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Pontas da língua (2)

por desvela, em 26.06.13
Partindo de uma raiz comum, o que pode fazer divergir linguagens?
As linguagens passam de pais para filhos, e estando inseridos numa comunidade, numa tribo, com uma linguagem estabelecida, não se justificaria nenhuma nova linguagem.

Há semelhanças entre todas as linguagens, mas isso é uma pura questão filosófica, que deixarei para o outro blog. Aqui interessa-me considerar a grande diferença entre linguagens.

(de amarelo - língua única - caso português; até verde escuro - múltiplas línguas - caso da Índia > 400)

Para vermos como o assunto pode ser desesperante uso uma citação de um artigo de R. Allott (Diversity of languages. Motor theory of language origin, 1994) 
For centuries, men have speculated about the causes of language change. The confusion and controversies surrounding causes of language change ... some reputable linguists have regarded the whole field as a disaster area, and opted out altogether. (Aitchison 1981)
Portanto, houve simplesmente quem tivesse considerado a matéria como uma área desastrosa, e acharam por bem "cair fora".
Isso poderia deixar-nos mais à vontade para especular, mas o problema é que mesmo especulações minimamente credíveis não são fáceis de estabelecer.

Há duas grandes hipóteses. Ou havia uma linguagem comum, ou apareceram separadamente nos diversos grupos populacionais. A primeira hipótese pode ser chamada "Babel", e a segunda não é muito credível... o que faziam as comunidades juntas se não tinham uma forma de comunicação estabelecida?

Por mimetismo darwiniano, há quem insista numa evolução da língua "Babel" original, tal como faz de um "Adão" hominídeo primitivo. Ou seja, haveria variações linguísticas, que depois redundariam em línguas diferentes, sobrevivendo as mais populares. Como em toda a teoria darwiniana faltam muitos "missing links"... aqui os elos entre as linguagens. Tal como em toda a teoria evolucionista tem aspectos triviais que devem ser considerados - ou seja, é óbvio que uma linguagem impopular desapareceria. Mas não só...

Comecemos por reparar no gráfico estimado para a evolução demográfica desde há 10 mil anos (wiki): 

Já sabemos que houve um "boom" populacional nos últimos 200 anos, associado ao desenvolvimento técnico. Já Fibonacci, no Séc. XIV, uns 400 antes de Malthus, sabia que os coelhos tal como as pessoas se podem reproduzir muito depressa, basta que tenham alimento e condições para isso.

Por isso, desde que o génio humano estivesse liberto de restrições, a partir do momento em que passou a viver da agricultura, poderia ter começado a duplicar a população a cada geração. Em África quadruplicou nos últimos 50 anos, nos outros continentes (excepto Europa), basicamente duplicou. Mas, como os Maltusianos sabem bem, há um ovo de Colombo que se parte - o limite populacional tem a restrição da alimentação necessária à sobrevivência.

Segundo estas estatísticas a sociedade agrícola na Idade Média parece ter variado entre 200 e 500 milhões pessoas. Antes da sociedade agrícola, uma sociedade nómada de caçadores, funcionaria ao género de alcateia de lobos. Tendo em atenção o número de 50 mil lobos existentes no Canadá, podemos extrapolar que, antes da revolução do Neolítico, as tribos caçadoras/colectoras pudessem atingir mais de um milhão de pessoas.
Bom, e quanto tempo é preciso, para passar de um casal de humanos para uma população de um milhão de pessoas? Com uma estimativa semelhante à que se verifica em África hoje, bastariam 500 anos, se usarmos como modelo a América do Norte, seriam precisos 1000 anos. Claro, poderia haver doenças, múltiplos problemas, mas bastariam salvar-se alguns, e aguardar por novos 500 anos de condições favoráveis.

O único ponto que interessa salientar é que não seria preciso esperar milhões de anos... bastam poucos milhares de anos, com uma média de natalidade superior a 3 filhos por casal, independentemente das maleitas, guerras. A população só não cresceria se a natalidade fosse muito reduzida, algo que não seria natural, numa época em que não se proclamaria muito o planeamento familiar nem o uso de contraceptivos.

A diferença que se verificava à época dos descobrimentos, entre a população europeia e a asiática, dará para reflectirmos na dimensão das restrições a que estiveram sujeitas as populações medievais. Dificilmente as pestes tiveram dimensão suficiente para explicar a diferença abissal. Mesmo nos confrontos com os muçulmanos, parecia haver sempre uma enorme desproporção, por falta de europeus.
A população europeia só deixou de passar fome quando foi importante equilibrar os números pela necessária presença ultramarina, após os descobrimentos. Olhando para as dimensões das cidades e coliseus romanos, a Europa medieval parece ter sido uma enorme prisão faminta, que regrediu populacionalmente, para além de todas as outras regressões.

Migrações
Para o que interessa, sem demasiadas restrições, a partir do momento em que a população humana teve que migrar, para encontrar novos territórios de caça, o continente africano ter-se-ia revelado insuficiente no espaço de poucos milhares de anos. 
A competição limitava a colaboração. A linguagem servia o entendimento, mas em época de competição ter a mesma linguagem não favorecia tribos competidoras.
Por isso, se interessava o entendimento com os seus, não interessava o entendimento dos outros.
Não seria assim de admirar que uma estratégia de tribo fosse mudar mesmo de linguagem, e isso justifica que justamente em África se tenha uma das maiores concentrações de diferentes linguagens.
Era uma opção dos competidores - mudar a codificação, para comunicarem apenas na tribo. Quem fosse afastado, e tivesse que fazer nova tribo, começava a ver-se como diferente, e não tinha razão para manter a linguagem comunitária anterior.
As migrações apontam justamente para uma saída de África para a zona do subcontinente indiano em direcção à Oceânia, onde mais uma vez se verifica esse fenómeno de multiplicidade de línguas. O caso extremo é o da Papua-Nova Guiné, com 820 línguas... o que pode ter a ver com essa herança de extrema competição (parece haver uma tribo antropofágica cuja palavra para designar as tribos rivais é "comida").

Portanto, a noção que temos de preservação de língua está num contexto diferente. Exemplificando, a tribo de Caim, expulso pela morte de Abel, não teria a mesma ideia de preservar língua do que a tribo de Seth, que ficou como herdeiro de Adão.
O desenvolvimento da linguagem pode ter sido assim um traço distintivo, cuja flexibilidade e evolução também terá melhorado capacidades cognitivas.

O processo inverso, de expansão de uma língua estaria relacionado com o sucesso dessa tribo e dos seus descendentes. Aquando do Neolítico, em que as culturas se começaram a sedentarizar, uma tribo de algumas dezenas de indivíduos atingia muitos milhares, ao fim de poucas centenas de anos. Não haveria expulsões, apenas uma acomodação na hierarquia, conforme a varonia. O sentimento de tribo alargou-se e passou ao sentimento de povo, deixou de ter o mesmo aspecto de tribos migrantes. As velhas línguas solidificaram-se nesses ambientes consolidados.
A competição também passou a ter um aspecto mais letal, e a diferença linguística, a existir, seria elitista... havia interesse de que a elite não fosse entendida pelos outros, mas entendesse o que população dizia.

Hieróglifos
Disraeli (primeiro-ministro inglês do Séc.XIX), sobre os hieróglifos diz o seguinte citando Diodoro (Sículo) e Heródoto:
- os Egípcios usavam dois tipos de letras - umas sagradas e outras vulgares.
As vulgares seriam de conhecimento geral, mas as sagradas eram apenas conhecidas dos sacerdotes, que as teriam aprendido dos Etíopes - mas provavelmente alterando o significado.

Sobre os hieróglifos comuns, Disraeli acrescenta (via Diodoro):
- a escrita não consistia em sílabas juntas, mas em figuras relacionadas com o que queriam exprimir... o falcão significava expedição, porque era o mais veloz dos pássaros. O crocodilo significava malícia; o olho significava um observador de justiça ou um guarda; a mão direita, que estava assegurando a sua subsistência; a mão esquerda fechada, a preservação de algo.
Disraeli argumentava o aspecto alegórico dos hieróglifos, alegorias que serviam de linguagem comum entre estranhos. Segundo Heródoto, quando Dário invadiu a Cítia, os citas enviaram uma mensagem que consistia num pássaro, um rato, um sapo e cinco flechas. Isto significaria que se ele não fugisse rapidamente como um pássaro, se escondesse como um rato, saltasse dali como um sapo, então morreria pelas flechas... 

Desde a "pedra da roseta" tem-se usado também um significado fonético dos hieróglifos.
A ideia de termos no mesmo texto dois significados nunca mais se perdeu... e como vemos remontará pelo menos ao tempo dos Egípcios.
Isso pode ser mais ou menos fácil de identificar... mas quando a mensagem, ou notícia, parece absurda ou irrelevante, pelo significado literal das letras, talvez não seja pior ideia procurar o significado alegórico.

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publicado às 06:59


Abertura de Sancho

por desvela, em 01.06.13
7) Sanchoniato - a mitologia fenícia
Há poucas referências a Sanchoniato, um historiador fenício, mas foi alvo de atenção no Séc. XIX, e nos livros "Ancient Fragments..." de Isaac Cory, que já mencionámos e também nas obras de G. Stanley Faber, por exemplo "A dissertation on the mysteries of the Cabiri", trata-se de um autor crucial.
Porquê? Porque seria basicamente uma das únicas referências que existiam à época que não surgiam da tradição judaico-cristã ou greco-romana (outra seria a de Beroso, sobre os assírios-caldeus, de que já falámos). A obra tinha sido traduzida para grego por Philo de Byblos, e chegado mais uma vez através de Eusébio de Cesaréia.

Stanley Faber tem um esquema simplificado das divindades que Sanchoniato refere na sua cosmogonia.
Começa por fazer um paralelismo com a descrição hebraica/mosaica (de Moisés), desde o primeiro homem:
Paralelo entre os primeiros homens segundo Sanconiato e Moisés (visto por Faber)

Sanchoniato atribui ao vento (Colpias) e à noite (Baau) a origem de dois mortais - Eon e Protogonos.
Acrescenta que Eon (~Eva) descobriu que poderia comer frutos das árvores. 
Destes dois nasceriam Genus e Genea que viviam na Fenícia (como não poderia deixar de ser...) e que rogavam ao Sol (Beelsamin, similar a Zeus) para terminar as secas.
A terceira geração tinha Fos, Pyr e Flox que descobriram a produção de fogo esfregando paus, e ensinaram os homens (... faltaria perguntar é quem eram afinal essoutros?).
Estes tiveram filhos muito altos, a quem foram dados os nomes de montanhas das redondezas - Cassius, Libano, Antilibano e Brathu.
Seguem-se Memrumus, Usous e Hypsuranius, que Sanchoniato detalha serem filhos dos anteriores e de suas mães... explicando isso pela escassez de população. Acrescenta que Hypsuranius habitava Tiro e inventara o papiro, tendo ficado inimigo do irmão Usous, que inventara vestes de pele... Esse mesmo Usous teria sido o primeiro a aventurar-se no mar com um tronco partido numa tempestade. Por isso erigiu dois pilares ao fogo e ao vento... e os descendentes passaram a venerar os antepassados nesses pilares.
Passadas gerações, dos descendentes de Hypsuranius surgiriam Agreus e Halieus, inventores de artes de caça e pesca. Desses surgiriam Crisor, identificado a Hefesto, que descobrira e aprendera a trabalhar o ferro. Em particular fazia anzóis, e teria sido o primeiro navegador. Por isso teria adorado como deus, de nome Diamiquio. Os irmãos seriam os primeiros construtores de muros com tijolos...
Da sua descendência nasceria Technites e Geinus (inventando azulejos), e desta geração surgiria ainda Agrus, que viria a ser adorado como o maior dos Deuses na Fenícia. As casas passaram a ter pórticos e criptas, e iniciou-se a caça com cães, com Aleta e Titan. 
Daqui descendem Aminos e Magos, que ensinaram os homens a construir vilas e a cuidar de rebanhos, depois Misor e Sydic que usaram o sal (preservação de comida).

O que vemos até aqui é uma plausível descrição da sequência de descobertas/invenções humanas associada a alguns nomes fenícios. Porém, de Misor descende Taautus que tem um significado mais importante, porque o associa ao egípcio Thoth e ao grego Hermes. Já pelo lado de Sydyc vai associar os Cabiri ou Samotrácios, que teriam sido os primeiros a construir um barco completo! 
Talvez por isso, Stanley Faber vai associar essa construção à separação do dilúvio.
No entanto, Sanchoniato não se refere a nenhum dilúvio... e nisto difere profundamente da tradição assíria e hebraica. Convém aliás notar que ao mito do dilúvio de Ogyges, nos gregos, também não era dado especial relevo.

A partir daqui vai haver alguma semelhança com a descrição grega, pelo que Stanley Faber vai passar para essa comparação. Sanchoniato refere-se à descoberta de ervas medicinais e da cura de venenos, falando de  Elioun (Hypsistus) e da mulher Beruth (de onde virá o nome Beirute), que geraram Autocton (Úrano, Céu) e Ge (Terra), nomes dados pela sua beleza. O pai era o regente e teria sido morto num confronto com bestas selvagens, e o filho Urano teria recebido o trono e feito rainha a irmã Ge.
Sobre a geração seguinte, Faber esquematiza numa tabela:
Esquema das gerações fenícias de Sanconiato (por Faber)

Interessa especialmente notar que há nomes que são iguais às da mitologia grega clássica, de Hesíodo, como sejam Úrano, Cronos (Ilus), e Belus (Bal) será identificado a Júpiter/Zeus.
Porém, a perspectiva de Sanchoniato é completamente diferente da de Hesíodo.
Este Sancho "pensa" de outra forma... os deuses foram homens, elevados depois ao estatuto divino.

Nalguns aspectos há analogias. É dito que este Urano também teria tentado eliminar os filhos, e que Cronos se rebelaria contra o pai, com a ajuda de Taautus-Hermes, que ainda seria contemporâneo.
Seria nesta altura que Cronos teria fundado Biblos, com uma muralha que a cercaria, e expulsaria o irmão Atlas para uma caverna. Os aliados de Cronos seriam chamados Eloi, pelo seu nome fenício ser Ilus (ou Il, El). 
O pai continuaria a opor-se-lhe, e por outro lado Cronos decapitaria os filhos por suspeita de rebelião, acabando também por eliminar o pai, cujo sangue seria depois consagrado às fontes e rios.
A meia-irmã de Cronos, Astarte, seria sua consorte e identificada a Afrodite. Ela tomaria a cabeça de um boi como símbolo de Tiro, juntamente com um meteoro que havia recolhido.
Cronos, tomaria ainda a Ática grega e esse seria o reino de Atena (Minerva), sua filha.

Há um aspecto interessante em que Cronos se circuncisa em homenagem do pai, obrigando os aliados a fazer o mesmo. Finalmente, esta descrição de Sanchoniato (que é mais detalhada) termina com a atribuição do Egipto a Taautus por Cronos, que adopta um símbolo de 4 olhos, à frente e atrás da cabeça!
Por outro lado, Taautus (Thoth) tomaria como símbolo a serpente, ao representar um espírito que se move sem membros, podendo ter várias formas, inclusivé espiral, pela sua longevidade e capacidade renovadora (mudança de pele, e consumir-se no final de vida).

Falta só falar do aspecto da cosmogonia fenícia de Taautus.
Tudo começaria com uma conexão entre o Caos e o Vento. Esta união seria simbolizada por um ovo rodeado por uma serpente, e dela surgiria a lama inicial Mot (ou Ilus), de onde se formaria o universo. Seria do som do trovão que distinguiria os animais inteligentes. Taautus criticaria os homens por adorarem e fazerem sacrifícios a deuses antropomórficos - o que ele atribuía à estreiteza das suas mentes.

A serpente que rodeia o ovo (o primeiro) entre outros símbolos 
do livro "The Origin of Pagan Idolatry" (Stanley Faber, 1816)


Apesar das semelhanças, notamos uma grande diferença conceptual entre fenícios e os restantes povos.
Os fenícios seriam praticamente ateus. A explicação de Taautus é um esboço de explicação natural, como terão depois alguns filósofos gregos.

8) Conjugações
Há algumas conjugações que podem ser feitas com o texto anterior sobre Beroso.
O nome Dagon (irmão de Cronos) foi também associado a Oanes, o anedoto, o homem-peixe dos assírios, e por outro lado Belus (filho de Cronos) seria venerado na Babilónia. Poderíamos ver aqui uma possível influência, ou interferência fenícia, na formação da mitologia assíria-caldeia. 

Se por um lado há muitas diferenças, por outro lado há bastantes semelhanças nas formações dos mitos.
Isaac Cody concorda com Stanley Faber, citando-o desta forma:
                     - (...) as to render untenable every other hypothesis than this: "that they must all have originated from some common source" 
Portanto estes estudiosos partilhavam da ideia que os pontos comuns sugeriam que todos os mitos teriam partido da mesma raiz comum, e davam explicações possíveis:
- todas as nações tinham concordado pacificamente numa mesma fonte, ou esta lhes tinha sido imposta, ou ainda que todas as nações tinham vindo de uma cultura comum.
Esta última hipótese levava naturalmente ao mito da Torre de Babel... a cultura seria comum, mas depois teria sido alterada pelo fado de cada civilização.

Stanley Faber vai um pouco mais longe e afirma que os eventos que levaram à queda da Torre de Babel na planície de Shinar teriam definido um carácter marcante na evolução da humanidade, e que a "família poderosa e guerreira" que teria ganho vantagem sobre os seus irmãos, nunca teria deixado de exercer a superioridade até ao presente:
(...) In short, the events, which occurred in the plain of Shinar, have stamped a character upon the whole mass of mankind that remains vividly impressed even to modern times. The powerful and martial family, that once obtained a decided preeminence of their bethren, have never down to the present hour, ceased with a strong hand to vindicate their superiority.
No fundo, isto seria a tradicional teoria da sequência de impérios ou monarquias, reduzindo-a a um único império definido em Babel, por Nimrod, ou seja também, com outros nomes, o simbolizado gigante caçador Órion (ou Orionte), Nembroth ou Amraphal, já identificado a Hamurabi.

Isaac Cody procura estabelecer uma linha semelhante e vê um ponto comum na designação "Cita", que se aplicaria a uma boa parte de povos em diversas nações. Ora o nome "citas" é em grego Σκύθης ou Skythes, que se poderia ler entre nós como "Escutes" em vez de Citas. E é claro que isto lembra algo (não as SCUTS, nem os Escutas... mas enfim há sempre escutas), lembra os Escotos, ou seja o Escoceses, que tanto se orgulhavam da sua ascendência, que remontaria afinal à nobreza Cita. Não é preciso falar mais de ritos escoceses, que isso levar-nos-ia a ter que partir pedra, e ainda estamos algo livres dessas pedreiras.

Como temos vindo a referir, e é aqui claro nestes autores, parece haver uma manutenção da estrutura de poder desde o tempo mítico da Torre de Babel. A sua visibilidade é apenas aparente... usa as estruturas de poder visíveis, mas a sua acção foi sempre dissimulada. Parece ter visado mais influenciar o curso dos acontecimentos do que ser um dos seus protagonistas registados - guardará os registos, certamente, em colecções privadas.
Pouco interessa o folclore, grande parte da análise está feita, entretemo-nos agora apenas com os detalhes.
Sobre o que interessa, e que limita exactamente as coisas, disso falaremos noutra altura.


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publicado às 07:58


Conan, o bretão

por desvela, em 18.12.12
Do longínquo tempo em que o governador da Califórnia representava, não no protocolo, mas sim no cinema, conhecemos um dos personagens fabulosos que marcou gerações - Conan, o Bárbaro:
Arnold Schwarzenegger em Conan (1982, 84)

Conan foi visto como um produto de fantasia moderna, iniciada com o livro de R. Howard, em 1932, depois em banda-desenhada, e passados 50 anos aparece o filme. Era assim mais fácil a Howard introduzir um nome esquecido que foi visto como herói noutro contexto:
Conan, primeiro rei da Bretanha (383-427)

Conan, aparece ainda na fábula como Cimério, ligando-o a outros cimérios, apesar de Howard referir que se tratava de um celta... como o próprio nome indicia (Conan é um nome comum na Bretanha). É natural que Howard ligasse Cymmerian a Cymry - o nome celta de Gales, e que Hyboria invocasse a Hibernia-Irlanda. Com a grande excepção do Rei Artur, os mitos que surgiram na época de queda do Império Romano e transição para a época medieval, acabaram mais ou menos esquecidos, e toda essa época aparece envolta numa enorme névoa histórica.

A informação sobre Conan está, no entanto, bem detalhada na obra de 1854, de Charles Barthelemy:
Histoire de la Bretagne, ancienne et moderne
que toma o moto atribuído a Conan: "Malo mon quam foedari"... "antes morrer que me manchar", e associa os arminhos no escudo da Bretanha a um episódio que Conan tomara como bom presságio - ao desembarcar nas costas da Bretanha, alguns arminhos refugiaram-se sob o seu escudo. 

 
Um arminho. Escudo da Bretanha, com o símbolo dos arminhos.

Talvez não seja despropositado notar que se o latim "ermini" se mantém no catalão, não difere muito no francês "hermines". Ou seja, também poderíamos ter o nome "hermínios" em vez de "arminhos"... e os Montes Hermínios dariam significado a uma fauna entretanto extinta em Portugal (manter-se-à na Galiza).

Antes de retomar o lendário Conan, neste caso o bretão, é adequado numa veneta falar dos Venetos. Charles Barthelemy inicia a sua história com as dificuldades que Júlio César teria sentido na tentativa de anexação da Bretanha (ou Armorica), especialmente no que dizia respeito aos Venetos.
Acontecia que os Venetos eram navalmente superiores aos Romanos... no Oceano Atlântico os quadrirremes eram pouco eficazes, e os Venetos manobravam superiormente apenas com velas.
Barthelemy refere que, finalmente, com um expediente engenhoso, os romanos conseguiram cortar as cordas que operavam o velame, permitindo a abordagem aos navios. A maioria dos barcos venetos foi subjugada, e a independência da Bretanha/Armorica perdeu-se num só dia de batalha. Sucessivamente todos os portos se renderam... Júlio César foi implacável contra os Venetos que não escolheram morrer, e a história de uma Bretanha independente seria retomada quando entra Conan em cena - no final do Séc. IV.

Ora, como é natural, o nome "Venetos" sugere outra região... a "Venetia", a região de Veneza.
Essa ligação foi estabelecida (cf. Vénètes), e também outra ligação com a região de Gwynedd (Gales), denominada Venedotia pelos romanos.
Temos assim uma ligação marítima entre Gales, Bretanha e Veneza... havendo ainda quem adicione uma região polaca, ou eslava, referente aos Wendes, que migrariam para a Sérvia.
Coincidência?
Pelo critério etimológico, não podemos deixar de relembrar a conexão por Gal... deixando Portu-gal, passando à Galiza, aos Gauleses, Galeses, Galicia (Ucrânia/Polónia), ou até à Galatia (Turquia). Isto praticamente evidencia uma conexão marítima de grande escala fora do Mediterrâneo.
Para relembrar esta ligação, feita por onde antes a terra era mar, coloco de novo o mapa ilustrativo:

e assim, a propósito deste texto, notar que há uma razão para uma Grã-Bretanha e outra "pequena" Bretanha - pelo menos em tempos anteriores ambas teriam sido ilhas. César conquista uma Bretanha, Cláudio conquistará a outra, ou parte dela (os Pictos resistirão na Escócia). O mesmo nome, e a sua proximidade, parece prestar-se a confusões nas referências históricas.
Aliás Barthelemy refere que essa conexão entre as Bretanhas era tão presente, que durante vários séculos o rei comum residia em Trinovante - Londres. Conan partiu da Grã Bretanha para conquistar a Bretanha.

Como se as duas ligações marítimas apontadas não fossem suficientes, temos ainda os Pictones na França, ao sul da Bretanha, e os Pictos na Escócia. Etimologicamente ligam-se Vene, Gal, Picto, a distintas partes marítimas.
Coincidência? - A genética falou antes de a calarem... lê-se no Scotsman.com de 21/09/2006:
uma notícia que mostra como a maioria dos ingleses, escoceses e galeses descendem das mesmas tribos que os povos da Península Ibérica, concluindo aliás serem migrações destes.
(...) a research team at Oxford University has found the majority of Britons are Celts descended from Spanish tribes who began arriving about 7,000 years ago.
Even in England, about 64 per cent of people are descended from these Celts, outnumbering the descendants of Anglo-Saxons by about three to one.
The proportion of Celts is only slightly higher in Scotland, at 73 per cent. Wales is the most Celtic part of mainland Britain, with 83 per cent.
Previously it was thought that ancient Britons were Celts who came from central Europe, but the genetic connection to populations in Spain provides a scientific basis for part of the ancient Scots' origin myth.
The Declaration of Arbroath of 1320, following the War of Independence against England, tells how the Scots arrived in Scotland after they had "dwelt for a long course of time in Spain among the most savage tribes".
Olhando para a Declaração de Arbroath, dirigida ao Papa, a "coisa" torna-se ainda mais clara:
Most Holy Father, we know and from the chronicles and books of the ancients we find that among other famous nations our own, the Scots, has been graced with widespread renown.  It journeyed from Greater Scythia by way of the Tyrrhenian Sea and the Pillars of Hercules, and dwelt for a long course of time in Spain among the most savage peoples, but nowhere could it be subdued by any people, however barbarous.  Thence it came, twelve hundred years after the people of Israel crossed the Red Sea, to its home in the west where it still lives today.  The Britons it first drove out, the Picts it utterly destroyed, and, even though very often assailed by the Norwegians, the Danes and the English, it took possession of that home with many victories and untold efforts; and, as the histories of old time bear witness, they have held it free of all servitude ever since.  In their kingdom there have reigned one hundred and thirteen kings of their own royal stock, the line unbroken by a single foreigner.
Não restam muitas dúvidas de como as gaitas (de foles) são comuns a Trás-os-Montes e à Escócia. Também não restam muitas dúvidas de como "os mitos" que foram passando, nas "crónicas dos antigos", são afinal "mitos" com alguma "sustentação genética". Em 1320 os escoceses acabavam de receber uma das duas partes principais dos templários perseguidos em França... Se pelo lado português, os templários se estabeleceram na Ordem de Cristo, pelo lado escocês acabaram por formalizar a Maçonaria, de onde terá saído o "rito escocès".

É ainda interessante estes escoceses traçarem a sua origem a tempos de migrações da "Grande Cítia", ou seja da zona Tartária, a norte do Mar Negro e mar Cáspio. Depois de viverem muito tempo na Península Ibérica, acabam por aportar na Irlanda ("... its home in the west"), e numa grande contracção de tempo falam da destruição dos Pictos e invasões vikings... Para entender melhor isto, é preciso recorrer a Nennius, e à sua Historia Brittonum, do Séc. VIII - o que merece um texto separado.
Por outro lado, o traço genético é mais alargado, e não diz respeito apenas aos escoceses, inclui especialmente os galeses, e por isso reporta a tempos bem mais antigos, talvez próximos dos 5000 a.C. sugeridos pelo estudo genético.
Mas para não alongar nesta variante, voltamos a Conan...

Barthelemy começa por abordar o assunto referindo Cohel (nat King Cole) e o irmão Octavius (Outam), últimos reis de Trinovante-Londres. Diz que Cohel seria pai de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino... tese controversa que procurou ligar a consagração imperial de Constantino em York, a uma ascendência britânica. Apesar da origem de Santa Helena ser algo incerta, há enormes hiatos temporais nestas versões. Se a Europa continental tinha um unificador em Carlos Magno, os britânicos procuraram associar-se a Constantino "Magno". Através de Geoffrey de Monmouth, outra referência incontornável para este período britânico, o rei Artur seria descendente do rei Cohel.

Conan aparece como protagonista na sucessão de Octavius seu tio (ou pai?), numa altura em que o imperador romano Graciano estava prestes a ser defrontado por Maximus, um general romano da Hispânia.
Maximus estaria destacado na Grã Bretanha, e como no caso de Constantino, as legiões britânicas irão apoiar a sua pretensão a Imperador Romano. Ele surge como sucessor de Octavius pelo casamento com a filha Elen (outra Santa Helena). A esta sucessão opõe-se Conan, segundo diz Barthelemy, e aparecerá contra Maximus ao lado dos Pictos e Escotos.
Conan perde a batalha, e as legiões proclamam Maximus imperador romano. Maximus tem planos maiores, e propõe a Conan uma aliança para a invasão da Bretanha. Em 383 d.C. Conan desembarca ao serviço desse plano de Maximus, tem os arminhos a recebê-lo, e em breve terá um reino sob seu poder. Maximus prossegue, derrota Graciano na batalha de Lutécia, e durante 4 anos será imperador romano.

Magnus Maximus, Imperador Romano do Ocidente (384-388)

Maximus é primeiro visto como usurpador, mas é aceite com o co-imperador Valentiniano II, até que o tenta depor. Apesar do seu êxito no Império Romano do Ocidente, acabará por ser morto por Teodósio I, Imperador do Oriente, que irá recolocar Valentiniano II no Ocidente. Como era habitual em Roma, a mulher (Elen) e os filhos, serão também mortos. O senado romano declara a sua "memória danada"... e por isso é natural que pouca memória oficial da época se tenha mantido. Na tradição galesa, o nome de Maximus é Macsen Wledig, e Conan Meriadoc aparece como irmão de Elen, sua mulher. 

Com a aniquilação de Maximus, Conan não deixa de ficar no poder da Bretanha mais 40 anos, de acordo com Barthelemy. A incursão de Maximus acaba por deixar o Império do Ocidente fragilizado, e Honório, sucessor de Valentiniano II, terá por ter que negociar as diversas concessões de poder aos suevos, alanos, e godos. Roma já não controlaria a maior parte da Gália e Hispânia. Também a Bretanha teria um acordo de autonomia com Honório.
Assim, o período de Conan acaba por reflectir, segundo Barthelemy, uma grande estabilidade e independência, que atraírá o mundo celta à Bretanha, face ao desmoronar do mundo romano. O sucessor de Conan, será o seu filho Salomon, e apesar de Conan ter favorecido o cristianismo, não deixa de ser interessante este nome, e notar que Maximus teria sido acusado de "judaísmo", por Santo Ambrósio, por se ter oposto ao incêndio de uma sinagoga em Roma...

Finalmente, Barthelemy vai associar Conan a um outro episódio marcante - o martírio de Santa Ursula e das 11 000 virgens. Conan terá solicitado a mão da filha de Dionote, rei da Grã Bretanha, e Ursula terá partido também com a missão de "cristianizar o bárbaro". Por resultado de tempestade, o barco teria sido desviado para uma embocadura do Reno na Holanda, onde Ursula teria sido presa e depois morta pelos Hunos. Desde 406 d.C. que os Hunos tinham forçado a migração das tribos germânicas para oeste do Reno, e essa pressão levara às primeiras incursões bárbaras a que Honório cedeu. Quanto às 11000 virgens, o número é emblemático, por ser implausível que Ursula fosse acompanhada em tal número.
Assim, levantam-se hipóteses instrutivas de como alguma informação é facilmente deturpável ou interpretativa. Uma hipótese diz que "XI M V" foi entendido como 11 mil virgens e deveria ser 11 mártires virgens... outra diz que se referia a Ursula como virgem com 11 anos, etc.
Este exemplo é instrutivo porque são muitas as abreviaturas em latim, o que deixa alguma margem de interpretação e possível distorção face ao conteúdo original dos textos.

Conclusão. Barthelemy refere que Ana da Bretanha, bem como todos os duques anteriores, orgulhava-se da sua ascendência até Conan. A Bretanha seria definitivamente incorporada no Reino da França pelo casamento de Ana da Bretanha, e a sua autonomia seria depois limitada.
A ascendência de Conan seria bretã, não seguia a linhagem goda que resultaria na aristocracia europeia depois das invasões bárbaras. Também dificilmente se poderá invocar uma ascendência germânica aos godos, já que os Alamani eram uma confederação de Suevos. Os suevos acabaram por ser dominados pelos visigodos na Hispania, e por isso grande parte do que se chamaria "alemães" seriam muito mais suevos, de ligação celta, em grande parte inseridos no mundo romano. Os godos teriam uma origem diversa e alargada, sendo escandinava pela parte visigoda, até à Cítia/Tartária (zona Khazar) pela parte ostrogoda.
As monarquias estabelecidas na Europa acabarão todas por ter essa linhagem goda (os monarcas suevos não a teriam e não eram reconhecidos em Roma). Assim, quando os escoceses invocam a sua migração a partir da Cítia, estão a invocar a mesma zona geográfica dos ostrogodos, e talvez a mesma nobreza goda para justificar as pretensões de realeza.
No entanto, pelo traço genético, a população das ilhas britânicas terá essencialmente a mesma origem ibérica, e esse traço alagar-se-ia por uma civilização atlântica que incorporaria ainda a costa francesa, e poderia mesmo chegar a paragens mais orientais, remontando a épocas de ligação com o Mar Negro.
Na parte ocidental, há evidentes traços de ligação cultural, denominada celta, que vão das ilhas britânicas à parte ibérica, onde os monumentos de pedra, de "brita", os menires, cromeleches, dólmens, estão bem presentes. A tradição naval seria uma ligação, tornada clara na menção que se faz acerca da superioridade dos barcos venetos bretões face aos romanos, e a que se ligará também certamente um conexão fenícia.
Toda a mitologia celta britânica, acabará por se fundar numa nacionalidade perdida, desde o tempo do Rei Artur, e de Avalon. As invasões dos Anglos, Saxões e Normandos, acabam por reduzir os bretões praticamente a servos, como é bem ilustrado no conto de Robin Hood. Isso não acontece apenas na Grã Bretanha, por todo o lado, a cultura "celta" permanecerá como um resquício pagão popular. Porém, não apenas pelo nome, a Britania, acabará por conseguir trazer lendas que se perderam noutros tempos e lugares.

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Conan, o bretão

por desvela, em 17.12.12
Do longínquo tempo em que o governador da Califórnia representava, não no protocolo, mas sim no cinema, conhecemos um dos personagens fabulosos que marcou gerações - Conan, o Bárbaro:
Arnold Schwarzenegger em Conan (1982, 84)

Conan foi visto como um produto de fantasia moderna, iniciada com o livro de R. Howard, em 1932, depois em banda-desenhada, e passados 50 anos aparece o filme. Era assim mais fácil a Howard introduzir um nome esquecido que foi visto como herói noutro contexto:
Conan, primeiro rei da Bretanha (383-427)

Conan, aparece ainda na fábula como Cimério, ligando-o a outros cimérios, apesar de Howard referir que se tratava de um celta... como o próprio nome indicia (Conan é um nome comum na Bretanha). É natural que Howard ligasse Cymmerian a Cymry - o nome celta de Gales, e que Hyboria invocasse a Hibernia-Irlanda. Com a grande excepção do Rei Artur, os mitos que surgiram na época de queda do Império Romano e transição para a época medieval, acabaram mais ou menos esquecidos, e toda essa época aparece envolta numa enorme névoa histórica.

A informação sobre Conan está, no entanto, bem detalhada na obra de 1854, de Charles Barthelemy:
Histoire de la Bretagne, ancienne et moderne
que toma o moto atribuído a Conan: "Malo mon quam foedari"... "antes morrer que me manchar", e associa os arminhos no escudo da Bretanha a um episódio que Conan tomara como bom presságio - ao desembarcar nas costas da Bretanha, alguns arminhos refugiaram-se sob o seu escudo. 

 
Um arminho. Escudo da Bretanha, com o símbolo dos arminhos.

Talvez não seja despropositado notar que se o latim "ermini" se mantém no catalão, não difere muito no francês "hermines". Ou seja, também poderíamos ter o nome "hermínios" em vez de "arminhos"... e os Montes Hermínios dariam significado a uma fauna entretanto extinta em Portugal (manter-se-à na Galiza).

Antes de retomar o lendário Conan, neste caso o bretão, é adequado numa veneta falar dos Venetos. Charles Barthelemy inicia a sua história com as dificuldades que Júlio César teria sentido na tentativa de anexação da Bretanha (ou Armorica), especialmente no que dizia respeito aos Venetos.
Acontecia que os Venetos eram navalmente superiores aos Romanos... no Oceano Atlântico os quadrirremes eram pouco eficazes, e os Venetos manobravam superiormente apenas com velas.
Barthelemy refere que, finalmente, com um expediente engenhoso, os romanos conseguiram cortar as cordas que operavam o velame, permitindo a abordagem aos navios. A maioria dos barcos venetos foi subjugada, e a independência da Bretanha/Armorica perdeu-se num só dia de batalha. Sucessivamente todos os portos se renderam... Júlio César foi implacável contra os Venetos que não escolheram morrer, e a história de uma Bretanha independente seria retomada quando entra Conan em cena - no final do Séc. IV.

Ora, como é natural, o nome "Venetos" sugere outra região... a "Venetia", a região de Veneza.
Essa ligação foi estabelecida (cf. Vénètes), e também outra ligação com a região de Gwynedd (Gales), denominada Venedotia pelos romanos.
Temos assim uma ligação marítima entre Gales, Bretanha e Veneza... havendo ainda quem adicione uma região polaca, ou eslava, referente aos Wendes, que migrariam para a Sérvia.
Coincidência?
Pelo critério etimológico, não podemos deixar de relembrar a conexão por Gal... deixando Portu-gal, passando à Galiza, aos Gauleses, Galeses, Galicia (Ucrânia/Polónia), ou até à Galatia (Turquia). Isto praticamente evidencia uma conexão marítima de grande escala fora do Mediterrâneo.
Para relembrar esta ligação, feita por onde antes a terra era mar, coloco de novo o mapa ilustrativo:

e assim, a propósito deste texto, notar que há uma razão para uma Grã-Bretanha e outra "pequena" Bretanha - pelo menos em tempos anteriores ambas teriam sido ilhas. César conquista uma Bretanha, Cláudio conquistará a outra, ou parte dela (os Pictos resistirão na Escócia). O mesmo nome, e a sua proximidade, parece prestar-se a confusões nas referências históricas.
Aliás Barthelemy refere que essa conexão entre as Bretanhas era tão presente, que durante vários séculos o rei comum residia em Trinovante - Londres. Conan partiu da Grã Bretanha para conquistar a Bretanha.

Como se as duas ligações marítimas apontadas não fossem suficientes, temos ainda os Pictones na França, ao sul da Bretanha, e os Pictos na Escócia. Etimologicamente ligam-se Vene, Gal, Picto, a distintas partes marítimas.
Coincidência? - A genética falou antes de a calarem... lê-se no Scotsman.com de 21/09/2006:
uma notícia que mostra como a maioria dos ingleses, escoceses e galeses descendem das mesmas tribos que os povos da Península Ibérica, concluindo aliás serem migrações destes.
(...) a research team at Oxford University has found the majority of Britons are Celts descended from Spanish tribes who began arriving about 7,000 years ago.
Even in England, about 64 per cent of people are descended from these Celts, outnumbering the descendants of Anglo-Saxons by about three to one.
The proportion of Celts is only slightly higher in Scotland, at 73 per cent. Wales is the most Celtic part of mainland Britain, with 83 per cent.
Previously it was thought that ancient Britons were Celts who came from central Europe, but the genetic connection to populations in Spain provides a scientific basis for part of the ancient Scots' origin myth.
The Declaration of Arbroath of 1320, following the War of Independence against England, tells how the Scots arrived in Scotland after they had "dwelt for a long course of time in Spain among the most savage tribes".
Olhando para a Declaração de Arbroath, dirigida ao Papa, a "coisa" torna-se ainda mais clara:
Most Holy Father, we know and from the chronicles and books of the ancients we find that among other famous nations our own, the Scots, has been graced with widespread renown.  It journeyed from Greater Scythia by way of the Tyrrhenian Sea and the Pillars of Hercules, and dwelt for a long course of time in Spain among the most savage peoples, but nowhere could it be subdued by any people, however barbarous.  Thence it came, twelve hundred years after the people of Israel crossed the Red Sea, to its home in the west where it still lives today.  The Britons it first drove out, the Picts it utterly destroyed, and, even though very often assailed by the Norwegians, the Danes and the English, it took possession of that home with many victories and untold efforts; and, as the histories of old time bear witness, they have held it free of all servitude ever since.  In their kingdom there have reigned one hundred and thirteen kings of their own royal stock, the line unbroken by a single foreigner.
Não restam muitas dúvidas de como as gaitas (de foles) são comuns a Trás-os-Montes e à Escócia. Também não restam muitas dúvidas de como "os mitos" que foram passando, nas "crónicas dos antigos", são afinal "mitos" com alguma "sustentação genética". Em 1320 os escoceses acabavam de receber uma das duas partes principais dos templários perseguidos em França... Se pelo lado português, os templários se estabeleceram na Ordem de Cristo, pelo lado escocês acabaram por formalizar a Maçonaria, de onde terá saído o "rito escocès".

É ainda interessante estes escoceses traçarem a sua origem a tempos de migrações da "Grande Cítia", ou seja da zona Tartária, a norte do Mar Negro e mar Cáspio. Depois de viverem muito tempo na Península Ibérica, acabam por aportar na Irlanda ("... its home in the west"), e numa grande contracção de tempo falam da destruição dos Pictos e invasões vikings... Para entender melhor isto, é preciso recorrer a Nennius, e à sua Historia Brittonum, do Séc. VIII - o que merece um texto separado.
Por outro lado, o traço genético é mais alargado, e não diz respeito apenas aos escoceses, inclui especialmente os galeses, e por isso reporta a tempos bem mais antigos, talvez próximos dos 5000 a.C. sugeridos pelo estudo genético.
Mas para não alongar nesta variante, voltamos a Conan...

Barthelemy começa por abordar o assunto referindo Cohel (nat King Cole) e o irmão Octavius (Outam), últimos reis de Trinovante-Londres. Diz que Cohel seria pai de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino... tese controversa que procurou ligar a consagração imperial de Constantino em York, a uma ascendência britânica. Apesar da origem de Santa Helena ser algo incerta, há enormes hiatos temporais nestas versões. Se a Europa continental tinha um unificador em Carlos Magno, os britânicos procuraram associar-se a Constantino "Magno". Através de Geoffrey de Monmouth, outra referência incontornável para este período britânico, o rei Artur seria descendente do rei Cohel.

Conan aparece como protagonista na sucessão de Octavius seu tio (ou pai?), numa altura em que o imperador romano Graciano estava prestes a ser defrontado por Maximus, um general romano da Hispânia.
Maximus estaria destacado na Grã Bretanha, e como no caso de Constantino, as legiões britânicas irão apoiar a sua pretensão a Imperador Romano. Ele surge como sucessor de Octavius pelo casamento com a filha Elen (outra Santa Helena). A esta sucessão opõe-se Conan, segundo diz Barthelemy, e aparecerá contra Maximus ao lado dos Pictos e Escotos.
Conan perde a batalha, e as legiões proclamam Maximus imperador romano. Maximus tem planos maiores, e propõe a Conan uma aliança para a invasão da Bretanha. Em 383 d.C. Conan desembarca ao serviço desse plano de Maximus, tem os arminhos a recebê-lo, e em breve terá um reino sob seu poder. Maximus prossegue, derrota Graciano na batalha de Lutécia, e durante 4 anos será imperador romano.

Magnus Maximus, Imperador Romano do Ocidente (384-388)

Maximus é primeiro visto como usurpador, mas é aceite com o co-imperador Valentiniano II, até que o tenta depor. Apesar do seu êxito no Império Romano do Ocidente, acabará por ser morto por Teodósio I, Imperador do Oriente, que irá recolocar Valentiniano II no Ocidente. Como era habitual em Roma, a mulher (Elen) e os filhos, serão também mortos. O senado romano declara a sua "memória danada"... e por isso é natural que pouca memória oficial da época se tenha mantido. Na tradição galesa, o nome de Maximus é Macsen Wledig, e Conan Meriadoc aparece como irmão de Elen, sua mulher. 

Com a aniquilação de Maximus, Conan não deixa de ficar no poder da Bretanha mais 40 anos, de acordo com Barthelemy. A incursão de Maximus acaba por deixar o Império do Ocidente fragilizado, e Honório, sucessor de Valentiniano II, terá por ter que negociar as diversas concessões de poder aos suevos, alanos, e godos. Roma já não controlaria a maior parte da Gália e Hispânia. Também a Bretanha teria um acordo de autonomia com Honório.
Assim, o período de Conan acaba por reflectir, segundo Barthelemy, uma grande estabilidade e independência, que atraírá o mundo celta à Bretanha, face ao desmoronar do mundo romano. O sucessor de Conan, será o seu filho Salomon, e apesar de Conan ter favorecido o cristianismo, não deixa de ser interessante este nome, e notar que Maximus teria sido acusado de "judaísmo", por Santo Ambrósio, por se ter oposto ao incêndio de uma sinagoga em Roma...

Finalmente, Barthelemy vai associar Conan a um outro episódio marcante - o martírio de Santa Ursula e das 11 000 virgens. Conan terá solicitado a mão da filha de Dionote, rei da Grã Bretanha, e Ursula terá partido também com a missão de "cristianizar o bárbaro". Por resultado de tempestade, o barco teria sido desviado para uma embocadura do Reno na Holanda, onde Ursula teria sido presa e depois morta pelos Hunos. Desde 406 d.C. que os Hunos tinham forçado a migração das tribos germânicas para oeste do Reno, e essa pressão levara às primeiras incursões bárbaras a que Honório cedeu. Quanto às 11000 virgens, o número é emblemático, por ser implausível que Ursula fosse acompanhada em tal número.
Assim, levantam-se hipóteses instrutivas de como alguma informação é facilmente deturpável ou interpretativa. Uma hipótese diz que "XI M V" foi entendido como 11 mil virgens e deveria ser 11 mártires virgens... outra diz que se referia a Ursula como virgem com 11 anos, etc.
Este exemplo é instrutivo porque são muitas as abreviaturas em latim, o que deixa alguma margem de interpretação e possível distorção face ao conteúdo original dos textos.

Conclusão. Barthelemy refere que Ana da Bretanha, bem como todos os duques anteriores, orgulhava-se da sua ascendência até Conan. A Bretanha seria definitivamente incorporada no Reino da França pelo casamento de Ana da Bretanha, e a sua autonomia seria depois limitada.
A ascendência de Conan seria bretã, não seguia a linhagem goda que resultaria na aristocracia europeia depois das invasões bárbaras. Também dificilmente se poderá invocar uma ascendência germânica aos godos, já que os Alamani eram uma confederação de Suevos. Os suevos acabaram por ser dominados pelos visigodos na Hispania, e por isso grande parte do que se chamaria "alemães" seriam muito mais suevos, de ligação celta, em grande parte inseridos no mundo romano. Os godos teriam uma origem diversa e alargada, sendo escandinava pela parte visigoda, até à Cítia/Tartária (zona Khazar) pela parte ostrogoda.
As monarquias estabelecidas na Europa acabarão todas por ter essa linhagem goda (os monarcas suevos não a teriam e não eram reconhecidos em Roma). Assim, quando os escoceses invocam a sua migração a partir da Cítia, estão a invocar a mesma zona geográfica dos ostrogodos, e talvez a mesma nobreza goda para justificar as pretensões de realeza.
No entanto, pelo traço genético, a população das ilhas britânicas terá essencialmente a mesma origem ibérica, e esse traço alagar-se-ia por uma civilização atlântica que incorporaria ainda a costa francesa, e poderia mesmo chegar a paragens mais orientais, remontando a épocas de ligação com o Mar Negro.
Na parte ocidental, há evidentes traços de ligação cultural, denominada celta, que vão das ilhas britânicas à parte ibérica, onde os monumentos de pedra, de "brita", os menires, cromeleches, dólmens, estão bem presentes. A tradição naval seria uma ligação, tornada clara na menção que se faz acerca da superioridade dos barcos venetos bretões face aos romanos, e a que se ligará também certamente um conexão fenícia.
Toda a mitologia celta britânica, acabará por se fundar numa nacionalidade perdida, desde o tempo do Rei Artur, e de Avalon. As invasões dos Anglos, Saxões e Normandos, acabam por reduzir os bretões praticamente a servos, como é bem ilustrado no conto de Robin Hood. Isso não acontece apenas na Grã Bretanha, por todo o lado, a cultura "celta" permanecerá como um resquício pagão popular. Porém, não apenas pelo nome, a Britania, acabará por conseguir trazer lendas que se perderam noutros tempos e lugares.

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