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Operação Tocha

por desvela, em 25.05.16
Gastão Ferraz, o espião
Não são muitos os que conhecem o nome Operação Tocha e ainda menos os que sabem do famoso espião português Gastão de Freitas Ferraz, sendo que tudo isto não se passou agora, mas sim há quase 75 anos, no contexto da 2ª Guerra Mundial.

A Operação Tocha consistiu num ataque combinado das forças aliadas no Norte de África, em 8 de Novembro de 1942, em Marrocos e na Argélia, visando cercar a exército de tropas alemãs africanas - o Africa Korps. O sucesso desta operação militar levou à rendição completa do Africa Korps, seis meses depois, em Maio de 1943.

O nome de Gastão de Freitas Ferraz foi amplamente divulgado em 3 de Março de 2009, quando a imprensa internacional foi instada a contar a história através dos seus jornais. Por exemplo:
  • dailymail.co.uk Revealed-Allied-invasion-North-Africa-saved-dramatic-arrest-spy
  • telegraph.co.uk Enigma-machine-helped-Royal-Navy-to-intercept-German-spy
  • spiegel.de Der Spion, der beinahe die Alliierten stoppte
  • dn.pt o-portugues-que-espiou-para-as-forcas-de-hitler
  • rtp.pt secreta-inglesa-ponderou-afundar-navio-portugues-para-informacoes-nao-chegarem-aos-alemaes

(as notícias portuguesas são já de 4 ou 6 de Março), revelam os detalhes da informação após abertura de ficheiros classificados do MI-5 britânico.

A história não é nada de especial... aparentemente os alemães pagavam 1500 escudos/mensais a Gastão Ferraz, um radio-telegrafista do navio Gil Eanes por informações relativas à posição dos navios aliados no Atlântico Norte. O navio Gil Eanes acompanhava as expedições da grande frota portuguesa que pescava bacalhau ao largo do Canadá, e servia de navio-hospital. 
Acontece que Gastão Ferraz percebeu os movimentos aliados, e preparava-se para denunciar a Operação Tocha aos nazis, já que o engodo seria pensar que se tratava de um desembarque na Europa (Itália e/ou Noruega), quando na realidade o desembarque ocorreria em África (Marrocos e Argélia). 
Segundo as notícias veiculadas, o espião português teria sido denunciado pela intercepção de comunicações pela máquina Enigma, uma semana antes da invasão, e a importância da detenção foi considerada ao ponto de poder ter invertido o curso da guerra, se comprometesse a Operação Tocha. Aliás, os ingleses consideraram mesmo a hipótese de afundar o Gil Eanes, caso não tivessem podido prender Gastão Ferraz, que acabou depois por ser libertado no final da 2ª Guerra.

Surge esta história a propósito da notícia que apareceu no final do dia de domingo:
http://observador.pt/2016/05/23/espiao-portugues-preso-em-flagrante-delito
já que no dia seguinte, parece que só a imprensa nacional noticiava este novo caso de espionagem, de Frederico Gil, um filósofo maçon, empregado pelo SIS, que alegadamente teria revelado segredos nacionais aos russos. 
Bom, como desde o tempo de Cristovão Colombo (segundo alguns um espião de D. João II), que não se conhecia bem o grande interesse de potências estrangeiras nos segredos nacionais, ficámos mais descansados ao saber que afinal o SIS não tinha mais segredos do que coisas da NATO... ainda que nos fique a dúvida sobre a confiança que a NATO depositaria no SIS, depois de Silva Carvalho no caso Ongoing
Porém, parece que não restam grandes dúvidas neste caso - afinal o filósofo andava interessado em russas, ou mulheres de leste (algo muito suspeito em Portugal...), e como qualquer bom espião, partilhava secretamente o seu interesse pela Rússia na sua página do facebook
O The Telegraph sinaliza agora que o caso é ainda mais ridículo, porque ao contrário do habitual, o espião do lado russo nem sequer tinha imunidade diplomática, e assim foi também preso! Portanto, para não restarem dúvidas, deveria ter mesmo um cartão de identificação como espião ao serviço de Putin.
visitas de 26/4 a 25/5/2016
Para nos juntarmos a estas provas notáveis que a imprensa manda cá para fora, observamos que no último mês tivemos um número elevado de visitas da Rússia, talvez porque Putin se preparasse para revelar aos portugueses que tinha sido a NATO a orquestrar o 25 de Abril... um golpe perigosíssimo na opinião pública nacional, como se viu.
No entanto, atendendo a que o maior número de visitas se realizou nas últimas semanas, ultrapassando largamente o número de visitas portuguesas ou brasileiras, talvez seja mesmo um interesse filosófico!
Seja como for, acabaram-se as visitas russas desde domingo e pronto, assunto resolvido - os russos em Portugal não espiam mais!

Como se o ridículo não chegasse, basta considerar que desde a sua criação, o PCP é praticamente uma delegação russa em Portugal, pelo que pensar que há segredos nacionais que a Rússia desconhece, é um pouco como assumir o mesmo relativamente aos EUA ou Inglaterra. Aliás é sabido que no pós 25 de Abril a URSS nem teve que pedir segredos, quando os havia guardados, foram os próprios militantes portugueses que tomaram a iniciativa de os enviar...
Parece-me que fica o aviso aos operacionais do SIS - namoradas russas, nem pensar!

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publicado às 07:11


Discurso do mééé - todo! (5)

por desvela, em 23.05.16
Uma prova de que o "subconsciente" nada tem a ver connosco é razoavelmente evidente. Afinal, se nos lembramos do nosso papel enquanto observadores de uma ilusão fabricada num sonho, nunca nos lembramos do nosso papel enquanto criadores dessa ilusão. 
Ora, se um sonho fosse fabricação do próprio, qual a razão pela qual a memória só registaria o nosso papel enquanto observadores, e nunca o papel enquanto criadores dessa ilusão?
A questão é que quando fabricamos um enredo ficcionado, entendemos a razão da sua criação, não nos colocamos de fora, assumimos o controlo. Acontece por vezes, ao acordar, querer prolongar o sonho, e aí não hesitamos em estar conscientes de ambos os lados; mas se inventarmos a sequência, deixamos de estar num sonho, estamos apenas a fabricar um prolongamento da história enquanto Autores. Ao assumir esse controlo, não se trata de um sonho, mas apenas de um pensamento, de uma idealização de uma história.

Desde os primeiros tempos em que se inventaram contos, em que um Autor idealizou uma situação com diversos personagens que não correspondiam a nenhuma ocorrência real; desde essa altura, que o Autor se deve ter visto num papel semelhante ao de um Deus, com carácter discricionário sobre o destino das personagens. 
Porém, mesmo nessa situação, em que aparentemente o Autor detém todo o controlo sobre o destino dos personagens, há um elemento de imprevisibilidade que nem o Autor controla... porque simplesmente o próprio não prevê o seu próprio pensamento
Numa peça elucidativa deste aspecto - "Seis personagens à procura de um autor", de Luigi Pirandello, os personagens podem ganhar uma vida própria no espírito do Autor, de forma que confrontando o próprio com os seus valores, podem questionar o seu destino na peça, quanto ao nexo, à clareza, à justiça ou equilíbrio dos seus papéis.
Pirandello (ao centro) - "seis personagens à procura de um autor" (imagem)
Para além disso, os personagens quando não reduzidos a uma única obra, ganham uma vida própria na mente dos leitores, que pode ser bastante diferente da idealização do Autor, influenciando-o quanto ao desenho ou desfecho de novos capítulos da série.

Quanto aos personagens da "vida real" vemos facilmente dois tipos de atitudes. No contexto religioso, o crente, temeroso obediente à potência do Autor, procurará evitar um destino nefasto na história. Ou ainda, sendo um personagem escolhido para sofrer num livro, terá a esperança de ser escolhido para usufruir, na última obra... intitulada "Paraíso". Fora do contexto religioso, normalmente os "porquês" são banidos, é assim "porque sim"... e a ciência não se preocupa com "porquês", diz apenas como é, mas reserva a cada um a ilusão de que tem potência própria para modificar o seu destino, ou uma parte dele. A versão científica oscila actualmente em admitir que o passado determina o futuro, ou que há um factor caótico que escreve a história, em substituição à escrita divina. Isso é praticamente uma mudança do nome e qualidade do Autor, e não propriamente uma mudança substantiva. Consiste basicamente em definir o Caos como Deus, e entendê-lo como cego e surdo a preces.

Primeiro, convém entender que ninguém escolhe o contexto em que aparece, e as escolhas que vai fazendo são tão ou mais determinadas por esse contexto, do que propriamente por opção pessoal. Acresce que um "criativo", a menos que copie outra obra, pode ter uma ligeira ideia do que pretende, mas só no final da obra feita verá o resultado. Portanto, a ideia de que um autor controla por completo o processo de criação é completamente ilusória. Na melhor das hipóteses, foi fazendo escolhas de vida que favoreceram o aparecimento natural de certas ideias, que depois levaram à obra final... e só isso conseguirá explicar. Havendo várias pessoas em circunstâncias semelhantes, é praticamente uma questão de "sorte" surgir uma ideia num e não no outro. Mas não é uma questão de sorte fazer uma obra literária japonesa, sem saber japonês, nem é uma questão de sorte ser um mestre em xadrez, sem saber as regras... esses casos são simplesmente fraudes, ou impossíveis.

De igual forma, é mera fraude pretender que a Austrália, estando na rota de múltiplas viagens, de portugueses, espanhóis, holandeses, franceses, etc... não foi descoberta na parte oriental até que Cook ali desembarcou. É fraude semelhante pretender que na sua primeira viagem Colombo tenha sido o único a lembrar-se de navegar para Ocidente, quando desde Diogo de Silves, os portugueses fizeram inúmeras viagens para os Açores, e mais além. 
Ou seja, mesmo que a história seja uma obra de ficção posterior, compromete os autores e actores a encenação que nos ensinam, de uma palhaçada sem sentido nenhum.
O problema não é ser difícil apurar a verdade, o problema é ser ensinada uma mentira descarada... ao ponto de fazer mais credível uma mitologia, como fonte de informação verdadeira.
Por isso, por muito estranhas que possam parecer algumas hipóteses que fui aqui colocando, todas elas merecem mais a denominação de História, do que a historiazinha bacoca e infantil que é divulgada e ensinada. Não por serem considerações verdadeiras, mas apenas por não se resumirem a invenções evidentemente falsas.

É claro que quando temos uma boa parte da população a preferir ter a benção divina, seja jogando rios de dinheiro em jogos de sorte, seja favorecendo fraudes do poder, que lhe dão um quinhão da renda, seja aceitando qualquer forma de ganhar mérito sem o ter, invocando deuses ou poderosos para as suas ambições pessoais, então essa população nunca será livre. Estará sempre presa a um mundo de ilusão, que lhe promete tudo, em troca da fidelização da sua alma à falsidade... e se for um paraíso, será apenas um paraíso canino.
E a revolução não é feita na forma de nenhum movimento a que se pertença, porque pertencer é o primeiro passo para deixar de ser. A fidelidade a uma causa é o primeiro passo para comprometer a liberdade, e a importância das coisas nunca será medida pelo número de adeptos, mas apenas pela sua intemporalidade. A Gioconda, ou mona lisa, será o quadro mais importante do Louvre, mas o que é mais notável nesse quadro é que passaria completamente despercebido, e ninguém lhe faria a menor menção, se não tivesse sido assinalado na nossa educação como obra fundamental a ser vista. O que é mais notável nesse quadro é que ilustra como funcionamos como carneirada, que se dirige aos pontos escolhidos pelos pastores, bastando para orientação uns quantos latidos caninos. E em coro fazem mééé... partilhando entre nós o foco de atenção escolhido, aguardando novas instruções para novos focos de atenção; sempre negligenciando a própria opinião, e esquecendo que para descobrir a nossa importância, para sermos livres de todos os medos, de pouco ou nada adiantará seguir qualquer manada.

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publicado às 05:45


Discurso do mééé - todo! (4)

por desvela, em 22.05.16
Já perdemos algum tempo a falar sobre o 1, e iremos agora falar sobre o 2.
Sobre o 1, que é o solipsismo, há ainda mais a dizer, mas para não bater na mesma tecla, passamos ao 2, que é um dualismo, mas não é o dualismo corpo-espírito. 
A quantidade 2 que aqui interessa notar, resulta da diferença entre o próprio e tudo o resto, ou seja, da diferença entre o "eu" e o "não-eu". Este "eu" não diz respeito ao corpo, porque mesmo quando sonhamos não deixamos de evidenciar um "eu" que é o nosso personagem no contexto do sonho, e que é confrontado com um "não-eu", ou seja é confrontado com um desenrolar de acontecimentos, que não controla.
Características idealizadas dos 2 hemisférios cerebrais (imagem)
Indo para um contexto que será mais simples, como se entende que o cérebro tem 2 hemisférios, poder-se-ia admitir que um hemisfério estava encarregue de fazer o papel do "eu" enquanto o outro hemisfério tinha a cargo construir o cenário do "não-eu", no sonho. Ou seja, o hemisfério do "não-eu", o subconsciente, ficaria encarregue de construir a ilusão que apresentaria ao hemisfério do "eu", o consciente... e que este aceitaria como realidade momentânea, só depois entendida como sonho. Isto pode até ser uma teoria psicológica, se alguém se tiver lembrado dela.
Não interessa. Interessa sim que há dois, e apenas dois... observador e observado.
No solipsismo estes 2 são induzidos a serem encarados como 1, porque por influência social se remete ao próprio o duplo papel. Ou seja, não só se admite que o próprio sonhou, como se remete a si a construção do sonho; usando a personagem mágica do "subconsciente" para varrer a contradição para debaixo do tapete. E é uma contradição porque o "eu" não pode ser identificado ao que não controla.
Por isso, considerarei apenas como "eu" a parte consciente, sobre a qual o próprio tem algum controlo, no sentido em que percebe o nexo de causalidade que leva às suas acções. A ideia da autoria do sonho ser remetida ao próprio não faz qualquer sentido, ou digamos faz tanto sentido quanto depois o próprio achar, enquanto solipsista, que é autor ou criador de toda a realidade, quando praticamente não controla rigorosamente nada.

Ora um sonho pode ser suficientemente complexo, e somos confrontados com cenários onde há mais que um personagem inteligente que interage connosco. Portanto esse "não-eu" que constrói o sonho, ainda que seja apenas um criador, pode manifestar-se como diversos personagens. 
No entanto, ao invés de pensarmos como habitualmente, não atribuímos a cada personagem que nos aparece no sonho uma individualidade própria. Ao contrário, somos induzidos a pensar que todos os personagens são apenas criação de uma única entidade - o tal "subconsciente". 
Curiosamente, em situação inversa, sendo confrontados com diversos personagens na realidade, ou seja diversas pessoas, desde familiares, amigos ou desconhecidos; ninguém sequer conjectura que todos esses personagens sejam apenas resultado de uma única entidade; que se manifesta de diversas formas. Quando falamos de realidade deixa de haver qualquer "subconsciente" a criar e controlar diversos personagens. Ou seja, por semelhança, assumimos que os outros são iguais a nós, e só em raras situações alguém pensará como os gregos - que consideravam que os deuses se poderiam manifestar como humanos.

Descartes, reconhecendo a sua falta de controlo, e a existência de inteligência que não é sua, remete rapidamente todo o seu "não-eu" para a noção de Deus. Portanto, é como se Deus fosse identificado ao papel de "subconsciente", em completo controlo da criação e do desenrolar do sonho... que no caso divino seria toda a realidade.
Descartes não diz isso, mas dificilmente poderia argumentar saber distinguir o discurso do padeiro do discurso divino... afinal, enquanto ser omnipotente na criação e controlo, Descartes nunca poderia negar a Deus a possibilidade de se manifestar sob que forma fosse. Há ainda registo de quem tivesse identificado o discurso de estranhos a um discurso divino, porque simplesmente a complexidade do discurso não fazia sentido naquele personagem - acontece por vezes com crianças.
Portanto, a dualidade manifesta-se pela existência do "eu" e do "não-eu", mas é algo ilusório pretender separar o "não-eu" em diversos personagens, cada um com identidade diferente. É claro que cada um sabe que é diferente, mas não tem forma de garantir a um terceiro que está nas mesmas circunstâncias.
Por exemplo, podendo ter aqui diversos comentadores, objectivamente não tenho qualquer forma de concluir que há mais do que um, já que um apenas basta para se fazer passar por muitos.

No entanto, há uma outra entidade que nos é oferecida, e que só negamos se quisermos ser cegos.
Essa 3ª entidade é composta por todas as coisas imutáveis... que não dependem do nosso controlo, nem do controlo de mais ninguém. A 3ª entidade é a linguagem, ou melhor as noções abstractas onde assenta a nossa linguagem.
Podemos duvidar de tudo, mas nesse caso podemos duvidar dessa dúvida?
Temos a noção dos números, e então quem se atreve a dizer como se termina com a existência do número 1, 2 ou 3? Ou mesmo, quem ousa negar que 1+2=3 é uma relação imutável?
A partir do momento em que essas noções abstractas se formaram, nunca mais será possível terminarem... mesmo que se proíba a linguagem, ou que se liquidassem todos os seres pensantes, estas noções uma vez pensadas não têm forma de terminarem.

Por estranho que pareça, aparece normalmente quem ouse questionar o inquestionável... Descartes sente necessidade de justificar mesmo a sua existência com o pensamento. 
Górgias favorecendo a sua tese níilista, ao duvidar de tudo, argumentou que isso não implicaria que essa dúvida existisse... porque não poderia ser partilhada! Ora, isso só mostraria que Górgias tinha uma estranha noção de existência que dependia da partilha... nada mais.

Acontece que o pensamento dominante é (quase) sempre o pensamento exterior, onde o indivíduo se vê induzido a aceitar tudo o que é exterior, e a duvidar de tudo o que é sua verdade interior.
Esse pensamento exterior não tem outra forma de se manifestar que não seja forçando cada indivíduo a pensar em nome desse exterior. Assim, a visão externa, que reduz o indivíduo à sua máxima insignificância, como ponto minúsculo num universo imenso, como um espirro num tempo infinito, só consegue captar a atenção do indivíduo retirando-o do mundo interior, onde não se veria ameaçado por nada, e ameaçando-o com as vicissitudes deste mundo.
O nosso "eu" é o "não-eu" do "não-eu", ou seja somos o complemento, ou opositor natural a si. E se o "não-eu" evidencia a todo o momento que pode terminar connosco num simples colapso cardíaco, dispomos de toda a racionalidade para duvidar que isso seja assim... porque simplesmente também não sucumbimos quando o famoso "subconsciente" nos coloca um sonho em que deveríamos concluir a nossa morte. Simplesmente acordamos de um pesadelo, nada mais.

Ora, o mais importante neste acordo do acordar, é que aceitamos uma realidade comum, mas com regras... não se trata de dar a um qualquer Autor a simples faculdade de inventar de uma peça ou um filme, sem nexo, por mais cor-de-rosa que se prometa ser o final. 
Essas regras limitam profundamente a necessidade de um criador de conteúdos, para não dizer que dispensam totalmente esse papel. Dispensaria por completo, se o universo fosse determinista, mas como o universo admite um caos residual, significativo, haverá um espaço de imprevisibilidade cuja origem não se poderá atribuir, e cada um pintará esse espaço em branco com as cores que quiser.

No entanto, como referi, na dualidade haverá sempre a tentação de reduzir as condicionantes objectivas a zero... e o argumento é simples - quanto menos regras físicas, maior liberdade criativa. Só que essa relação a dois entre o "não-eu" e o "eu" deixa a parte mais fraca completamente nas mãos da parte mais forte. Assim, tal como no convite de uma droga que promete experiências inolvidáveis, o percurso desse sonho "a dois" tende a ir parar em ressacas cada vez piores.


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publicado às 07:59


Discurso do mééé - todo! (3)

por desvela, em 21.05.16
Convém dar o devido destaque a uma guerra não declarada entre a visão externa e a visão interna. Desde que nasce que o indivíduo é esmagado pela visão externa, em que se vê forçado a agir em resposta às condicionantes exteriores. O mundo existia antes de si, existirá depois de si, e o seu papel no processo será ínfimo ou diminuto.
Isso contrasta profundamente com a sua visão interna - o seu universo interior roda em torno de si, onde é o elemento mais importante, e afinal tudo o resto é medido em função da importância que lhe dá. O solipsismo pode parecer o extremo dessa visão auto-centrada, em que só o próprio existe, mas nada tem a ver com o egoísmo... e até se lhe opõe, de várias formas.
O egoísmo é uma resposta interior de quem adopta a visão externa. O egoísta tem uma visão limitada de si no contexto exterior, e no esforço de ganhar importância, reduz a importância de tudo o resto. Mas não reduz a importância de tudo o resto por não acreditar na sua existência, fá-lo numa tentativa frustrada de ganhar importância, por admitir que não a tem. Isso opõe-se claramente ao solipsismo, onde o indivíduo centrou em si todo o destaque, e portanto é-lhe indiferente o destaque externo que tem. Não reduz importância ao restante, porque vê esse restante também como produto seu. Nesse desvio de visão interna, atribui ao que não controla um produto do "seu subconsciente", usando uma nomenclatura moderna.

Essa noção de subsconsciente é directamente importada da visão externa. Porquê? Porque a versão exterior dos acontecimentos imputa os seus sonhos, as suas ilusões, a um produto do próprio. Portanto são os outros que convencem o indivíduo que ele é dono e autor dessas ilusões. Porém, como o próprio sabe que não o é conscientemente, delegou-se a autoria numa entidade chamada subconsciente, onde foi arrumada toda a autoria dos sonhos. Também num sonho o indivíduo é confrontado com uma realidade que o circunscreve e domina, em tudo análoga à habitual realidade. Assim, por influência social, o solipsista aceita-se como autor e dono dos sonhos que presencia, e logicamente não vê razão objectiva para que seja diferente o que se passa com a realidade.

As coisas passaram-se de forma diferente na sociedade oriental, especialmente hindú, ou de influência budista, e na sociedade ocidental. Na sociedade indiana é razoavelmente fácil encontrar pessoas com um discurso solipsista, até porque o budismo convidou a essa reflexão interior, desligada do exterior - cujo extremo levou aos ascetas.
Na sociedade ocidental isso foi combatido... houve sempre a tentativa de combater a visão interna, solipsista, porque seria altamente contra-produtiva. Aliás, o que se descobriu no ocidente é que socialmente havia interesse em fomentar uma visão egoísta... especialmente após a Idade Média. Os indivíduos querendo exibir os seus méritos para ascensão social, fomentavam o aparecimento de produtos e ideias para o bem comum, ou melhor para o bem dirigente, ainda que tivessem como motivo apenas o bem próprio.
No hinduísmo, surgiram assim vertentes monistas, solipsistas, como o Advaita Vedante, ensinado por Sankara, um guru do Séc. VIII, que visava uma unidade da realidade como "Brahma" em oposição às ilusões aparentes, denominadas como "Maya" (também uma divindade hindú, e o nome da mãe de Buda, para além de múltiplas atribuições ocidentais ao mesmo nome - mãe de Hermes, divindade ligada à agricultura, etc.).
 
Na filosofia oriental Maya corresponde ao ilusório. 
"Maya - o espelho de ilusões";  suástica - símbolo do Jainismo, que combate Maya - a ilusão. 

Sobre a dualidade entre ilusão e realidade, os filósofos gregos entretiveram-se abundantemente.
Como extremo do solipsismo, encontramos Parménides, que chega ao ponto de negar a própria existência do tempo. E, é claro, em última análise é contado que os opositores lhe atiravam pedras para contrariar experimentalmente a sua oposição ao movimento. No entanto, e num notável esforço de sistematização, Zenão de Eleia, discípulo de Parménides, enunciou uma série de paradoxos, que demoraram mais de dois milénios a serem esclarecidos matematicamente. Basicamente a questão da inexistência do tempo foi depois rebuscada no Séc. XX por McTaggart, na sequência do idealismo de Hegel. Mais uma vez, como em tantas vezes, foram retomadas teses anteriores, milenares, com novas noções, que pouco ou nada mudavam o problema ou a discussão original.

A questão de Parménides é muito mais facilmente perceptível no contexto do solipsismo, porque um problema solipsista imediato tem a ver com a origem do próprio e a sua mudança no tempo.
Ou seja, o solipsista pode fiar-se tanto na memória, como em qualquer outra coisa... afinal também a memória facilmente nos engana. Um reduto final consiste então em argumentar que só existe o conhecimento do momento presente, e assim negar a mudança, o tempo.
Levado noutro extremo, o sofista Gorgias, também tido como solipsista, argumentaria que nada existia, porque nada de objectivo poderia ser comunicado a outros, o que poderá ser entendido como uma forma de níilismo.

Indo ainda mais atrás, vemos Pitágoras, ou os pitagóricos, afirmando que a vida nada mais era do que um espectáculo que se desenrolava, e que estávamos condenados a assistir como espectadores. Não participaríamos como actores, entendendo que as nossas acções fariam parte do enredo já escrito.
Curiosamente, aquilo que se nota é que quanto mais regredimos no tempo, mais sabedoria vemos... já que muito provavelmente os que se seguiram não perceberam o que os anteriores tinham dito, e serviram praticamente para lançar a sua confusão no que seria claro. Afinal a própria conclusão pitagórica não é diferente de uma noção, certamente muito anterior - a noção de destino.

Tendo feito este enquadramento, irei agora expor o que vim concluindo aqui neste espaço.
Conforme já referi, o meu solipsismo militante, ao estilo de Parménides ou Pitágoras, não resultou deles, ao contrário, o processo mais simples foi sempre inverso... só depois de tirar as minhas conclusões é que as entendi como análogas a conclusões alheias - ainda que essa questão de autoria não interesse para nada - basta notar que para um solipsista, a autoria seria sempre sua, seja pelo consciente ou inconsciente.

Para o que interessa, a conclusão de Pitágoras é a correcta, só que abreviando o escrito, ele não nos deixou explicados convenientemente os muitos porquês. Essencialmente tudo parte do paradoxo do pensador, que enunciei há uns cinco anos. Ou seja, num caminho completamente oposto ao solipsismo, fui forçado a concluir que nem o nosso pensamento nos é interno... aplicando-se isso a qualquer ser pensante.

Afinal, o primeiro passo para ficarmos livres é percebermos o que nos prende, e porquê!

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publicado às 06:02


Discurso do mééé - todo! (2)

por desvela, em 17.05.16
Agostinho da Silva era um solipsista, ou pelo menos vi-o uma vez defender que sabia que os outros morriam, mas isso não se aplicava necessariamente a si. E, quem achar que a morte dele provou o contrário, não entende que o facto de perdermos a comunicação com alguém, não implica que a existência do outro tenha cessado. 

Fernando Pessoa, com a ajuda de barbitúricos, seria um outro caso. São vários os exemplos de solipsistas que foram de forma tímida aparecendo a público após Descartes. George Berkeley terá sido um deles, Fichte outro... e de certa maneira, uma boa parte da escola idealista alemã, acabou por entrar nessas ideias... e nem sempre de forma natural. Afinal, já os antigos druidas se entretinham na procura de cogumelos, e não seria para efeitos de culinária. A filosofia hindú, budista, não era muito diferente, e a diferença na sua passagem para o lado ocidental, após os descobrimentos, é essencialmente o seu carácter mais formal, ou menos informal... se houve alguma sistematização, introdução de chavões ou definições, não houve propriamente muita novidade substantiva.

Aliás sejamos claros, já Parménides, um dos primeiros filósofos gregos registados, exibia todo o conhecimento que caracterizou depois o platonismo ou o idealismo alemão. Mesmo antes de si, os textos atribuídos a Hermes Trimegisto, aos Pitagóricos, ou até Zaratustra, vão todos no mesmo sentido de experiências ou concepções solipsistas. O mesmo se passa com a filosofia oriental, e não apenas no budismo, e que provavelmente não se desligaria do consumo de opiáceos.

As grandes discussões filosóficas entre os gregos tinham a ver com essa oposição entre solipsistas, que viam de dentro para fora, e os restantes, que viam de fora para dentro. É directamente da filosofia solipsista, e de nenhum extracto bíblico, que surge a questão da Trindade. 
O argumento é colocado nas três pessoas de Deus, mas trata-se de facto de uma interrogação solipsista óbvia - há o próprio, há tudo o resto, e isto são duas pessoas, e a terceira pessoa (o Deus pai) é a que junta ambas como uma só. Essa questão da tripla identidade já está presente mesmo na religião celta com a figura de Lugus (ou Luso).

O mééé-todo mais eficaz para experimentar o solipsismo, seriam ervas ou outras drogas.
Induzindo um estado de alucinação, o sujeito vê-se numa realidade completamente diferente, que pode dominar melhor ou pior... mas a partir do instante em que toma algum controlo do que vê e sente, entra necessariamente na confusão entre personagens dessa alucinação. O próprio já não se dissocia do restante, porque tem algum controlo sobre isso... e se pode achar fascinante esse domínio, sentir-se como um deus, mas é claro que isso o condena a uma baralhação e uma certa insatisfação. Depois, a realidade faz uma chamada à base e tudo depende se o sujeito quer ou não alimentar de novo um estado de alucinação.
A papoila e o ópio.
O que é interessante é que a própria natureza facilitou a entrada nesses estados de alucinação, deixando em certas plantas, cogumelos, etc... certas portas para entrada noutros universos, praticamente feitos à medida de satisfação do consumidor. Se o trigo servia a alimentação para esta realidade, havia outras plantas que desafiavam o politicamente correcto, e como boa estratégia de sobrevivência, ofereciam entradas noutros mundos mais agradáveis.
Ou seja, essas plantas convidavam outros carneiros, para o pasto, experimentando outras realidades.
O grande problema, como se vê, é que se uns carneiros se entretinham com o pasto que levava aos estados de alucinação, esses precisavam de outros carneiros que trabalhassem no mundo real. Porque, como poderei explicar, o estado de alucinação tinha um propósito, mas a porta que abria tinha que se fechar, porque não levava a nenhuma realidade.
Bom, mas e afinal o que é a realidade?, perguntaram tantos, sabendo que podiam ser iludidos com outras realidades, que por momentos pareciam tão reais quanto esta.
A realidade é o que resta quando todas as outras portas se fecham... as outras portas conduzem a caminhos de isolamento, de ilusões pessoais, e se cada um tem as suas, essas ilusões não levam a lado nenhum sem trazer consigo os outros. Somos sempre remetidos ao acordo, do acordar numa realidade em que somos forçados a estar de acordo. Mas não é apenas estar de acordo no presente, o universo que se construiu, agrupou tudo... de todos os princípios a todos os fins, mas para azar de convivência, têm que coexistir, no único universo com sentido próprio que sobreviveu - aquele que não acaba.


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publicado às 05:40


Discurso do mééé - todo! (1)

por desvela, em 15.05.16
O que mais importa do que escrevi aqui, no alvor-silves ou no odemaia, são considerações filosóficas e científicas. A verdade ou a denúncia de falsidade histórica acabou por se revelar apenas um pretexto que me levou nessa direcção. Por isso, uma boa parte dos textos, ainda que reportasse uma questão de fraude ou encobrimento histórico, continha sempre algo mais.
Esse adicional dificilmente passa, por mais explícito, simples ou claro, que esteja... excepto se houver um "clique", e esse clique não se processa por falta de vontade ou incompetência do escritor ou do leitor, simplesmente só se dá quando se tem que dar... e isso ultrapassa quem escreve ou quem lê.
Discurso do Método - edição 1637,
sem Autor identificado.
Quando me foi dado a ler o Discurso do Método de Descartes, foi no âmbito da disciplina de Filosofia, e li-o como todos os alunos, sem perceber muito bem o alcance das palavras. Não é preciso entender, para se fazer de conta que se entende, ou até para acreditar que se entende. 
Descartes argumentava a dúvida sobre tudo, mas afinal quem ia mesmo duvidar de tudo?... Naquela idade, na melhor das hipóteses, duvida-se do que a sociedade propagandeia. Assim, quando Descartes conclui que não pode duvidar de si, parece uma grande treta... porque com efeito ninguém duvidaria de si, para a questão ser colocada verdadeiramente. Normalmente ninguém levaria a cabo esse exercício de duvidar de tudo, até de si mesmo.
Ora, como tinha feito o meu percurso de educação católica, para duvidar da existência de Deus, estava bem no caminho do ateísmo científico, que era moda na altura, especialmente após o 25 de Abril. No quadro desse ateísmo científico até pareceria bem duvidar de tudo... mas a ciência não ia ao ponto de duvidar das experiências físicas, que a sustentavam - isso ficara para os inúteis filósofos.
Só que, se a dúvida era total, até a informação experimental era igualmente digna de dúvida.
A única menção a Descartes aparece escrita à mão.
Isso correspondia a uma inversão do pensamento científico. Porque nessa fase adolescente, o meu pensamento era tão viciado quanto o de qualquer cientista... e quando se raciocina ao contrário, ao jeito da educação que recebemos, acreditamos primeiro na existência dos outros e do mundo exterior, e só depois é que aparecemos nós, como pequena parte que quer ser grande.
Somos educados a ver-nos como microscópicos face ao universo (o que deveria servir para contrabalançar os grandes egos inatos, mas tem o efeito oposto). Assim, dois anos antes, tinha já registado orgulhosamente a conclusão "Penso, porque sinto", o que era uma conclusão simples, assim explicada - se o cérebro nunca recebesse informação dos sentidos, nunca poderia formar pensamentos. Esta seria a forma de argumentar cientificamente, ao estilo de Damásio... afinal, o cientista típico raciocina de fora para dentro - nem ousa colocar em dúvida o exterior, é incapaz disso.

Explicado de forma simples, a filosofia colocou o indivíduo primeiro, e admitiu que tudo o resto é sujeito a dúvida. Ao contrário a ciência coloca o exterior primeiro, e ignora ou despreza o papel de quem pensa... esse sim, será sujeito a dúvida, por defeito do seu pensamento.

Do ponto de vista lógico, a posição científica é absurda, porque a ciência não existe sem que alguém a pense. Por isso, falar do pensamento relacionado com ter cérebro, é como julgar que aprendemos as palavras por um dicionário, ou que aprendemos a falar estudando gramática... ou pior, que sem gramática não saberíamos falar!

Do ponto de vista comunicacional, é boa ideia o Autor não duvidar da existência do Leitor, e por isso até se compreende que a primeira edição do Discurso do Método apareça sem o nome do Autor... mas como a dúvida é um exercício que aprecio, e atendendo a todo o plágio que foi feito dos autores da Antiguidade, após a Guerra dos Trinta Anos, não me é difícil considerar que esta obra seja outro caso desse género.

La Fontaine e Shakespeare - King Liars
Afinal, também La Fontaine, contemporâneo de Descartes, pegou em praticamente todas as fábulas de Esopo e publicou-as em seu nome. Os franceses nunca se incomodaram com isso... pelo contrário. Mas, como é óbvio, não é caso único... também os ingleses apreciam muito Shakespeare, outro contemporâneo, mas uma parte das obras (a maioria?), que lhe são atribuídas, já tinham versões escritas antes de si.
Por exemplo, Romeu e Julieta foi praticamente traduzida da versão do italiano Luigi da Porto (que também não seria o autor original), e noutros casos, sabe-se que Shakespeare primeiro apareceu como actor da peça, em peças "anónimas", e só depois ficou como autor da peça. Assim, no Séc. XVII houve patrocínio para este tipo de falsificações, juntando num nome obras de muitos. Com base nuns tantos casos, estive para escrever um texto chamado King Liar, mas achei que nem valia a pena.

Também não interessa muito saber se foi Descartes, ou outro, que reflectiu sobre o "método"... o que é claro, é que a obra aparece sem o seu nome, na versão original. Mas, mais que isso, o "método" aparece associado a outros temas: Óptica, Astronomia e Geometria, quando pouco ou nada tinha a ver com o assunto. Pela mesma ordem de ideias, poderia ter juntado ainda jardinagem, já que a única coisa comum aos tópicos - abordarem aplicações da geometria, conhecidas desde a Antiguidade... mas entretanto perdidas, ou ocultadas, em tempos medievais.
Assim, grande parte do discurso de Descartes é uma auto-biografia de um soldado francês da Guerra dos Trinta Anos, que a certa altura se lembrou de duvidar de tudo. Ora, isso nada tem de estranho, porque essa interrogação poderia ter ocorrido em qualquer momento da história da humanidade, por quase qualquer um, desde que disposto a isso, com um mínimo de conhecimento abstracto.

Mééé - todo?
Também aqui estou a fazer um pouco de auto-biografia... e lembro que, enquanto estudava Descartes na escola, a certa altura veio o clique após ter visto uma série na RTP, o então famoso Espaço 1999.
Caiu como um raio na cabeça... estava no quarto, sozinho, e cogitei "ok, então e se nada mais houvesse?". Ora, não concluí coisíssima nenhuma que isso implicava que eu existisse - até porque não estava a pensar minimamente em Descartes, ou em duvidar de mim. O que conclui alguém que pensa verdadeiramente nisso, que duvida de tudo o resto, é muito simples - conclui que está sozinho no universo. Ora, isso nada tem de bom... é como se uma criança tivesse ficado sozinha, e para sobreviver à solidão tivesse inventado amigos imaginários. Só que o pacote vem completo, e ao mesmo tempo traz a conclusão que tudo pode ser uma ilusão, um sonho, e assim traz virtualmente a ideia de que estando sozinhos no universo nada nos ameaça verdadeiramente. Claro que depois foi fácil perceber a matéria de Descartes... mas isso não me aproximou da filosofia. Pelo contrário, achei que disso daria conta sozinho, não precisaria para isso de nenhuma ajuda exterior.
Quanto à questão de Deus, arrumei-a rapidamente, e de forma bastante diversa de Descartes. Afinal, o que quer que se manifestasse perante mim, poderia sempre ser visto como produto de uma ilusão... e se não controlava as ilusões de um sonho, tinha essas ilusões como produto próprio. Esse foi um erro que demorei décadas para entender... e só o entendi bem escrevendo aqui, há quatro anos atrás.

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dos Comentários (20) - milho e milhão

por desvela, em 01.05.16
Através de email chegou-nos gentilmente o seguinte comentário (de Moura Sherazade):
Encontro no texto - Sobre um conjunto de silos em Beja-, disponível online, o seguinte: 
«Os solos de boa qualidade proporcionaram ao Alentejo a possibilidade de produção de vários tipos de cereal, existindo desde os textos das Inquirições gerais de 1220, 1258 e 1284, nos contratos de aforamento de terras de D. Afonso III, de D. Dinis e das instituições religiosas referências ao trigo, à cevada, ao centeio e ao milho que eram a moeda de troca por excelência.»
Esta referência sobre milho em época medieval vem num artigo
... e o texto continua acrescentando - «O termo Pão era a forma mais corrente de designar aqueles cereais, sendo o trigo o mais utilizado em todos os períodos (Goes, 1998)».

O assunto do "problema do milho" foi abordado pelo José Manuel em 2009:
http://portugalliae.blogspot.pt/2009/12/como-os-portugueses-enganaram-colombo.html
Cultura de milho na Suméria (de um vídeo de Gunnar Thompson)
... onde se apresenta uma série de vídeos de Gunnar Thompson - que argumentava sobre referências ao milho nas civilizações egípcias, sumérias e babilónias, colocando isso como prova de que haveria viagens à América em tempos antigos.

Ora, ainda acerca disso também escrevi algo, com base em traduções inglesas de textos romanos, que usavam a palavra "corn"... e que davam a Turdetania (Andaluzia) como exportadora deste cereal.

Só que o assunto das referências antigas ao "milho" foi convenientemente blindado com uma armadilha institucionalizada. Por exemplo, ainda que hoje em inglês "corn" designe essencialmente milho, é suposto que antes do Séc. XIX tenha servido indistintamente para outros cereais. Por isso, vi-me obrigado depois a fazer uma correcção ao texto... Será o mesmo do que se institucionalizar que antigas menções a «ouro» diziam respeito a qualquer metal brilhante, e a partir do momento em que se institucionalizam significados diferentes para as mesmas palavras, bloqueiam-se leituras modernas de textos antigos.

Pinho Leal no final do Séc. XIX já apanhou essa fase de «revolução cultural» da maçaroca maçónica, e assim diz-nos o seguinte:
MAÇAROCA — (milho de maçaroca) - portuguez antigo - milho grosso ou milhão. Julga-se geralmente que o milho grosso não foi conhecido em Portugal senão depois do descobrimento de Guiné, por Diogo da Azambuja, em 1482. Os portuguezes o trouxeram para o reino, e diz se que foi aqui cultivado pela 1ª vez nos campos de Coimbra, d'onde se propagou por todo o reino. (Vide Milhom.) 
Antes de comentar esta referência, que é significativa, vejamos o que nos diz sobre «milhom»
MILHOM — portuguez antigo - milho miúdo. Em um testamento de S. Simão da Junqueira, feito em 1289, se diz :- It. a Stevão Joannes, de Perafita, ou aos seos heréés (herdeiros) hum quarteiro de milhom.
Em todos os documentos antigos, onde se fala de milhom, deve sempre entender-se milho miúdo; porque não havia outro.
O que hoje chamamos simplesmente milho, milho grosso, milho maiz, milhão, e milho de maçaroca, só foi conhecido em Portugal, no século XVII, trazendo-o da Índia, Paulo de Braga. Consta que ao principio era proibido semeá-lo, e só alguns cultivavam poucos pés, nas suas hortas e jardins.
É tradição que a primeira cultura em grande, deste cereal, foi no campo de Coimbra.
Ainda no principio d'este século, pouco milho grosso se cultivava na Extremadura, Alemtejo e Algarve; hoje constitui a principal cultura de todas as províncias de Portugal e ilhas, e é o pão da maior parte dos nossos lavradores e de muitas famílias, sobre tudo, de Coimbra para o norte. 
Qual o problema?
O problema é que o uso antigo da palavra «milho» era inconveniente, e na realidade existe também uma outra espécie diferente o «sorgo», cujo aspecto poderia servir a confusão:
O sorgo tem semelhanças com o milho Zea mays...
Há um estudo que me parece que tenta clarificar isto - O Zea mays e a expansão portuguesa (de Joaquim Lino da Silva, 1998), referindo «Cadornega, em Angola, usa milho-zaburro como sinónimo de sorgo, e com justificação», ou ainda mencionando João de Barros «[Barros] diz que o comum mantimento daqueles povos é o milho de maçaroca, a que chamamos zaburro, donde se infere que o milho zaburro vem a ser o mesmo que o Milho grande [...]», acrescentando «Nós estávamos, na realidade enganados, o milho zaburro de Guiné, e das ilhas de Cabo Verde e S. Tomé não era um Sorghum; mas ainda mantemos que Jeffreys [não é só este autor] está igualmente errado, quando identifica zaburro com Zea Mays. Há outra variedade de milho, diferente dos dois.»

Portanto, vemos que se trata de terreno muito pantanoso... bem armadilhado com incertezas, e daí ter feito uma certa retirada estratégica no texto "Milho a Milhas", porque não vale a pena discorrer por caminhos pantanosos, quando temos centenas doutros bem seguros.

Pinho Leal dará como possível introdução do «milho normal» em Coimbra no Séc. XVII, e encontrámos uma ordenação feita em Lisboa, em 8 de Setembro de 1606 (Emmanuelis Alvarez Pegas - Commentaria ad ordinationes Regni Portugalliae, pág. 613) que se refere a danos nos diques (marachões), referindo este tipo de culturas em várias ocasiões «hum alqueyre de milho nas eyras, o qual o dito Provedor o fará receber, & arrecadar de cada pessoa, ou pessoas, que a isso estiverem obrigadas (...)», ou ainda «vendendo-se o dito milho, o dinheyro delle se meterá em hum cofre, como abayxo irá declarado (...)».

Trata-se de uma situação semelhante à das laranjas... que se atribui também a chegada apenas em tempo dos descobrimentos, apesar de termos o nome "Portugal" associado a laranjas em diversos países, nomeadamente na Grécia (Πορτοκάλι - Portokáli) e em países muçulmanos.

Há povoações com o nome "Milheiral", etc... mas como vimos é sempre fácil argumentar que se tratava do sorgo, do milho-zaburro, ou outra espécie que não entre em conflito com a chegada à América, e assim ainda que mesmo João de Barros refira o consumo de milho por outros povos, pode remeter-se a maçaroca ao sorgo, e esse caminho estará institucionalmente minado... como Pinho Leal assinalou - até chegou a haver ordem de proibição de cultivo.
O que é mais interessante é Pinho Leal remeter a origem do "milho grande" a Diogo de Azambuja, o homem que ergueu o Castelo da Mina... que na nossa opinião, e antiga fundamentação, não seria o Forte da Mina existente em África, mas sim uma construção paralela feita próximo de Istmina, na Colômbia, para negociar com os Incas, e da qual restou a imagem de castelo português existente no Mapa de João de Lisboa, em território Inca. Portanto, essa referência ao milho poderia remeter aos Incas... mas tratando-se da maçaroca usada na Guiné, também pode remeter a outra interpretação, e por isso não vale a pena alimentar uma discussão desse tipo, tendo os Mapas de João de Lisboa como prova indelével de tudo o que afirmamos.

O que nos parece claro é que depois foi outra a maçaroca, foi outro o milhão... ou seja, foi a maçaroca dos milhões que comandou os contos da história. Ora, como um conto valia um milhão, houve facilmente quem trocasse a História por contos de milhões, mas também aprendemos que o primeiro milho é dos pardais, e convirá que estes não abusem da paciência do milhafre...

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