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O "António Maria" (1892)

por desvela, em 03.06.16
Os ingleses tinham o "John Bull", desde o tempo de Gillray, mas parece-me que o "Zé Povinho" foi apenas definido por Rafael Bordalo Pinheiro, quase um século depois.
Rafael Bordalo Pinheiro usou abundantemente a figura do Zé Povinho na sua publicação regular sarcástica denominada:
"António Maria" (1879-1885, 1891-1898)
cujos volumes estão disponíveis no link (que remete para a Biblioteca Nacional Digital). 

Para compreensão do final do Séc. XIX em Portugal, dificilmente se encontra muito melhor.

No início do ano de 1892, Bordalo Pinheiro faz o tríptico seguinte, em que representa a transição entre os anos 1890-91-92, altura do ultimato e de grande crise financeira que leva a uma bancarrota parcial.
No periódico "António Maria" de Rafael Bordalo Pinheiro aparece este Tryptico - 1890-91-92  (clique p/aumentar)
A situação era explicada de forma razoavelmente simples, pelo "semítico" Ano 1891:
- Em 1890 houve o Ultimato Britânico onde Portugal foi forçado a abdicar do Mapa Cor-de-Rosa.
- Em 1891 ocorreu a bancarrota, pelo incumprimento do pagamento da dívida no padrão-ouro.
- Para 1892 o legado deixado era papel da Casa da Moeda - sem correspondente no padrão-ouro.

Ou seja, já em 1891 houve a tentativa "habitual" de resolver o problema da dívida, criando uma moeda alternativa, para dinamizar a economia interna... a chamada solução Keynesiana - o estado inventava dinheiro de forma a convencer os cidadãos a acreditarem no seu valor, e assim produzirem mais.
A desvalorização tornou o "conto de reis" (um milhão de reis) numa moeda corrente, porque a desvalorização ocorreu progressivamente na proporção aproximada de 1000 para 1, que levou à introdução do "escudo" como "mil reis", já em tempo republicano, 20 anos depois.

As únicas formas conhecidas de os estados se protegerem contra a demagogia política resultante do caos económico imposto por potências externas, levaram praticamente sempre a regimes totalitários - ou seja, o fascismo ou o comunismo, na sua faceta de reacção nacionalista contra o ataque externo.
Foi assim que os regimes fascistas de Mussolini, Salazar ou Hitler, procuraram restaurar as frágeis repúblicas expostas ao comércio externo, definindo regimes nacionalistas que produziriam tudo internamente, livrando-se do jugo imperialista do comércio externo. Não foi diferente com o Japão, após a imposição americana (ilustrada por Madame Butterfly), e também não foi diferente a tentativa de Lenine e Estaline de procurarem definir uma auto-suficiência interna, algo igualmente seguido por Mao Tse Tung, dado o historial da Guerra do Ópio.

Portugal no Séc. XIX ficou a pagar indemnizações à Inglaterra pela ajuda nas Guerras Napoleónicas, e a sua dívida foi aumentando sucessivamente. Essa sangria económica servia para acompanhar o progresso dos tempos - na altura a construção de vias férreas, comboios, etc... A dívida teria chegado a 75% do PIB, mas os juros eram muito maiores e chegavam a representar 50% do orçamento.

Para entendermos melhor esta situação, convém relembrar o que aconteceu com Cartago.
Cartago tendo perdido a 1ª Guerra Púnica, negociou primeiro uma paz, para obter a clemência romana, Nessa altura Roma não precisava de se incomodar em explorar as minas ibéricas - os cartagineses faziam isso por si. Todos os anos entregavam um pesado tributo de prata e ouro para manter a paz.
É claro que a exploração mineira de territórios da Ibéria dava motivos de protestos, que os romanos incentivavam... Portanto, os cartagineses exploravam alguns ibéricos, para pagar aos romanos, que por sua vez apoiavam esses mesmos ibéricos contra os cartagineses.
Roma deixava todo o odioso em Cartago, mas era Roma quem beneficiava da exploração ibérica, pelo tributo exigido a Cartago. 
Qual era a alternativa de Cartago? 
- Bom, tendo falhado a incursão de Aníbal, que esteve às portas de Roma, ao perder a 2ª Guerra Púnica, ainda ficou com tributo mais pesado, para evitar a escravidão.
Roma ainda hesitou se haveria de destruir Cartago, mas com o fim do prazo de 50 anos desse tributo, decidiu não arriscar mais, e Cipião varreu Cartago do mapa.
Uma geração de cartagineses acabou por trabalhar gratuitamente para os romanos, para que depois estes, ainda mais fortalecidos, aniquilassem por completo os seus filhos cartagineses, na 3ª Guerra Púnica, que foi praticamente uma chacina.

Esta receita tem sido aplicada sucessivamente...
Também o líder inca Atahualpa ofereceu o maior resgate da história a Carlos V, o que só serviu para financiar os seus exércitos na Europa, e expedições contra os turcos - nenhum resgate mudaria a intenção dos espanhóis em aniquilar o império inca.

A situação só foi ligeiramente diferente na Europa durante o tempo de intermediação papal, não impondo tratados que condenavam os estados a submissões ad eternum. Com o fim da influência papal, pela derrota na Guerra dos Trinta Anos, os "tratados de guerra" vieram a definir de novo a política mundial, como única lei internacional.
A maçonaria gabava-se de ter terminado assim com a influência papal, que proibia quaisquer negociações de tratados com infiéis. E se essa evolução permitia negociar com os infiéis, não havia propriamente nenhum limite máximo, ao que lhes poderiam exigir.
Seguiu-se assim um tempo de subjugação colonial, em que o equilíbrio inicial foi rapidamente modificado tecnologicamente.

Essa pretensa evolução da maçonaria, abolindo a mediação papal, foi um certo regresso à Antiguidade, ao ponto de não se ver nenhum problema em reintroduzir a própria ideia de escravatura, pelo menos no contexto colonial. A potência dominante praticamente poderia exigir o que bem lhe apetecesse.
Isso terá causado um incómodo interno, que foi levando aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, mas Rafael Bordalo Pinheiro era bastante sarcástico sobre a República.
Num cartoon colocou dois negros a comentar:
- Com a República seremos todos iguais;
- Sim, seremos todos brancos;
- Não, seremos todos negros.

Assim, no Séc. XIX já era bastante claro que a forma de impor um poder global sobre os estados, era torná-los dependentes de uma economia global. A diferença do poder papal, que usava a fé cristã na versão do poder católico de Roma, seria substituída pela fé no dinheiro, volátil, na especulação dos mercados na City de Londres e depois Wall Street.

A forma como a França negociou o Tratado de Versalhes, foi praticamente com condições ruinosas para a economia alemã, levando a que praticamente até à ascensão de Hitler, os alemães não tivessem qualquer hipótese de se reerguer economicamente, tendo mesmo sido alvos de uma invasão francesa do Ruhr quando não cumpriram as exigências draconianas.
A forma como os EUA negociaram depois a reconstrução europeia foi bastante mais inteligente, dando uma margem de esperança, e não de submissão completa, quase ao ponto esclavagista.

É essa transição entre uma prisão feita pelos tratados - na maioria das vezes com cláusulas secretas, e desconhecidas do público, e uma prisão feita pela desproporção económica, definida pela fé no dinheiro, que Rafael Bordalo Pinheiro ilustra neste cartoon de 1890-91-92.

As cláusulas dos tratados seriam intoleráveis, e incompreensíveis pelas populações, levando facilmente a movimentos nacionalistas, que gerariam guerras intermináveis.
Ao invés, a herança de uma dívida, poderia ser mais facilmente aceite pela geração seguinte, atribuindo à própria governação do estados a culpa dos desvarios económicos da geração anterior.

Mas, a grande novidade, que reuniu um grande consenso global, nada teve a ver com nacionalidade, mas apenas com a definição de classes sociais. Nesse sentido houve uma grande herança da política da Idade Média, trazida para os tempos modernos pela maçonaria. Também na Idade Média, as guerras entre nações não eram o principal problema... a aristocracia era uma grande família europeia. A única coisa que a maçonaria fez foi alargar muito a dimensão dessa família, ou a ilusão de dimensão dessa família.
O grande problema foi sempre manter toda a população num estado de vassalagem, de milhões de servos ao serviço de escassas centenas de senhores, e de tentar obter o máximo rendimento desses servos, dando-lhes a ilusão de democracia. Mas, o "demo" a combater foi sempre essa massa perigosa, pouco controlável, que tinha tanto de génio criativo, como de mau génio destruidor. A fé religiosa serviu durante séculos, mas à custa de uma estagnação... o que a maçonaria trouxe de novo foi convocar líderes de todo o lado, para essa grande missão de educar o povo na fé do progresso. Como o progresso comunista se revelou como uma mera forma de aristocracia, com perigos de dissolução pela realidade, a grande aposta manteve-se na manutenção da ilusão capitalista, servida como sonho de todos poderem ascender à idolatria material, em troca da simples fé no dinheiro.

Ora, o problema é que, em última análise, o dinheiro deveria ter algum correspondente no ouro guardado... sob pena de ser mesmo uma completa ilusão de fé. Aos rumores de que o ouro guardado em Fort Knox, já pouco tem de ouro, surgiu a questão de se estar apenas a imprimir papel, pois já não há qualquer ligação ao padrão-ouro, perdida nos acordos de Bretton-Woods, que levaram à formação do FMI. No entanto, o papel da moeda, já não é a produção, nem a dinamização de nenhuma economia, é uma simples lógica de manter o poder na aristocracia existente. Assim, o grande intuito da economia mundial actual é simplesmente evitar que a ideia de riqueza se possa co-substanciar, já que a capacidade produtiva mundial, sendo distribuída, tornaria praticamente todos livres do medo da pobreza.

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publicado às 07:15


2 comentários

De Anónimo a 10.06.2016 às 02:17

o TAFTA vai ser bom ou mau ? já que em Fort Knox não haver lá nada é com ogms que vêm se impor ? a solução ao problema humano parece não existir! prefiro as cidades nações às grandes federações impérios. Mas espero beneficiar deste TTIP par ter no supermercado o caranguejo e solha do Alasca e porque não um Chrysler a preço dos USA...

Cpts

José Manuel CH-GE

De Alvor-Silves a 11.06.2016 às 00:18

Caro José Manuel,
o TTIP/TAFTA parecem-me ser ensaios de impor um governo global, menos mascarado, e mais activo.
A UE tem servido de banco de ensaio para isso.
Seguir-se-ia agora uma fase 2, em que o TTIP seria uma espécie de CEE alargada com os EUA, e certamente o Canada, bem como o Mexico, ao considerar-se a TAFTA.

Ou seja... vejamos o progresso da UE:

1) Foi ou não possível com a ilusão de financiamento, coesão, e progresso, criar uma União Europeia com praticamente um centro decisor em Berlim?
- Sim, porque se há 30 anos atrás nos tivessem dito que a UE caminharia para isto, haveria poucos interessados na população.

- Juntar os EUA à festa da UE, seria como alargar a politica actual da UE... o que interessa é o que Berlim decide, e portanto, depois o que interessava seria o que Washington decidia.
Claro, não elegemos ninguém em Berlim, e não elegeríamos ninguém em Washington.

- Hoje na UE quando Hollande se agacha perante Merkel, chama-se "consenso europeu". Depois quando o chanceler alemão se agachasse perante o presidente americano, seria o "consenso atlântico". Nessa altura a França seria tão relevante quanto é hoje a Itália, para o "consenso europeu". Tudo uma questão de escala.

Nesse aspecto ficaria irrelevante o Brexit inglês... aliás o Brexit inglês só levará mais rapidamente para a formação da TAFTA, incluindo o UK como parceiro, ao nível da UE, e não apenas como mais um estado da UE:
http://www.theguardian.com/politics/2016/may/14/boris-johnson-accused-of-dishonest-gymnastics-over-ttip-u-turn

2) O grande teste passou-se com as assimetrias dentro de UE.
- Ou seja, era possível ou não, manter a bota sobre estados membros da UE, de forma a que chantagem financeira pesasse sobre a sua independência de políticas.

- Presumo que numa fase seguinte tentarão mesmo convencer todos os estados sul americanos a serem incluídos nesse bolo Atlântico. Tal como Portugal, Espanha ou Grécia contam pouco para as decisões da UE, também poderão depois incluir todos os estados sul-americanos numa CEE-Atlântica, sem que contem para nada.

Tudo se resume a uma questão de simplificação de custo operacional das políticas globais.

Hoje em dia, há legislação diferente em todos os países, e isso torna complicada e cara, a actuação dos verdadeiros centros de poder - as multinacionais.
Tudo o que facilite a operação comercial das multinacionais, será visto como um benefício mundial.
O grande objectivo será tornar irrelevante as decisões políticas, de governos eleitos, porque terão sempre que sujeitar-se aos acordos comerciais globais, e é aí que se decide se a alimentação chega aos supermercados, ou não.

Por isso, a bem dessa globalização internacional do comércio, que ficará acima de quaisquer decisões políticas, haverá tendência de fazer tratados comerciais de grande escala, o que permitirá facilitar a vida às multinacionais.

O resultado dessa estratégia foi visto na URSS, sem comida nos supermercados, o comunismo acabou num par de anos... irá pretender-se que assim seja, mas sem que isso seja imputado a sanções de uns estados sobre outros. Será apenas resultado de governação errada dos países, até que adiram ao acordo e deixem as multinacionais actuarem à vontade em cada país, sem terem que se preocupar com tribunais locais.

Abraço,
da Maia

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