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Alves dos Reis e sementes similares

por desvela, em 02.12.12
O crash da bolsa de Nova York no final de Outubro de 1929 tem um gráfico do índice Dow Jones que é semelhante, mas menos drástico, do que aquele que vimos a propósito da tulipomania.

Na década de 1930, para responder ao colapso financeiro, surgiram soluções de revitalização da economia, sendo especialmente seguidos conselhos de Keynes, nomeadamente no papel de estímulo intervencionista que Roosevelt adoptou, numa altura em que só o Estado poderia repor a crise de confiança, de fé na economia. 
Keynes advogou a separação entre o ouro e a moeda, algo natural pois a escassez do metal tenderia a não reflectir a expansão da economia. Já mesmo antes da 1ª Guerra Mundial, em situações de crise, o padrão do ouro era abandonado, favorecendo uma impressão de moeda sem referencial fixo, como acontecera com Portugal desde 1891, ou seja, após a bancarrota monárquica.

Em 1924 a impressão de dinheiro vai ser levada ao extremo. Entra em cena o famoso "burlão", Alves do Reis, com um incrível processo de falsificação de notas de 500 escudos (as mais elevadas). Com uma "conveniente" série de cúmplices, e com falsificações de documentos, consegue uma ordem de impressão de notas em Inglaterra. Pela primeira vez, e creio que única, um indivíduo iria substituir-se ao Estado na impressão de dinheiro, usando a mesma casa que o Estado para a impressão de notas falsas.

O esquema era audacioso, porque através do Banco de Angola e Metrópole, que acabara de criar, e de outros expedientes, iria proceder à lavagem de dinheiro. Concedendo empréstimos a juros mais baixos, colocaria as suas notas no mercado, e receberia depois dinheiro "legal", mais juros.
Um esquema semelhante ao que tinha usado para comprar uma grande empresa, a Ambaca... com cheques falsos! Depois de a adquirir, usaria o próprio capital da empresa para cobrir os cheques falsos que tinha passado. Acabou preso, mas por falha processual foi solto em 1924, e avançou logo para o esquema mais audaz - produzir dinheiro. Planeava adquirir o controlo do próprio Banco de Portugal, evitando depois qualquer ordem de investigação. Em 1925 acabou por ser apanhado numa investigação jornalística, e foi depois condenado a 20 anos, só saindo em 1945.

Alves dos Reis, após ser libertado em 1946 (daqui).

Argumentou que apenas tinha procurado colocar dinheiro em Angola para dinamizar a economia dessa colónia. Lembro-me de ter visto um filme antigo, que terminava com ele dizendo: "Ainda me vão pedir para salvar as finanças"... ou algo semelhante, mas caberia a Salazar esse papel, com outra política!

Este caso é bem conhecido, documentado, e é ainda alvo de estudos - os ensinamentos de Alves dos Reis acabaram por fazer escola... 

- Primeiro, nos anos 1980, houve uma recuperação dos bancos nacionalizados no 25 de Abril, em que foram usados praticamente os mesmos expedientes. Gente aparentemente falida teve crédito para comprar bancos e usou depois o próprio capital dos bancos adquiridos para efectivar a compra. Um expediente à Alves dos Reis efectivou a devolução, com os naturais custos e benefícios políticos decorrentes das cumplicidades.

- Segundo, a ideia do esquema de impressão de dinheiro para financiar a economia, podia ser anterior, mas obviamente era apenas autorizada aos estados, e gerava inflação galopante, por se distanciar do padrão do ouro internacional. A inflação na Alemanha, durante a República de Weimar, nos anos 20, foi exemplo disso. O descontrolo era induzido externamente, porque o comércio acabava por aceitar qualquer moeda a um câmbio que arruinava o marco. Quando o marco foi suspenso, em 1930, haveria mais notas antigas nos EUA do que na Alemanha. É claro que a produção de moeda, independente do padrão, só poderia resultar num país que não dependesse do exterior, o que não era o caso alemão, nem português, nos anos 20. Foi só com a consolidação de alguma auto-suficiência e independência, através de regimes ditatoriais, que a crise desses países foi afastada nos anos 30. 
O argumento de Alves dos Reis - o financiamento a Angola - antevia o aspecto keynesiano de investimento numa colónia que dinamizaria uma região auto-suficiente, e os estudos apontam para que a impressão de Alves dos Reis, de 1% do PIB, terá tido pouco efeito na inflação.
Aliás, as notas fabricadas pela 1ª República tiveram um destino tão ou mais incerto do que as recebidas pelo falsário... e se ele emprestava dinheiro a juros baixos, o dinheiro fabricado pelos governantes da república maçónica parece ter-se perdido em investimentos "desconhecidos".

- Terceiro, a capacidade privada de inventar capital, foi levada ao extremo recentemente, com os chamados "produtos tóxicos", essencialmente contratos de futuros das tulipas numa versão menos floral. Não foi inventar notas, mas foi inventar dinheiro... dinheiro que não existia hoje, hipotecando gerações futuras ao pagamento desse capital.
Se a ideia de Alves dos Reis era inventar dinheiro para comprar o Banco de Portugal, a ideia recente parece ter sido  inventar capital para comprar as dívidas soberanas de todo o mundo. A megalomania de Alves dos Reis foi levada à escala global.
Ora, Alves dos Reis sabia que quando controlasse o Banco de Portugal abafaria as suspeitas, e de forma semelhante comprando as dívidas soberanas controla-se a economia dos estados e condicionam-se as suas decisões. Uma vez em controlo, Alves dos Reis poderia argumentar que a culpa do descalabro das finanças era da anterior direcção, da mesma forma que hoje se imputam culpas aos governos dos estados. Com uma boa propaganda é sempre fácil definir o culpado conveniente...
Os contratos de futuro funcionaram como cheques sem cobertura, e tal como no caso das tulipas, quem inventou a valorização, certificada por agências, bolsas, bancos e até universidades, foi quem depois passou para o outro lado, exigindo a sua liquidez, arruinando o seu valor.

Se no caso de Alves dos Reis, o Estado português acabou por conseguir ser indemnizado pela companhia produtora das notas (que foi à falência - escapando incólume o seu gestor, depois Mayor de Londres), o caso actual revelou a sua faceta de resgate. Sob a ameaça de colapso, houve um autêntico rapto da economia internacional, e o pedido de resgate foi validar os contratos feitos com os "cheques falsos"... a maioria estava em bancos privados. Com o pretexto de não arruinar os depositantes e a confiança no sistema bancário, a liquidez seria exigida pela cobertura estatal, ou seja, pelos contribuintes, com aumento de impostos. Também seria expectável que Alves dos Reis, se ficasse em controlo do Banco de Portugal, exigisse a validade das suas notas, sob pena de desbaratar o próprio banco.
O resgate leva à situação caricata de uma dívida mundial colossal, sem que se perceba onde estava afinal o crédito que permitiu o empréstimo... e é simples, estava a germinar nos bulbos das tulipas.

Termino, com umas considerações básicas, mas que são usualmente negligenciadas.
O dinheiro é uma manifestação de fé. Usa-se a palavra crédito como sinónimo.
Uma nota transporta a fé de que aquele papel vale alguma coisa para quem o recebe. Já era assim com o ouro, e não adiantava muito negociar ouro com indígenas que não lhe dessem valor. Todo o sistema financeiro assenta numa base de fé, implantada pela pena, ou em casos mais sérios, pela espada.
A máxima realização possível numa vida terrena é ter crédito infindável, com qualquer interveniente. Por isso, quanto mais for valorizado o dinheiro, mais fácil é obter não apenas o trabalho, mas até a  própria vontade alheia. Os valores humanos, fundados pela educação moral, acabam por ceder ao mural do dinheiro.
Assim, tem-se tornado fácil ver pessoas abdicar da sua compostura moral, e fazerem figuras ridículas a troco de alguns cobres. O reconhecimento social tende assim a ser medido apenas pelo valor do dinheiro, facilitando as negociações. É complicado negociar com pessoas com escrúpulos, e outros detalhes morais, que só atrapalham uma fácil negociação. Os detentores do capital de crédito tornam-se assim em autênticos génios da lâmpada, endeusados, capazes de satisfazer qualquer desejo terreno, desde que possa ser comprado.
Quando a finança endeusada tiver capital e técnica suficiente para tal realização, as restantes divindades tornam-se obsoletas. Objectivamente, grande parte dos desejos mortais cumprir-se-iam através de riqueza financeira... aceite a submissão, uma romaria a Wall Street seria mais eficaz do que a Fátima... O pragmatismo científico procura anular dúvidas sobre o universo, e ridicularizar explicações com intervenção divina, só faltando vencer a barreira da doença e morte para terminar com os medos dessa natureza. Tudo o resto será negociável, desde que a educação cuide de eliminar moralidades.
A educação com valores morais e medos mortais é apenas aplicada a uma população subserviente, como forma de controlo. Impregnar conceitos morais é uma antiga forma de impregnar previsibilidade... pessoas honestas, sinceras, leais, são mais previsíveis e facilmente controláveis. A educação sempre cuidou que houvesse menos perigo de rebelião, incutindo comportamentos correctos e medos nas falhas. As barreiras da moralidade popular são cercas mentais destinadas a encurralar o rebanho, e quase sempre foram negligenciadas pela aristocracia, excepto pela sua compostura externa. O cidadão vulgar preocupa-se em não infringir a lei, enquanto que quem tem crédito procura saber se é mais barato/proveitoso seguir a lei, quebrá-la, ou mudá-la.

Se os diversos países tivessem economias independentes e fossem minimamente auto-suficientes, seria necessário controlar cada um deles individualmente. Ao contrário, uma interdependência entre os diversos países acaba por torná-los mais frágeis. Com o pretexto do preço mais baixo, abolindo protecções, concentra-se a agricultura nuns países, a indústria e a tecnologia noutros. Todos ficam reféns de relações comerciais, sob pena de se verem sem produtos fundamentais. Neste contexto, um país auto-suficiente, como os EUA, passou a ter uma dependência exagerada promovida por uma deslocalização dos seus centros industriais. Contrai actualmente mais dívida num ano do que contraíra antes em cem anos.

No entanto, todas as dificuldades económicas são fictícias, e resultam de manipulações financeiras. Nunca, como agora, se produziu tanto, e tudo com o objectivo de melhorar a vida dos cidadãos... a ciência e a tecnologia cresceram com esse esforço propagandeado. No entanto, os progressos tecnológicos passaram a ficar reféns das opções da política financeira, que condiciona a distribuição de riqueza. Pouco adianta a agricultura ou a indústria renderem 10 vezes mais se os produtos não forem distribuídos e não houver compradores. Pouco adianta a maquinaria retirar o esforço humano, se isso se converter, não em menos trabalho, mas sim em desemprego. Para quem lembrar o Life Aid de 1985, percebe como quase 30 anos depois a situação em África tende a ser de pena perpétua. A Europa pode ter uma grande dívida com África, mas não é a ela que a está a pagar...
O estado social, assegurando reformas e pensões, acabou por jogar nos contratos de futuros. As reformas dos pais seriam pagas pelos impostos dos filhos, por um processo indirecto, gerido pela finança dos fundos de pensões.

O ponto básico para um país ser praticamente auto-suficiente é o de restabelecer a sua produção interna, especialmente agrícola, já que um país faminto nunca será independente. A produção industrial tem igualmente que ser minimamente eficaz, e ainda que não se possa competir sozinho na vanguarda tecnológica, tem que se criar valor que permita essas importações. Tudo isto é rapidamente exequível com moeda própria, onde assenta a soberania financeira. A moeda deve ter um padrão fixo, correspondente à riqueza produzida, ou seja deve ter valor económico. O valor financeiro, resultante da moeda gerar moeda, pela criação artificial de juros e rendimentos, leva a uma transferência de riqueza, da produção económica para a especulação financeira. O excesso de produção leva a uma competição estéril, que desaproveita recursos e abre falências. O valor dessa produção mais sofisticada não fica no produtor, que consegue baixar preços, mas sim no seu financiador.

No entanto, o maior problema será sempre o boicote dos cidadãos, porque em última análise, eles detêm o poder de reduzir o seu consumo ao mínimo, e fazer colapsar o mercado. Até porque o maior problema é de procura e não de oferta. A oferta existe ao ponto de ser gratuita, como é o caso da maioria de serviços na internet.
Só há um ponto em que não há possibilidade de evitar a procura - os bens alimentares, e é por aí que começam os novos problemas. Já é sabido que as sementes mais eficazes e resistentes a infecções são vendidas como estéreis, e assim o agricultor fica sempre dependente da "semente patenteada".
Passos seguintes têm sido dados no sentido de introduzir alimentos geneticamente modificados - todos patenteados nos EUA, especialmente pela Monsanto. A Europa parece ter tentado resistir à sua introdução, e é altamente simbólica a construção do
chamado o Doomsday Seed Vault... (ver também "o cofre do fim do mundo"), e eu diria que não será tanto pelo medo de catástrofes naturais, ou pelo "fim do mundo maia" anunciado para 21/12/12, a menos que...
Digamos que uma praga à escala mundial, poderia danificar irremediavelmente todas as plantas existentes... ao estilo de extinção das alcas e pombos. Ao bom estilo da conspiração, o que poderia salvar a agricultura? - Talvez as sementes geneticamente modificadas? - Bom negócio? - Sim, para quem detiver a patente.
A este propósito é instrutiva a conferência dada por William Engdahl no Vaticano, que para além do "A Century of War", escreveu outro livro, com o nome elucidativo: "Seeds of Destruction".

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:49


Alves dos Reis e sementes similares

por desvela, em 01.12.12
O crash da bolsa de Nova York no final de Outubro de 1929 tem um gráfico do índice Dow Jones que é semelhante, mas menos drástico, do que aquele que vimos a propósito da tulipomania.

Na década de 1930, para responder ao colapso financeiro, surgiram soluções de revitalização da economia, sendo especialmente seguidos conselhos de Keynes, nomeadamente no papel de estímulo intervencionista que Roosevelt adoptou, numa altura em que só o Estado poderia repor a crise de confiança, de fé na economia. 
Keynes advogou a separação entre o ouro e a moeda, algo natural pois a escassez do metal tenderia a não reflectir a expansão da economia. Já mesmo antes da 1ª Guerra Mundial, em situações de crise, o padrão do ouro era abandonado, favorecendo uma impressão de moeda sem referencial fixo, como acontecera com Portugal desde 1891, ou seja, após a bancarrota monárquica.

Em 1924 a impressão de dinheiro vai ser levada ao extremo. Entra em cena o famoso "burlão", Alves do Reis, com um incrível processo de falsificação de notas de 500 escudos (as mais elevadas). Com uma "conveniente" série de cúmplices, e com falsificações de documentos, consegue uma ordem de impressão de notas em Inglaterra. Pela primeira vez, e creio que única, um indivíduo iria substituir-se ao Estado na impressão de dinheiro, usando a mesma casa que o Estado para a impressão de notas falsas.

O esquema era audacioso, porque através do Banco de Angola e Metrópole, que acabara de criar, e de outros expedientes, iria proceder à lavagem de dinheiro. Concedendo empréstimos a juros mais baixos, colocaria as suas notas no mercado, e receberia depois dinheiro "legal", mais juros.
Um esquema semelhante ao que tinha usado para comprar uma grande empresa, a Ambaca... com cheques falsos! Depois de a adquirir, usaria o próprio capital da empresa para cobrir os cheques falsos que tinha passado. Acabou preso, mas por falha processual foi solto em 1924, e avançou logo para o esquema mais audaz - produzir dinheiro. Planeava adquirir o controlo do próprio Banco de Portugal, evitando depois qualquer ordem de investigação. Em 1925 acabou por ser apanhado numa investigação jornalística, e foi depois condenado a 20 anos, só saindo em 1945.

Alves dos Reis, após ser libertado em 1946 (daqui).

Argumentou que apenas tinha procurado colocar dinheiro em Angola para dinamizar a economia dessa colónia. Lembro-me de ter visto um filme antigo, que terminava com ele dizendo: "Ainda me vão pedir para salvar as finanças"... ou algo semelhante, mas caberia a Salazar esse papel, com outra política!

Este caso é bem conhecido, documentado, e é ainda alvo de estudos - os ensinamentos de Alves dos Reis acabaram por fazer escola... 

- Primeiro, nos anos 1980, houve uma recuperação dos bancos nacionalizados no 25 de Abril, em que foram usados praticamente os mesmos expedientes. Gente aparentemente falida teve crédito para comprar bancos e usou depois o próprio capital dos bancos adquiridos para efectivar a compra. Um expediente à Alves dos Reis efectivou a devolução, com os naturais custos e benefícios políticos decorrentes das cumplicidades.

- Segundo, a ideia do esquema de impressão de dinheiro para financiar a economia, podia ser anterior, mas obviamente era apenas autorizada aos estados, e gerava inflação galopante, por se distanciar do padrão do ouro internacional. A inflação na Alemanha, durante a República de Weimar, nos anos 20, foi exemplo disso. O descontrolo era induzido externamente, porque o comércio acabava por aceitar qualquer moeda a um câmbio que arruinava o marco. Quando o marco foi suspenso, em 1930, haveria mais notas antigas nos EUA do que na Alemanha. É claro que a produção de moeda, independente do padrão, só poderia resultar num país que não dependesse do exterior, o que não era o caso alemão, nem português, nos anos 20. Foi só com a consolidação de alguma auto-suficiência e independência, através de regimes ditatoriais, que a crise desses países foi afastada nos anos 30. 
O argumento de Alves dos Reis - o financiamento a Angola - antevia o aspecto keynesiano de investimento numa colónia que dinamizaria uma região auto-suficiente, e os estudos apontam para que a impressão de Alves dos Reis, de 1% do PIB, terá tido pouco efeito na inflação.
Aliás, as notas fabricadas pela 1ª República tiveram um destino tão ou mais incerto do que as recebidas pelo falsário... e se ele emprestava dinheiro a juros baixos, o dinheiro fabricado pelos governantes da república maçónica parece ter-se perdido em investimentos "desconhecidos".

- Terceiro, a capacidade privada de inventar capital, foi levada ao extremo recentemente, com os chamados "produtos tóxicos", essencialmente contratos de futuros das tulipas numa versão menos floral. Não foi inventar notas, mas foi inventar dinheiro... dinheiro que não existia hoje, hipotecando gerações futuras ao pagamento desse capital.
Se a ideia de Alves dos Reis era inventar dinheiro para comprar o Banco de Portugal, a ideia recente parece ter sido  inventar capital para comprar as dívidas soberanas de todo o mundo. A megalomania de Alves dos Reis foi levada à escala global.
Ora, Alves dos Reis sabia que quando controlasse o Banco de Portugal abafaria as suspeitas, e de forma semelhante comprando as dívidas soberanas controla-se a economia dos estados e condicionam-se as suas decisões. Uma vez em controlo, Alves dos Reis poderia argumentar que a culpa do descalabro das finanças era da anterior direcção, da mesma forma que hoje se imputam culpas aos governos dos estados. Com uma boa propaganda é sempre fácil definir o culpado conveniente...
Os contratos de futuro funcionaram como cheques sem cobertura, e tal como no caso das tulipas, quem inventou a valorização, certificada por agências, bolsas, bancos e até universidades, foi quem depois passou para o outro lado, exigindo a sua liquidez, arruinando o seu valor.

Se no caso de Alves dos Reis, o Estado português acabou por conseguir ser indemnizado pela companhia produtora das notas (que foi à falência - escapando incólume o seu gestor, depois Mayor de Londres), o caso actual revelou a sua faceta de resgate. Sob a ameaça de colapso, houve um autêntico rapto da economia internacional, e o pedido de resgate foi validar os contratos feitos com os "cheques falsos"... a maioria estava em bancos privados. Com o pretexto de não arruinar os depositantes e a confiança no sistema bancário, a liquidez seria exigida pela cobertura estatal, ou seja, pelos contribuintes, com aumento de impostos. Também seria expectável que Alves dos Reis, se ficasse em controlo do Banco de Portugal, exigisse a validade das suas notas, sob pena de desbaratar o próprio banco.
O resgate leva à situação caricata de uma dívida mundial colossal, sem que se perceba onde estava afinal o crédito que permitiu o empréstimo... e é simples, estava a germinar nos bulbos das tulipas.

Termino, com umas considerações básicas, mas que são usualmente negligenciadas.
O dinheiro é uma manifestação de fé. Usa-se a palavra crédito como sinónimo.
Uma nota transporta a fé de que aquele papel vale alguma coisa para quem o recebe. Já era assim com o ouro, e não adiantava muito negociar ouro com indígenas que não lhe dessem valor. Todo o sistema financeiro assenta numa base de fé, implantada pela pena, ou em casos mais sérios, pela espada.
A máxima realização possível numa vida terrena é ter crédito infindável, com qualquer interveniente. Por isso, quanto mais for valorizado o dinheiro, mais fácil é obter não apenas o trabalho, mas até a  própria vontade alheia. Os valores humanos, fundados pela educação moral, acabam por ceder ao mural do dinheiro.
Assim, tem-se tornado fácil ver pessoas abdicar da sua compostura moral, e fazerem figuras ridículas a troco de alguns cobres. O reconhecimento social tende assim a ser medido apenas pelo valor do dinheiro, facilitando as negociações. É complicado negociar com pessoas com escrúpulos, e outros detalhes morais, que só atrapalham uma fácil negociação. Os detentores do capital de crédito tornam-se assim em autênticos génios da lâmpada, endeusados, capazes de satisfazer qualquer desejo terreno, desde que possa ser comprado.
Quando a finança endeusada tiver capital e técnica suficiente para tal realização, as restantes divindades tornam-se obsoletas. Objectivamente, grande parte dos desejos mortais cumprir-se-iam através de riqueza financeira... aceite a submissão, uma romaria a Wall Street seria mais eficaz do que a Fátima... O pragmatismo científico procura anular dúvidas sobre o universo, e ridicularizar explicações com intervenção divina, só faltando vencer a barreira da doença e morte para terminar com os medos dessa natureza. Tudo o resto será negociável, desde que a educação cuide de eliminar moralidades.
A educação com valores morais e medos mortais é apenas aplicada a uma população subserviente, como forma de controlo. Impregnar conceitos morais é uma antiga forma de impregnar previsibilidade... pessoas honestas, sinceras, leais, são mais previsíveis e facilmente controláveis. A educação sempre cuidou que houvesse menos perigo de rebelião, incutindo comportamentos correctos e medos nas falhas. As barreiras da moralidade popular são cercas mentais destinadas a encurralar o rebanho, e quase sempre foram negligenciadas pela aristocracia, excepto pela sua compostura externa. O cidadão vulgar preocupa-se em não infringir a lei, enquanto que quem tem crédito procura saber se é mais barato/proveitoso seguir a lei, quebrá-la, ou mudá-la.

Se os diversos países tivessem economias independentes e fossem minimamente auto-suficientes, seria necessário controlar cada um deles individualmente. Ao contrário, uma interdependência entre os diversos países acaba por torná-los mais frágeis. Com o pretexto do preço mais baixo, abolindo protecções, concentra-se a agricultura nuns países, a indústria e a tecnologia noutros. Todos ficam reféns de relações comerciais, sob pena de se verem sem produtos fundamentais. Neste contexto, um país auto-suficiente, como os EUA, passou a ter uma dependência exagerada promovida por uma deslocalização dos seus centros industriais. Contrai actualmente mais dívida num ano do que contraíra antes em cem anos.

No entanto, todas as dificuldades económicas são fictícias, e resultam de manipulações financeiras. Nunca, como agora, se produziu tanto, e tudo com o objectivo de melhorar a vida dos cidadãos... a ciência e a tecnologia cresceram com esse esforço propagandeado. No entanto, os progressos tecnológicos passaram a ficar reféns das opções da política financeira, que condiciona a distribuição de riqueza. Pouco adianta a agricultura ou a indústria renderem 10 vezes mais se os produtos não forem distribuídos e não houver compradores. Pouco adianta a maquinaria retirar o esforço humano, se isso se converter, não em menos trabalho, mas sim em desemprego. Para quem lembrar o Life Aid de 1985, percebe como quase 30 anos depois a situação em África tende a ser de pena perpétua. A Europa pode ter uma grande dívida com África, mas não é a ela que a está a pagar...
O estado social, assegurando reformas e pensões, acabou por jogar nos contratos de futuros. As reformas dos pais seriam pagas pelos impostos dos filhos, por um processo indirecto, gerido pela finança dos fundos de pensões.

O ponto básico para um país ser praticamente auto-suficiente é o de restabelecer a sua produção interna, especialmente agrícola, já que um país faminto nunca será independente. A produção industrial tem igualmente que ser minimamente eficaz, e ainda que não se possa competir sozinho na vanguarda tecnológica, tem que se criar valor que permita essas importações. Tudo isto é rapidamente exequível com moeda própria, onde assenta a soberania financeira. A moeda deve ter um padrão fixo, correspondente à riqueza produzida, ou seja deve ter valor económico. O valor financeiro, resultante da moeda gerar moeda, pela criação artificial de juros e rendimentos, leva a uma transferência de riqueza, da produção económica para a especulação financeira. O excesso de produção leva a uma competição estéril, que desaproveita recursos e abre falências. O valor dessa produção mais sofisticada não fica no produtor, que consegue baixar preços, mas sim no seu financiador.

No entanto, o maior problema será sempre o boicote dos cidadãos, porque em última análise, eles detêm o poder de reduzir o seu consumo ao mínimo, e fazer colapsar o mercado. Até porque o maior problema é de procura e não de oferta. A oferta existe ao ponto de ser gratuita, como é o caso da maioria de serviços na internet.
Só há um ponto em que não há possibilidade de evitar a procura - os bens alimentares, e é por aí que começam os novos problemas. Já é sabido que as sementes mais eficazes e resistentes a infecções são vendidas como estéreis, e assim o agricultor fica sempre dependente da "semente patenteada".
Passos seguintes têm sido dados no sentido de introduzir alimentos geneticamente modificados - todos patenteados nos EUA, especialmente pela Monsanto. A Europa parece ter tentado resistir à sua introdução, e é altamente simbólica a construção do
chamado o Doomsday Seed Vault... (ver também "o cofre do fim do mundo"), e eu diria que não será tanto pelo medo de catástrofes naturais, ou pelo "fim do mundo maia" anunciado para 21/12/12, a menos que...
Digamos que uma praga à escala mundial, poderia danificar irremediavelmente todas as plantas existentes... ao estilo de extinção das alcas e pombos. Ao bom estilo da conspiração, o que poderia salvar a agricultura? - Talvez as sementes geneticamente modificadas? - Bom negócio? - Sim, para quem detiver a patente.
A este propósito é instrutiva a conferência dada por William Engdahl no Vaticano, que para além do "A Century of War", escreveu outro livro, com o nome elucidativo: "Seeds of Destruction".

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publicado às 23:49


As Tulipas e os Futuros

por desvela, em 21.11.12
No início do Séc. XVII, a Holanda desenvolveu um particular gosto por tulipas, cujos bulbos podiam até ser comercializados com o valor de moeda. Uma das tulipas, denominada Semper Augustus foi negociada a valor recorde, uma pequena fortuna inalcançável ao normal cidadão holandês.


 
Publicidade ao investimento em tulipas e a famosa Semper Augustus  (wiki).


Esta importância das tulipas foi retomada em romance de 1850, de Alexandre Dumas, "A Tulipa Negra", talvez querendo alertar para o episódio, dado o peso que a especulação financeira retomava no final daquele século.
O fenómeno, que atingiu o pico máximo e o colapso em 1637, é chamado tulipomania, e tem características especulativas muito semelhantes a posteriores crises bolsistas.

(evolução exponencial dos preços entre 1634 e 1637)

Está documentada nesta altura uma forte publicidade e o aparecimento de "contratos de futuros". Estes contratos de futuros eram negociados com expectativas sobre o crescimento económico do valor dos bulbos de tulipas. O aumento dos preços permitia convencer a pagar alto pelo valor de tulipas que se iriam vender no futuro.
Estes mesmos contratos de futuros estiveram na origem da recente crise financeira de 2008, e não são por isso uma invenção recente, conforme é por vezes pensado. São uma arma financeira que permite o enriquecimento rápido de uns poucos, e a ruína abrupta de muitos mais... dito em poucas palavras, permite uma transferência e concentração de riqueza.

Por estranho que pareça, as pessoas parecem alertadas para os esquemas em pirâmide, ou outros contos do vigário, que aparecem aqui e ali (antigamente em cartas, hoje em emails), mas essas cautelas parecem desvanecer-se quando o intermediário aparenta uma credibilidade institucional.

As tulipas chegaram à Holanda originárias da Turquia, numa altura em que a jovem República Holandesa começava a crescer, recebendo o papel de potência marítima, para o qual foi crucial a emigração de muitos judeus, expulsos de Portugal e Espanha. Estes judeus, por sua vez, tinham a mesma origem remota que as tulipas que iriam ser negociadas na Holanda.

Aliás, convirá referir que este espírito capitalista, que desflorava nas tulipas holandesas, não terá tido muito provavelmente a sua estreia na Holanda. O primeiro registo de economia capitalista parece ter sido exercido pelos Khazares, da parte da Tartária contígua ao Mar Cáspio (que inclui as caucasianas Iberia e Albania), onde também surgiram os Otomanos que iriam arrasar Constantinopla.
A extensão do império Khazar até ao Séc. X.

Estes Khazares controlavam grande parte do comércio oriental, feito pela chamada "Rota da Seda", evitando o inicial bloqueio árabe, e a sua conversão ao judaísmo parece ter-se adequado à sua natureza de comerciantes. Sugere-se ainda que os Ashkenazi (basicamente os judeus europeus, de tez mais branca), são descendentes da emigração da Khazaria, que começou com o fim do império Khazar, basicamente desde o Séc. XI, tendo o seu apogeu com o fim da Idade Média, após a queda de Constantinopla. Podemos dizer que saíram da Iberia caucasiana em direcção à Ibéria atlântica, e depois à Holanda, onde foram reencontrar as tulipas nativas.
Bom, e se as tulipas lhes eram especialmente valiosas, por muito que fosse predominante o papel comercial judaico, na Holanda teriam que fazer um reinício, quase do zero. Porém, a nova Republica Holandesa permitia um sistema económico capitalista, que lhes era familiar, e que dominariam particularmente bem. Chegados sem bens notáveis, em breve consumariam uma transferência de riqueza que lhes permitira dominar a sociedade holandesa, em particular através da sua influência na Companhia das Índias Orientais, mas também através destes novos mecanismos especulativos, como foram os contratos de futuros feitos com tulipas.

Um simples bulbo de planta passava em dois ou três anos a valer mais que o ouro, e esta paranóia induzida aos holandeses terá permitido acumular fortunas a quem dominava perfeitamente as nuances do sistema capitalista.

A Holanda acaba por se definir como crucial para os acontecimentos seguintes. Curiosamente são os holandeses que fundam Nova York com o nome Nova Amsterdão, e o seu último governador, Peter Stuyvesant, é quem vai construir uma muralha que deu nome a Wall Street...
Chegada de Stuyvesant a Nova Amsterdão (1647-1664)

Porém esta muralha não resiste à nova Inglaterra de Carlos II (já casado com Catarina de Bragança), e em 1664 os ingleses acabam por conquistar esse território americano. A pequena Holanda não parece conseguir competir com a nova força da Inglaterra.
No entanto, alguns 25 anos mais tarde, em 1689, três anos depois da morte de Carlos II, o novo rei Jaime II, seu irmão, acaba por ser deposto através de uma invasão naval holandesa, comandada por Guilherme de Oranje, na chamada "Revolução Gloriosa". O pretexto que uniu o parlamento inglês ao soberano holandês, contra o rei legítimo, teria sido a crescente tolerância ao catolicismo.
Esta foi a única invasão que a Inglaterra sofreu desde Guilherme I, em Hastings (1066), e curiosamente seria levada a cabo por outro Guilherme. Porém, neste caso não houve praticamente resistência, devido ao apoio do parlamento, pelo que a revolução também traz o epíteto "sem sangue".

O que mais glorioso teve esta invasão de Guilherme III foi o crescimento do país invadido, e o declínio do país invasor. A Holanda acabou por perder o seu aspecto dominante, e a transferência de riqueza, que já se tinha visto ocorrer dos reinos ibéricos para a Holanda, passou da Holanda para a Inglaterra. O mundo financeiro que iria dominar os próximos séculos seria sediado na City de Londres, até passar depois para a muralha de Stuyvesant, Wall Street. A dimensão da Inglaterra permitia uma armada sem rival, para uma política global, algo que seria muito mais difícil de concretizar na frágil Holanda. Um mesmo rei permitiria essa transferência mais comodamente...
As províncias ultramarinas holandesas acabaram por ser anexadas pelos ingleses, mais tarde ou mais cedo. A Austrália manteve-se escondida até à chegada de Cook, bem como a própria Nova Zelândia, que tem o seu nome derivado de Zeeland, a província "conquistada ao mar" pelos holandeses. O facto da ilha ter nome derivado do holandês não parece importar na tentativa de atribuição a Cook.
Assim, a Holanda que sonhou os futuros nos bulbos de túlipa, acabou ver no futuro apenas uma lembrança do seu poder passado.

A mesma esperteza que transformou bulbos de túlipa em ouro, acabou por se manifestar de forma mais contundente na transformação da moeda. A moeda ligava-se ao ouro, que por tradição, desde a Antiguidade, era considerado um elemento valioso. No entanto, no Séc. XX, após a 1ª Guerra Mundial, e especialmente após a 2* Guerra, em Bretton Woods, vai terminar essa ligação ao metal. Já há muito que o gado servira de moeda de troca, e do pecuário saiu a palavra pecuniário, na tradição grega, ou que o sal servira de moeda de troca romana, de onde saíra a palavra salário. Quando se  emitem as primeiras notas de papel, há uma promessa de ligação a um metal depositado, mas essa ligação vai-se desvanecer.
O dinheiro reduz-se a uma troca de confiança assinada em papel de nota, em papel de acções, etc... deixará de ter correspondente em ouro. Tem correspondente em produtos e serviços pela confiança adquirida, mas também há uma "confiança imposta", que serve de "imposto" imperial.

Os bulbos de tulipas caíram porque a sua vulgarização levou a uma inevitável desvalorização, o mesmo ocorreu quando o mercado foi inundado recentemente por "contratos de futuros" sem futuro. Criaram-se perspectivas de fortuna para muitos, como se todos estivessem contentes por ir ganhar a lotaria, sem se dar conta que teriam que dividir o prémio entre si, e que não havia um grande prémio para cada um. Assim, acabamos por ter uma dívida mundial superior em muitas vezes ao produto bruto gerado. Parece importar pouco que o que foi emprestado simplesmente não existia, e que por isso quem o fez, tomou para si, a crédito, o futuro de todos, que não lhe pertencia, diluindo-o nesses contratos.
Assim, as novas gerações acabarão por ver o seu futuro hipotecado pelos contratos de futuros cobrados pelos bulbos de túlipa que a geração anterior contraiu, iludida pelo poder das flores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:27


As Tulipas e os Futuros

por desvela, em 20.11.12
No início do Séc. XVII, a Holanda desenvolveu um particular gosto por tulipas, cujos bulbos podiam até ser comercializados com o valor de moeda. Uma das tulipas, denominada Semper Augustus foi negociada a valor recorde, uma pequena fortuna inalcançável ao normal cidadão holandês.


 
Publicidade ao investimento em tulipas e a famosa Semper Augustus  (wiki).


Esta importância das tulipas foi retomada em romance de 1850, de Alexandre Dumas, "A Tulipa Negra", talvez querendo alertar para o episódio, dado o peso que a especulação financeira retomava no final daquele século.
O fenómeno, que atingiu o pico máximo e o colapso em 1637, é chamado tulipomania, e tem características especulativas muito semelhantes a posteriores crises bolsistas.

(evolução exponencial dos preços entre 1634 e 1637)

Está documentada nesta altura uma forte publicidade e o aparecimento de "contratos de futuros". Estes contratos de futuros eram negociados com expectativas sobre o crescimento económico do valor dos bulbos de tulipas. O aumento dos preços permitia convencer a pagar alto pelo valor de tulipas que se iriam vender no futuro.
Estes mesmos contratos de futuros estiveram na origem da recente crise financeira de 2008, e não são por isso uma invenção recente, conforme é por vezes pensado. São uma arma financeira que permite o enriquecimento rápido de uns poucos, e a ruína abrupta de muitos mais... dito em poucas palavras, permite uma transferência e concentração de riqueza.

Por estranho que pareça, as pessoas parecem alertadas para os esquemas em pirâmide, ou outros contos do vigário, que aparecem aqui e ali (antigamente em cartas, hoje em emails), mas essas cautelas parecem desvanecer-se quando o intermediário aparenta uma credibilidade institucional.

As tulipas chegaram à Holanda originárias da Turquia, numa altura em que a jovem República Holandesa começava a crescer, recebendo o papel de potência marítima, para o qual foi crucial a emigração de muitos judeus, expulsos de Portugal e Espanha. Estes judeus, por sua vez, tinham a mesma origem remota que as tulipas que iriam ser negociadas na Holanda.

Aliás, convirá referir que este espírito capitalista, que desflorava nas tulipas holandesas, não terá tido muito provavelmente a sua estreia na Holanda. O primeiro registo de economia capitalista parece ter sido exercido pelos Khazares, da parte da Tartária contígua ao Mar Cáspio (que inclui as caucasianas Iberia e Albania), onde também surgiram os Otomanos que iriam arrasar Constantinopla.
A extensão do império Khazar até ao Séc. X.

Estes Khazares controlavam grande parte do comércio oriental, feito pela chamada "Rota da Seda", evitando o inicial bloqueio árabe, e a sua conversão ao judaísmo parece ter-se adequado à sua natureza de comerciantes. Sugere-se ainda que os Ashkenazi (basicamente os judeus europeus, de tez mais branca), são descendentes da emigração da Khazaria, que começou com o fim do império Khazar, basicamente desde o Séc. XI, tendo o seu apogeu com o fim da Idade Média, após a queda de Constantinopla. Podemos dizer que saíram da Iberia caucasiana em direcção à Ibéria atlântica, e depois à Holanda, onde foram reencontrar as tulipas nativas.
Bom, e se as tulipas lhes eram especialmente valiosas, por muito que fosse predominante o papel comercial judaico, na Holanda teriam que fazer um reinício, quase do zero. Porém, a nova Republica Holandesa permitia um sistema económico capitalista, que lhes era familiar, e que dominariam particularmente bem. Chegados sem bens notáveis, em breve consumariam uma transferência de riqueza que lhes permitira dominar a sociedade holandesa, em particular através da sua influência na Companhia das Índias Orientais, mas também através destes novos mecanismos especulativos, como foram os contratos de futuros feitos com tulipas.

Um simples bulbo de planta passava em dois ou três anos a valer mais que o ouro, e esta paranóia induzida aos holandeses terá permitido acumular fortunas a quem dominava perfeitamente as nuances do sistema capitalista.

A Holanda acaba por se definir como crucial para os acontecimentos seguintes. Curiosamente são os holandeses que fundam Nova York com o nome Nova Amsterdão, e o seu último governador, Peter Stuyvesant, é quem vai construir uma muralha que deu nome a Wall Street...
Chegada de Stuyvesant a Nova Amsterdão (1647-1664)

Porém esta muralha não resiste à nova Inglaterra de Carlos II (já casado com Catarina de Bragança), e em 1664 os ingleses acabam por conquistar esse território americano. A pequena Holanda não parece conseguir competir com a nova força da Inglaterra.
No entanto, alguns 25 anos mais tarde, em 1689, três anos depois da morte de Carlos II, o novo rei Jaime II, seu irmão, acaba por ser deposto através de uma invasão naval holandesa, comandada por Guilherme de Oranje, na chamada "Revolução Gloriosa". O pretexto que uniu o parlamento inglês ao soberano holandês, contra o rei legítimo, teria sido a crescente tolerância ao catolicismo.
Esta foi a única invasão que a Inglaterra sofreu desde Guilherme I, em Hastings (1066), e curiosamente seria levada a cabo por outro Guilherme. Porém, neste caso não houve praticamente resistência, devido ao apoio do parlamento, pelo que a revolução também traz o epíteto "sem sangue".

O que mais glorioso teve esta invasão de Guilherme III foi o crescimento do país invadido, e o declínio do país invasor. A Holanda acabou por perder o seu aspecto dominante, e a transferência de riqueza, que já se tinha visto ocorrer dos reinos ibéricos para a Holanda, passou da Holanda para a Inglaterra. O mundo financeiro que iria dominar os próximos séculos seria sediado na City de Londres, até passar depois para a muralha de Stuyvesant, Wall Street. A dimensão da Inglaterra permitia uma armada sem rival, para uma política global, algo que seria muito mais difícil de concretizar na frágil Holanda. Um mesmo rei permitiria essa transferência mais comodamente...
As províncias ultramarinas holandesas acabaram por ser anexadas pelos ingleses, mais tarde ou mais cedo. A Austrália manteve-se escondida até à chegada de Cook, bem como a própria Nova Zelândia, que tem o seu nome derivado de Zeeland, a província "conquistada ao mar" pelos holandeses. O facto da ilha ter nome derivado do holandês não parece importar na tentativa de atribuição a Cook.
Assim, a Holanda que sonhou os futuros nos bulbos de túlipa, acabou ver no futuro apenas uma lembrança do seu poder passado.

A mesma esperteza que transformou bulbos de túlipa em ouro, acabou por se manifestar de forma mais contundente na transformação da moeda. A moeda ligava-se ao ouro, que por tradição, desde a Antiguidade, era considerado um elemento valioso. No entanto, no Séc. XX, após a 1ª Guerra Mundial, e especialmente após a 2* Guerra, em Bretton Woods, vai terminar essa ligação ao metal. Já há muito que o gado servira de moeda de troca, e do pecuário saiu a palavra pecuniário, na tradição grega, ou que o sal servira de moeda de troca romana, de onde saíra a palavra salário. Quando se  emitem as primeiras notas de papel, há uma promessa de ligação a um metal depositado, mas essa ligação vai-se desvanecer.
O dinheiro reduz-se a uma troca de confiança assinada em papel de nota, em papel de acções, etc... deixará de ter correspondente em ouro. Tem correspondente em produtos e serviços pela confiança adquirida, mas também há uma "confiança imposta", que serve de "imposto" imperial.

Os bulbos de tulipas caíram porque a sua vulgarização levou a uma inevitável desvalorização, o mesmo ocorreu quando o mercado foi inundado recentemente por "contratos de futuros" sem futuro. Criaram-se perspectivas de fortuna para muitos, como se todos estivessem contentes por ir ganhar a lotaria, sem se dar conta que teriam que dividir o prémio entre si, e que não havia um grande prémio para cada um. Assim, acabamos por ter uma dívida mundial superior em muitas vezes ao produto bruto gerado. Parece importar pouco que o que foi emprestado simplesmente não existia, e que por isso quem o fez, tomou para si, a crédito, o futuro de todos, que não lhe pertencia, diluindo-o nesses contratos.
Assim, as novas gerações acabarão por ver o seu futuro hipotecado pelos contratos de futuros cobrados pelos bulbos de túlipa que a geração anterior contraiu, iludida pelo poder das flores.

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publicado às 23:27


A Century of War

por desvela, em 10.09.12
Neste blog procurei evitar falar sobre o que se passou historicamente nos últimos 100 anos.
Há um excelente livro que faz uma análise pouco convencional do que se passou, e explica com bastante nexo o que se tem passado no último século e meio de hegemonia anglo-americana. Não é um livro que se encontre muito referenciado, e certamente estará ausente da grande distribuição... a mim chegou-me por email amigo (de KT), mas encontra-se o PDF na internet:

William Engdahl: A Century of War (PDF link)
Anglo-American Oil Politics and the New World Order (2004)

Como o próprio subtítulo indica, o livro foca a geoestratégia baseada no petróleo, mas vai muito para além disso, explicando as diversas crises financeiras, como foram provocadas, e mais importante - por que razão foram necessárias.

Começa justamente pela Grande Depressão Financeira de 1873, revelando que o problema da especulação financeira é anterior à Depressão de 1928... Ignora-se a anterior porque o seu carácter não afectou o Estados Unidos da mesma forma. Em 1873 o mundo financeiro centrava-se na City de Londres e dava apenas os primeiros passos em Wall Street.

O esquema de controlo baseado numa política financeira global, assente na comercialização das dívidas soberanas, começa a ser desenhado em Londres no Séc. XIX, e irá consolidar-se em Nova Iorque no Séc. XX. É notável o encadeamento estratégico que termina com a ligação da moeda ao ouro. Começa na reunião de Bretton Woods, logo em 1944, dois meses após a rendição alemã. O dólar aparece sobrevalorizado face ao valor de mercado, e o passo final será dado em 1971 quando Nixon decide unilateralmente acabar com a  conversão da moeda em ouro - o chamado Nixon-Shock. Isso permite basicamente aos EUA imprimir dólares livremente... Para assegurar a necessidade dos estados aceitarem dólares (ou seja, dívida americana) seria fundamental a política dos "petro-dólares", ou seja que a negociação do petróleo fosse feita exclusivamente com dólares. Segundo Engdahl, isso justifica toda a política de tensão e controlo do Médio-Oriente.
Entre as diversas notáveis "coincidências", encontra-se a deposição do Xá da Pérsia, Rheza Pahlevi que coincide com o fim do contrato de exploração de petróleo, a vontade de não renovação, e a aposta na energia nuclear.

Engdahl afirma que os movimentos anti-nucleares visavam essencialmente acabar com a política franco-alemã que insistia na independência petrolífera, através das centrais nucleares. A crise petrolífera de 1973, estaria na agenda duma reunião do grupo Bildeberg em Saltsjöbaden, consolidaria o dólar como moeda necessária para o petróleo.
Curiosamente, no decorrer das décadas seguintes, e apesar do sucesso tecnológico que levaria a novas formas de energia, verificou-se a progressiva menorização dessas possibilidades, e apesar de tudo levar a crer que o petróleo teria os dias contados, tal como o carvão teve, o que se passou foi o oposto. Aumentou a dependência energética do petróleo, agora agravada pelo aparecimento das necessidades chinesas e indianas... Até o Brasil, que durante muitos anos enveredou pelo álcool como substituto, vai deixando cair essa ideia quase por completo.

O mais notável no livro é a explicação de como a Alemanha aparece como inimigo principal, quase sucessivamente, durante o Séc. XX. A história começa com a unificação prussiana e a política económica após a crise financeira de 1873, o que leva a Alemanha a tornar-se numa potência capaz de rivalizar navalmente com a Inglaterra. A Entente Cordiale com a França surge dessa necessidade inglesa de parar o desenvolvimento autónomo alemão. O tradicional inimigo inglês passaria a aliado, face ao maior perigo. Engdahl simboliza essa ascensão na construção alemã de uma ferrovia que ligasse Berlim a Bagdad, ou seja permitiria o fluxo de petróleo sem passar pelo Canal do Suez controlado pelos ingleses desde a abertura em 1869.
A entrada dos EUA na 1ª Guerra Mundial faz parte do acordo de cedência de poder inglesa, numa aliança americana, financiada por J. P. Morgan. Os termos dos acordos de Versalhes deixam a Alemanha numa posição de fragilidade absoluta, incapaz de pagar as dívidas de guerra que lhe são assacadas.

A Invasão e Ocupação Francesa do Ruhr entre 1923 e 1925.
Um facto que passa normalmente despercebido é efectiva ocupação da zona industrial alemã do Ruhr, como forma de "cobrar a dívida de guerra", durante a presidência francesa de Poincaré. Durante o processo de ocupação que terminou com 137 civis mortos, as forças francesas e belgas chegaram a registar 100 mil efectivos.
Enterro de 10 vítimas civis na ocupação francesa da Alemanha, em 1923.

Neste contexto, a posterior resposta alemã, na 2ª Guerra Mundial, que leva a uma ocupação parcial da França poderia até ser vista como um contraponto a esta invasão feita 15 anos antes. Os efeitos destruidores do Tratado de Versalhes criaram um sentimento de profunda revolta entre os alemães, praticamente vassalos trabalhadores obrigados a pagar pesadas dívidas de guerra. Uma política de endividamento iniciada com os ingleses e que se consolida com os americanos. Porém, como sabemos, para Hitler a causa do problema internacional tinha origem judaica - basta ler o Testamento de Hitler.

Essas ideias surgiam de vários lados, e convém não esquecer que na própria Inglaterra se desenvolveu um movimento nacionalista, que colhia a simpatia do Rei Eduardo VIII, que foi forçado a abdicar por motivo secundário de "casamento com divorciada". 
No contexto conturbado que antecedeu a 2ª Guerra Mundial é ainda interessante citar Julius Evola sobre os Protocolos de Sião:
"Whether or not the controversial Protocols of the Learned Elders of Zion are false or authentic does not affect the symptomatic value of the document in question, that is, the fact, that many of the things that have occurred in modern times, having taken place after their publication, effectively agree with the plans assumed in that document, perhaps more than a superficial observer might believe"
Pós-Guerra
Engdahl vai mais longe e constata que a tensão alemã se reacende no pós-guerra. Pelo entendimento franco-alemão que leva à construção da União Europeia e pela autonomia nuclear, mas especialmente pelo entendimento que Gorbashev se preparava para firmar com a Alemanha de Kohl (segundo Engdahl, os ingleses teriam afirmado que Helmut Kohl se afigurava como um novo Hitler - talvez lembrando o acordo com Stalin que antecedeu a 2ª Guerra Mundial).
Em troca da reunificação alemã, da queda do muro de Berlim, Gorbashev pedia o apoio económico alemão face à débil economia russa. Por isso, tornava-se um imperioso anglo-americano favorecer a sua queda, e Ieltsin acabou por favorecer esse propósito. A ideia de ajuda alemã à Rússia caía por terra, caindo também a ameaça soviética, rapidamente invadida com a maquinaria especulativa, propícia à corrupção que destruiu o frágil sistema comunista.

O livro de Engdahl apresenta muitas coincidências, entre mortes acidentais e por atentados, nomeadamente na Alemanha e Itália, afinal os dois elementos europeus do Eixo, onde actuavam grupos terroristas políticos (Baader Meinhoff e Brigadas Vermelhas).
Um outro factor interessante é o desenvolvimento de uma mentalidade Malthusiana tendo em vista a escassez de recursos. Como Engdahl constata, o próprio anúncio ter sido feito por Malthus há 200 anos não mostra um visionário, mas mostra sim como estava errado. A população cresceu exponencialmente e os recursos não acabaram porque a tecnologia permitiu esse desenvolvimento para aumento de recursos.

Ligação
O livro de Engdahl começa basicamente onde eu tinha acabado de escrever... ou seja, começa com a efectivação de um colonialismo financeiro, centrado na actividade bolsista de Londres e Nova Iorque, e termina com o surgimento dos "braços armados" que são as instituições financeiras internacionais, em particular o FMI. 
Subjacente está uma necessidade de envolvimento num comércio mundial que torne todas as nações dependentes pelas dívidas contraídas. Os actores são facilmente manipuláveis em frágeis democracias onde a opinião pública é controlada pelos meios de comunicação. O controlo desses meios de comunicação, nomeadamente das televisões e agências noticiosas é fulcral...

Engdahl mostra ainda uma solução que foi encontrada para abalar as novas economias asiáticas, que estavam praticamente ausentes da pressão das dívidas internacionais. Uma solução é justamente a imposição de abrir o mercado e permitir a especulação sobre os valores imobiliários. Os especuladores começam a comprar fazendo disparar os preços, o que provoca uma necessidade de crédito dos bancos locais... esses bancos ficam endividados para satisfazer o crédito exigido pela população. Depois, os investidores vendem, retirando o devido lucro, e ao mesmo tempo passam a controlar os bancos locais pelas dívidas contraídas internacionalmente.

A questão que fica é simples... Engdahl denuncia esta estratégia recente como um plano de dominação anglo-americano sediado num poder financeiro, mas nós fomos uns séculos... uns milénios mais atrás, e vimos um fio condutor. Se a estratégia de domínio financeiro parece ser uma novidade, não parece ser novidade a sua coordenação a nível internacional, sem dissensões, encobrindo factos passados e refazendo o futuro. Do ponto de vista comercial começou com as Companhias das Índias, mas já muito antes passava por um fechar de fronteiras, por uma ocultação propositada de territórios.

Não passa pela cabeça de ninguém acreditar que um imperador romano como Augusto não se preocupasse em saber o que se passava para além do Mare Nostrum, do Mediterrâneo, que controlava. O mesmo aconteceria com os imperadores chineses... a necessidade de conhecimento exterior só seria limitada pela sua capacidade de exploração, e essa capacidade de exploração permitiu desde sempre aventuras marítimas. Se não foram divulgadas, se foram ocultadas coordenadamente, isso apenas se poderia dever a um entendimento internacional que ultrapassaria as fronteiras e poderes dos reinos individuais. Por isso, o domínio anglo-americano parece-nos ser apenas um manifestação recente de um poder antigo....

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publicado às 07:56


A Century of War

por desvela, em 09.09.12
Neste blog procurei evitar falar sobre o que se passou historicamente nos últimos 100 anos.
Há um excelente livro que faz uma análise pouco convencional do que se passou, e explica com bastante nexo o que se tem passado no último século e meio de hegemonia anglo-americana. Não é um livro que se encontre muito referenciado, e certamente estará ausente da grande distribuição... a mim chegou-me por email amigo (de KT), mas encontra-se o PDF na internet:

William Engdahl: A Century of War (PDF link)
Anglo-American Oil Politics and the New World Order (2004)

Como o próprio subtítulo indica, o livro foca a geoestratégia baseada no petróleo, mas vai muito para além disso, explicando as diversas crises financeiras, como foram provocadas, e mais importante - por que razão foram necessárias.

Começa justamente pela Grande Depressão Financeira de 1873, revelando que o problema da especulação financeira é anterior à Depressão de 1928... Ignora-se a anterior porque o seu carácter não afectou o Estados Unidos da mesma forma. Em 1873 o mundo financeiro centrava-se na City de Londres e dava apenas os primeiros passos em Wall Street.

O esquema de controlo baseado numa política financeira global, assente na comercialização das dívidas soberanas, começa a ser desenhado em Londres no Séc. XIX, e irá consolidar-se em Nova Iorque no Séc. XX. É notável o encadeamento estratégico que termina com a ligação da moeda ao ouro. Começa na reunião de Bretton Woods, logo em 1944, dois meses após a rendição alemã. O dólar aparece sobrevalorizado face ao valor de mercado, e o passo final será dado em 1971 quando Nixon decide unilateralmente acabar com a  conversão da moeda em ouro - o chamado Nixon-Shock. Isso permite basicamente aos EUA imprimir dólares livremente... Para assegurar a necessidade dos estados aceitarem dólares (ou seja, dívida americana) seria fundamental a política dos "petro-dólares", ou seja que a negociação do petróleo fosse feita exclusivamente com dólares. Segundo Engdahl, isso justifica toda a política de tensão e controlo do Médio-Oriente.
Entre as diversas notáveis "coincidências", encontra-se a deposição do Xá da Pérsia, Rheza Pahlevi que coincide com o fim do contrato de exploração de petróleo, a vontade de não renovação, e a aposta na energia nuclear.

Engdahl afirma que os movimentos anti-nucleares visavam essencialmente acabar com a política franco-alemã que insistia na independência petrolífera, através das centrais nucleares. A crise petrolífera de 1973, estaria na agenda duma reunião do grupo Bildeberg em Saltsjöbaden, consolidaria o dólar como moeda necessária para o petróleo.
Curiosamente, no decorrer das décadas seguintes, e apesar do sucesso tecnológico que levaria a novas formas de energia, verificou-se a progressiva menorização dessas possibilidades, e apesar de tudo levar a crer que o petróleo teria os dias contados, tal como o carvão teve, o que se passou foi o oposto. Aumentou a dependência energética do petróleo, agora agravada pelo aparecimento das necessidades chinesas e indianas... Até o Brasil, que durante muitos anos enveredou pelo álcool como substituto, vai deixando cair essa ideia quase por completo.

O mais notável no livro é a explicação de como a Alemanha aparece como inimigo principal, quase sucessivamente, durante o Séc. XX. A história começa com a unificação prussiana e a política económica após a crise financeira de 1873, o que leva a Alemanha a tornar-se numa potência capaz de rivalizar navalmente com a Inglaterra. A Entente Cordiale com a França surge dessa necessidade inglesa de parar o desenvolvimento autónomo alemão. O tradicional inimigo inglês passaria a aliado, face ao maior perigo. Engdahl simboliza essa ascensão na construção alemã de uma ferrovia que ligasse Berlim a Bagdad, ou seja permitiria o fluxo de petróleo sem passar pelo Canal do Suez controlado pelos ingleses desde a abertura em 1869.
A entrada dos EUA na 1ª Guerra Mundial faz parte do acordo de cedência de poder inglesa, numa aliança americana, financiada por J. P. Morgan. Os termos dos acordos de Versalhes deixam a Alemanha numa posição de fragilidade absoluta, incapaz de pagar as dívidas de guerra que lhe são assacadas.

A Invasão e Ocupação Francesa do Ruhr entre 1923 e 1925.
Um facto que passa normalmente despercebido é efectiva ocupação da zona industrial alemã do Ruhr, como forma de "cobrar a dívida de guerra", durante a presidência francesa de Poincaré. Durante o processo de ocupação que terminou com 137 civis mortos, as forças francesas e belgas chegaram a registar 100 mil efectivos.
Enterro de 10 vítimas civis na ocupação francesa da Alemanha, em 1923.

Neste contexto, a posterior resposta alemã, na 2ª Guerra Mundial, que leva a uma ocupação parcial da França poderia até ser vista como um contraponto a esta invasão feita 15 anos antes. Os efeitos destruidores do Tratado de Versalhes criaram um sentimento de profunda revolta entre os alemães, praticamente vassalos trabalhadores obrigados a pagar pesadas dívidas de guerra. Uma política de endividamento iniciada com os ingleses e que se consolida com os americanos. Porém, como sabemos, para Hitler a causa do problema internacional tinha origem judaica - basta ler o Testamento de Hitler.

Essas ideias surgiam de vários lados, e convém não esquecer que na própria Inglaterra se desenvolveu um movimento nacionalista, que colhia a simpatia do Rei Eduardo VIII, que foi forçado a abdicar por motivo secundário de "casamento com divorciada". 
No contexto conturbado que antecedeu a 2ª Guerra Mundial é ainda interessante citar Julius Evola sobre os Protocolos de Sião:
"Whether or not the controversial Protocols of the Learned Elders of Zion are false or authentic does not affect the symptomatic value of the document in question, that is, the fact, that many of the things that have occurred in modern times, having taken place after their publication, effectively agree with the plans assumed in that document, perhaps more than a superficial observer might believe"
Pós-Guerra
Engdahl vai mais longe e constata que a tensão alemã se reacende no pós-guerra. Pelo entendimento franco-alemão que leva à construção da União Europeia e pela autonomia nuclear, mas especialmente pelo entendimento que Gorbashev se preparava para firmar com a Alemanha de Kohl (segundo Engdahl, os ingleses teriam afirmado que Helmut Kohl se afigurava como um novo Hitler - talvez lembrando o acordo com Stalin que antecedeu a 2ª Guerra Mundial).
Em troca da reunificação alemã, da queda do muro de Berlim, Gorbashev pedia o apoio económico alemão face à débil economia russa. Por isso, tornava-se um imperioso anglo-americano favorecer a sua queda, e Ieltsin acabou por favorecer esse propósito. A ideia de ajuda alemã à Rússia caía por terra, caindo também a ameaça soviética, rapidamente invadida com a maquinaria especulativa, propícia à corrupção que destruiu o frágil sistema comunista.

O livro de Engdahl apresenta muitas coincidências, entre mortes acidentais e por atentados, nomeadamente na Alemanha e Itália, afinal os dois elementos europeus do Eixo, onde actuavam grupos terroristas políticos (Baader Meinhoff e Brigadas Vermelhas).
Um outro factor interessante é o desenvolvimento de uma mentalidade Malthusiana tendo em vista a escassez de recursos. Como Engdahl constata, o próprio anúncio ter sido feito por Malthus há 200 anos não mostra um visionário, mas mostra sim como estava errado. A população cresceu exponencialmente e os recursos não acabaram porque a tecnologia permitiu esse desenvolvimento para aumento de recursos.

Ligação
O livro de Engdahl começa basicamente onde eu tinha acabado de escrever... ou seja, começa com a efectivação de um colonialismo financeiro, centrado na actividade bolsista de Londres e Nova Iorque, e termina com o surgimento dos "braços armados" que são as instituições financeiras internacionais, em particular o FMI. 
Subjacente está uma necessidade de envolvimento num comércio mundial que torne todas as nações dependentes pelas dívidas contraídas. Os actores são facilmente manipuláveis em frágeis democracias onde a opinião pública é controlada pelos meios de comunicação. O controlo desses meios de comunicação, nomeadamente das televisões e agências noticiosas é fulcral...

Engdahl mostra ainda uma solução que foi encontrada para abalar as novas economias asiáticas, que estavam praticamente ausentes da pressão das dívidas internacionais. Uma solução é justamente a imposição de abrir o mercado e permitir a especulação sobre os valores imobiliários. Os especuladores começam a comprar fazendo disparar os preços, o que provoca uma necessidade de crédito dos bancos locais... esses bancos ficam endividados para satisfazer o crédito exigido pela população. Depois, os investidores vendem, retirando o devido lucro, e ao mesmo tempo passam a controlar os bancos locais pelas dívidas contraídas internacionalmente.

A questão que fica é simples... Engdahl denuncia esta estratégia recente como um plano de dominação anglo-americano sediado num poder financeiro, mas nós fomos uns séculos... uns milénios mais atrás, e vimos um fio condutor. Se a estratégia de domínio financeiro parece ser uma novidade, não parece ser novidade a sua coordenação a nível internacional, sem dissensões, encobrindo factos passados e refazendo o futuro. Do ponto de vista comercial começou com as Companhias das Índias, mas já muito antes passava por um fechar de fronteiras, por uma ocultação propositada de territórios.

Não passa pela cabeça de ninguém acreditar que um imperador romano como Augusto não se preocupasse em saber o que se passava para além do Mare Nostrum, do Mediterrâneo, que controlava. O mesmo aconteceria com os imperadores chineses... a necessidade de conhecimento exterior só seria limitada pela sua capacidade de exploração, e essa capacidade de exploração permitiu desde sempre aventuras marítimas. Se não foram divulgadas, se foram ocultadas coordenadamente, isso apenas se poderia dever a um entendimento internacional que ultrapassaria as fronteiras e poderes dos reinos individuais. Por isso, o domínio anglo-americano parece-nos ser apenas um manifestação recente de um poder antigo....

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