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Sensabor do saber

por desvela, em 22.12.16
A. Griboyedov
O embaixador russo Aleksander Griboyedov foi assassinado em 11 de Fevereiro de 1829, quando uma multidão enraivecida, atiçada por mulahs em fervor religioso, irrompeu pela embaixada russa em Teerão, aniquilando a guarnição de cossacos que protegia a embaixada, e chacinando praticamente todo o pessoal da embaixada.

O contexto foi o final duma guerra entre o Império Russo e o Persa, e que terminou em 1828 com uma derrota persa, e consequente perda de territórios caucasianos, que fariam parte da Rússia até à desagregação da URSS.

Como o assassínio de um embaixador poderia ser um pretexto para nova guerra, o xá persa viu-se forçado a enviar o seu neto à corte do Imperador Nicolau I, oferecendo o Diamante do Xá, uma gema com 88 quilates (17.74 gramas), que pertencia aos xás desde 1591 (e que entre as suas inscrições, uma era do Xá Jahan, construtor do Taj Mahal). O diamante pertence agora ao espólio do Kremlin.
O diamante do Xá (ver entrega no filme "Russian Ark", 2002)
Griboyedov não ficou apenas associado a esse trágico episódio, já que um seu livro "A infelicidade do espírito" (uma tradução literal, talvez melhor ilustrada como "sensabor do saber") apesar de censurado, foi um sucesso, precursor da literatura russa, com uma sátira à nova aristocracia, surgida após as guerras napoleónicas. A infelicidade dos espíritos da sua embaixada foi compensada por um diamante, oferecido com pompa e circunstância. Até porque em 1829 a Rússia estava já envolvida noutra guerra, com a Turquia, para acesso da sua frota naval do Mar Negro aos estreitos... interrupção resultante das guerras de independência grega, ou sérvia, onde a Rússia também se envolvera.

Esta informação pode ser recolhida de diversas fontes, e surge no contexto do assassinato do embaixador russo na Turquia, ocorrido na passada segunda-feira, dia 19. Temos que recuar quase dois séculos para um incidente diplomático deste calibre.

No caso de Griboyedov, a reacção russa foi cautelosa, não assacando culpas excessivas ao xá persa.
Suspeitou-se então de eventual motivação britânica para manter uma guerra russa com a Pérsia, o que tem o seu sentido, atendendo ao conflito que sucedeu, na Guerra da Crimeia (1853-56), que visou manter a marinha russa limitada ao Mar Negro. 
Perante o colapso do poder otomano, a Inglaterra e França pretenderam então limitar uma expansão russa que pudesse ameaçar a própria conquista de Istambul, e o controle dos Estreitos - do Bósforo e Dardanelos.

A ascensão e solidificação de uma Rússia ocidentalizada foi o grande tranquilizante para uma Europa Ocidental, que de outra forma se poderia ver ameaçada constantemente pela pressão de uma expansão oriental. 
Desde o tempo da invasão dos Hunos de Átila, que foi considerado que a falta de um travão a Oriente, poderia implicar uma invasão oriental às portas de Roma. Essa ameaça esteve bem presente por parte de Genghis Khan, que planeou uma invasão da Europa. Os príncipes russos foram incapazes de resistir ao avanço mongol, e a guerra chegou a paragens polacas, húngaras e até alemãs. A mesma ameaça foi em seguida tomada por Tamerlão, que se via como sucessor do império mongol.
Desde o momento em que o conflito Ocidente/Oriente foi traduzido também pelo conflito religioso entre cristianismo e islamismo, que se tornou claro que haveria uma vulnerabilidade europeia por dois ou três caminhos. O caminho ibérico - pelo norte de África, que terminou numa invasão árabe da península ibérica, de que só se libertou por completo no Séc. XV. O caminho turco - pela conquista de Constantinopla, e ataque pelos balcãs até à Áustria. E finalmente, o caminho russo, mais exposto pela grande fronteira, fronteira europeia que terminaria onde terminasse a fronteira russa.

Portanto, a edificação de uma Rússia ocidentalizada, partilhando uma monarquia com as monarquias ocidentais, foi um passo fulcral para o estabelecimento global do Ocidente. Com a grande expansão de Pedro, o Grande, para oriente, levando as fronteiras ocidentais até paragens orientais, a Europa cuidou de proteger a sua fronteira mais vulnerável, às expensas dessa aliança russa. No entanto, ao mesmo tempo que criou uma nação de dimensões monstruosas, ocupando uma boa parte de dois continentes, cuidou para que essa nação estivesse limitada no seu papel de posto avançado europeu, evitando que tomasse para si ambições globais próprias - algo que só aconteceu quando a Rússia se transformou em URSS.
Note-se como foi bem diferente o processo que se passou no Norte de África, que era uma zona tão romanizada, como outra qualquer. No entanto, após a expansão islâmica, nunca mais o Norte de África veio a fazer parte englobante de um desenvolvimento ocidental. As monarquias marroquinas, argelinas ou tunisinas, eram árabes, sem qualquer contacto efectivo com o ocidente. 
Não tivessem tido sucesso os monges de S. Cirilo em cristianizar os povos eslavos, e poderíamos ter também estados islâmicos na Europa oriental. Mas ainda assim, durante a Idade Média, o último posto avançado ocidental era ainda definido pelos limites alemães e polacos, e os cavaleiros teutónicos combatiam pela defesa dessa fronteira oriental. 
Ao englobar e partilhar casamentos com as monarquias eslavas, a Europa expandiu-se para oriente, apesar de diferenças entre o cristianismo romano e ortodoxo. O mesmo nunca ocorreria pelo lado norte-africano que, perante o colapso islâmico, acabou por ver os reinos do magrebe reduzidos a colónias ou protectorados das potências europeias. Tivessem as monarquias europeias a mesma política de abertura, e não de segregação, a nível de casamentos, e os reinos norte-africanos não seriam encarados como territórios a colonizar... seriam tidos como partes iguais, como antes tinham sido, fazendo todos parte do antigo Império Romano. No entanto, no planeamento de partilha de despojos, na divisão colonial do Séc. XIX, a parte norte-africana seria reduzida à sua situação geográfica africana, pronta para o espartilho colonial, e não como um território igualmente herdeiro da colonização romana.

Depois, é fácil entrar nos clichés e informação condicionada pelos órgãos de comunicação ocidentais, e à contra-informação que surge de partes opostas. Basta escolher o lado da informação para se encontrar a informação que se adequa ao propósito.
As queixas sobre as vítimas inocentes de uma guerra, tanto se podem referir às mortes causadas em Aleppo por mísseis sírios com apoio russo, como antes podiam ser alocadas a americanos ou franceses (como no caso do massacre de Tokhar) que apoiavam os rebeldes... ainda que certas notícias tivessem praticamente negligenciadas pelos meios de comunicação ocidentais.
Numa guerra de desinformação, acaba por ser fácil escolher lados errados, é só escolher ler um lado da informação, e ignorar o contraditório. As consequências são quase sempre as mesmas... é um saber que se constrói pelo não querer saber.


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