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Bernardo de Brito começa assim o segundo capítulo da sua
Geographia antiga da Lusytania (1597)
É este reino de Lusitania ocupado de muitas, e mui grandes serras, que o fazem inexpugnável a toda a nação estrangeira, querendo os naturais tomar a peito a sua defesa...
... lembrando que o monge de Alcobaça escreve em período do rei Filipe II de Espanha, que não seria das alturas mais fáceis para clamar a inexpugnabilidade da pátria, e indirectamente criticar os conterrâneos, que não tomaram a peito a sua defesa. 
Mais à frente afirma ainda que as pedras de Sintra choravam pela glória passada. É claro que Bernardo de Brito poderia argumentar que se referia apenas à ausência de Filipe II da corte lisboeta, mas tivessem outros portugueses o mesmo empenho na espada que ele teve na pena, e as coisas não se teriam ficado pela pena de 60 anos sob domínio espanhol.

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Geographia antiga da Lusytania 
por Bernardo de Brito

Capítulo II - Montes

É este reino de Lusitania ocupado de muitas, e mui grandes serras, que o fazem inexpugnável a toda a nação estrangeira, querendo os naturais tomar a peito a sua defesa; o primeiro dos quais, chamado dos antigos Cico, é a serra do Algarve, que serve de apartar este reino do restante de Portugal, e começa junto a Castro Marinho, continuando seus cumes até se lançar no mar Oceano, junto ao lugar de Algazur [Aljezur] (e nosso Resende tem para si que este monte é tronco da serra Morena).
Serra de Monchique, pico da Foia com 902 m. Seria conhecida na Antiguidade como Mons Cico, que derivou em Monchico, dando o actual nome. Brito associa-a a toda a serra algarvia, mas hoje a serra de Monchique designa a parte ocidental, usando-se as designações Espinhaço de Cão, e Caldeirão, para partes seguintes. Há ainda o Monte Figo, perto de Olhão, que era uma importante referência para a navegação. (foto)
Depois deste monte, se segue o que Ptolomeu e Strabo chamam Barbarico, e nós hoje serra da Rabida [Arrábida], no qual se colhe grão finíssimo para tingir panos, e sedas, e daqui a levam para muitas partes fora de Espanha, tendo por experiência ser esta mais fina que todas as outras.
Serra da Arrábida, seria o Monte Barbarico, a que à época de Brito se escrevia serra da Rábida. (foto)
Havia no Allemtejo, pouco distante da cidade de Evora um Monte, que Appiano Alexandrino chama de Venus, e no tempo de agora se chama Pumares, o qual já naquele tempo era muito cheio de olivais, e vinhas, de que no tempo de agora tem ainda muita parte (porque do sítio e coisas desta serra temos tratado assaz na Monarquia, não há para que alargar com mais leitura).
Serra da Ossa, que seria o Monte de Vénus, a que Brito nomeia como Monte Pumares. Do culto dedicado a Venus (e Cupido), passou um dos montes a ser conhecido como Monte da Virgem... e por estranho que pareça, seria provavelmente o Monte de Vénus. (foto: Anta da Candeeira, Aldeia da Serra, Serra de Ossa)
Segue-se depois deste, o monte Hermínio Menor, a quem os moradores da serra da Estrella (que é o verdadeiro Hermínio) deram este nome, como já deixámos contado acima, e agora é a a serra de Marvão, onde há lugares mui grandes, e bem povoados, e a serra em si é abundantíssima, de minas de ouro e prata, e outros metais menos estimados, principalmente chumbo, de que Plínio faz menção, quando fala dos moradores de Meidobriga, cujas ruínas estão hoje nas fraldas desta serra, como notou nosso Resende em suas Antiguidades Lusytanas. 
Serra do Marvão, que aparece nesta foto como uma "arca de Noé" encalhada na montanha, diz Brito que foi entendida como sendo o Hermínio menor. A suposta vila romana Meidobriga deverá ser a que hoje se identifica como Amaia. Ambos os nomes terão existido, mas Meidobriga também é colocada mais a norte, no Côa, em Freixo de Numão.
Segue-se desta parte do Tejo o monte que os antigos chamaram da Lua, e nós agora Serra de Sintra, assaz nomeada e conhecida em Portugal, por ser a vila deste nome ordinária recreação dos Reis de Portugal, onde tinham paços sumptuosíssimos, que hoje duram, chorando pela glória que já se viram. Na parte em que esta serra se lança no mar, estiveram antigamente uns templos de Idolos, dedicados ao Sol e Lua, e hoje duram ali algumas pedras com letreiros romanos, que dão notícia do que digo.
Serra de Sintra, como Monte da Lua, não oferece novidade, tal como o templo referido por Francisco de Holanda.
(foto: Anta de Adrenunes ... onde foi colocado um marco geodésico de cimento no topo da anta! )
Depois desta serra achamos logo o monte Tagro, segundo o chama Varro, ou Sacro, como sente Columella, e nós hoje chamamos Monte Iunto, foi antigamente famosa esta serra entre os Autores, pela fama vulgar que havia, de conceberem nela as éguas do vento, a qual fábula como já tocámos acima, teve princípio da muita ligeireza dos cavalos, que aqui nasciam, dado que alguns tenham por coisa certa, o emprenharem e parirem do vento.
Serra de Montejunto, segundo Brito seria o Monte Tagro ou Sacro... onde varia bastante com a interpretação de Francisco de Holanda, que considerava uma designação alternativa da Serra de Sintra. Também por isso o mito das éguas do vento não era colocado em Montejunto. (foto: ruínas do primeiro convento de dominicanos em Portugal)
É este monte quase um com a serra de Albardos, ou de Minde, onde no tempo de agora há gentil raça de cavalos, que se estimam por serem fortes, ligeiros, e mui sofredores de trabalho. Além disto há nela grande criação de vacas, e outro gado miúdo, as carnes do qual são excelentes pela bondade dos pastos; colhe-se nela algum grão, e colher-se-ia muito mais, se houvesse curiosidade nos moradores. Tem canteiros de pedra branquíssima e singular para edifícios, e no fim da serra há minas de azeviche, mui fino, donde se lavram brincos de muita estima.
Serra dos Candeeiros, que chegou a ser chamada Serra de Albardos, nome que caiu em desuso; e mais a norte, junto a Fátima, toma o nome de Serra de Aire ou Minde. Uma boa parte da serra está cheia de muros, de cerca de 1 metro de altura, que dão-nos notáveis imagens "tipo-Nazca" em território nacional. Já andei por lá, sem concluir coisa nenhuma... a disposição dos muros parece anárquica, mesmo para finalidade de pastorícia (na maioria dos casos os muros estão fechados, sem nenhuma abertura) (foto). Sendo claramente natural, a noção de serra, formada por montes piramidais colados, é ali notável.
O mais famoso monte da Lusytania, e que é como origem e fonte donde se derivam todos os mais, que há entre o Tejo e Douro, é o Hermínio maior, chamado em nosso dias Serra da Estrella, assaz conhecido e nomeado em toda a Espanha. A grandeza deste monte é notável, porque a maior parte do ano estão seus cumes cobertos de neve, e quando na força do verão se permite subir ao alto, anda ocupado de grandes rebanhos de ovelhas, que acodem ali da província do Allemtejo, atraídos dos muitos pastos que há nas várzeas e prainos, que ficam no mais alto da serra. Os moradores antigos deste monte eram homens ásperos, e duros de condição, indómitos pelas armas, mui rústicos no trajo e modo de vestir, amigos de roubar o alheio, e pouco fiéis no que tratavam. As mulheres tiveram antigamente menos polícia e gentileza, que agora têm, e foram notadas, como toca Alladio, de pouco continentes, e que facilmente se enamoravam de qualquer estrangeiro que viam na terra. Mas esta condição fácil é já mudada com o tempo, porque as mulheres que vivem nela, dado que pela maior parte sejam formosas, e de carões lindíssimos, são por extremo continentes e virtuosas.
Há no mais alto desta serra duas lagoas de monstruosa grandeza, uma das quais é tão funda que se lhe não pode sondar o lastro. e afirmam os moradores da terra, que algumas vezes se vêem nelas tábuas de navios, e outras coisas semelhantes. Sua água é doce, como de fonte, mas escura e triste, e pouco saborosa ao gosto. Não se cria em nenhuma dessas lagos nenhum género de peixe, nem coisa viva. 
É esta serra em muitas partes fertilíssima de frutas, e todas de gosto singularíssimo, e tem por seus vales muitas fontes de água clara, e de gentil sabor. Há nela muito pouco pão, centeio e quase nenhum trigo, e qualquer destes que há, colhe-se com muito trabalho dos moradores da terra, por sua grande aspereza. 
Deixou o nome antigo de Hermínio, e chamou-se da Estrella, por causa (como diz Resende) de há aí rocha altíssima, que está quase no mais alto da serra, o cimo da qual se remata em feição de uma estrela, da qual os pastores, que ali vêm ordinariamente, vieram a dar nome a toda a serra.
Serra da Estrela, era o "Hermínio maior". Em 1881 a Sociedade de Geographia irá conduzir uma expedição ao topo liderada por Hermenegildo Capello, onde ia ainda o médico Sousa Martins, integrado na moda dos Sanatórios (ver ex. Águas Radium). Desse ano de 1881 resulta a imagem da Torre (da antiga Torre, depois demolida e/ou substituída pela actual). Daquela imagem da torre fica claro que a construção teria certa história antiga... e como último vestígio de antiga obra humana no topo da serra, desapareceu, ficando apenas estranhas formas naturais do tor serrano. A expedição terá ainda colocado um ponto final nas fábulas sobre as lagoas da serra que Brito e tantos outros contavam. Foi notícia recente o "sumidouro" do Covão dos Conchos, que remeterá o excesso de água dali para a Lagoa Comprida, por canalização feita no ano 1955. Quanto à "rocha altíssima com forma de estrela"... não a encontrei.

O monte que Salviato, discípulo de São Martinho, chama Tapeio, é o que vulgarmente chamamos serra de Ansião, posta sobre o Rabaçal: ainda que alguns com melhor conjectura, têm para si ser outro monte, que fica sobre a vila de Soure, que ainda hoje se chama Porto Tapeo. Há nele algumas povoações de pouca conta, onde a gente vive pobremente; é este monte assaz conhecido, e nomeado pelos dificultosos passos, e ruins caminhos que tem, para gente que caminha por ele.
Serra do Ansião, na acepção de Brito, deveria incluir serras vizinhas como a serra de Sicó, de que deixamos uma imagem das enormes Buracas do Casmilo (que já tínhamos mencionado). O nome Tapeio, que Bernardo de Brito menciona para esta serra/monte, passou hoje a Tapéus, como freguesia no concelho de Soure. Existe ainda a Vila Romana do Rabaçal, perto de Penela, com surpreendentes mosaicos do Séc. IV, esta villa é pouco conhecida, por comparação à vizinha Conimbriga.

Há também na Lusytania um monte de maravilhosa grandeza, que os antigos chamaram Alcoba, e nós agora partindo-o em diferentes nomes, o fazemos diferente em muitos lugares, chamando uma parte dele serra de Besteiros, outra Alcoba, como os antigos o chamaram; e assim em outras partes, até se juntar com a serra de Monte de Muro.
É a maior parte desta serra, pelos altos, estéril, e de mui pouco pão, e o mantimento ordinário do moradores é algum milho, que colhem, e pouco centeio: é em muitas partes despovoada e a gente que vive nos lugares que se habitam, é comummente pobre, e que vive com necessidades, imitando neste particular e na pobreza de vestir, aos antigos povoadores daquela própria terra, que (como diz Alladio) andavam quase nus, e se mantinham de ervas cozidas em leite.
Os vales deste monte são em algumas partes fresquíssimos, e abundantes de frutas de espinho, e outras de várias castas. Há também neles abundância de colmeias, donde se tira mel singularíssimo, que se leva por muitas partes do Reino.


Serra do Caramulo, cujo nome antigamente seria Alcoba, que Brito junta à parte da serra de Besteiros. Uma zona onde as formações naturais têm jeito para iludir mão humana, nos empilhamentos singulares (ver Rota dos Caleiros à Lupa).
Quase junto com esta serra, fica logo a que vulgarmente se chama Monte de Muro, e os antigos com pouca diferença chamavam de Mons Maurus; toma grande distância de terra e seus altos são asperíssimos, habita-se alguma parte dele, com trabalho dos moradores, porque a terra dá muito pouca cevada, e quasi nenhum trigo, e o mais que tem é centeio, de que vivem miseravelmente. Não se cria em todo ele vinho, nem fruta que possa trazer recreação aos moradores.
A gente é grosseira e rústica em seu trato, veste pobremente e o vestido vulgar é burel grosseiríssimo. As mulheres são pouco para cobiçar, porque além da pobreza, que costuma dar pouco lustre, têm elas de si tão pouco nas feições naturais, que entre mil se não achara uma que tenha mortas cores de formosura: são robustas, trabalhadeiras, e amigas de grangear sua vida, castas pela maior parte, e desamoráveis para os estrangeiros. Os homens são robustos, sofredores de trabalho, e se tiveram exercício nas armas, fizeram grande efeito na guerra. Criam-se neste monte muitas vacas bravas, de pequenos corpos, mas mui fortes para trabalhar, e para comer de gosto singularíssimo: tiram delas alguma manteiga, que ordinariamente lhe serve de azeite. Faz menção deste monte nosso Laymundo no terceiro livro, e Resende no primeiro.


Serra de Montemuro, com o seu mais alto pico - Talefe ou Talegre, a quem Brito chamava Monte de Muro, associando à designação latina antiga Mons Maurus. A região está agora cheia de hélices eólicas, que vão servindo as rendas energéticas, triplicando a produção nacional, para nada... No topo, mais uma torre, de pedras empilhadas (tal como a antiga torre da Serra da Estrela), mas coberta com uma película de cimento, passando assim por marcos geodésicos bem mais recentes - até que a película de cimento começa a cair - neste e noutros casos. 
O Gerez, chamado dos antigos Iurezum, começa na província de Entre Douro e Minho, e caminhando por ele algumas léguas, se mete pela Galiza a dentro. É monte de grande altura e asperíssimo em algumas partes, não é povoado pela sua aspereza. Tem um grande número de veação, como são cabras selvagens, corças, porcos monteses, veados, e alguns ussos [ursos]. Há nesta serra vales de muita ervagem, por onde correm fontes de água belíssima, e que foram de maior estima; se estiveram em lugares povoados, onde a gente se aproveitara de sua frescura.
Serra do Gerês, segundo Brito teria como nome antigo Iurezum. O pico da Nevosa tem um marco geodésico muito mais discreto (foto), e omitimos aqui a cascata ou o mosteiro de Pitões das Júnias. Mas mencionamos em Vieira do Minho, na fronteira do Gerês nacional, a notável Igreja de Nª Srª da Lapa, datada de 1694 (foto), onde certamente se procedeu à devida limpeza interior (mas onde a tentação de escrever no tecto herdaram-na os párocos... com um "rogai por nós...").

Outros muitos montes há em Portugal, famosos por sua grandeza, de que não faço menção particular, fazendo-a de outros montes,  porque o meu intuito é só falar das que têm nomes antigos, e andam celebrados entre os Historiadores, que alego nesta primeira parte.

______________ (continua) ______________

NOTA: Um apontamento final, para notar que a visão sobre as cadeias montanhosas, descrita por Bernardo de Brito, e seus contemporâneos, era semelhante à dos rios. Conforme se vê na descrição da Serra da Estrela, ela era entendida como um pico principal, uma raiz montanhosa, dos quais todas as restantes elevações contíguas seriam apenas um seu prolongamento.
Terminou de incluir as figuras e as legendas com comentários ao texto, finalizando com Vieira do Minho, porque quando falei do Caminho do Minho, que terminava em Caminha, esqueci-me de mencionar esta Concha, esta Vieira (do Minho), no texto col-chas (ou antes, no com-chas) sendo esse caminho do Minho, alternativo ao de Santiago, ou ainda ao anterior caminho de Lugo, o Callix Ianus, 
02-03-2016

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publicado às 05:19


Retratos & Retractos (3)

por desvela, em 26.02.16
O livro de Bernardo de Brito, cujo link volto a colocar

Elogios dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderaõ achar

não começa com D. Afonso Henriques, mas sim com o pai, o Conde D. Henrique. 
Faço notar isto de novo, porque há quem se satisfaça em ler apenas a informação transcrita... mas isso não dispensa a consulta do original.
Por exemplo, Bernardo de Brito lança a suspeita de que D. Duarte teria sido vítima de peste através de uma carta que tinha recebido... do tipo "atentado por carta com antrax", suspeita que nunca tinha visto colocada em mais nenhum lado.
Assim, como é natural, Brito junta uma descrição física dos diversos reis, e não apenas dos que transcrevi (... e para quem gosta de opinar, sem se dar ao trabalho de o ler, tem as cópias coloridas dos retratos).

Nesse livro também se acrescentam dois reis da dinastia filipina, mas optei por começar em D. Afonso Henriques e ficar pelo D. Sebastião. Como o início com o Conde D. Henrique gera normalmente mais interesse do que o fim com o Cardeal D. Henrique, junto aqui a tal informação acessível à distância de um clique.

Conde D. Henrique
Logo na página 5, diz Brito:
"Foi o Conde homem grande de corpo, de presença alegre & venerável, teve o cabelo louro e os olhos azuis, como diz na sua história, & o mostra um retrato de iluminação antiga que temos numa bíblia de mão antiquíssima, onde na primeira folha do Prologo está a figura do Conde armado como aqui vai: salvo a coroa de louro, que por não ser Rey & ser tão vitorioso me pareceu acrescentar-lhe, & a banda que por o retrato ter um modo de roupa que não entendemos bem sua postura se lhe pôs do modo que vai."
Conde D. Henrique, na obra de Bernardo de Brito.
Encontramos ainda outras representações do Conde D. Henrique e D. Teresa, mais alegóricas do que concordantes no aspecto:

Representação medieval (à esquerda) e renascentista (à direita)

Assim, por exemplo, se a figura à esquerda (... mais antiga), sugere cabelo alourado para o Conde D. Henrique, enquanto a figura à direita, sugere cabelo mais escuro; curiosamente passa-se o oposto no que diz respeito a D. Teresa!
No entanto, quando se chegou a apontar o Conde D. Henrique como filho do Rei da Hungria, conforme diz Duarte Galvão:
(...) e D. Anrique sobrinho deste Conde de Tolosa [Toulouse], filho segundo-génito de uma sua irmã, e del Rey da Hungria, com quem era casada (...)
poderá ter havido mais ou menos sugestões de representações capilares adequadas à sua região de origem. Ora, Brito diz que "segundo a melhor opinião" seria "natural de Besançon, filho de Guido Conde de Vernol & de Ioanna filha de Geroldo, Duque de Borgonha", e claramente não segue Duarte Galvão, nem segue a tese de Damião de Goes, já aqui abordada.

Num comentário, João Ribeiro sugeriu que a diferença de tonalidades entre pai (louro de olhos azuis) e filho (cabelos e olhos castanhos), poderiam dar alguma sustentação a um mito de que D. Afonso Henriques seria filho de Egas Moniz e não do Conde D. Henrique.
Acontece que D. Teresa de Leão era filha de Ximena Moniz, concubina de D. Afonso X de Leão e Castela. Portanto, uma simples inspecção faz ver que D. Afonso Henriques era também Moniz, pelo lado do bisavô materno - Munio Moniz, conde do Bierzo. Parece-me bastante mais complicado, distinguir fisionomicamente esse avô, do pai de Egas Moniz, ou seja Munio Ermiges, também ele nobre, Senhor do Ribadouro. Lembro que por esta época a referência Moniz ou Muniz, era usada apenas para indicar os filhos de alguém chamado Munio, tal como Henriques era o patronímico dos filhos de um Henrique.

Outros retratos
Interessou-me especialmente chamar a atenção sobre esta obra de Bernardo de Brito. Sendo mais ou menos inventados, se os historiadores modernos desdenharam o que puderam sobre Brito, acabaram por usar muitas vezes os retratos que ele compilou nesta obra, à falta de outros.
Porém, volto a realçar que ao mesmo tempo Bernardo de Brito acaba por fazer um resumo da História de Portugal, sob a forma de elogios aos reis.

Em particular, Brito fala da ida do Conde D. Henrique à Terra Santa, no sentido de participar, não na Cruzada de Godofredo do Bulhão (... seu irmão, segundo Damião de Goes), mas sim numa Cruzada seguinte, acompanhado de Hugo de Lusignan.

Há uma série de outros retratos, atribuídos a Melchior Tavernier, em 1630, ou seja, uns 20 anos depois da obra de Brito, onde poderemos ver de novo a influência dos seus retratos, até na pose estranha de D. Pedro I, por exemplo. 
Uma novidade aqui é a inclusão de vários retratos de rainhas e concubinas...






Melchior Tavernier, em 1630

... mas talvez a principal novidade será a indicação do Conde D. Henrique como Conde de Limburgo, uma cidade belga, e esta localização mais se associaria à versão de Damião de Goes, já que Limburgo não seria longe das paragens de Boulogne-sur-Mer.

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publicado às 06:09


Retratos & Retractos (2)

por desvela, em 21.02.16
Continuamos os retratos, que foram mais retro-actos, inspirações em descrições passadas, mas que no caso da Dinastia de Avis, que se segue, não deveriam oferecer grande dúvida, já que não havia propriamente falta de pintura e pintores em Portugal ao tempo dos descobrimentos.

Houve, isso sim, uma grande capacidade de sumir com tudo o que existia... e tal não se justifica apenas pela cobiça espanhola em período filipino, pela cobiça francesa em período napoleónico, ou mesmo pelo sismo de 1755. Tal justifica-se especialmente por actuação interna, sempre presente, e sempre convenientemente ignorada.

Aproveito para falar ainda nos Painéis de S. Vicente, porque vem a propósito de alguns rostos em questão... mas não tenciono voltar a esse assunto, que considero "resolvido". 

D. João I
Diz Brito: "Teve o rosto comprido, mais magro que gordo, a testa pequena, o cabelo preto, & não muito basto, trouxe-o sempre comprido & muy concertado, os olhos teve pretos pequenos & de muita viveza, seu retrato temos antigo, & quasi de seu tempo, ainda que por ser tirado em velho não mostrará tudo conforme a relação da Crónica, mais que nuns longes, que se podem ver na figura que aqui vai esculpida."

D. João I (à esquerda na Sala dos Capelos, que é praticamente idêntica à de Brito, à direita)

Neste caso, como já discursei sobre a presença dos rostos da Dinastia de Avis nos Painéis de S. Vicente, e como nem considero mudar de opinião sobre eles... apresento aqui a "versão sem barba", considerando devidamente estranho que Bernardo de Brito tenha considerado os rostos noutros túmulos, mas não faça referência ao túmulo de D. João I no Mosteiro da Batalha, no que diz respeito a D. João I ou a D. Duarte.

D. João I (nos Painéis, segundo Alvor-Silves, comparado com iluminura da época e com rosto no Mosteiro da Batalha)

D. Duarte I
Segundo Brito: "Seu retrato nos ficou de seu tempo, & deles vi dois conformes, um, que ficou em uma tábua pequena no Mosteiro da Batalha, donde o tirou o Cardeal D. Henrique & outro que tenho em meu poder tirado deste, que tenho por muy autêntico, tanto por sua antiguidade, como por condizerem suas feições com as próprias que descreve sua história."


D. Duarte (à esquerda na Sala dos Capelos, que é praticamente idêntica à de Brito, ao centro, e à cópia colorida, à direita)

O mesmo comentário que fiz antes... ou seja, o rosto que está no túmulo de D. Duarte não apresenta barba, e por várias razões considero-o muito identificável ao do Painel de S. Vicente. Mais uma vez, Bernardo de Brito omite o rosto esculpido no Mosteiro da Batalha, talvez por ser a sua versão sem barba.
D. Duarte (nos Painéis, segundo Alvor-Silves, comparado com o rosto no Mosteiro da Batalha)

D. Afonso V
Diz Brito: "Seu retrato tirei assim dos mais apurados, que há no Reino, como doutro que houve de França, tirado no tempo que lá andou, muy conforme com os que cá temos."
 
D. Afonso V (à esquerda na Sala dos Capelos, que é praticamente idêntica à de Brito, ao centro, bem como à cópia colorida, à direita)

Também neste caso, há uma figura correspondente nos Painéis de S. Vicente... no chamado "painel dos frades", que evidencia farta barba e cabelo, e que poderá facilmente corresponder a D. Afonso V, mas é a própria posição na sequência de destaque das 3 figuras, que levou à fácil identificação da composição na lógica de representar o "painel dos frades" como reis antecessores de D. João II.

Há, é claro, várias outras razões explicadas por todo o contexto dos Painéis, e que aqui omito, remetendo para essas páginas anteriores. 
Para que não fiquem dúvidas relativamente à minha posição sobre a representação geral dos Painéis de S. Vicente, exposta antes, a minha convicção mantém-se a mesma, ou é ainda maior... e sinceramente, dada a confirmação pelo "Manuscrito do Rio", algo que só li depois, parecem-me todas as outras hipóteses - abundantemente veiculadas, numa completa fantasia, sem pés nem cabeça.

D. João II
Segundo Brito: "Foi homem de meia-estatura, bem proporcionado, como mostra este retrato, que se tirou de outro seu, que está no Mosteiro de S. Domingos de Lisboa, onde está pintado no altar de Nª Senhora com a Rainha sua mulher. O escudo se lhe acrescentou porque ele o reduziu ao modo em que hoje está, com 5 dinheiros em cada escudo & 7 castelos no escudo vermelho, a que chamamos Orla: sendo antes semeado de quantos cabiam & tendo cada um dos escudos pequenos 30 dinheiros."

 
D. João II (à esquerda na Sala dos Capelos, que difere pelo escudo, da imagem de Brito, ao centro,  e da cópia colorida, à direita)

Comparando com a imagem dos Painéis, sem barba, é talvez uma das que mais se afasta desta representação barbuda, e que se prende com todo o simbolismo da morte do filho Afonso, onde determinou rapar a barba, um gesto que foi acompanhado por todo o reino. Por isso, nessa altura considerei outras imagens que haviam sido atribuídas a si:

D. João II enquanto figura central dos Painéis (à esquerda) e duas representações comparativas (a central é supostamente um seu retrato em vida).

Portugal, esse grande sumidouro de tudo o que é registo histórico, terá perdido esse retrato de que falava Bernardo de Brito, como estando no Convento de S. Domingos de Lisboa. Por algumas semelhanças, o da Sala dos Capelos poderá ser candidato a cópia directa, dada a ausência de escudo, que Bernardo de Brito inclui por iniciativa própria. No entanto, dada a cópia directa posterior (a tempo de D. Pedro II ou D. João V), podemos presumir que o quadro do altar de S. Domingos "sumiu" durante o período filipino.
Nestas coisas não se deve perder esperança, porque os Painéis foram encontrados 400 anos depois, servindo então de plataforma para as obras de restauro na Santa Engrácia... Assim que foram encontrados, logo Columbano Bordalo Pinheiro seguiu a conclusão óbvia, mas achou-se conveniente propalar outra história absurda, e manter os Painéis no estatuto de "mistério". 
O funcionamento deste país é um absurdo pegado, desde há 500 anos a esta parte, para não dizer mais.

D. Manuel
Sobre D. Manuel, diz Brito: "Foi el rey de corpo meão, mais sobre o pequeno que grande, a barba teve castanha escura, o nariz curto rombo & grosso, a boca grande & grossa, mas muy corada: sendo velho trazia a barba rapada, como está esculpido no vulto de pedra sobre a igreja de Belém, que se fez pelo próprio natural, com tanto artifício que diziam alguns antigos que só lhe faltava falar & dali se tirou o retrato que aqui vai esculpido.

D. Manuel (à esquerda na Sala dos Capelos, ao centro a imagem de Brito, e à direita a cópia colorida... todas similares)

O que é interessante nestas descrições de Bernardo Brito é que ele de certa maneira considera que o seu testemunho poderá sobreviver mais do que as representações de quadros ou esculturas que vê... quer no caso do quadro do altar de S. Domingos - que viria mesmo a sumir; quer no caso da escultura na Igreja dos Jerónimos, que ainda permanece:
A estátua de D. Manuel nos Jerónimos, de que fala Bernardo de Brito.
D. João III
Diz Brito: "Era de presença Real, cheia de Majestade, tanto que algumas pessoas lhe indo falar se perturbavam: seu retrato se conserva em diversas partes, muito ao vivo, em particular no mosteiro de Belém, em uma tábua que está no coro, posta no pé de um devoto crucifixo, na qual está também o príncipe seu filho & muitos irmãos seus retratados excelentissimamente. E daí se tirou esta medalha, sem outra diferença mais que o ceptro e a coroa, que lá não tem & eu lhe fiz por aqui, à imitação dos outros retratos."

D. João III (à esquerda na Sala dos Capelos, ao centro a imagem de Brito, e à direita a cópia colorida... similares, excepto talvez na coroa e ceptro, que Brito acrescentou)

No blog "do porto e não só" está uma detalhada análise da pintura ao tempo de D. Manuel e D. João III, mas não encontrámos um quadro que corresponda à descrição do que fala Bernardo de Brito - poderá ser outro caso de actuação do sumidouro nacional.

D. Sebastião
Acerca de D. Sebastião diz Brito: "Seu retrato, depois de muitas diligências, me veio à mão por via de uma pessoa nobre & muy curiosa & amiga de conservar a memória de sua pátria, do que se esculpiu o que aqui pus."
D. Sebastião (à esquerda na Sala dos Capelos, ao centro a imagem de Brito "sem coroa", e à direita uma versão diferente)

O quadro que encontro com mais semelhança, relativamente ao exposto por Brito é um que está na wikipedia... mas com "coroa". Extremamente curioso, porque Brito afirma várias vezes adicionar a coroa quando faltava, e neste caso parece fazer o oposto! 
D. Sebastião (Museu de Évora)
Depois, como todos sabemos, o Portugal histórico idealizado entrou em estado comattoso, e tal qual bela adormecida, passa por sonhos de um passado glorioso misturado com pesadelos de corjas reinantes.

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publicado às 23:17


Retratos & Retractos (1)

por desvela, em 21.02.16
Bernardo de Brito, em 1603, no seu
Elogios dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderaõ achar
vai apresentar uma série de retratos dos reis de Portugal, justificando a origem e processo de composição das figuras antigas.

Começa por citar Píndaro, que se queixara do destino dos reis da Media, já que apesar do florescimento dos Medos em seu tempo, não teria chegado nenhum relato de historiadores, escultores ou pintores, sobre esses grandes monarcas.
Acrescento, que "a coisa" é tanto mais notada, quanto para ilustrar personagens antigos, se procura naturalmente ir buscar alguma representação antiga, porque, mesmo sendo essa posterior nalguns séculos, se crê que "será melhor do que nada", baseada em algo mais substancial do que ilustrações posteriores... a menos que se creia em inspirações de origem sobrenatural.

Como sobre Bernardo de Brito caiu o conveniente estigma de desconfiança sobre tudo o que fez, mas como são muitos os que apreciam os retratos dos reis na Sala dos Capelos em Coimbra, ou outros retratos que circulam, não se sabendo bem a origem de inspiração dos mesmos...  poderia acontecer que alguém observasse que a Bernardo de Brito teria bastado visitar a Universidade de Coimbra. 
Só que, as coisas são como são, e se a sala existia no tempo de Bernardo de Brito, não havia nenhum quadro de nenhum rei de Portugal...  foram compostos em 1655-56 pelo pintor dinamarquês Carl Falch, Com que base? 
Bernardo de Brito explica...

De seguida iremos colocar as figuras inclusas na obra de Bernardo de Brito, ladeadas pelas constantes nos quadros da Sala dos Capelos, e por outros quadros de que não consigo lembrar/apurar a origem, mas que como se compreenderá são cópias ilustradas do trabalho de Bernardo de Brito (esses outros quadros terminam com D. Pedro II, logo terão sido provavelmente feitos no seu reinado ou no seguinte, de D. João V).

D. Afonso Henriques
D. Afonso Henriques (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, e à direita uma clara cópia) 

Acerca do retrato diz Bernardo de Brito o seguinte:
"Foi o Rei D. Afonso homem grande de corpo & quase agigantado, teve o cabelo castanho & muy comprido, a boca grossa, o rosto & nariz comprido, os olhos castanhos claros & grandes, sendo velho foi calvo na fronte & todas as suas coisas foram cheias de Majestade & grandeza de ânimo, seu retrato ficou do tempo de D. Manuel, que o mandou tirar quando trasladou seu corpo do primeiro lugar a outro em que agora está & de pedra o mandou esculpir sobre a mesma sepultura: difere do esculpido...
... e argumenta que preferiu seguir o da pintura.

D. Sancho I
Aqui Brito diz também que "o seu retrato se imitou do que D. Manuel fez tirar do natural":
 
D. Sancho I (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, e à direita a clara cópia) 

D. Afonso II
Brito diz agora que o "seu retrato nos ficou, de quando el Rey D. Sebastião abriu sua sepultura acrescentando-lhe de mais a coroa que fiz pôr em cada retrato"

D. Afonso II (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, e à direita a clara cópia) 

Este é um caso em que é claro que os outros copiam os desenhos de Brito... porque, poderia argumentar-se que tinham tido acesso às mesmas fontes (ao retrato mandado fazer por D. Sebastião)... só que Brito decide acrescentar a coroa, e os outros seguem-no, concluindo-se assim que já não tiveram acesso ao original de D. Sebastião.

D. Sancho II
Neste caso, diz Bernardo de Brito: "o retrato se tirou da verdadeira Relação da Crónica antiga, onde estão suas feições particularizadas, & de um que teve o Infante D. Fernando, pai de D. Manuel, que condiz muito com sua história, ainda que o vi já muito danificado."

D. Sancho II (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, e à direita a clara cópia) 

Estes quadros, são praticamente todos iguais...

Afonso III
Diz Brito: "seu retrato houvemos do que D. Sebastião mandou tirar do corpo embalsamado, quando lhe abriu a sepultura & conforma muito com outro que veio de França a este Reino quando a Rainha mãe pretender direito nele por morte do Cardeal D. Henrique, alegando ser descendente deste Rei por via de um filho seu que houvera da Condessa Matilde, coisa de fundamento leve como se mostrou no sucesso."
D. Afonso III (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, praticamente iguais; e o da direita é distinto) 

Os dois primeiros são iguais, mas o outro é diferente, e poderá ser inspirado "no quadro que veio de França". Como estamos vindo a concluir, é natural que o da Sala dos Capelos siga a representação de Brito, e já não o original do tempo de D. Sebastião.

D. Dinis 
Diz Brito: "Seu retrato ao natural se tirou em tempo de D. João II, de que nos ficou o transumpto, muy conforme em tudo com o que descreve a crónica antiga, & com o vulto que está em cima de sua sepultura, como se pode ver nesta figura, que se fez à imitação de ambos."

D. Dinis (à esquerda: Sala dos Capelos, com a Rainha Santa Isabel, ao centro em Bernardo de Brito, e o da direita é cópia)

Neste caso, o quadro da Sala dos Capelos é bastante diferente, sendo até original na inclusão da Rainha Santa Isabel, não sendo inspirado no quadro mandado fazer por D. João II.

D. Afonso IV
Diz Brito: "Seu retrato se formou da relação de sua crónica por ser o mais verdadeiro transumpto, & os que há de pincel diz conformarem muito da verdade, & de um que em seu tempo se tirou em o retábulo antigo do mosteiro de Odivelas, que se pintou em seus dias & no painel dos Reis Magos estavam ao vivo ele & seu filho Pedro, adorado ao menino Jesus, donde se aproveitou o escultor para formar o rosto como aqui vai exprimido muito ao vivo."

D. Afonso IV (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, e à direita uma clara cópia) 

Também neste caso, o quadro da Sala dos Capelos é razoavelmente diferente, mas também não é muito diferente do de Brito.

D. Pedro I 
Diz Brito: "Seu retrato se tirou da formosa figura que ele em vida mandou fazer pelo natural, em cima de sua sepultura, & da relação da sua crónica, & memórias antigas que são as que mais sem suspeita descobrem a verdade: porque uns retratos que comummente se tem por seus ornados com camisa de abanos & guarnição (coisa que naqueles antigos tempos se não usava, nem usou muito depois) & com a vista & olhos atravessados, bem se deixa de ver, ser coisa de fantasia, & pintada de imaginação, ao gosto de quem a mandou fazer, & não imitada do natural."
D. Pedro I (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, e à direita ambos cópias) 

Sendo a única referência de Brito a escultura de D. Pedro I no túmulo de Alcobaça, os outros usam até a mesma pose que Brito definiu, parecendo claro que ambos o copiam.

D. Fernando
Diz Brito: "Do corpo & rosto foi muy gentil homem & de Real presença, o rosto teve comprido muy bem tirado, a boca muy corada, o cabelo quasi louro, alvo do rosto, os olhos formosos castanhos claros, conforme diz a Crónica antiga, donde se formou sua figura, & de alguns retratos mais conformes com a verdade dela, ainda que não achei nenhum mais antigo que 1473, que é muito semelhante ao que aqui vai figurado."


D. Fernando (à esquerda: Sala dos Capelos, ao centro em Bernardo de Brito, e à direita talvez ambos cópias)

Ao contrário dos outros dois, Brito não coloca "muita barba" em D. Fernando, mas exceptuando isso, parecem ambos cópias de Brito, ou do quadro de 1473, onde se inspirou.

(continua)

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publicado às 07:59

Infante D. Pedro, das Sete Partidas... é uma designação bem conhecida entre nós.
Por outro lado,
Afonso X, das Sete Partidas... é uma designação alternativa de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela, avô de D. Dinis, e pretendente espanhol ao Sacro-Império Germânico. 

Este nome deriva de um famoso corpo legislativo "espanhol", denominado "Sete Partidas", dividido em sete partes. Cada uma das partes começaria com uma das sete letras do nome ALFONSO.

A palavra "partida" tem vários significados, e é claro que poderá referir-se a uma partida para uma viagem, a uma partida de brincadeira, ou também a uma quebra, ou a uma partição. No caso de Afonso X, estas sete partidas ajustam-se à obra legislativa que foi usada nos territórios espanhóis, entre os Séc. XIII e XIX, portanto durante mais de 500 anos. Alguns espanhóis chegaram a dar-lhe uma importância legislativa similar ao código de Hamurabi
Assim, se em Espanha a designação "Sete Partidas" se ligava à obra de Afonso X, em Portugal tal obra não era decerto desconhecida, mas a designação "Sete Partidas" passou agora até a entender-se associada ao número de viagens efectuadas pelo Infante D. Pedro, quando a expressão "as sete partidas do mundo" se associava de certa forma a uma partição de locais mais assinaláveis, ainda que exóticos e distantes, como "as sete maravilhas do mundo".

Como já referimos várias vezes, António Galvão dá aqui conta de que o Infante D. Pedro em 1428 teria trazido dessas viagens uma Mapa Mundo com o Estreito de Magalhães e o Cabo da Boa Esperança. 
Mencionámos até o nome Cola do Dragão, no contexto da criação da Ordem do Dragão pelo Imperador Segismundo, de que fizeram parte o Infante D. Pedro e o famoso Vlad III Dracula (*).

O Infante D. Pedro tendo ficado como regente durante a menoridade de D. Afonso V, ganhou os Bragança como inimigos em Portugal, e também contou com os inimigos em Espanha, nomeadamente por via dos Infantes de Aragão, irmãos da deposta rainha-mãe D. Leonor de Aragão. Nesse sentido, aliou-se ao controverso Álvaro de Luna, influente personagem na corte de D. Juan II de Castela, tendo mesmo enviado o seu filho Pedro, Condestável de Portugal, em seu auxílio. 

Esta história está bastante bem descrita por Teófilo Braga na obra 
Poetas Palacianos  (cap. III),
e se o Infante D. Pedro conseguiu ter a sua filha D. Isabel casada com o sobrinho D. Afonso V, e o seu filho Pedro como Condestável de Portugal, o destino do seu filho acabou também por terminar por via dos Infantes de Aragão. Com efeito, na Guerra Civil Catalã, uma rebelião de Barcelona contra o rei de Aragão, D. Joan II (sim, no Séc. XV o nome João II foi usado por um rei de Portugal, outro de Aragão, e ainda outro de Castela-Leão), o conselho de Barcelona acaba por eleger o filho Pedro, condestável no exílio, como novo Rei de Aragão, D. Pedro V
O reinado do filho não chega a durar 3 anos, mas emitiu moeda nova denominada "Pacific", e deixou na Catedral de Barcelona a sua espada, considerada uma das mais belas do mundo:
Moeda de Pedro V de Portugal, rei de Aragão, filho do Infante D. Pedro
(Petrus Dei Grati Rex, Civitus Barchnona)

Espada de Pedro V - uma das "mais belas" do mundo.
Portanto toda a envolvente em torno do Infante D. Pedro, não se desliga de Espanha, pela via de Aragão, e se o filho se vê a defrontar em batalha os mesmos infantes aragoneses, será o filho de D. Joan II, o rei católico D. Fernando II, quem D. João II, neto do infante D. Pedro, irá defrontar na Batalha de Toro.... mais uma outra vez, sem sucesso.   

Portanto, dadas as diversas circunstâncias, de guerras sucessórias, tão habituais naquele período, que incluem ainda esse apoio de Afonso V à disputa da Beltraneja, sua sobrinha, era mais que natural que as "Setes Partidas" fossem o documento mais consultado, para procura de legitimidade nas aspirações ao trono.
16.02.2016

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

continuação de (4) (3) (2) (1) 


Segundo os nossos coronistas [cronistas] deixaram escrito, depois da Encarnação de Christo 1411 ou 16 anos, no mês de Julho partiu el rey Dom Ioam o primeiro [D. João I ] de Portugal da cidade de Lisboa, & o príncipe dom Duarte, e o ifante dõ Pedro, & dõ Anrique seus filhos, & outros senhores & nobres do reino para Africa, e tomaram a gram cidade de Ceyta [Ceuta], que está da parte do norte em trinta & cinco até seis graus d'altura, que foi uma das principais cousas, alargarem-se os termos Despanha [de Espanha].
Vindos de lá, o ifante D. Anrique desejoso de acrescentar este Reino, e descobrir outro mundo novo, se assentou no Algarve ao cabo de Sã Vicente, donde começou a mandar descobrir a Costa de Mauritânia, porque naquele tempo nenhum Português passava do cabo de Não, que está em xxix graus [29º] d'altura. E para isto se pôr em efeito, mandou o Ifante aparelhar certos navios: & deu aos capitães por regimento que deste cabo por diante fosse seu descobrimento: eles assim o faziam, mas como chegavam a outro que se chama Bojador, nenhuma pessoa ousava aventurar a vida: de que o Ifante andava assaz agastado. 

No anno de 1417 reinando em Castela dom Ioam o ij [D. Juan II] &, governando sua mãe dona Caterina, um Mossem Rubem de Bracamonte que fora almirante de França, lhe pedira a conquista das ilhas Canárias, com titulo de rei para um seu parente, que se chamava Mossem Iam Betancort, & que a Rainha lhas dera, & o ajudara. Partiu de Sevilha com boa armada, & querem ainda que a principal causa que a isto o movera era descobrir a ilha da Madeyra, que Machim achara: Mas foram ter às Canárias, levando consigo um Frey Mendo para Bispo dela, concedido pelo Papa Martinho V. Saídos em terra ganharam Lançarote, Forte vëtura, Gomeyra, e o Ferro, donde mandaram a Espanha muitos escravos, Mel, cera, cãfora [canfora], couros, orchiga, figos, sangue de dragão, e outras mercadorias, em que fizeram bom dinheiro, porque esta Armada diz que descobriu a ilha do Porto Sancto e assentaram em Lançarote, onde fizeram um Castelo de pedra, e barro, com que sustiveram o que tinham ganhado. 

No anno de 1418. Vendo Ioam gonçalvez ho Zarco [João Gonçalves Zarco], & Tristam vaz teixeyra [Tristão Vaz Teixeira], cavaleiros da casa do Ifante, os desejos que ele tinha de descobrir terra: & eles de o servirem na tal empresa, lhe pediram um navio, & licença em que foram a este descobrimento, & junto da costa de Africa lhes deu tal tormenta que se não puderam juntar a ela, e se perderam de todo se os Deus não socorrera com lhes amostrar uma terra & porto a que puseram nome Sancto, onde se salvaram; & estiveram aqui dois anos. No ano de 420 [...1420] descobriram as ilhas da madeira, e se passaram a ela, onde ainda acharam a hirmida [ermida] & pedra que contava como Machim ali estivera. Outros dizem que vendo um Castelhano os desejos que o Ifante tinha de descobrir novo mundo, lhe dera conta como eles acharam a ilha do Porto sancto, & por ser cousa pequena não faziam dela estima. Que foi causa de mandar lá o Ifante a Bertolameu perestrelo [Bartolomeu Perestrelo], Ioam gonçalvez o Zarco, Tristam vaz teixeyra: & pelos sinais, & derrotas que o Castelhano dera do porto sancto, foram ter a ele, e depois de ali estar dous annos, no de 420 se passaram à ilha da madeyra, onde acharam como Machim ali estivera. 

Estando assim Mossem Ioam Betancort na conquista das Canárias (como é dito) dizem que o mataram, & deixara por seu herdeiro um parente que se chamava Mossem Menante, e que este as vendera a um Pero Barba de Sevilha. Outros querem dizer que Mossem Ioam Betancort se fosse a França refazer de novo para esta Conquifta, & deixara ali um sobrinho, & como nunca mais de lá viera: vendo o parente que não podia sustentar a guerra, vendera as Canárias ao Ifante dom Anrique por certa cousa que lhe dera na ilha da Madeira. 

No anno de 424 [... 1424] diz que mandou o Infante fazer uma armada para conquista destas ilhas, ia por capitão mor dela dom Fernando de castro, e como as gentes delas eram belicosas, defenderam bem suas casas. E vendo dom Fernando o grande gasto que fazia se tornou, e depois o Ifante alargou [a largou] esta terra à coroa de Castella pelas ajudas que Abetãcor [a Betancort] dera.  Mas os Castelhanos contam isto doutra maneira, que nem os reis de Portugal, nem o Infante dom Anrique as quiseram alargar, até chegarem a direito diante do Papa Eugenio quarto [IV] Veneziano, o qual vendo isto deu a conquista daquelas ilhas por sentença a el Rey D. Ioam de Castella, no ano de trinta & um [1431], por onde cessou esta contenda das Canarias entre os Reis de Portugal, & Castella. 

Estas Ilhas das Canárias diz que são sete, e que se chamavam as Beatas, ou bem Afortunadas, estão em vintoito [28] graus da parte do Norte, têm o maior dia de treze horas, & a noite de outras tantas, estão de Espanha duzentas léguas, & da costa de Africa dezassete. Em tempos passados adoravam os ídolos, comiam carne crua, por falta de fogo, não tinham ferro, semeavam sem nada, lavravam a terra, com cornos de bodes, & cabras, cada Ilha falava sua linguagem, casavam-se com muitas mulheres, e primeiro que as conhecessem as davam aos senhores: tinham outros diversos costumes, agora todos são da Lei de Christo, têm muito trigo, cevada, açucares, vinhos, e uns pássaros que chamam canários, que em Espanha são estimados. Na Ilha do Ferro não há outra água senão a que de noite deita uma árvore, sobre que está uma nuvem, desta bebem as gentes, & gados, coisa a todos muito notória. 

No ano de 1428 diz que foi o Infante dom Pedro a Inglaterra, França, Alemanha, à casa sancta, e a outras daquela banda, tornou por Itália, esteve em Roma, & Veneza, trouxe de lá um Mapamundo que tinha todo o âmbito da terra, & o estreito do Magalhães se chamava Cola do dragam [Cauda do Dragão], o cabo de Boa esperança, fronteira de Africa, e que deste padrão se ajudava o Infante dom Anrique em seu descobrimento. Francisco de sousa tauarez [Francisco de Sousa Tavares] me disse que no ano de 528 [... 1528] o Infante dom Fernando lhe amostrara um Mapa que se achara no cartório Dalcobaça [de Alcobaça] que havia mais de cento & vinte anos que era feito, o qual tinha toda navegação da Índia, com o cabo de Boa esperança, como as de agora, se assim é isto, já em tempo passado era tanto como agora, ou mais descoberto. 

Com todo o trabalho, & gasto que o Ifante dom Anrique tinha feito, nunca desistiu de seu propósito, e descobrimento, e para isso mandou a ele Gilianes [Gil Eanes] seu criado, que foi o primeiro que passou o Cabo Bojador, tanto por todos arreceado [receado], & trouxe nova não ser tão perigoso como se dizia, da outra banda saiu em terra, & como quem tomava posse, pôs uma Cruz de pau nela por marco: e no ano de 1433, no mês de Agosto faleceu el Rey dom Ioam [D. João I] e alevantaram [e levantaram] por Rei dom Duarte seu filho. 

No ano de 434 [... 1434] mandou o Ifante dom Anrique a Afonso gonçalvez baldaya, [Afonso Gonçalves Baldaia] capitão de um navio, & Gilianes que descobriu o cabo, em outro cabo além dele; saídos em terra conheceram ser povoada, & como sabiam que o Infante desejava haver dela língua foram ter a uma ponta sem ver nenhuma cousa, donde se tornaram, & no ano de 1438, faleceu el Rey dom Duarte: & pelo Príncipe dõ Afonso ficar menino governou o Infante dom Pedro seu tio. 

No anno de 441 mandou o Infante dom Anrriq dois navios, capitães deles Nuno tristam & Antam gonçaluez [Nuno Tristão e Antão Gonçalves], saíram na costa & fizeram presa, & chegaram ao cabo Branco, que está em vinte graus, informado o Infante das cousas daquela terra pelos mouros que estes trouxeram, mandou Fernã lopes Dazeuedo [Fernão Lopes d'Azevedo] dar conta ao Papa Eugenio IV do que passava, e como esperava resultar grande proveito à santa Madre Igreja, o Papa lhe concedeu indulgência, e doação perpétua, e tudo o mais que pedia aos que nesta empresa falecessem. 

Depois disto no ano de 1443 mandou o Ifante, a Antam Gõçaluez, resgatar os escravos que trouxera, e os Mouros deram por eles negros de cabelos revolto, e algum ouro: donde ficou nome rio do Ouro, e mais acrescentou o desejo ao descobrimento; e por isto foi logo lá Nuno Tristam, & chegou às Ilhas Darguim [de Arguim], donde fez presa, e se tornou com ela no ano seguinte de 1444. Lançarote, moço de câmara do Ifante, Gilianes e outros, armaram certos navios, foram por costa até às ilhas da Garça, e tomaram perto de duzentas almas, que foram as primeiras que até então de lá vieram. 

No ano de 1445 foi por Capitão de um navio Gonçalo de Sintra, escudeiro do Infante; saídos em terra numa Angra, que se agora chama de seu nome, tomaram os Mouros com seis, ou sete companheiros, foi esta a primeira perda que recebeu Portugal desta empresa, e no ano seguinte mandou o Ifante três caravelas, capitães delas Antã Gõçaluez, Diogo Afonso, Gomez Pirez, a quem deu regimento que não entrassem no rio do Ouro: & assentassem pazes, & fizessem quantos Christãos pudessem: & sem nada disto se tornaram. 

No ano de 1446 um escudeiro del Rey dõ Afonso, que se chamava Diniz fernandes da cidade de Lixboa, foi a este descobrimento, mais por honra que proveito; chegou ao rio à Sanaga, que está em quinze, ou dezasseis graus d'altura da parte do norte, & extrema os mouros dos Ialophos, onde tomou alguns negros: não contente disto, diz que passou avante, e descobriu o Cabo verde, que está em catorze da mesma parte, & posto sua Cruz de pau nele, tornou contente.  

No ano de 1447 tornou Nuno Tristã em uma caravela, e passou o Cabo verde, & rio Grãde [Rio Grande]: e saiu em outro que está além dele em vinte graus, onde o mataram com dezoito Portugueses, e com quatro ou cinco se tornou o navio em salvamento. Contam mais que neste meio tempo vindo uma nau de Portugueses pelo estreito de Gibaltar fora, lhe dera tal tormenta, que correra a loeste muito mais do que quisera, & foram ter a uma ilha em que havia sete cidades, e falavam a nossa língua, e perguntaram se tinham os Mouros ainda ocupado Espanha donde fugiram pela perdida del rey dõ Rodrigo. O contramestre da nau diz que trouxe uma pouca darea [de areia], e que a vendera a um ourives em Lisboa de que tirara boa quantidade douro [de ouro]: sabendo isto o Infante dõ Pedro que ainda governava, diz que o mandou escrever na casa do tombo. E alguns querem que essas terras, e ilhas que os Portugueses tocaram, sejam aquelas que se agora chamam as Antilhas & nova Espanha, & alegam muitas razões para isso, em que não falo por não tomar isto à minha conta, mas com tudo toda a cousa de que não sabiam dar razão era dizer, é a nova Espanha

No ano de 1449 El Rey D. Afonso V deu licença ao Ifante D. Anrique seu tio para mandar povoar as Ilhas dos Açores que havia dias que eram descobertas: e no ano de 1455 passou este Rei a África, e tomou a Vila Dalcacere [de Alcácer Ceguer], e no de 1461 mandou Soeiro Mendes Fidalgo de sua Casa fazer o castelo Darguim [de Arguim] a que deu Alcaidaria. 

No ano de 1462 vieram a este reino de Portugal três Ianoeses [Genoveses] pessoas nobres, o primeiro deles era Antã de Noly [António da Noli], e um seu irmão, e sobrinho, cada um em seu navio, pediram licença ao Infante para descobrir as ilhas do Cabo Verde, a ele lhe aprouve: alguns querem dizer que fossem aquelas que os antigos chamaram Gorganas, Esperidas, Orcadas, mas eles lhes puseram nome a Maya [ilha do Maio], Sanctiago [ilha de Santiago], Sam Felipe [ilha do Fogo], por as verem em seu dia, outros lhe chamam as ilhas Dantão [de Antão], ou Dantonio [de António]. Neste mesmo ano, ou no outro seguinte faleceu este Infante dom Anrique, deixando descoberto do cabo do Não até a Serra Lioa, que está desta nossa banda em oito graus d'altura. 

No ano de 469 [... 1469] arrendou el rey dom Ioão [um lapso, era D. Afonso V], o trato de Guiné a Fernam Gomes [Fernão Gomes], que se depois chamou da Mina, por cinco anos, a razão de duzentos mil reais cada um ano, e que mandasse em cada um deles descobrir cem léguas além das descobertas. No ano seguinte de 470 passou este Rei, e o príncipe dom Ioão seu filho, em Africa, e tomaram a villa Darzilla [de Arzila], e a cidade de Tangere se despejou com medo, tendo muito custado, parece que permitiu Deus isto, por amostrar que os ousados são dele favorecidos. 

No anno de 1471 mandou Fernam Gomez descobrir a Costa como se obrigara, e foram a isso, Iohão de Santarem [João de Santarém], & Iohão Descouar [João de Escobar], e em cinco graus d'altura acharam a Mina. E no ano seguinte de 1471 descobriu Fernão do poo [Fernão Pó] a ilha que se chama como ele, e neste mesmo tempo foram descobertas as ilhas de Sam Thome & príncipe que estão na Linha, & na terra firme o reino de Benij [Benim] até ao cabo de Caterina [Cabo de S. Catarina] que está da parte do Sul em três graus, e o que fez esse descobrimento era criado de S. A [Sua Alteza?], chamava-se Siqueira. Muitos querem dizer que neste tempo fossem terras, e ilhas descobertas, de que já não há memória, que será de Noé até agora. 

No ano de 1480 faleceu este magnânimo, e esforçado Rei dom Afonso, deixando muitas cousas feitas dignas de memória, e começou logo a reinar dom João seu filho, que no ano de oitenta & um, mandou por Diogo Dazambuja [Diogo de Azambuja] fazer a fortaleza da Mina, & ficou por Capitão dela. 

No anno de 1484 foi mandado por este Rei dom Iohão a este descobrimento Diogo cão, cavaleiro de sua Casa: chegado ao rio de Manicõgo, que está da parte do Sul, em sete, ou oito graus d'altura, pôs nele Padram [padrão] de pedra com armas, e letras reais que denunciavam que o mandava, e o ano, e Era em que se puseram as Cruzes de pau daqui foram ter ao rio Pico de Capricórnio, pondo padrões, onde lhe pareceu ser necessário, tornando a Manicõgo viu-se com el rey dele, e mandou Embaixador, e homens de crédito a este Reino, e no ano seguinte, ou no outro depois dele chegou Ioão Alonso Daveiro do Reino de Benij com pimenta de rabo, que foi a primeira que se viu nesta terra. 

No ano de 486 mandou el Rey dõ Ioam a este descobrimento Bertholameu diaz [Bartolomeu Dias] cavaleiro de sua casa com três velas, indo assim ao longo da terra puseram Padrões de pedra, e descobriu o cabo de boa esperança, e além dele até ao rio do Infante, que se pode dizer que via terra da Índia, mas não entrou nela, como Mouses [Moisés] na terra de promissam [terra prometida]. 

No ano de 487 [... 1487] mandou el Rey dom Ioã [D. João II] descobrir a Índia por terra, foi a isto um Pero de couilhãa [Pêro de Covilhã] seu criado, & Afõso de Paiua [Afonso de Paiva] por saberem a língua Arabia [língua arábica], partiram no mês de Maio do mesmo ano, e na cidade de Nápoles embarcaram. Chegaram à ilha de Rodes, pousaram em casa dos comendadores portugueses, passaram à cidade Dalexandria [de Alexandria], daí foram ao Cayro, e ao porto do Toro em caravanas, e em recovas de mouros, onde embarcaram no mar Roxo, chegaram à cidade Dadem [de Adém], onde se apartaram Ioã de Paiva para Thiopia [Etiópia], e Pêro de covilhãa à Índia, e foi ter à cidade de Cananor, Calecut, & tornou a Goa, onde embarcou para Sofalla, costa Dafrica, a ver aquelas Minas cousas tão nomeadas. 

De Sofala tornou a Moçambique, e à cidade de Quiloa, Bombaça [Mombaça], Melinde, até a cidade Dadem donde Afonso de Paiva se apartara dele, e foi pelo mar Roxo à cidade do Cairo, onde ficaram de se ajuntarem, mas achou nova como aí falecera, & cartas del Rey dom Ioam, em que mandava que se visse com o preste Ioã da Índia [Preste João].

Vendo Pero de covilham este recado, partiu do Cairo ao porto do Toro, & daí à cidade Dadem onde já duas vezes estivera, e tendo noticia de tamanha cousa era, e quão próspera a cidade Dormuz [de Ormuz], determinou de ir à vela, e foi ao longo da costa Darabia ao cabo de Resalgate que está no Trópico de Cancro, e daí a Ormuz, que está situada em vinte sete graus da mesma banda. Informado do estreito da Pérsia, e daquela terra, se tornou ao mar Roxo, e passou-se ao Reyno do Abexim, que vulgarmente se chama Preste Ioam da india, onde esteve até o ano de 1520 que o achou lá o embaixador dom Rodrigo de Lima. Este Pero de Covilhãa foi o primeiro Português que eu saiba que viu as Índias, & seus mares, & outras cousas a nós mui remotas. 

No ano de 1490, mandou el Rey a Manicongo com três navios Gonçalo de Sousa homem fidalgo, tornou em sua companhia o embaixador de Manicongo, que Diogo Cam trouxera, tendo já tomado água de bautismo [baptismo], & outros que com ele vieram, Gonçalo de Sousa faleceu no caminho, e elegeram por Capitão mor a seu sobrinho Ruy de Sousa, chegado a Manicongo, fez-lhe El Rey muito gasalhado, & baptizou-se logo com a mor parte de sua terra, que foi grande louvor, & honra ao Reyno de Portugal, & sua Coroa. 

(continua)

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(*) Nota (10.07.2016):
Suprimi a frase seguinte 
tendo ainda sido notado (na wikipedia) que as insignias dessa ordem Draconis Equitas Societas Imperatur et Regis, envolviam as letras DESIR, moto pessoal do Infante D. Pedro.
que entretanto foi também suprimida da Wikipedia (ver porquê aqui)
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publicado às 07:36


dos Comentários (19) - ibn Eriq & Oriq

por desvela, em 09.02.16
Houve recentemente uma série de comentários a propósito de Viriato e Afonso Henriques, dois símbolos de fundação e refundação de nacionalidade, trocados com João Ribeiro.

Viriato e a Serra da Estrela
Sobre Viriato, tratava-se do mito da Ribeira de Lucefecit e da Serra de Ossa, ligada a uma grande batalha. Entre diversos livros citados, permito-me destacar
que questiona o próprio mito "da serra estar cheia de ossos", mas ao mesmo tempo abrindo espaço para outras questões... como a destruição de um grande dolmen, que estava no interior do convento, e sobretudo a existência de grandes cavernas, que poderiam albergar exércitos. Não tive tempo de ler toda a obra, mas é certamente material que merece devida atenção.

No final, creio que ambos concordámos que se mantém estranho o desaparecimento dos Cónios, logo após a queda de Cartago e a entrada em cena do Viriato mais famoso (há outro mais antigo), e que a sua nomeação como "amigo de Roma", depois de pretensamente ter chacinado o seu exército, foi facto extraordinário na política Romana.

Mas sobre isto apenas quero acrescentar uma imagem da Serra da Estrela, que encontrei então, por acaso, e que me deixou "sem palavras", e que dificilmente conseguiria enquadrar noutro texto:
Foto de José Esteves Pereira - Covilhã - 2º Classificado
(in Boletim Municipal Nº 18 - 2001 - Contra capa - XV Concurso Foto de Manteigas)

http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/21pedrasAlbum.htm (o link pode já não estar activo)
O site joraga.net (de José Rabaça Gaspar) coloca o tema como "PEDRAS da SERRA - AS FORMAS DAS ROCHAS ou ROCHAS de FORMAS CAPRICHOSAS - Colossais Esculturas de Granito Fascinantes... Umas mãos que apertam possivelmente barro no acto da criação... ou um braço quebrado de monumental estátua.

E não é dito mais nada... procurei outros registos para perceber o local da Serra da Estrela onde se encontra tal "prodígio natural", mas sem sucesso. Este foi o único ponto de informação e localização da imagem. Hoje em dia, seria natural pensar em Photoshop, mas sendo de 2001 e de um concurso de fotografia regional, será claro que existe mesmo... ou existiu, porque o mesmo joraga.net reportava - «Camelo: No lugar do Poço do Inferno, esta obra da Natureza, foi destruída, nas fúrias pós 25 de Abril de 1974 !!!» 
Portanto, toda a gente conhece a "Cabeça da Velha", mas ali se reportavam 2 cabeças de velha, 2 cabeças de velho, e 1 cabeça de velhos - todos diferentes, entre muitos outros.

Aproveito a ocasião, para dar uma opinião acerca destas formações.
Creio que os Turdulos Velhos, que habitavam entre o Tejo e o Douro, eram os herdeiros naturais da catástrofe atlântica que se abateu à sua frente, com o aumento do nível das águas. Deles é dito, por Estrabão, que tinham escrita há 6 mil anos, ou seja, cerca de 6 mil anos antes de Cristo... o que antecederia largamente (pelo dobro) qualquer outro registo escrito conhecido. 

Desde essa catástrofe, e também por razão de sucessivas guerras, apagamento do registo dos vencidos pelos vencedores, etc... é muito natural que tivessem concluído ser inútil evidenciarem-se (tal como o posto de pistoleiro mais rápido do Oeste, era um posto desgastante que atraía a efemeridade, pela natural cobiça de competidores). 
Assim, numa primitiva atitude budista, parece natural que ao invés de erguerem monumentos, simplesmente dirigiam a sua atenção para locais onde as próprias formações naturais constituíam um monumento, oferecendo dúvida ao visitante se seriam ou não de construção humana.

Bernardo Brito falava numa rocha no ponto mais alto da Serra, cujo topo seria em forma de Estrela, e isso seria a razão do nome dado à Serra da Estrela... foi assim que andei à procura de uma rocha em "forma de estrela", e a única estrelinha foi dar com "aquelas mãos".

Na descendência desses Túrdulos Velhos estavam outros túrdulos, ou Turdetanos - uns no Alentejo e Algarve, também chamados Cónios, e outros na Andaluzia, chamados Tartéssios.
Ou seja, a política dos Túrdulos Velhos terá sido passarem despercebidos, manipulando nos bastidores, tanto quanto possível, os restantes povos vizinhos... e não só.

Damião de Castro fala ainda em "chacinas" feitas pelo romanos de Galba em Campo de Ourique... o que nos leva ao tópico seguinte.

Afonso Henriques (ibn Eriq) e Ourique (Oriq)
A localização da batalha de Ourique deu origem à hipótese de se poder tratar de uma invasão naval, feita subindo o rio Mira, o que daria ainda sentido à lenda do nome de Odemira: «Ode, mira para os inimigos, donde vêm sobre nós».
João Ribeiro fez muito bem em obstar sucessivamente a essa hipótese, dizendo, por exemplo:
"Onde passaria ele o Rio Tejo?" Em qualquer lado onde fosse possível a passagem, Almourol por exemplo."Usaria as barcaças de quem?" As existentes no local. Não me parece um factor impeditivo de nada até porque facilmente se pode construir jangadas para a passagem. "Quanto tempo precisaria para chegar a Ourique, e como não defrontaria ninguém até lá?" O tempo necessário e terá havido confrontações pelo caminho, simplesmente não são mencionadas porque terão sido de pouca monta. Aliás sem essas pequenas conquistas seria impossível a empresa por falta de mantimentos. Tudo isto é muito relativo e subjectivo. Poderá ter sido a grande campanha de D. Afonso Henriques. Uma campanha articulada por terra/mar/rio. Aproveitando as dissidências entre líderes das várias praças mouras e com tratos com outros chegou a Ourique onde se travou apenas mais uma das batalhas da campanha. Não foram 5 Reis que derrotou mas provavelmente 5 governadores ou algum tipo de líderes mouros. Não se sabe o local exacto da batalha porque foram vários.
Acontece que Bernardo Brito dá uma sustentação a essa teoria de penetração terrestre:
Chegado pois o mês de Julho do ano do Senhor de 1139 partiu com suas bandeiras soltas & as esquadras postas em som de guerra, nas quais iam por todos doze mil infantes e mil ginetes, poucos em número, mas invencíveis nos esforços & brio; com esta ordem, passou o Príncipe as águas do formoso rio Teijo, sendo o primeiro que com ânimo de conquistar mouros passou, depois que foi deles ganhada a terra que ele divide da outra que chamamos Beyra. Com grande trabalho de sua gente atravessou o Príncipe as solitárias charnecas que na terra havia & há hoje em dia desprovidas de toda a recordação a quem por elas caminha.
Do ponto de vista logístico, ainda me parece complicado ter uma grande força militar encurralada no meio de território inimigo, mas a menção às "charnecas" dá uma outra pista para as tropas correrem.
Porque "charneca" mantém no Brasil o significado de terreno pantanoso, alagado, e isso poderia corresponder a uma deslocação ao longo de margens do Tejo que antes penetravam no Alentejo... chegando quase até Ourique, pela sua continuação pelos terrenos antes alagados pelo Sado.

O que me parece algo mais difícil de sustentar é que se tratou apenas de uma incursão ocasional, do tipo "fossado", conforme é também considerado:
A tese do fossado também pode explicar o registo meramente informativo da primeira notícia que se conhece sobre a Batalha de Ourique, incluída no Livro de Noa I, ou Chronicon Conimbricense, escrito no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra pouco depois de 1168, ainda durante o reinado de Afonso Henriques. Notícia que se repete literalmente no Chronicon Lamacense, manuscrito da Sé de Lamego copiado já no século XIII mas a partir de um texto do século anterior, contemporâneo do Livro de Noa. Esses dois textos limitam-se a indicar a data e o local da batalha e o nome do rei mouro posto em fuga: Ismário e Examare, variantes de Esmar que, por sua vez, derivará de Ismael, o primogénito de Abraão e “pai” da raça islâmica. O mesmo nome é dado na Crónica dos Godos ao chefe mouro e irá perdurar, com ligeiras variações, nas ulteriores narrativas da Batalha de Ourique, apesar de não ser referido nas crónicas árabes, o que leva a supor tratar-se de um nome simbólico. Apesar da sua concisão informativa, os dois relatos não deixam de referir-se a Ourique como um combate ou mesmo uma grande batalha (prelium e lis magna), iniciando-se assim o engrandecimento deste efabulado confronto entre cristãos e islâmicos que, volvidos poucos anos e ainda em vida do seu protagonista, será exaltado como um grande feito bélico na Crónica dos Godos, escrita em Santa Cruz de Coimbra pouco depois de 1184.
de Vitor Manuel Adrião (2015) Ourique: a batalha impossível

O texto que acabamos de citar remete para a "teoria clássica", e eu apenas deixaria uma nota adicional a este propósito. O cronista Duarte Galvão refere que Egas Moniz morre no decurso desta incursão, quase no seu início, antes de qualquer passagem do Tejo. 
Nesse caso não teria sido apenas uma incursão bélica, de combatentes experimentados.
Nesse caso, isso revelaria sim, uma grande aceitação pela população que vivia sob controlo mouro, que forneceria a D. Afonso Henriques todo o apoio logístico necessário a tal deslocação. Ou seja, o "território inimigo", era já notado como "território amigo". Ou seja, seria mais esse sentimento de aceitação popular que lhe permitiria ser rei por direito próprio, do que por direito outorgado por Roma.
O facto notável de D. Afonso Henriques será esse congregar de uma nacionalidade antiga, que impediu que tentativas mouras posteriores, de recuperar o antigo território dos Túrdulos, tivessem sucesso. Tirando um cerco a Santarém, nunca mais o território acima do Tejo foi incomodado... algo bastante diferente do que acontecia antes - o Conde D. Henrique terá conquistado (1093) e perdido Lisboa, logo de seguida (1095).

Quanto à hipótese de incursão naval, parece-me fazer ainda sentido, como referia João Ribeiro, pelo menos como apoio no caso de assegurar a retirada, caso se vissem cercados em territórios alentejanos, e perante uma derrota em Ourique. Não era a mesma situação do fossado de D. Sancho I a Sevilha, onde havia uma continuidade territorial próxima. No caso de cerco, o regresso a Coimbra seria praticamente impossível.
A isto acresce a história do resgate do corpo de S. Vicente, que é colocado como intenção de D. Afonso Henriques logo que soube do assunto em Ourique, conforme relata Duarte Galvão. E aí se declara que não o tendo logo resgatado, manifestara intenção de o levar para depositar em Lisboa, quando esta fosse conquistada. Esse episódio do transporte foi reconhecidamente efectuado por via marítima, conforme atesta o símbolo do brazão lisboeta. 

Assim, de uma ou de outra forma, no tempo de D. Afonso Henriques é suposto que as naus portuguesas tenham feito pelo menos uma incursão algarvia, para resgatar o culto de S.Vicente, num local que era antes reportado ao culto de Hércules... e talvez, antes disso, a outro vicente.

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Aditamentos
(i) Finalmente, não deixamos de notar que associar o nome do Emir de Badajoz, Ismar ou Esmar, a uma variante de Ismael, sendo possível, não deixa de ser estranha por falta de registo espanhol ou outro, para o mesmo personagem... e ao ler caligrafia antiga, não há grande diferença entre quem "diz mar" e quem "d'ismar" fala.
(ii) A Ermida de S. Pedro das Cabeças, onde se terá realizado a batalha, parece-me fechada ao público. 

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publicado às 06:05


dos Comentários (18) - Tauria

por desvela, em 08.02.16
Escreveu José Manuel Oliveira num comentário recente:
Era para escrever este comentário no post Afonso Henriques e Ourique pois sinceramente não compreendo como ainda duvidam da capacidade de navegar em mar alto na antiguidade... os romanos deixaram escrito que os suevos tinham um mar com o seu nome, neste texto integral sobre Tauria ficasse sem dúvidas que Afonso Henriques tinha à disposição meios para ir do norte à zona de Lisboa por mar antes da tomada da cidade, sempre vierem por mar mercadores da Escandinávia ao Porto seguiam para a Tauria e de Lisboa entravam no Mediterrâneo!
Curiosidades e esquecimentos dos Ataídes e do museu do Louvre em Paris:
«Recebeu nessa altura, o seu magnífico pelourinho de estilo Manuelino, que mais tarde foi mutilado por ordem do Marquês de Pombal, por nele conter o brazão de armas dos condes de Atouguia "Os Ataídes"»
«Com grandes forças napoleónicas aquarteladas na praça militar de Peniche, a vizinha Atouguia é bastante mal tratada pelo abuso da soldadesca sem escrúpulo e desvairada, que muitos danos lhe fizeram. Foi assim, que nos roubaram o altar-mór da igreja de Nossa Senhora e também o seu belo sacrário, que hoje se encontram expostos no museu do Louvre em Paris.»
Autoguia da Baleia (Freguesia) www.atouguiadabaleia.net 

Desconhecia a designação de Tauria para Atouguia da Baleia, mas o link que remete à página da freguesia, mostra bem como é possível, com alguma vontade e empenho local, de fazer um bom serviço histórico, e recuperar a memória de um imenso património que veio sendo perdido, por diversas razões, umas piores que outras.
Mais em baixo, falarei sobre a outra Tauria...

Um outro exemplo que devo assinalar é o site ligado a Alfeizerão: alfeizerense.blogspot.pt, dando como exemplo, um estudo exaustivo sobre a configuração da baía de S. Martinho e Salir do Porto:
http://alfeizerense.blogspot.pt/2015/10/uma-perspetiva-cartografica-da-lagoa-de.html

A esse propósito, José Lopes, que mantém esse blog, enviou-me o endereço de um conjunto de descrições da costa portuguesa, constante na Torre do Tombo
(clicar p/aumentar as figuras seguintes)

Alvor
 LagosPortimão 


 C. S. Vicente



 Sagres


 
Ilha do Pessegueiro e Vila Nova de Milfontes - rio Mira

  Setúbal e Sines

 BelémCascais


Lisboa 

 Monte Brazil (Açores)

 Nazaré 

 Ilha S. Helena e Argel

(ilustrações de Luís de Figueiredo - Torre do Tombo)

Estas ilustrações não são todas, há outras que denotam bem o cuidado em assinalar a profundidade das águas junto à costa lisboeta. A inclusão da planta de Argel mostra como o reino de Espanha não tinha desistido de tentar capturar a cidade, em período filipino (tendo falhado com Carlos V). Quanto à ilha de Santa Helena, seria portuguesa, ainda que fosse pouco frequentada, o que levou a uma anexação holandesa, e posteriormente britânica.

Quanto às outras ilustrações, cada uma tem interesse próprio. No caso do Alvor, podemos ver como seria a vila, não muito diferente um século depois da morte de D. João II. No caso de Sagres, podemos ver que se resumia, tal como hoje, a uma fortificação que cortava a península da rocha. Vila Nova de Milfontes mostra que o rio Mira é bastante navegável até ao interior, etc...

Tauria na Crimeia
A curiosidade adicional sobre o nome de Tauria, é que esse nome era usado pelos gregos para denominar a região da Crimeia, que tinham o hábito de sacrificar náufragos gregos... segundo as descrições mais ilustrativas, decapitando-os, atirando o corpo ao mar, e espetando a cabeça num pau que colocavam como "forma de vigilância" para suas casas.

Se os gregos tinham esta opinião bárbara dos russos, e constavam serem mesmos ruivos, estes habitantes da Crimeia, ou da Cítia, não deixaram de dar um desfecho mais feliz ao episódio do sacrifício de Ifigénia.
A conhecida história de Ifigénia, filha de Agamémnon, conforme contada por Homero, é uma total contradição de propósitos! No contexto da Guerra de Tróia, a armada grega vê-se bloqueada na sua partida para resgatar Helena... e assim, Agamémnon para obter ventos favoráveis no sentido de resgatar a cunhada, Helena, decide sacrificar a filha, Ifigénia!  
A lógica de tal acção ultrapassa mesmo a lógica da mitologia, mas também depois Agamémnon será traído e morto pela mulher, Clitmnestra, que por sua vez será morta pelos filhos Orestes e Electra... 

Numa reviravolta ao problema moral do sacrifício de Ifigénia, aparece a versão de que Ifigénia teria sido poupada ao sacrifício por Artemisa, e seria sacerdotisa na Tauria (Crimeia). Afinal um cervo teria sido colocado no seu lugar. Assim é escrita a tragédia de Eurípedes - "Ifigénia em Tauris". Talvez não tivesse sido um cervo, e tivesse sido mais uma serva... para evitar a morte da filha do rei. Afinal o que interessava no sacrifício era mostrar a determinação do pai Agamémnon, em prosseguir a campanha, não olhando a princípios e meios, para chegar ao fim de Tróia.
O sacrifício de Ifigénia (imagem em Pompeia - maicar.com)
A questão é que, também num texto anterior, abordámos aqui a questão dos cervos na Crimeia.
Mais concretamente, no contexto do "fogo de Santelmo", entendemos desta forma uma representação rupestre existente na Crimeia:



Ou seja, entendemos que a pintura representava três momentos, no contexto de uma caçada. Primeiro, os chifres do cervo iluminavam-se («St. Elmo's fire can also appear on leaves, grass, and even at the tips of cattle horns»), associava-se um fenómeno de esfera luminosa («Often accompanying the glow is a distinct hissing or buzzing sound. It is sometimes confused with ball lightning.») que vitimava alguns dos caçadores, e a manifestação sobrenatural levava à veneração do cervo.

Na altura, dissemos que tal manifestação poderia ainda ter levado às comemorações populares do touro embolado, onde são colocados os chifres do touro em chamas. 
Agora, só isso parece ser consistente com o nome Tauria ou Tauris, já que a Crimeia não parece ter sido uma região muito pródiga em touros. Aliás convém notar que todo o conjunto montanhoso que ia do Cáucaso aos Himalaias chegou a ser denominado como montanhas do Tauro.

Bom, não deixa de ser curioso que para além de termos a nossa Tróia, tenhamos também a nossa Tauria, na Atouguia, ambas ligadas à tão distante Guerra de Tróia... acrescendo a isso toda a mitologia repetida sobre a fundação lisboeta por Ulisses, e à sua paixão por Calipso, quando o nome romano do rio Sado era Calippo.


Aditamento (11/02/2016) :
Por razão da observação feita pelo João Ribeiro, relativo ao Touril de Atouguia, parece-me bastante interessante mostrar o brazão da freguesia de Atouguia da Baleia, e comparar com a imagem do touro embolado, que já tinha colocado no texto sobre a Crimeia:


Brazão da freguesia de Atougia da Baleia e imagem de touro embolado em Espanha (wikipedia)

Certamente que haverá alguma justificação para os castelos ou torres nos cornos do touro, mas atendendo ao que vínhamos a descrever, a imagem do touro embolado (à direita, o touro com os cornos em chamas), veio aqui assentar, que nem uma luva! Há "coincidências" que nem de propósito seriam mais ilustrativas...

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publicado às 06:00

António Galvão é filho do cronista Duarte Galvão, que ao serviço de D. Manuel escreveu a crónica de D. Afonso Henriques. Isto tem relevo para entendermos como dispõe pela via paterna de acesso a informação normalmente reservada aos cronistas. Por outro lado, a sua desvalorização na corte não é caso único no que diz respeito aos filhos de cronistas. Fernão de Pina, filho de Rui de Pina, que aliás sucede ao pai no cargo de cronista-mor.

Sobre Fernão de Pina, coloco aqui informações de um livro de 2012 de G. Marcocci: "A consciência de um império: Portugal e o seu mundo (Séc. XV- Séc. XVI)" (que aliás, já tinha colocado na Wikipedia há algum tempo):
  • Uma longa desatenção por parte dos estudiosos tem caracterizado o processo inquisitorial contra Fernão de Pina, cronista-mor do reino, e guarda-mor do arquivo da Torre do Tombo desde 1523, cargo já ocupado pelo seu pai, Rui de Pina. Julgado culpado de nutrir crenças e «dizer palavras outras muitas sospectas na fé escandalosas», Pina abjurou de forma privada à frente dos inquisidores de Lisboa a 31 de Março de 1550.
  • Em data imprecisa desse ano de 1546 (certamente depois da Páscoa) a Inquisição procedeu à prisão de Pina. Tratava-se de «pessoa poderosa», conforme escreveram os juízes nas actas. Apesar disso, ou talvez mesmo por isso, o cronista régio sofreu um longo abandono.
  • O seu destino já estava escrito antes da sentença. Demonstra-o, de igual modo a atribuição em 1548 do cargo de guarda-mor da Torre do Tombo a Damião de Góis «em quamto Fernão de Pina não for livre dos casos per que ora he preso e acusado».

Há referências ao enorme trabalho que Fernão de Pina teve na reorganização dos forais, algum do qual efectuado a expensas próprias. Nisso há uma semelhança com António Galvão, que também usou das suas finanças pessoais para o serviço da nação.

Porém, se sabemos alguma coisa de António Galvão, devido aos ingleses, de Fernão de Pina não nos terá chegado quase nada. Para isso, é claro que contribuiu o Processo da Inquisição, que o via como "pessoa poderosa"... e este poder só poderia ser o seu acesso à informação privilegiada como cronista-mor, filho de cronista-mor.

João de Barros, Damião de Goes, passam a ser cronistas "autorizados", cujas obras chegaram aos nossos dias, mas não eram "cronistas-mor". Damião de Goes acaba por ser nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, ainda em vida de Fernão de Pina, mas o cargo de cronista-mor era vitalício, e como o próprio Damião de Goes terá problemas com a Inquisição, nem será ele a suceder-lhe.

João de Barros explica, de forma muito curiosa, parte do problema, usando o facto do pai de Alexandre Magno, Filipe II da Macedónia, ser zarolho:
(...) tanto louvor se dá àquele Pintor, que tirando a El Rey Filipe pai de Alexandre per natural, tomou-lhe a postura do rosto de maneira, que lhe encobrisse o defeito que tinha, que era um olho menos. E melhor está a um Autor por este modo dissimular os tais defeitos, que louvar os Príncipes de maneira, que vendo eles tanta lisonjaria, façam o que fez Alexandre; o qual oferecendo-lhe Aristobolo um livro de muitos louvores, deu com ele num rio, dizendo, que desejava depois de morto tornar ao Mundo, para ver se o louvavam tanto.
Foi aliás com este prólogo de João de Barros, que fechei os textos iniciais (feitos ainda em 2009), porque pareceu-me ser a forma de Barros evidenciar que as suas Décadas apenas iriam pintar o "olho bom", escondendo a completa zarolhice da história dos descobrimentos portugueses... e mesmo Camões terá que deixar ficar o retrato zarolho, pelo menos para a leitura simples.

Se António Galvão surpreende na primeira parte, que transcrevi até aqui, irá depois optar por deixar a cegueira manter-se, no relato dos descobrimentos recentes, sob pena de nem ver a sua obra autorizada para publicação. Na altura em que Galvão escreve, já Fernão de Pina teria morrido em 1550, desgraçado pelo processo inquisitorial de que tinha sido vítima. Os tempos tinham mudado... como sentiu bem Cervantes em caricaturar o deslocamento social dos velhos ideais nobres em Quixote de la Mancha. Os heroísmos, as proezas individuais, eram sarcasticamente ridicularizadas pelos ratos de esgoto, que se alimentavam dos podres da corte.

No entanto, como veremos aqui, Galvão não deixa de mostrar como a "rota das especiarias", das drogas, sempre teve o seu caminho de Oriente para Ocidente, ou do Levante para o Poente. Fosse através do Egipto, como ocorrera no tempo da dinastia Ptolomaica, que e como até um filho de Calígula (Caio César Augusto), provavelmente Tiberius Gemelus, tinha visto restos de antigas naus hispânicas nas costas arábicas.

Talvez mais singular seja o registo do confronto directo entre Romanos e Chineses, circa ano 200 a.C. Era uma altura em que se desenrolava ainda a 2ª Guerra Púnica, e portanto inconveniente para uma aventura arriscada de uma armada romana... no entanto, é também a altura em que se dão as guerras que implantam a dinastia Han (entre 206-202 a.C.), sendo que a batalha naval mais significativa (conhecida), é a "batalha dos penhascos vermelhos" que marca o fim da dinastia Han, quatrocentos anos depois (em 208 d.C.). Talvez por isso, Galvão diz "... se é fábula ou certeza, pula como a achei escrita". Onde? Esse é um problema de Galvão, não coloca referências... e o tradutor Ch. Bethune coloca neste ponto a mesma interrogação sobre a fonte: "What histories may these be?".


_____________________________________
DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

continuação de (3) (2) (1) 

No ano de 277 Antes da encarnação de Christo, sucedeu neste Reyno Philadelphos, & ordenou que viessem as mercadarias da Europa à cidade de Alexandria pelo rio Nillo acima, até outra que se chama o Copto: e dela por terra as levassem a um porto que está em o mar roxo, que se chama Miosormo, andasse este caminho de noite, governando-se pelas Estrelas, & pilotos que disso tinham conhecimento, & por esta estrada ser pobre de água a levavam para toda a companhia, até que fizeram poços muito fundos, & cisternas, com que se sustêm de maneira que ficou esta estrada mais frequentada. 

Dizem que por este estreito ser perigoso de baixos, ilhas, restingas, foi este rey Philadelphos com seus exércitos da parte dos Trogoditas & em um porto que se chama Bereniche [Berenice], mandou que se descarregassem as naus que vinham da Índia por ser lugar mais seguro & podiam chegar sem perigo donde as levassem à Cidade do Copto & daí a Alexandria: pela qual causa foi esta Cidade tão próspera, & rica que dizem não haver naquele tempo mais na Redondeza. Veio este trato em tanto crescimento que se escreve render em tempo del Rey Tholomeu Aulete pai de Cleópatra sete contos & meio de ouro: & ainda naquela idade não havia mais de xx [vinte] naus neste caminho.

Mas depois de vir esta Província, em poder dos Emperadores de Roma, como eram mais poderosos, ou cobiçosos, em pouco tempo lhes rendeu o tresdobro [sextuplo]: & veio em tanto crescimento, que mandavam em cada um anno à Índia cento & vinte naus de carrega, partiam de Miosormo meado Iulho, & tornavam dentro em um ano: as mercadorias que levavam, dizem que valeriam um milhão douro & duzentos mil cruzados, & no retorno faziam cento de um. E a fora isto as Matronas despendiam em cada um ano muito infindo dinheiro em pedraria, pulpura [púrpura], aljofre [pequena pérola], bëjoim [benjoim], encenso [incenso], almiscre [almíscar], âmbar, sandalos [sândalos], aguila [águila], e outros cheiros, e brinquinhos, nisso se afirmam os escritores daquele tempo.

Também escreve Plinio, citando Cornelio Nepote que em seu tempo houve um rey no Egypto que se chamou Tholomeu Latiro, & um Edoxo [Eudoxo] fugindo dele pelo golfam Arabico [Golfo Arábico] veio pelo mar ao longo da costa Dafrica, & cabo de Boa Esperança à ilha de Calex [Cadiz], & querem ainda que se usasse esta navegação naquele tempo como agora: pelo qual o filho de Cayo Cesar Augusto andando na Arábia achara neste mar Criteo pedaços de naus da feição das Despanha [de Espanha]. 

Assim contam que os reys dos Sudianos, e príncipe dos Batrianos, e outros Capitães famosos foram por terra à Índia, e Sythia [Cítia], & houveram vista daquelas Províncias, & terras todas até ao levante, & mares deles da parte do Norte, & mercadores, & caminhantes que se afirmam andarem por aquelas partes. Marco Paulo [Marco Polo] largas cousas escreveu delas, ainda que o haviam por fabuloso já agora lhe dão mais crédito por acharem nomes de terras, cidades, villas, Angras, sítios, & alturas conformes a suas escrituras. 

No ano de 200 antes da Encarnação de Christo dizem que os Romãos [romanos] mandaram uma Armada à Índia contra o gram cão do Cathayo [China], & saindo pelo Estreito de Gibaltar fora, correram ao Noroeste, e defronte do Cabo de Finisterra acharam dez ilhas em que havia muito estanho, e deviam ser aquelas que chamam Cassiteriaes, & posto em cinquenta graus de altura acharam um Estreito por onde foram a Loeste à superior Índia, e pelejando com o senhor de Cathayo se tornaram à cidade de Roma, se é fábula ou certeza, pula como a achei escrita. 

No ano de cento depois da vinda de Christo o Imperador Trajano mandou fazer uma Armada nos rios Eufrates, & Tigres foi por eles às Ilhas de Zizara, & Estreito de Persya, saíram ao mar Oceano da Índia, & por aquela Costa navegara além donde Alexandre chegara, tomara naus que vinham de Bengala, de que se informara daquela terra, & por ser velho, & cansado, & achar nela pouco mantimento se tornara. 

Depois que os Romãos senhorearam a melhor parte do Mundo se fizeram muitos, & notáveis descobrimentos, mas vieram os Godos, Mouros, & outros Barbaros, e destruiram tudo porque no anno 412 depois da Encarnação de Christo tomaram a Cidade de Roma, e os Vandalos saíram de Espanha a conquistar Africa. E no ano de 450 el rey Atilla destruiu muitas cidades Ditalia [de Itália], & começou-se a de Veneza, & neste tempo os Francos, & Vandalos entraram em França. E no ano de 474 se perdeu o Império de Roma, & depois disto vieram os Longobardos a Itália no qual tempo andavam os demónios tão soltos pela terra que tomaram a figura de Moyses, e os Iudeus [judeus] enganados foram muitos no mar afogados. E a seita Arriana [ariana] prevalecia. E Merlim em Inglaterra foi neste tempo. E no ano de 611 foi Mafamede, & os de sua seita, que tomaram por força Africa & Espanha. 

Assim que segundo parece nestas idades todo o mundo ardia, por onde dizem que esteve quatrocentos anos tão apagado, e escurecido que não ousava nenhum povo andar de uma parte para outra, por mar, nem terra, tão grande abalo, e mudança se fez em tudo que nenhuma cousa ficou em seu ser, e estado, assim Monarquias como reinos, & senhorios, religiões, leis, artes, ciências, navegações, escrituras que disso havia, foi tudo queimado, e consumido segundo consta, porque os Godos eram tão cobiçosos da glória mundana, que quiseram começar em si outro novo Mundo, e que do passado não houvesse nenhuma memória. 

Os que depois sucederam sentindo tamanha perda, & proveito como era o comércio, & trato das gentes umas com as outras, & que não podiam gastar suas mercadorias, nem haver as alheias sem este meio determinaram de buscar maneira como se não perdesse de todo, & as mercadorias do Levante tornassem ao Ponente como saíam. Desesperados de as trazerem pelo mar roxo, & rio Nilo, abriram outro caminho, ainda que muito mais comprido, e custoso, porque as traziam pelo rio Indo acima: & desembarcadas as passavam por terra & portas Peraponesas [portas Cáspias de Alexandre, muralha de Gorgan?] à provincia de Batriana, & embarcavam-nas no rio Oxo [rio Amu Dária], que se mete no mar Caspio, & iam a um porto do rio Ram [Volga], que se chama Sicatrum, & por esse rio acima que se agora diz Volga segundo parece as levavam à cidade de Nonogardia [Novgorod?], que é agora do gram Duque de Moscovia, e está da parte do Norte em 57 graus de altura, e atravessavam por terra a província de Sarmacia ao rio Tanais, que a divide da Europa, onde embarcavam, & por ele abaixo as levava, à Lagoa Meotas, & cidade de Cafa que antigamente se dizia Theodosia [Feodosia], e por ser de Genoeses [Genoveses] vinham por elas às suas galeaças.

E dizem que durou este trato até o tempo de Commodita Emperador Arménio, que mandou mudar este caminho ao rio Carius [rio Kura ?], no fim do qual desembarcavam, & atravessavam o Reino de Hiberia que se agora diz Iorgiana [Georgia], e tornavam a embarcar no rio Facis [rio Phasis]; e por ele iam ao mar de Lacana, & cidade de Trapezonda [Trebizonda], que está em quarenta e tantos graus de altura, onde vinham por estas mercadorias as naus da Europa, e África: e dizem ainda que Nicana [Seleuco I Nicator] determinava, ou tinha já posto por obra de abrir mais de cento & vinte léguas de terra que há desse mar Caspio ao Euxinio para que pudessem ir & vir por água as especiarias, Drogas, & outras mercadorias que por aqui então caminhavam, se o não matara Tholomeu-Carauno [Ptolomeu Cearuno], por onde não executou seu generoso pensamento.

Assim que perdido este caminho, pelas guerras do grão Turco, a indústria humana abriu logo outro a estas mercadorias, & a outras que traziam da ilha de Samatra, cidade de Malaca, ilha da Jaoa [Java]: a enseada de Bengala, e pelo rio Gãje [rio Ganges] acima as levavam à Cidade Dagra [de Agra], donde atravessavam por terra a outra que está no rio Índio que se chama Bacar [Bikaner], donde iam pelo Sertam [sertão] dentro à cidade de Cabor [Cabul], que é a principal dos Mogores: & daí à gram cidade de Samarcante [Samarcanda] que está na Provincia de Batriana: & juntos os mercadores da Índia, Persia, Turquia, que traziam borcados, veludos, chamalotes, escarlatas, alcatifas, feltros, e outros panos de lã que iam gastando até o Cathayo, e gram província da China: donde traziam ouro, prata, pedraria, Aljofre, seda, almiscre, Canfora, aguila, sandalos, e muito Ruybarbo, e outras cousas que cá tinham valia. 

Depois disto diz que levaram estas mercadorias, drogas e especiarias, em naus pelo mar Índico ao estreito Dormuz [de Ormuz], & rio Eufrates & Tigres & as desembarcavam na cidade de Baçora, que está em trinta & um graus ao Norte. Daí iam por terra à Cidade Dalepo [de Alepo], Damasco, Baruti [Beirute], que está da mesma banda em trinta e cinco graus; donde as vinham tomar as galés de Veneza, que traziam romeiros à casa Sancta [Jerusalém]. 

No ano de 1353 em tempo do imperador Federico Barba roxa, diz que foi ter a Lubres [Lübeck ?] cidade Dalemanha [da Alemanha] uma nau com certos índios em uma canoa, que são navios de remo, parecem-se aos tones de Cochim: porém esta canoa devia de ser da costa da Florida bacalhãos, & aquela terra, por estar na mesma altura Dalemanha: de que os Tudescos ficaram espantados do tal navio & gente, por não saberem donde eram, nem entenderem sua linguagem, nem terem notícia daquela terra, como agora, porque bem os podia aí levar o vento, e água, como vemos que trazem as almadias de Quiloa, Moçambique, Sofala, a ilha de sancta Ilena [Santa Helena], que é um ponto de terra, que está naquele gram mar daquela costa, & Cabo de boa esperança tão separada. 

No anno de 1300. depois da vinda de Christo, o gram Soldam [sultão] do Cairo: mandou que tornassem as especiarias, drogas, mercadorias das Índias ao mar Roxo, como em principio costumavam: somente que desta vez desembarcavam da banda de Arábia, e porto de Iuda [porto de Meca, Jidá], as levavam à casa de Meca, e as caravanas que iam a ela em romaria as traziam donde cada um era, por enobrecer sua terra, principalmente a cidade do Cairo, donde as passavam pela provincia do Egipto, Libia, Africa, ao reyno de Tunez, Tremecem [Tlemcen], Fez, Marrocos, Sus, algumas levavam além dos montes Atlanticos à cidade de Tungubutum, & regno dos Ialopsos [reino dos Jalofos], até que os Portugueses as trouxeram pelo cabo de boa esperança à nossa Cidade de Lisboa, como se dirá a seu tempo. 

No ano de 1344 reinando dom Pedro Daragam [Pedro IV de Aragão] o quarto dizem os coronistas [cronistas] de seu tempo, que lhe pediu ajuda dom Luys de la cerda  neto de dom Ioam de Lacerda para ir conquistar as Ilhas Canárias que estão em vintoito graus desta mesma banda, por lhe serem dadas pelo Papa Clemente vj [VI], natural de França. E segundo isto já naquele tempo havia muita notícia daquelas ilhas por toda Europa, quanto mais em Espanha, porque tamanhos príncipes não se haviam de mover a esta empresa sem muita certeza. 

Também querem que neste meio tempo fosse a Ilha da Madeira descoberta, que está em trinta & dous graus, por um Ingres [inglês] que se chamava Machim, que vindo de Inglaterra para Espanha com uma mulher furtada, foram ter à Ilha com tormenta, e surgiram naquele porto que se agora chama Manchico [Machico], de seu nome tomado, e pela amiga vir do mar enjoada saiu em terra com alguns da companhia e a nau com tempo se fez à vela, e ela faleceu danojada. Machim que a muito amava para sua sepultura fez uma Ermida do bõ Iesu [Bom Jesus], e escreveu em uma pedra o nome seu, e dela: e a causa que os ali trouxera, e pôs-lha por cabeceira: e ordenou um barco do tronco de uma arvore, que ali havia muito grossos, e embarcou-se nele com os que tinha, e foram ter à Costa Dafrica sem velas, nem remos. Os mouros houveram isto por cousa milagrosa, e por tal os apresentaram ao Senhor da terra, e ele pela mesma causa os mandou a el rey de Castella. 

No anno de 1393 reinando em Castella el rey dom Enrique III, pela informação que Machim desta Ilha dera, & a nau de sua companhia, moveu a muitos de França, e Castella irem a descobri-la, & a gram Canaria, principalmente Andaluzes, Biscainhos, Lepuzcos: levando assaz gente, e cavalos, mas não sei se foi isto à sua custa, se del Rey: como quer que seja, querem que fossem os primeiros que houvessem vista das Canárias, & saíssem nelas, & cativassem cento & cinquenta pessoas: outros querem que fosse isto no ano de 1405.

(continua)
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