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Ossa Lucefecit

por desvela, em 08.06.11
A descrição da origem do nome da ribeira Lucefecit, no post anterior, e a associação à Serra de Ossa, vai levar-nos a uma Estória complicada de contar, pois é uma hipótese que mexe fundo com a nossa nacionalidade "lusitana".
Ribeira de Lucefecit

Recordamos o que dizia o Padre António Carvalho da Costa em 1708:
(...) corre por ele uma ribeira chamada Lucefece, que tomou o nome do que disse um Capitão, o qual dando uma batalha na Serra d'Ossa assim chamada dos muitos ossos, que nela ficaram dos que na batalha morreram, indo-se recolhendo, & chegando a esta ribeira, vinha amanhecendo, disse para os seus "Lucent fecit" que desta palavra tomou o nome. Há neste termo uma Paróquia dedicada a N. Senhora do Rosário com um Cura da Ordem de Aviz, & uma Ermida do Arcanjo S. Miguel perto da Vila de Terena , fundada nas ruínas daquele célebre, & antiquíssimo templo dedicado a Cupido, chamado Endovelico na lingua dos antigos Lusitanos.
Esta descrição é avassaladora... uma batalha ímpar, cujos ossos deram nome a uma Serra, e assim a explicação associada à ribeira fica demasiado simplista, para uma frase cínica de um capitão.
Ao mesmo tempo, mistura-se o culto de Cupido, do Amor, com um nome composto, Endovélico, que para nós se deve ler Endo-bélico, ou seja Guerra Interna. 
Já o tínhamos suspeitado, mas sem outra razão... que agora acrescentamos!

A Estória é esta... Lucefecit será uma pequena corrupção de Lusii fecit, ou algo semelhante, revelando os "Lusos fizeram-no"!

Estamos em 142 a.C, e os Romanos comandados por Quinto Fábio Máximo Serviliano preparavam o assalto final à Iberia. A História conta-nos sobre um herói Viriato, que se rebela, junta tribos e confronta o poderoso exército romano com técnicas de guerrilha e basicamente calhaus. Viriato é depois atraiçoado e a Lusitânia perde a independência, tornando-se província romana.

Muito bem... mas há alguns detalhes que ficaram sempre por explicar.
No sudeste ibérico, havia uma zona atribuída aos Cónios, Turdetanos, ou Tartéssios (podem ser variações do nome consoante os designadores e o tempo de referência), que seria a mais avançada em termos civilizacionais, devido à sua importância costeira e charneira na entrada do Mediterrâneo. Alguns (poucos) registos arqueológicos foram confirmando isso.
É interessante analisar este mapa da wikipedia, que mostra as diferenças em termos de toponímia linguística.

Se reparamos no mapa, confirmando alguma diferença civilizacional, os Lusitanos não chegavam à parte sul, apesar de posteriormente esse território ter sido incluído na Lusitânia.
Essa parte sul seria Cónia, com forte influência fenícia, mas distinta.

Onde ficaram os Cónios, com uma civilização marítima, provável herdeira fenícia, nesta luta de Romanos e Lusitanos? Não aparecem, não constam dos registos de batalhas...
Poderá assumir-se que estavam em colaboração com os Lusitanos, na defesa da parte ocidental, mas seria estranho subvalorizar a participação de um povo marítimo claramente mais avançado face a um suposto herói "pastor das montanhas".

Ora, após a terraplanagem de Cartago, por Cipião Emiliano em 146 a.C. seria bem sabido o destino que os Romanos reservariam às civilizações púnicas e similares. A ordem era destruir por completo... não tinha sido acidental a participação ibérica nas tropas de Aníbal, e toda a Hispânia estava sob ameaça.
Passam 4 anos, resta um pequeno reduto algarvio-alentejano e mais acima um povo Lusitano, provavelmente herdeiro dos Celtas, encerrado no seu reduto montanhoso.
Também sabemos que os Romanos não tinham problemas em fazer e desfazer alianças, colocando os fins à frente dos meios... e é aqui que entra a nossa Estória de traição pelo lado oposto!
Perante a ameaça Romana, os Cónios devem ter convocado os restantes povos para uma resistência, e por outro lado Serviliano deve ter explicado a Viriato que o problema que tinham não era nada com ele. Perante o resultado de Cartago, Viriato e os Lusitanos terão cedido à pressão romana.
Por uma questão de sobrevivência, devem ter simulado aceitar a aliança com os Cónios para os trair...

A batalha determinante desenrolar-se-ia na Serra de Ossa, junto à ribeira de Lucefecit.
Os Cónios terão sido surpreendidos pela traição lusitana do seu lado do campo de batalha, ao mesmo tempo que eram exterminados pelo poderoso exército romano. Encurralados entre dois inimigos, é natural a aniquilação total, de que resultou o nome Serra de Ossa... nem tiveram oportunidade de retirar, pois as saídas teriam sido cortadas do seu lado pelos lusitanos.
Uma outra hipótese mais sinistra depreende-se da afirmação do capitão ser proferida ao amanhecer! A batalha não se poderia ter dado de noite, pelo que se revela uma eventual aniquilação no acampamento das forças Cónias, seja pelos lusos, seja por revelação destes aos romanos.

É assim natural a expressão reveladora do Capitão na ribeira "os Lusos fizeram-no", ou até talvez tivesse sido "faz-se luz", e o nome romano Lusitânia tenha derivado dessa ideia luminosa.
É ainda natural a posterior adoração no local ao Endovélico, que nada mais seria do que um eterno arrependimento a essa Guerra Interna,  perdido num outrora Cupido de amor.
Mais natural é que só nessas condições Viriato tivesse sido reconhecido como rei, e a Lusitânia como estado independente, por acordo com Serviliano. Os Romanos não o fariam noutra circunstância... e em breve voltariam para destituir Viriato. Deixavam um pastor na história, e ocultavam uma civilização avançada.

Conistorga, provavelmente seria arrasada e sobre ela seria erigida a paz, a Pax Julia... mas não imediatamente! A estória não acaba aqui...

Muito provavelmente a parte alentejana foi conquistada e arrasada, resta saber se as montanhas algarvias teriam protegido uma parte significativa dos Cónios. Viriato terá sido depois traído, muito provavelmente resultado da sua traição aos Cónios, e por patrocínio destes.

Para a fase seguinte juntamos dois pormenores: a conquista de Lacobriga é reportada apenas depois de 76 a.C. e de Sertório, com um detalhe sinistro - o nome Ossonoba para Faro!
Ossonoba, literalmente de "Osso-nova" derivará de nova zona de ossos... uma nova Serra de Ossa, ou seja uma nova batalha de aniquilação, posterior mas de data indeterminada.
É natural que os Cónios tenham conseguido resistir mais algumas décadas, ainda que bastante fragilizados, a Lusitânia romanizada afinal resumir-se-ia à parte não algarvia. Parte do sucesso de Sertório pode ter resultado dessa fugaz colaboração com os Cónios. A inclusão de Lacobriga na Lusitânia é reportada apenas após Sertório, e por outro lado é só com Júlio César, duas ou três décadas depois, que se consolida a Pax Julia sobre uma Conistorga desaparecida.
Também destes exemplos podemos perceber como o Egipto de Cleópatra sentia a terraplanagem de civilizações passadas e evoluídas... não era claro qual seria o destino que a nova ordem mundial romana lhes reservaria.

Contamos apenas uma Estória, mas é mais uma daquelas que reúne várias informações, dando consistência e alguma explicação às histórias enfabuladas que foram fazendo a nossa História.

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publicado às 13:24


12 comentários

De João Ribeiro a 05.01.2016 às 22:05

Poderá ter sido mas não me parece provável. É que passado apenas um ano (entre 141-140)dessa suposta aliança Viriato dá batalha e derrota Fábio Serviliano. Dessa vitória Viriato obtém o título de amicus populi romani e firma-se a "paz". Lucent fecit poderá vir simplesmente de Lúcifer que significa "luz da manhã" pois quando regressaram ao local já estava a amanhecer.

De Alvor-Silves a 06.01.2016 às 03:35

Certo, João Ribeiro, por isso também aqui comecei por declarar o assunto como "Estória", que iria contra a concepção habitual de Viriato como herói da nacionalidade.
Sendo apenas uma hipótese que juntava diversas informações, se calhar pouco mais valerá do que material literário, para um daqueles romances de história alternativa.
No entanto, como tinha alguma consistência à época, decidi colocá-la, até para me lembrar do conjunto.

Por exemplo, hoje remeteria o nome de Lusitania para a junção de Lugh e Tana, dois deuses do panteão celta, que podem ser colocados no contexto de Cupido (ou Mercúrio) e Vénus. Lugh está na origem da cidade de Lugo e Tana é associada ao rio Ana, agora Guadiana. Aliás Tana, ou Dana, foi associada ao nome do Danúbio.

É essa atribuição do título de "amigo de Roma" que terá levado à "estória" desenrolar-se nesse contexto - de que o sucesso de Viriato poderia ter sido um sucesso patrocinado.
A questão é que sabemos da existência dos Tartessos e Cónios, mas desapareceram, mesmo sem rasto de confronto com os Romanos.
Ora esse lado Cónio remetido a paragens alentejanas e algarvias, poderia ter sido alvo de um certo holocausto, da mesma forma que os Cartagineses se "evaporaram" depois da queda de Cartago.

Convém não esquecer que depois da derrota de Cartago, os Romanos estavam na sua maior força, tendo por exemplo anulado por completo os Espartanos... sabendo-se que até Alexandre Magno evitou o confronto com Esparta, que por seu lado atacou os macedónios. O exército romano era uma máquina capaz de fazer centenas de navios, ou levantar uma ponte sobre o Reno em questão de dias, conforme depois o fez Júlio César.

A Ibéria era uma total confusão de povos independentes, mas que seriam inimigos ferozes unidos, e por isso sempre os Romanos procuraram usar esquemas "pouco limpos", de alianças e traições, para efeito de vitória.

Levar um chefe a ter o comando global, ou seja, Viriato, era também uma forma de tornar o inimigo mais estruturado, e assim ser mais fácil de derrotar em grandes batalhas. A ideia dos povos ibéricos foi sempre muito mais a da guerrilha, que era mais eficaz, não havendo um centro visível a abater.
A paz com Viriato, e essa atribuição de "amigo de Roma", foi logo depois recusado no ano seguinte pelo irmão de Serviliano, e a cabeça da resistência foi traída, como habitualmente.
Portanto, não é de excluir que houvesse ali uma encenação, com o objectivo claro de atacar Tartessos e os Cónios, que era o que mais próximo havia de ser Cartago, tirando a própria colónia de Cartagena. Também por isso, não eram propriamente aliados dos "Lusitanos" celtas.
Senão, é preciso explicar como desapareceram os Cónios e Tartessos, que ali estavam, ao tempo de Cartago e que depois desaparecem sem rasto.
Foi mais nesse sentido que escrevi isto, e também porque vi a história do padre Carvalho da Costa, e achei que a população não iria manter um nome daqueles, só porque sim... normalmente os nomes que nos chegaram significam alguma coisa - embora isso não sirva como regra.

Obrigado pelo comentário, e um abraço.

De João Ribeiro a 06.01.2016 às 11:52

Bom dia,
Sim também tive o cuidado de referir que "poderá ter sido". Apenas não me parece provável que o título "amigo de Roma" tivesse sido obtido graças a essa suposta aliança com os Romanos contra os Cónios, pois o título só foi obtido passado um ano e depois de uma batalha vitoriosa de Viriato contra Serviliano. Não tem grande lógica(para mim) mas lá está, existe essa possibilidade. Na minha perspectiva os Cónios como sociedade superior economicamente e precisamente depois da lição de Cartago, teriam chegado a entendimento com os Romanos e tenham sabido imiscuir-se na sociedade Romana ao ponto de serem absorvidos quase pela totalidade pela sua cultura. Daí resulta não existirem registos de batalhas. A Serra de Ossa no Alto Alentejo confina com os limites da Lusitânia mas entre estes e os Cónios existe ainda o território dos Túrdulos e dos Celtici. Esse aspecto torna toda esta teoria ainda mais improvável mas não impossível, é certo. Um aparte... Na minha terra, Vila Chã De Ourique existe um local chamado pelo povo de Vale de Ossos por terem sido aí achadas muitas ossadas. Esse aspecto aliado à sua localização tornam Vila Chã De Ourique num dos locais de eleição da famosa Batalha De Ourique. Penso que num caso e no outro a arqueologia teria muito a dizer.

Obrigado eu que adoro o seu blog e me faz pensar e pesquisar. Um verdadeiro serviço público.

De Alvor-Silves a 07.01.2016 às 02:07

Caro João Ribeiro, a questão é que sobre aquele período romano temos exclusivamente acesso, que eu saiba, à versão romana do que se passou na Ibéria... e aliás praticamente sobre o que se passou naquele tempo, tirando eventualmente outros registos na zona de influência grega que iria até ao Egipto.
Para além disso, a versão divulgada em Roma era uma versão oficial, eventualmente diferente dos verdadeiros "acordos de bastidores".

Tenho que ler melhor o que diz Bernardo de Brito sobre esse período, que usa outros livros, ainda que fique com a ideia que ele estava demasiado preocupado em enaltecer Viriato, o que seria normal.

Assim, dada a escassez de informação, pragmaticamente não me parece haver grande hipótese de tirar grandes conclusões.
Interessava-me aqui dar consistência ao que teria acontecido aos Cónios e Tartessos, após a queda de Cartago.
Não colocaria em causa a figura de Viriato, se a história colasse bem, porque acho que já fomos suficientemente atacados nos nossos símbolos nacionais, e não seria eu a colocar em causa o símbolo do pastor dos montes Hermínios que desafiou os Romanos.

Porque, parece-me claro que houve feroz resistência, e a Ibéria foi praticamente a última zona do Império Romano a manter resistência até à intervenção de Octávio Augusto, sendo aliás a Era Hispânica marcada por isso e não pelo nascimento de Cristo até ao reinado de D. João I.
Era algo que vinha de trás, e mais de trás, porque a divisão romana definiu a Lusitania, mas cilindrou por completo qualquer menção aos Conios ou Tartessos/Turdetanos.

Podemos ler na Wikipedia:
A cidade principal do país dos cónios era Conistorgis, que em língua cónia, significaria "Cidade Real",[11] de acordo com Estrabão, que considerava a região celta. Foi destruída pelos lusitanos, por estes se terem aliado aos romanos durante a conquista romana da Península Ibérica.

Agora quem se aliou aos Romanos? Os Cónios? Não há nada nesse sentido, creio.
Os Turdetanos? Ainda sobre a Wikipedia (mesmo sendo pouco fiável):
Em 195 a.C., Marco Pórcio Catão entrava na Hispânia com o seu exército consular para esmagar as revoltas. Após uma triunfal campanha, Catão conduziu as suas tropas a Serra Morena, onde os turdetanos tinham as suas minas. Apesar de estes contratarem mercenários celtiberos para combater os romanos, os tribunos emissários de Catão convenceram ou coagiram os celtiberos para que se retirassem às suas terras sem apresentar batalha. Após perder o apoio militar celtibero, os turdetanos foram derrotados em Ilíturgis, atualmente conhecida como o cerro de Máquiz, em Mengíbar (província de Jaén).
Esta derrota significou a perda das suas posses mineiras, o que obrigou os turdetanos a permanecer no vale do Guadalquivir, dedicando-se à agricultura e a pecuária. Pela sua vez, Catão regressou a norte atravessando a Celtibéria com o fim de amedrentar os celtiberos e impedir futuros levantamentos, embora a partir de 193 a.C., as rebeliões seriam habituais.


Ou seja, este era normalmente o modus operandi Romano - fazer e desfazer alianças convenientes.
O que me parece pouco credível é que após uma derrota face a Viriato, os Romanos dissessem "Ok, pronto este é amigo!". Isso era contra a essência romana - se mais perdessem, mais declaravam o opositor inimigo visceral.

Ao contrário, parece-me mais natural terem usado os Lusitanos contra os Cónios, e a traição contra Viriato, seria alegoria duma traição anterior, contra os próprios Cónios.

Tudo isto é muito incerto, é claro, mas creio que vale a pena questionar Viriato, sob pena de suprimirmos os Cónios.

Agradeço as suas palavras exageradas, e ainda mais a discussão interessante. Abraços.

De João Ribeiro a 07.01.2016 às 22:44

Não sei se ajuda mas... O livro de "Viriato" de Paulo Farmhouse Alberto diz assim.: "Viriato, após ter sido repelido pelas tropas de Serviliano, faz uso da sua estratégia habitual e contra-ataca causando pesadas baixas (fala em 3000 mortos). Os sobreviventes atemorizados procuram refugio no acampamento mas isso não deteve Viriato que o ataca ficando os Romanos apavorados e apenas salvos pelo cair da noite. Viriato prossegue as suas operações até que forçou Serviliano a refugiar-se em Túci. Esta vitória de Viriato foi apenas temporária e de elevados custos. Os Lusitanos regressam ao seu território para se abastecerem e renovar efectivos deixando para trás o seu acampamento queimado. Serviliano não os persegue mas dirige as suas operações para a Betúria capturando 5 cidades Lusitanas, penetrando depois no território dos Cónios, e possivelmente, no Alentejo." Por aqui se entende que Siviliano se vira para os Cónios, sem os Lusitanos. No ano seguinte em 140 Apiano regista o tal tratado em que os romanos encurralados entre um precipício e os Lusitanos aceitam o tratado sugerido por Viriato" . Tratado este que Roma ratificou (e que muita controvérsia tem causado entre os historiadores de tão atípico que foi).

De Alvor-Silves a 08.01.2016 às 04:21

Caro João Ribeiro,
fui procurar o que Bernardo de Brito disse sobre o assunto, e entretanto encontrei um registo dos Eremitas da Serra de Ossa, pelo monge Henrique de Sto. Antonio, no reinado de D. João V, e que pode ser importante:
https://books.google.pt/books?id=n3BPAAAAcAAJ

Aí está muita informação sobre as Antas que ainda se viam no Alentejo.
Concretamente, ele descreve uma "Anta enorme" que estava no interior do Convento de Santa Ossa, e que foi destruída por completo, por ordem do reitor...
Portanto, houve de um modo sistemático ao longo dos séculos, ordens de destruição do registo passado. Parece que na Serra da Estrela, a seguir ao 25 de Abril, andaram a detonar rochas na serra.

Voltando a Bernardo de Brito.
Na opinião dele, os Conios eram Turdetanos, e tal como os Tartessios eram todos descendentes dos Turdulos.
Ele faz notar que o nome Turdulos Velhos, era dado aos que habitavam entre o Tejo e o Douro, antes dos Montes Herminios. Digamos seriam os que habitavam a parte costeira entre Lisboa e Porto.
Esses seriam os Turdulos mais antigos, que "tinham escrita em verso de tempos antiquissimos", (creio que Estrabão) fala em 6000 anos antes dele, ou seja teriam escrita há 8000 anos - pelo menos 3 mil anos antes de qq hieróglifo egípcio ou cunha suméria.
É também dessa região, mais em concreto da zona de Torres Vedras (que significa Torres Velhas), que se tem colocado a origem da cerâmica campaniforme, que se espalhou pela Europa
http://odemaia.blogspot.pt/2013/05/linhas-velhas-de-torres.html

A estratégia de implantação da "cultura da cerâmica campaniforme", talvez essa cultura dos Turdulos, foi estudada e é notável como forma de colonização cultural. Procuravam um assentamento de nativos, e faziam uma vila sua a curta distância. Ao fim de algum tempo a vila nativa desaparecia e só ficava a que tinha a cerâmica campaniforme. Ou seja, colonizavam pela sedução dos nativos ao seu modo de vida...

Dos Turdulos quase ninguém ouviu falar, mas segundo consta tinham um ascendente sobre todos os outros. Também havia os povos que estavam acima do Douro, no Minho, diz Bernardo de Brito que seriam Gregos (daí a troca dos "v" pelos "b" - pois não existe "v" em grego).

Portanto, a situação afigura-se mais complicada, se atendermos a que desconheço que os Turdulos Velhos alguma vez tenham entrado em conflito com os Romanos (houve conflitos no Minho e no Alentejo), e que Lisboa até ficou com o título Felicitas Julia, em honra a Júlio César.

Indo agora ao texto que teve a amabilidade de trazer. De certa forma, poderá indicar que os Cónios foram vítimas dos Romanos sozinhos, ou então foram conduzidos contra os Cónios-Turdetanos.
Porquê? Porque, os Turdetanos eram os principais aliados, colaboradores com os Cartagineses, e exploraram as minas ibéricas até à exaustão para pagarem os elevados tributos que os Romanos lhes exigiam.
Catão era o que terminava todos os seus discursos, com a frase "Além disso, Cartago deve ser destruída"... isto mesmo quando Cartago pagava tudo a tempo. Simplesmente, porque Aníbal tinha estado às portas de Roma, e os Romanos ainda hoje se lembram da expressão "Aníbal às portas", tal fora o pânico de verem Roma destruída.
Assim, não era da têmpera romana deixar um inimigo que os tinha derrotado e ameaçado, passar a amigo de Roma. Optaram sempre por esmagar e conquistar. Além disso, também os cartagineses estiveram às portas de Lisboa com o general Mago, que procurava tropas para o avanço para Roma. Por isso, os Turdulos Velhos seriam naturais aliados de Roma, enquanto os Cónios, cuja principal cidade costeira era Porto Anibal (ou seja, Alvor-Portimão), ou os Turdetanos com Cadiz, seriam o próximo alvo a abater, após Cartago estar destruída.
Irei ainda investigar um pouco mais, e provavelmente no fim-de-semana talvez consiga fazer algum post com base nos seus comentários.
Muito obrigado, de novo.

De João Ribeiro a 08.01.2016 às 09:57

Bom dia,
Realmente isto tem muito que se lhe diga. Informação que se entrelaça e que torna difícil de tirar conclusões que não sejam apenas meras especulações. De qualquer maneira achei este blog que no caso de ser fidedigno me parece bastante interessante e útil:

http://imprompto.blogspot.pt/2006_08_01_archive.html

Mostra uma campanha de Serviliano vs Cúneos (Cónios?)em 140 mas mostra igualmente uma campanha de Cecilio Metelo entre 81-80 vs Sertório em Conistorgis. Realmente, desde a campanha de Serviliano que os Cónios deixam der ser referidos. "As fontes antigas não voltam a referir-se a eles, pelo que a sua autonomia e identidade política podem ter sido aniquiladas" (https://pt.wikipedia.org/wiki/Conistorgis). Reparo que dependendo das fontes os anos de 142-140 e os respectivos acontecimentos não coincidem totalmente, o que confunde tudo ainda mais.


De Alvor-Silves a 10.01.2016 às 07:59

Caro João Ribeiro,
após ter procurado diversas fontes no sentido de esclarecer um pouco mais este assunto, também não obtive melhores resultados, ou pelo menos suficientemente satisfatórios. Os mapas que indicou são bastante informativos, mas são essencialmente resultado das descrições romanas oficiais.

Também não há nada de anormal em chegarmos a um impasse.
O que interessa é procurar informação até que a curiosidade fique saciada:
- se mantivermos a curiosidade, então há motivo de prosseguir a pesquisa, e será tanto maior quanto a considerarmos prioritária;
- se perdermos a curiosidade, é porque de certa forma é melhor abandonar o assunto como está, e esperar que noutra altura possamos esclarecer melhor, tendo acesso a nova informação.
Neste caso a informação que recolhi não me parece ser suficiente para dizer muito mais sobre este assunto, porque:

(i) O livro dos Eremitas da Serra de Ossa procura descredibilizar a descoberta de ossos em grande quantidade; e associa o nome da Serra aos próprios monges Anacoretas, que eram chamados Essénios, ou Hóssios. E é pela designação de Hóssios que ele conjectura que teria vindo o nome de Serra de Hóssios corrompendo-se para Serra de Ossos.

(ii) Curiosamente, fala na descoberta de grandes grutas dentro da Serra, ou monte de São Gens (antes Monte de Vénus) que teriam podido albergar um exército de 40 mil homens. Acrescenta mais sobre essas grutas, que seriam a razão dos eremitas Anacoretas terem escolhido o monte para isolamento. Procurei sobre grutas no Alentejo, e tirando a gruta do Escoural, não vi muito mais de significativo (mais uma no Alvito, creio), e nada vi referido sobre essas grandes grutas dos Eremitas.

(iii) Quanto a Conistorgis, há uma referência que faz Damião de Castro
https://books.google.pt/books?id=ZerqifGsq3YC
na página 95 faz referência a grandes chacinas levadas a cabo por Galba em Campo de Ourique e Algarve, falando pejorativamente dos Cónios, ou Turdetanos Algarvios, como gente dada à "doçura do ócio"!

Antes na página 91, fala de que um líder Lusitano chamado Cancheno teria atacado Cunisturgis, que era hoje a Vila de Niebla, perto de Huelva:
https://es.wikipedia.org/wiki/Niebla_(Espa%C3%B1a)
uma vila muralhada e muito antiga - fala-se em muralhas almoadas(árabes) e tartéssicas, de onde se destaca ainda o Dolmen de Soto:
https://es.wikipedia.org/wiki/Dolmen_de_Soto

Esta informação é quase ipsis verbis tirada de Manuel Faria e Sousa:
https://books.google.pt/books?id=W19JAAAAcAAJ&pg=PA42&dq=cunisturgi
e que provavelmente o tira também de anteriores. Bernardo de Brito, escreve praticamente o mesmo.
Estão todos a copiar uns dos outros, ou todos dos mesmos autores antigos greco-romanos.

Ao procurar isto, encontrei mais uma dezena de pequenas outras coisas, mas nada ainda de estruturado, que me permita decidir por uma história ou outra...
Por exemplo, na zona do Minho eram suposto estar gregos, mas depois Braga é de fundação de refugiados cartagineses.
Os cartagineses são em várias gerações Amilcar, Anibal, Asdrubal, quase sempre os mesmos nomes, mas em épocas diferentes.
Há mesmo um Viriato, rei Lusitano que vai com Aníbal na invasão de Itália... e se por um lado dizem que os povos de Espanha eram aliados dos cartagineses, e estavam contra os romanos, também dão indicações contrárias.
Como pedra de toque final, basta ver que há Turdulos e Turdetanos em Portugal, e da mesma forma Turdulos e Turdetanos em Espanha.
Pode ver isso no mapa do Imprompto.
É dito que os de Espanha era malta que visava mais o comércio, e evitavam a guerra, enquanto os do lado português eram malta intransigente.

Estas histórias dependem ainda do período em que são escritas, e na época dos Filipes, convinha a uns (nacionalistas, portugueses) marcar logo uma diferença antiga, enquanto a outros (integracionistas, espanhois) convinha salientar que não havia diferença.

Portanto, como não me quero precipitar em juntar algo à mesma confusão, o que só serve a confusão, acho que vou aguardar por mais dados.

Muito obrigado pela discussão.
Abraços.

De João Ribeiro a 02.02.2016 às 22:39

Boa noite,

Ao ler o livro que recentemente tinha adquirido caiu-me ao colo mais um dado que poderá explicar alguma coisa nesta questão. O livro ´"Deuses e rituais iniciáticos da antiga Lusitânia" de Gilberto de Lascariz trata sobretudo de explicar os ritos iniciáticos pagãos, o papel do cristianismo no esquecimento destes ritos e alguns Deuses antigos venerados na Lusitânia. A certo ponto do livro ao falar de Endovélico, explica que o seu santuário de S. Miguel da Mota é apenas um santuário romanizado de um culto "light" de Endovélico e que o seu verdadeiro e original santuário se encontra ali perto em Rocha da Mina. Tanto num como no outro para se lá chegar tem de se atravessar o ribeiro, Lucefecit. O autor menciona que existe uma relação do nome latinizado Lucefecit, "fez-se luz", e o de Endovélico que anuncia pela aurora a chegada da luz. Mais à frente diz; Passo a citar: "Fez-se luz pode ter sido a palavra recordada na incubatio mistérica. Ao atravessar de regresso ao mundo dos vivos o Iniciado deveria lembrar-se do que tinha vivido e conhecido. Então deverá ter soletrado em silêncio: fez-se luz". O iniciado era aquele que tinha praticado o ritual de incubatio. Mais um excerto do livro que passo a transcrever: "Quem descesse do santuário da Rocha da Mina teria de atravessar o ribeiro Lucefecit para entrar no mundo profano de aquém. Para tal teria de mergulhar o seu corpo nessa travessia. Isso deveria ter tido um significado regenerador.Ao voltar a cruzá-lo em direcção oposta, depois da bênção do orago, ele diria :fez-se luz!" Ora bem, o autor realmente não refere Serviliano no livro mas refere por exemplo Caio Calpurnio Rufino pois no templo de culto Serápico em Panóias aparece mencionado o seu nome por várias vezes nas fragas. Esta, por exemplo: "Aos Deuses infernais irados que aqui moram, dedicou Gaius Calpurnius Rufinus, varão eslcarecido, com este templo uma cavidade para se proceder à mistura" Diz também o autor que soldados da VII divisão eram oriundos da Ásia Menor onde o culto a Serápis estava em grande ascensão.

Tudo isto para para expor a hipótese que talvez Serviliano podesse praticar o culto a Endovélico, sendo essa a única razão pela qual ao atravessar o ribeiro Lucefecit tivesse dito fez-se luz, pois isso seria como a conclusão do rito como menciona este autor. Sabemos que os romanos muitas vezes aceitavam e praticavam os cultos locais.

Ab

De Alvor-Silves a 03.02.2016 às 04:48

Obrigado pela informação adicional.
Só gostaria de notar que este postal segue o anterior, onde se fala dessa Rocha da Mina:

http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/06/rocha-estrombolica.html

e de certa maneira as minhas conclusões sobre esse culto, na altura, ficaram aqui:

http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/08/puto-de-venus.html

... ou seja, resumindo, tratava-se de um culto do par mãe-filho, representado por Vénus e Cupido, mas onde este Cupido teria mais os atributos de Mercúrio/Hermes.
Acresceu a isso concluir que o par céltico Lugh e Dana, se deve ler Luz e Ana, porque corresponde aos atributos de ambos, e vão de Lugo na Galiza, ao rio Ana, hoje Guadiana. Assim, por exemplo, é fácil ler Lusitana como o par "Luz et Ana".
O par mãe-filho continua hoje a ser alvo de culto, no par Jesus e Maria, que é próprio do catolicismo e não do cristianismo protestante.
Esta ligação tudo aponta para ser uma evolução do culto ainda mais antigo, das antigas Vénus paleolíticas, em sociedades mais matriarcais, que perderam a sua influência na transição para a agricultura do Neolítico.
Reparará que à Lua (medida do tempo antes da agricultura) tem associadas deusas, enquanto ao Sol (medida do tempo para as estações agrícolas) tem sempre associados deuses.
Houve assim uma deposição da antiga divindade Ana (aliás o nome da avó materna de Jesus), pelo Ano... e o plural de Ano são Anos (com "o", mas que se lê como "u"), e com alguma imaginação perceberá do problema que estou a falar, acrescendo 3 textos:

http://odemaia.blogspot.pt/2014/10/di-ana.html

http://alvor-silves.blogspot.pt/2013/02/panoptico-ou-ovo-de-colon.html

http://alvor-silves.blogspot.pt/2014/06/mau-tempo-no-canal-das-historias.html
(porque se aos homens calha "a Marte", as mulheres são de "Vê-nos")

Se me disser "o Tanas", compreendo, mas note que a diferença que vai de Sant'anas a Satana's está num "n".
Acresce, e esta ainda não o tinha escrito... que verá que em grego cavalo se diz "hippo", que é o que fica por baixo como no prefixo "hipo", enquanto quem fica por cima é o "hiper", o montador.
No latim passou a ter "equino", onde o prefixo "equi" passou a significar "equidade", igualdade.
Em português tem informação adicional... só herdámos a "egualdade" pelo lado equestre das "éguas", pois o "cavalo" precisa "que avalo", ou seja que dá o aval, ou então significa "que abalo", na versão mais espanholada.

Por isso, como vê, eu prefiro ir por outro lado no que se refere à mitologia antiga, sobre a qual só há especulação.

O nome Endovélico parece-me uma atribuição sobrelevada, por ser atestada pela parte romana, mas sem registo significativo... aliás, há já uma lista inventada de nomes de possíveis divindades de "mitologia lusitana", baseados em meia dúzia de palavras mal escritas em rochas.

A isso, convém notar a questão sobre Panóias e o tal "Rufino":

http://alvor-silves.blogspot.pt/2015/11/seguindo-os-pes-de-barros-4.html

ou seja, Barros dizia que em Panóias as letras não podiam ser lidas, por serem anteriores aos Romanos... e não é isso que ficou visível depois do "restauro" feito no Séc. XIX.

Agora, a versão de um culto iniciático, que menciona do livro, também tem algum nexo, porque na Grécia eram conhecidos cultos iniciáticos complexos, mas parece-me ser uma especulação de generalização, e quando é para especular, gosto de brincar a sério.

Mais uma vez, obrigado, e um abraço!

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