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Arrumar de Botas (1)

por desvela, em 30.06.16
Nas últimas décadas, em que Fernando Pessoa foi elevado ao estrelato nacional, é de certa forma inconveniente um seu pequeno opúsculo de 31 páginas, escrito em 1928, onde defendia a implantação da Ditadura em Portugal:

O interregno : defeza e justificação da dictadura militar em Portugal
Fernando Pessoa (1928)

Citamos uma parte do manuscrito que o mação Pessoa se viria a arrepender de ter escrito, ao mesmo tempo que à época não deixa manifestar orgulho nele - "Não há hoje quem, no nosso país ou em outro, tenha alma e mente, ainda que combinando-se, para compor um opúsculo como este. D'isto nos orgulhamos.";  e se isto parece um excesso egocêntrico, é justificado, pois a sua análise é boa.
Talvez seja mesmo brilhante, mas quando o próprio exibe grande conta, dispensa mais superlativos. Deixo então um extracto (pág. 27)
Concentrados, dos Filipes ao liberalismo, numa estreita tradição familiar, provinciana e religiosa; animalizados, nas classes médias pela educação fradesca, e, nas classes baixas, bestializados pelo analfabetismo que se distingue nas nações católicas, onde não é mister conhecer a Bíblia para ser cristão; desenvolvemos, nas classes superiores, onde principalmente se forma a opinião de intuição, a violenta reacção correspondente a esta acção violenta.
Desnacionalizámos a nossa política, desnacionalizámos a nossa administração, desnacionalizámos a nossa cultura.
A desnacionalização explodiu no constitucionalismo, dádiva que, em reacção, recebemos da Igreja Católica.
Com o constitucionalismo deu-se a desnacionalização quase total das esferas superiores da Nação. Produziu-se a reacção contrária, e, do mesmo modo que na Russia de hoje, se bem que em menor grau, a opinião de hábito recuou para além da província, para além da religião, em muitos casos para além da família.
Surgiu a contra-reacção: veio a República e, com ela, o estrangeiramento completo. Tornou a haver o movimento contrário; estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e em moda, com a família em plena dissolução. Se dermos mais um passo neste jogo de acções e reacções, estaremos no comunismo e em comer raízes - aliás o terminus natural deste sistema humanitário. É este o estado presente dos dois elementos componentes da opinião pública portuguesa.
Em poucas palavras, indo ao princípio físico newtoniano, da acção-reacção, Pessoa procura estabelecer o processo de repetição histórica entre uma visão local e global, como oscilação pendular. Ou seja, quando domina o estrangeirismo, é desestruturada a cultura provinciana, familiar, depois por reacção nacionalista, esses valores familiares, religiosos, são de novo elevados ao topo, e o país fecha-se a qualquer influência estrangeira. Segundo a visão de Pessoa, isto só teria sido diferente aquando da expansão marítima: 
No caso notável do início dos nossos Descobrimentos, a opinião de hábito se opunha à novidade deles, a de intuição a promovia; porém uma e outra não pensavam fora do ideal de grandeza pátria, ou seja, no fundo, do ideal do império. Assim pôde o Império Português, quando por mal ou bem, veio a ser, ser informado por toda a alma de Portugal.
Porém, a ditadura que trazia alguma ordem ao caos republicano, não rumou no sentido de um grande império global, ao invés, conforme a reacção local prevista ao entrangeirismo republicano, voltou a fechar-se na cultura provinciana, tacanha, de dimensão local, ainda que espalhada pelo globo. 
Assim, passados alguns anos já exibe a sua feroz crítica a Salazar
Coitadinho do tiraninho! Não bebe vinho; nem sequer sozinho…
Bebe a verdade; e a liberdade; e com tal agrado; que já começam a escassear no mercado.
Coitadinho do tiraninho!
O meu vizinho está na Guiné; e o meu padrinho no Limoeiro; aqui ao pé, e ninguém sabe porquê.
O rei reside em segredo; no governar da Nação;
Que é um realismo com medo; chama-se nação ao Rei; e tudo isto é Rei-nação.
A República pragmática; que hoje temos já não é a meretriz democrática;
como deixou de ser pública; agora é somente Ré.
Parece-me que a dimensão que Pessoa pretendia em Portugal, era simplesmente a detida pela Grã-Bretanha, e depois pretendida pela Alemanha, na sua pretensão imperial nazi. Mas ao contrário do que previa Pessoa, o comunismo não se resumiu "a comer raízes", e a disputa por um império de influência global, ocorreu no confronto entre EUA e URSS, ambas desprezando ou suprimindo os interesses locais. 
A análise de Pessoa só é mais notável porque facilmente a encontramos plasmada de novo, no confronto entre os interesses nacionalistas locais, e a imposição de impérios de comércio global que destroem ou ignoram a dimensão local, as tradições culturais e a estrutura familiar, e com isso o bem estar individual é sacrificado face ao plano global.

O problema geral de Pessoa seria o mesmo que uma boa parte dos portugueses... nasceram educados nas grandezas passadas, para uma pequenez presente. Como costumo dizer, ou a mãezinha, ou o espírito santo de orelha, disse-lhes que tinham "grande queda", mas nunca encontraram sítio onde cair, onde exibir tão excelso dote. No caso de Pessoa, essa frustração pessoal encontrou maior âmbito como frustração de toda a nação portuguesa, cada vez mais reduzida na sua influência global.

O "Botas", a forma pejorativa como era identificado Salazar, misturando o seu problema nos pés, com uma sarcástica forma de gozo citadino contra o seu provincianismo, não era certamente o líder da ditadura que Pessoa vira como necessária na transição de regime. Por muito brilhante que tenha sido a condução política de Salazar a nível internacional, o país fechou-se, mantendo aberto um império que não acompanhava minimamente o progresso tecnológico internacional. Como se não bastasse o ridículo, por falta de indústria aeronáutica, e por boicote da NATO ao império colonial, os aviões eram sempre uma segunda escolha.
Assim, se Salazar tinha a amizade e pretensões nacionalistas de Charles de Gaulle, ao contrário disponibilizava uma logística miserável ao exército, contando sempre com sacrifício total, como quando não aceitou a rendição de Goa perante o avanço das tropas de Nehru. E esse miserabilismo era razão suficiente para arrogar ao mesmo tempo uma grandeza da nação e uma conformação do povo à pequenez.

Porém, isto serve apenas como primeira parte da tragicomédia de Salazar, que terminará os seus dias com a ilusão de que ainda era Presidente do Conselho.
E a questão é muito simples... se Salazar tinha o poder nacional tão concentrado na sua pessoa, na figura de ditador único e intransmissível, quem então arriscou a decisão de o demitir?
Formalmente, foi o Presidente Américo Tomás, mas este "obviamente, demito-o" foi a perdição do seu concorrente, Humberto Delgado... portanto não seria uma decisão que Américo Tomás tomasse facilmente, e muito menos sozinho. 
Ou seja, a questão é - quem detinha o poder que decidiu colocar Salazar numa casa de bonecas?
Procurei, e estranhamente não vi nenhuma resposta significativa a esta ligeira questão.

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publicado às 07:47


6 comentários

De Anónimo a 16.07.2016 às 15:00

Re: (...) "se Salazar tinha a amizade e pretensões nacionalistas de Charles de Gaulle, ao contrário disponibilizava uma logística miserável ao exército, contando sempre com sacrifício total, como quando não aceitou a rendição de Goa perante o avanço das tropas de Nehru. E esse miserabilismo era razão suficiente para arrogar ao mesmo tempo uma grandeza da nação e uma conformação do povo à pequenez"

Chegaram a ter 13 submarinos operacionais, manter vasos de guerra de Timor aos Açores para um país de sete milhões de habitantes debaixo dum embargo da ONU não vejo onde queriam que fosse comprar esses meios... aliados contra Nehru só se fossem os Chineses...
O qudrilhamento feito pelo exercito português na guerra de África foi elogiado por um perito dos USA em livro, quem assentou praça no BC5 de Lisboa e viu a pista de obstáculos que faziam pode pude confirmar que eram mesmo tropas de elite, para guerrilha é isso que conta, as tropas portuguesas estavam bem équipadas, a historia está mal contada, caçadores especiais , paraquedistas, comandos nao têm historia de derrotas humilhantes como tiveram os outros milicianos,

Salazar estava debaixo da bota dos ingleses.


(...) E a questão é muito simples... se Salazar tinha o poder nacional tão concentrado na sua pessoa, na figura de ditador único e intransmissível, quem então arriscou a decisão de o demitir?

Deixaram de obedecer aos ingleses foram iluminados mais uma vez pela carbonaria de Paris.
Um economista disse isso de outra maneira na TV quando da adesão à CEE, este aqui que nem lhe poem o nome:
(Starfildes Cabral ?) http://sol.sapo.pt/artigo/516494#disqus_thread

Cpts

José Manuel CH-GE

De Alvor-Silves a 18.07.2016 às 07:21

Caro José Manuel,
a questão é justamente essa... não era comprar, era fazer!
Afinal, a quem iam comprar ingleses, franceses ou italianos?
Os russos podiam comprar aos americanos, e vice-versa?

Qualquer país que queira ser minimamente independente tem que ter indústria militar própria, senão é uma completa fraude. E era isso que acontecia com a força militar no tempo do Estado Novo... era uma completa fraude, na ideia do orgulhosamente sós.

Ao mesmo tempo, conto no máximo 7 submarinos. Havia 3 no início dos anos 60, e depois no final dessa década foram comprados mais 4, mas duvido até que tenham estado operacionais ao mesmo tempo.

As unidades especiais de exército, eram adequadas, porque havia uma boa capacidade de desenrasque do soldado português, e supriam-se muitas falhas logísticas de forma improvisada.


O economista é o Sarsfield Cabral... mas não me parece que ele diga nada que esclareça quem tomou conta do poder em nome de Salazar, no máximo diz que a orientação do PS para a adesão à CEE essa foi completamente dirigida pela França, isso é claro.

Abraços.

De Amélia Saavedra a 22.07.2016 às 14:36

Ora boas...
Infelizmente o tempo tem sido escasso para vir aqui... A minha vida pessoal deu uma volta de tal forma que agora não tenho muito tempo disponível... Estou fora do país... Mas voltando ao tema Pessoa, outro ponto delicado e até engraçado é que o poeta também criticou ferozmente o fim da monarquia e a implantação da República e ei-lo consagrado a figura máxima do dito regime... Ironia do destino...

De Alvor-Silves a 27.07.2016 às 05:36

Cara Amélia, a vantagem da internet é que aqui no blog, continua tão próxima, quanto estava antes...
Pois, a figura de Pessoa também deu várias voltas, e a nossa República foi pródiga em usar mortos, convenientemente silenciosos, para uso exaltado do regime a seu belo prazer, conforme foi o caso de Cândido dos Reis e de Miguel Bombarda. Também ironia de destino, é que os regimes laicos ou ateus, têm essa tendência de sublimar a memória dos seus mortos, numa figura caricata de recusar uma divindade para dar o mesmo estatuto a outra (basta lembrar o culto de Lenine, que existia na URSS).
Obrigado pelo comentário. Abraço!

De Anónimo a 24.11.2016 às 13:10

Tinha chegado a esta conclusão da Helena Matos há muito: “Salazar, 48 anos depois - Os nossos líderes quiseram acreditar que bastava dizerem-se anti-salazarista para serem melhores portugueses e saberem o que era melhor para Portugal. Não bastava, como se viu e como se vê”

“O estatuto de anti-salazarista tornou-se num dos maiores paradoxos da democracia portuguesa: o facto de se ter feito equivaler anti-salazarismo a combate pela liberdade levou a que terroristas, ladrões, violadores e orgulhosos servidores de regimes totalitários estrangeiros (a que alguns até transmitiram informações militares) acabassem a ser apresentados como defensores da democracia, regime que alguns dos anti-salazaristas abominavam ainda mais que Salazar.

(…) “Se esta identificação entre anti-salazarismo e liberdade gera equívocos quando falamos do período em que Salazar esteve no governo (1928-1968), para o período da I República o resultado é anedótico pois pretende-se que os líderes da I República não só estavam imbuídos de um presciente anti-salazarismo como que o próprio regime republicano se regia pelas regras institucionais nossas contemporâneas.

Resultado: assuntos como a repressão das greves na I República – que nesta versão dos factos não é suposto ter acontecido – e o voto das mulheres no Estado Novo – sim, no Estado Novo, para grande irritação da oposição, as mulheres passaram, embora com limitações, a poder votar e ser eleitas – acabam a causar a maior estranheza e incompreensão.”

(…) “A guerra que Portugal travou entre 1961 e 1974 em África é adjectivada como colonial porque decidida por Salazar. Já o esforço militar que Portugal travou em África durante a I Guerra é apresentado como defesa patriótica dos territórios ultramarinos”

(…) “Mas agora que a máquina fiscal detém mais informação sobre as nossas vidas do que a PIDE alguma vez conseguiu sobre os cidadãos, mesmo os que caíam na sua alçada, agora que já vimos como a decrepitude física e intelectual chega a todos, agora que estamos a caminho de mais uma falência, agora que os populismos tomaram conta da agenda, é mais que chegado o tempo de nos confrontarmos com o óbvio: boa parte da mediocridade do nosso presente e muitos dos nossos actuais bloqueios nascem do facto de boa parte dos líderes da nossa democracia e das nossas elites terem acreditado e feito acreditar que bastava declararem-se anti-salazarista para serem melhores portugueses e saberem o que era melhor para Portugal. Não bastava, como se viu e como se vê” http://observador.pt/opiniao/salazar-48-anos-depois/

O pior é que estou com uma amiga ex ativista do bloco de esquerda acérrima defensora da sociedade arco-íris, ela atribui em 2016 todos os males dos portugueses ao salazarismo, me põe num desalento de lutar contra a propaganda do établissement pois nem os meus próximos consigo que vejam a realidade.

Abraços
Boas leituras
José Manuel

De Alvor-Silves a 25.11.2016 às 05:40

Sim, concordo com uma parte dessa análise da Helena Matos, mas de um modo geral, não me parece ainda haver bom senso.
Por um lado, vemos facilmente o alvo da crítica dela, nomeadamente os comunistas (idolatrando o regime soviético), ou os socialistas (idolatrando a 1ª república), e assim ela tem razão no que diz.
No entanto, como habitual, não refere depois o lado miserabilista, de fraco avanço tecnológico, e de preservação de uma população com escolaridade reduzida, em que as aldeias estavam cheias de pés-descalços, de moscas, de falta de higiene, etc.
Mais interessante, esse pessoal que normalmente é de direita libertina, ou de esquerda progressiva, esquece que... na sua essência, o regime salazarista tinha ideologia socialista, para além de nacionalista. O comunismo soviético e o nazismo alemão foram semelhantes, enquanto duas formas de apresentar um socialismo como ditadura estatal.
Uma grande diferença, é que o nazismo alemão usou uma elite activa, instruída, o comunismo soviético promoveu-a... e o salazarismo tinha apenas a seu dispor uma elite preguiçosa, calona, e meio analfabeta, presa a dogmas medievais - que Salazar também prezava, na sua faceta de beato.
A maior diferença que o 25 de Abril trouxe, e que é muitas vezes mal confundida com o caciquismo local, foi um dinamismo das câmaras municipais, que pelo menos usaram uma parte do dinheiro europeu que desviaram, para fazer obra efectiva.
As aldeias, vilas e cidadezinhas de hoje, nada têm a ver com o que víamos nos anos 70, e pelo menos no aspecto, não devem muito ao melhor que se vê na Europa. Com a vantagem de não terem cometido tantos erros de urbanização, como fizeram em França, onde se criaram autênticos guetos sociais.
Olhando para o passado, não houve só erros, também houve boas políticas, tanto no período salazarista, como no período posterior. O que parece ser estúpido, é que apontando apenas os erros, se esquece que o país hoje, acaba por não estar tão desfasado da Europa, quanto esteve antes, mas acentuou a dependência externa, a pontos de se comportar como uma colónia bruxelense.

Abraços.

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