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Spes mea in uno

por desvela, em 06.12.15
Sempre que nos propomos a fazer algo, temos que ter consciência do erro associado. 
Ou incorporamos esse erro como matéria presente na estrutura que apresentamos, ou estamos a entrar numa ilusão. É possível disfarçar o erro, fazendo passá-lo por propositado... Quanto menos literal, ou menos objectivo, for um texto que escrevemos, mais fácil será iludir erros como propósitos. Acresce que, de forma algo surpreendente, os erros tendem a acomodar-se numa complexificação, podendo levar outros a pensar que não é erro, é conhecimento mais profundo que não alcançam! Muito depende do crédito acumulado, e da disposição para alimentar farsas convenientes, coisa frequente na retórica política.

Num texto com mais de 5 anos, denominado Magos, apresentei uma imagem que disse ser do "Livro dos 3 Místicos"... e não o referi como "Livro 3 dos Místicos". Ora, há uma diferença entre uma coisa e outra! O texto tinha ali o propósito de ler "3 místicos" como 3 reis magos, e portanto para um conhecedor poderia ser uma barbaridade confundir isso com o terceiro livro de "místicos"... palavra que no contexto significaria terceiro livro de "miscelâneas" ou "misto"!
Nada mais simples do que dizer que "sabia disso", e que a associação era propositada para forçar a ligação aos três reis magos. Porque, ainda que a palavra "místico" tenha ali o significado de "miscelânea", também não perde o significado de misticismo, ilustrado pelas iluminuras.
Nada mais simples, mas longe da verdade, porque desconhecia esse significado da palavra "místico" para se associar a uma mistura... e nem encontro tal raiz num dicionário etimológico - nem pela via de místico (mysticus), nem de misto, mistura (mixtus, miscere) ou miscelânea (miscella, miscere), ou mesmo em mistério (mysterium). Depois, faz sentido... a mistura é confusão, que nos traz muito do que é misticismo. A raiz comum na palavra não aparenta sair do latim, e este duplo significado associando mistério a misto, parece ser exclusividade nacional de origem primeva.

Quanto ao Livro 3 de Místicos, parece assim ter muito pouco de místico, e ser muito mais de misto, numa mistura de registos de doações feitas a D. Afonso de Bragança. Portanto, foi claramente um erro da minha parte ao forçar uma eventual associação a magos, ou a três reis magos. De qualquer forma, esse erro de título em nada afectou o texto... que por virtude de falar na Fortaleza dos Reis Magos na cidade brasileira de Natal, se tornou no texto mais visitado (provavelmente por culpa duma má indexação da pesquisa Google à época). A designação oficial para este livro é: Terceiro dos místicos. Leitura del Rey Dom Eduarte e del Rey Dom Afonso o Quinto e del Rey Dom Joham segundo.

Há 6 livros de "Místicos", aparentemente pouco interessantes, e que fazem parte duma compilação maior, denominada "Leitura Nova", que foi feita à época de D. Manuel e depois D. João III. Uma boa parte desses livros têm iluminuras muito interessantes, e pouco conhecidas.
No Livro 2 dos Padroados podemos ver uma iluminara também com duas esferas armilares, mas dizendo agora:

SPES MEA IN UNO


Essa inscrição em latim é pouco frequente, quando comparada com outra muitíssimo semelhante:
 "Spes mea in Deo est", 
que consta como divisa do 32º grau da maçonaria, significando "a minha esperança está em Deus".
Aqui, a referência "Spes mea in uno" poderá significar "a minha esperança no uno...", referindo-se talvez à unidade da Santíssima Trindade.

Entretanto, encontrei um interessante livro de 1822:
O Véu Levantado, ou o Maçonismo Desmascarado
que servirá num próximo texto para mostrar uma certa ligação entre lemas já existentes, e lemas depois adoptados pela maçonaria, quando esta foi formalizada como tal.


Aditamento (06/12/2015):
Por lapso, esqueci-me de incluir o principal propósito deste texto que seria comentar a menção no Livro 2 dos Místicos sobre uma doação ao Infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, tio de D. João II, e pai de D. Manuel. Logo no início pode ler-se

Ao Infante Dom Fernando, doação das doze Ilhas S(sul) da Ilha de Santiago, 
e da outra de São Filipe e da Ilha das Mayas e outras...

Excerto do Livro 2 de Místicos de 1511
(antiga doação ao Infante D. Fernando, Duque de Viseu)
A única questão a este propósito tem a ver com o número e o nome das ilhas.
A referência a 12 ilhas a sul da ilha de Santiago, é no mínimo "mística"...

Se quisermos alinhar numa versão politicamente correcta desta doação, as ilhas mencionadas seriam as do arquipélago de Cabo Verde - a de Santiago, a do Maio, e a do Fogo, entendendo que Mayas se referia à do Maio, e que a de São Filipe seria a do Fogo. Mas, a observação é que o arquipélago de Cabo Verde tem na conta 10 ilhas, e a de Santiago é uma das que está mais a sul... não fazendo por isso nenhum sentido falar em 12 ilhas a sul, muito menos numa transcrição feita em 1511.

Portanto, o que temos aqui é um registo anacrónico, correspondente a outras paragens.
A ilha das Maias era uma das ilhas míticas que apareciam nos mapas, associada a paragens das Antilhas, ou Caraíbas, junto a paragens mexicanas dos Maias. Até porque o nome "ilha do Fogo" estava presente desde o mapa de Reinel de 1485, e não fazia chamar-lhe "São Filipe"... e ainda nesse contexto, o nome de "ilha de Santiago" seria colocado em paragens não caboverdianas.

O registo no livro 2 dos Místicos continua com atribuição ao Infante D. Fernando (pela parte de D. Afonso V, certamente), de uma ilha que "Gonçalo Fernandes houve vista vindo das pescarias do Rio do Ouro", bem como das ilhas de Jesus Cristo e da Graciosa, normalmente ligadas aos Açores (a ilha de Jesus Cristo seria a ilha Terceira).

Portanto, o que vemos aqui é uma das várias ocasiões onde podemos encontrar manifestas inconsistências com o registo oficializado dos descobrimentos.
Convém dizer que há pouca documentação interna que fale dos descobrimentos.
A passagem de D. João II para D. Manuel foi uma ocasião de desaparecimento completo de documentação, só ao nível do que depois seria o desaparecimento por ocasião do abalo de 1755. Os cronistas como João de Barros ou Damião de Góis queixavam-se do desaparecimento ainda no seu tempo.
Assim, quando se fala em "Leitura Nova" para esta documentação de D. Manuel, estamos ao nível de uma "revolução cultural" que eliminou vestígios do passado nacional (uma das coisas notadas é que o registo de doações ignora as iniciais feitas no Brasil).

Portanto, o que ocorre aqui parece ser um acto singular, porque tendo que suprimir viagens a paragens americanas, anteriores ao Tratado de Tordesilhas, o rei D. Manuel não quis apagar do registo as doações que tinham sido feitas a seu pai, ao infante D. Fernando, e foi este registo que parece que ficou, disfarçado com mudanças de nomes em ilhas caboverdianas. Ou seja, o que parece claro é que D. Afonso V tinha já feito doações ao seu irmão, em paragens americanas, ou pelo menos incertas...


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