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Gazetas, Tesauros, Tesouros e Tesouras

por desvela, em 20.04.14
Há uma diferença de género entre "O Tesouro" e "A Tesoura".

A Gazeta de Lisboa foi uma publicação periódica entre 1715 e 1820, e que de alguma forma tem como sucessor o actual Diário da República. Passou por diversos nomes, podendo ser ligada à Gazeta da Restauração, logo publicada em 1641, como forma de propaganda a D. João IV.
Durante esse longo período, essa publicação periódica de informação aos cidadãos, foi só suspensa pela Mesa Censória do Marquês de Pombal, entre 1762 e 1778... tendo mesmo sido mantida pelos franceses durante a sua ocupação.

O nome Gazeta é sistematicamente remetido a Veneza, onde a moeda "gazzetta" servia para comprar a leitura da informação publicada no periódico, desde 1563.

Refere-se ainda a presença do símbolo de uma pega, pássaro cujo nome italiano é gazza. Afinal os mesmos pássaros que decoram o tecto de uma sala do Palácio de Sintra, com a menção "Por Bem", moto de D. João I... e se as pegas foram pretendidas ser outras, o rei poderia argumentar com o "honi soit qui mal y pense", invocando a ascendência Lancastre, já que foi o primeiro rei estrangeiro a pertencer à Ordem da Jarreteira.
Podemos ler outra origem, algo mais elaborada, que aponta "gaza" como "tesouro" (Rönsch), indo ao latim gazetum, e à origem persa. Este tesouro seria no mesmo sentido de "tesauro" (thesaurus), uma corrupção de tesouro, que passou a designar os dicionários de sinónimos e antónimos. 

Bom, mas não interessa dispersar.
A notícia da Gazeta de Lisboa (nº45) é de 6 de Novembro de 1755 e diz apenas o seguinte:
O dia 1º do corrente ficará memorável a todos os séculos pelos terramotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade; mas tem havido a felicidade de se acharem na ruína os cofres da fazenda real e da maior parte dos particulares. 
A Gazeta era conhecida por ser sucinta... mas tanto? 
Então e o famoso Maremoto?
Esta informação está numa análise pertinente feita por André Belo:

A Gazeta de Lisboa e o terremoto de 1755: a margem do não escrito
Análise Social, n° 151-152, vol. XXXIV, Inverno 2000, pp. 619-637.

As interrogações sucedem-se, e bem. Citamos agora directamente André Belo:
Na semana seguinte, a 13 de Novembro, a Gazeta continuava na mesma linha, escrevendo:
"Entre os horrorosos efeitos do terremoto, que se sentiu nesta cidade no primeiro do corrente, experimentou ruína a grande torre chamada do Tombo, em que se guardava o Arquivo Real do Reino e se anda arrumando; e muitos edifícios tiveram a mesma infelicidade". (GL, n° 46, 1755)
Lacónico sobre os efeitos do terramoto em Lisboa, o periódico foi incluindo neste mesmo número descrições bastante mais pormenorizadas sobre o impacto do sismo em Córdova, Cádiz e Sevilha. Das oito páginas da edição, cerca de seis foram preenchidas com informação sobre o sismo na Andaluzia, enquanto Lisboa merecia apenas as seis linhas citadas.
Não acompanhamos depois a sua tese de que a informação sobre Lisboa não interessava aos leitores lisboetas. Os poucos exemplares que encontramos na internet têm destinatários noutras paragens do país, e mesmo estando em Lisboa, a informação ou ausência dela é até mais relevante.

Ainda que a informação da Gazeta seja escassa, é suficiente para abrir brechas no divulgado.
A Torre do Tombo teria "experimentado ruína", mas "andava-se arrumando" o Arquivo do Reino... e portanto duas semanas depois não se reportam nenhumas perdas devidas a terramoto ou incêndio.

As Gazetas europeias tinham por hábito apanhar as notícias umas das outras... mas não foi certamente com estas linhas sucintas que Voltaire ficou traumatizado com o Abalo do Marquês.
Se dúvidas houvessem sobre a manipulação e distorção informativa no período pombalino, e especialmente sobre a sua preservação nestes 250 anos, pelos acólitos maçons, aqui está mais uma prova. 
O Marquês proíbe a publicação em 1762 porque tem a descer o Tejo o exército espanhol do Conde de Aranda... a sua força de repressão era interna - externamente revelava uma debilidade total, em Portugal e especialmente no abandono das possessões ultramarinas.

Então e o Maremoto, o maior tsunami jamais registado? 
Pois... um maremoto ocorreu provavelmente em 1531, quando foi decidida a construção do Bairro Alto.
Afinal, após um maremoto fazia sentido insistir na construção da "baixa" pombalina?... não seria mais indicado uma "alta" pombalina - por muito baixos que fossem os modos desta gente?

Pois, a certa altura deixei de reportar detalhes aqui... por causa disto.
Basta fazer uma pequena pesquisa e sucedem-se informações, umas atrás das outras...
Como já disse, é indiferente ter 1000 provas, 1001 ou 1 milhão... o número é indiferente quando se embate contra uma parede de obstinação insana.

Qual a razão da obstinação?
A Tesoura faz O Tesouro...

Primeiro, da forma evidente. 
O cargo de Censor era já um cargo romano importante, e pelos cortes, pelas censuras, se definia um poder imenso. A tesoura cortava a pedra no papel das regras do jogo. O secretismo era alma para tal negócio que embrulhava qualquer pedra na papelada da engrenagem.

Segundo, da forma menos evidente, mas superior à anterior.
Pois, mas sobre essa já falei, e é um problema de arquitectura. 
O ouro encanta a vista, mas não é visão... com o tesouro tens ouro, mas t'és ouro? 
E, queiramos ou não, as palavras estão aí para serem associadas na aura do Tesauro.
- És tu ouro?... no restauro, na rés tauro, no signo do Touro... és tu ouro?
- Ah, ris... do signo Aries, dos sacrificados carneiros da paz côa, filtrada, paz cal, pintada de branco. 
- Temes investir no encarnado, e apostas na reencarnação.

A arquitectura na tesoura visava o tesouro. 
Apresentava ouros evidentes, para criar outros diferentes.
Apresentava o temporário para, pela negação, encontrar o eterno. 
É terno? É ter-nos.

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publicado às 05:33


5 comentários

De José Manuel de Oliveira a 20.04.2014 às 16:25

Re: “A Torre do Tombo teria "experimentado ruína", mas "andava-se arrumando" o Arquivo do Reino... e portanto duas semanas depois não se reportam nenhumas perdas devidas a terramoto ou incêndio”

Bom dia,

Gostei de ler sobre as arrumações dos arquivos da Torre do Tombo feita por Pombal depois da maçónica grande perturbação de 1755 (abalo, terramoto) visto de fora por alguém que esteja longe da influência os lisboetas sempre viveram de costas para a realidade, a sua política era e é a do seu próprio quintal, das alfaces:

Alfacinha
Não se sabe ao certo a origem desta designação para os habitantes de Lisboa. Poderá residir no costume que os lisboetas dos finais do séc. XIX tinham, ao Domingo, de conviverem em almoços pelas hortas do termo da cidade, onde, juntamente com o habitual peixe frito, consumiam muita salada de alface. Este hábito, pouco comum no resto do país, era visto como estranho ou pitoresco para os forasteiros, tomando a designação um significado caricatural ou mesmo pejorativo. in http://www.museudacidade.pt/Lisboa/curiosidades/Paginas/Curiosidades.aspx

Isto de o Alvor andar a arrumar o passado é como tirar dum poço negro o arquivo do Tombo que lá tombou,
segundo as épocas são interpretados de maneiras diferentes os abismos negros da história portuguesa, e universal:

Poço dos Negros
Nome de um topónimo resultante da existência de um poço mandado abrir por D. Manuel I em 1515 e que funcionava como sepultura colectiva dos cadáveres dos escravos negros (...) Existe também a hipótese da designação se dever a um poço da horta dos “frades negros”, que eram de São Bento. in http://www.museudacidade.pt/Lisboa/curiosidades/Paginas/Curiosidades.aspx

Boas arrumações, parabéns, continue sff, cumprimentos, José Manuel CH-GE

De Alvor-Silves a 21.04.2014 às 05:20

Caro José Manuel,

fui procurar a origem de "alfacinha"... e é claro que não me colhe muito a cantiga que tem a ver com os lisboetas gostarem de alface!

A resposta parece estar afinal ligada à Monumentália Filipina Lisboeta:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/04/monumentalia-filipina-lisboeta.html

... ou digamos, está ainda ligada à expressão "amigos de Peniche".

Porque, as coisas são como são... e a burguesia e nobreza acolheram a invasão espanhola de Filipe II com monumentais arcos do triunfo.
D. António não teve apoio suficiente na Batalha de Alcântara e o Duque de Alba desembarcado sem problemas em Cascais, venceu.
Depois veio a esquadra de Drake, que esperava em Cascais o progresso das tropas de Norris desembarcadas em Peniche.
Só que a sublevação da zona lisboeta nunca ocorreu, conforme D. António esperava, porque a burguesia e nobreza lisboeta estava alinhada com os espanhóis - aliás participou na Armada Invencível.
A expressão "estar à espera dos amigos de Peniche" refere essa desculpa de inacção lisboeta, que adiaram qualquer sublevação, ficando os populares a "ver navios", os navios de Drake que cercavam Lisboa e aguardavam.

Ora, ao tempo de Filipe II, a burguesia e nobreza usavam um adereço no trajo que estava na moda:

Alfacinha (lechuguilla): certo género de cabeções e de punhos de camisa muito grandes e bem engomados, frisado com ferro em forma de folhas de alface, e que se usavam muito no tempo de Filipe II de Espanha.

Citação do dicionário Espanhol-Português (pg. 1004) de Manuel Mascarenhas Valdez (1864):
http://books.google.pt/books?id=WBUTAAAAYAAJ&pg=PA1004

Portanto, há uma história muito mais consistente que explica a origem dessas expressões.

Quanto ao "poço dos negros", a explicação mais simples pode ser essa da sepultura indistinta dos escravos negros. No entanto, havia um costume do poço dos "negros" do Benim... onde, após a morte do seu rei, o colocavam num poço escavado, onde iam também os serviçais mais devotos, de livre vontade, preparando-se para servir o seu senhor na vida seguinte... ao fim de 4 ou 5 dias morriam e só aí o novo rei começava a reinar.
http://books.google.pt/books?id=lq4EAAAAQAAJ&pg=PA86

Abraços e obrigado.

De Alvor-Silves a 21.04.2014 às 05:54

... já agora, havia ainda a expressão "andar o Diabo em casa do Alfacinha".
Ora, a denominação "Diabo" (demon du midi) foi usada pelos franceses para se referirem a Filipe II, o que acresce assim à história da presença de Filipe II entre os lisboetas.

Pode juntar-lhe o "Alfacinha de gema", que poderia designar os burgueses armados em aristocratas que receberam ou trabalhavam pedras preciosas - na Monumentália feita a Filipe II tem lá o Arco dos Ourives e Lapidários, muito dados a gemas. Veja bem a figura:
http://1.bp.blogspot.com/-3wkSn7cROVM/TaEflg0d2WI/AAAAAAAAAO8/Ho2DqThs7x4/s200/arco-ourives.jpg
... tem lá na base as alfaces e a inscrição refere as "geminas", ou seja as "gemas".

Imagine que é um visitante de Lisboa e depara com a exultação de Filipe II ali colocado com alfacinhas e gemas.
Não diria que os lisboetas eram "alfacinhas de gema"?

De José Manuel de Oliveira a 21.04.2014 às 18:16

Re: “Imagine que é um visitante de Lisboa e depara com a exultação de Filipe II ali colocado com alfacinhas e gemas. Não diria que os lisboetas eram "alfacinhas de gema"?”

Sim, sim, está bem vista a coisa, mas no fim vou mais para os lisboetas serem amigos de Peniche, ou melhor amigos da onça, a de oura não a brasileira felina, ou que vai dar às gemas, essa de só verem o seu quintal deve ter mais com o métrico, e lá acabamos mesmo nas gemas.

Merci pela pesquisa que o Alvor partilhou sobre estas coisas do arco-da-velha... e que eu desconhecia. Este blogue tem melhores imagens dos arcos dos alfacinhas em honra aos Filipes: http://doportoenaoso.blogspot.ch/2012_03_01_archive.html

Cavando melhor neste poço negro da história portuguesa ao relembrar na Wiki o terramoto e maremoto de 2004 no Oceano Índico, comparando com o de 1755 (epicentro e magnitude) não vejo a visão apocalíptica de Voltaire duma Lisboa ardida e depois afogada.

Como sobreviveram ao terramoto de 1755 a porta da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia na Baixa de Lisboa, mais Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, e outros como Aqueduto das Águas Livres, posso crer que Pombal teve tempo para arrumar os arquivos da Torre do Tombo noutro lugar, mas certamente não escaparam a Bonaparte... como exemplo de provável prova está em Paris no Louvre um peça em ouro tipo “taça prato”, esta peça de D. Manuel levada pelos franceses quando das invasões napoleónicas tem gravado 3 homens selvagens, um peludo nu com mãos de 3 dedos e com barrete tipo frígio, dá para imaginar muita coisa:

Homem das Neves, na “taça dos povos do Mundo”, de D. Manuel I
http://3.bp.blogspot.com/_H3hPB3_DZTE/TJ5_gbLBYpI/AAAAAAAAAdI/p9V4UeBw_fU/s1600/Coupe+sur+pied+-+Plateau+suport+par+trois+Hommes+Sauvages+n%C2%B02.jpg

http://4.bp.blogspot.com/_H3hPB3_DZTE/TJ5_gbvqA5I/AAAAAAAAAdA/XP7HKpgyLxk/s1600/Coupe+sur+pied+-+Plateau+suport+par+trois+Hommes+Sauvages.jpg

Sempre achei estranho essa de tudo ter desaparecido com o terramoto, pensava na adolescência que poderia estar nas catacumbas do Palácio da Pena em Sintra esses mapas e arquivos secretos das descobertas portuguesas, imaginação da adolescência, pois os jardins do dito têm acesso ao palácio por catacumbas certamente, estive dentro duma há uns 40 anos, o que encontrei foi muitas teias de aranha.

Lisboa está cheia de galarias subterrâneas, por exemplo as do quartel do BC5 em Campolide é um palácio que tem túneis que vão dar ao Tejo, segundo um camarada d’armas miliciano no tempo em que lá estive como militar, estavam guardados dia e noite por sentinela, pois comunicavam com a prisão ao lado, outro exemplo que vi o palácio de São Bento tem túneis obstruídos, vi um nas fundações dum edifício do Estado na D. Carlos I parecia ser gótico mas bem podem ser mouros, juntando todas estas peças penso que o terramoto de 1755 serviu para limpar o que os Filipes tinham ainda deixado dos “segredos dos portugueses”, afinal D. José I era um bom cliente da França, candelabros de prata a fazer alusão ao terramoto e muita louça mandou fazer nas oficinas do Louvre.

Cumprimentos, José Manuel CH-GE

De Alvor-Silves a 22.04.2014 às 20:44

Caro José Manuel,
aproveitando esta instrutiva conversa, e usando também a sua dica sobre os "amigos da onça"... que assentou que nem uma luva (sobre esta expressão não vou procurar...), fiz o postal que pode ver.
São coisas do arco-da-velha, e isso reportar-se ao arco-íris deixa apenas uma parte da história, porque as coisas sobrepõem-se, não como camadas de cebola, porque já está tudo cortado e misturado na salada... com muita alface e poucos pomodoros, isto é, maçãs de ouro, que é como os italianos chamam aos tomates, e nós usamos mais para a laranja.

O terramoto serviu de desculpa para preparar muita mudança, e o movimento iluminista, maçónico, onde se incluía Voltaire saberia do que se tinha passado por vias secretas. Seria um sacrifício feito para um bem maior... ou pelo menos assim seria entendido, na velha linha de que os fins justificariam os meios.

Para esconder as coisas, as caves, catacumbas, foram sempre o lugar preferido. Mas, mais do que desaparecer, houve uma ordem de não as fazer aparecer... Quem as tivesse teria que ficar calado. Isso é pior do que o efectivo desaparecimento, pois proibia mesmo o reportar desse desaparecimento.

A taça de D. Manuel é de facto estranha... e o homem peludo faz lembrar os desenhos antigos dos textos chineses, que faziam aparecer carantonhas muito peludas, ao contrário do que é característico dos chineses.
Não sei se são 3 dedos, ou se é o simples "sinal de cornos", que se vem tornando popular pelo lado oculto do chifrudo.

Obrigado pelas informações.

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