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Pela mão de Sebastião

por desvela, em 21.08.15
Hoje é Embaixada de França o que antes foi o Palácio de Santos.
Para mostrar como o edifício foi querido de D. Sebastião, temos esta descrição na página da Embaixada:
D. Sebastião (rei de 1557 a 1578), sucessor de D. João III, considera, pelo contrário, o Palácio de Santos como uma das suas residências preferidas. Em 1576, o monarca escapou a uma violenta explosão dos armazéns de pólvora que se situavam nas margens do Tejo, do lado da actual Rua das Janelas Verdes. O sinistro danificou muitíssimo o Palácio. Em 1577, o Palácio de Santos é o teatro de uma cena histórica: o rei recebe a notificação do seu ministro contra a campanha, na África do Norte, que ele estava a preparar. A 25 de Junho de 1578, o rei D. Sebastião parte de Lisboa para Marrocos. Na véspera, assiste à Missa na Igreja de Santos-o-Velho e diz-se ter tomado a sua última refeição no Palácio, na mesa de mármore que se encontra no actual jardim. Esta cruzada contra os Mouros termina com a catástrofe de Alcácer Quibir (4 de Agosto) onde morre uma grande parte da nobreza portuguesa próxima do rei (um filho, Afonso, e dois netos de Jorge de Lancastre são mortos; um outro neto, Luís, é feito prisioneiro).
Depois desta perda, os Lancastre instalaram-se novamente no Palácio de Santos que se encontrava num estado lastimável, devido à explosão dos armazéns de pólvora e da sua ocupação pelo exército de Filipe I que veio, em 1580, afirmar as pretensões do seu monarca ao trono português, depois de extinta a dinastia de Aviz. Luís de Lancastre (1540-1613), regressado de Marrocos, depois de ter sido pago um grande resgate, compra o Palácio às Comendadeiras, mas esta aquisição foi contestada pelo poder real. Só em 1629, o seu filho, Francisco Luís (1580-1667), consegue finalmente comprar o Palácio definitivamente às Comendadeiras com a autorização real. O Palácio fica na posse dos Lancastre até 1909.
É sobre o episódio da Explosão dos Armazéns de Pólvora, que destaquei, que encontrei esta transcrição.numa compilação de manuscritos constante na Biblioteca Nacional

Documentos de várias tipologias, relativos à história portuguesa, 
sobretudo do reinado de D. Sebastião
 (pag.121-123)

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Del Rey D. Sebastião de mão própria 
ao Magnífico Embaixador D. Juan da Silva

Magnífico Embaixador,
havendo-vos escrito por Miguel de Moura, me pareceu toda via por mim escrevermos o que mais oferece para o dizerdes ao Senhor Rey meu tio e ao Duque de Alva, e ao Prior Dom António, e se discorrer ponderar, e entender o que Deus mostrou, e o como aprovou quão servido foi destas Vistas e do que delas deve proceder e resultar com permitir e ordenar que sucedesse o efeito da Pólvora, que foi tanta como na carta que escrevo a D. Cristovão de Moura, e tão grande a ruína e perigosa, como desta entendereis. Nestas casas caíram muitas pedras e com tanta força que quebraram as pedras das paredes e os tijolos em que deram, que ainda fizeram algum dano em quem não fora pedra, na casa do conselho morreram sem falta todos os que nela estivessem e pelas horas em que foi, se eu aqui me achara alguns morreram que fora

grande perda, podendo ser isto a outras, que os que nela alcançava não fora tão grande perda. Nesta casa em que estou entraram algumas pedras com mais força da com que o Alferes Mor monteia, e da com que D. Diogo de Cordova esperava os Porcos de Portugal com os seus venablos. Porque nas paredes em que deram desfizeram a Cal, e quebraram as pedras delas, e uma deu com esta força onde eu aquelas horas costumo estar assentado, e onde estou encostado à parede, e finalmente de onde me fica a cabeça. Lembra-me que quando me tivestes, e D. Cristovão nesta casa, que o Imperador era falecido, e que visse o que escreveríeis no das Vistas, vos respondi que entendia se nelas houvesse dilação segundo as coisas que sempre corriam, e se ofereciam, se não efectuariam. O que se viu ser assim, pois se não partira quando parti, suposto o sucesso da Pólvora, e o efeito das Pedras, e a que me alcançava na cabeça com a força que se viu trazia, pelo que na parede e pedras dela fez, eu não pudera partir. De onde se pode bem inferir que por uns dias de dilação não foram estas Vistas e se perdera a grande importância delas. Em que se vê permitir Nosso Senhor que fosse este acontecimento uns dias depois que parti, e não permitir que acontecesse muito depois, nem algum antes, porque sendo dias depois, parecia sem mistério e sem interpretação; sendo antes, parecera não permitir tal sucesso.

Sendo no dia em que foi, mostrou o que em tudo por tão diferentes modos, e densas demonstrações quer que se entenda e se veja por se sentir e recear, e que ou a razão convença e obrigue, ou o receio mova e persuada declarando Deus e tão claramente mostrado que não somente se perdem as coisas por se passarem as conjunções delas, mas se perdem por um dia de Dilação nas boas ocasiões para elas. E que além de se ver quanto se perde nisto nas coisas que convém, mostra Deus com castigo quando se ofende visto por o muito que o contrário modo a seu serviço convém e importa. Finalmente experiencia razão, e a escritura, provam esta conclusão, lendo-se em um Salmo tempus faciendi Domino dissipaverunt legem tuam ideo mandata tua dilexi super aurum, donde se tempo de haver fazer destruir a Lei de Deus, que fará por não fazer o tempo de não fazer, e muitas vezes dizem as coisas de si o que dizia Job por si (si mane me quaesieris, non subsistam) e parece-me que a quem as coisas isto puderem dizer, poderá de si dizer as mesmas coisas (si nunc me quaesieris tam non subsisto). Tenho-me alargado tanto que ia posto mais dizer, que não sei. O que digo que cuidar que sei ia o que escrevo, referi ao Senhor Rei meu tio a 

história desde o acontecimento com interpretação .
Ao Duque d'Alva lede esta carta e ao Prior D. António e lede-a com D. Cristovão e avisai-me como leu o Duque a minha carta, e se viu o que sobre ele e o Prior escrevi ao Senhor Rei meu tio


Diz que quer vir agora cá, um homem que está em Évora vestido de vermelho a falar em coisas que lhe importam, e não advirte que sendo vista, queixa geralmente dizer o homem que o não ouviram, quanto maior deve ele ter de si e de quem o ouvir, podendo dizer com o mesmo encarecimento, que o ouviram.

Dizei a D. Diogo de Cordova que os porcos de Salvaterra e de Almeirim o desafiam, e o esperam para entrar com ele em mato e não em campo e que eu serei seu padrinho no mato e no campo;
Escrevei-me de como fica o Duque de Alva, e se achou estes dias, dizei-lhe que espera cedo pelo homem que me escreveu me mandaria, e pelas mais coisas que com ele haviam de vir, e que neste intento e para este efeito se procede cá nas coisas, e que das que se oferecem de novo o avisarei, e assim tenho por mui certo se procederá lá em tudo.

de Lisboa 26 de Janeiro de 1577
Rey
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Portanto, esta explosão dos Armazéns da Pólvora não foi vista como um mero acidente por D. Sebastião, e noutros documentos podemos ver como o Embaixador de Espanha se queixa de que ele, por mais explicações que lhe sejam dadas por si ou pelo Rei de Espanha, não acredita em nenhuma.

D. Sebastião é irónico, e aproveita a questão dos "porcos" para desafiar directamente D. Diogo de Cordova, e o Duque de Alba. Inclui ainda na "lista", Cristovão de Moura, e também o Prior do Crato.
Portanto, de certa forma esta carta mostra que D. Sebastião não estava completamente desavisado de eventuais vontades externas contra a sua vida, e facilmente apontava isso a Filipe II de Espanha, seu tio, ou aos seus associados mais directos.

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publicado às 07:58


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