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César, Kaisers e Czares

por desvela, em 30.08.14
Poucos personagens tiveram uma influência tão marcante na História Mundial quanto Júlio César, a ponto do título máximo que se usou em nações germânicas (Kaiser) e eslavas (Czar ou Tsar) ser uma derivação directa e assumida do seu nome... para mais, usada em territórios externos ao domínio de Roma. 
A tentativa mais conhecida de imitar a designação imperial cesariana foi feita por Carlos Magno, mas o epíteto Carolus teve um sucesso reduzido, e apenas nalguns países eslavos (Kralj ou Krol como título de rei).

Júlio César chamava-se, tal como o pai e o avô, Gaius Julius Caesar, sendo que os Julius Caesar faziam assim parte da família patrícia Julia, a "gente Julia" ou "gens Julia". Esta gente Julia era latina do laço Lácio, que tinha a cidade de Alba Longa, conhecida pelo templo a Jupiter Latiaris (ou seja, Júpiter Latino). 
O prefixo "Ju" é comum a Júpiter (Ju-pater) e aos Jú-lia... 
Antes da completa identificação com os deuses gregos, o panteão principal romano tinha uma trindade arcaica - Jupiter, Marte e Quirino
Júpiter sendo deus dos céus, seria também um "deus da chuva", notando que Chove é foneticamente idêntico a Jove (nome alternativo de Jupiter).

Júlio César invocava ainda a sua ligação a Vénus, e no apogeu da sua fama acabou por se ver deificado na combinação de uma trindade a seu gosto - Venus Genetrix, Divus Iulius, e Clementia Caesaris, que o sucessor Octávio Augusto tratou de acomodar de forma interessante:
Divus Iulius, Divi filius, e Genius Augusti
... basicamente - "deus pai, deus filho, e geração augusta". Portanto, aproveitando o mito do pai adoptivo, manteve o "deus Júlio", acrescentou a noção de "deus filho" - que seria o próprio Octávio, e finalmente acrescentou uma terceira divindade dedicada à "gente Augusta", já que aqui o sentido de génio é ainda o da geração da gente, e não tanto o espiritual, da geração de ideias.

Factor decisivo para a consagração do estatuto divino de Júlio César foi o aparecimento de um dos cometas mais brilhantes da antiguidade, também denominado "Estrela de César", exactamente enquanto se procediam às exéquias após o seu assassinato em 44 a.C.
com Caesar Augusto, o filho, e o cometa, a estrela do pai, Divino Júlio.

O estatuto divino de Júlio César foi definitivamente consagrado quando em 40 a.C. Marco António se tornou flamen Divu Iulius, ou seja, primeiro sacerdote do culto a Júlio César. Por razões políticas, Octávio e Marco António procuravam ser protagonistas do mito de César, e alimentaram-no, apesar da rivalidade que terminaria com a morte de Marco António, Cleópatra e Cesarião (o seu filho com César).

O legado divino do par Júlio e Augusto acabou ainda por ficar inscrito nos meses que ainda hoje usamos - Julho e Agosto. Os restantes meses estão associados a outras divindades - Janeiro a Jano, Fevereiro a Febo, Março a Marte, Maio a Maia, Junho a Juno... e quanto a Abril foi considerado por Ovídio estar ligado a Vénus, na forma de Aphrodite, perdendo aqui o h, para um Aprilis. Há ainda a possibilidade funcional de significar um "Abrir do ano", já que 1 de Abril serviria esse propósito e a mudança é ainda hoje vista como o "dia da mentira".

De qualquer forma, ainda que Camões nos indique que os deuses "todos foram de fraca carne humana", apenas os casos de Júlio César e Augusto são os mais evidentes nesse processo. 
Por exemplo, os sete dias da semana eram associados aos 7 principais astros visíveis: 
- ao Sol (Sunday), à Lua (Monday, Lunes, Lundi), a Marte (Martes, Mardi), 
- a Mercúrio (Miercoles, Mercredi), a Jupiter-Jove... Thor (Jueves, Jeudi ... Thursday)
- a Vénus (Viernes), a Saturno (Saturday)

Na trindade de Augusto, a associação entre pai e filho é espiritual, já que Octávio era sobrinho-neto de Júlio César, e a afiliação foi feita por adopção para marcar o início da dinastia juliana, quebrando com a longa tradição republicana. 
À trindade acresce o aparecimento estelar do cometa, que foi considerado o mais brilhante da antiguidade, e que antecede em poucos anos o mito cristão da Estrela de Belém.

Há assim semelhanças que não são negligenciáveis, e acresce a persistência ibérica, e sobretudo portuguesa, em usar o calendário de Augusto, a Era Hispânica, ao invés do Anno Domini, algo que se manteve até 1422.

César e Octávio na Hispania
A Hispania parece ter insistido num calendário juliano de JC (Júlio César) ao invés de JC (Jesus Cristo), marcado por Augusto em declaração de 38 a.C. 
O estabelecimento oficial do Anno Domini foi promovido por Carlos Magno que marcou a sua sagração imperial para coincidir em 800 e apesar de ser depois considerado o nascimento de Cristo em 4 a.C., tal nunca afectou a data escolhida por Carlos Magno. 
Esta influência de Carlos Magno chegou tardiamente à Hispania porque os exércitos carolíngios tombaram em Roncesvalles, não concretizando a invasão.
Assim o anacronismo não foi desfeito pelas armas, mas sim por acordo posterior, que no caso português só chegou em 1422.

A influência de Júlio César na Hispania é conhecida em dois momentos, primeiro enquanto questor e pretor da República Romana, ainda antes das suas expedições na Gália, depois na perseguição aos filhos de Pompeu, que termina na Batalha de Munda. É reportada a ambição de César quando em Gades (Cadiz) comparou os seus pequenos feitos comparados com os de Alexandre Magno, ali celebrado.
A sua incursão pela Lusitania terá sido fulcral, tendo conseguido vitórias sobre os exércitos lusitanos que permitiram uma incursão romana até Lisboa e o estabelecimento de uma paz com as populações locais.
Assim aparecem três cidades portuguesas associadas a Júlio César:
- Pax Julia (Beja), Felicitas Julia (Lisboa), Liberalis Julia (Évora)
Isto indica que a sua progressão foi alcançada pela zona alentejana - onde a fortaleza de Juromenha também foi associada a Julio-mania. A partir dessa altura César aparece com uma riqueza surpreendente em ouro, que lhe permite conduzir legiões quase em nome pessoal... e tal pode ser entendido como fruto do Tagus Aureo.

Convém notar que a Hispania romana só incluiu toda a península ibérica com Augusto.
Mesmo após Viriato as regiões lusitanas e galegas continuaram fora do domínio romano. Seria apenas com Decimus Junius Brutus (avô do Brutus que também esfaqueou César), que haveria uma transposição do rio Lima, e uma entrada para além do esquecimento do Lethes. 
Mapa da evolução do estabelecimento romano na Ibéria, 
notando a última zona de resistência galaica.

Essa foi uma "entrada à Bruto", onde se reportaram suicídios colectivos em populações que evitavam a escravatura romana. As populações ibéricas resistiram sucessivamente contra a presença romana, aproveitando isso Sertório a ponto de unir o território contra Roma. 
Brutus (avô) foi denominado Calaicus porque a sua entrada além do Lima já era considerada em território Galaico. O termo Calaico viria de Cale, ou seja do Porto, conforme diz Annete Meakin no seu "Galicia, Switzerland of Spain":
Mela and others thought, on the other hand, that the term Calaicos was derived from the name of a town called Cale. Florez says that it is certain, from the writings of Sallust, that there once existed a town of the name of Cale to the north of the Duero, and that at the mouth of that river there was a Portus Cale, from which the name of Portugal is derived;
Algo muito diferente foi feito por Júlio César, que preservava os acordos de paz, a sua Pax Julia que depois passou a Pax Romana... aliás a escolha de Clementia Caesaris para divindade, estava relacionada com a postura de clemência que César pretendia ter perante os derrotados (não se parece aqui incluir o episódio do piratas que o raptaram e que ele depois mandou crucificar).
Nesse aspecto de apaziguamento é crucial a Lei Júlia de 90 a.C., introduzida por Lucius Julius Caesar, depois da Guerra Social que exigira um tratamento igual a todos os cidadãos da península italiana - algo que depois se iria estender a todo o Império Romano.
Assim, a estratégia de César na península foi integrar os novos territórios como iguais na pax romana, dando-lhes rapidamente o estatuto de municípios romanos. Em vez da confrontação há uma sedução, em vez de uma guerra constante com uma enorme potência militar, havia a hipótese de a integrar em igualdade com as restantes regiões... algo que acabou por reduzir a resistência.

A última resistência dos povos galaicos terminou com algumas vitórias locais em 39 a.C. de Octávio Augusto, que solidificou esse domínio a norte com algumas cidades agustinas que substituiriam a importância do porto Cale, nomeadamente Bracara Augusta, que foi sede de convento galaico, tal como Lugo e Astorga foram sedes de conventos. A Lusitania seria dominada por Emerita Augusta, que de "Emerita" passou simplesmente a "Mérida", tendo depois outros dois conventos (em Beja e Santarém).
Assim, a grande estratégia romana, que permitiu a uma única cidade, Roma, emergir num grande império estável acabou por ser a forma de integrar as suas conquistas numa política de igualdade com os restantes territórios, algo exigido na Guerra Social pelos aliados italianos de Roma, e que primeiro César e especialmente Augusto acabaram por implementar em larga escala, na sua Pax Augusta. Esse ideal de governação centralizado num poder quase divino do imperador que serve como garante de paz, acabou por ser modelo seguinte para os impérios de kaisers ou czares.
Foi sobre um Império Romano, pacificado por pai e filho adoptivo, que o cristianismo encontrou as vias de comunicação da sua expansão, sendo Roma e não Jerusalém o centro de onde continuaram a fluir as ordens divinas seguintes.

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publicado às 00:09


14 comentários

De Anónimo a 30.08.2014 às 01:54

"Fundeadouro Romano em Olisipo" - O Porto de Lisboa

http://documentariofundeadouroromano.wordpress.com/2013/07/31/nota-divulgacao-video-promocional-documentario-fundeadouro-romano-em-olisipo/

http://vimeo.com/64327271

Cpts.
José Manuel CH-GE

De Alvor-Silves a 30.08.2014 às 05:02

Obrigado pelos links José Manuel.
Creio que neste caso houve uma boa divulgação do achado, acho que me lembro de ter visto reportagens nos jornais e na TV no ano passado.
Porém, parece que, passado um ano, ainda só há "trailers", apesar do filme estar feito:
http://www.portugalromano.com/2013/11/documentario-fundeadouro-romano-em-olispo/

Neste outro trailer
http://vimeo.com/71259455
há uma referência curiosa a ser dito que - se não tivesse havido atenção, em poucas horas as giratórias da escavação tinham escavacado tudo!
Quantas vezes isto não terá ocorrido...

O sítio onde apareceu é um pouco diferente da localização habitual remetida a "Lisboa antiga" - normalmente encarada mais do lado oriental da Baixa e de Alfama do que do lado ocidental, após o Cais do Sodré.
Também acho estranho o fundeadouro romano estar 4 metros abaixo do nível de água, porque de um modo geral é notório que o nível do mar seria mais elevado na época romana.

Creio que o relevante é a proximidade à colina do Alto de Sta. Catarina do Monte Sinai, porque aí havia um desnível acentuado entre a colina e o rio.
Quase de certeza que ali nem seria o porto mais importante, porque a zona mais natural de entrada dos navios seria mesmo a parte baixa que entra até ao Rossio e Praça da Figueira - essa parte é formaria ainda mais uma baía natural onde poderiam entrar os navios.
Tenho dúvidas que tenham havido os mesmos cuidados quando se esburacaram parques de estacionamento ou o Metro para essas zonas...

De qualquer forma, não vi foi uma ligação entre essa notícia e uma outra, também sobre a mesma Praça D. Luís, onde se tinha descoberto um navio:
http://www.publico.pt/local/noticia/pedacos-de-antigo-navio-escondidos-ha-seculos-debaixo-da-praca-d-luis-1543786#/0
... nessa altura falava-se de um navio do Séc. XVI ou XVII.

Abraços.

De Bartolomeu Lanca a 30.08.2014 às 13:17

Parabéns e obrigado Alvor Silves por tão preciosa narrativa. Saliento o rigor que aqui espelha, ao não indicar 'Império Romano' antes de César, como muitos erradamente se referem ao período da antiga Roma.

Fora deste tópico, deixo aqui uma nota, que talvez possa servir um dia para mais uma dedicada intervenção.
Julio César levou 7 anos a submeter a Gália aos seus exércitos. Na Lusitânia, Roma só conseguiu instalar o seu direito após 199 anos de guerra.
Os Lusitanos, não só deram 199 anos de batalha aos Romanos, foram sim durante muitos séculos desde Viriato, Sertório ou Púnico, o povo que provavelmente mais baixas causou a Roma. No Século V EC, Giserico Rei dos Vandalos (batizado em Lisboa, Cristão Ariano), depois de falhado o cerco de 10 anos para a conquista de Cartago, contratou uma Armada Lusitana para proteger o seu exército e deu-se uma batalha naval em Tunis, onde os Lusos defrontaram a maior Armada Romana alguma vez reunida, mais de 1000 navios em que aproximadamente 300.0000 soldados a compunham, os guerreiros Lusitanos usavam técnicas muitos avançadas de guerrilha e contra-guerrilha, como os lança-chamas e a vela latina (séculos antes dos Árabes) que lhes permitia virar o seus navios a 45º em apenas meio minuto enquanto um navio Romano levava meia hora para a mesma manobra, a batalha durou apenas um dia.
Neste episódio dos antigos, mais uma vez sobressai o 'disparate' do encontro de forças em números que sempre impressionam. Encontramos esta relação descrita em "Os Lusíadas" no canto oitavo: "Que os muitos, por ser poucos não temamos", que ipsis verbis está no listel da heráldica do grupo de Operações Não Convencionais do exército português, membro honorário da Ordem de Aviz, actualmente com sede em Lamego, conhecidos popularmente como 'Rangers'.

De Alvor-Silves a 30.08.2014 às 18:03

Obrigado pelas palavras e informações, Bartolomeu.
Tem toda a razão sobre esse tópico da prolongada resistência lusitana e galaica, em contraste com os celtas gauleses.
Curiosamente a intenção inicial do texto era mais essa, e queria referir ainda o fantástico episódio da Ponte do Reno:
https://en.wikipedia.org/wiki/Caesar's_Rhine_bridges
... só que uma coisa é a intenção inicial, e outra coisa é a vida que o texto ganha por si.
O que tenho notado quando começo a escrever estas coisas é que a maioria das vezes acaba por aparecer outro nexo interessante, e acabo por ser levado por ele. Queria tornar evidente a ligação dos Julia a Jupiter, porque já tinha escrito um texto no Odemaia sobre o prefixo "Ju"... e depois acabei por ver que a questão da trindade de Augusto tinha demasiadas semelhanças com a trindade cristã, a que acrescia a questão da "Estrela de César".

O grande problema é que a história tem sido contado de dentro para fora... e eu ando a tentar percebe-la de fora para dentro.
Ou seja, o ponto fulcral é que se os romanos viam o Mediterrâneo como seu, é preciso não esquecer que se manteve a proibição de passar as balizas de Hércules. É Poliziano que ao superiorizar D. João II a Júlio César e Alexandre Magno, chama à atenção de que foram os portugueses que quebraram as barreiras da Antiguidade.
Convém perceber que a Antiguidade - Romanos, Gregos, Egípcios, Sumérios, Babilónios... estiveram sempre fechados à passagem pelo Estreito de Gibraltar - as tais balizas de Hércules. Só os fenícios e cartagineses tinham o "passe" do mercado...
Portanto, parece-me que havia ali uma prisão mediterrânica - e a história tem sido contada no sentido da libertação dessa prisão, mas sem fazer menção a ela. Se se tratava de uma auto-imposição, como pretendeu Aristóteles (ao dizer que os cartagineses condenavam à morte quem não regressasse dos territórios visitados), ou se se tratava de uma imposição de potência externa, é algo que ainda não consegui ter a certeza.
Porém, há algumas pistas estranhas na linguagem - Gregos deriva de "greg" e é entendido como grupo ou rebanho - no latim. Daí as palavras gregário, segregar, congregar, etc... Servio em latim significa "servo", e ainda hoje no inglês, as diferenças entre "slav" e "slave", ou no espanhol, entre "eslavo" e "esclavo"... são diferenças mínimas.

No livro que cito, de Annette Meakin, é apontada uma ligação entre os Cimérios da Crimeia que teriam migrado para Espanha, sendo essa a mais antiga ligação conhecida. Tenderia a desvalorizar isso, não fosse isto:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2014/03/dos-comentarios-6-volta-do-mar-negro.html
... sem querer, encontrei uma imagem pré-histórica incrível que se adapta que nem uma luva à tradição do Toro Embolado, ou a "Vaca em Chamas". Portanto, pode ter havido essa ligação.

Outra observação que Meakin faz é essa inviolabilidade do território galego - que resistiu à República Romana, e conforme referiu só vai aceitar o domínio imperial de Augusto. Resistiu ainda à invasão árabe, e às invasões napoleónicas.
Outro ponto importante é quando Meakin diz que qualquer irlandês, mesmo os mais rudes, sabiam à época, que os irlandeses tinham vindo da Hispania... isso está ainda escrito numa carta de constituição da independência escocesa.

Ao que parece, e isto é mal conhecido, Júlio César terá tentado a invasão galega desembarcando com uma grande frota na zona da Corunha, Brigantium, do farol de Hércules... mas os galegos terão fugido para as montanhas e bastou esperar que se fosse embora.
Mesmo Brutus terá atravessado o rio Lima, mas não terá passado o rio Minho, e ainda assim foi chamado "Calaico".
A separação entre a Galiza e Portugal acabou por ser algo artificial em termos das populações, e notava-se que os galegos continuavam a ser chamados para a corte portuguesa na 1ª dinastia... levando aos problemas com Inês de Castro, o Conde Andeiro, etc.

De Alvor-Silves a 30.08.2014 às 18:03


A tradição naval é outro ponto importante, pois César queixava-se da inoperância dos navios romanos face aos do Venetos - Bretões, como ele dizia - habituados a navegar no grande Oceano.
Ora se os Venetos tinham navios com essa maior capacidade de navegar no Oceano aberto, como reconhecia César, até onde eles iam? O mesmo se passou sempre com os povos da Lusitania e Galicia.
Pois... é isso que fica por explicar em todas as histórias da carochinha sobre as Américas.

Irei fazer um texto com base no seu comentário.
Obrigado.

De Bartolomeu Lanca a 30.08.2014 às 22:35

(I)
Tenho sempre algum receio do farol wikipedia, onde aparecem um zilhão de trocas, como por exemplo alguns dos Reis e Rainhas de Portugal aparecem com imagens que não são as que figuram retratadas nos quadros da época, entre outros pequenos detalhes que nos induzem em várias direções, o que até pode nem ser mau, mas enfim.

Julio e Augusto, terão tido uma importância enorme nas reformas do de Roma. De Augusto não só um mês tem o seu nome de imperador (após ser iniciado) como também o seu nome de nascimento familiar, Otavianus, o oitavo mês. Ora, antes destes dois personagens, Julho e Agosto eram Quintilus e Sextilus, Setembro era o sétimo mês, embora o calendário tivesse 12 meses o ano começava em Março, até estes dois homens, o calendário era proclamado pelos Reis Sabinos, depois deixou de assim ser, o poder mudou de centro.

O território Luso, era, foi, é, fértil em metais que nascem puros, isto é, não precisam da Alquimia, o que faz do local um dos mais ricos da antiguidade (e não só), estanho, ferro, cobre, chumbo, prata, ouro, a poucos metros da superfície. Não terá sido só pelos cavalos, pelos guerreiros e pelas mulheres que cá pararam nobilíssimos povos desde tempos imemoriais.

...(continua em II)

De Bartolomeu Lanca a 30.08.2014 às 22:35

(II)

Propondo que "as barreiras da Antiguidade" são simbólicas, estando ligadas ao percurso solar e ao complexo de Caronte. Assim, sem dúvida alguma que foram as navegações do Reino de Portugal que mudaram o mundo, que deram Novos Mundos ao Mundo, as Américas foram o nascimento do Novo Homem, as Indias representaram a demanda espiritual, Jerusalém o destino celestial. Oriente, América, India, Jerusalém, não eram pontos cardeais ou locais no mapa (não será por acaso que se dizia e ainda se diz, que Cabral se enganou quando ia para a India, entre outras análises que fazemos de viés), o Sul não existia como referência...só apareceu com o Cruzeiro do Sul (é interessante estudar a figura estrelar que nos indica o Sul). Então, a concepção dos ciclos de nascimento, vida e morte, foi alterada, o Espírito Santo expandiu-se das estepes Mongóis aos quatro cantos do mundo, embora o culto tivesse sido iniciado pelos Cristãos Arianos, o Espírito Santo levou séculos até ser implementado e fez correr muito sangue para não ser 'descoberto'. O ser nasce e é registado pelo Estado, casa e é registado pelo Estado, morre e é registado pelo Estado, sendo que a sua Alma está ao cuidado da instituição religiosa durante toda a sua vida até mesmo depois da morte, mas o espírito não...uma revolução daquelas faraónicas! Portanto, o Templo é o espírito e não está subjugado a nenhum poder, seja ele estatal ou religioso.
Foi o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Otto I, o primeiro a coroar uma criança com a coroa imperial (onde estava representado o corpo, a alma e o espírito, com quatro pontas, uma cruz com uma rosa embebida nessa mesma cruz, e uma pomba, respetivamente), no sec I. Esse acontecimento provocou uma onda de violência e intolerância que durou séculos. Um Rei, também ele Germânico, Frederico Barba Ruiva foi um dos maiores percursores e adeptos do culto, bisavô de Santa Isabel Rainha de Portugal que conjuntamente com El-Rey D Dinis semearam de vez o culto no Reino de Portugal de Aquém e Além Mar (mar também terá outro significado à época, não designando precisamente o mar feito de água que envolve as placas continentais). Os Cristãos Arianos não rejeitavam Deus, só que o seu culto indicava que não eram precisos intermediários para o divino, eles cultuavam na cama, na cozinha, nos rios, nos oceanos, nas florestas.
O último Império é regido por uma criança, sem mais Reis ou Bispos. Não é matéria, não é de barro nem de metal.

A carochina, que carinhosamente indicou, parece-me de facto, uma reforma das mais importantes para a humanidade, tudo feito e comunicado pela encriptação...tinha de ser assim, tal como outros falaram por parábolas, aos portugueses coube outra missão, descobrir, isto é, por a descoberto, revelar.

Entusiasmei-me, parecerá o que bem entenderem, saiu-me pelos dedos. Lamento se fui incómodo no vosso bonito espaço virtual, caso disso, informem-me prfvr.

Saudações Fraternas
B

PS: A palavra também pode ser um signo. Por isso, devemos olhar para além do que vemos ou lemos com o olhos.

De Bartolomeu Lanca a 31.08.2014 às 03:15

Sobre a armadilha wikipedia.
http://en.wikipedia.org/wiki/Flintlock_mechanism
Os portugueses já tinham o Fecho de Pederneira um século antes do relatado no artigo e produzido em Portugal, Goa, Ceilão, India, Malaca, Japão...daí que não me fio muito na dita coisa, parece-me mais destrutiva que construtiva.
Provavelmente já tinha sido desenvolvido antes de produzido em escala e documentado por todo o mundo, menos na wikipedia.

De Alvor-Silves a 01.09.2014 às 05:14

Caro Bartolomeu,
certamente que não "foi incómodo", muito pelo contrário, está a trazer uma quantidade importante de informações. Obrigado, de novo.

Começando pelo "farol wikipedia", é muito bem usado o termo, e sendo certo que tem a política de seguir a informação publicada, e de alguma forma oficializada, tem a vantagem de ainda estar aberto. Estando semi-aberto, está aberto a diversos erros, o que é melhor do que estar fechado num único erro, tido como verdade oficial.
O caso dos quadros de reis, vi alguns por razão da propagada tese (falsa) de que os Painéis de S. Vicente representariam como figura principal D. Afonso V, e daí seguiram outras conclusões.

A sua observação de que Agosto bate no Oitavo, Octávio mês, é excelente.
A imaginação para nomes dos romanos deve ter chegado ao fim quando começaram a chamar aos filhos pela sua ordem, casos claros:
- Quintus, Sextus, Septimus, Octavius, Nonius, Decimus
(acho que só mantemos hoje o Octávio e o Nuno - e menos Quintino)
No caso de Octávio sendo nome de família, presumo que essa moda tenha ocorrido mais no início de Roma, a tempo de maternidade abundante.

Sobre os metais, tem razão, mas há aí uma grande interrogação.
Ou seja, o uso dos metais é necessariamente posterior a uma sedentarização. Porquê?
Porque os metais são certamente antecedidos pela cerâmica, pois foi o desenvolvimento da cerâmica que levou a fornos que permitiriam derreter e moldar metais. Ora a necessidade de passar de um simples cozer o barro ao sol, para um forno, parece-me ser algo já de civilizações agrícolas, que largaram a caça.
Ora, a caça é o que vemos representado nas civilizações que habitaram as cavernas de Lascaux a Altamira e ao Côa... numa zona que ia da Occitania à Galiza e Lusitania.
Em muitos sentidos, e como sugeria Saramago, a península sempre funcionou como uma ilha - umas vezes mais ligada ao continente do que outras. Nas ilhas, a grande caça esgota-se. Tem a vantagem de eliminar predadores - desaparecimento rápido dos grandes felinos, e a desvantagem de eliminar alimento.
Ao tempo que os Sumérios se entretinham a caçar leões, muito provavelmente eles estavam há muito extintos na Ibéria - e não é porque não existissem antes, como mostram os desenhos das grutas.

Sobre o complexo de Caronte não sei se se refere às ideias de Bachelard. De facto, o culto do Espírito Santo parece mais ser um produto medieval, e embebe numa filosofia complexa antiga, relacionada com o Hermes Trimegisto, o Zoroastrismo ou mesmo o Taoísmo.
A trindade de Augustus é um sinal de trindade pela família, pelo seguimento no "gens", usada a declinação "genius", no sentido de "gente", ou ao que hoje é mais fino chamar "genes".
Portanto parece ser aqui um conceito de "Sagrada família", a família juliana, rapidamente cozinhada como uma sopa, até à extinção da linha de Augusto, pelas conspirações incessantes.
Não conhecia a importância das referências que faz a Otto I (lá está outro 8) e a Frederico Barba Ruiva.
A questão do Arianismo de Arrius foi uma forte cisão na Igreja, e até já fiz aqui o exercício de ligar isso ao episódio do Pai Natal:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/04/santa-clausula.html
Os godos ibéricos e germânicos, sempre ficaram ligados ao arianismo, sendo curiosa a posterior ligação à ideia de raça ariana.

Creio que apesar dos descobrimentos, as parábolas continuaram, e prova disso é toda a encriptação nos Lusíadas. O "revelar", segundo Albert Pike era apenas um novo velar, colocar tinta nova para esconder a ferrugem que emergia na tinta dos escritos antigos.

Na minha opinião, o grande segredo é que havia um novo conhecimento que era preciso emergir, para além da racionalidade mecânica.
Esse conhecimento é racional, filosófico, mas está ainda enredado nas confusões religiosas mais básicas, ou nalguma cegueira científica.
Em particular, vemos que os organismos evoluíram no sentido de compreender o exterior, e por aí a teoria evolucionista tem sentido:

De Alvor-Silves a 01.09.2014 às 05:15

- sobreviviam os que melhor compreendessem a realidade exterior, porque o grande objectivo universal seria criar uma entidade que pudesse no seu interior compreender o exterior... um universo interno que visse, com olhos de pensar, o universo externo.

Alegoricamente, podemos ver isto como uma deusa Gaia, Terra, que vai parindo filhos com instruções específicas para entender o exterior.
Essas instruções são o ADN. A sobrevivência determina o entendimento.
O ser para sobreviver no exterior tem que o entender.
Assim, numa primeira fase, vegetativa, temos uma multiplicidade de seres capazes de entender esse exterior, cada um de forma diferente.
Isso, para Gaia não era suficiente, porque perante a multiplicidade de sucesso faltava escolher qual tinha a visão certa, vendo o outro.
A segunda geração de filhos é animalesca - as espécies competem entre si. Para sobreviver não basta o ADN que lhes permite entender o mundo mineral, como nos vegetais, é preciso capacidade de entender os outros seres - que podem ser presas ou predadores. É preciso capacidade de resposta em tempo real, é preciso um cérebro.
Ainda assim, o cérebro mecânico é programado pelo ADN, e adapta-se à sobrevivência tendo em atenção um comportamento contra um ser diferente - a sua presa, ou o seu predador.
Portanto, chegámos ao nível em que os filhos de Gaia, não apenas executam directamente as suas instruções de ADN, mas também foram educados para ter autonomia de acção - ainda assim obedecendo à programação/educação dos seus cérebros. Os predadores são capazes de entender os movimentos das presas, e vice-versa. Esta evolução permite um entendimento da programação das outras espécies.
Falta a terceira geração - o entendimento de si próprio, ou antes disso, da própria espécie. Aqui entra a inteligência humana.
Porque o predador poderia ser suficientemente apto para entender todas as outras espécies e dominá-las, mas a todo esse entendimento faltaria o entendimento de si próprio... por mais poderoso que fosse esse predador.
Essa é a capacidade intrinseca da inteligência humana - a consciência de si, o ver-se a si mesmo como parte da realidade.
Só que para esse efeito, as instruções de ADN já não chegam, são apenas uma parte da mecânica que abriu a liberdade individual. Um aspecto que pode revelar alguma presença de consciência noutros animais é o suicídio, que pode ocorrer em cães, e noutros animais, especialmente fêmeas - também capazes de arriscar a vida pela cria.

Portanto, numa primeira fase Gaia dava instruções directas, numa segunda fase havia uma programação comportamental rígida, estilo militar, e numa terceira fase essa educação comportamental é mínima e tudo o resto fica na liberdade própria. Os seres menos programados comportamentalmente adaptar-se-iam com flexibilidade a novas realidades.
Acontece que este entendimento já não é programado pelo ADN, tem liberdade para ir beber um nexo fora do registo finito do ADN, incorpora noções infinitas, abstractas.

Por isso, o problema que vemos aqui é que a Ordem, representada pela programação de Gaia, nunca seria capaz de se entender a si mesma, e muito menos num registo finito do ADN. O confronto da Ordem é com o que escapa dessa ordem, e quando é reflexiva há sempre algo que escapa.
E o que escapa à ordem é o caos... tal como podemos pensar que a multiplicação é uma operação simples, mas depois aparecem os números primos como estrutura caótica.
Assim, na formação de uma ordem, de uma programação para o entendimento universal, o que escapava era importante, era um caos inerente à estrutura.

Bom tudo isto, e pedindo desculpa pelo alongamento, era para salientar que a ciência continua zarolha a olhar para a os processos mecânicos da ordem programada, e tende a censurar e desvalorizar a clara racionalidade que emergiu do caos - causa única para haver humanos que pensem a própria ciência. É essa razão além da razão visível que me parece ter sido entendida como "Espírito Santo".

Abraços.

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