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Rocha Estrombólica

por desvela, em 07.06.11
Há uma quantidade de palavras cuja origem é estranha e de alguma forma indeterminada, ainda que haja sempre alguma explicação mais ou menos original. Um desses casos é a palavra "Estrombólico"... que irei aqui associar à Rocha da Mina, perto de Terena, assinalada num comentário por Olinda Gil.

Estrombólico (Strombolicchio)
Trata-se de um pequeno rochedo em face da ilha vulcânica Estromboli (Stromboli, uma das Ilhas Eólias), cuja forma é suficientemente estrombólica, especialmente na parte da formação que parece uma cabeça rochosa.
Rochedo Estrombólico / Strombolicchio

Em "Uma viagem de duas mil léguas" de Cláudio Barbuda (e Filipe Xavier), 1848, anunciava-se o nascimento de novas ilhas perto dos Açores, Estromboli e Santorino. Não há muitos vulcões activos na Europa, e na zona da Sicília/Nápoles encontramos alguns dos mais famosos, o Vesúvio, o Etna e o Stromboli. Era nesta zona que eram colocados os deuses Vulcano, associado ao fogo, e Eólos, aos ventos.
Cláudio Barbuda dá conta da grande diferença entre vulcões activos na Europa (1 continental, 12 nas ilhas), face à América (97 continentais, 19 nas ilhas), à Ásia (8 continentais, 58 nas ilhas), e especialmente a ausência de vulcões na África, exceptuando nas ilhas (?), ainda que o Kilimanjaro devesse ter sido considerado (mas não tinha sido escalado).
Nesse relato de Barbuda, fala-se ainda da diferença nas erupções - "na Europa e Ásia tudo é lava ou pedra, porém na América lançam de si greda, escória de azouge e carvão, e algumas vezes água e peixes fervidos".
Não sei a origem da palavra "estrombólico", mas já era usada no Séc. XIX, e não disponho de nenhuma informação sobre algo estranho em erupções do Stromboli, nomeadamente algum relato de cuspir "peixes fervidos" para que constasse como associação bizarra.

Ilha Sabrina
O relato de Cláudio Barbuda, no que respeita aos Açores, refere-se à ilha de Sabrina - um episódio de 1811 já pouco conhecido no continente, mas que os açorianos relembram. 
A ilha Sabrina, ao largo de S. Miguel, relato do comando de Tillard.

Uma erupção formou uma ilha reclamada pelo navio inglês Sabrina, mas que não se consolidou e desapareceu pouco depois... evitando um problema de disputa territorial ao largo de S. Miguel.
O mesmo problema territorial é reportado numa erupção do vulcão submarino Empedócles, que originou em 1701, 1831 e 1866, a ilha Julia ou Ferdinandea e cuja volatilidade da propriedade foi ironizada por Julio Verne.
Seria este relato o referido por Barbuda, associado ao Estromboli? 
O Stromboli está no norte da Sicilia e não no sul, onde apareceu esta ilha Julia... e por outro lado, relativamente Santorini confirmamos Nea Kameni na erupção de 1707.

Rocha da Mina (Terena)
Por simples comparação visual, a Rocha da Mina, associada ao culto do Endovélico, tem uma configuração também "estrombólica" parecendo revelar uma cabeça rochosa. 

 
Rocha da Mina, Alandroal 

aqui afirmámos que o culto de Endovélico nos parece ter sido uma invenção romana, destinada a ocultar a religião original ibérica, que se centraria num culto não muito diferente do greco-romano, elevando acentuadamente a figura de Hércules... ou o "homem da maça". Este parece ser o único registo confirmado desse culto, que estaria ao mesmo tempo associado a Cupido, deus do amor...
Na nossa opinião a origem dessa confusão tem um protagonista inicial, que poderá ter deixado rasto não muito longe... em Juromenha!

Juromenha
Uma das fortalezas mais espectaculares que ainda restam é a de Juromenha.
A construção inicial de Juromenha está envolta nalgum mistério, sendo claro que sofreu alterações posteriores, nomeadamente na altura das Guerras da Restauração e seguintes.
Castelo de Juromenha

Encontramos o relato do Padre António Carvalho da Costa, na Corografia Portuguesa de 1708, que diz o seguinte:
No Bispado de Elvas, onze legoas de Aviz para o Nascente, três de Borba para о Oriente, & três de Elvas para o Ocidente, nas margens do rio Guadiana, em lugar iminente, forte por natureza, & arte tem seu assento a Villa de Jurumenha, cercada de fortes muros, que edificou Julio Cesar (segundo a tradição dos moradores) a quem os Latinos chamam Julii maenia, corrupto hoje em Jurumenha. Foi fundada pelos Galos Celtas muitos anos antes da vinda de Christo, & depois El Rey Dom Diniz a aumentou pelos anos de 1312.
Ou seja, havia a tradição local de associar as muralhas de Juromenha a Júlio César, a que se acrescenta a derivação de Julii Maenia. É mais uma associação à família Julia de Júlio César, que tem outras derivações conhecidas:
Pax Julia (Beja), Liberalis Julia (Evora), Felicitas Julia (Lisboa)
Não é difícil compreender que Júlio César teve sucesso (felicitas) na Lusitânia, sendo conhecido que passou a pagar em ouro puro às suas legiões, muito provavelmente devido a uma combinação de paz (pax) com os povos locais, que admitia alguma liberdade (liberalis) nativa.
Essa paz terá tido algum compromisso com o culto, ou melhor cult-ura, lusitana, onde o Endovélico terá sido uma peça para a ocultação de cult-os, ou cult-uras, anteriores. Em particular, torna-se evidente que a fortaleza de Juromenha seria implantada por cima de uma fortaleza celta...
Esta tendência foi ainda reafirmada por Octávio, depois imperador Augusto, de tal forma que a Era Hispanica foi marcada a partir da sua presença na Hispania, e subsistiu na marcação de anos até D. João I.

Lucefece
Como bem observou Olinda Gil, perto de Terena corre a Ribeira de Lucefecit (ou Lucefece), afluente do Guadiana, e indicamos um excelente artigo de Heitor Pato sobre este tema.
Outras origens do nome já tinham sido abordadas pelo Padre António Carvalho da Costa em 1708:
(...) corre por ele uma ribeira chamada Lucefece, que tomou o nome do que disse um Capitão, o qual dando uma batalha na Serra d'Ossa assim chamada dos muitos ossos, que nela ficaram dos que na batalha morreram) indo-se recolhendo, & chegando a esta ribeira, vinha amanhecendo, disse para os seus Lucent fecit, & que desta palavra tomou o nome. Há neste termo uma Paróquia dedicada a N. Senhora do Rosário com um Cura da Ordem de Aviz, & uma Ermida do Arcanjo S. Miguel perto da Vila de Terena , fundada nas ruínas daquele célebre, & antiquíssimo templo dedicado a Cupido, chamado Endovelico na lingua dos antigos Lusitanos.
Não é explicado qual é o Capitão... mas sendo romano, poderia até ser o próprio Júlio César (*). O efeito terá sido devastador pela quantidade de ossos dar origem ao nome da serra... e este "Lucem fecit" ou "faz-se luz" fica com um significado carregado, um pouco diferente do "Lucifer" enquanto estrela de alva. 
Encontramos ainda nas margens dessa ribeira, a Igreja da Boa Nova, de Terena, já ligada a uma relação posterior, à filha de Afonso IV que convenceu o pai a apoiar o rei de Castela, seu marido, na Batalha do Salado. A imagem do Séc. XIX, que encontrámos na revista Panorama de 1847, é próxima da actual:

Vila do Cano, Sousel
Acabamos na Vila do Cano este pequeno périplo naquela zona alentejana, que muito provavelmente em tempos antigos seria quase costeira pela proximidade do extenso mar interior... É epíteto da vila ser "a mais vetusta das vetustas"... mas desconhecemos de onde vem tal pretensão de tão grande antiguidade.
tínhamos falado sobre esta vila, como exemplo alternativo aos Olhos de Fervença, pela referência aos tais olhos de água, sobre os quais o Padre António Carvalho da Costa, em 1708, diz:
Para o Nascente tem uns olheirões de água, que chamam a "fonte dos olhos", por estar neles fervendo tanta agua, donde sai um cano dela, com que moem azenhas, & pizão; Se a água das azenhas se converte em pedra dentro na caldeira, de sorte que muitas vezes se tira dentro dela outra caldeira de pedra, que se fez da agua & por tradição antiga se conta que já estes olheirões indo um homem com um carro о sorveram com carro & boys, & não apareceu mais.
Fica assim uma outra referência ao tal fenómeno popular de "desaparecimento" próximo de tais "olhos de água", que invocam alguma nascente de origem vulcânica, pela descrição.

Álamo
Regressamos assim ao "estrambólico", não apenas pela descrição destes fenómenos, mas pela descrição de uma eventual nascente termal, que tinha um cano... 
A Vila do Cano, que já no tempo romano teria a designação Cannum, mantém no seu brazão um enigmático cano... Carvalho da Costa fala dessa origem do nome, sugerindo os múltiplos canos, ou um cano de natureza singular.
Não muito longe vamos encontrar a Torre de Camões, ou Torre do Álamo:
Brazão da Vila do Cano, e Torre do Álamo, ou de Camões, concelho de Sousel

A associação da Torre do Álamo a Luís de Camões parece dever-se à história de que ali teria escrito grande parte dos Lusíadas... ou talvez dito de outra forma, que grande parte da História dos Lusíadas poderia ser encontrada por ali. No plural de Álamo(**)... Los Alamos ficou depois célebre nos EUA pelo projecto atómico, e adequadamente finalizamos com uma associação "estrambólica".

Habitualmente não consideramos invulgares fontes de águas sulfurosas, as ditas Caldas, em diversas povoações ibéricas, apesar de já não haver qualquer registo de actividade vulcânica há muito tempo! Essas fontes assumem uma origem interna, e um calor interno, que se manifesta nos vulcões, cuja distribuição é algo peculiar, conforme apontava Cláudio Barbuda. Essa erupção resultante de uma pressão e fonte interna de calor poderosa tem um problema temporal... se já não existe fonte de calor, a manifestação de actividade vulcânica tenderia a desaparecer rapidamente, pelo arrefecimento natural (equilíbrio térmico). Porém, nada disso acontece... e o fenómeno das erupções do Stromboli, razoavelmente periódicas e contínuas, indicia ao contrário uma permanência de fonte interna de calor durável. Qual?

Notas adicionais (7/6/2011)
(*) Esta hipótese vai ser completamente descartada no post seguinte.
(**) Convém notar que Álamo é um tipo de madeira semelhante ao Choupo. Ao nível da história americana, o episódio do Forte Álamo foi marcante na definição da independência do Texas (que veio depois a ser integrado voluntariamente como estado dos EUA).

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publicado às 07:43


5 comentários

De Anónimo a 08.06.2011 às 04:39

É curioso que no Códice Voynich, que, segundo depreendo, lhe desagrada considerávelmente, esteja referido Otlidas. Lembrei-me disso a propósito de Ilisia e Tarsys, que o Da Maia, já aqui referiu.
Será que o Voynich é um livro de Genealogia?

Maria da Fonte

De Alvor-Silves a 08.06.2011 às 10:23

Sésamo...
indo para palavras código, interessa-me mais!

Otlidas, francamente não sei onde quer chegar... desconheço qualquer relação como Elisa e Tarsis, e se for como anagrama dará para muita coisa!

Gosto dos desenhos do Voynich, têm algum mistério... mas o que acho perda de tempo é tentar perceber o que estará escrito em código.

Considero bem mais instrutivo perceber as mensagens subreptícias que nos foram sendo transmitidas das formas mais estranhas e inocentes...
De que Sésamo falava o Aladino de Galland?
Da planta que se abria ou doutra coisa?
Por que razão Dumas vai recuperar as histórias de Aladino e Sindbad no Conde de Monte Cristo? Que Monte Cristo é esse afinal?
São tudo nomes inventados, ou a popularidade resulta de encerrarem mensagens?... Como quando Julio Verne fala do gigante de Felix Plater, como quando Charles Dickens se refere às Grutas de Creta que corresponderiam à lenda do Minotauro, etc...

Li há pouco tempo um comentário noutro blog que sugeria que a troca de versos nos Lusíadas contaria uma outra história! É uma boa teoria. Como vê, há enigmas encriptados por todo o lado, é só uma questão de imaginação.

Eu sigo pelo mais simples (ou melhor, mais acessível... não é nada simples), e não pelos mistérios recomendados/encomendados por outros, acho que já deixei isso bem claro aqui várias vezes.

E agora Lusii fecit!

Abraços!

De Olinda P. Gil © a 08.06.2011 às 20:14

Obrigada pela referência. Ainda gostava de saber a razão pela qual as fonte de Andorra lançavam água a 70º. Entendo o funcionamento das águas termais, relacionado com as falhas sísmicas, mas as de Andorra ultrapassaram o meu entendimento.

De Olinda P. Gil © a 08.06.2011 às 20:22

Já agora. A Igreja da Boa Nova é admirável

De danyelrib a 21.01.2012 às 12:18

apenas hoje me cruzei com este blog. Tem em conta que projecto visitar a Rocha da Mina e o dito local de adoração de Endovellicus. Aproveito para informar que esta entidade era adorada pelos lusitanos e que foi assimilada pelos romanos à semelhança do que aconteceu com os deuses gregos. Apesar de não existirem registos arqueológicos do culto a este deus, o nome indica ser anterior aos romanos. Endovellicus era um deus não peregrino e que era apenas adorado em São Miguel da Mata na Rocha da Mina possivelmente de modo algo tribal a onde iam peregrinos de vários locais. Os romanos ampliaram a adoração do deus criando um templo do seu modo.
Parabens pelo blog e agradeço as informações

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