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Cavaleiro do Corvo

por desvela, em 11.07.11
Apareceram hoje novas notícias sobre achados arqueológicos nos Açores. Seguimos os links que nos foram indicados por Calisto, e ainda o site da APIA:

  

Estas notícias de hoje seguem uma notícia anterior de Março, com novos dados e fotografias, colocando em cima da mesa a presença humana nas ilhas açorianas antes da colonização portuguesa.

Dadas as imagens supra, dificilmente podemos falar em "descobertas", trata-se muito mais de uma tentativa de "des-cobrir", no sentido das nossas explorações quinhentistas, ou seja, trata-se de "retirar do encobrimento" estes achados no Monte Brasil, perto de Angra do Heroísmo... que devem ser conhecidos dos locais e de alguns visitantes. O importante é reunir provas que não deixem dúvidas sobre a antiguidade dos monumentos... e esperar pela resposta do sistema - mas, desde a primária desvalorização, até bizarras explicações alternativas, tudo vai sendo possível para manter o encobrimento!

Ao mesmo tempo fomos encontrar no Arquivo da RTP-Açores um apontamento sobre o livro "Cavaleiro da Ilha do Corvo":
Refere o livro do Prof. Joaquim Fernandes, da Universidade Fernando Pessoa, sobre a estátua que já foi aqui referida várias vezes, mencionada por Damião de Góis, e que teve esboço de Duarte d'Armas.
Esboço da Estátua do Cavaleiro do Corvo (dita Ilha do Marco)

Há três anos, esse autor enviou ao blog.thomar.org um anúncio de publicação do livro "O Cavaleiro da Ilha do Corvo" na colecção Temas e Debates, do Círculo de Leitores, e vimos também agora uma referência à publicação em Abril de 2011, na editora Bússola, do Rio de Janeiro.

Para nosso registo, citamos aqui parte do texto que complementa a informação que já tinhamos:
A este estranho monumento juntou-se a descoberta, no século XVIII, de um não menos perturbador vaso de cerâmica, achado nas ruínas de uma casa, no litoral da mesma ilha, repleto de moedas de ouro e de prata fenícias, que, segundo numismatas da época e não só, datariam de, aproximadamente, entre os anos 340 e 320 antes de Cristo.

As descobertas fabulosas não se ficaram por aqui: viajantes estrangeiros, no decurso do século XVI, alegaram ter encontrado inscrições supostamente fenícias de Canaã (Palestina), numa gruta da ilha de S. Miguel. Por fim, em 1976, nesta mesma ilha, haveria de ser desenterrado um amuleto com inscrições de uma escrita fenícia tardia, entre os séculos VII e IX da era cristã.

Todas estas perplexidades levaram Joaquim Fernandes a encetar uma longa e exaustiva investigação bibliográfica e documental e a escrever O Cavaleiro da Ilha do Corvo.

No romance, o autor refere um testemunho que reforça de modo evidente o relato de Damião de Góis: um mapa dos irmãos Pizzigani, de 1367, descoberto em Parma, apresenta um desenho com uma figura explícita ostentando uma legenda em latim onde se diz: Estas eram as estátuas diante das colunas de Hércules... Ora esse desenho está colocado à latitude dos Açores, no meio do Atlântico, sugerindo a tradição das Estátuas como marcos-limites do oceano navegável ou conhecido e serviriam para avisar os perigos que corriam os navegadores mais ousados. Mais ainda: a historiografia árabe, do século X, por exemplo, faz referência a essas mesmas estátuas e à sua eventual função de marco dos limites navegáveis, o que credibiliza, por outra via, o testemunho de Damião de Góis. Demasiadas coincidências, pois, para um simples rumor ou lenda...


O Cavaleiro e os Corvos
aqui apontámos o facto sui generis de D. Afonso Henriques, indo para além de Ourique, teria feito uma incursão ao Algarve, então território muçulmano, para resgatar o corpo de S. Vicente que estaria no Promontório Sacrum
Concerteza que as "certezas" ficam para a historiografia oficial... aqui, sendo local de hipóteses e "estórias" pessoais, ficamos com uma dúvida pela tradição associada com a presença dos corvos na embarcação, onde seguiu o corpo de S. Vicente. Poderiam os corvos representar o corpo junto à estátua da ilha, no ponto mais ocidental... que ainda antes de ser descoberta já aparecia nos mapas com a referência Corvi Marini
Seria esse o limite de navegação para D. Fuas que ficou simbolizado na Nazaré?... sendo que a latitude em que se situa o Corvo é 39º40' e tem como correspondente continental os pinhais acima da Nazaré, com o Sítio/Pederneira colocado a 39º36' ? Uma diferença de apenas 4 minutos do grau...
Teria resistido D. Fuas a seguir a direcção americana apontada pelo Cavaleiro do Corvo?


Ponta Delgada
Convém notar que nem sempre é preciso afastar-mo-nos muito para encontrarmos peças de interesse.
Numa zona que já faz parte de Ponta Delgada, tirei esta fotografia num baldio que está já delimitado e pronto para intervenção de construção:
Ficamos com a sensação clara de haver aí uma ponte antiga, soterrada por terras agora removidas pelo construtor. Talvez um incómodo para o empreiteiro, mas que arrisca a ser temporário... 
Em Ponta Delgada não podemos fazer aquele exercício habitual de classificar todas as pontes como romanas ou medievais...
Os detalhes intrigantes aparecem-nos à vista desarmada, resta saber se os queremos ver e questionar, ou se nos deixamos guiar como caolhos!


Nota adicional (12/07/2011):
Para além do esboço acima, a conhecida imagem da estátua equestre de Marco Aurélio corresponde razoavelmente à descrição feita por Damião de Góis (a mão direita também aponta uma direcção, porém a esquerda não se coloca sobre o dorso do cavalo). Já tinha colocado antes um comentário sobre uma possível ligação da estátua a Marco Aurélio (ou Alexandre), mas dado o esboço a invocação da estátua equestre de Marco Aurélio quase dispensaria comentários adicionais.
Acrescentamos que após Marco Aurélio, com o filho Cómodo o Império Romano entrou num período conturbado (retratado no filme Gladiador).
Se a pequena Ilha do Corvo foi também chamada Ilha do Marco, talvez dispensasse o Aurélio... já que a direcção apontava para as áureas riquezas americanas. É possível que Marco Aurélio tivesse sido tentado a passar o limite colocado no Marco da ilha, seguindo na direcção do Cavaleiro do Corvo, pelo que se teria associado com uma estátua equestre semelhante.

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publicado às 02:15


13 comentários

De Anónimo a 12.07.2011 às 00:30

Nos Açores, não é obrigatório o estudo Arqueológico do "terreno", antes de qualquer construção?
Ou será que os Açores funcionam ao estilo "Coutada"?
Onde se "abate" tudo o que destoa?

Maria da Fonte

De Alvor-Silves a 13.07.2011 às 03:48

Coloquei uma nota adicional sobre o Cavaleiro e Marco Aurélio...

Por acaso os Açores até me parecem ter sido dos bastiões onde se guardaram mais "souvenirs", quer na memória do povo, quer mesmo nalguns monumentos - como aliás se vê nestas explorações da APIA.

De Anónimo a 15.07.2011 às 02:29

Refería-me`ao abandono da hipotética Ponte!
Quanto ao Cavaleiro da Ilha do Corvo, convém não esquecer o que diz Damião de Góis sobre o Dístico, que se encontrava sob a estátua, num local de difícil acesso.

"Não era Caldeu, nem Hebraico, mas uma língua mais antiga, que ninguém conseguiu decifrar", o que sugere uma antiguidade muito maior do Cavaleiro.
Isto partindo do pressuposto que Cavaleiro e Dístico, estariam interligados....e que na realidade ninguém o decifrou...

Maria da Fonte

De Alvor-Silves a 15.07.2011 às 15:30

É importante ter salientado isso, pois a inscrição pode ser posterior à estátua.
A exclusão do Caldeu/aramaico ou hebraico, parece ser feita ao nível do alfabeto e não apenas da língua, e por isso a descoberta das moedas fenícias pode ser uma pista posterior.
A invocação de uma estátua esquestre, é indicativo de um povo marítimo com alguma tradição na cavalaria.

Um dos pontos intrigantes é que apesar da fama dos cavalos lusitanos, já entre gregos e romanos, parece que não há nenhum registo de uso da cavalaria lusitana.

Um dos pontos notáveis, é que a estátua poderá ter sido visitada por: fenícios, gregos, cartagineses, romanos, godos/normandos, árabes, mas vai ser destruída por portugueses!
Não é logo, já que D. Afonso V e D. João II nada terão feito, é apenas com D. Manuel.

Eu acho que há algum simbolismo nisso... a estátua servia como Marco, e a partir do Tratado de Tordesilhas os Marcos passavam a ser outros...

Sobre a "ponte", o Calisto está mais inclinado para a hipótese de ser um canal ou túnel... o que não tira nada ao seu aspecto de estrutura bem antiga.

De Anónimo a 16.07.2011 às 08:46

Caro Alvor,
uma pequena correcção, quando diz "(...) apesar da fama dos cavalos lusitanos, já entre gregos e romanos, parece que não há nenhum registo de uso da cavalaria lusitana" não é bem assim, repare:
Ilíada de Omero diz que os cavalos de Aquiles eram filhos da Arpia Podargos fecundadas pelo Zéfiro um dia que pastava nos prados marginais do Rio Oceano.
Guerra do Peloponeso, encontra em Xenofonte que Dionísio tirano de Siracusa levou 50 cavaleiros ibéricos para ajudar os Espartanos, pela sua forma peculiar de combater, desorganizaram e ajudaram a vencer as forças Atenienses.
Políbio, Tito Lívio, Diodoro, Apiano, Valério Mássimo, César entre outros relatam combates singulares de cavaleiros ibéros com Cartagineses e Romanos.
Aquando da Invasão de Espanha pelos cartagineses (III ac) cavalos ibéricos provocam pesadas baixas, morrendo Amílcar pai de Anibal.
Aníbal parte para Itália (218-202 ac) leva um numeroso contigente (12000 cavalos) da cavalaria ibérica.
Estrabão relatando estas campanhas considera os lusitanos exímios cavaleiros, que atingiam "eminência abruptas onde cavaleiros de outras nações não se aventuravam". Asdrúbal, irmão de Aníbal levou cavalos ibéricos para Cartago.

Varrão, Virgílio, Columela, Paladio, egetio, Renato, Eliano, Lívio, Isidoro mostram a melhor prova de apreço (descrições que fazem) que os Romanos tiveram pelo cavalo Lusitano e pela forma de combater dos povos Ibéricos, pois além de adoptarem as suas armas e tácticas utilizam os cavalos Lusitanos como melhoradores das suas criações (ainda hoje fazem o mesmo).
O cavalo da estátua de Marco Aurélio é um cavalo Ibérico, a estátua de Balbo, de Calígula (com Incitatus) mostra um cavalo Ibérico.

Por curiosidade o desportista mais rico de sempre era Lusitano (http://economico.sapo.pt/noticias/desportista-mais-rico-da-historia-era-lusitano_98551.html)

Quem sabe se a lenda do Centauro não é daqui!
E pelo menos em 2000 a.c. já se combatia a cavalo na península Ibérica.

Peço desculpa pela extensão, mas não consegui resumir mais.

Melhores cumprimentos,

Calisto

De Alvor-Silves a 16.07.2011 às 15:40

Caro Calisto,

ainda bem que compilou uma boa lista de referências sobre o uso do cavalo/cavalaria lusitana... aliás até o desafiaria a resumir menos, pois seria certamente um bom tema para um post que se poderia colocar aqui. Ou até, de forma mais útil na Wikipedia.
A entrada da wiki em inglês é já muito boa:
http://en.wikipedia.org/wiki/Lusitano
mas a portuguesa é mínima!

Ainda bem que fui impreciso no meu comentário, mas o que eu queria dizer é que não me parece ter ficado registo de uso dos cavalos nas batalhas dos lusitanos, especialmente com os romanos (desconhecia o apontamento sobre os cavalos na morte de Amílcar).

E é esse ponto que me deixa dúvidas...
Por exemplo, os "lusitanos de Viriato" aparecem tradicionalmente como uma infantaria de emboscada!
Abandonaram a sua ligação de cavaleiros... ou não eram estes os cavaleiros?
Estou mais inclinado para a segunda hipótese - não eram de Viriato os lusitanos do "cavalo lusitano"!

Era mais esse o ponto que eu queria levantar - parece haver uma falha de presença dos cavalos nas lutas ibéricas, pelo menos com os romanos, que apostavam imenso nas legiões de infantaria.
Posso estar errado, pois não fiz nenhuma investigação particular sobre o assunto, mas pelo menos isso não transparece nas informações gerais.

Obrigado e um abraço!

De Anónimo a 17.07.2011 às 10:24

Caro amigo,
Obrigado pelo seu estimulante contributo para uma discussão séria e objectiva deste magno problema historiográfico, que, como suspeitava desde o lançamento do meu livro, iria suscitar à emoção do que à razão dadas as implicações no nosso inconsciente mítico. Todos os elementos aqui debatidos são pertinentes. De futuro, aguardemos os novos desenvolvimentos que cabem aos trabalhos arqueológicos conferir, apenas lamentando as obstruções oficiosas e oficiais que têm surgido no caminho dos que não se aquietam com o conhecimento estabelecido para todo o sempre.
Cordiais cumprimentos,
Joaquim Fernandes
Universidade Fernando Pessoa

De Alvor-Silves a 17.07.2011 às 22:08

Caro Josquim Fernandes,
obrigado pela visita ao blog e comentário!
Seria bom que o seu e outros trabalhos tivessem a devida divulgação. Porém, como sabemos, a censura actua agora subtilmente pelo excesso de informação, distracção, e controlo de divulgação. É sempre de louvar quando alguém tenta passar essa estreita malha.

Os meus votos de sucesso nas suas pesquisas,
e melhores cumprimentos!

De Anónimo a 28.11.2011 às 02:35

A "ponte"parece-me ser apenas uma gruta resultante de uma escoada lávica. O amigo aproveitou para entrar na obra ao domingo e ver de perto a rocha, verificar se eram blocos?

De Alvor-Silves a 29.11.2011 às 03:52

Anónimo (27/11/11):
- também lhe deve parecer então que as grutas que fizeram a notícia, são igualmente "escoadas lávicas"...

- enfim, aqui dá-se espaço à voz dos patrocinadores e agentes...

- o abuso de considerar que "alguém entrou nalguma obra" a "um domingo", é de uma desfaçatez impertinente... se não percebeu, perceba... aqui apenas verá o lixo que deixam descoberto, não é preciso remexer para ver que cheira mal.

- cumprimentos aos patrocinadores.

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