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Cosquer - caverna rupestre submersa

por desvela, em 05.02.14
Apesar de ser claro que o nível de água teria que aumentar após a "Idade do Gelo", e que assim há diversos registos humanos que estão obviamente submersos, persiste a ideia de evitar considerar o assunto.
Basta ver o esforço em desacreditar que Yonaguni não seria construção humana:
Degraus submersos em Yonaguni (Japão) 
Degraus em Sachsayhuaman (Peru)
Comparação e mais imagens em: 

A Caverna Cosquer, perto de Marselha, foi "encontrada" em 1985 por Henri Cosquer, mas só foi "achada" em 1991, quando morreram 3 exploradores (informação da wikipedia). Durante 6 anos esteve encoberta, para além de ter estado realmente submersa durante vários milhares de anos.
Apesar de fazer já parte do património francês, dificilmente se pode considerar que a Caverna Cosquer tenha a atenção que deveria merecer, dado o carácter único do achado... longe disso! Já tinha visto muito sobre cavernas pré-históricas e nunca vi nenhuma referência especial a esta. Eu diria que apesar de achada, ainda não foi descoberta... usando os termos "achar" e "descobrir", segundo as conveniências políticas passadas, e por sinal presentes.
Ou seja, para descobrir, é preciso ter o acordo dos cobridores...
- Qual penso que seja o maior problema?
- Simples. Depois de tantos anos a desacreditar o misticismo, incluindo a história do dilúvio, ter de aceitar que houve uma inundação da área habitável é visto como uma possível credibilização bíblica, ao nível da população.

Entrada submersa a 37 metros
A entrada submersa da Caverna Cosquer está a mais de 30 metros, e como não se aceita que os nossos antepassados tivessem guelras, fatos de mergulho, ou capacidade de teletransporte, parece ter sido finalmente aceite que as pinturas foram feitas numa época em que o nível do mar estava dezenas de metros abaixo do actual - e a custo, fala-se em centenas, mas a barreira instituída, por agora, são os 150 metros... já que polvilham evidências por todo o lado até essa profundidade.

a entrada submersa leva uma gruta que está acima do nível de água... 

Ora, o que se encontra na Gruta de Cosquer?
Não parece ser muito diferente dos outros locais... registos de mãos pintadas, já datadas com 27 mil anos, e outras pinturas de animais, mais recentes, datadas com 19 mil anos.

O ministério da cultura francês tem uma página bastante boa:
e não se poderá criticar a ausência de reconhecimento governamental, neste caso.
Também há fundações privadas que têm um registo igualmente bom:

... mas o problema é que até fazer parte da "agenda de conversa" nos quiosques habituais da internet, nos livros dos divulgadores dedicados a estes e outros assuntos, a informação é residual. Na maioria das vezes somos apenas caixas de ressonância, repetindo num lado o que foi visto no outro, e é quase sempre a mesma informação seleccionada.
Como já disse, e creio ser natural, estes exemplos só servem para mostrar que deveria haver imensas cavernas com arte rupestre. Os nossos antepassados eram dados à espeleologia, e se não encontramos mais registos, muito provavelmente estão encontrados, mas por "descobrir", ou foram "lavados pelo tempo".

Deixamos algumas figuras, das várias que podem ser encontradas nos referidos sítios:



Merecem só uns pequenos comentários. Por um lado vemos que o local estaria próximo de caça de veados, cavalos, bisontes, o que nos parece que coloca a caverna não tão próximo do mar quanto isso... e por outro lado, a última imagem sugere realmente algum animal aquático.
A legenda da figura diz "três pinguins"... talvez pudessem ser pinguins, alcas, focas, ou lobos marinhos... mas com o mesmo grau de arbitrariedade também podemos pensar em coisas mais antigas, lembrando que o primeiro fóssil de réptil marinho foi encontrado numa caverna, em Maastricht, e foi o então famoso Mosossauro:

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publicado às 17:38


Fretum trium fratrum

por desvela, em 24.12.12
Tive conhecimento apenas há dias da morte de Manuel Luciano da Silva, que passou de forma mais discreta que José Hermano Saraiva, ambos falecidos neste ano de 2012. O meu conhecimento dos dois resumiu-se ao que divulgaram, cada qual à sua maneira e contexto. Há três anos quando começava a pesquisar sobre estes assuntos, o site DightonRock foi talvez dos primeiros onde vi alguma contestação mais consistente às versões oficiais. Nessa altura foram ainda importantes:
- Portugalliae de José Manuel Oliveira, 
- Ilhas Míticas do Atlântico de Rui P. Martins, 
- Causa Mérita de Rui Duque. 

É reveladora a frase que Rui P. Martins tem no final da sua página:
Fica já agora um agradecimento a todos os editores que rejeitaram os meus livros por não ter já publicado (o chamado ciclo vicioso) e por não ser um descendente de alguém famoso. Bem hajam! (e que ardam todos no Inferno)
Esta é uma pura informação de marinheiro, que serve de aviso à navegação seguinte. É um aviso de baixios, onde encalharam tantos esforços de divulgação.
Para que conste, acho que são tudo esforços infantis contra-a-corrente, e refiro-me apenas aos dos editores e seus mentores encobertos. 
A parte não tem nenhum poder sobre o todo. 
Por isso, toda a ilusão de domínio, controlo, poder, etc... não passa disso mesmo, de uma ilusão temporária. No máximo, as dificuldades levantadas, os dramas vividos, cumprirão a posteriori uma justificação de apuramento da consciência.

Um ponto comum nos autores que citei foi dar relevo à exploração dos Corte-Real, e nesse sentido junto mais alguma informação sobre o
Fretum trium fratrum (Estreito dos Três Irmãos)
Esta designação é comummente atribuída aos três irmãos Corte-Real, na expedição de 1500, a mando do Rei D. Manuel, e que já aqui referimos muitas vezes.

No livro "Voyages in Search of the North-west Passage", de Richard Hakluyt (1552-1616) é elucidativa a menção:
And the King of Portugal, fearing lest the emperor would have persevered in this his enterprise, gave him, to leave the matter unattempted, the sum of 350,000 crowns; and it is to be supposed that the King of Portugal would not have given to the emperor such sums of money for eggs in moonshine.
It hath been attempted by Corterialis the Portuguese, Scolmus the Dane, and by Sebastian Cabot in the time of King Henry VII.
And it hath been performed by the three brethren, the Indians aforesaid, and by Urdaneta, the friar of Mexico.
Portanto, temos uma compra do Rei de Portugal (provavelmente D. João III) no valor de 350 mil coroas, dadas ao Imperador de Espanha, que teriam o objectivo natural de silenciar a Passagem Noroeste.
Como Hakluyt diz ironicamente, tal valor não seria dado para "ovos ao luar" (uma receita da época)... seria naturalmente para manter a exclusividade da Rota das Índias.
Por isso, a ocultação de que nos podemos queixar hoje, foi também, como é óbvio, resultado da política comercial que privilegiava "o segredo do negócio".

Hayklut refere-se à tentativa de João Vaz Corte Real e de John Scolvus (John Scolmus, ou ainda Jan Kolna), que teriam participado na expedição comum organizada por Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, em 1473, que teria ainda Didrik PiningHans Pothorst (tidos como piratas), bem como Álvaro Martins. Estes exploradores foram recompensados, com capitanias (Corte Real e Álvaro Martins) e com o governo da Islândia (Pining)... e como diria Hakluyt não teria sido devido a "ovos ao luar".
Hakluyt inclui ainda na lista de tentativas falhadas Sebastião Caboto, filho de João Caboto, que teria sido forçado a regressar pela tripulação, ao tentar a Passagem Noroeste.

Mais notável é que Hakluyt não parece ter dúvidas que teria sido conseguida pelos três irmãos Corte-Real, sendo conhecida a história de Gaspar, que desaparece em 1501, do irmão Miguel que desaparece no seu encalce, e do irmão Vasco, que é proibido de os procurar por ordem de D. Manuel.

No entanto, aqui é preciso relativizar, e não cair no mesmo erro que criticamos (aceitar documentos sem olhar às intenções de quem os produz)... há intenções em Hakluyt - uma clara pretensão de convencer a Rainha Isabel I de Inglaterra a patrocinar as viagens pela Passagem Noroeste. Chega aliás a comparar a sua proposta, à proposta de Colombo à outra Isabel, a Católica. O objectivo era atingir o Oriente por essa Passagem Noroeste. 
Vai mais longe, e aqui vemos o problema de quem está fora do controlo da situação:
These things considered and impartially weighed together, with the wonderful commodities which this discovery may bring, especially to this realm of England, I must needs conclude with learned Baptista Ramusius, and divers other learned men, who said that this discovery hath been reserved for some noble prince or worthy man, thereby to make himself rich, and the world happy(...)
Ou seja, Hakluyt citava Ramusio (e "outros") para considerar que a descoberta estaria reservada para alguém devidamente "escolhido"... um autêntico "teórico da conspiração", este conselheiro de Isabel I. No entanto, é seguindo estes "teóricos da conspiração", que achavam que a Inglaterra estava a ficar "fora da submersa jogada" internacional, que Isabel I vai lançar as bases para a ascenção inglesa.
Richard Hakluyt (vitral na Catedral de Bristol)

Como já dissemos foi Hakluyt que traduziu António Galvão e o considerou uma preciosidade... tal como Galvão foi repudiado e acabou na miséria, Hakluyt cita outro exemplo:
Nevertheless, to approve that there lieth a way to Cathay at the north-west from out of Europe, we have experience, namely of three brethren that went that journey, as Gemma Frisius recordeth, and left a name unto that strait, whereby now it is called Fretum Trium Fratrum.  We do read again of a Portuguese that passed this strait, of whom Master Frobisher speaketh, that was imprisoned therefore many years in Lisbon, to verify the old Spanish proverb, “I suffer for doing well.”  Likewise, An. Urdaneta, a friar of Mexico, came out of Mare del Sur this way into Germany; his card, for he was a great discoverer, made by his own experience and travel in that voyage, hath been seen by gentlemen of good credit.
"Sofro por fazer bem...", é o ditado espanhol que Hakluyt usa para descrever a situação de um português que teria sido aprisionado muitos anos, por ter passado esse Estreito dos Três Irmãos, segundo Martin Frobisher. As explorações portuguesas pararam por decreto, e quem o desrespeitasse arriscava o cárcere. Hakluyt cita ainda o globo de Gemma Frisius que diz:

Fretum trium fratrum, per quod Lusitani ad Orientem et ad Moluccas nauigare e conati sunt

Esta afirmação de Frisius "Estreito dos Três Irmãos, pelo qual os Lusitanos navegaram e procuraram o  Oriente e Molucas" (assinalada por R.P.Martins), é uma das provas que Hakluyt usa para fundamentar a existência dessa mesma passagem. Ora, não são conhecidas razões que levassem o holandês Frisius a querer atribuir a navegação aos irmãos portugueses, a menos que ela tivesse de facto ocorrido. Para além disso, quer Ortelius, quer Lavanha, nos seus Theatrum Mundi, tinham contornos da zona ártica demasiado bons para serem apenas um mero acaso.
Há ainda uma curiosa menção ao frade e navegador espanhol André de Urdaneta, que também teria realizado a Passagem Noroeste, no sentido oposto. Porém, a partir daí, a partir do Séc. XVII, essa passagem irá revelar-se um plano falhado. A Inglaterra apostará nessa demanda, seguindo o conselho de Hayklut, e muitos dos nomes acabaram substituídos pelos nomes dos exploradores ingleses. Haveria um Promontório Corte-Real, perto de um rio Polisacus (referindo-se a Jan Scolvus), mas esses nomes foram convenientemente substituídos:
Moreover, the passage is certainly proved by a navigation that a Portuguese made, who passed through this strait, giving name to a promontory far within the same, calling it after his own name, Promontorium Corterialis, near adjoining unto Polisacus Fluvius.
Curiosamente, ainda hoje se mantém o nome "Labrador", referindo-se João Fernandes (Lavrador), que tem sido misturado na expedição de Caboto à Terra Nova. Injustamente parece que o nome de Caboto foi ignorado, e só permaneceu o nome do "lavrador"... Houve, é claro, um anterior João Fernandes ao serviço do Infante D. Henrique, mas não seria "lavrador". Até porque sabemos que as navegações do Infante iam sempre no contorno africano, e as do Atlântico resumiam-se a encontrar os Açores. Descobertos os Açores, que sentido é que fazia continuar para Ocidente? Parece que nenhum, parece que toda a exploração ocidental começara e terminara na descoberta dos Açores. Ora bem, nada mais lógico para a inteligência nacional.

O problema posterior, explica-se com um gráfico de alteração da temperatura:
Variação de Temperatura nos últimos 1000 anos (de john-daly.com)

Ao contrário do que tem sido propagandeado, o aumento de temperatura recente nada tem de tão artificial... e com isto ninguém está aqui a dizer que não há óbvios cuidados a ter com o meio-ambiente e poluição.
O que se passa é que há alguns ciclos naturais de temperatura (talvez pela actividade solar). A temperatura começou a aumentar no final da Idade Média ("Medieval Warm Period") atingindo o máximo no início das Descobertas, e depois vai começar a diminuir sucessivamente. No final do Séc. XIX terá atingido o seu mínimo global ("Little Ice Age").

Qual o problema disto? Os marinheiros dos Séc. XV e XVI estavam ainda a beneficiar desse período quente, as zonas árticas e antárticas não estavam tão inacessíveis à navegação quanto iriam ficar nos séculos seguintes. A Passagem Noroeste seria possível para os irmãos Corte-Real, mas começaria a ser quase impraticável para os exploradores que se seguiriam.

Talvez uma das mais dramáticas ocorrências é a de Hudson, que acabará abandonado pela tripulação, que se recusará a prosseguir na demanda pela Passagem Noroeste. A baía de Hudson que tomou o seu nome aparecia já sinalizada nos mapas de Ortelius e Lavanha. A concretização da passagem é atribuída a Amundsen, já no Séc. XX. 
No entanto, durante todo o Séc. XX a passagem esteve bloqueada pelos gelos, só sendo possível com quebra-gelos. Terá abrido recentemente com o degelo, que se atribui ao "aquecimento global", esquecendo o registo histórico da variação de temperaturas.
Ainda que haja uma nova passagem para os navios entre a Ásia e a Europa, parece que são preferidas as temperaturas mais frígidas, e o eventual perigo de desinteresse no Canal do Panamá é relativo, dada a cessão de controlo pelos EUA desde 1999.

O gráfico anterior é ainda instrutivo se atendermos a que se evidencia um ciclo de circa 500 anos, que colocaria a outra "pequena idade do gelo" no início da Idade Média, e um período mais quente na época romana, algo que já tínhamos sinalizado. Essa temperatura poderia ser de tal forma quente que os romanos consideravam as terras abaixo do Trópico de Cancer como inabitáveis.

Coloquei aqui apenas algumas citações do livro de Hakluyt relevantes para o tema, há ainda uma menção à chegada de índios na época do Império Romano e na época medieval, que Hakluyt associa à Passagem Noroeste. Provavelmente retira parte dessa informação de Galvão, conforme já mencionámos, mas o seu objectivo é forçar a via noroeste, negligenciando a rota nordeste, que depois será tomada por Melgueiro. A viagem de Melgueiro será especialmente notável, pois em 1660 os gelos já tornariam a navegação na Passagem Nordeste uma proeza única.

Nota: Hakluyt tem o nome numa Sociedade "The Hakluyt Society" onde se podem encontrar alguns textos que navegam contra a corrente oficial dos descobrimentos. Curiosamente tem também o nome associado a uma firma de "inteligência" que saiu do MI6 inglês -  Hakluyt Company.

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publicado às 06:08


Fretum trium fratrum

por desvela, em 23.12.12
Tive conhecimento apenas há dias da morte de Manuel Luciano da Silva, que passou de forma mais discreta que José Hermano Saraiva, ambos falecidos neste ano de 2012. O meu conhecimento dos dois resumiu-se ao que divulgaram, cada qual à sua maneira e contexto. Há três anos quando começava a pesquisar sobre estes assuntos, o site DightonRock foi talvez dos primeiros onde vi alguma contestação mais consistente às versões oficiais. Nessa altura foram ainda importantes:
- Portugalliae de José Manuel Oliveira, 
- Ilhas Míticas do Atlântico de Rui P. Martins, 
- Causa Mérita de Rui Duque. 

É reveladora a frase que Rui P. Martins tem no final da sua página:
Fica já agora um agradecimento a todos os editores que rejeitaram os meus livros por não ter já publicado (o chamado ciclo vicioso) e por não ser um descendente de alguém famoso. Bem hajam! (e que ardam todos no Inferno)
Esta é uma pura informação de marinheiro, que serve de aviso à navegação seguinte. É um aviso de baixios, onde encalharam tantos esforços de divulgação.
Para que conste, acho que são tudo esforços infantis contra-a-corrente, e refiro-me apenas aos dos editores e seus mentores encobertos. 
A parte não tem nenhum poder sobre o todo. 
Por isso, toda a ilusão de domínio, controlo, poder, etc... não passa disso mesmo, de uma ilusão temporária. No máximo, as dificuldades levantadas, os dramas vividos, cumprirão a posteriori uma justificação de apuramento da consciência.

Um ponto comum nos autores que citei foi dar relevo à exploração dos Corte-Real, e nesse sentido junto mais alguma informação sobre o
Fretum trium fratrum (Estreito dos Três Irmãos)
Esta designação é comummente atribuída aos três irmãos Corte-Real, na expedição de 1500, a mando do Rei D. Manuel, e que já aqui referimos muitas vezes.

No livro "Voyages in Search of the North-west Passage", de Richard Hakluyt (1552-1616) é elucidativa a menção:
And the King of Portugal, fearing lest the emperor would have persevered in this his enterprise, gave him, to leave the matter unattempted, the sum of 350,000 crowns; and it is to be supposed that the King of Portugal would not have given to the emperor such sums of money for eggs in moonshine.
It hath been attempted by Corterialis the Portuguese, Scolmus the Dane, and by Sebastian Cabot in the time of King Henry VII.
And it hath been performed by the three brethren, the Indians aforesaid, and by Urdaneta, the friar of Mexico.
Portanto, temos uma compra do Rei de Portugal (provavelmente D. João III) no valor de 350 mil coroas, dadas ao Imperador de Espanha, que teriam o objectivo natural de silenciar a Passagem Noroeste.
Como Hakluyt diz ironicamente, tal valor não seria dado para "ovos ao luar" (uma receita da época)... seria naturalmente para manter a exclusividade da Rota das Índias.
Por isso, a ocultação de que nos podemos queixar hoje, foi também, como é óbvio, resultado da política comercial que privilegiava "o segredo do negócio".

Hayklut refere-se à tentativa de João Vaz Corte Real e de John Scolvus (John Scolmus, ou ainda Jan Kolna), que teriam participado na expedição comum organizada por Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, em 1473, que teria ainda Didrik PiningHans Pothorst (tidos como piratas), bem como Álvaro Martins. Estes exploradores foram recompensados, com capitanias (Corte Real e Álvaro Martins) e com o governo da Islândia (Pining)... e como diria Hakluyt não teria sido devido a "ovos ao luar".
Hakluyt inclui ainda na lista de tentativas falhadas Sebastião Caboto, filho de João Caboto, que teria sido forçado a regressar pela tripulação, ao tentar a Passagem Noroeste.

Mais notável é que Hakluyt não parece ter dúvidas que teria sido conseguida pelos três irmãos Corte-Real, sendo conhecida a história de Gaspar, que desaparece em 1501, do irmão Miguel que desaparece no seu encalce, e do irmão Vasco, que é proibido de os procurar por ordem de D. Manuel.

No entanto, aqui é preciso relativizar, e não cair no mesmo erro que criticamos (aceitar documentos sem olhar às intenções de quem os produz)... há intenções em Hakluyt - uma clara pretensão de convencer a Rainha Isabel I de Inglaterra a patrocinar as viagens pela Passagem Noroeste. Chega aliás a comparar a sua proposta, à proposta de Colombo à outra Isabel, a Católica. O objectivo era atingir o Oriente por essa Passagem Noroeste. 
Vai mais longe, e aqui vemos o problema de quem está fora do controlo da situação:
These things considered and impartially weighed together, with the wonderful commodities which this discovery may bring, especially to this realm of England, I must needs conclude with learned Baptista Ramusius, and divers other learned men, who said that this discovery hath been reserved for some noble prince or worthy man, thereby to make himself rich, and the world happy(...)
Ou seja, Hakluyt citava Ramusio (e "outros") para considerar que a descoberta estaria reservada para alguém devidamente "escolhido"... um autêntico "teórico da conspiração", este conselheiro de Isabel I. No entanto, é seguindo estes "teóricos da conspiração", que achavam que a Inglaterra estava a ficar "fora da submersa jogada" internacional, que Isabel I vai lançar as bases para a ascenção inglesa.
Richard Hakluyt (vitral na Catedral de Bristol)

Como já dissemos foi Hakluyt que traduziu António Galvão e o considerou uma preciosidade... tal como Galvão foi repudiado e acabou na miséria, Hakluyt cita outro exemplo:
Nevertheless, to approve that there lieth a way to Cathay at the north-west from out of Europe, we have experience, namely of three brethren that went that journey, as Gemma Frisius recordeth, and left a name unto that strait, whereby now it is called Fretum Trium Fratrum.  We do read again of a Portuguese that passed this strait, of whom Master Frobisher speaketh, that was imprisoned therefore many years in Lisbon, to verify the old Spanish proverb, “I suffer for doing well.”  Likewise, An. Urdaneta, a friar of Mexico, came out of Mare del Sur this way into Germany; his card, for he was a great discoverer, made by his own experience and travel in that voyage, hath been seen by gentlemen of good credit.
"Sofro por fazer bem...", é o ditado espanhol que Hakluyt usa para descrever a situação de um português que teria sido aprisionado muitos anos, por ter passado esse Estreito dos Três Irmãos, segundo Martin Frobisher. As explorações portuguesas pararam por decreto, e quem o desrespeitasse arriscava o cárcere. Hakluyt cita ainda o globo de Gemma Frisius que diz:

Fretum trium fratrum, per quod Lusitani ad Orientem et ad Moluccas nauigare e conati sunt

Esta afirmação de Frisius "Estreito dos Três Irmãos, pelo qual os Lusitanos navegaram e procuraram o  Oriente e Molucas" (assinalada por R.P.Martins), é uma das provas que Hakluyt usa para fundamentar a existência dessa mesma passagem. Ora, não são conhecidas razões que levassem o holandês Frisius a querer atribuir a navegação aos irmãos portugueses, a menos que ela tivesse de facto ocorrido. Para além disso, quer Ortelius, quer Lavanha, nos seus Theatrum Mundi, tinham contornos da zona ártica demasiado bons para serem apenas um mero acaso.
Há ainda uma curiosa menção ao frade e navegador espanhol André de Urdaneta, que também teria realizado a Passagem Noroeste, no sentido oposto. Porém, a partir daí, a partir do Séc. XVII, essa passagem irá revelar-se um plano falhado. A Inglaterra apostará nessa demanda, seguindo o conselho de Hayklut, e muitos dos nomes acabaram substituídos pelos nomes dos exploradores ingleses. Haveria um Promontório Corte-Real, perto de um rio Polisacus (referindo-se a Jan Scolvus), mas esses nomes foram convenientemente substituídos:
Moreover, the passage is certainly proved by a navigation that a Portuguese made, who passed through this strait, giving name to a promontory far within the same, calling it after his own name, Promontorium Corterialis, near adjoining unto Polisacus Fluvius.
Curiosamente, ainda hoje se mantém o nome "Labrador", referindo-se João Fernandes (Lavrador), que tem sido misturado na expedição de Caboto à Terra Nova. Injustamente parece que o nome de Caboto foi ignorado, e só permaneceu o nome do "lavrador"... Houve, é claro, um anterior João Fernandes ao serviço do Infante D. Henrique, mas não seria "lavrador". Até porque sabemos que as navegações do Infante iam sempre no contorno africano, e as do Atlântico resumiam-se a encontrar os Açores. Descobertos os Açores, que sentido é que fazia continuar para Ocidente? Parece que nenhum, parece que toda a exploração ocidental começara e terminara na descoberta dos Açores. Ora bem, nada mais lógico para a inteligência nacional.

O problema posterior, explica-se com um gráfico de alteração da temperatura:
Variação de Temperatura nos últimos 1000 anos (de john-daly.com)

Ao contrário do que tem sido propagandeado, o aumento de temperatura recente nada tem de tão artificial... e com isto ninguém está aqui a dizer que não há óbvios cuidados a ter com o meio-ambiente e poluição.
O que se passa é que há alguns ciclos naturais de temperatura (talvez pela actividade solar). A temperatura começou a aumentar no final da Idade Média ("Medieval Warm Period") atingindo o máximo no início das Descobertas, e depois vai começar a diminuir sucessivamente. No final do Séc. XIX terá atingido o seu mínimo global ("Little Ice Age").

Qual o problema disto? Os marinheiros dos Séc. XV e XVI estavam ainda a beneficiar desse período quente, as zonas árticas e antárticas não estavam tão inacessíveis à navegação quanto iriam ficar nos séculos seguintes. A Passagem Noroeste seria possível para os irmãos Corte-Real, mas começaria a ser quase impraticável para os exploradores que se seguiriam.

Talvez uma das mais dramáticas ocorrências é a de Hudson, que acabará abandonado pela tripulação, que se recusará a prosseguir na demanda pela Passagem Noroeste. A baía de Hudson que tomou o seu nome aparecia já sinalizada nos mapas de Ortelius e Lavanha. A concretização da passagem é atribuída a Amundsen, já no Séc. XX. 
No entanto, durante todo o Séc. XX a passagem esteve bloqueada pelos gelos, só sendo possível com quebra-gelos. Terá abrido recentemente com o degelo, que se atribui ao "aquecimento global", esquecendo o registo histórico da variação de temperaturas.
Ainda que haja uma nova passagem para os navios entre a Ásia e a Europa, parece que são preferidas as temperaturas mais frígidas, e o eventual perigo de desinteresse no Canal do Panamá é relativo, dada a cessão de controlo pelos EUA desde 1999.

O gráfico anterior é ainda instrutivo se atendermos a que se evidencia um ciclo de circa 500 anos, que colocaria a outra "pequena idade do gelo" no início da Idade Média, e um período mais quente na época romana, algo que já tínhamos sinalizado. Essa temperatura poderia ser de tal forma quente que os romanos consideravam as terras abaixo do Trópico de Cancer como inabitáveis.

Coloquei aqui apenas algumas citações do livro de Hakluyt relevantes para o tema, há ainda uma menção à chegada de índios na época do Império Romano e na época medieval, que Hakluyt associa à Passagem Noroeste. Provavelmente retira parte dessa informação de Galvão, conforme já mencionámos, mas o seu objectivo é forçar a via noroeste, negligenciando a rota nordeste, que depois será tomada por Melgueiro. A viagem de Melgueiro será especialmente notável, pois em 1660 os gelos já tornariam a navegação na Passagem Nordeste uma proeza única.

Nota: Hakluyt tem o nome numa Sociedade "The Hakluyt Society" onde se podem encontrar alguns textos que navegam contra a corrente oficial dos descobrimentos. Curiosamente tem também o nome associado a uma firma de "inteligência" que saiu do MI6 inglês -  Hakluyt Company.

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publicado às 22:08


Próxima estação, verão!

por desvela, em 22.06.11
De acordo com Hesíodo, Perséfone filha de Démeter, teria sido raptada por Hades para o seu inferno e salva pela mãe. Porém, ao ter comido uma romã(*) oferecida por ele, houve um acordo de passar metade do tempo no submundo e outra metade fora das trevas.
Falamos hoje sobre as estações do ano... em dia de solstício e início de Verão!
Perséfone e a peneira (liknon) dos mistérios agícolas.

A alegoria de Perséfone, tal como a mãe Démeter ligada à agricultura, explicaria duas estações, uma mais fria (onde estaria com Hades), e outra mais quente. Esta diferença é marcada pelo rapto de Hades... ou seja, pode ter acontecido que antes não fosse assim. Quando? Como muitas outras coisas, a diferença é marcada pela transição entre a Idade do Bronze e do Ferro.

Porém, ainda assim, o clima na antiguidade tem que ser considerado moderado, e dificilmente podemos falar no clima que presenciamos hoje em dia. A razão mais simples para esta afirmação resulta das numerosas representações que nos chegaram. Usar uma simples toga parecia ser o mais comum, e os militares exibiam uniformes com as pernas descobertas... tudo indica um clima ameno, próprio de dias primaveris ou de verão! Exceptuando este registo de Perséfone, não conhecemos obras literárias, anteriores ao Séc. II, que falem do clima frio durante o inverno.


  
Augusto, Sétimo Severo, Justiniano
a mudança de trajo faz-se notar
repare-se especialmente nas pernas dos soldados de Justiniano.

Num dos poucos registos que encontrámos sobre o clima (o principal será Meteora de Aristóteles), citamos Plínio (Livro 2, Cap. 39):
For who can doubt that summer and winter, and the annual revolution of the seasons are caused by the motion of the stars? As therefore the nature of the sun is understood to influence the temperature of the year, so each of the other stars has its specific power, which produces its appropriate effects.
Plinio fala apenas de duas estações, e se associa a diferença de temperatura ao Sol, vai depois mais longe dizendo que os outros planetas também têm a sua quota parte! Explicita mesmo:
(...) this is particularly observable with respect to Saturn, which 
produces a great quantity of rain in its transits.

Para Plínio, um trânsito de Saturno provocaria chuva... esta afirmação só é compreensível se não fosse abundante no inverno.
O significado de "trânsito de Saturno" é desconhecido, já que astrologicamente é relativo aos signos (signos deve ler-se sinais) e astronomicamente só é aplicável a planetas interiores, na passagem pelo Sol... fenómeno difícil de observar.

O que pretendemos afirmar é que na transição para o final do Império Romano, e especialmente na Idade Média, o clima sofreu profundas alterações.
Mais concretamente, na antiguidade o Trópico de Cancer deveria estar situado não a 23º44', mas bem mais abaixo, provavelmente na zona dos 10º.
  
Inclinação de 23º44' da Terra face à sua órbita solar, e seu efeito nas estações do ano.

A diferença de inclinação poderia justificar não apenas a questão do clima, mas também a da orientação... ou seja, se não houvesse inclinação, o sol nasceria exactamente a Leste, e iria por-se a Oeste. Porém, o efeito da inclinação provoca uma mudança significativa, e dependendo da época do ano e da latitude, os erros podem justificar diferenças de 45º como aquelas que temos vindo a assinalar... isso seria tanto mais notório, quanto maior fosse a latitude. Não justifica erros para identificar o sul (seria sempre o meio-dia), mas poderia ser uma confusão para erros leste-oeste, dependendo até da nomenclatura.

Uma mudança deste género tornaria a vida complicada para os gauleses e outros povos do norte da Europa! Ou seja, a pressão climática pressionaria de forma desesperada a uma invasão de territórios situados mais a sul. Portanto, as invasões bárbaras do Império Romano podem ter resultado dessa mudança climática... progressivamente a situação afectaria as colheitas e tornar-se-ia insustentável para os Godos, que procuraram estabelecer-se a Sul. Quem permaneceu nessas latitudes ficou confrontado com uma vida de servidão medieval difícil... especialmente bem ilustrada no Livro de Horas do Duque de Berry:
Les Très Riches Heures du Duc de Berry (Fevereiro) 

De escravos em clima temperado sob égide do Império Romano, passavam a "homens livres" no novo estatuto de servidão medieval, sob condições climáticas agravadas. Assim, se antes os Romanos distinguiam essencialmente duas estações "Ver" e "Hiems", com Isidoro de Sevilha, no Séc. VII já vamos encontrar uma bizarra divisão dos meses, numa clara preocupação com as Estações... preocupação praticamente ausente na maioria dos geógrafos e escritores anteriores.
Uma curiosa rosa de meses, de Isidoro de Sevilla (Séc. VII)

É claro que a divisão em quatro estações era sempre conhecida - havendo periélio e afélio tem que haver dois equinócios. Os nomes Primavera e Verão são ambíguos face ao latino "Ver", procurando talvez invocar uma primeira "Ver" (Prima Ver), e uma "Ver" propriamente dita (Verão)... sendo que em latim Ver corresponde à Primavera e AEstas ao Verão (de onde vem o prefixo de estival).
Já mais interessante é a designação dada ao "Inverno"... se atendermos a que a usual confusão entre F e V leva directamente a "Inferno". Ao contrário de Outono que no latim é Autumnus, aqui não parece haver qualquer raiz latina, pois o termo Inverno é bastante diferente de Hiems.

O novo inverno medieval foi visto como um autêntico inferno...
Se isto parece estranho face à concepção que se foi enraizando de um inferno enquanto "profundezas escaldantes", devemos relembrar que essa concepção não é a do último círculo de Dante - no seu Nono Anel, onde está o próprio Lucifer, o mundo infernal é gelado. Essa seria a concepção medieval...

Há ainda uma outra questão complicada, esta inclinação de 23º da eclíptica (que define o plano orbital, e está na nossa esfera armilar) está injustificadamente bastante inclinada... e apesar de se pretender que há um outro efeito de rotação,  com período de 40 mil anos, estes valores dos astrofísicos actuais têm quase tanto significado como as previsões da evolução dos mercados... modelos de extrapolação básica e pretensiosa, que aliás vieram da mesma escola de física. É bastante mais natural supor que, dadas as forças de gravidade envolvidas, a inclinação do eixo não tem que ser fixa.

Haveria mais a dizer, notamos apenas que se a nomenclatura dos meses foi propagada quase literalmente na maioria das línguas europeias (tal como no caso dos dias da semana... a excepção católica é portuguesa), o mesmo não se passou no caso das estações onde há diferenças assinaláveis, exceptuando na designação do Outono.
No nosso caso, ficou-nos a oposição entre uma Primavera, primeira verdade, e um Inverno infernal... como lembrança etimológica.

Nota:
(*) Romã, em português é demasiado próximo de Roma para não ser notado. Especialmente se notarmos que em Espanha se denomina "granado", e esta raiz está presente em vários países. Lineu decidiu denominá-la punica granatum, juntando Cartago e Granada... dois reinos desaparecidos!
Pode ainda juntar-se a isto, o relato dos espiões de Moisés que lhe trouxeram este fruto como amostra da fertilidade da Terra Prometida... pois bem um fruto que junta Punica e Granada, e atendendo a Cartagena, é difícil ser mais concordante com a Estória que aqui coloquei sobre os Ebreus do Ebro...
O jardim e as suas frutas - laranjas portuguesas e romãs granadinas/andaluzes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:45


Próxima estação, verão!

por desvela, em 21.06.11
De acordo com Hesíodo, Perséfone filha de Démeter, teria sido raptada por Hades para o seu inferno e salva pela mãe. Porém, ao ter comido uma romã(*) oferecida por ele, houve um acordo de passar metade do tempo no submundo e outra metade fora das trevas.
Falamos hoje sobre as estações do ano... em dia de solstício e início de Verão!
Perséfone e a peneira (liknon) dos mistérios agícolas.

A alegoria de Perséfone, tal como a mãe Démeter ligada à agricultura, explicaria duas estações, uma mais fria (onde estaria com Hades), e outra mais quente. Esta diferença é marcada pelo rapto de Hades... ou seja, pode ter acontecido que antes não fosse assim. Quando? Como muitas outras coisas, a diferença é marcada pela transição entre a Idade do Bronze e do Ferro.

Porém, ainda assim, o clima na antiguidade tem que ser considerado moderado, e dificilmente podemos falar no clima que presenciamos hoje em dia. A razão mais simples para esta afirmação resulta das numerosas representações que nos chegaram. Usar uma simples toga parecia ser o mais comum, e os militares exibiam uniformes com as pernas descobertas... tudo indica um clima ameno, próprio de dias primaveris ou de verão! Exceptuando este registo de Perséfone, não conhecemos obras literárias, anteriores ao Séc. II, que falem do clima frio durante o inverno.


  
Augusto, Sétimo Severo, Justiniano
a mudança de trajo faz-se notar
repare-se especialmente nas pernas dos soldados de Justiniano.

Num dos poucos registos que encontrámos sobre o clima (o principal será Meteora de Aristóteles), citamos Plínio (Livro 2, Cap. 39):
For who can doubt that summer and winter, and the annual revolution of the seasons are caused by the motion of the stars? As therefore the nature of the sun is understood to influence the temperature of the year, so each of the other stars has its specific power, which produces its appropriate effects.
Plinio fala apenas de duas estações, e se associa a diferença de temperatura ao Sol, vai depois mais longe dizendo que os outros planetas também têm a sua quota parte! Explicita mesmo:
(...) this is particularly observable with respect to Saturn, which 
produces a great quantity of rain in its transits.

Para Plínio, um trânsito de Saturno provocaria chuva... esta afirmação só é compreensível se não fosse abundante no inverno.
O significado de "trânsito de Saturno" é desconhecido, já que astrologicamente é relativo aos signos (signos deve ler-se sinais) e astronomicamente só é aplicável a planetas interiores, na passagem pelo Sol... fenómeno difícil de observar.

O que pretendemos afirmar é que na transição para o final do Império Romano, e especialmente na Idade Média, o clima sofreu profundas alterações.
Mais concretamente, na antiguidade o Trópico de Cancer deveria estar situado não a 23º44', mas bem mais abaixo, provavelmente na zona dos 10º.
  
Inclinação de 23º44' da Terra face à sua órbita solar, e seu efeito nas estações do ano.

A diferença de inclinação poderia justificar não apenas a questão do clima, mas também a da orientação... ou seja, se não houvesse inclinação, o sol nasceria exactamente a Leste, e iria por-se a Oeste. Porém, o efeito da inclinação provoca uma mudança significativa, e dependendo da época do ano e da latitude, os erros podem justificar diferenças de 45º como aquelas que temos vindo a assinalar... isso seria tanto mais notório, quanto maior fosse a latitude. Não justifica erros para identificar o sul (seria sempre o meio-dia), mas poderia ser uma confusão para erros leste-oeste, dependendo até da nomenclatura.

Uma mudança deste género tornaria a vida complicada para os gauleses e outros povos do norte da Europa! Ou seja, a pressão climática pressionaria de forma desesperada a uma invasão de territórios situados mais a sul. Portanto, as invasões bárbaras do Império Romano podem ter resultado dessa mudança climática... progressivamente a situação afectaria as colheitas e tornar-se-ia insustentável para os Godos, que procuraram estabelecer-se a Sul. Quem permaneceu nessas latitudes ficou confrontado com uma vida de servidão medieval difícil... especialmente bem ilustrada no Livro de Horas do Duque de Berry:
Les Très Riches Heures du Duc de Berry (Fevereiro) 

De escravos em clima temperado sob égide do Império Romano, passavam a "homens livres" no novo estatuto de servidão medieval, sob condições climáticas agravadas. Assim, se antes os Romanos distinguiam essencialmente duas estações "Ver" e "Hiems", com Isidoro de Sevilha, no Séc. VII já vamos encontrar uma bizarra divisão dos meses, numa clara preocupação com as Estações... preocupação praticamente ausente na maioria dos geógrafos e escritores anteriores.
Uma curiosa rosa de meses, de Isidoro de Sevilla (Séc. VII)

É claro que a divisão em quatro estações era sempre conhecida - havendo periélio e afélio tem que haver dois equinócios. Os nomes Primavera e Verão são ambíguos face ao latino "Ver", procurando talvez invocar uma primeira "Ver" (Prima Ver), e uma "Ver" propriamente dita (Verão)... sendo que em latim Ver corresponde à Primavera e AEstas ao Verão (de onde vem o prefixo de estival).
Já mais interessante é a designação dada ao "Inverno"... se atendermos a que a usual confusão entre F e V leva directamente a "Inferno". Ao contrário de Outono que no latim é Autumnus, aqui não parece haver qualquer raiz latina, pois o termo Inverno é bastante diferente de Hiems.

O novo inverno medieval foi visto como um autêntico inferno...
Se isto parece estranho face à concepção que se foi enraizando de um inferno enquanto "profundezas escaldantes", devemos relembrar que essa concepção não é a do último círculo de Dante - no seu Nono Anel, onde está o próprio Lucifer, o mundo infernal é gelado. Essa seria a concepção medieval...

Há ainda uma outra questão complicada, esta inclinação de 23º da eclíptica (que define o plano orbital, e está na nossa esfera armilar) está injustificadamente bastante inclinada... e apesar de se pretender que há um outro efeito de rotação,  com período de 40 mil anos, estes valores dos astrofísicos actuais têm quase tanto significado como as previsões da evolução dos mercados... modelos de extrapolação básica e pretensiosa, que aliás vieram da mesma escola de física. É bastante mais natural supor que, dadas as forças de gravidade envolvidas, a inclinação do eixo não tem que ser fixa.

Haveria mais a dizer, notamos apenas que se a nomenclatura dos meses foi propagada quase literalmente na maioria das línguas europeias (tal como no caso dos dias da semana... a excepção católica é portuguesa), o mesmo não se passou no caso das estações onde há diferenças assinaláveis, exceptuando na designação do Outono.
No nosso caso, ficou-nos a oposição entre uma Primavera, primeira verdade, e um Inverno infernal... como lembrança etimológica.

Nota:
(*) Romã, em português é demasiado próximo de Roma para não ser notado. Especialmente se notarmos que em Espanha se denomina "granado", e esta raiz está presente em vários países. Lineu decidiu denominá-la punica granatum, juntando Cartago e Granada... dois reinos desaparecidos!
Pode ainda juntar-se a isto, o relato dos espiões de Moisés que lhe trouxeram este fruto como amostra da fertilidade da Terra Prometida... pois bem um fruto que junta Punica e Granada, e atendendo a Cartagena, é difícil ser mais concordante com a Estória que aqui coloquei sobre os Ebreus do Ebro...
O jardim e as suas frutas - laranjas portuguesas e romãs granadinas/andaluzes.

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publicado às 21:45


Ibéria estrábica

por desvela, em 20.06.11
O relato de Estrabão sobre a Ibéria dá quase para um mês de textos... tal como no caso de Roma e Pavia, não pretendemos fazer isto num dia!
Vamos por partes, e começamos com a questão da orientação, com a rotação de 45º que já tínhamos observado em Plínio (note-se que Estrabão é bastante anterior a Plínio, é contemporâneo de Augusto):

Iremos ver que a descrição de Estrabão (ou Estrabo, Strabo) também nos deixa estrábicos... o olho antigo aponta norte, enquanto o olho moderno aponta para noroeste. Os problemas de visão não começaram com os caolhos.

Sobre os Pirinéus é dito:
(...) particularly in the vicinity of the Pyrenees, which form the eastern side. 
This chain of mountains stretches without interruption from north to south
 and divides Keltica from Iberia.

O tradutor vê-se pois forçado a comentar: "The Pyrenees, on the contrary, range from east to west, with a slight inclination towards the north. This error gives occasion to several of the mistakes made by Strabo respecting the course of certain of the rivers in France."
Quando os relatos não coincidem com o que queremos ver, é fácil argumentar o erro alheio... o assunto fica arrumado, mesmo que estejam em causa logo dois da meia-dúzia de geógrafos, usados como referência na antiguidade. Será natural errar norte-sul com oeste-leste num geógrafo de referência? 

Com a rotação que fizemos no mapa em cima, percebemos do que fala Estrabão, e podemos ver as montanhas de norte a sul, dividindo a Céltica (Gália) da Ibéria...
Diz depois que a parte mais estreita está próxima dos Pirinéus, enquadrada pelos Golfos Céltico e Galático, que o tradutor associa (quanto a nós correctamente) ao Golfo da Gasconha/Biscaia e ao Golfo de Lyon. Só que Estrabão adianta...  
and they render the [Keltic] Isthmus narrower than that of Iberia.
... ou seja, haveria na Gália Céltica uma parte mais estreita do que os Pirinéus, o que também pode ser confirmado na figura que colocámos em cima! O tradutor vai buscar uma medição de precisão de Gosselin, mas a explicação é ainda mais simples neste caso... e tem um nome - Aquitânia.
Aquitânia significa literalmente "terra de água", o que ilustraria que os terrenos da Aquitânia contíguos aos Pirinéus estavam basicamente inundados, ou sujeitos a inundações... Por isso, a Aquitânia foi sendo formada progressivamente, e ainda hoje é possível ver que se trata de uma região quase ao nível do mar, não fora as diversas dunas. Estas dunas terão ajudado na consolidação da paisagem, e os campos inundados deram lugar à Aquitânia.
De forma semelhante, e seguindo a figura, podemos ver os montes alentejanos como o resultado de uma consolidação progressiva de dunas, em que a acção prolongada dos agentes biológicos transformou areia em terra. 

Estrabão define então o sul da Ibéria como a parte que vai dos Pirinéus às Colunas de Hércules, e portanto não se trata de um erro ocasional, já que isso é consistente com a figura em cima, rodada de 45º. Sobre a parte ocidental e norte é menos explícito que Plínio, mas diz que essa parte ocidental seria quase paralela aos Pirinéus, coisa só compreensível no mapa que colocamos em cima. Ao contrário de Plínio não coloca o fim da parte ocidental no Promontório Magno, mas sim no Nerium (que tal como Céltico, pretende ser outro nome para a Finisterra).

Sobre o Promontório Sacrum (Cabo S. Vicente) diz ser não apenas a parte mais ocidental da Europa, mas de toda a terra habitável... algo complicado de aceitar. Relativamente à Europa de hoje, esse ponto seria claramente o Promontório Magno (Cabo da Roca), mas se fizermos a rotação, a afirmação de Estrabão fica correcta, conforme se pode ver no mapa. O que é mesmo complicado de aceitar, e que o mapa está mais longe de explicar é a referência a "toda a terra habitável"... aliás o mapa piora essa concepção se retirarmos o "habitável", já que a África é muito mais ocidental. O tradutor faz referência a isso mesmo, dizendo que Estrabão não conheceria essa parte, porém é mais provável que o termo "habitável" esteja para ser levado a sério - as terras africanas após as Colunas de Hércules não eram habitáveis... não tanto por razões naturais, mas mais provavelmente por restrições "divinas"!
Ele refere que essas partes ocidentais são habitadas pelos iberos na Europa, e pelos "maurusianos" na Líbia (entendida como África, ou Norte de África)... ou seja, pelos "mauros" ou "mouros" da Mauritânia, entendida com a zona de Marrocos próximo de Tanger.

Sobre a região do Promontório Sacrum, diz chamar-se Cuneum por significar uma "cunha" (o tradutor aproveita por fazer referência aos Cónios já mencionados por Heródoto como Cunésios ou Cunetes), e diz que o promotório se projecta no mar como um barco, segundo relato de Artemidoro que dava conta de três pequenas ilhas que lhe davam essa forma, e que ao contrário do que afirmara Éforo não se encontrava aí nenhum templo de Hércules! 
Aquilo que parece poder-se concluir é que o Templo de Hércules existiu em Sagres, e terá sido destruído entre a visita de Éforo de Cime (séc. IV a.C.) e a de Artemidoro de Efeso (séc. II a.C.).

Ainda relativamente às orientações geográficas, ao falar sobre os rios, diz que o Tejo corre para oeste, e que o mesmo acontece inicialmente com o Guadiana, que depois vira a sul. Se estas designações são demasiado genéricas para percursos irregulares, que podem ter mudado, não permitem uma boa conclusão. O mesmo não se pode dizer do Ebro, que tem o seu vale bem definido e onde Estrabão é mais conclusivo - corre para Sul!
                                           The Ebro takes its source amongst the Cantabrians; it flows through an extended plain towards the south, running parallel with the Pyrenees.

Tal afirmação só se pode entender com a rotação que se evidencia no mapa que apresentamos.

Como dissemos, a descrição ibérica de Estrabão contém bastante matéria para explorar. 
Para já interessava consolidar mais um testemunho para uma diferente orientação da Terra no passado, de que começámos a falar a propósito do alinhamento piramidal.

Observação: Para quem conhece a medição de Eratóstenes da circunferência da Terra, poderá argumentar-se que ele teria seguido o Nilo de Alexandria até Assuão(!), estava a percorrer o meridiano, colocando o Nilo na orientação sul-norte e não sudoeste-nordeste... Porém, o nome que constava era Syene e não Assuão, logo a identificação de cidades é posterior, aliás sendo Eratóstenes originário de Cyrene, seria mais fácil a deturpação do nome de Cyrene em Syene. A medição não tinha que ocorrer em locais à mesma longitude, até porque esse cálculo de longitude poderia ser feito pela observação de eclipses... era bastante mais importante ter uma medida correcta da distância entre cidades.

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publicado às 05:56


Ibéria estrábica

por desvela, em 19.06.11
O relato de Estrabão sobre a Ibéria dá quase para um mês de textos... tal como no caso de Roma e Pavia, não pretendemos fazer isto num dia!
Vamos por partes, e começamos com a questão da orientação, com a rotação de 45º que já tínhamos observado em Plínio (note-se que Estrabão é bastante anterior a Plínio, é contemporâneo de Augusto):

Iremos ver que a descrição de Estrabão (ou Estrabo, Strabo) também nos deixa estrábicos... o olho antigo aponta norte, enquanto o olho moderno aponta para noroeste. Os problemas de visão não começaram com os caolhos.

Sobre os Pirinéus é dito:
(...) particularly in the vicinity of the Pyrenees, which form the eastern side. 
This chain of mountains stretches without interruption from north to south
 and divides Keltica from Iberia.

O tradutor vê-se pois forçado a comentar: "The Pyrenees, on the contrary, range from east to west, with a slight inclination towards the north. This error gives occasion to several of the mistakes made by Strabo respecting the course of certain of the rivers in France."
Quando os relatos não coincidem com o que queremos ver, é fácil argumentar o erro alheio... o assunto fica arrumado, mesmo que estejam em causa logo dois da meia-dúzia de geógrafos, usados como referência na antiguidade. Será natural errar norte-sul com oeste-leste num geógrafo de referência? 

Com a rotação que fizemos no mapa em cima, percebemos do que fala Estrabão, e podemos ver as montanhas de norte a sul, dividindo a Céltica (Gália) da Ibéria...
Diz depois que a parte mais estreita está próxima dos Pirinéus, enquadrada pelos Golfos Céltico e Galático, que o tradutor associa (quanto a nós correctamente) ao Golfo da Gasconha/Biscaia e ao Golfo de Lyon. Só que Estrabão adianta...  
and they render the [Keltic] Isthmus narrower than that of Iberia.
... ou seja, haveria na Gália Céltica uma parte mais estreita do que os Pirinéus, o que também pode ser confirmado na figura que colocámos em cima! O tradutor vai buscar uma medição de precisão de Gosselin, mas a explicação é ainda mais simples neste caso... e tem um nome - Aquitânia.
Aquitânia significa literalmente "terra de água", o que ilustraria que os terrenos da Aquitânia contíguos aos Pirinéus estavam basicamente inundados, ou sujeitos a inundações... Por isso, a Aquitânia foi sendo formada progressivamente, e ainda hoje é possível ver que se trata de uma região quase ao nível do mar, não fora as diversas dunas. Estas dunas terão ajudado na consolidação da paisagem, e os campos inundados deram lugar à Aquitânia.
De forma semelhante, e seguindo a figura, podemos ver os montes alentejanos como o resultado de uma consolidação progressiva de dunas, em que a acção prolongada dos agentes biológicos transformou areia em terra. 

Estrabão define então o sul da Ibéria como a parte que vai dos Pirinéus às Colunas de Hércules, e portanto não se trata de um erro ocasional, já que isso é consistente com a figura em cima, rodada de 45º. Sobre a parte ocidental e norte é menos explícito que Plínio, mas diz que essa parte ocidental seria quase paralela aos Pirinéus, coisa só compreensível no mapa que colocamos em cima. Ao contrário de Plínio não coloca o fim da parte ocidental no Promontório Magno, mas sim no Nerium (que tal como Céltico, pretende ser outro nome para a Finisterra).

Sobre o Promontório Sacrum (Cabo S. Vicente) diz ser não apenas a parte mais ocidental da Europa, mas de toda a terra habitável... algo complicado de aceitar. Relativamente à Europa de hoje, esse ponto seria claramente o Promontório Magno (Cabo da Roca), mas se fizermos a rotação, a afirmação de Estrabão fica correcta, conforme se pode ver no mapa. O que é mesmo complicado de aceitar, e que o mapa está mais longe de explicar é a referência a "toda a terra habitável"... aliás o mapa piora essa concepção se retirarmos o "habitável", já que a África é muito mais ocidental. O tradutor faz referência a isso mesmo, dizendo que Estrabão não conheceria essa parte, porém é mais provável que o termo "habitável" esteja para ser levado a sério - as terras africanas após as Colunas de Hércules não eram habitáveis... não tanto por razões naturais, mas mais provavelmente por restrições "divinas"!
Ele refere que essas partes ocidentais são habitadas pelos iberos na Europa, e pelos "maurusianos" na Líbia (entendida como África, ou Norte de África)... ou seja, pelos "mauros" ou "mouros" da Mauritânia, entendida com a zona de Marrocos próximo de Tanger.

Sobre a região do Promontório Sacrum, diz chamar-se Cuneum por significar uma "cunha" (o tradutor aproveita por fazer referência aos Cónios já mencionados por Heródoto como Cunésios ou Cunetes), e diz que o promotório se projecta no mar como um barco, segundo relato de Artemidoro que dava conta de três pequenas ilhas que lhe davam essa forma, e que ao contrário do que afirmara Éforo não se encontrava aí nenhum templo de Hércules! 
Aquilo que parece poder-se concluir é que o Templo de Hércules existiu em Sagres, e terá sido destruído entre a visita de Éforo de Cime (séc. IV a.C.) e a de Artemidoro de Efeso (séc. II a.C.).

Ainda relativamente às orientações geográficas, ao falar sobre os rios, diz que o Tejo corre para oeste, e que o mesmo acontece inicialmente com o Guadiana, que depois vira a sul. Se estas designações são demasiado genéricas para percursos irregulares, que podem ter mudado, não permitem uma boa conclusão. O mesmo não se pode dizer do Ebro, que tem o seu vale bem definido e onde Estrabão é mais conclusivo - corre para Sul!
                                           The Ebro takes its source amongst the Cantabrians; it flows through an extended plain towards the south, running parallel with the Pyrenees.

Tal afirmação só se pode entender com a rotação que se evidencia no mapa que apresentamos.

Como dissemos, a descrição ibérica de Estrabão contém bastante matéria para explorar. 
Para já interessava consolidar mais um testemunho para uma diferente orientação da Terra no passado, de que começámos a falar a propósito do alinhamento piramidal.

Observação: Para quem conhece a medição de Eratóstenes da circunferência da Terra, poderá argumentar-se que ele teria seguido o Nilo de Alexandria até Assuão(!), estava a percorrer o meridiano, colocando o Nilo na orientação sul-norte e não sudoeste-nordeste... Porém, o nome que constava era Syene e não Assuão, logo a identificação de cidades é posterior, aliás sendo Eratóstenes originário de Cyrene, seria mais fácil a deturpação do nome de Cyrene em Syene. A medição não tinha que ocorrer em locais à mesma longitude, até porque esse cálculo de longitude poderia ser feito pela observação de eclipses... era bastante mais importante ter uma medida correcta da distância entre cidades.

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publicado às 21:56


Lago Tritonis

por desvela, em 04.03.11
Na descrição de Heródoto faz-se referência a um grande Lago Tritonis que separava a Líbia... notando que para os gregos o nome Líbia era usado para toda a África.
Tratava-se de um lago com mais de 2 000 Km², abaixo de Cartago, e onde se associa uma parte da aventura de Jasão e dos Argonautas. Com a suposto nível do mar mais elevado, e usando uma imagem que já aqui colocámos a propósito da ilha Eritheia, localizamos facilmente o que seria esse Lago Tritonis:
Tal como no caso do mítico lago Parime, que encontrámos nesta imagem (referida aqui), aparece aí o mesmo lago aqui identificado. Há aliás um certo consenso em associar Tritonis ainda à restante planície salina Chott el-Jerid (sul da Tunísia), ocasionalmente inundada.

A lenda de Jasão fala já de uma entrada que nessa altura poderia começar a ser condicionada pela subida da maré. Jasão teria ficado nos baixios do Lago Tritonis, e não conseguia sair desse lago, até que Triton apareceu e lhe ofereceu um canal para passar. 
Atendendo a que viagem de Jasão era suposto ter ficado pelo Mar Negro, este seu aparecimento no Lago Tritonis, invocado por Heródoto, fica um bocado despropositado na interpretação que se quis fazer pela sucessiva troca de nomes posterior.  Daí a necessidade de juntar na Arménia, no Cáucaso, as províncias: Colquida (Colchis), Iberia e Albania. O espaço era pequeno, mas foram todas bem arrumadinhas (ver aqui)...

Usamos ainda a tradução de Heródoto (disponível aqui):
The Carthaginians also relate the following: There is a country in Libya, and a nation, beyond the Pillars of Hercules, which they are wont to visit, where they no sooner arrive but forthwith they unlade their wares, and, having disposed them after an orderly fashion along the beach, leave them, and, returning aboard their ships, raise a great smoke. The natives, when they see the smoke, come down to the shore, and, laying out to view so much gold as they think the worth of the wares, withdraw to a distance. The Carthaginians upon this come ashore and look. If they think the gold enough, they take it and go their way; but if it does not seem to them sufficient, they go aboard ship once more, and wait patiently. Then the others approach and add to their gold, till the Carthaginians are content. Neither party deals unfairly by the other: for they themselves never touch the gold till it comes up to the worth of their goods, nor do the natives ever carry off the goods till the gold is taken away.
Esta descrição de comércio dos cartagineses é muito semelhante à que encontramos descrita por Duarte Pacheco Pereira... e poderia reportar-se tanto a trato com povos em África, como até com povos na América... afinal já referimos a ida de cartagineses a paragens americanas, cf. Cândido Costa, que detalha mais esta hipótese ligando-a a Ophir, no seu texto posterior "Duas Américas" (que está obviamente offprint). Diz Cândido Costa: 
"Num escrito de Aristóteles (De Mirab. Auscult. Cap. 84) diz-se que foi o receio de ver os colonos sacudirem o jugo da metrópole cartaginesa e prejudicarem o comércio da mãe pátria que levou o senado de Cartago a decretar pena de morte contra quem tentasse navegar para esta ilha. Aristóteles descreve também uma região fértil, abundantemente regada e coberta de floresta, que fora descoberta pelos cartagineses além do Atlântico" [cf. templaria.org]
Esta menção de Aristóteles é aliás encontrada frequentemente citada. 
Interessante é a menção de Heródoto a alguma subserviência devida ao Rei dos Medos:
These be the Libyan tribes whereof I am able to give the names; and most of these cared little then, and indeed care little now, for the king of the Medes. One thing more also I can add concerning this region, namely, that, so far as our knowledge reaches, four nations, and no more, inhabit it; and two of these nations are indigenous, while two are not. The two indigenous are the Libyans and Ethiopians, who dwell respectively in the north and the south of Libya. The Phoenicians and the Greek are in-comers.
 Não ter medo dos Medos pareceria então estranho... A divisão entre Líbios e Etíopes, era feita em termos de norte (Líbios) e sul (Etíopes), juntando-se depois os colonizadores Fenícios, com Cartago, e os Gregos com Cyrene. A cidade grega de Cyrene não terá a importância histórica de Cartago, mas Cyrene teve um templo de Zeus de grandes dimensões (superior ao Parthenon):

Atlantes
Ao descrever a parte oeste da Líbia, ou seja o oeste de África, Heródoto descreve os Atlantes, enquanto habitantes próximos do monte Atlas:
Once more at the distance of ten days' there is a salt-hill, a spring, and an inhabited tract. Near the salt is a mountain called Atlas, very taper and round; so lofty, moreover, that the top (it is said) cannot be seen, the clouds never quitting it either summer or winter. The natives call this mountain "the Pillar of Heaven"; and they themselves take their name from it, being called Atlantes. They are reported not to eat any living thing, and never to have any dreams.
Estes hábitos alimentares, em particular não comer carne de vaca, eram reportados ao culto egípcio de Isis, e extensivos a toda a Líbia. A referência aos Atlantes próximos do Atlas está ainda no mapa de Dionisio Periegetes.
A nomeação de Atlantes, do Atlântico, e da Atlântida, acaba por ser toda reportada não só a Atlas, à montanha, mas também ao mítico pai das Pleiades... titã condenado a suportar o mundo nos seus ombros. A sua rebelião contra os novos deuses, acabou nessa condenação que só foi aliviada temporariamente por Hércules... 
A zona geográfica associada aos mitos é a mesma - o Atlas e os Pilares de Hércules estão na mesma zona geográfica, e da mesma forma surgiria a menção à Atlântida.

A barreira do Bojador
Heródoto até aos Atlantes conhece os povos que habitam a crista de areia, depois deles não possui informação. Este limite, colocado ao nível das Canárias, torna-se sintomático até que surgem as explorações portuguesas... Apesar disso, conhecem-se expedições desde os cartagineses, que exploraram a costa africana. 
Qual a razão deste limite ancestral colocado ao nível do Bojador?
Na prática não há nenhuma barreira difícil de transpor, se esquecermos a mitologia fantasiosa.
A parte sul, atribuída aos Etíopes, aparece assim proibida não apenas à exploração, mas mesmo à menção... tal como no caso do Senado de Cartago, aparece decretada uma proibição implícita.

Redução Geográfica
Não deixa de ser interessante a evidência de redução geográfica... os romanos vão introduzir a África (inicialmente a Oeste) e restringir o nome Líbia para o território entre Cartago e o Egipto. Da mesma forma a Etiópia passará a designar exclusivamente a zona sob o Egipto. A outra evidência de redução geográfica é a junção de toda a Cólquida, Iberia e Albania, ao enclave caucasiano, como já referimos.
Só estas trocas seriam suficientes para grande confusão, mas haveria muitas mais... o problema vai sendo cumulativo, sustentáculo da ocultação e segredos.


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publicado às 05:29


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