa do Cabo de Boa Esperança são grandes feiticeiros, encantadores, principalmente de cobras: e trazem-nas tanto a seu mando, que lhes guardam as sementeiras, hortas, pomares, e suas granjarias, assim de ladrões, como de alimárias: e se vêem alguns fazer dano cingem-se com ele, e tem-nos presos, e mandam aos filhos chamar seus amos, e entregam-nos: e se a gente é muita, ou alimária poderosa com que se não atrevem, vão-se a casa daquele com que vivem, e se é de noite dão tantos Assovios [assobios], & chirlos [chilros], até que os acordam para ir defender, o que lhe entregaram. Alvici Cadamosto italiano, escreve que se achou no descobrimento de Guine no reyno de Budimol, em casa de Bisborol seu neto: & jazendo na cama ouviu grande silvos darredor [em redor] da casa, a que Bisborol se levantara da cama, e saíra pela porta fora: e quando tornara Cadamosto lhe perguntara donde vinha contou-lhe como acudira às cobras que o chamaram. O que se não deve d'aver [de haver] por muito, porque na Índia há muitas & muy peçonhentas, e trazem-nas em redor do pescoço, metem-nas pelos peitos, e saem-lhes pelos braços fazem-lhe som com que bailam, e o mais que lhe mandam. 

Assim me disseram alguns Portugueses que por aquela Costa do Cabo de Boa Esperança para Çofala, Quiloa, Melide andaram, que havia certos pássaros, a que acudiam os Negros a seu chamado, & como os viam mudavam-se de uma árvore em outra: & os Cafres os seguiam até que se punham em alguma donde se não mudavam, e em olhando os Negros para cima viam mel, e cera, subiam a tomá-lo, e o pássaro ficava ali. Não me souberam dizer se era isto natural, se o faziam por ter dali mantença. Também afirmavam que debaixo da terra em formigueiros se achava muito mel, e cera que as formigas faziam um pouco agro. Diziam mais que nesta Costa havia grandes pescados que andavam o mais do tempo na água direitos, e tinham rostos, e naturas de mulheres, com que os pescadores se desenfadavam quando os tomavam: e se os vendiam davam-lhes juramento se dormiram com elas, e se o não fizeram então lhas compravam, e doutra maneira não lhes davam por elas nenhuma cousa. 

No ano de 535, antes de Christo, diz que navegavam os Espanhões por todo o maremagno, até chegarem às praias das Índias, Arábia, & suas Costas, donde levavam, e traziam muitas, & diversas mercadorias: e andavam nestes tratos, & outros por diversas partes do Mundo em grandes navios: foram ao Noroeste dar em uns canais, & baixos que com a crescente do mar se cobriam, & com o minguante apareciam, donde achavam muitos atuüs [atuns] de maravilhosa grandeza, fizeram neles grandes pescarias, por serem os primeiros que até aquele tempo tinham visto, e por muito estimados. 

Alexandre Magno, segundo pelas idades parecem, foi antes da vinda de Christo 324 anos, como todos sabemos era natural da Europa, passou em Ásia, & Africa, atravessou a Siria, Armenia, Persia, Batuana, que está da parte do Norte em xliiij [44] graus d'altura, que é a maior em que se ele pôs nesta jornada, donde desceu à Índia pelos montes Imãos [Himalaias], e vales Paraponisos [?], e mandou fazer uma Armada no rio Indo & por ele foi sair ao mar Oceano, donde se tornou por terra de Gedrosia, Carmania, Persia, & agram [? a grande], cidade de Babylonia, deixando por capitães da armada, Crito, e Nearco, que depois foi ter com ele pelo Estreito do mar Persico, & rio Neufrates [Eufrates] acima, deixando descoberta aquela terra & costa. 

Depois disso diz que sucedeu por rey do Egipto Tholomeu [Ptolomeu], que alguns querem que fosse filho bastardo de Felipe pai de este grande Alexandre: o qual quis imitar a El Rey Secostres [Sesostres], & a Dario, & para isso mandou fazer uma cava [cova?] de cem pés em largo, & trinta em alto, & dez, ou doze léguas em comprido, até chegar às fontes amargas com intenção de levar esta obra ao mar do rio Nilo, que se chama Peluzio, que entra na Cidade Damiata: não houve efeito seu desejo, por se achar este mar vermelho ser mais alto três covodos que a terra do Egipto, e espalhando-se por ela perder-se-ia tudo.

(continua)
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publicado às 07:49


Estória alternativa (4)

por desvela, em 23.01.16
Este nome segue uma sequência que comecei há dois anos e não terminei.
Regresso à questão do dilúvio, ou dos dilúvios...
Começo por insistir numa coisa que não é "história alternativa", é simples bom senso lógico, algo que faz muita falta à Ciência moderna.

1) Durante uma Idade do Gelo, o nível marítimo era muito mais baixo do que é hoje. Assim a linha de costa estava afastada da actual, nalguns casos centenas ou milhares de quilómetros. Em baixo está um possível mapa do que seria a costa em época glaciar, atendendo por exemplo a que caverna rupestre de Cosquer tem a sua entrada 37 metros abaixo do nível actual do mar. Basta considerar uma descida de 200 metros (para explicar Cosquer foram aceites 150 metros), para obter isto: 
Panorama da linha costeira com nível marítimo de descida de ~200 metros, conforme mapa anterior.
2) Como se passa do cenário anterior para o cenário actual, sem falar em inundação?
- Não há nenhuma questão de mitologia, é uma questão de não paralisar o cérebro!
Se o nível do mar na Idade do Gelo era mais baixo e depois ficou muito mais alto, não é preciso ser nenhum génio para concluir que algum dilúvio teve que existir!
- No entanto, a Ciência actual, manipulada até à medula, fala de uma coisa, fala da outra, mas coloca uma inundação, um "dilúvio", como mito, e omite por completo uma relação entre as duas coisas que aceita. 

Portanto, ninguém pode dizer que não se passou nada... e é a este ponto que voltamos.

Houve uma inundação de terrenos, que estão hoje submersos e não estavam na Idade do Gelo.
Pode parecer que a questão principal é saber se a subida das águas foi lenta ou rápida, mas em qualquer caso, terá tido efeitos dramáticos.
Basta olhar para o mapa acima, para vermos que na época glaciar o Mediterrâneo eram essencialmente três grandes lagos, e talvez daí a razão de diversas partes do Mediterrâneo terem nomes diferentes (como Mar Egeu, Mar Tirreno ou Adriático, e Balear). Até que o nível da água não ultrapassasse o limite do Estreito de Gibraltar (ou do outro lado, o Dardanelos), a subida seria progressiva e lenta.
No entanto, assim que galgasse a linha de Gibraltar, isso levaria a uma súbita inundação de todo o Mediterrâneo, que se faria em pouco tempo, e que corresponderia praticamente a termos o Atlântico a desaguar com toda a força no Mediterrâneo, e a cavar ali um fosso. Parece-me ter mais nexo a inundação se fazer pelo lado de Gibraltar do que pelo lado do Dardanelos, mas em ambos os casos, o resultado seria avassalador e dramático.

Profundidade no Estreito de Gibraltar - indicia uma inundação a partir de circa 200 metros.

E aqui também não há muitas dúvidas. Até perto de 200 metros havia ligação e a água não passava, e depois caiu como um cascata, escavando uma profundidade de perto de 800 metros, na queda para o Mediterrâneo. Se é admitido que o nível da água era mais baixo, o consenso vai para desconsiderar que a ligação entre África e Europa em Gibraltar existisse na Idade do Gelo. Basta arbitrar 150 metros em vez de 200 metros, e isso faz a diferença... admitindo é claro que a abrupta passagem do mar não escavaria maior profundidade na rocha, etc... coisas que pouco interessam em quem quer ver os mapas de há milhares de anos como se fossem os mapas de hoje.

Depois, é claro, o nível da água continuou a subir... até ao ponto de, como refere Galvão, se terem encontrado cascos e âncoras de navios na Suiça, perto de Basileia, na zona do Jura. Mas isto também é convenientemente desprezado, apesar das claras evidências que aqui temos mostrado.

A história...
Nem sequer vou colocar como alternativa, já que a alternativa é mesmo fechar os olhos e aceitar a versão da carochinha. Se quisesse optar como alternativa, bastaria usar o discurso do postal anterior, sobre o S S Jesmond, e mencionar as estranhas formações submarinas, essas sim a profundidade irrazoável, e com dimensões extravagantes.

Não é preciso.
Simplesmente as populações no final da Idade do Gelo eram já razoavelmente avançadas, como aliás mostrou a descoberta de Gobekli Tepe, que já mencionámos.
Como a costa mudou, as populações e construções mais significativas, que normalmente estariam junto à costa, foram completamente submersas, e estão inacessíveis, nem parece haver nenhum interesse público em que sejam exploradas.

Portanto, o que deverá ter ocorrido?
O clima mudou, como muda ciclicamente, e pelo gelo que se ia derretendo, pela queda de grandes blocos no oceano, as populações no final da Idade do Gelo começaram a ver os seus territórios e povoações costeiras perdidas, muito rapidamente. Mas isso não seria suficiente para um mito tão marcante como foi o Dilúvio.
Uma situação mais dramática teria sido ver territórios ficando rodeados pelo mar, formando ilhas, ou pior ainda, ver essas ilhas desaparecer, como ocorreu no Oceano Atlântico, à frente de Portugal e Galiza. Já mencionámos o caso da ilha que poderia existir no banco da Galiza, actualmente a 600 metros de profundidade, mas há outras que têm picos a menos de 50 metros, como o caso dos bancos Gorringe, Ormond, Ampere, Hirondelle ou Josephine (cf. oceana.org), podendo fazer parte do que Galvão chamava "Frodísias". Este nome Frodísias ligava-se provavelmente a Afrodite, tal como se pode julgar o mesmo do nome África (África que foi chamada Líbia, e também por aí se ligaria ao libido).
Mas, conforme sugerimos, bastante pior seria assumir a inundação de toda a bacia do Mediterrâneo, o que daria ainda razão ao mito grego do dilúvio de Ogyges [Ogugos]. Homero refere-se depois à ilha Ogygia [Ogugea], muitas vezes associada à Atlântida, como pátria da ninfa Calipso, que os poetas portugueses indiciavam como filha do rei Gorgoris, e que teria seduzido Ulisses a ficar em Lisboa. Nesse caso, a grande Ogygia não seria mais que a Ibéria.

De que maneira é afectada a Ibéria?
Para além dos territórios costeiros serem submersos, o nível da água continuou a subir, suponho que até ao nível que tornou Montejunto, antigamente denominado Monte Tagro, um ponto de referência... ou seja, entre 100 a 300 metros acima do nível do mar actual. Isto pode parecer estranho para quem sabe que o derreter de todo o gelo da Antárctida aumentaria apenas 60 metros o nível actual, mas convém não esquecer que no processo de formação da Terra, o Oceano Atlântico nem existia, e ligava-se a África ao Brasil como um só continente... encontrando-se assim espécies animais similares de ambos os lados (por exemplo, macacos). Ao contrário das simplificações feitas pela academia vigente, as coisas não funcionam como regras de 3 simples, aplicadas a torto e a direito. O Oceano Atlântico tem vindo a ser cavado no afastamento das placas, que também corresponde a um aumento do raio da Terra.
Mas, mais drástico seria ver a inundação do território mediterrânico, num espaço de alguns meses, engolindo povoações, e chegar ao ponto em que a própria Ibéria iria ficar como uma ilha, sem que os "magos" soubessem até que ponto a inundação continuaria, correndo o risco de tudo engolir.

Assim, o mais natural seria assistir a uma ordem de debandada completa.
Ou seja, terá sido espalhado que a própria Ibéria correria o risco de ser engolida pela subida de águas.
Seriam os Pirinéus ou os Alpes suficientes como último refúgio, em caso de subida de águas?
A indicação bíblica remete para o Cáucaso, para o Monte Ararat, na Turquia... que tinha ainda a vantagem de se ligar directamente na cadeia montanhosa do "Tauro" até aos Himalaias.

Está aqui a razão pela qual decidi reescrever esta parte. Não que a anterior estivesse mal... mas simplesmente porque a nova estória se ajusta muito melhor à história e ao mito.
Vamos buscar os textos sobre as Colchas... ou Col-cheias, e no primeiro relemos o que escrevia Meakin - Os ibéricos do Cáucaso crê-se que se estabeleceram nos rios do Cáucaso por volta de 3000 a.C., e multiplicaram-se tanto, dizem-nos, que quatrocentos anos depois da sua chegada, inúmeros partiram para procurar nova casa, e seguiram pela costa de África entrando em Espanha.

Ou seja, a razão pelo grande número de Iberos a chegar ao Cáucaso, não seria outra que o medo do contínuo aumento do nível das águas. Se a ordem sabida fosse essa migração para o Cáucaso, para paragens seguras a grande altitude, então pequena região caucasiana e da Ásia Menor iria receber refugiados de toda a parte da Europa.
Portanto, na zona caucasiana os "magos" iriam refazer em pequena escala o mapa da Europa, acolhendo aí a malta que fugia. O pessoal da Ibéria europeia iria ficar numa fatia também chamada Ibéria, no Cáucaso. Recuperamos o mapa do texto Colcha-2

... para fazer notar a divisão em Albânia, Ibéria e Cólquida; que poderia corresponder a zonas estabelecidas para o alojamento das populações migrantes. Vemos também o nome "Lazi", que poderia indicar a região italiana da Lácio, bem como outros nomes assinalados. Nem faltam umas Colunas, que ali não são de Hércules, mas sim de Alexandre Magno.

Mas, especialmente, isto dá uma melhor lógica ao mito de Europa ser raptada por Zeus na forma de um Touro branco. Afinal a população europeia, seria assim cativada pelas montanhas brancas do Tauro, para escapar às chuvas diluvianas que o próprio Zeus enviava. Ainda que a ligação do continente Europeu à deusa Europa seja fabricação ou cunho posterior, à época da invasão árabe, e de Carlos Magno, talvez possa ter razões bem mais antigas.

Independentemente desta parte, parece-me uma estória verosímil que perante uma não previsível subida das águas, as populações fossem agregadas no Cáucaso.
Os que falharam a convocatória, por falta de aviso, ou obstinação, iriam sujeitar-se a ver o aumento das águas ameaçar a sua existência. A maioria escaparia, mas desligada do centro de poder dos "magos", refugiados no Cáucaso. Livres dessa subjugação aos magos, iriam experimentar um longo período de reaprender a sobrevivência em comum. Na península ibérica poderá ter sido assim que se formou a chamada "República de Setúbal", até que Tubal, o descendente de Noé, passados 160 anos decidiu regressar ao território hispânico, para reclamar o seu trono de direito. Também por esta separação se dividiria a população entre os apoiantes a Gerião, o provável algarvio, e os apoiantes do velho poder dos magos, emigrados no Cáucaso.

Esta junção forçada no Cáucaso, devido ao medo de aumento de águas, também pode servir para explicar alguns fenómenos de aglutinação que apontam uma origem comum, caucasiana, quer de populações humanas, quer de seus animais domesticados. Após este dilúvio, os territórios com acesso rápido ao Cáucaso passaram a ser considerados como mais seguros, e as primeiras civilizações ocidentais vão emergir nas zonas baixas dessa vizinhança caucasiana, vendo-se ainda uma repetição de nomes na Ásia Menor, e noutras partes de Europa, prestando-se à confusão.
Os magos manteriam o seu refúgio de eleição em montes altos, do qual o Olimpo seria um bom exemplo de controlo da actividade humana na Grécia. Os territórios a Ocidente, muitos para sempre submersos, manter-se-iam de certa forma proibidos, até à ascensão da República Romana. E conforme já referimos, a expressão de perda dos territórios ocidentais seria simbolizada na peregrinação do Calix Ianus, que depois foi tomado como caminho de Santiago.




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publicado às 20:23


dos Comentários (17) - S S Jesmond

por desvela, em 19.01.16
Trata-se aqui de recuperar uma troca de comentários, já com mais de 5 anos, a propósito do relato da viagem do navio S. S. Jesmond em 1882, feito pelo seu capitão, David Amory Robson.
Houve mesmo uma expedição à ilha, que não pôde chegar ao seu interior, mas encontrou restos de grandes muralhas maciças, e artefactos...
Segue a tradução da notícia que encontrei então:
Em Março de 1882, ao contrário de anteriores alegados avistamentos de ruínas da Atlântida, este foi claramente reportado no diário do navio e também na imprensa. Disse respeito ao encontro de um navio a vapor com uma ilha não registada nos mapas, no meio de linhas de navegação bastante viajadas, e ao pouco habitual material que aí foi encontrado pelo capitão e pela sua tripulação. A embarcação chamava-se S. S. Jesmond, um navio mercante britânico com 1495 toneladas, fretado para Nova Orleães com uma carga de frutos secos do seu último porto de partida, em Messina, na Sicília. O Jesmond era capitaneado por David Robson, detentor do certificado 27911 na Marinha Mercante da Rainha.  
O navio passou o Estreito de Gibraltar em 1 de Março de 1882, e velejou para mar alto. Quando atingiu a posição 31° 25' N, 28° 40' W, cerca de 200 milhas a oeste da Madeira, e aproximadamente a mesma distância a sul dos Açores, foi notado que o oceano se tornara estranhamente lamacento, e que o navio passava por enormes quantidades de peixe morto, como se alguma doença ou explosão subaquática os tivesse morto aos milhões. Ainda antes de encontrar os bancos de peixe, o Capitão notou fumo no horizonte, que presumiu ser de outro navio. 
No dia seguinte, os bancos de peixes eram ainda mais espessos e o fumo no horizonte parecia vir das montanhas de uma ilha no horizonte directamente a oeste, onde, de acordo com as cartas, não haveria terra ao longo de milhares de milhas. Assim que o Jesmond se aproximou da vizinhança da ilha, o Capitão Robson lançou uma âncora a cerca de doze milhas da costa, para saber se esta ilha desconhecida era rodeada por recifes. Apesar das cartas indicarem uma zona com profundidade de vários milhares de braças, a âncora bateu no fundo a apenas sete braças (~ 13 metros). 
Quando Robson foi com um grupo a terra, viu-se numa grande ilha, sem vegetação, sem árvores, sem praias arenosas, desprovida de qualquer vida, como se tivesse acabado de se erguer do oceano. A costa onde tinham desembarcado estava coberta com escombros vulcânicos. Como não havia árvores, o grupo pôde ver um planalto a algumas milhas, e após isso, montanhas fumegantes. O grupo prosseguiu com cuidado para o interior, em direcção às montanhas, mas o seu progresso foi interrompido por uma série de profundas brechas. Chegar ao interior teria demorado dias. Regressaram ao ponto de partida, e examinaram um penhasco quebrado, uma parte do qual parecia ter sido separado em massa de gravilha, como tendo sido sujeito a enorme força.   
Um dos marinheiros encontrou uma invulgar ponta de seta na rocha partida, uma descoberta que levou o capitão a pedir do navio pás e picaretas, para a tripulação escavar a gravilha. De acordo com o que ele disse a um repórter do Times Picayune de Nova Orleães, onde atracou depois, ele e a tripulação descobriram "ruínas de muralhas maciças". Uma variedade de artefactos descobertos ao escavar próximo das muralhas, durante quase dois dias, incluiu "espadas de bronze, anéis, martelos, esculturas de cabeças de aves e animais, e dois vasos com fragmentos de ossos, e um crânio quase inteiro", e "o que parecia ser uma múmia fechada num caixão de pedra... incrustado com depósito vulcânico, de forma que nem se distinguia da própria rocha". No final do dia seguinte, grande parte do qual gasto em trazer o sarcófago de pedra a bordo do Jesmond, Robson agora preocupado com a incerteza do tempo, decidiu abandonar a expedição à ilha, e retomou o seu curso. 
Vários repórteres examinaram os invulgares achados de Robson, e foram por si informados que ele planeava apresentar os artefactos ao British Museum. Infelizmente para a investigação atlante, o diário do Jesmond foi destruído no Blitz de Londres de Setembro de 1940, tal como os escritórios dos proprietários do Jesmond. Não há registo no British Museum da colecção de Robson ter dado entrada. Ainda que seja possível que os artefactos estejam arquivados nos espaçosos sótãos e caves, comuns a todos os museus. Nunca mais se ouviu falar da ilha, existente apenas no testemunho sob juramento do capitão e tripulação do Jesmond. 
Houve ainda assim, alguma corroboração do incidente. O capitão Robson não esteve sozinho ao reportar a ilha misteriosa. O capitão James Newdick, da escuna a vapor Westbourne, saindo de Marselha para Nova Iorque no mesmo período, reportou na sua chegada a Nova Iorque o avistamento de uma ilha em 25º 30' N, 24º W. O relato de Newdick apareceu no New York Post de 1 de Abril de 1882. Se as coordenadas dadas por ambos os capitães estiverem certas, a ilha misteriosa teria medido 20 x 30 milhas de área [?... isto é incorrecto!]. A actividade vulcânica que trouxe uma ilha desta dimensão à superfície teria morto, provalvemente por aquecimento da água oceânica, uma enorme quantidade de peixe, tal como reportado pelo capitão Robson.
As milhas com peixe morto, espalhando-se da área reportada por Robson, foram também comentadas por um número de capitães e apareceram em artigos numa série de jornais, incluindo o  The New York Times. 
http://www.fortunecity.com/roswell/milkyway/190/jesmond.htm 
Localização da ilha avistada pelo S S Jesmond que corresponde à montanha submarina Hyères, ao sul dos Açores
Entretanto, como vem sendo habitual, o link citado também desapareceu, afundado no grande mar da internet, mas para além do registo que transcrevi nessa altura, há outras navegações ainda disponíveis com relato similar- ver, por exemplo: "Jesmond" em The Atlantis Encyclopedia (Frank Joseph, 2005), transcrito na caixa de comentários.

A zona citada corresponde a montes submarinos, só depois identificadas com os nomes que hoje são dados (por exemplo, o monte submarino Meteor corresponde ao nome do navio alemão que o estudou em 1925-27 e que está 270 metros abaixo do nível do mar). 
Muita batimetria da costa portuguesa foi efectuada pelo Príncipe Alberto do Mónaco, em 1895, e depois prosseguida pelo Rei D. Carlos I, a bordo dos iates "Amélia" (cf. A prática oceanográfica e a coleção iconográfica do rei dom Carlos I, M. E. Jardim et al., 2014). Alguns dos nomes saem dessa época, do Séc. XIX, como por exemplo, o banco Gorringe cujo pico está a uns meros 27 metros de profundidade. 
O caso de ilhas que aparecem e desaparecem, devido à actividade vulcânica, ali frequente, tem vários episódios, e já falámos aqui da ilha Sabrina, que em 1811 apareceu ao largo de Ponta Delgada, e foi logo reclamada pelos britânicos... mas que se afundou por completo, pouco tempo depois.

Assim, a localização dada pelo Capitão Robson seria exactamente sobre o monte submarino Hyères, à data ainda não identificado, e poderia resultar de alguma erupção que, tal como a ilha Sabrina, simplesmente não se consolidou.
A localização reportada pelo S.S. Jesmond seria a da montanha submarina Hyères
Curiosamente, ainda hoje, há muito pouca informação disponível sobre montanhas submarinas... num momento em que é suposto recebermos imagens de Marte, parece haver grande dificuldade em enviar imagens das montanhas submarinas no meio do Atlântico. Essa informação continua a estar sob reserva, classificada, apesar dos muitos estudos, e de por lá passarem submarinos, provavelmente diariamente. Após o folclore dado ao comandante Jacques Cousteau, muito poucas imagens de pequenas ou grandes profundezas foram disponibilizadas ao público. Aliás grande parte da ardilosa encenação consistia em fazer um filme de horas em que só se viam preparativos e protagonistas, resultando depois em curtas imagens subaquáticas vulgares, mas regadas dos maiores superlativos, tomadas como grandes conquistas da humanidade.

O que temos, por exemplo, do rendilhado quadricular, também a Oeste da Madeira, e que espantou muita gente no Google, há 6 anos atrás, com a perspectiva de ser a Atlântida, resulta apenas do registo de cuidadosa batimetria, mas que é suficiente para espantar:
Dados de batimetria reais, usados antes no Google Maps, permitiram notar a muita gente,
uma estrutura gigantesca quadricular, situada ao largo da Madeira.
Nas versões seguintes a Google decidiu "apagar":
 o contraste foi reduzido ao mínimo, e já mal se nota... 
Estamos a falar de linhas gigantescas - no quadrado caberia toda a região da ilha da Madeira até Porto Santo. Se me parece difícil supor que se trata de um "fenómeno natural" (que ainda passam por ser "incorrigível" defeito do processo do rasto do navio que faz a batimetria - houve até a particularidade de enfiar letras NOAA, para baixar o nível de credulidade do povo)... como eu dizia, se me parece difícil pensar em fenómeno natural, também parecia praticamente impossível poder ser uma realização humana com tal dimensão - mesmo que estivéssemos a falar de gigantes ou titãs com pelo menos 100 metros de altura.
O Daily Mail ironizou a atitude da Google face à diluição das linhas polémicas:

Pois, mas se apagou umas, deixou outras, e estas também são interessantes:
Duplas linhas direitas, contínuas, no fundo submarino a Oeste e Norte da Madeira.
O interessante neste suposto "erro" da batimetria, é que as linhas param, usam as elevações, e depois prosseguem a direito!
Qual seria essa razão? Que razão levaria erguer montanhas como muros, numa extensão que vai do Sul de Portugal até à Guiné, com ângulos de 45º que viram para o interior?

Podemos ignorar tudo isto, pensar que é tudo engano, erros de batimetria, alinhamentos resultantes das falhas tectónicas, etc... isso é fácil.

Ok, mas e se não for?
Se até aqui não tinha visto nenhuma razão para estas obras "ciclópicas", para poder sequer supor construção humana, surge uma razão muito clara... admitindo que se tratam de elevações artificiais a grande profundidade.

Admitindo ser construção humana, qual seria a razão para levantar muros ciclópicos, que nos fariam rir da Torre de Babel?
- Bom, sem ser fugir, o que fazemos quando o nível de água sobe e queremos evitar a inundação?
- Levantamos diques ou barragens, certo?... Aliás, como fizeram os holandeses.
Quando ainda não se sabia a que ponto subiria a água, poderia pensar-se em levantar muros que estancassem a subida de águas. A subida de águas não teria ocorrido de um dia para o outro... o gelo foi derretendo e água subindo. Por vezes, o aumento poderia ter sido maior, noutras menor. Em contrapartida, os gelos a derreterem nas montanhas mais altas, também não deixariam esses lugares como "seguros".
O processo poderia assim ter-se arrastado durante muitos anos.
Se a ideia fosse acrescentar pedras para aumentar a barragem, a cada ano que passava e a muralha aumentava, mais pareceria ridículo o esforço de levantar uma construção para evitar o inevitável. Como dizia Galvão:
Também os que escaparam do Diluvio ficaram tão assombrados que não ousaram descer aos baixos. Membroth [Nimrod], depois dele cento & trinta anos fez a Torre de Babylonia, com intenção de se salvar nela vindo outra cheia.
A Torre de Babel caiu, e os povos dispersaram-se, mas a questão é que se as águas continuassem a subir - e parece claro que subiram pelo menos mais uns duzentos metros, face à cota actual, então onde se poderia refugiar toda a humanidade? Num pequeno espaço... num topo de uma montanha? Caberiam aí todos? Ou seria necessário condenar alguns ao isolamento, negando-lhes até barcos para se salvarem? Por isso, parece natural que um titã como Atlas tentasse sustentar o mundo sobre pilares, adiando a derrocada final.

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publicado às 05:30

Atendendo à descrição que Galvão faz da desaparecida ilha de Calex - "tamanha que se juntava à terra de Espanha", a mais apropriada ilustração será algo da forma:
Mapa com um grande abaixamento do nível do mar, conforme post anterior
Haveria múltiplas coisas a comentar, mas este mapa é meramente ilustrativo do contorno que a costa poderia ter quando, conforme relata Galvão, poderiam estar unidas as terras africanas e europeias, aparecendo nesse caso também uma grande ilha Atlântica ou Atlantida nos Açores.

O nome "Calex" deveria ser lido como "Cales" (som "ch" e não "cs" para o "x", como na Galiza), e o território então existente na Idade do Gelo iria desaparecer, aquando do fim do ciclo gelado e regresso a temperaturas bastantes mais quentes. O degelo teria um efeito de dilúvio, mais ou menos repentino, consoante a queda das massas de gelo no mar, fazendo desaparecer povoações em terrenos costeiros. A certa altura, a ligação poderia perder-se definitivamente... vendo que o aumento do nível do mar deixa ilhas, que ainda irão submergir, com novo aumento.
Mapa com um menor abaixamento do nível do mar (conforme post anterior)
Ao nível da Galiza, por exemplo, aparece uma ilha que seria submergida com a subida do mar.
Ora, este nome Calex, faz lembrar outro tema que aqui abordámos:
que resultou de um comentário de Bartolomeu Lança, que se ligava à versão antiga do Caminho de Santiago, que antes de ser Callix Iago, seria Callix Ianus - um Caminho até Lugo, no rio Minho... o rio que desagua em Caminha.

Os que viviam mais próximos da anterior linha da costa atlântica, podem até ter subido para montanhas altas, mas essas montanhas locais não seriam suficientes para os territórios que vemos como "ilhas verdes", hoje submersas por completo.
Portanto, a situação terá sido bastante dramática para os que se viram ali isolados, e para os que assistiam do lado da Ibéria... também eles sem saberem se seriam suficientes as alturas de Espanha para a subida de águas. Seria a serra da Estrela ou os Pirinéus, suficientes, ou precisariam ir ainda para paragens mais altas, os Alpes?... ou ainda mais alto, na zona do Cáucaso, até à Anatólia do Monte Ararat, afinal os refúgios mais altos e mais próximos (excluindo os Himalaias na Ásia).

Nesse eventual drama de se terem perdido as gentes da ilha de Calex, nesse dilúvio que se seguiu à Idade do Gelo, era natural ficar uma nostalgia marítima intemporal, sobre os territórios para sempre perdidos - um lema como "por tu Calex" seria apropriado para recordar um caminho doutrora, que terminava em Finisterra, na Galiza, mas que antes prosseguia para a ilha situada em frente ao Porto de Cale, onde Cale, hoje Vila Nova de Gaia, coincide com o limite inferior para essa plataforma submersa.
Nesse contexto, pareceria então natural que os que escapassem, quisessem render ali na Finisterra, uma homenagem aos que não teriam salvo na sua fuga. E sabe-se que a rota do Callix Ianus reunia celtas de toda a Gália para efectuar essa antiga peregrinação, que não parava em Lugo, tal como a de Santiago, é habitual continuar até à Finisterra... onde ficou definido o fim da terra.

Numa conversa há cinco anos atrás, com o José Manuel, falámos do relato do S. S. Jesmond em 1882, que dava conta do avistamento de uma ilha no meio do Atlântico, conforme está registado nos comentários aqui:
e sobre o qual deverei fazer um post... pois nem me lembrava que não o tinha feito!
É significativo que seja de 1882, época que deve ter correspondido a uma pequena glaciação, a que levaria o Príncipe Wiasemsky a propor-se atravessar o gelo no Estreito de Bering em 1885.
Isso levaria a um significativo abaixamento do nível do mar (e por exemplo ao fim de Alfeizerão, e outras localidades, como portos)... que poderia sido tão grande que estas plataformas submersas fizessem uma fugaz aparição.
Perante o eventual aparecimento de novas terras, qual seria a reacção da liderança europeia?
O ano de 1885 é o ano da Conferência de Berlim, onde é efectuado um reajustamento das pretensões coloniais, o que vai levar à crise do "Mapa Cor de Rosa".
Tudo o que capitão Robson trouxe da ilha (que nem consta da listagem da wikipedia) ficou guardado em Londres... até que tudo desaparece em 1940, na 2ª Guerra Mundial:
Several reporters examined Robson's unusual finds and were infomormed by him that he planned to present the artifacts to the British Museum. Unfortunately for Atlantian research, however, the log of the Jesmond was destroyed during the London blitz of September 1940, along with the offices of the Jesmond's owners. There is no record at the British Museum of their having received Robson's collection. Although it is possible that the artifacts are files in the capacious attics and basements common to all museums. Nor was the island ever heard of again, existing only in the sworn testimony of the captain and crew of the Jesmond.

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321
por António Galvão (1563)


A mesma ilha de Calex se afirma ser tamanha que se ajuntava à terra de Espanha, e que as Ilhas dos Açores era uma ponta das serras da Estrella, que se mete no mar na Vila de Cintra [Sintra]. E que a serra Verde que se mete na agua junto da cidade de Safim em Teracucu, que é a própria de Monchim [Monchique], que do Algarve , & que em estas arrebentam as ilhas do Porto Sancto, e a Madeira, porque dizem que todas as ilhas têm as raizes na terra firme, por muito apartadas que estejam dela, que doutra maneira não se susteria. Outros querem que Despanha [de Espanha], a Ceyta [Ceuta] se passasse por terra, & que as Ilhas de Cerdenha [Sardenha] & Corcega [Córsega] se juntassem uma com outra, Cecilia [Sicília] com Itália , Negroponte com a Grécia. Assim contam que acharam cascos de naus, âncoras de ferro, nas montanhas de Suissa [Suiça], muito metidas pela terra, onde parece que nunca houve mar, nem água salgada. 

Também dizem que na Índia & terra do Malabar que é tamanha & tão povoada, foi já tudo mar atá o pé da serra: & que o Cabo de Comorim, & a Ilha de Ceilão era tudo uma coisa, & a Ilha de Samatra que fora pegada com a terra Malaca, por uns baixos de Capasia [Amazon Maru Shoal], e junto dela está uma ilheta que não há muito que ela e a terra firme tudo era uma coisa. Ptolomeu em suas Tábuas põe esta terra de Malaca ao Sul da linha, em três ou quatro graus de altura, ficando agora a ponta dela, que se chama Ojentana, em um grau da banda do Norte (como se vê no Estreito de Sincapura [Singapura]), onde cada dia passam para a costa de Syão [Tailândia], & China, onde está a ilha de Aynão [Ainão - Hainan] que também dizem que foi junta com a terra da China que Ptolomeu assenta da parte do Norte muito além da linha , ficando agora mais de vinte graus dela da parte do Norte, de maneira, que assim Ásia como Europa, ambas agora estão desta banda. 

Bem podia fer que nos tempos passados, a terra de Malaca, e China fossem acabar além da linha da banda do Sul, como Ptolomeo as pinta, porque pegaria à ponta da terra de Ojentana com as ilhas de Bintão [pulau Bintan], Banqua [pulau Bangka], e Salítres [pulau Belitung?] que há por ali muitas, e seria a terra toda maciça; e assim a ponta da China com as Ilhas dos Luções [Luzon, Filipinas], Borneos [Bornéu], Lequios [Formosa ou Okinawa], Mindanaos [Mindanao, Filipinas], & outras que jazem nesta corda, que também tem por opinião ainda agora, que a Ilha de Samatra foi pegada com a Jaoa [Java], pelo canal de Sunda, e a Ilha de Baly [Bali], Anjane [Lombok], Sinbaba [Sumbawa], Solor, Hogaleao [Pantar], Maulua [Ombai], Vintara [Wetar], Rosolanguim [Rosyngain, (pulau) Romang], & outras que há nesta corda, e alturas, todas foram pegadas com a Jaoa, e a terra uma, & assim o parece a quem as vê de fora, porque aindagora [ainda agora] há nestas partes ilhas tão juntas umas com as outras, que parece tudo uma coisa, e quem passa por antrellas [entre elas] vai tocando com a mão os ramos do arvoredo de uma banda, e da outra. E não há muito tempo que ao Levante das Ilhas de Banda se fundiram muitas; e também dizem agora que na China se alagaram mais de sessenta léguas de terra: por onde senão deve aver [haver] por muito o que Ptolomeo e outros antigos deixaram escrito, que também eu deixo por tornar a meu propósito. 

Depois do Dilúvio 800 anos, diz que foi fundada a Cidade de Troya pelos Dardanos [de Dardano, neto de Atlas pela filha Electra, nome do Estreito de Dardanelos], & que antes disto traziam das Índias à Europa pelo mar Roxo [Mar Vermelho], especiarias, drogas, e outras muitas, e diversas mercadorias, que hi avia [ainda havia] naquele tempo mais que agora. E se assim foi isto bem se pode dar crédito que havia muito tempo que os mares se navegavam, pois naquele tinham tanto comercio o Levante com o Ponente que se traziam estas mercadorias a um porto que se chama Arsinoe, que querem dizer alguns, que seja aquele que agora dizemos Çuez [Suez] que está em trinta graus da parte do Norte neste estreito Arábico. 

Declaram mais os escritores, que deste porto de Arsinoe, Suez (ou como lhe quiserdes chamar) traziam estas mercadorias em caravanas de camelos, asnos, e azemolas [machos ou mulas], ao mar de Levante, a uma Cidade que está nele em xxxij (32) graus de altura que se chama Cazom [Gaza] haverá por aqui de um mar a outro xxxv (35) léguas, dando a cada grau xvii & meio (17,5), como se costumava : pela terra ser quente, e darea [de areia] não andavam senão de noite, governando-se por estrelas, de que tinham conhecimento, & por balizas de paus, e canas que na terra tinham metidas. Vendo que esta estrada não era tal como eles desejavam, diz que duas vezes o mudaram. 

Novecentos anos, pouco mais ou menos, depois do Dilúvio, antes da destruição de Troya houve um Rei no Egypto [Egipto] que se chamou Sesostres [talvez Senusret III], o qual vendo que estes caminhos, e diligências que eram feitas não escusavam muitos custos, homens, bestas, carregas, e descarregas, determinou fazer uma vala do mar Vermelho a um braço do rio Nilo, que vai ter à cidade de Seroum [Seróm, Corom - porto junto a Meca], por onde as naus pudessem ir e vir com as mercadorias das índias à Europa , sem serem tiradas, nem descarregadas até Itália. E por isso foi este o primeiro Rey do Egipto qus mandou fazer carracas grandes para efte caminho, o qual não teve efeito, porque se o tivera ficava Africa em uma Ilha toda dagoa [da água] rodeada, por não ter mais de vinte léguas este jsmo [istmo] de terra. 

Neste meio tempo dizem que os Gregos fizeram uma Armada que chamam dos Argonautas, e iam por capitães dela Jasom [Jasão] & Alceo [Alceu], uns querem que partissem da Ilha de Creta, outros da Grécia, como quer que seja, foram pelo mar Pontico [Pontus], e braço de S. Jorge [Georgia] ao mar Euxino, onde se perderam. Jasom tornou à Grécia, Alceo diz que com tormenta foi ter à lagoa Meotis [supostamente, o mar de Azov], onde se desfez de todo, e os que escaparam com muito trabalho, atravessaram por terra ao mar Oceano Dalemanha [mar Báltico] onde reembarcaram, e pela costa Xaxonia [Saxonia], Frisia, Holanda, Flandres, França, Espanha, Itália, tornaram a Peloponeso, ou Morea,e Grécia, atè a Província da Trácia, deixando descoberto por costa a maior parte da Europa.  

Strabon [Estrabão] citando Aristonico, diz que depois da destruição de Troya el Rey Menalao [Menelau] saiu do estreito, e mar do Levante ao Athlantico, & Costa de Africa, & Guine, & dobrou o cabo de Boa esperança, e em certo tempo foi ter à Índia. Disto se pode tomar aos autores mais estreita conta. Este mar Mediterrâneo, também se chamou Adriatico, Egeo, Hercoleo, e outros nomes, segundo as terras, costas & ilhas, que banha ao mar grande Athlantico & costa de Africa. 

No ano de 1300, depois do Dilúvio mandou Salamão [Salomão] fazer huma Armada no mar do mar Roxo que se chamava Eylam, para ir a Levante da Índia onde dizem estar aquela ilha & terra a que chamavam Tarcis & Offir, & que puseram três anos neste caminho, de que trouxeram muito ouro, prata, aciprestes, pinho. Por onde parece que aquelas terras & ilhas deviam ser as que agora chamam Luções [Filipinas], Lequios [Formosa ou Okinawa-Japão], & Chinas, porque não sabemos lá em outras partes haver prata, aciprestes, pinhos nem navegação de tantos annos. 

Também deixaram escrito os passados que houve um Rey no Egypto que se chamou Neco, que desejou muito ajuntar o mar Roxo com o rio Nillo, e mandou aos Fenicios que deste estreito de Meca navegassem até o fim do mar Mediterraneo para ver se tornavam ao Egypto, eles assím o fizeram, indo ao Sul ao longo da costa & terra de Melinde, Quiloa, Sofala, até o cabo de Boa esperança, ficando-lhe sempre o Sol à mão esquerda. Mas dobrando este Cabo, e vendo o Sol à mão direita, espantaram-se muito: com tudo fizeram ao Norte seu caminho pela Costa de Guinè, & mar Mediterrâneo até tornar ao Egypto donde partirão, e puseram dois anos neste descobrimento, & querem alguns que fossem os primeiros que o fizeram, & andassem a costa Dafrica [de África] toda em roda. 

No ano de 590 - Antes da encarnação de Christo partiu de Espanha uma armada de mercadores Cartagineses feita à sua custa, e foi contra o Ocidente por esse mar grande ver se achavam alguma terra : diz que foram dar nela. E que é aquela que agora chamamos Antilhas, e nova Espanha que Gonçalo Fernandez de Oviedo, quer que nesse tempo fosse já descoberta, ainda que Christovão Colom nos deu dela mais vera certeza, & todos os que escreveram como falam em cousa duvidosa & terra não descoberta, logo acodem com esta da nova Espanha.

(continua)
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Nota: Entre parentesis rectos estão algumas associações modernas às designações originais usadas por Galvão, uma boa parte das quais resultou de consulta ao Glossário do Visconde de Lagoa.

editado em 17-01-2016

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publicado às 07:56


Fazer Gazeta (3)

por desvela, em 16.01.16
A propósito de uma pergunta de João Ribeiro sobre um antigo post que dava conta da história do Príncipe Wiasemsky, um aventureiro russo de origem polaca, que se tinha proposto a atravessar o Estreito de Bering a cavalo (quando nessa altura, em 1895, estaria coberto de gelo), encontrámos vários registos jornalísticos da época, e um posterior, já de 1917, que voltava a referir a mesma história (que um comentador anónimo teve a amabilidade de nos dar conta).
O registo da gazeta do Município de Itu, no estado de São Paulo (cognominada "cidade dos exageros"), tem ainda a ousadia de antecipar a tese que Ludwig Schwennhagen irá publicar uns dez anos depois, e que no fundo se resume a juntar a história de Platão com informações de Diodoro Siculo, e outros escritores antigos, ou por outro lado, seguindo também o que Cândido Costa já tinha escrito.
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Indianapolis Journal,
Indianapolis, Marion County, 26 June 1895 (pág. 4)

M. Wiasemsky, a gentleman well known In Parisian fashionable circles, has made a wager that he will rldo from Paris to America on horseback. He proposes to ride through Siberia to Bering strait, and cross to Alaska on the ice.

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Municipio de Itu, Anno II - Nº66 
(Estado de S. Paulo) Itu, 4 de Fevereiro de 1917 (pág. 1)

Excavações Não menos curiosa, embora assás discutida, é a tradição millenaria da Atlantida. Pensavam os antigos que, ao occidente da Africa, banhada pelo oceano Atlântico, existiu immensa ilha que, desde tempos remotissimos, havia desapparecido, tragada por violento cataclysmo. A descripção mais completa deste paiz, legou-nos o celebre philosopho grego Platão, reproduzindo o que a Solon referiram os sacerdotes egypcios de Sãis. Vamos dar, tomado de um seu traductor, breve resumo.

"Atlantida era uma das mais bellas regiões do universo, suas florestas eram riquissimas de madeiras de construcção, seus rios eram navegáveis, o ouro e as pedras I preciosas abundavam por toda a parte. Os descendentes de Neptuno reinaram nesse paiz, de paes a filhos, durante o espaço de nove mil annos. Eram sobrios, virtuosos e religiosos; mais tarde, porem, cegou-os o orgulho. Em vez de cultivarem as terras opulentas, de desenvolverem o commercio, de obedecerem ás leis e ás auctoridades, preferiram extender seus domínios sobre outros povos. Subjugaram as ilhas vizinhas, a Africa' toda até o Egypto e a Europa até a. Tyrenia. Por fim, Júpiter castigou esta nação impia e guerreira, fazendo desapparecer a ilha em um dilúvio."

Diodoro de Sicilia fala também de uma vasta ilha a oeste da Lybia, a qual era cortada de muitos rios, quasi todos navegaveis, ilha que desapparecera inteiramente. Herodoto, cognominado o pae da historia, escreveu igualmente sobre esse paiz:

"Os Carthaginezes referem que alem das columnas de Hercules (hoje estreito de Gibraltar) havia um grande paiz habitado, onde elles costumam commerciar.
Quando chegam, tiram as mercadorias, espalham-nas pela praia e voltam aos navios, deixando grandes fogueiras, cujas fumaças servem de signal. Os do paiz veem, examinam as mercadorias e deixam o ouro que julgam sufficiente para o pagamento.
Voltam os Carthaginezes, de novo, tomam o ouro, e se julgam que a importância paga as mercadorias, levam-no; se acham que é pouco, retiram-se sem tocar em nada, e esperam tranquillamente, novas offertas. De facto, os compradores augmentam a somma e assim se realiza o negocio, a contento dos interessados.
Jamais estes povos fazem injustiças uns aos outros. Os Carthaginezes só tocam no oiro, quando reconhecem que representa o valor de seus generos, e os do paiz não levam os generos, sem que o pagamento haja sido retirado."

Nas descripções feitas por Platão, dos templos e de outros monumentos, vê-se que o estylo era mui diverso do empregado nas construcções gregas; tendo-se verificado, após as descobertas das ruinas do antigo Mexico, que mais se assemelhavam ás construcções mexicanas, as da Atlantida.
Este facto merece especial menção, não só porque, se nas descripções platônicas prevalecesse a phantasia, ellas deveriam reproduzir o estylo grego, que bem conhecia, e não outro inteiramente diverso e desconhecido, mas também, porque combina com importante descoberta feita por Elien, qual a de serem perfeitamente iguaes os emblemas dos reis de Atlantida aos dos idolos mexicanos, ultimamente descobertos.
Ora, essas tradições podem ser algum tanto exageradas, mas parece impossivel que repousem somente em factos imaginários.
Destarte, não seria temerário considerar, historicamente verificada, a existência dessa ilha e seu desapparecimento, e consequentemente, a facil communicação entre o velho mundo e o novo, esclarecendo a solução do problema sobre o homem americano.
Não obstante, ainda que não se admitta a existência da Atlantida, ha provas positivas, claras e concludentes da migração dos povos encontrados neste continente.
O que absolutamente repugna, é serem autochtones esses povos, pois a sciencia já disse a ultima palavra sobre a unidade da especie humana.

A communicação entre a Asia e a America é facil, tanto que o principe Wiasemsky, que já viajou a cavallo ao redor da Asia, dirigindo-se ao ”Figaro” que se publica em Paris, declarou que pretendia passar da Europa a America, montado a cavallo, exclusivamente.
Sairia de Paris, atravessaria a Europa, passaria os Montes Uraes, venceria toda a Siberia, seguindo em direcção ao estreito de Behring, que estando gelado, lhe daria passagem. De Alaska, na America do Norte, dirigir-se-ia para o sul até a Patagônia...

Que alguns de meus amaveis leitores, assombrados por esta inaudita façanha principesca, não se lembrem de atirar-lhe, ao príncipe cavalleiro, o popular e expressivo terminho da moda ... GARGANTA! ...
J. L. Pinheiro
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Como observação adicional, convém lembrar a descrição que Duarte Pacheco Pereira fazia sobre a forma de negociar com os "Rostos de Cão", e que era praticamente a mesma:
(...) os quaes no modo do seu comercio tem esta maneira. Todo aquele que quer vender escravo ou outra cousa se vai a um lugar certo para isto ordenado & ata o dito escravo a uma árvore & faz uma cova na terra daquela quantidade que lhe parece bem & isto feito arreda-se fora um bom pedaço & então vem o Rosto de Cam & se é contente de encher a dita cova de ouro, enche-a & senão tapa-a com a terra & faz outra mais pequena & arreda-se fora & como isto é acabado vem seu dono do escravo & vê aquela cova que fez o Rosto de Cam, & se é contente aparta-se outra vez fora & tornado o Rosto de Cam ali enche a cova de ouro & este modo têm em seu comercio & assim nos escravos como nas outras mercadorias & eu falei com homens que isto viram & os mercadores Mandiguas vão às feiras de Bétú & Bambarraná & Dabahá comprar este ouro que hão daquela monstruosa gente & tornado o Rio de Guambea (...)
com a diferença de que Duarte Pacheco Pereira estava-se a referir a uma negociação com "africanos", e não com "americanos". Mas, lembramos ainda que o próprio Duarte Pacheco Pereira afirmou ter estado no Brasil em 1498, a mando do rei, ou seja, dois anos antes de Pedro Álvares Cabral ter descoberto essas terras "acidentalmente"...

Quanto às habituais especulações sobre "alterações climáticas", como se não houvesse nesta designação pseudo-científica uma redundância de termos, e o clima devesse funcionar como um "aparelho de ar condicionado"... é claro que haveria gelo na ligação, independentemente de Wiasemsky ter conseguido ou não atravessar o Estreito de Bering a cavalo, numa "troika".
Curiosamente o termo "troika" em Fevereiro de 2011 era pouco conhecido, e remetia para o significado russo de trenó (três nós de cavalos). Só em Abril de 2011 é que começou a ser usado (e não apenas em Portugal) para a comissão tripla de ajuda financeira da UE e FMI.

modificado e terminado em 16/01/2016


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publicado às 07:59


Fazer Gazeta (2)

por desvela, em 09.01.16
Quanto às notícias sobre o impacto da Execução dos Távoras na Europa, temos acesso ao ano de 1759 onde a Gazeta de Londres publica bastantes apontamentos e detalhes sobre o assunto.
Alguns são bizarros, porque mostram a especulação e contradição quando se recebem notícias em segunda ou terceira mão.

https://books.google.pt/books?id=3XMPAAAAQAAJ
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The Universal Chronicle

January 9, 1759 [p.11] A primeira acção do Rei (por via do futuro Marquês de Pombal) terá sido sitiar a cidade de Lisboa com 14 mil soldados, o que terá ocorrido antes de 21 de Dezembro. 
The Boscawen, Brown, arrived at Portsmouth from Oporto, which place the left at 21st of December, has brought over a letter with this remarkable postscript to it: "An express is just arrived here (Oporto) from Lisbon, with advice, that fourteen thousand of the King's troops have invested that city, and closely blocked up two monasteries in it. Upon the approach of his Majesty's troops, several Grandees fled out of the city; so that it is supposed the late plot, for assassinating the King, has been at length discovered."

January 17, 1759 [p.20] Em 30 de Dezembro a lista de implicados dá destaque ao Marquês de Alorna e outros, que depois não farão parte dos executados. (O  Duque de Aveiro é questionado a 24 de Dezembro, e o Marquês de Távora a 30 de Dezembro) [*]
(Lisbon, Dec. 30) - A Most dangerous and wicked conspiracy against the life of his Most Faithful Majesty, having been happily discovered, a considerable number of persons have been arrested by the King's order, of whom the following are the principal, viz.
Duke de Aveiro,
Marquis of Tavora, father,
Marquis of Tavora, son,
Joseph Maria, son of the said Marquis,
Joseph Maria, brother of the said Marquis,
The Count of Attouguia,
Manuel de Tavora,
Marquis de Allorna,
Don Manuel de Souza,
Nuno de Tavora,
John de Tavora,
With all their families.
A Placart has been published, in which the King makes known his most providencial escape on the third of September last, when he was attacked, at eleven o'clock at night, near the Palace, by three of the conspirators, armed with three blunderbusses, loaded with large shot, one of the blunderbusses missed fire, but the others made two large holes in the back of the carriage the King was in, and wounded him in the arm, of which his Majesty is now happily recovered, without the least hurt remaining.
The same Placart promises certain honours and rewards for the discovery of any of the criminals, with a pardon to any of the accomplices, except the Principals. 
His Most Faithful Majesty has resumed the Government of his kingdom.

January 23, 1759 [p.27] Uma notícia por via de Paris basicamente serve para confirmar um panorama de estado de sítio. 
(Paris, Jan 12) Letters received here on Saturday from Lisbon, give us the following particulars: That the King of Portugal, desiring to return God solemn thanks for having saved him from the danger to which he was exposed, had appointed a day for the Te Deum to be sung, to which solemnity he invited all the Members of the different States: That the same day the Government caused 23 persons to be arrested, Nobleman and Ladies of the Court: That the greatest part of them were confined in the citadel of Lisbon, and the rest in different strong houses.

January 31, 1759 [p.37] Uma notícia falsa vinda por via de França dava conta que tinha sido necessário cortar o braço ao Rei D. José devido à ferida!  
Letters from Portugal by the way of France intimate that the King's arm in which he received the wound had been cut off, as the only method of saving his life.

February 2, 1759 [p.39] A notícia da execução chega a Londres com mais de 2 semanas de atraso, mas já tem o relato correcto das execuções, dando ainda uma adicional lista de presos.
By a Lisbon mail arrived yesterday we have an account of the following executions there.
The Marchioness de Tavaro, beheaded.
The Duke of Aveiro, and the Marquis de Tavora, broke on the wheel.
The Count of Atouguia, the young Marquis de Tavora, Don Joye Maria the youngest, the son of the old Marquis de Tavora, a servant of his, and two servants of the Duke of Aveiro, first strangled, and then broke on the wheel. One servant of the Duke d'Aveiro's burnt alive, and another burnt in effigy. The scaffold, with the dead bodies, were consumed with fire, and their ashes thrown into the river. 
The following remained in prison, their fate uncertain: Don Jean de Tavora, Don Nuno de Tavora, Don Manuell de Tavora, Bishop of Oporto, Bishop of Evora, the Marquis de Gouvia, Marquis d'Alorno, Count de Obidas, Count de Ribeiro, Dutchess d'Aveiro, the young Marchioness de Tavora, Countess d'Autouguia, Penerardo de Tarende, and about ten Jesuits.

February 5, 1759 [p.42] O relato é agora bastante pormenorizado, por comparação à Gazeta de Lisboa. O Duque de Lafões foi substituído como Juiz por "indisposição". Após as prisões, e interrogatório, o processo foi fechado na Quinta-Feira, dia 11 (há documentos improvisados, mostrando que os réus tinham sido notificados da culpa no final do dia 10), e a execução deu-se no Sábado, dia 13 às 8h30 da manhã. O dia 12 terá sido o julgamento, ou melhor, praticamente apenas terá havido tempo para a leitura da sentença. A notícia começa por dizer que os Condes de Óbidos e Ribeira Grande teriam sido presos apenas por "delito de opinião".
É contada a história oficial com algum detalhe, e a saída da família real, na semana seguinte para Salvaterra de Mago, para diversão e caça. O detalhe do rei acenar com ambas as mãos à população, também é ilustrativo da charada. 
(Lisbon, Jan. 20) On the 1st inst, the Count de Obidos, and the Count de Ribeiragrande, were sent to the castle of St. Julians, and guards placed at the doors of their respective dwelling houses; but in general it is thought that these two Gentlemen are not implicated in the conspiracy, but rather that they have been too free of speech. 
On Thursday the 4th inst, the Dutchess of Aveiro, the Countess of Atouguia, and the Marchionesse of Alorna, and their children, were sent to different nunneries. 
On Friday the 11th inst, eight Jesuits were taken into custody. A Council was appointed by the King, for the trial of the prisoners, composed of the three Secretaries of State, the person acting as Chief Justice in the room of the Duke of Alafoens, who is still indisposed, and five other Judges, the Solicitor for the Crown being present. The whole process was closed on Tuesday the 9th inst. The Marchioness of Tavora, Wife to the General of horse, being brought on Wednesday the ioth, from the Convent das Grillas, to the place where the other criminals were confined: This Lady was one of the chief instruments in this conspiracy.
Execução dos Távoras e dos Álvares Ferreira, criados do Duque.
Toda a documentação oficial do Processo no sítio:
Capitão Domingos
Saturday the 13th instant, being the day appointed for the execution, a scaffold had been built in the square, opposite to the house where the prisoners were confined, and eight wheels fixed upon it. On one corner of the scaffolding was placed Antonio Alvares Ferreira, and on the other corner the effigy of Joseph Policarpio de Azevedo, who is still missing; these being the two persons that fired at the back of the King's equipage. About half an hour after eight o'clock in the morning the execution began. The criminals were brought out one by one, each under a strong guard. The Marchioness of Tavora was the first that was brought upon the scaffold, where she was beheaded at one stroke. Her body was afterwards placed upon the floor of the scaffolding, and covered with a linnen cloth. Young Joseph Maria ot Tavora, the young Marquis of Tavora, the Count of Atouguia, and three servants of the Duke of Aveiro, were first strangled at a stake, and afterwards their limbs broken with an iron instrument; the Marquis of Tavora, General of Horse, and the Duke of Aveiro, had their limbs broken alive. The Duke, for greater ignominy, was brought bare-headed to the place of execution. The body and limbs of each of the criminals, after they were executed, were thrown upon a wheel, and covered with a linen cloth. But when Antonio Alvares Ferreira was brought to the stake, whose sentence was to be burnt alive, the other bodies were exposed to his view; the combustible matter, which had been laid under the scaffolding, was set on fire, the whole machine, with the bodies, were consumed to ashes, and thrown into the sea.
A summary of the process and sentence has been prjnted, the most remarkable passages of which are as follow:
That the old Marchioness of Tavora, the Duke of Aveiro, and the Jesuits, were the principal Instigators and Actors in this conspiracy: 
That the Marchioness seduced her husband, and the other relations: That, there were several conferences held at the Jesuits colleges called Santo Antam and St. Roque, at the Marquis of Tavora's, and at the Duke's: 
That the union of these noblemen with the Jesuits was since the time that the King dismissed those of that order from the palace: 
That all the male criminals, now executed, were in the field on the third of September, in different parties, waiting for the King: 
That the Duke of Aveiro was with the two men, who shot at the King's equipage, and was the person that first presented his piece to the postilion, which missed fire: 
That forty moidores were collected among these noblemen, and given to these two men: the Duke's hatred to the person of the King is set in a strong light; and the motives alledged in this paper, for this wicked Project, are, the Duke's being disappointed in marrying his son to a sister of the Duke of Cadaval, who is a Minor; the King having thought proper, that this match should be put off, till the Duke of Cadaval should be married, and have an heir. Another motive of disgust was, the Duke's being disappointed in a law-suit for some Commanderies, which the late Duke of Aveiro possessed. The Marchioness's great cause of resentment was, that her husband was not made a Duke, when he came from the East-Indies, which he had often desired, but could never obtain, because he had carried the reward of the service he was going upon, with him, it being always customary for the King to pass particular grants to the Viceroy, upon his being appointed, and before he sets out upon his voyage. 
The estates of these Noblemen are all confiscated to the Crown, the dwelling-houses to be razed to the ground, and the name of Tavora never to be used by any person whatever; this family being the principal branch of that name. The name of Mascarenhas, which was the Duke of Aveiro's, is spared, because his family is a younger branch of the families of that name.
A reward ot 10 000 crowns is offered to whoever shall apprehend the person of Joseph Policarpio de Azevedo.
The embargo was taken off the shipping the 16th instant: The three English men of war, the Merchant ships under their convoy, and the Hanover packet, which sailed the 31st of December, are the only ships that have gone out of this port, from the 13th of December to the day the embargo was taken off.
The King and the Royal Family assisted on Monday the 15th instant, at a Te Deum sung at the Chapel of Nossa Senhora do Livramento, in Thanksgiving for His most Faithful Majesty's happy recovery. As this was the first time that his Majesty had appeared abroad, great demonstrations of joy were shewn by the people, to whom the King was pleased to give the satisfaction of waving his handkerchief, first in one hand, then in the other, to shew that he had the use of both. Te Deum for the King's recovery has also been sung in all the Churches and Chapels throughout the Kingdom.
Their Majesties, and the Royal Family, set out yesterday the 19th for Salvaterra, to take their usual diversion of shooting and hawking.


February 6, 1759 [p.44] A duquesa de Aveiro será libertada, mas consta que morre na miséria.
They write from Lisbon, that the Duchess d'Aveiro and her three daughters are to be confined during their lives in the Nunnery of the Mother of God.

February 13, 1759 [p.54] A preocupação dos Jesuítas chega ao Papa a Roma, mas nada é feito.
(Rome, Jan. 17) The General of the Jesuits has lately presented a Memorial to the Pope, the object of which is, to try to moderate, if not entirely revoke the Brief of the late Pope Benedict XIV with regard to the apostolical visiting of the houses and colleges of the Society in Portugal. In this Memorial are represented the troubles which have attended the execution of the Brief, which is one of the principal arguments used against it. But the Pope has declared, that he will come to no resolution on that head, till he be more amply informed of the affair.

Entende-se aqui que durante as operações militares que sitiaram Lisboa, para efeitos da prisões da nobreza envolvida, o próprio Porto de Lisboa fechou operações.
(Lisbon, Jan. 1) The embargo which was laid on all shipping, foreign and domestick, was taken off the 19th ult.

O ataque aos Jesuítas é conduzido em simultâneo, invadindo os seus Conventos, e levando à prisão de um dos reitores. O Marquês de Pombal não saía sem uma guarda, que foi duplicada.
(Lisbon, Jan. 3) There must be strong grounds of suspicion against the Jesuits; for last Saturday the King's Ministers went to the Convents, and visited even the vaults where they deposit their dead.

(Lisbon, Jan. 8) Within these few days all the guards have been doubled before the King's palace, and no one is suffered to enter the Court without an express order. M. de Carvalho, the Secretary of State, who, in executing these orders, had all the reason imaginable to provide for his own safety, does not stir abroad without a party of horse guards to attend him.
The whole city is in a consternation, apprehending very justly the consequences of a conspiracy, in which the greatest families in the kingdom appear to be concerned. More persons are daily imprisoned. The Father Rector of the Jesuits College of St. Patrick was ordered yesterday before M. de Carvalho, and after a long examination was committed to prison. All the Jesuits houses are still closely guarded.

(Rouen, Feb. 1) Capt. Rodrigues, who arrived yesterday at Havre-de-grace from Lisbon in eleven days, reports, that on the day of his departure twelve more of the conspirators were to be executed.

Uma notícia muito atrasada e bizarra por via de Bruxelas e marinheiros naufragados na Madeira, e outra ainda mais bizarra que chega por via de Paris, ilustram diversas "versões do acontecimento", ou simples boatos lançados que serviram propósitos de confusão da população.
(Brussels, Jan. 28) By letters from Lisbon, dated the 28th ult. we learn, that two sailors belonging to a vessel which was shipwrecked in her passage from the Island of Madeira, but who had saved themselves by swimming, bad, on their arrival at Lisbon, related that there was a civil war in the above Island. It having been published there that the King of Portugal was killed, and that the Duke d'Aveiro had caused himself to be proclaimed King, by the name of Joseph II. That the Father of a certain Order had exhorted the people to acknowledge him; that the Governor been taken up at Lisbon; that the conspiracy extends further than was at first thought, and that not withstanding the detection of the chief authors thereof, it might yet occasion great confusion in Portugal. Several Jesuits are taken up, but it is not said whether the Society is concerned or not in this black design.

(Paris, Jan. 29) It has been reported for some days, that two Portuguese Jesuits have been arrested in France, and sent under a guaid to Lisbon, which report may probably arise from the unfavourable dispositions which people in general have for the Society.
M. z. We hear that the conspiracy against the King of Portugal was discovered in the following manner. The King while he was ill of his wounds lived retired, with a few of his most faithful Courtiers. His Majesty caused it to be reported in Lisbon that he was at the point of death. He at the same time ordered a vessel to sail for the Brasils, and gave the Captain a packet sealed up, which he was not to open but in a certain latitude. The vessel having sailed, and being arrived at the Azores Islands the Capt, opened the packet. He there found an express order from the King to stop at that place, to read all the papers and letters that should be found on board, to seize such of the passengers as he thought suspected, and then return to give his Majesty an account of what discoveries he had made. This order was punctually executed, the papers were examined, the letters opened and read, and the vessel returned to Lisbon. They were all put into the King's hands, who by that means discovered the principal Conspirators.

February 19, 1759 [p.58] Uma notícia atrasada ainda mais bizarra, por via de Espanha, que não fala da caça de El Rey, mas sim da grande caca de D. José, entendida como sinal de melhoras.
(Madrid, Jan. 1) Some advices just received from Villa-viciosa, and dated yesterday import, that the King had rested pretty well the night before, and that his Majesty having had a strong evacuation that morning, had of his own accord called for clean linnen, and ordered one of the windows of his apartment to be opened, which ever since his illness have been kept quite close. This is looked upon as a happy omen, and we begin to hope that bis Majesty may possibly recover.


Lamúria papal sobre os acontecimentos em Portugal, que sendo o reino mais brando, passava a pior que todos os restantes juntos.
(Rome, Jan. 24) The Pope has been greatly affected with the news of the disturbances in Portugal, and when he was told, that the Archbishop of Evora and the Bishop of Porto, both of the Tavora family, were among the number of the persons imprisioned by order of his Most Faithful Majesty, he could not refrain from crying out, "Good God, what calamities hast thou kept in store for thy church. The kingdom that had hitherto been the quietest, now gives us more solicitude and trouble than all the others put together. Is it for our sins, great God, that this happens under our pontificate?"

February 19, 1759 [p.58] A marquesa de Távora terá, dirigindo-se ao povo, dito que era culpada de "indiscrição". Pediu ao executor para não lhe tocar e facilitou o desfecho do golpe fatal.
(Hague, Feb. 10) The last letters from Lisbon contain the following particulars relating to the execution of the Marchioness of Tavora :
"That Lady, who was one of the first in the city, on coming to the place of execution, ascended the scarfold with great coolness, turned to the people, spoke to them with an intrepid voice, and said she deserved death for her indiscretion. Then turning to the Executioner, she desired him not to touch her, and told him that she would do every thing that was necessary herself. Accordingly she put her hands to her head, tied back her hair, covered her eyes with her handkerchief, and waited for the fatal blow."

February 21, 1759 [p.60] Sob tortura, o duque de Aveiro terá confessado a culpa, arrastado pela liderança de 3 padres jesuítas.
According to our advices from Lisbon, the Duke of Aveiro confessed when put to the torture, and persisted in it till the last, that he was drawn into the conspiracy against the King by three Jesuits (one an Italian, the others Portuguese), who had been dismissed from being Confessors to the Royal Family. These three are confined in separate prisons, and have no mercy to expect; but the government will punish none of the Members of this society till they know the whole number concerned in the plot.

February 21, 1759 [p.63] Aqui estará descrita a maior parte da razão pela qual os manos atacavam esta velha nobreza. Um dos pontos essenciais ao poder dos manos era evitar oposição com secretismo, afinal prática a ser exclusiva dos próprios. Os jesuítas eram um dos alvos visados, sendo o outro uma família que se fechava nos seus casamentos, não se abrindo à colocação de influências na sua família. A indiscrição de Leonor de Távora, na oposição aberta ao Marquês de Pombal, foi apenas uma provocação ao executante, mas o problema dos mandantes era outro... Claro que o fantasma dos Bragança, e de D. José, seria a legitimidade da Casa de Aveiro, mas o ataque a toda família Távora é de cariz diferente.  Curiosamente, o Duque de Aveiro seria presidente do último tribunal de apelo no reino... cargo ineficiente em causa própria. 
   DON Joseph Mascarenhas and Lencastre (or Lancaster) Duke of Aveiro, Marquis of Torres Novas, and of Gouvea, and Earl of Santa Cruz, hereditary Lord Steward ot the King's household, which is the highest office of the Palace, and President of the Palace-Court, or last tribunal of appeal in the kingdom, which is the second State Officer of the realm, was related himself to the Tavoras, and married to a sister of the older Marquis of that title. He was in the 51st year of his age; of the lowest middle size, well made in his person, and of an agreeable countenance, and lively disposition.
   Lady Eleanor Marchioness of Tavora, in her own right, and wife to the Marquis, was in the 59th year of her age: She was of the lower middle size, and thin; extremely genteel, and in her youth had been very beautiful. In the duties of life she appeared highly amiable, being an extreme good mother, and demonstrated herself as good a wife, by accompanying her husband to India at the age of 50, when he was appointed Viceroy of the Portugueze dominions in that country; of which undertaking, before hers, there had been but a single example. Her deportment in general was courteous and affable, and she was allowed to be a Lady of a good understanding.
   Francisco de Assis and Tavora (this family being above taking the title of Don) Marquis of Tavora and Earl of St. John and of Alvor, General of Horse, &c. This Nobleman was himself the eldest branch of the Alvor family, the third noble house of the Tavoras and by marrying his kinswoman, the heiress of the said Marquisate, became, in her right, the Earl of St. John and Marquis of Tavora. 
   The family of Tavora is the most illustrious of the kingdom, as well for the purity as antiquity of their descent; deriving their origin from the Kings of Leon, and having ever preserved their dignity, by disdaining to make any other than the most noble alliances; insomuch, that it has of late been the practice of the chief branches of this family to marry only with one another. 
Antigo solar dos Távoras em Souro Pires
   They themselves conquered from the Moors the lands they possess, and on which there is a town, a river, and an ancient castle of their name; and they even pretend to be Lords of Tavora, by the Grace-of God. The Marquis was in the 56th year of his age, of the highest middle stature; a genteel person, comely countenance, and grave deportment.
   Luis Bernardo de Tavora, younger Marquis of that title, was the eldest son of the above-mentioned couple, and in rhe 36th year of his age. He was married, with a dispensation from the Pope, to his father youngest sister, Dona Theresa se Tavora, and Lorena (or Lorain) who was twenty days elder than himself. This is the Lady who is said to be in the nunnery of Santos, without our having been informed wether was sent thither a prisoner by order of the Court. She is a middle-sized Lady, comely in her person, and extremely elegant in her deportment. The Marquis, her husband, was a little man, and thin: well enough made, but not of a pleasing aspect, tho' with a considerable resemblance of his mother. He was neither deficient in wit nor humour, but not amiable in his conduct, nor extremely correct in his morals. This couple have a daughter living, in the twelfth year of her age, Dona Joanna de Tavora, who is exceedingly beautiful; but who is, by the sentence of her father, grandfather and grandmother, deprived of the very name, of which shw would otherwise have become chief.
  Don Jeronymo de Ataide, Earl of Attougia, one of the oldest, if not the most ancient, title of the kingdom. This Nobleman was in the 38th year of his age, related himself to the Tavoras, and married to the eldest daughter of the elder Marquis and Marchioness of Tavora, sister to the young Marquis and Joseph Maria of that name. He was of a middle feature, clumsy in his make, of a heavy aspect, and ungraceful demeanour, and of low parts, but in his general conduct an inoffensive man.
  Joseph Maria de Tavora, second and youngest son of the elder Marquis and Marchioness of Tavora, in the 23d year of his age; of a middle size, most beautiful face, genteel person, agreeable deportment, and amiable disposition.

February 26, 1759 [p.66] A notícia de que a mãe do Duque de Aveiro morre quando toma conhecimento da notificação de culpa, três dias antes da execução.
(Lisbon, Jan 16)  The Duke of Aveiro's Mother was living four days before his execution. She had happily taken the veil some years ago, and died on the 10th by the shock she received from her son's horrible attempt against the life of his Sovereign.

Uma notícia atrasada, por via de Paris, e que seria falsa, pois os 3 jesuítas acusados ainda não teriam sido mortos. Malagrida só será garrotado e queimado em 1761, por acusação diversa, de heresia.
(Paris, Feb 4) The King asked Father Desmaretz, his Confessor, today: 'Have you no news from Lisbon?' "None, sire" replied the Jesuit. 'Then I tell you (said the King) three of your brethren are hanged there".

March 6, 1759 [p.76] -  extractos de outras cartas de Lisboa

April 11, 1759 [p.117] A Marquesa de Atouguia recebe notícia de execução, desmaia, e ao ouvir o perdão, apresenta sinais de demência.
There is advice from Lisbon, that the Jesuit, late Confessor of the King, is dead in prison. Several letters say, that it will require much labour to settle things. M. de Carvalho, who spares no pains to purge the kingdom, hath been often in danger of his life. His guards are augmented to 500 men; and the patrols are doubled. The Marchioness of Atouguia was condemned to death. Her sentence was read, and at the same time her pardon was delivered to her. But she was so much struck with her sentence, that, without reflecting on her pardon, she fainted away. She was brought to herself, but hath been foolish ever since.

June 13, 1759 [p.188] Notícia do fim do ducado de Aveiro, e as represálias contra os Jesuítas. São aqui nomeados os três principais implicados - Malagrida, padre italiano, mais conhecido, e os portugueses Matos e Alexandre. A jovem marquesa de Távora, suposta amante de D. José, era então libertada e passaria a usufruir de "boa pensão".
(Lisbon, May 7) The King has made the town of Aveiro a demesne of the Crown; which is a proof that the title of Duchy, which that town had, will remain extinct for ever. The Rector of the College of Jesuits of the town of Santarem has been brought hither, bound hands and feet, for throwing some papers into the fire when the troops invested the College. There are now no Jesuits at Setubal, they having all been sent to St. Roch, or committed to publick prisons. Thirty-five others of these fathers have been brought from divers parts of this kingdom, and shut up, part in the castle of this city, and the other part in the port of Junqueira. The famous chiefs of the conspirators, Malagrida, Matos, and Alexandro, have been conveyed to the tower of St. John, upon representations made to the King that they could not possibly live in the dungeons built for them. For the same reason the prisons of Counts d'Obidos and Ribeira have been changed. The young Marchieness of Tavora is no longer confined in the Convent of All Saints. It is even said that the King has granted her a handsome pension.

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Depois do ataque feito à Coroa de Inglaterra por Cromwell, a Execução dos Távoras é talvez o episódio mais significativo de ataque interno à nobreza na Idade Moderna. 
O ataque tem toda as características de se integrar numa das linhas de actuação da maçonaria, e especialmente para se enquadrar como episódio preparativo para a Revolução Francesa, marco escolhido para a Idade Contemporânea, 30 anos depois, em 1789.
Também no caso da Revolução Francesa toda a aristocracia será impotente para deter a máquina do Estado, que processará mesmo a realeza, e não apenas a nobreza.

Curiosamente, é interessante vermos como ganharam significado pejorativo os termos: 
- vilão, vilania
- burguês, burguesia
... e que inicialmente designariam apenas os habitantes de uma vila, ou de um burgo medieval.
Por oposição, ainda mantêm hoje um significado positivo, os termos ligados à cidade:
- cidadão, cidadania
... mas poderia não ter sido assim, dado o Reino de Terror que se seguiu à Revolução Francesa, em que todos eram cidadãos, mas onde essa real ou nobre cidadania parisiense terminava demasiadas vezes na guilhotina.
Subindo ainda da cidade para a capital, vemos como se associam os termos:
- capital, capitalismo,
... tal como se descermos ao ponto da pequena comunidade, obteremos:
- comuna, comunismo.

O que a velha designação "vilão e vilania" pode indicar, como antiquíssima percepção dos aldeões, é que o sistema de fazer crescer os aglomerados, ao aumentar os grupos agregados de indivíduos, produzia uma máquina em que o seu o corpo social se embebia num desrespeito pelos velhos muros, pelo mural antigo, pela moral antiga. 

(terminado a 9/01/2015)


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publicado às 07:44


Fazer Gazeta (1)

por desvela, em 06.01.16
aqui falei sobre a Gazeta de Lisboa, a propósito do Terramoto, e também sobre a sua interrupção na altura da Guerra Fantástica, porque qualquer notícia nessa altura, por muito manipulada que fosse, dificilmente conseguiria ser positiva para o Marquês. 
Assim, durante o período pombalino, "fazer a Gazeta", seria o equivalente a não fazer nada, dada a sua completa supressão.

O que trago aqui são as notícias do chamado "Processo dos Távoras", mas que como poderemos perceber pela leitura da Gazeta, foi no máximo um "processamento" julgado em uma ou duas semanas, mais correspondendo mais ao significado de "Assassinato".

Coloco as transcrições exactamente como estão na Gazeta, e deixo só os títulos como meu comentário de desabafo histórico, ao que ali é dito.

Setembro 1758: O Rei D. José deu uma queda, mas tomou um remédio e está melhor 
Gazeta de Lisboa N.º 37, 14 Set. 1758 (pág. 296): «El Rey nosso Senhor por cauza de huma queda que deu dentro do seu Palacio, se sangrou no dia quatro deste mez e por beneficio do dito remedio, que logo lhe foy applicado, tem S. Magestade conseguido todas aquellas milhoras, que todos os seus fieis vassallos lhe dezejamos, e havemos mister.»
Outubro/Novembro 1758: O Marquês de Távora é primoroso nas celebrações militares
Gazeta de Lisboa N.º 45, 9 Nov. 1758 (pág. 359): (Chaves, 8 de Outubro) «Por ordem do Excelentissimo e Illustrissimo Marquez de Tavora Director general da Cavalaria do Reyno se benzerão a 4 do corrente os Estandartes do Regimento de Dragões desta Praça, de que he Coronel João de Távora Comendador na Ordem de Maltha, e irmão do Excelentissimo Marquez; e como as festas solemnes tem vesperas, se começaram estas por uma cavalgada à Mourisca na qual se convidaram todos os Officiaes mutuamente, e com galantaria para a celebração desta festa, o que se determinou com huma escaramuça de dous fios, primorosamente executada. (...)»
7 de Dezembro 1758: É melhor ter um General mação a comandar as tropas
Gazeta de Lisboa N.º 1, 4 Jan. 1759 (pág. 7): (Almeida, 7 de Dezembro) «Chegou a esta Praça hum Correyo da Corte no dia 29 de Novembro com a faustissima noticia de haver sua Majestade Fidelissima promovido ao Posto de Mestre de Campo General dos seus Exercito, a Manuel Freire de Andrade, Governador das Armas desta Provincia da Beira, e desta Praça. (...)»
24 de Dezembro 1758: O Rei está bem, (h)ouve missa e há beija-mão institucional
Gazeta de Lisboa N.º 1, 4 Jan. 1759 (pág. 7): (Lisboa, 4 de Janeiro) «Certificada a mesa de Santo Antonio desta Cidade da melhoria de Sua Magestade Fidelissima por expressam do seu Cordial contentamento, fez cantar na Real Caza do mesmo Santo no dia 24 de Dezembro huma acçam de graças a Deos nosso Senhor, por haver conservado ao nosso muy Piedozo Monarca (...)
Na primeira Oytava do Natal recebeu o Rey nosso Senhor o cumprimento de boas festas de todos os Embayxadores, e Ministros das Potencias Extrangeiras (...) e todas as pessoas Reaes beijarão a mão com o mesmo motivo, todos os grandes, e senhores da Corte, e toda a Nobreza de destinção Eclesiastica, e Secular; e foi muito extraordinario o concurso.»
31 de Dezembro 1758: A Nobreza de Aveiro soube do bárbaro insulto ao Rei e dá-lhe graças. Portanto, presume-se que o Duque de Aveiro a duas semanas de ser executado, estivesse a celebrar.
Gazeta de Lisboa N.º 2, 11 Jan. 1759 (pág. 16): (Aveiro, 31 de Dezembro) «Fazendo-se publica nesta Villa noticia, q nella se recebeu com universal alvoroço, e se festejou tres dias com os repiques dos sinos de todas as Parroquias, e Conventos, de se achar nosso Augusto, e fidelissimo Monarca livre da queixa, que lhe rezultou do barbaro insulto, que se lhe fez. Determinou o  M.R.P. Prior do Convento de S. Domingos fazer huma acção de graças na sua Igreja (...) Discorreu sobre elas, e sobre o assunto da festividade com a sua notória eloquência, e notável engenho deyxando admirado todo o grande concurso de gente, que o ouviu, e constava o Clero, Magistrado, e Nobreza de toda esta grande Villa, e de huma innumeravel quantidade de seu Povo.»
11 de Janeiro 1759: A Família Real está fina e pensa ir a Salvaterra divertir-se a caçar. Sim, daqui a dois dias dará um espectáculo em Belém, mas é surpresa! O Senado de Lisboa pode saber, pelo regozijo com que tomavam a notícia... de não estarem no palco.
Gazeta de Lisboa N.º 2, 11 Jan. 1759 (pág. 16): (Lisboa, 11 de Janeiro) «SS.MM. Fidelissimas, a toda a Familia real logrão actualmente saude perfeita no sitio do Alto da Ajuda, e se diz que passarão brevemente a Salvaterra para ali se divertirem no exercicio da cassa. O Senado da Camara desta Cidade, querendo fazer huma demonstração do gosto, com que todos os moradores della receberam a certeza da milhoria do muito Augusto Rey nosso Senhor, fez cantar na sesta feira 5 do corrente na Igreja dos RR. PP. Capuchos de Santo Antonio, de que he Padroeiro o Te Deum Laudamus muy solemnemente, precedido de hum erudito e elegante sermão, recitado pelo R.P. Manuel de Jesus, Mestre actual de moral, cuja eloquencia na Arte oratoria igualam poucos. Assistiu a este obsequio, e devido acto o mesmo Senado, com o seu Presidente interino o Desembargador Gaspar Ferreira Aranha, e todos os Cidadões, e foi muito notavel o cõcurso.»
18 de Janeiro 1759: Caros leitores da Gazeta, sois uns asnos! Desde Setembro que todos presumíamos que os Marqueses de Távora e o Duque de Aveiro eram culpados, ainda nem vocês, nem eles, na semana passada sabiam de quê. Na realidade eram uns saltimbancos que se faziam passar por nobres. A queda que o Rei deu no palácio? Tudo treta, não perceberam? Foi preciso fazer uma mudança na cabeça da tropa, meter manos nossos a mandar, e também acabar com a cambada de Jesuítas... mas disso não daremos notícia, que o povo é gentinha religiosa, profana e burra. Vá, agora leiam o que lhes aconteceu, e não são só estes - há mais malta da alta nobreza que também eram saltimbancos. E não é só nobres e padres - para os seus serviçais ainda é castigo pior. Habituem-se. 
Gazeta de Lisboa N.º 3, 19 Jan. 1759 (pág. 23): (Lisboa, 18 de Janeiro) «Do fatal da noite de 3 para 4 de Setembro, q a todos os seculos serà memoravel, com a duração da infamia de seus autores; se teve logo a prozumpção dos q o forão; como o fazi, duvidosa a consideração, de haverem elles recebido, e estarem recebendo actualmente, muitas mercês do nosso Amado Monarca; não se fazia Crivel, q cobrindo com a sua soberba a ingratidão, se cegassem de maneira, q não vissem o despenhadeiro, e cahisse no precipicio; e assim não quis a recta justiça do Ministerio, proceder ao castigo, sem huma exacta a veriguação da verdade, porem feita esta com a mais admiravel prudencia, e sagacidade, forão reconhecidos incontestavelmente por agressores daquelle execrando crime, o Duque de Aveiro, o Marques de Tavora, sua mulher, dous filhos seus, e seu genro, o Cõde de Atouguia, e assim forão sentenciados pela Junta da Inconfidencia, cõposta de Ministros incorruptos, a ser degradados da immunidade das ordens, de que erão Cõmendadores, exautorados dos lugares, e titulos q tinhão, desnaturalizados do Reyno, e tidos por peregrinos, e vagamudos; ordenandose q Leonor Tomazia, q se intitulou Marqueza de Tavora fosse degolada, e q Joze Mascaranhas e se chamou Duque de Aveiro, Francisco de Assis, q se dizia Marquez de Tavora, Luiz Bernardo, que tinha o mesmo titulo, Jose Maria q foi Ajudante da Sala de seu Pae, quando era General, e Jeronimo de Ataide, nomeado Conde de Atouguia, depois de lhes quebrarem as canas dos braços, e pernas, e os peitos com huma grossa massa de ferro fossem todos agarrotados, queimados os seus corpos, juntamente com o da dita Leonor Tomazia, e lançadas no Mar as suas cinzas. As cazas em q viviam demolidas, e salgadas. Todas as suas Terras, Senhorios, Alcaydarias mores, Comendas, Prazos, e Morgados, sem clausula confiscados para a Camara Real.
Executou-se com effeito esta sentença no dia 13 do corrente, no largo, que ha entre o Cays de Belem, e o Palacio que foi do Conde de Aveyras. No mesmo dia, e no mesmo lugar padeceram no garrote Manuel Alvares Ferreira guarda roupa de Joze Mascarenhas, e Braz Joze Romeiro guarda roupa de Francisco de Assis, e João Miguel homem de acompanhar, cujos corpos foram depois queimados com a estatua de Joze Policarpo de Azevedo (que escapou de o prenderem, e se prometem 10 U cruzados de premio aquem o entregar à justiça) e lançadas as suas cinzas no Mar, com as de Antonio Alvares Ferreira guarda roupa de Jozè Mascarenhas, que no mesmo dia e lugar foy queimado vivo.
A 15 sahiu S. Mag. com toda a familia real render graças a Deus na Igreja de N. S. das Necessidades, na do Livramento, e na do Bom Sucesso, e vezitou a Hermida de Santo Alvaro, cuja festa se celebrava, aclamado por todo o caminho com innumeraveis vivas; por ter infinito o Povo que concorreu para ver restituido à saude o nosso muito amado Soberano, e Augusto Rey.»
1 de Fevereiro 1759: Julgavam que a notícia da ida para Salvaterra divertirem-se na caça era uma metáfora? Aprendam. Foram mesmo divertir-se, que isto a vida são dois dias e os julgamentos fazemos em três. Acham pouco? Os historiadores vão-lhe chamar "Processo", talvez em analogia com o processamento de carne num matadouro.
Gazeta de Lisboa N.º 5, 1 Fev. 1759 (pág. 39): (Lisboa, 1 de Fevereiro) «Todas as noticias que chegão de Salvaterra concordão em que Suas Magestades Fidelissimas, e Suas Serenissimas Altezas, logrão saude perfeita, e se divertem com a cassa de dia, e de noyte com serenata, e outras diversoens; que o Augusto Rey nosso Soberano, que Deus Guarde, reconhece em si melhor disposição, e mais robustez; para o que tem contribuido muyto a mudança de ar. Não diz ainda quando a Corte se restituira ao sitio de Nossa Senhora da Ajuda.» 
28 de Fevereiro 1759: Acham que a nobreza que não foi morta, nem presa, está contra a malta? Desenganem-se, vejam só como é lindo o bajular dos Mellos, e não se esqueçam disso, ensinem à vossa prole, que o divertimento em Salvaterra vai continuar com muita tourada, durante muitos séculos.
Gazeta de Lisboa N.º 9, 1 Mar. 1759 (pág. 71): (Muja, 28 de Fevereiro) «Como a Corte passou a Salvaterra para se divertir com o Exercicio da cassa, veyo habitar ao Palacio, que tem nesta Villa o Ilustrissimo, e Excelentissimo Senhor D. Nuno Alvares Pereira de Mello, Conde de Tentugal, Marques de Ferreira, e Duque de Cadaval, com a Illustrissima e Excellentissima Senhora Duqueza viuva sua Mãe, e com suas irmãs, para ficarem mais vezinhos da Corte; e sabendo que na nossa Igreja Prioral se não havia ainda feito alguma acção de graças a Deus pela mercê q fez a este Reino em livrar o nosso Augustissimo Rey do grande perigo em que esteve a sua tam estimavel vida, ordenou que se fizese esta divida demõnstração de contentamento; o q efectivamente se executou no dia 24 do corrente; (...)
Assistiram suas Excelencias a toda esta festividade, e ao jantar mandarão destribuir mantimentos pelo grande numero de pobres que ali concorreu. Tambem o Excellentissimo Duque fes com a mesma ocazião, que houvesse aqui um Cõbate de Touros de Cavalo, e de pe, e que se lançasse ao Ar fogo de arteficio para que subisse mais alto o seu obsequio.»
5 de Julho 1759: Achavam que os números da Gazeta cheios de "vivas" às melhoras do arranhão no braço do Rei não duravam 6 meses? A seguir vão ver os "vivas" à nomeação do Conde de Oeiras. Calma, só depois é que passará a Marquês de Pombal, até porque havia um lugar de marquês que tinha vagado, certo?
Gazeta de Lisboa N.º 27, 5 Jul. 1759 (pág. 122): (Lisboa, 5 de Julho) «De todas as Cidades, Villas, e Lugares do Reyno chegam notícias do grande gosto, com que os Povos em toda a parte aplaudirão a feliz noticia, de se achar S. Mag. Fidelissima livre da queixa q padeceu. Na Cidade de Elvas (...)»[notícia com a nomeação de Sebastião Jozé de Carvalho e Mello como Conde de Oeyras]
Agosto de 1759: Aprendam a saudar o mano Sebastião José, não como restaurador, que isso era para D. João IV, mas sim como fundador, ao nível de D. Afonso Henriques. Ele gosta. Ah, e não se esqueçam da sua alta inteligência... Manos, ponham-no depois num pedestal em Lisboa, que servirá o efeito ficar mais alta esta cabecinha, que tanto intelecto gastou para ver ossos a partir e gente a ser queimada viva. Por enquanto só damos estátua ao rei num cavalo. O mano quer um leão.
Gazeta de Lisboa N.º 32, 9 Ago. 1759 (pág. 163): (Porto, 9 de Julho) «Por hum Proprio chegado de Lisboa se recebeu nesta Cidade a noticia, de haver o Rey N.S. conferido o titulo de Conde de Oeyras de juro, e herdade com outras mercês ao Illustr., e Excel. Sebastião Jozé de Carvalho, e Mello, e foy tão geral o gosto, que este despacho influiu nestes habitantes, que a mayor parte o festejou tres noites com luminarias; julgando-o por todos por muy correspondente ao merecimento, e serviços de hum Ministro a que se deve dar o pitecto, não de restaurador, mas de novo fundador deste Reyno, pela reforma que nelle tem feito a sua alta inteligencia.»
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A mãe do Duque de Aveiro morreu quatro dias antes da execução, quando soube que o filho era acusado do atentado contra a vida do Rei. Isto só para termos ideia de que quando falei aqui em julgamento de três dias, posso ter exagerado por excesso.

Gazeta de Londres. February 26, 1759 [p.66]
(Lisbon, Jan 16)  The Duke of Aveiro's Mother was living four days before his execution. She had happily taken the veil some years ago, and died on the 10th by the shock she received from her son's horrible attempt against the life of his Sovereign.
(Paris, Feb 4) The King [of France] asked Father Desmaretz, his Confessor, today: 'Have you no news from Lisbon?' "None, sire" replied the Jesuit. 'Then I tell you (said the King) three of your brethren are hanged there".

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Bi-disco & Cong

por desvela, em 04.01.16
Tinha pensado ainda colocar este postal antes do final do ano, mas nem sempre se arranja tempo entre bolos, filhós e espumante. Por via de um comentário que envolveu a palavra Congo, pareceu-me adequado recentrar a discussão.

Há uns objectos, chamados pedras de Dropa (Dropa Stones), que estão ligados a um certo folclore da teoria alienígena, e que não me interessam muito (quem quiser pode ler o link anterior que remete para a Wikipedia, ou ainda ver outros detalhes em crystalinks.com/dropa.html).

Estes objectos são obviamente desconsiderados por quem não acredita em visitantes alienígenas, e seguem-se controvérsias de falsificação, etc... 
Pior, têm também um efeito colateral, que é misturar no mesmo assunto, outros objectos, que são perfeitamente aceites, mas que assim têm tido muito menos atenção ou consideração, por poderem ser juntos no mesmo rol.

Tratam-se dos Discos bi (... parece que também se pode ler pi):
Discos Bi - de 3400 a.C. até à dinastia Han
(Ambas as imagens são da dinastia Han, cerca 200 a.C.)
Atendendo a que espessura destes discos de jade pode ser inferior a meio centimetro - na primeira imagem 0.4 cm, com diâmetro de 13 cm - estamos basicamente a falar do formato de CD ou DVD - que têm 12 cm de tamanho standard, e 0.12 cm de espessura (ou seja, o bi-disco tem a espessura de 3 CD's). 
Ok, não cabem num normal leitor de CD/DVD, mas enganam bem!


Estes objectos têm uma proveniência muito específica, de uma "pequena" região na China (... e que, por mero acaso, visitei no ano passado), próxima de Xangai. Estão associados à transição do período Neolítico na Cultura de Liangzhu, onde também se encontram outros objectos, igualmente curiosos, uns tubos de jade, denominados cong (também se poderá ler tsung).

 
Cong - tubos de jade

Os tubos cong nalguns casos poderiam dar para vários discos bi, sendo cortados longitudinalmente... mas normalmente há um envólucro quadrado que circunda o tubo.
A função dos cong parece ser ainda menos conhecida do que a dos discos bi, mas ambos foram associados a símbolos sociais, considerando-se que os discos bi de uma tribo eram entregues como acto de submissão, após derrota em guerra. Outras considerações vêem os cong como símbolos da terra (quadrado), enquanto os discos bi seriam apenas símbolos do céu (círculos).
Um vídeo é sugerido na Wikipedia, e merece de facto ser visto:
Cong & Bi - Liangzhu Culture (vídeo da Khan Academy)
  
Há várias questões levantadas sobre a execução destes objectos, que começam a aparecer datados de circa de 3000 a.C., numa altura onde não se encontram aí ferramentas metálicas capazes de trabalhar facilmente com a dureza do jade. 

Um ponto nesta questão é que as chamadas pedras de Dropa (que se misturam ainda com o mais surreal disco de Lolladoff - que tem figuras com ETs), apareceram nos anos 1950 e 60, tendo sido mesmo divulgadas em Moscovo, nessa altura, por um certo Vyacheslav Zaitsev (havendo entretanto um famoso costureiro, ou um voleibolista, exactamente com o mesmo nome - deve ser um nome do tipo "João Silva"). 
Esta data de aparecimento antecede a primeira patente do CD que é submetida em 1966 e aceite em 1970. Ou seja, quando em 1964-65 aparecem vários artigos em revistas OVNI sobre os discos Dropa, ainda não se pensava em CD's, que só iriam aparecer no mercado nos anos 1980. 
De qualquer forma, para afastar a ideia de que uma coisa pudesse ser associada à outra, nada melhor que uma história inventada para confundir. Da mesma forma que se quisermos descredibilizar um indivíduo, uma maneira é descredibilizar o grupo a que pertence (neste momento, quantos aceitariam emails de vantajosas propostas de negócio nigerianas?).

Convém assim estar mais atento a legados perfeitamente aceites, e não contestados na origem, do que ir atrás de focos de atenção, que puxam quase sempre para meia-dúzia dos mesmos exemplos, uns menos claros que outros. Simplesmente assim, aos legados oficiais não é dada a devida atenção, e estão de alguma forma arrumados numa arrecadação de um museu, ou num sítio da exposição sem grande foco para o turista.

Um dos grandes trunfos do ilusionista é manipular a atenção do espectador para outro foco!
Convém não esquecer que estamos, quase desde o princípio dos tempos, a lidar com Magos.

Afinal, se nos deparássemos com um bi-disco, agora de vidro, como este:
Bi-disco da dinastia Han (circa 200 a.C.)
no Metropolitan Museum of Art
... seria talvez mais fácil entendê-lo como um CD estragado duma edição pimba da Vidisco, do que como um Bi-disco como mais de 2 mil anos.

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publicado às 04:31

escrevemos sobre António Galvão, em particular sobre a opinião que divulgou - de que os povos orientais, tinham tido prioridade nas navegações mundiais.

Como a sua obra é de grande importância, e não há praticamente edições recentes que facilitem a compreensão e leitura, decidimos pegar na edição de 1563, para fazer uma transcrição, ao mesmo tempo que revemos, e relemos, este texto, que foi dos primeiros que mereceu aqui um grande destaque.
________________________________________
DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

Querendo ajuntar alguns descobrimentos antigos & modernos, que por mar & terra são feitos, com suas Eras & alturas (como são duas cousas tão difícultosas) achei-me tão confuso com os Autores deles, que determinei desistir do tal propósito. 
Porque os Hebreos dizem que da Criação do Mundo ao Dilúvio houve 1656 annos. E os Setenta Intérpretes [Septuaginta] 2242. Santo Agostinho 2260 & tantos. 
E assim nas alturas há muitas diferenças: porque nunca se ajuntaram em uma Armada de dez pilotos até cento, que uns não estivessem em uma altura, e outros em outra. 

Mas por ter emendado de outros que o melhor entendam, me dispus a fazer isto  ainda que alguns digam que o Mundo foi já descoberto, e possam alegar para isto, que assim como foi povoado, podia ser frequentado, e navegado. E mais sendo os homens daquela idade de vidas mais compridas, leis, linguagens, quasi todas umas. Outros têm dito o contrário, que dizem que não podia a terra ser toda sabida, e a gente, comunicada uma com a outra, porque quando fosse se perderia pela malícia, e sem justiça dos habitadores dela. 

E porque os maiores descobrimentos & mais compridos foram por mar feitos, principalmente em nossos tempos, desejei saber quais foram os primeiros inventores disto depois do Dilúvio. 
Uns escrevem que os Gregos, outros dizem que os Fenicios, outros querem que os Egípcios. Os Indios [Indianos, Chineses, etc...] não consentem nisso, dizendo que eles foram os primeiros, que navegaram, principalmente os Taybencos, a que agora chamamos Chins [chineses], e alegam para isto serem já senhores da Índia, até o Cabo de Boa Esperança, & a Ilha de Sam Lourenço [Madagáscar... ou Austrália], por ser povoada deles ao longo da praia & os Iaos [Java ou Austrália], Timores [Timor], Selebres, Macasares [Celebes], Malucos [ilhas Molucas], Burneos [Bornéu], Mindanaos, Luções [Filipinas], Lequios, Iapões, [Japão] & outras Ilhas, que ha aí muitas & as terras firmes dos Canchenchinas [Vietname], Laos, Siamis [Sião], Bremas, Pegus [Birmânia], Arracões, até Bengala & além disto a Nova Espanha, Perú, Brazil, Antilhas, & outras conjuntas a elas, como se parece nas feições dos homens, mulheres, e seus costumes, olhos pequenos, narizes rombos, & outras proporções que lhe vemos. E chamarem ainda agora a muitas destas Ilhas & terras Batochinas, Bocochinas, que querem dizer terras da China. 

Além disto os nossos Escritores deixaram escrito que a Arca de Noé, se assentara da parte do Norte nos montes Darmenia [da Arménia], que está de XL [quarenta] graus para cima & que logo dali fora a Scithia [Cítia] povoada por ser terra alta, e primeiro das águas descoberta. E como a Provincia de Thaibencos, seja uma das principais da Tartária (se assim é como dizem) bem se mostra serem eles dos mais antigos povoadores, e navegadores, pois neles se acaba aquela terra da parte do Levante, & os mares são tão bons de navegar como os rios destas partes, por jazerem entre os Trópicos onde dias & noites, não fazem muita diferença, assim nas horas, como na quentura: por onde não há ventos tão destemperados que alevantem as águas, nem as façam soberbas, & por experiência o vemos nos pequenos barcos em que navegavam com um ramo por mastro & vela: & um remo na mão com que governam, correm muito mar, e Costa. E assim em uns paus a que chamam Catamarões [catamarãs], em que se escancham, ou assentam, e vão com outro remando. E querem ainda que estes Chins fossem senhores da maior parte da Scithia, e que navegassem toda sua Costa, que parece estar até setenta graus da parte do Norte. 

Cornelio Nepote referido, assim no lo aprova, onde diz, que Metelo colega de Afranio, estando por Consul em França, El Rey de Suevia lhe mandara certos índios, que vieram em uma nau com mercadorias de sua terra pela parte do Norte, às praias de Alemanha: & segundo isto, devia ser da China, por estar de vinte, trinta, quarenta graus para cima, e têm naus fortes, e de pregadura que podiam sofrer mares, e terras tão frias, & destemperadas como aquelas: que as naus de Cambaya [império Mogol na Índia], que também dizem haver muitos annos que no mar andam, não parecem para isso por ser cozeitas de Cairo, & os homens de pouco trabalho & vestido. 

Também os que escaparam do Diluvio ficaram tão assombrados que não ousaram descer aos baixos. Membroth [Nimrod], depois dele cento & trinta anos fez a Torre de Babylonia, com intenção de se salvar nela vindo outra cheia. Pelo que parece que os que mais cedo ao mar chegaram, ora fossem os que iam ao Levante & Província da China, ora os que viessem ao Poente ao fim da Syria aqueles que primeiro ali povoassem seriam os que navegassem, o mais deixo aos Scyrios [Sírios] & Egypcios, que tiveram grandes debates sobre isso: porque todos querem adquirir a si esta honra, e eu vir ao ponto do que os nossos antepassados deixaram escrito. 

Aqueles que de antiguidades se prezaram, dizem que no ano de 143, depois do Dilúvio, viera Tubal por mar a Espanha: por onde parece que já naquele tempo se navegava a nossa Ethiopia. E estes mesmos contam, que depois disto não muito tempo a Rainha Semiramis fora contra os índios: & naquele Rio de que eles tomaram o apelido [rio Indo], dera batalha a El Rey Escorobatis, na qual ele perdera mil navios: por onde parece que naquelas partes havia muitos, & muitos anos que se navegavam. 

No ano de 650, depois do Diluvio, houve um Rey em Espanha que se chamou Hispalo, em cujo tempo diz que foi descoberto até o Cabo Verde, e alguns querem dizer que a ilha de S. Thomé & Principe. E Gonçalo Fernandes de Oviedo que fez as crónicas das Antilhas: que neste tempo fossem Ilhas já descobertas, e do nome deste Rey se chamassem Hespéridas: & alega muitas razões para isto, e aqueles quarenta dias que navegavam do Cabo Verde a estas Ilhas. 
Mas outros querem dizer que o mesmo se fazia deste Cabo à Ilha de S. Thomé & Principe, que estas são as Hespéridas: e não as Antilhas. E não se apartam da razão muito, pois naquele tempo, e depois muitos anos se navegou mais ao longo da terra, que pelo mar Oceano, nem havia altura, nem agulha, nem gente do mar podia ser tão esperta. 

Segundo a opinião dos que escreveram não se pode negar que não houve muitas terras. Ilhas, Cabos, Istmos, Angras, Enseadas, que os tempos & as águas terão gastadas, & apartadas umas das outras, assim na Europa, como em Africa, Asia, & Nova Espanha, Perú, & outras que são descobertas, & estão ocultas pela continua diferença que tem a humidade da água, com a sequidão da terra. 
Diz Platão em os Diálogos de Thymeo Eclisio, que houve antigamente no mar oceano Athlantico grandes ilhas & terras chamadas Athlantides [Atlântidas], maiores que Africa & Europa, e que os Reys daquela terra senhorearam muita parte desta nossa: & com grande tormenta se fundiu com tudo o que tinha, e ficou tanto lodo, e cascalho, que se não pôde por ali navegar muito tempo. E assim escreveram, que junto da Ilha de Calex [Cales], contra o estreito havia umas Ilhas que se chamavam Frodísias [Afrodísias], bem povoadas & frequentadas com muitos jardins, pomares, e hortas, de que já agora não temos outra memória se não o que representa a escritura. 


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