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dos Comentários (18) - Tauria

por desvela, em 08.02.16
Escreveu José Manuel Oliveira num comentário recente:
Era para escrever este comentário no post Afonso Henriques e Ourique pois sinceramente não compreendo como ainda duvidam da capacidade de navegar em mar alto na antiguidade... os romanos deixaram escrito que os suevos tinham um mar com o seu nome, neste texto integral sobre Tauria ficasse sem dúvidas que Afonso Henriques tinha à disposição meios para ir do norte à zona de Lisboa por mar antes da tomada da cidade, sempre vierem por mar mercadores da Escandinávia ao Porto seguiam para a Tauria e de Lisboa entravam no Mediterrâneo!
Curiosidades e esquecimentos dos Ataídes e do museu do Louvre em Paris:
«Recebeu nessa altura, o seu magnífico pelourinho de estilo Manuelino, que mais tarde foi mutilado por ordem do Marquês de Pombal, por nele conter o brazão de armas dos condes de Atouguia "Os Ataídes"»
«Com grandes forças napoleónicas aquarteladas na praça militar de Peniche, a vizinha Atouguia é bastante mal tratada pelo abuso da soldadesca sem escrúpulo e desvairada, que muitos danos lhe fizeram. Foi assim, que nos roubaram o altar-mór da igreja de Nossa Senhora e também o seu belo sacrário, que hoje se encontram expostos no museu do Louvre em Paris.»
Autoguia da Baleia (Freguesia) www.atouguiadabaleia.net 

Desconhecia a designação de Tauria para Atouguia da Baleia, mas o link que remete à página da freguesia, mostra bem como é possível, com alguma vontade e empenho local, de fazer um bom serviço histórico, e recuperar a memória de um imenso património que veio sendo perdido, por diversas razões, umas piores que outras.
Mais em baixo, falarei sobre a outra Tauria...

Um outro exemplo que devo assinalar é o site ligado a Alfeizerão: alfeizerense.blogspot.pt, dando como exemplo, um estudo exaustivo sobre a configuração da baía de S. Martinho e Salir do Porto:
http://alfeizerense.blogspot.pt/2015/10/uma-perspetiva-cartografica-da-lagoa-de.html

A esse propósito, José Lopes, que mantém esse blog, enviou-me o endereço de um conjunto de descrições da costa portuguesa, constante na Torre do Tombo
(clicar p/aumentar as figuras seguintes)

Alvor
 LagosPortimão 


 C. S. Vicente



 Sagres


 
Ilha do Pessegueiro e Vila Nova de Milfontes - rio Mira

  Setúbal e Sines

 BelémCascais


Lisboa 

 Monte Brazil (Açores)

 Nazaré 

 Ilha S. Helena e Argel

(ilustrações de Luís de Figueiredo - Torre do Tombo)

Estas ilustrações não são todas, há outras que denotam bem o cuidado em assinalar a profundidade das águas junto à costa lisboeta. A inclusão da planta de Argel mostra como o reino de Espanha não tinha desistido de tentar capturar a cidade, em período filipino (tendo falhado com Carlos V). Quanto à ilha de Santa Helena, seria portuguesa, ainda que fosse pouco frequentada, o que levou a uma anexação holandesa, e posteriormente britânica.

Quanto às outras ilustrações, cada uma tem interesse próprio. No caso do Alvor, podemos ver como seria a vila, não muito diferente um século depois da morte de D. João II. No caso de Sagres, podemos ver que se resumia, tal como hoje, a uma fortificação que cortava a península da rocha. Vila Nova de Milfontes mostra que o rio Mira é bastante navegável até ao interior, etc...

Tauria na Crimeia
A curiosidade adicional sobre o nome de Tauria, é que esse nome era usado pelos gregos para denominar a região da Crimeia, que tinham o hábito de sacrificar náufragos gregos... segundo as descrições mais ilustrativas, decapitando-os, atirando o corpo ao mar, e espetando a cabeça num pau que colocavam como "forma de vigilância" para suas casas.

Se os gregos tinham esta opinião bárbara dos russos, e constavam serem mesmos ruivos, estes habitantes da Crimeia, ou da Cítia, não deixaram de dar um desfecho mais feliz ao episódio do sacrifício de Ifigénia.
A conhecida história de Ifigénia, filha de Agamémnon, conforme contada por Homero, é uma total contradição de propósitos! No contexto da Guerra de Tróia, a armada grega vê-se bloqueada na sua partida para resgatar Helena... e assim, Agamémnon para obter ventos favoráveis no sentido de resgatar a cunhada, Helena, decide sacrificar a filha, Ifigénia!  
A lógica de tal acção ultrapassa mesmo a lógica da mitologia, mas também depois Agamémnon será traído e morto pela mulher, Clitmnestra, que por sua vez será morta pelos filhos Orestes e Electra... 

Numa reviravolta ao problema moral do sacrifício de Ifigénia, aparece a versão de que Ifigénia teria sido poupada ao sacrifício por Artemisa, e seria sacerdotisa na Tauria (Crimeia). Afinal um cervo teria sido colocado no seu lugar. Assim é escrita a tragédia de Eurípedes - "Ifigénia em Tauris". Talvez não tivesse sido um cervo, e tivesse sido mais uma serva... para evitar a morte da filha do rei. Afinal o que interessava no sacrifício era mostrar a determinação do pai Agamémnon, em prosseguir a campanha, não olhando a princípios e meios, para chegar ao fim de Tróia.
O sacrifício de Ifigénia (imagem em Pompeia - maicar.com)
A questão é que, também num texto anterior, abordámos aqui a questão dos cervos na Crimeia.
Mais concretamente, no contexto do "fogo de Santelmo", entendemos desta forma uma representação rupestre existente na Crimeia:



Ou seja, entendemos que a pintura representava três momentos, no contexto de uma caçada. Primeiro, os chifres do cervo iluminavam-se («St. Elmo's fire can also appear on leaves, grass, and even at the tips of cattle horns»), associava-se um fenómeno de esfera luminosa («Often accompanying the glow is a distinct hissing or buzzing sound. It is sometimes confused with ball lightning.») que vitimava alguns dos caçadores, e a manifestação sobrenatural levava à veneração do cervo.

Na altura, dissemos que tal manifestação poderia ainda ter levado às comemorações populares do touro embolado, onde são colocados os chifres do touro em chamas. 
Agora, só isso parece ser consistente com o nome Tauria ou Tauris, já que a Crimeia não parece ter sido uma região muito pródiga em touros. Aliás convém notar que todo o conjunto montanhoso que ia do Cáucaso aos Himalaias chegou a ser denominado como montanhas do Tauro.

Bom, não deixa de ser curioso que para além de termos a nossa Tróia, tenhamos também a nossa Tauria, na Atouguia, ambas ligadas à tão distante Guerra de Tróia... acrescendo a isso toda a mitologia repetida sobre a fundação lisboeta por Ulisses, e à sua paixão por Calipso, quando o nome romano do rio Sado era Calippo.


Aditamento (11/02/2016) :
Por razão da observação feita pelo João Ribeiro, relativo ao Touril de Atouguia, parece-me bastante interessante mostrar o brazão da freguesia de Atouguia da Baleia, e comparar com a imagem do touro embolado, que já tinha colocado no texto sobre a Crimeia:


Brazão da freguesia de Atougia da Baleia e imagem de touro embolado em Espanha (wikipedia)

Certamente que haverá alguma justificação para os castelos ou torres nos cornos do touro, mas atendendo ao que vínhamos a descrever, a imagem do touro embolado (à direita, o touro com os cornos em chamas), veio aqui assentar, que nem uma luva! Há "coincidências" que nem de propósito seriam mais ilustrativas...

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publicado às 06:00


8 comentários

De João Ribeiro a 11.02.2016 às 21:48

Quem sabe se Touril existente na Atouguia Da Baleia não serviria para essas comemorações do touro embolado.

http://www.atouguiadabaleia.net/custompages/showpage.aspx?pageid=d07e0498-3109-4df5-82e3-9ef748c6e8e4&m=c32

De Alvor-Silves a 12.02.2016 às 04:07

Excelente, caro João.
O recinto tem lá umas pedras furadas "bastante interessantes", mas ainda reparei no brazão da Atouguia, e assentou tudo que nem uma luva!
Muito obrigado!

De João Ribeiro a 03.10.2016 às 14:19

https://www.youtube.com/watch?v=QKs27jsnbjQ&index=4&list=PLNdU5M6bH0DYSsncJH6WED6YIH2UfBWay


Touro como símbolo de família Corni dos irmãos cruzados a quem D. Afonso Henriques doou Atouguia.

Ab

De Alvor-Silves a 04.10.2016 às 06:22

Óptimo, o João Ribeiro apanha quase sempre um vídeo do Prof. Hermano Saraiva associado ao assunto.
Digamos, que uma família Corni ter associado o touro como símbolo parece bastante adequado! E caso houvesse alguma infidelidade matrimonial, sempre se poderia dizer que "antes do ser já o eram"...

Abç

De João Ribeiro a 04.10.2016 às 12:13

Sim foi um acaso, novamente...

Não sei se o uso da expressão "cornudo" como traído já se usaria na época(?)Em todo o caso pareceu-me ser mais uma interpretação a ter em conta.

Entretanto fui espreitar o sítio da CMA e diz o seguinte sobre a sua Heráldica

http://www.atouguiadabaleia.net/custompages/showpage.aspx?pageid=31e85673-93e4-4edc-8093-d269d08cf706&m=b14

Originalmente terão sido dois touros, o que pode(ou não)fazer alusão aos dois irmãos.

Ainda, na janela "História" diz que os irmãos se chamariam Licorni em vez de simplesmente Corni.

A explicação mais simples que surge é que Tauria surgiria simplesmente pelo facto de ser uma zona onde abundava gado bovino e ou taurino. Daí o uso do touro no brasão.

"Entre as espécies de animais selvagens de maior porte abundava o touro selvagem, não feroz como o homem o transformou nos dias de hoje, mas sim, simplesmente bravo, que os navegantes que frequentavam estas paragens juntamente com as populações nativas caçavam em muita abundância para seu sustento. Devido a este facto, não custa muito imaginarmos de onde proveio o toponímio Touria ou Tauria, do latim arcaico, que mais tarde vai ser Tauria, Atouguia e finalmente Atouguia da Baleia."

Ab

De da Maia a 04.10.2016 às 14:03

Este programa do José Hermano Saraiva até está bem conseguido, e ele era dos poucos que se indignava publicamente com o estado de degradação e abandono do património, como era o caso do Castelo da Atouguia... honra lhe seja feita!

Quanto ao brasão, ao minuto 11:18 (desse episódio das Brumas da Memória), aparece um brasão que é bastante diferente, com dois touros.
Quando "li Corni" e não Licorni, não me lembrei que já tinha lido o nome nessa altura, e convém dizer... algo que não foi referido por Hermano Saraiva: é que Licorne têm um significado de Unicórnio em francês:
https://fr.wikipedia.org/wiki/Licorne

... e já agora as considerações que ele fez sobre o nome Berlenga, também me parecem pouco profundas, atendendo às vilas espanholas com o nome Berlanga:
http://odemaia.blogspot.pt/2010/07/berlenga-etimologia.html

Voltando ao brasão, como o site da Junta de Freguesia da Atouguia (sem querer, ia escrevendo Autoguia...) refere outros brasões, levando ao que ficou e que aqui é mostrado, poderá ter razão quando refere os dois irmãos - dois Licorni, dois unicórnios, dando assim um par de cornos!

Quanto à história da abundância de gado bovino, tal como sugere Hermano Saraiva parece-me "invenção" simplificadora, e seria aplicável a quase todo o país e com maioria de razão na zona do Ribatejo.
No entanto, fica outra pergunta... se aquelas pedras/megalitos esburacados do "touril" não serviam para meter tábuas para os touros, serviam para quê?
Ou seja, será que não estavam noutro sítio e alinhadas noutro propósito, e foram ali colocadas junto à Igreja, apenas para não desaparecerem de cena... adicionando a historieta de que aquilo seria para touradas de D. Pedro I?
Isto é, será que não se tratam de megalitos pré-históricos?

Abç

De João Ribeiro a 04.10.2016 às 15:33

A parte da abundância de bovinos vem no site da Junta, não me lembro de JHS o mencionar mas acredito que ali existisse touros ou o animal que mais se aproximasse com o touro moderno. Agora, pode vir no brasão por existirem muitos ou porque precisamente existirem ali numa zona fora da sua região "natural" e daí o destaque que lhes dão. Mas que aquela zona tem tradição tauromáquica é verdade. Ainda hoje em dia, no Verão pelo menos existem picarias. Lembro-me de repente das festas da vizinha Ferrel por exemplo. Sim também tinha reparo (através do google, não que o soubesse) que Licorni pode significar unicórnio daí o ter mencionado no comentário anterior mas JHS diz que os cruzados se chamariam Corni e não Licorni. Licorni vem no site da Junta. Qual das duas versões está certa não o sei mas ponho a hipóteses de poder ser erro de entendimento. Dito em françês Les Corni soa a Licorni mas isto é meramente especulativo. Só procurando nas fontes. As misteriosas pedras foram aproveitadas para touril mas até podem ter estado sempre ali... Como ficam coladas à igreja desconfio que possam ser mais antigas que a própria igreja. As igrejas foram muitas vezes construídas em locais religiosos. Sobre antigas mesquitas, estas sobre antigas igrejas visigóticas, estas sobre antigos cultos romano, este sobre o antigo culto do povo que invadido... A acreditar nesta sucessão, podem muito bem ser megalitos pré-históricos mas é estranho se nunca foram estudados nesse sentido.

Ab

De da Maia a 04.10.2016 às 19:34

Sim, na parte do vídeo que mencionei, referente ao touril, ele vai convida um estudioso local que explica que a ideia do touril seria fabricação recente, do tempo de vida dele, mas o que também não invalida que não pudesse existir anteriormente.
Há quem designe La Corni, mas vários outros sítios que falam de Guilherme (ou Guilhim) de Licorne, por exemplo Teófilo Braga:
https://books.google.pt/books?id=ilFeAAAAcAAJ&pg=PA214

... aliás, o próprio J. Hermano Saraiva chama Guilherme de Licorne, no seu livro "O tempo e a alma" (pag. 209):
https://books.google.pt/books?id=hAYkAQAAIAAJ

Uma lenda diz que era aquele o marco que balizava os limites da concessão feita por D. Afonso Henriques a Guilherme de Licorne, cruzado que foi senhor da Atouguia e — diz-se — de toda aquela costa marítima até à pedra do seu nome. (Pedra de Guilhim)

Sim, e tem razão, é muito comum a substituição dos cultos nos mesmos locais, pelo que poderá fazer mesmo sentido pensar que aquelas pedras podem ter origem pré-histórica... só que não é nada fácil determinar isso, pois os processos de datação de rochas não estão bem aceites, até porque entram normalmente em contradição com outro tipo de datações.
Por exemplo, creio que quando foi das gravuras de Foz Coa foram feitas datações da rocha, que diziam que as inscrições eram modernas (do Séc. XX até...), e foi só com a sorte de haver uma laje enterrada que, pelo habitual método do Carbono 14, se pôde concluir terem pelo menos 18 mil anos.
Por isso, do ponto de vista formal, os arqueólogos apenas poderiam especular se houvesse algum registo antigo que dissesse que aquelas pedras esburacadas do touril já ali estavam antes de Afonso Henriques, pelo menos.

Abç

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