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Com chás

por desvela, em 10.07.13
Perante as informações dispersas, algo contraditórias, abundantes na irrelevância e escassas na importância, é sempre um risco especular novas hipóteses sobre as primeiras migrações humanas. Não há suficiente informação nem para rebater, nem para sustentar categoricamente nenhuma hipótese... o resto é inércia conveniente. Com chás, é mais fácil alinhar pela teoria que se foi estabelecendo, por mais interrogações que se deixem sem resposta... mas o espírito inquieto prefere o caminho das conchas - neste caso procurar uma versão consistente que responda a interrogações fundamentais.

Constava no Séc. XVI que o nome Nova Guiné era devido à oposição à outra Guiné, africana. Tal como a Guiana, todas estas terras partilhavam a proximidade equatorial em diversos continentes. 
O registo mais antigo do nome Guiana é o nome do território basco francês, na zona da Aquitânia, que esteve na origem da Guerra dos Cem Anos.
Essa Guiana occitana fazia parte dos domínios ingleses, nomeadamente de Eduardo III, fundador da Ordem da Jarreteira, que quebrando as promessas de paz com o rei francês, passou o Ducado da Guiana ao filho, o Princípe Negro, Eduardo de Woodstock! A mesma Guiana esteve em posse do irmão, Eduardo de Gant, pai de D. Filipa de Lencastre... e foi reivindicação inglesa até ao fim da Guerra dos Cem Anos.

De forma rápida, chegamos da Guiana occitana/basca ao nome da Nova Guiné, e no texto anterior procurámos ver se fazia sentido o caminho inverso, partindo de uma Velha Guiana.

Tudo isto parece arbitrário, mas há uma questão fundamental, que carece de resposta:
- Como manter no decurso de milénios uma guerra brutal entre tribos rivais numa ilha limitada?
- Não seria natural que uma das tribos ganhasse ascendente, aniquilando as restantes?
Quando a violência vai ao ponto de antropofagia cultural, o único valor dados aos outros parecia ser o de recurso alimentar... No entanto, as diversas tribos coexistiram ao ponto de criarem quase 900 línguas diferentes, o que mostra uma assumida diferença e herança ancestral.
Como manter o equilíbrio entre tribos que visavam aniquilar as outras?
Ao fim de tantos milénios, o que evitou que uma das tribos crescesse a ponto de criar um exército de guerreiros que derrotasse as restantes?... 
Como se deu o controlo populacional na ilha?
Eram as batalhas apenas rituais destinados a esse controlo populacional? Ou seja, não visavam a destruição dos rivais, mas apenas uma "selecção" dos mais jovens?
Afinal, se a agricultura deu ali os primeiros passos, e se havia uma técnica apurada no manejo de arco e flecha, acrescido do uso de venenos naturais, onde foi estabelecido o limite do génio inovador, para estabelecerem novas defesas e armamento? 
A imaginação ficou nos rituais algo estranhos e exóticos? 
Quem orientou essa educação guerreira ineficaz para batalha?
Quem aconselharia uma política não expansionista, deixando a tribo sob ameaça constante de se ver aniquilada (ou comida...) pelas tribos rivais?

Portanto, há aqui uma quantidade apreciável de perguntas que estão sem resposta.
À falta de melhor, a única resposta que encontro é a de uma coordenação global dos xamãs locais.
Os xamãs, conselheiros típicos da favorabilidade da batalha, da educação condicionada por rituais, exerceriam um papel fulcral na formação daquelas sociedades. A eventual fragilidade de cada um seria irrelevante perante o papel coordenado dos restantes. Ou seja, se um fosse banido, essa tribo arriscaria o ataque coordenado das outras tribos, ordenado pelos outros xamãs... 

Esta evolução para uma coordenação entre xamãs seria um processo natural de reflexão social. 
Afinal, quando uma tribo dominasse por completo a ilha, o que se seguiria? 
Uma regência única? Não havendo inimigos na ilha, entrar-se-ia numa competição interna... mas onde apareceriam esses focos de dissensão, seriam controlados pelos xamãs, ou organizariam-se contra eles?
Como se controlaria uma explosão populacional? 
Rapa Nui (pintura de Hodges, 1775) e o problema dos Coelhos da Páscoa...

Um aumento descontrolado da população esgotaria os espaços e os recursos, entrando-se num conflito e colapso social, semelhante ao que se supõe ter ocorrido na Ilha da Páscoa.
As ilhas polinésias apresentavam esta dualidade... por um lado ambientes paradisíacos, mas quando a liberdade permitia o descontrolo populacional, a reprodução dos coelhinhos era um modelo inevitável para prever o que se seguiria - um esgotar de recursos, conflitos crescentes caóticos levando ao colapso social.
Por isso, a nova "Paz-côa", a "paz filtrada", trazia um ovo diferente do de Colombo[*], trazia um acordo de paz que visaria um controlo populacional... o "crescei e multiplicai-vos" tinha o limite Malthusiano, o limite da estrutura para os recursos disponíveis. 
[*] Sobre a tradição dos ovos da Páscoa, 

Não é preciso ler Robinson Crusoe, para ver que os paraísos tropicais traziam vários problemas, onde foram aplicadas diversas soluções ao longo de gerações... normalmente condicionando a mentalidade pela educação, pelos rituais, pela cultura, pelas histórias. Não se trataria apenas de um problema de sobrevivência, seguir-se-ia um problema de vivência... ou seja, que objectivos de vida manteriam um funcionamento regular da sociedade?  Sob esse aspecto, a manutenção dos inimigos tribais, como na Nova Guiné, reteria um foco de atenção para a vivência... parece ter sido essa a solução encontrada, durante inúmeras gerações.
No Taiti, ilha cuja descoberta deve remontar a Pedro Fernandes Queirós[**], ocorreu a famosa história da revolta da Bounty. Alguns marinheiros amotinaram-se, querendo viver em tal paraíso, ofereceram armas para o desequilíbrio de forças, em favor de um rei, Pomare I, que assegurou o controlo total da ilha entre 1788 e 1791. O capitão Bligh retornou, e perante a ameaça externa o rei entregou os amotinados que lhe tinham fornecido o poder. O Taiti entraria em contacto com os ocidentais como reino unificado, mas em 1842 os franceses usariam as famílias dos rivais depostos para impor um protectorado francês contra a rainha Pomare IV, e ainda hoje o Taiti faz parte da França (... o país modelo da liberdade dos povos, que nunca abdicou das suas colónias, sem deixar de acusar os outros de colonialismo).
Sim, é verdade que falta a folha com as páginas 110 e 111, mas o 
borrão consegue fazer ler o nome de Pedro Fernandes Queirós
(... foi pior a emenda que o soneto!)

Ainda sobre o Taiti, o mesmo livro "O Viajante Universal" refere a particularidade de na viagem de Wallis ter sido reportado haver habitantes "ruivos", e Bougainville, chegando no ano seguinte, refere o uso de conchas como castanholas, e de pérolas como o único meio de moeda de troca. 
O Taiti afinal tanto tempo incógnito é abordado por Wallis, Bougainville e Cook em 1767, 1768 e 1769.
Os espanhóis cruzariam o Pacífico durante 250 anos, e afinal parecia difícil era não passar pelo Taiti.
A viagem de Cook tem um propósito científico - o trânsito de Vénus em Junho de 1769.
O mítico nascimento de Vénus, como pérola saída de uma concha
... parece "maluquice" uma mulher sair de uma concha, mas isso depende do tamanho da concha:
Segundo o National Geographic as conchas da 
zona do Recife Australiano podem atingir... 1m 20cm.
Com essa dimensão, poderiam bem albergar uma criança!

Portanto, afinal a ideia de uma criança poder sair de uma concha, faz sentido na zona das Ilhas Malucas, nos Mares Austrais... e as pérolas, as pérolas saem de "Ostras", ou será preciso "ostracizar" para dizer que saem de "Austras"?
Quanto às pérolas taitianas podem ser "pérolas negras", e como dissémos, serviam de moeda. 
Desde os primeiros registos civilizacionais que foi dada grande importância às pérolas, antes mesmo de pedras preciosas, porque saíam naturalmente brilhantes da "ostra". 
Sumérios, chineses, egípcios, japoneses, gregos, romanos, etc... todos tinham os seus pescadores de pérolas... os hindus afirmariam que teria sido Krishna a criar a primeira. Diferentes culturas, algumas que pouco teriam de marítimas, teriam os seus mergulhadores especializados em suster respiração e encontrar pérolas nas ostras. A maior pérola é disforme e ostenta o nome de Lao Tzé. Cleópatra dissolveu uma pérola para mostrar a Marco António que poderia ter uma refeição mais cara que o orçamento de uma cidade, e outras pérolas como "La Peregrina" têm histórias de 500 anos.

Se há local que tipicamente se prestava a uma população marítima vocacionada para apanhar as primeiras pérolas terá sido a Oceania. Bom, e agora vamos regressar ao mapa do logotipo:
O que tem de especial, de novo, este mapa?
Não é o que tem... é o que falta.
O último registo marcado a Oriente... é a Nova Guiné!
Os mapas começam a ser modificados, e são sucessivamente inventados contornos alternativos...
A Nova Guiné vai ficar incompleta, a Austrália não vai aparecer, o mundo fica suspenso até Cook.
Timidamente serão marcadas as Ilhas Salomão (o nome parece simbólico), ao lado da Nova Guiné, e os holandeses vão arriscar entrar pela Austrália até ao limite definido pelo meridiano português de Tordesilhas (convém reparar que os holandeses se especializaram mais no hemisfério português).

A pérola com o nome "La Peregrina" leva-nos à continuação!
Qual era a rota de peregrinação típica durante quase toda a Idade Média?
Havia a cruzada a Jerusalém, a via Francigena, que levava a Roma... mas curiosamente a peregrinação mais importante, era a de Santiago de Compostela:
Caminhos europeus de Santiago de Compostela
"Estrada de Santiago"... a Via Láctea 
A vieira indicando o Caminho de Santiago.

O que fazia tantos peregrinos europeus seguirem a rota do Apóstolo Santo Iago?
É claro que havia todo o factor religioso, mas nem sequer podemos considerar que se tratasse de uma figura crucial no cristianismo, e mesmo a lenda envolvendo a sua presença na Galiza seria muito controversa.
Acresce que a Estrada de Santiago nem acabaria ali... muitos seguiam o caminho até Finisterra!
Finisterra, onde seria o ponto mais ocidental (por erro, já que era o Cabo Magno), e constando que as rotas eram mais ancestrais, remetem-nos para uma tradição celta, associada a quê?
- À Vieira... que se diz também "venera", ou seja, a uma Vénus, saída da concha!

É claro que a vieira foi tida como símbolo do peregrino pela sua eventual utilidade para beber água, tal como a cabaça... mas sobre a cabaça evitarei falar. Apenas direi que se a concha tinha este lado feminino, a cabaça, um dos primeiros alvos de agricultura, poderia encerrar um aspecto masculino... que se resume no contexto da Oceania à palavra koteka, porque as coisas são como são, e o resto são preconceitos induzidos pelos xamãs da nossa cultura. É assumido que os cultos de fertilidade foram primevos.
Bom, e se as taitianas usavam conchas, a migração cigana da Índia até à Andaluzia popularizou as castanholas
... que têm origem reportada aos fenícios, afinal a civilização que se baseou num domínio marítimo, desde o Mediterrâneo até ao Atlântico. Seriam os fenícios a definir o alfabeto que dominaria o mundo das línguas indo-europeias, e não só.

Compostela poderia aparecer no contexto de peregrinação marítima como uma rota que terminava num grande lago proibido à navegação, seria um "santo lago" que se ligava a "Santo Iago", tal como alguns cultos de Santo Antão estão claramente ligados às Antas. Curiosamente a outra Santiago, do Chile, foi repousar à beira de um lago ainda maior, o oceano Pacífico. Com o decorrer das descobertas, o caminho estava aberto para o lago atlântico, e a contra-reforma terminou a harmonia católica - o caminho de Santiago deixou de ser popular durante os quase cinco séculos seguintes, tendo apenas sido reavivado recentemente.

Objectivamente, o que se pode reter daqui?
Muito pouco, grande parte do texto pode ser considerado especulativo e arbitrário nas associações.
Afinal, se Vénus é Venera, daí tanto vem a palavra "venerar" como a palavra "venérea". 
Se um Puto é um pequeno anjo, associável a Cupido, para fazermos o feminino associado à mãe Vénus, devemos recorrer ao filme japonês LaPuta: Castle in the Sky, em que o nome Laputa se refere a uma cidade nos céus, na obra Gulliver de Jonathan Swift.
Os xamãs guardaram os métodos e as conchinhas, os cravos e as pimentas, e no seu percurso peregrino fizeram as naves subir aos céus, até que reencontraram o simbolismo perdido. Superada a prova, passaram a magos que bebem chá... os problemas são os mesmos, e os métodos pouco diferentes.

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publicado às 06:48


Austrália do Espírito Santo

por desvela, em 08.05.13
Austrália do Espírito Santo é como Pedro Fernandes de Queiroz terá baptizado o continente austral


numa viagem quase esquecida, em 1606, mas que o Padre José Agostinho de Macedo faz questão de lembrar noutra parte do poema "Newton":
O trabalho mortal, o amor da gloria.
Ó nome Lusitano, ó Patria minha,
Eu culpo o teu silencio, a huma virtude,
Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia.
Descreve Newton c'o compasso d'ouro
O globo que Varennio exposto havia;
Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville,
Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyrão.
Do Continente austral foge o fantasma,
Que avarento Hollandez (nem hoje avaro;
Nem já por crimes se conhece a Hollanda)
Julgou grande porção do globo, e sua.
Assombrado do gelo atraz voltárão,
Mas nunca hum passo além co' lenho óvante
Da Terra forão que tocára hum Luso;
Magnanimo Queiroz, déste-lhe hum nome
Para ti foi brazão, e he meta aos outros
Do nebuloso Sul prescrutadores:
E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo,
Se ao pensativo Bátavo pertence,
E ao pertinaz navegador Britanno,
No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte,
Mais além de Queiroz nenhum se avança.
Foi entre tantos Magalhães primeiro,
Todos de hum centro os raios se derramão,
Que vem tocar d'hum circulo os extremos,
Há uma referência a vários nomes... e essencialmente o Padre Macedo transmite uma versão muito clara das condicionantes sobre as descobertas no período entre Fernão de Magalhães e James Cook.
Macedo começa por queixar-se do silêncio, inércia portuguesa, para reivindicar a presença no continente Australiano. Mas não se fica por aí, traça um rasto...

O rasto começa no trabalho do jovem holandês Bernhardus Varenius, "Geographia Generalis", republicado pelo jovem Newton... um escreve-o e morre aos 28 anos, e com a mesma idade, o outro vai recuperá-lo. Não consegui obter nenhum "globo exposto", nem um único mapa dessa geografia... é certo que o trabalho ficou conhecido por ser teórico, mas uma geografia sem um único mapa, parecia-me ser apenas sina de portugueses e espanhóis após o Séc. XVI.

Cook é sobejamente conhecido, e já falámos sobre o Cozinheiro e Sanduíche
John Byron será aqui o avô do famoso poeta. Esse Byron acompanhou George Anson numa viagem de circum-navegação. Ambos ficaram conhecidos por contribuírem para a derrota franco-espanhola na Guerra dos Sete-Anos.
A partir daí ficou Pacífico que o Oceano seria inglês, com a anuência e silêncio do aliado, Portugal.
Se o francês Bougainville tinha bem preparada a viagem Pacífica pelos mares do Sul, pela derrota sofrida Luís XV não a pode creditar. Bougainville contentou-se com o nome associado às belas buganvílias, flores que antes de serem "descobertas" por si, era suposto abundarem em toda a América do Sul, com vários nomes, entre os quais "três-marias"...
Os franceses ficavam com as buganvílias, e os holandeses com as túlipas...

A Holanda, já tinha tido o seu quinhão de guerras navais com os ingleses, e a sua rota seria uma derrota. Uma derrota é nauticamente uma mudança do curso previsto na rota. Conforme referimos em Túlipas e Futuros, a invasão inglesa protagonizada por Guilherme de Oranje foi uma vitória holandesa que cedeu o doce da Laranja e acomodou o ácido, ao jeito do que aconteceria com o aliado português.

Do continente austral foge o fantasma
Era disso que se tratava... de uma fantasia política que impedia a sua descoberta.
Por isso, diz Macedo... do avarento Holandês já nem se conheciam "os crimes" no início do Séc. XIX.
A sede do comércio, dos avarentos, tinha passado para a City Londrina.
Porém, Macedo lembra... lembra da vontade de dominar os mares, julgando sua grande porção do globo... afinal pecadilho semelhante ao dos portugueses. Podemos relembrar aqui os privilégios que a Companhia das Índias Holandesa arrogava ter
Antes de falar de Pedro Fernandes de Queiroz, o Padre Macedo faz questão de salientar
"nunca um passo foram avante com os barcos, do que onde tinham tocado os Lusos"
tal como dissera Pedro Nunes, os lenhos das naus portuguesas tinham ido a todo o ilhéu, todo o baixio.

Para Queiroz, o Padre Macedo não reclama a descoberta, reclama o nome a "Austrália do Espírito Santo", nome que constaria do diário de Cook, e que acabou por se sobrepor enquanto Austrália à designação inconveniente de Nova Holanda... que lembraria os holandeses. A viagem de Queiroz à Austrália Oriental é de 1606, e no mesmo ano é reclamado que Janszoon teria avistado a parte Ocidental. Mais uma vez, uma quase simultaneidade, passando quase um século que os portugueses aportavam a Timor, ali ao lado. Poderíamos lembrar ainda a viagem de Heredia em 1601, mas Macedo é mais claro:
"mais além de Queiroz nenhum se avança, foi entre tantos Magalhães o primeiro"
 ... ou seja, Macedo dá a entender que Magalhães teria sido o primeiro a aportar à Austrália.
É algo natural, porque em muitos mapas, a parte austral é denominada "Terra Magallanica"... e por isso, mais do que o crédito da viagem de circum-navegação pelo Estreito (que o próprio denunciara, ao falar no mapa de Behaim), seria natural que essa viagem se destinasse também a reclamar a Austrália para Espanha. 

Ao pensativo Batavo pertence...
A Austrália seria a gota de água que transbordaria o Oceano político europeu.
Quando Magalhães começava a preparar a sua viagem, em 1517, Martinho Lutero confronta a Igreja com as suas teses que questionam o Poder Papal. Quando Elcano regressa em 1522, já Lutero tinha afixado as suas teses e passado pela Dieta de Worms (ligada à saga dos Nibelungos)... estando proscrito por Carlos V. 
Só que o imperador, após séculos de tradição germânica, estava agora em solo espanhol!
A questão explorada pela simples avareza não oferecia grande dúvida.
- De um lado, o Tratado de Tordesilhas que dividia o mundo em dois, reconhecido pelo Papa, e com o Imperador Carlos V interessado numa das partes desse mundo.
- Do outro lado, a restantes nações europeias fora da partilha, e um Martinho Lutero que, tal como dezenas de outros, criticava o poder papal, o seu despotismo... Continuava a fazê-lo. Nada de letal, próprio dos tempos, lhe acontecia, porque o momento era o momento político de colocar um travão sobre o poder e arbitragem papal. 
A restante Europa não iria cruzar os braços. Em 1532, o inglês Henrique VIII encontra-se com o francês Francisco I... o assunto parece ser o casamento com Ana Bolena, mas será efectivamente a separação da Igreja Anglicana, que ocorre no ano seguinte.
Quando o poder papal reage, iniciando a Contra-Reforma, em 1545, já estava aberta a ferida que se iria prolongar até hoje, na divisão entre catolicismo e protestantismo.

Ainda estamos longe de chegar ao "pensativo Batavo"...
Há várias camadas que se confundem naquela transição do Séc. XVI. Ninguém quereria travar o Renascimento, mas certamente que se temia uma evolução das relações sem arbitragem papal, ao mesmo tempo que os estados protestantes se queriam libertar daquele jugo romano que os desfavorecera.
Religiosamente, havia agora uma disputa aberta. Politicamente, o tratado de Tordesilhas abrira outra.
Estas já eram suficientes para complicar as coisas. 
Porém, em cima destas, estavam os problemas "secretos". 
Havia novos territórios, novas revelações, que praticamente estavam excluídas de serem mencionadas.
Falar-se-ia de Índias Ocidentais e Orientais, mas pouco mais que isso. Mesmo uma boa parte da nobreza não teria acesso a uma visão geral do problema, o que aumentaria a confusão!

Retirando a autoridade papal, que outra forma de arbitragem haveria entre as nações, que não ameaçasse toda a estrutura do poder europeu, assente na separação entre nobreza e burguesia. Como se isso não bastasse, o protestantismo envolvia a crença popular, e o povo não deixava de fazer parte da equação.
A isso acrescia um Império Otomano que se expandia pelo Mediterrâneo, e é claro... havia os judeus.
A solução pelo lado católico foi clássica... reprimiu tudo o que podia. Pelo lado protestante, que estava em perda, interessava uma motivação aglutinadora, e foi necessariamente mais tolerante. 
Note-se que o próprio Lutero tinha escritos anti-semitas, e por isso logo se formaram variantes religiosas, cujo objecto podia ser teológico, incluíam calvinistas, metodistas, e outras variantes... mas o importante é que os Estados deixavam de ser definidos pela religião. Porém, interessava manter uma aglutinação do Estado sobre algum ponto comum, que não fosse o velho conceito medieval de Rei.  

É neste contexto que aparece a República de maior sucesso (após Roma)... a República Holandesa. Se Veneza era já um bom exemplo de reedição do ideal de república, a Holanda foi muito mais longe.
Com D. Sebastião, Portugal extingue o último sopro em 1578, em 1579 dá-se a União de Utrecht que formaliza a República Holandesa, pronta a acolher todos os refugiados judeus... muitos dos quais já tinham partido da Península Ibérica. A Holanda torna-se rapidamente numa terra de acolhimento para milhares de refugiados, que impulsionam aquele pequeno território para uma rápida ascensão.

Faltava o enquadramento global. 
É nesse contexto que aparece o "pensativo Batavo"... Hugo Grotius.
Grotius vai propor uma Lei Internacional diferente, que irá invalidar o poder natural do Papa.
Teria sido provavelmente esquecida, mas a vitória na Guerra dos Trinta Anos, e o Tratado de Vestfália, exigiam uma nova ordem. Essa ordem mundial seria definida pelo pensativo holandês, que diz Macedo - "teve a glória de buscar no Mundo um Mundo".
Se o Papa proclamava o poder pelo direito natural, Grotius afirmava a legalidade pelo poder efectivo, acordado entre Estados, em função do equilíbrio de forças. É assim um pretexto para atacar todas as possessões ibéricas, especialmente as portuguesas, pela Companhia das Índias Holandesas. Deixa de haver um direito natural associado a qualquer descoberta, ou a validação papal... os holandeses passam a atacar as possessões dos restantes, conforme os seus interesses. Só respeitariam os acordos de paz, que seriam depois firmados entre Estados. 
É nesse sentido que proliferam os Tratados de Paz, porque são a única lei respeitada, por via de conflito.

Ainda assim, é notável que os Holandeses são mais temerários em atacar as possessões alheias do que propriamente a desbravar novos territórios, mesmo aqueles que eles sabiam existir e não estavam declarados. Têm especial cuidado com a Austrália... onde só arriscam avançar pela parte ocidental. Na América entram em disputa com os ingleses na posse da costa leste, mas nada fazem na costa oeste!
Ignoram praticamente todas as ilhas do Pacífico, excepto a parte Indonésia.

Ou seja, parecia manter-se uma proibição, uma auto-exclusão mais forte do que a simples lei internacional que Grotius enunciara, e que entrara em vigor após Vestfália. Havia territórios ainda assombrados de onde não saíam os fantasmas, mesmo por via das relações internacionais. As Companhias das Índias pareciam sobrepor-se às relações estatais...
A globalização só acaba por ocorrer quando o poder migra para a City de Londres, especialmente quando é autorizada a descoberta de Cook, que é praticamente simultânea à Independência dos EUA.
A Holanda será quase esquecida, o poder financeiro já tinha definido um novo centro de acção...
Afinal, tão ou  mais importante que a relação entre os Estados, seria definir um sistema político que mantivesse um certo secretismo, ao mesmo tempo que aparentava ser democrático.
Entravam aí as teorias sociais... especialmente de Thomas Hobbes, que definiria o "Contrato Social", a que se seguiram Locke e Rousseau.
Teorias que pouco mais serviam do que para justificar o "status quo", arranjando um qualquer nexo causal que eliminasse responsabilidade de quem teria o poder. Como se qualquer jovem que nasce tivesse delegado, por sua vontade, algum poder no sistema que definiria a sua própria formação e o condicionaria na sua inserção social e cultural.
Tal como no caso de Grotius, estas teorias traziam um substrato ideológico, mas pouco mais eram do que uma mera descrição do observado e do trivial, não fornecendo nenhuma teoria que justificasse relações humanas ou lhes desse um verdadeiro nexo.

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publicado às 04:36


Caricaturas revolucionárias

por desvela, em 07.05.12
As questões que se levantam à época da Revolução Francesa, estão bem retratadas nalgumas caricaturas de Gillray.
Liberdade Francesa (vs) Escravidão Inglesa (1792)

A caricatura é 1792, passados 3 anos e meio sobre a "tomada da Bastilha", e para além da clareza do desenho, os balões dos personagens dizem o seguinte...
French Liberty: O Sacre Dieu! _vat blessing be de Liberté. Vive Le Assemblè Nationale! _ no more Tax! _ no more Slavery!_ all Free Citizen! _ ha hah! _by Gar, how we live!_ve swim in the Milk & Honey.
British Slavery: Ah! this cursed Ministry! they'll ruin us with their damn'd Taxes!_ why, Lounds! they're making Slaves of us all, & Starving us to Death.

Gillray não é propriamente um vassalo passivo, como já tivemos oportunidade de mostrar com outras caricaturas (sobre Napoleão ou sobre Cook), mas coloca-se claramente do lado conservador. Ficava claro para os Tories que o caminho da "liberdade francesa" tinha levado a uma regressão, a uma pobreza apenas alimentada por uma ilusão de liberdade. Ao contrário, os ingleses queixavam-se dos impostos, mas de barriga cheia...
A afiliação política aos Tories, mesmo anti-Whig, fica ainda mais clara na caricatura seguinte:

Devil: nice Apple Johnny! _ nice Apple.
John Bull: Very nice Napple!_ but my Pokes are full of Pippins from the other Tree: & besides I hates Medlars they're so domn'd rotten that I'se afraid they'll gee me the Guts-ach for all their vine looks!

Em primeiro plano, na árvore da "Liberté", com o barrete frígio da Revolução Francesa, a serpente representando o Diabo oferece uma maçã de "Reforma", que o "zé povinho" inglês recusa dizendo ao invés tratar-se duma nespera europeia (associada a prostituição). Esta árvore reflectiria um requisito de reforma exigido pelos Whigs, que aparecem como fruto nesta árvore.
Mais atrás, a árvore de onde o personagem obteve as "maçãs verdadeiras"... a árvore dos Tories, com  raízes nos Comuns, Rei e Lordes, troncos na Justiça subdivididos em Leis e Religião, com maçãs de liberdade e segurança(?). 
Na árvore da frente, as raízes são a inveja, ambição e desapontamento, levando a um tronco de oposição, subdividido no tronco dos "direitos do homem" (de onde saem as maçãs do Clube Whig, da "Liberté", da conspiração, revolução, pilhagem, democracia, assassínio, traição, escravatura) e no tronco da "extravagância imoral" (com maçãs da idade da razão, deísmo, impiedade, blasfémia, ateísmo).
A Inglaterra conhecera a Revolução de Cromwell, e o sistema aceite depois por Charles II tinha permitido uma estável Monarquia Parlamentar (que ainda hoje se mantém...), e ainda recordaria os excessos vividos na República de Cromwell, no século anterior. A divisão parlamentar Tories-Whigs debatia estas duas visões. 
É curioso que ainda hoje os ingleses ironizam dizendo que a Inglaterra tem uma Monarquia Parlamentar, enquanto a França mantém uma República Monárquica (devido aos excessivos poderes presidenciais).

Convirá notar que o período da Revolução Francesa permitirá por contágio na Inglaterra uma liberdade suplementar, quase um "Dumping", que iludirá um pouco a situação que se irá seguir. A Inglaterra de Gillray não terá muito a ver com a que irá ser objecto da ilustração de Charles Dickens, já que a Revolução Industrial acabará por trazer uma exploração humana, e este tipo de abertura de ideias ficará encerrado. Será depois o tempo em que Lewis Carrol falará através de Alice sobre os "Telescópios que se fecham"!

Convenção ou subvenção?
Porém podemos ver como alguma liberdade crítica era ainda publicada, como neste cartoon de Woodward, de 1809, sobre a Convenção de Sintra... em que há um acordo entre Ingleses e Franceses sobre o destino a dar ao tesouro português:
George Woodward, Convention of Cintra, 1809

- This is the City of Lisbon
- This is the Gold, that lay in the City of Lisbon
- These are the French who took the Gold that lay in the City of Lisbon
- This is Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) who beat the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.
- This is the Convention that Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon 
- These are the Ships that carried the spoil, that the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon
- This is John Bull, in great dismay, at the sight of the Ships which carried away the gold and silver and all the spoil, the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.

Há vários pormenores interessantes... começando pelo formato do cartoon que é até moderno na sequência conforme organiza a banda desenhada! Estamos em 1809... e não no Séc. XX.
Depois, a forma irónica de contar a história tem um ritmo repetitivo bastante jocoso!
Finalmente, la pièce de resistance... apesar da vitória dos ingleses (e portugueses!!), Junot pode sair incólume, e retirava-se mesmo com o saque, transportado pelos navios ingleses!... e os portugueses nada tiveram a dizer sobre o assunto? - Estranho? - Amigos de Peniche, agora em Sintra?
Qual seria a vantagem dos ingleses em tanta delicadeza, fornecendo ouro ao inimigo?
Repare-se na cadeira onde se senta John Bull... nas listas alvas e encarnadas:
- fazem lembrar a bandeira dos Estados Unidos da América?
- ou fazem lembrar a bandeira da Companhia Britânica da Índias Orientiais?
- ... ou fazem lembrar ambas?

Conforme já aqui referido, havia um projecto comum das Companhias das Índias Orientais, que incluía o desenvolvimento dos Estados Unidos da América. Por isso, é natural que o ouro português não tivesse financiado a "Revolução Francesa", mas sim a "Revolução Americana". Através das suas influentes lojas maçónicas, os três países concordariam com esse destino... que no fundo apenas comprometia os fundos reais portugueses, duma corte instalada no Brasil.

Apesar da derrota francesa no curso das Guerras Peninsulares, o espólio português pilhado não regressou, e também nunca se viu um grande rasto em França! Durante todo o Séc. XIX, Portugal e Espanha ficariam permanentemente endividados, ao passo que a França renascia da guerra em poucos anos, recuperando o seu desenvolvimento, a níveis que tornavam a imagem de miséria de Gillray uma ilusão do passado, e talvez depois mais apropriada aos povos ibéricos, aliados dos britânicos. Isso levou a revoltas populares, como a da Maria da Fonte, que trouxe de novo tropas francesas a território ibérico... mas agora ao abrigo de Quádrupla Aliança, em que Inglaterra e França eram aliadas para cuidar da permanência do regime de endividamento das nações ibéricas, e evitar qualquer ressurgimento nacionalista.

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publicado às 08:10


Caricaturas revolucionárias

por desvela, em 07.05.12
As questões que se levantam à época da Revolução Francesa, estão bem retratadas nalgumas caricaturas de Gillray.
Liberdade Francesa (vs) Escravidão Inglesa (1792)

A caricatura é 1792, passados 3 anos e meio sobre a "tomada da Bastilha", e para além da clareza do desenho, os balões dos personagens dizem o seguinte...
French Liberty: O Sacre Dieu! _vat blessing be de Liberté. Vive Le Assemblè Nationale! _ no more Tax! _ no more Slavery!_ all Free Citizen! _ ha hah! _by Gar, how we live!_ve swim in the Milk & Honey.
British Slavery: Ah! this cursed Ministry! they'll ruin us with their damn'd Taxes!_ why, Lounds! they're making Slaves of us all, & Starving us to Death.

Gillray não é propriamente um vassalo passivo, como já tivemos oportunidade de mostrar com outras caricaturas (sobre Napoleão ou sobre Cook), mas coloca-se claramente do lado conservador. Ficava claro para os Tories que o caminho da "liberdade francesa" tinha levado a uma regressão, a uma pobreza apenas alimentada por uma ilusão de liberdade. Ao contrário, os ingleses queixavam-se dos impostos, mas de barriga cheia...
A afiliação política aos Tories, mesmo anti-Whig, fica ainda mais clara na caricatura seguinte:

Devil: nice Apple Johnny! _ nice Apple.
John Bull: Very nice Napple!_ but my Pokes are full of Pippins from the other Tree: & besides I hates Medlars they're so domn'd rotten that I'se afraid they'll gee me the Guts-ach for all their vine looks!

Em primeiro plano, na árvore da "Liberté", com o barrete frígio da Revolução Francesa, a serpente representando o Diabo oferece uma maçã de "Reforma", que o "zé povinho" inglês recusa dizendo ao invés tratar-se duma nespera europeia (associada a prostituição). Esta árvore reflectiria um requisito de reforma exigido pelos Whigs, que aparecem como fruto nesta árvore.
Mais atrás, a árvore de onde o personagem obteve as "maçãs verdadeiras"... a árvore dos Tories, com  raízes nos Comuns, Rei e Lordes, troncos na Justiça subdivididos em Leis e Religião, com maçãs de liberdade e segurança(?). 
Na árvore da frente, as raízes são a inveja, ambição e desapontamento, levando a um tronco de oposição, subdividido no tronco dos "direitos do homem" (de onde saem as maçãs do Clube Whig, da "Liberté", da conspiração, revolução, pilhagem, democracia, assassínio, traição, escravatura) e no tronco da "extravagância imoral" (com maçãs da idade da razão, deísmo, impiedade, blasfémia, ateísmo).
A Inglaterra conhecera a Revolução de Cromwell, e o sistema aceite depois por Charles II tinha permitido uma estável Monarquia Parlamentar (que ainda hoje se mantém...), e ainda recordaria os excessos vividos na República de Cromwell, no século anterior. A divisão parlamentar Tories-Whigs debatia estas duas visões. 
É curioso que ainda hoje os ingleses ironizam dizendo que a Inglaterra tem uma Monarquia Parlamentar, enquanto a França mantém uma República Monárquica (devido aos excessivos poderes presidenciais).

Convirá notar que o período da Revolução Francesa permitirá por contágio na Inglaterra uma liberdade suplementar, quase um "Dumping", que iludirá um pouco a situação que se irá seguir. A Inglaterra de Gillray não terá muito a ver com a que irá ser objecto da ilustração de Charles Dickens, já que a Revolução Industrial acabará por trazer uma exploração humana, e este tipo de abertura de ideias ficará encerrado. Será depois o tempo em que Lewis Carrol falará através de Alice sobre os "Telescópios que se fecham"!

Convenção ou subvenção?
Porém podemos ver como alguma liberdade crítica era ainda publicada, como neste cartoon de Woodward, de 1809, sobre a Convenção de Sintra... em que há um acordo entre Ingleses e Franceses sobre o destino a dar ao tesouro português:
George Woodward, Convention of Cintra, 1809

- This is the City of Lisbon
- This is the Gold, that lay in the City of Lisbon
- These are the French who took the Gold that lay in the City of Lisbon
- This is Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) who beat the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.
- This is the Convention that Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon 
- These are the Ships that carried the spoil, that the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon
- This is John Bull, in great dismay, at the sight of the Ships which carried away the gold and silver and all the spoil, the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.

Há vários pormenores interessantes... começando pelo formato do cartoon que é até moderno na sequência conforme organiza a banda desenhada! Estamos em 1809... e não no Séc. XX.
Depois, a forma irónica de contar a história tem um ritmo repetitivo bastante jocoso!
Finalmente, la pièce de resistance... apesar da vitória dos ingleses (e portugueses!!), Junot pode sair incólume, e retirava-se mesmo com o saque, transportado pelos navios ingleses!... e os portugueses nada tiveram a dizer sobre o assunto? - Estranho? - Amigos de Peniche, agora em Sintra?
Qual seria a vantagem dos ingleses em tanta delicadeza, fornecendo ouro ao inimigo?
Repare-se na cadeira onde se senta John Bull... nas listas alvas e encarnadas:
- fazem lembrar a bandeira dos Estados Unidos da América?
- ou fazem lembrar a bandeira da Companhia Britânica da Índias Orientiais?
- ... ou fazem lembrar ambas?

Conforme já aqui referido, havia um projecto comum das Companhias das Índias Orientais, que incluía o desenvolvimento dos Estados Unidos da América. Por isso, é natural que o ouro português não tivesse financiado a "Revolução Francesa", mas sim a "Revolução Americana". Através das suas influentes lojas maçónicas, os três países concordariam com esse destino... que no fundo apenas comprometia os fundos reais portugueses, duma corte instalada no Brasil.

Apesar da derrota francesa no curso das Guerras Peninsulares, o espólio português pilhado não regressou, e também nunca se viu um grande rasto em França! Durante todo o Séc. XIX, Portugal e Espanha ficariam permanentemente endividados, ao passo que a França renascia da guerra em poucos anos, recuperando o seu desenvolvimento, a níveis que tornavam a imagem de miséria de Gillray uma ilusão do passado, e talvez depois mais apropriada aos povos ibéricos, aliados dos britânicos. Isso levou a revoltas populares, como a da Maria da Fonte, que trouxe de novo tropas francesas a território ibérico... mas agora ao abrigo de Quádrupla Aliança, em que Inglaterra e França eram aliadas para cuidar da permanência do regime de endividamento das nações ibéricas, e evitar qualquer ressurgimento nacionalista.

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publicado às 00:10


Mayday

por desvela, em 02.05.12
Mayday... é um sinal de socorro.
Mayday... é o primeiro de Maio. 
Um dia da Maia, deusa-da-Terra, comemorado por trabalhadores/servos/escravos no mês de Maio.

O sinal de socorro pode ser entendido de muitas maneiras. Eu entendo-o como um pedido de ajuda de decisores para controlarem o Demo nas suas Demonstrações (Demonstrations=Manifestações).
Quem é o Demo?
Não precisamos falar das Terras do Demo... o Demo vê-se no grego e significa Povo.
O Demo foi e sempre será o "povo", a multidão que vive na escuridão, controlada por alguns iluminados.
Por isso, quando S. Jerónimo introduz a designação "Lucifer", transforma a expressão "portador da luz", que antes se aplicara a Cristo, no pior inimigo dos homens e de uma concepção de Deus.
O povo irá aprender a temer o "Demo", que é afinal o próprio povo, e ainda "Lucifer" que era designação de Cristo - ou seja iria ter como principal inimigo aquele que traria a luz, que libertaria o povo das trevas.
Do ponto de vista da lógica de manutenção do poder, é algo tenebrosamente bem pensado.

Na lógica do poder, podemos ter um sistema de classes, que estabelece uma hierarquia bem definida, mas que arrisca a ser pouco eficaz.

1) A primeira etapa, a escravatura, que remonta à Hera do Cobre.
Escrevo propositadamente Hera e não Era.
Os que descansam nas informações exclusivas dos livros do passado, dos testamentos dos Velhos, conhecem, desconhecendo, um detalhe importante sobre a História que virou Estória... e não se trata apenas desta História poder ficar ocultada numa nova Estória. Sobre a mentira não se erguem vencedores que reescrevem a História, erguem-se ilusões.

O sujeito que nascia na condição de escravo não era obviamente um trabalhador motivado.
A sua produção era claramente destinada a incrementar o poder de quem oprimia a sua família, a sua tribo, o seu povo. Pior que isso, os escravos reconheciam facilmente os opressores e estes podiam ser alvo de uma revolta. O exemplo que marcou esta ira foi a revolta de Spartacus, e o erro crasso, de Crasso, em reprimi-la de forma exemplar com 6000 crucificações na Via Ápia... a Cruz tornou-se definitivamente num símbolo do sofrimento dos escravos, algo continuado com o cristianismo.

2) A segunda etapa, o servilismo, que irá fundar a Hera Média, ou Idade Média.
O cristianismo teve a virtude de incutir nos escravos uma religião de aceitação do sacrifício, uma recompensa numa vida posterior, e a ideia de um juízo final. Talvez não fosse ainda motivante como factor produtivo, mas apaziguava o espírito de revolta.
A progressiva integração do cristianismo no Império Romano levou mesmo a uma substituição funcional do poder na Idade Média. Roma não caiu, apenas deixou de ser o centro de decisão política e passou a centro de decisão religiosa... No entanto, este centro religioso era afinal um centro de consenso político, que harmonizava as pretensões individuais dos diversos reinos. Os laços familiares entre as diversas famílias reais europeias eram o corpo comum às várias cabeças coroadas, uma Hidra portanto.
Os Godos serviram a ilusão de vários poderes, mas mantinham o mesmo centro... o poder reconhecido era o outorgado pelo Papa, em Roma.
Nessa transição cumpriu-se ainda uma pretensão cristã, há muito adiada... o fim da escravatura! Para além disso, a liberdade do escravo, agora servo, acabava por ser mais "barata" já que o seu senhorio não estava "obrigado a alimentá-lo".

Só que o fim da escravatura teve alguns preços... Primeiro, para os próprios escravos, que não tinham terras outorgadas, e assim ficavam completamente dependentes do trabalho em terra alheia.
Da condição de escravos, remetiam-se à condição de servos, para subsistência própria. Essa dependência, essencialmente alimentar, tornava-os na prática em novos escravos.
O sistema requeria ainda uma efectiva regressão civilizacional, por forma a não permitir grandes progressos tecnológicos, mantendo uma constante necessidade de trabalho. Os impostos seriam uma desculpa, mas o que se procurava efectivamente seria manter as cabeças dos servos concentradas na produção. Houve revoltas, mas os grupos que se revoltam seriam sempre frágeis pela falta de organização, pelas rivalidades e invejas internas... e pior, desconheciam o efectivo poder da força que enfrentavam. Em caso de necessidade, o conhecimento guardado, herdado dos Romanos (e de muitos outros antes) revelaria armas completamente desconhecidas ao uso comum do povo.
O sistema foi aparentemente eficaz durante um milénio... e não caiu, mudou de novo a sua face.

O problema principal foi a pimenta... ao fim um milénio, era necessário apimentar o sistema!
Um sistema destes vive da ocultação, de regressão, de proibição de viagens... não só de barcos, mas até de carroças (excepto para transportar alimentos). Aguenta, mas novamente não é produtivo!

A sua extensão e concertação ultrapassou a Europa, esteve presente de igual forma no mundo islâmico, e também nas sociedades asiáticas. Essa espantosa harmonia de desenvolvimento seguido de não-desenvolvimento revela uma extensão global.
No meio, entre a Europa e a Ásia, estavam os Tártaros... que de Genghis Khan a Tamerlão constituíram vastos impérios, denominados Mongóis, ou Mogol.
O Tártaro era afinal o Inferno grego... nos terrenos de Gog e Mogog
Muralha de Ferro construída pelos persas (com ajuda dos 
"sobrenaturais" Jinn) para conter a invasão dos bárbaros Gog e Magog

"In verno"... (entre escravos) o inferno da elite seria de facto uma desprotecção, no meio do povo. Por isso, a primeira evolução medieval começa com o aparecimento de literatura vernacular, na linguagem popular, fora do latim, como é o caso da Divina Comédia, de Dante.
Tal como antes o Tártaro dos Hunos ameaçara e fracturara o Império Romano, também o Tártaro de Tamerlão ou Khan parece ameaçar de novo a estabilidade euroasiática... Marco Polo atesta-o, aparecem depois os Otomanos como novo foco de preocupação, e a Velha Europa é forçada a abrir o véu a novas fronteiras. Os Tártaros desaparecerão depois com a expansão russa de Pedro e Catarina, e da memória dessa civilização ficou muito pouco, se atendermos ao esplendor relatado de Samarcanda e outras cidades.

3) Terceira etapa, o trabalhador e "cidadão", que irá definir a Hera Moderna e Contemporânea.
A solução para evolução medieval começara já a ganhar corpo com os Templários. No início, o argumento principal seria uma extensão da influência da fé, mantendo o mesmo corpo de união na expansão e consolidação ultramarina. Porém, a ideia, que beberá de influência judaica, do Templo de Salomão, e da maçonaria, será uma estrutura de base económica.
Ao beber nos clássicos, recolocar-se-ia a ilusão como base de sustentação.

De início a expansão pelos "descobrimentos" era tímida e muito controlada. Começava a surgir a pimenta que iria apimentar a sociedade europeia, mas necessitava de uma Inquisição activa, que controlava a publicação de material subversivo. Ao mesmo tempo, estas explorações iniciais eram paralelamente conquistas e destruição de civilizações e vestígios anteriores. Caíram Aztecas, Maias, Incas, mas também outras culturas, cujo nome nem sobreviveu.
Um problema efectivo seria evitar uma migração descontrolada da população para outras paragens, e por isso a ideia de colonização acabará apenas por ocorrer já no fim da Idade Moderna, Séc. XVII. 
Se por um lado os servos se tornavam mais livres, e migravam para outras paragens, aparecia uma nova servidão, novamente sob a forma de escravatura, que libertava parcialmente os trabalhadores europeus. Agora os servos podiam ter escravos, e criava-se um novo degrau, que mantinha a estrutura.

O apimentar da sociedade medieval fez o Renascimento, e o conhecimento perdido foi rapidamente recuperado. Apareceu uma nova classe média, burguesa, que aceitava as regras sob condição do seu enriquecimento. O dinheiro, antes escasso, demasiado preso ao valor do metal, passou a circular abundantemente, pelos suplementos de ouro, gerando um circuito de confiança mercantil.
A produtividade conseguia-se com esse estímulo mercantil, e os produtos deixaram de ser fabricados apenas para consumo local, iniciou-se um efectivo comércio de grande troca de bens.

Podemos distinguir duas fases. No início o comércio foi principalmente desenvolvido pelo circuito de navegação com o Oriente. No Ocidente, no continente americano, houve "conquistadores", e as colónias demoraram a desenvolver-se, pelo que não havia propriamente necessidade de trocas, havia um envio de mercadorias para Espanha. Na parte Oriental foi diferente, não houve conquista portuguesa, e foi por esse lado que se consolidou a importância comercial, depois através das diversas Companhias das Índias Orientais.
O principal foco de comércio seria interno à Europa, e não teve o mesmo impacto de desenvolvimento pelo lado da Índia ou da China. Foi dentro da Europa que se desenvolveram as estruturas de comércio, centradas nas Companhias das Índias. Com Henrique VIII em Inglaterra, e com o favorecimento à Reforma de Lutero, noutros reinos, o centralismo do poder papal em Roma foi perdendo a sua importância, e mesmo a Contra-Reforma não alterou isso.

Com a Guerra dos Trinta Anos, a decisão passou por uma independência das nações face ao poder centralizado em Roma, mas principalmente permitiu ainda uma autonomia dessas Companhias das Índias Orientais, que iriam consolidar o comércio. Gerou-se um poder comercial independente do poder real, e a estrutura de poder das nações complexificou-se. O governo deixou de estar centrado na aristocracia, já que passava a depender fortemente do comércio dominado pela burguesia.
Por um lado, há experiências no sentido de libertação total da aristocracia, que começam com a Guerra Civil Inglesa, e em que Cromwell será o primeiro regente de ascendência não real na Europa, desde o Império Romano. Por outro lado, há tentativas de libertação do poder comercial das Companhias das Indias, que no caso francês pela bancarrota levaram à Revolução Francesa.
A burguesia tenta reinstalar a ideia de República, mas a sua fragilidade, e a facilidade de manipulação do ímpeto popular, caem nas armadilhas cortesãs, na falta de referencial unificador (o rei), e acabam por adiar o projecto. As primeiras grandes repúblicas só vão aparecer na transição do Séc. XIX para o XX, se excluirmos os exemplos americanos, onde não havia cortes instaladas, ou ainda "pequenas" repúblicas, como a Holanda (que regressará a monarquia) ou Veneza.

O atraso na descoberta e colonização de novos territórios teve inicialmente a responsabilidade no centralismo de Roma, mas prosseguirá com as várias Companhias das Índias. Uma razão, entre outras, terá sido a necessidade de consolidar e fortalecer o poder comercial. As colonizações sob controlo das regências europeias funcionariam no sentido de exploração dos territórios, e não propriamente no sentido do desenvolvimento comercial.
O grande projecto será a criação de raiz um Estado de modelo comercial, que serão os Estados Unidos. Uma burguesia, unida de forma trans-nacional através da maçonaria, aparece assim apostada num modelo de um "mundo novo", liberto da influência aristocrática.

O problema da real escravatura, que ocorre em simultâneo, aparece como algo relegado para segundo plano, na consolidação da estrutura americana. O modelo de libertação dos servos, deixara esquecida a escravatura, na lógica economicista. Os próprios trabalhadores acabam por ficar desprotegidos no pragmatismo do livre capital. De escravos a servos, e depois a cidadãos trabalhadores, os sistemas acabam por não conseguir impedir o estabelecimento de uma nova aristocracia que exige servos.
É nesta lógica de problema trans-nacional que surgem as ideias marxistas, e o palco escolhido será uma Rússia sob a forma de União Soviética. Esta lógica trans-nacional acaba por abafar as nacionalidades, reduzindo-lhes a História e a margem de manobra.

As experiências republicanas europeias (Itália, Portugal, Espanha, Alemanha) acabam por reeditar esse espírito nacionalista, entretanto submerso ou humilhado, sob a forma de regimes ditatoriais. As monarquias liberais, menos susceptíveis a tomadas súbitas de poder, e ligadas entre si, reagem.
A essa aliança trans-nacional, juntar-se-ão EUA e URSS, regimes aparentemente antagónicos, mas com génese idêntica, que derrotarão a visão nacionalista na 2ª Guerra Mundial.
Qualquer visão nacionalista é reprimida, pois não resolveria o problema global, e a médio prazo retomaríamos as guerras habituais entre nações, mas numa escala bem maior. Quanto à URSS, o sistema de controlo centralizado acabou por criar vícios de poder semelhantes aos da aristocracia, acabando por sucumbir à própria experiência.

Com tanto para esconder, tudo se vai mantendo escondido... mas raramente esquecido!
Por isso, os problemas nacionalistas, que resultam da falta de verdade histórica, acabam por ser o maior problema para ordem trans-nacional, firmemente alicerçada no comércio, e o seu controlo é habitualmente associado à maçonaria e ligação judaica, enquanto poder trans-nacional.
A exposição da verdade histórica é reprimida, pelo exemplo traumático da Revolução Francesa, e pela constatação de que a verdade social, a crença, consegue ser facilmente manipulada e sobrepor-se a qualquer racionalidade... especialmente se essa racionalidade tiver atingido limites não racionais!

Ao mesmo tempo acaba por se sobrepor uma visão relativa, ou relativista... da verdade e da felicidade.
Cada indivíduo cresce e forma as suas expectativas de acordo com a sua educação e do que conhece, por isso a felicidade, ou a verdade, acabam por estar condicionadas pela orientação dessa informação. Crê-se assim ser perfeitamente possível oferecer uma ilusão de vida com expectativas de felicidade, onde alguns acidentes podem ser nefastos ou agradáveis, não precisando de justificação.
Os mais ambiciosos, ao subirem demasiado alto, levados na tentação de um Fausto de Goethe, podem confrontar-se com uma realidade completamente diferente... e exprimem esses sentimentos de censura e frustração sob forma artística ocasionalmente apreciada e recompensada, mas também facilmente esquecida.

Na base da pirâmide pode criar-se a ilusão de felicidade e de verdade, mas as falhas são notórias quando se começa a subir, e o risco de boicote começa com quem se apercebe da prisão em que está encerrado, comprometendo toda a estabilidade do sistema ilusório... e que, apesar de tudo, de poder ser visto apenas como uma forma de aumentar a produtividade do trabalho, trouxe um grau de liberdade sem precedentes, quando olhado o início desta história.


In the Kingdom of the Blind the One-Eyed Are Kings

If it were within, within our power
Beyond the reach of slavish pride
To no longer harbour grievances
Behind the mask's opportunist's facade
We could welcome the responsibility
Like a long lost friend
And re-establish the laughter
In the dolls house once again
For time has imprisoned us in the order of our years
In the discipline of our ways
And in the passing of momentary stillness
We can see our chaos in motion, our chaos in motion
We can see our chaos in motion
View our chaos in motion


(1 e 2 de Maio de 2012)

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publicado às 06:46


Mayday

por desvela, em 01.05.12
Mayday... é um sinal de socorro.
Mayday... é o primeiro de Maio. 
Um dia da Maia, deusa-da-Terra, comemorado por trabalhadores/servos/escravos no mês de Maio.

O sinal de socorro pode ser entendido de muitas maneiras. Eu entendo-o como um pedido de ajuda de decisores para controlarem o Demo nas suas Demonstrações (Demonstrations=Manifestações).
Quem é o Demo?
Não precisamos falar das Terras do Demo... o Demo vê-se no grego e significa Povo.
O Demo foi e sempre será o "povo", a multidão que vive na escuridão, controlada por alguns iluminados.
Por isso, quando S. Jerónimo introduz a designação "Lucifer", transforma a expressão "portador da luz", que antes se aplicara a Cristo, no pior inimigo dos homens e de uma concepção de Deus.
O povo irá aprender a temer o "Demo", que é afinal o próprio povo, e ainda "Lucifer" que era designação de Cristo - ou seja iria ter como principal inimigo aquele que traria a luz, que libertaria o povo das trevas.
Do ponto de vista da lógica de manutenção do poder, é algo tenebrosamente bem pensado.

Na lógica do poder, podemos ter um sistema de classes, que estabelece uma hierarquia bem definida, mas que arrisca a ser pouco eficaz.

1) A primeira etapa, a escravatura, que remonta à Hera do Cobre.
Escrevo propositadamente Hera e não Era.
Os que descansam nas informações exclusivas dos livros do passado, dos testamentos dos Velhos, conhecem, desconhecendo, um detalhe importante sobre a História que virou Estória... e não se trata apenas desta História poder ficar ocultada numa nova Estória. Sobre a mentira não se erguem vencedores que reescrevem a História, erguem-se ilusões.

O sujeito que nascia na condição de escravo não era obviamente um trabalhador motivado.
A sua produção era claramente destinada a incrementar o poder de quem oprimia a sua família, a sua tribo, o seu povo. Pior que isso, os escravos reconheciam facilmente os opressores e estes podiam ser alvo de uma revolta. O exemplo que marcou esta ira foi a revolta de Spartacus, e o erro crasso, de Crasso, em reprimi-la de forma exemplar com 6000 crucificações na Via Ápia... a Cruz tornou-se definitivamente num símbolo do sofrimento dos escravos, algo continuado com o cristianismo.

2) A segunda etapa, o servilismo, que irá fundar a Hera Média, ou Idade Média.
O cristianismo teve a virtude de incutir nos escravos uma religião de aceitação do sacrifício, uma recompensa numa vida posterior, e a ideia de um juízo final. Talvez não fosse ainda motivante como factor produtivo, mas apaziguava o espírito de revolta.
A progressiva integração do cristianismo no Império Romano levou mesmo a uma substituição funcional do poder na Idade Média. Roma não caiu, apenas deixou de ser o centro de decisão política e passou a centro de decisão religiosa... No entanto, este centro religioso era afinal um centro de consenso político, que harmonizava as pretensões individuais dos diversos reinos. Os laços familiares entre as diversas famílias reais europeias eram o corpo comum às várias cabeças coroadas, uma Hidra portanto.
Os Godos serviram a ilusão de vários poderes, mas mantinham o mesmo centro... o poder reconhecido era o outorgado pelo Papa, em Roma.
Nessa transição cumpriu-se ainda uma pretensão cristã, há muito adiada... o fim da escravatura! Para além disso, a liberdade do escravo, agora servo, acabava por ser mais "barata" já que o seu senhorio não estava "obrigado a alimentá-lo".

Só que o fim da escravatura teve alguns preços... Primeiro, para os próprios escravos, que não tinham terras outorgadas, e assim ficavam completamente dependentes do trabalho em terra alheia.
Da condição de escravos, remetiam-se à condição de servos, para subsistência própria. Essa dependência, essencialmente alimentar, tornava-os na prática em novos escravos.
O sistema requeria ainda uma efectiva regressão civilizacional, por forma a não permitir grandes progressos tecnológicos, mantendo uma constante necessidade de trabalho. Os impostos seriam uma desculpa, mas o que se procurava efectivamente seria manter as cabeças dos servos concentradas na produção. Houve revoltas, mas os grupos que se revoltam seriam sempre frágeis pela falta de organização, pelas rivalidades e invejas internas... e pior, desconheciam o efectivo poder da força que enfrentavam. Em caso de necessidade, o conhecimento guardado, herdado dos Romanos (e de muitos outros antes) revelaria armas completamente desconhecidas ao uso comum do povo.
O sistema foi aparentemente eficaz durante um milénio... e não caiu, mudou de novo a sua face.

O problema principal foi a pimenta... ao fim um milénio, era necessário apimentar o sistema!
Um sistema destes vive da ocultação, de regressão, de proibição de viagens... não só de barcos, mas até de carroças (excepto para transportar alimentos). Aguenta, mas novamente não é produtivo!

A sua extensão e concertação ultrapassou a Europa, esteve presente de igual forma no mundo islâmico, e também nas sociedades asiáticas. Essa espantosa harmonia de desenvolvimento seguido de não-desenvolvimento revela uma extensão global.
No meio, entre a Europa e a Ásia, estavam os Tártaros... que de Genghis Khan a Tamerlão constituíram vastos impérios, denominados Mongóis, ou Mogol.
O Tártaro era afinal o Inferno grego... nos terrenos de Gog e Mogog
Muralha de Ferro construída pelos persas (com ajuda dos 
"sobrenaturais" Jinn) para conter a invasão dos bárbaros Gog e Magog

"In verno"... (entre escravos) o inferno da elite seria de facto uma desprotecção, no meio do povo. Por isso, a primeira evolução medieval começa com o aparecimento de literatura vernacular, na linguagem popular, fora do latim, como é o caso da Divina Comédia, de Dante.
Tal como antes o Tártaro dos Hunos ameaçara e fracturara o Império Romano, também o Tártaro de Tamerlão ou Khan parece ameaçar de novo a estabilidade euroasiática... Marco Polo atesta-o, aparecem depois os Otomanos como novo foco de preocupação, e a Velha Europa é forçada a abrir o véu a novas fronteiras. Os Tártaros desaparecerão depois com a expansão russa de Pedro e Catarina, e da memória dessa civilização ficou muito pouco, se atendermos ao esplendor relatado de Samarcanda e outras cidades.

3) Terceira etapa, o trabalhador e "cidadão", que irá definir a Hera Moderna e Contemporânea.
A solução para evolução medieval começara já a ganhar corpo com os Templários. No início, o argumento principal seria uma extensão da influência da fé, mantendo o mesmo corpo de união na expansão e consolidação ultramarina. Porém, a ideia, que beberá de influência judaica, do Templo de Salomão, e da maçonaria, será uma estrutura de base económica.
Ao beber nos clássicos, recolocar-se-ia a ilusão como base de sustentação.

De início a expansão pelos "descobrimentos" era tímida e muito controlada. Começava a surgir a pimenta que iria apimentar a sociedade europeia, mas necessitava de uma Inquisição activa, que controlava a publicação de material subversivo. Ao mesmo tempo, estas explorações iniciais eram paralelamente conquistas e destruição de civilizações e vestígios anteriores. Caíram Aztecas, Maias, Incas, mas também outras culturas, cujo nome nem sobreviveu.
Um problema efectivo seria evitar uma migração descontrolada da população para outras paragens, e por isso a ideia de colonização acabará apenas por ocorrer já no fim da Idade Moderna, Séc. XVII. 
Se por um lado os servos se tornavam mais livres, e migravam para outras paragens, aparecia uma nova servidão, novamente sob a forma de escravatura, que libertava parcialmente os trabalhadores europeus. Agora os servos podiam ter escravos, e criava-se um novo degrau, que mantinha a estrutura.

O apimentar da sociedade medieval fez o Renascimento, e o conhecimento perdido foi rapidamente recuperado. Apareceu uma nova classe média, burguesa, que aceitava as regras sob condição do seu enriquecimento. O dinheiro, antes escasso, demasiado preso ao valor do metal, passou a circular abundantemente, pelos suplementos de ouro, gerando um circuito de confiança mercantil.
A produtividade conseguia-se com esse estímulo mercantil, e os produtos deixaram de ser fabricados apenas para consumo local, iniciou-se um efectivo comércio de grande troca de bens.

Podemos distinguir duas fases. No início o comércio foi principalmente desenvolvido pelo circuito de navegação com o Oriente. No Ocidente, no continente americano, houve "conquistadores", e as colónias demoraram a desenvolver-se, pelo que não havia propriamente necessidade de trocas, havia um envio de mercadorias para Espanha. Na parte Oriental foi diferente, não houve conquista portuguesa, e foi por esse lado que se consolidou a importância comercial, depois através das diversas Companhias das Índias Orientais.
O principal foco de comércio seria interno à Europa, e não teve o mesmo impacto de desenvolvimento pelo lado da Índia ou da China. Foi dentro da Europa que se desenvolveram as estruturas de comércio, centradas nas Companhias das Índias. Com Henrique VIII em Inglaterra, e com o favorecimento à Reforma de Lutero, noutros reinos, o centralismo do poder papal em Roma foi perdendo a sua importância, e mesmo a Contra-Reforma não alterou isso.

Com a Guerra dos Trinta Anos, a decisão passou por uma independência das nações face ao poder centralizado em Roma, mas principalmente permitiu ainda uma autonomia dessas Companhias das Índias Orientais, que iriam consolidar o comércio. Gerou-se um poder comercial independente do poder real, e a estrutura de poder das nações complexificou-se. O governo deixou de estar centrado na aristocracia, já que passava a depender fortemente do comércio dominado pela burguesia.
Por um lado, há experiências no sentido de libertação total da aristocracia, que começam com a Guerra Civil Inglesa, e em que Cromwell será o primeiro regente de ascendência não real na Europa, desde o Império Romano. Por outro lado, há tentativas de libertação do poder comercial das Companhias das Indias, que no caso francês pela bancarrota levaram à Revolução Francesa.
A burguesia tenta reinstalar a ideia de República, mas a sua fragilidade, e a facilidade de manipulação do ímpeto popular, caem nas armadilhas cortesãs, na falta de referencial unificador (o rei), e acabam por adiar o projecto. As primeiras grandes repúblicas só vão aparecer na transição do Séc. XIX para o XX, se excluirmos os exemplos americanos, onde não havia cortes instaladas, ou ainda "pequenas" repúblicas, como a Holanda (que regressará a monarquia) ou Veneza.

O atraso na descoberta e colonização de novos territórios teve inicialmente a responsabilidade no centralismo de Roma, mas prosseguirá com as várias Companhias das Índias. Uma razão, entre outras, terá sido a necessidade de consolidar e fortalecer o poder comercial. As colonizações sob controlo das regências europeias funcionariam no sentido de exploração dos territórios, e não propriamente no sentido do desenvolvimento comercial.
O grande projecto será a criação de raiz um Estado de modelo comercial, que serão os Estados Unidos. Uma burguesia, unida de forma trans-nacional através da maçonaria, aparece assim apostada num modelo de um "mundo novo", liberto da influência aristocrática.

O problema da real escravatura, que ocorre em simultâneo, aparece como algo relegado para segundo plano, na consolidação da estrutura americana. O modelo de libertação dos servos, deixara esquecida a escravatura, na lógica economicista. Os próprios trabalhadores acabam por ficar desprotegidos no pragmatismo do livre capital. De escravos a servos, e depois a cidadãos trabalhadores, os sistemas acabam por não conseguir impedir o estabelecimento de uma nova aristocracia que exige servos.
É nesta lógica de problema trans-nacional que surgem as ideias marxistas, e o palco escolhido será uma Rússia sob a forma de União Soviética. Esta lógica trans-nacional acaba por abafar as nacionalidades, reduzindo-lhes a História e a margem de manobra.

As experiências republicanas europeias (Itália, Portugal, Espanha, Alemanha) acabam por reeditar esse espírito nacionalista, entretanto submerso ou humilhado, sob a forma de regimes ditatoriais. As monarquias liberais, menos susceptíveis a tomadas súbitas de poder, e ligadas entre si, reagem.
A essa aliança trans-nacional, juntar-se-ão EUA e URSS, regimes aparentemente antagónicos, mas com génese idêntica, que derrotarão a visão nacionalista na 2ª Guerra Mundial.
Qualquer visão nacionalista é reprimida, pois não resolveria o problema global, e a médio prazo retomaríamos as guerras habituais entre nações, mas numa escala bem maior. Quanto à URSS, o sistema de controlo centralizado acabou por criar vícios de poder semelhantes aos da aristocracia, acabando por sucumbir à própria experiência.

Com tanto para esconder, tudo se vai mantendo escondido... mas raramente esquecido!
Por isso, os problemas nacionalistas, que resultam da falta de verdade histórica, acabam por ser o maior problema para ordem trans-nacional, firmemente alicerçada no comércio, e o seu controlo é habitualmente associado à maçonaria e ligação judaica, enquanto poder trans-nacional.
A exposição da verdade histórica é reprimida, pelo exemplo traumático da Revolução Francesa, e pela constatação de que a verdade social, a crença, consegue ser facilmente manipulada e sobrepor-se a qualquer racionalidade... especialmente se essa racionalidade tiver atingido limites não racionais!

Ao mesmo tempo acaba por se sobrepor uma visão relativa, ou relativista... da verdade e da felicidade.
Cada indivíduo cresce e forma as suas expectativas de acordo com a sua educação e do que conhece, por isso a felicidade, ou a verdade, acabam por estar condicionadas pela orientação dessa informação. Crê-se assim ser perfeitamente possível oferecer uma ilusão de vida com expectativas de felicidade, onde alguns acidentes podem ser nefastos ou agradáveis, não precisando de justificação.
Os mais ambiciosos, ao subirem demasiado alto, levados na tentação de um Fausto de Goethe, podem confrontar-se com uma realidade completamente diferente... e exprimem esses sentimentos de censura e frustração sob forma artística ocasionalmente apreciada e recompensada, mas também facilmente esquecida.

Na base da pirâmide pode criar-se a ilusão de felicidade e de verdade, mas as falhas são notórias quando se começa a subir, e o risco de boicote começa com quem se apercebe da prisão em que está encerrado, comprometendo toda a estabilidade do sistema ilusório... e que, apesar de tudo, de poder ser visto apenas como uma forma de aumentar a produtividade do trabalho, trouxe um grau de liberdade sem precedentes, quando olhado o início desta história.



In the Kingdom of the Blind the One-Eyed Are Kings

If it were within, within our power
Beyond the reach of slavish pride
To no longer harbour grievances
Behind the mask's opportunist's facade
We could welcome the responsibility
Like a long lost friend
And re-establish the laughter
In the dolls house once again
For time has imprisoned us in the order of our years
In the discipline of our ways
And in the passing of momentary stillness
We can see our chaos in motion, our chaos in motion
We can see our chaos in motion
View our chaos in motion


(1 e 2 de Maio de 2012)

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publicado às 22:46


Era dos Cobres

por desvela, em 09.04.12
Os retratos de Fayum ilustram claramente o conceito de regressão civilizacional.
É sempre revelador olhar para o naturalismo numa pintura do período Romano-Egípcio, como no caso desta criança de Fayum (Egipto, Séc. I a.C):
que tem uma precisão quase fotográfica. Depois basta lembrar todos os retratos toscos (por exemplo na tapeçaria de Bayeux), ao nível de pinturas de crianças na escola primária, que caracterizaram a época medieval (ocidental e oriental) até ao Renascimento.
Ou seja, a pintores que dominavam as cores e a luz, de forma perfeita, na época romana (ver ainda os frescos de Pompeia ou Herculano), sucederam gerações dos mais inábeis pintores que há registo, fazendo parecer qualquer homem das cavernas como um sobredotado desenhador.

O aspecto educacional associado esquece este pequeno detalhe de regressão na técnica de pintura, e ensina uma lenta evolução que, ao fim de quase dois milénios atingiria uma técnica retratista, ou seja - levaria de volta ao ponto de partida dos retratos de Fayum. Assim, como dos gregos ou romanos restaram poucos registos contraditórios, sempre que se olhar para uma pintura ou escultura demasiado realista tender-se-à a vê-la como coisa recente, com poucos séculos e nunca como uma pintura milenar.

A ideia criada e ensinada, é a de que houve uma lenta evolução, semelhante à evolução que uma criança tem no seu conhecimento. Como essa ideia é transmitida na juventude, quando as crianças estão num processo evolutivo, a ideia de que a humanidade passou pelo mesmo caminho evolutivo é apelativa e facilmente apreendida pelos jovens petizes. Os legados greco-romanos são vistos como "excepções que confirmam a regra", servindo para apenas elogiar o prodígio pontual desses antepassados.

Poderá pensar-se que foi um problema com a pintura... mas é claro que não foi! Foi um problema transversal que afectou todo o conhecimento, desde as artes às ciências e tecnologia (relembramos a máquina de Anticitera e a pilha de Bagdade). 
A humanidade foi infantilizada regredindo para um pensamento primário, recorrendo a ensino dogmático, primeiro pela argumentação "magister dixit" - Idade Média, depois pela fama/prestígio - Idade Moderna e actual. Sofreu uma amnésia ou uma lobotomia... conduzida pela Invasão dos Godos e dos Árabes, que de povos "bárbaros" (alguns vindos literalmente da Barbária) passaram a potências dominantes que instalaram o seu referencial de subdesenvolvimento como referencial do futuro não-desenvolvimento. Do ponto de vista cultural e científico, estes povos permaneceram com os valores e superstições que tinham antes, como se tivessem feito um compromisso assumido de regressão universal. Conforme diz Galvão, toda a memória e legado anterior foi destruído, como se tivessem inveja do desenvolvimento dos povos que conquistavam.
Porém é demasiado redutor pensar que se perdia deliberadamente conhecimento, apenas por inveja... e afinal os povos que conquistavam, sob domínio Romano, já estavam também eles condicionados no seu progresso. O condicionamento tem origem anterior...

A história foi bem coberta, desde a Idade do Cobre. A complexidade de manufactura dos metais não está directamente ligada ao necessário desenvolvimento tecnológico para que tal acontecesse. É pretendido que sociedades rudimentares conseguissem produzir metal para armamento em massa, ao mesmo tempo que não seriam capazes de menores prodígios para conveniência do seu uso civil... por exemplo a simples orientação por mapas. Na Era do Cobre cobre-se um desenvolvimento tecnológico, do qual restam apenas alguns prodígios megalíticos. 

Parte do Cobrimento só seria levantado pelos Descobrimentos... autorizados!
Os cobres... as moedas, ajudaram e ajudam a consolidar o encobrimento, de forma mais inteligente, aceitando um descobrimento controlado. Iniciou-se a Era dos Cobres. Na dúvida, ainda alguém falou em Achamento... como no Achamento do Brasil! Podiam achar que achavam algo de novo, e por isso o achamento era um conceito bem mais fraco que o descobrimento. Alguns achamentos têm direito a ser descobertos, outros mantêm-se cobertos a troco de cobres.

Na Histoire des Terres Australes (Liv, XVII, Ch. XI) em 1764 diz-se:
On peut aussi attribuer, en quelque façon, à une Politique intéressée tant de Relations absurdes & ridicules qu'on a données de différentes parties de notre Globe, & surtout du Continent Austral, en ce qu'une connaissance plus parfaite de ces Pays ne s'accorderoit vraisemblablement point avec l'interêt de certains Corps ou de certains Particuliers, qui ont un grand crédit.
Este é o primeiro texto que encontro em que se denuncia a estupidez da não exploração do "Continente Austral"... ou seja da Austrália, por interesse de "certos Corpos ou certos Particulares"!
É aliás mais ridículo, porque nesse texto há até uma necessidade de especificar em que consiste esse continente, limitando a possível localização da Austrália. Essa estupidez será associada directamente à política das Companhias das Índias... e já aqui falámos de como essa companhia funcionaria como uma "boa companhia" para evitar "más companhias". O texto fala mais especificamente da Companhia das Índias Holandesas, mas sabemos que havia uma "companhia da índias" com monopólio em cada "potência descobridora":
(à excepção dos originais, Portugal+Espanha, as restantes companhias foram instaladas os reinos que saíram vencedores da Guerra dos Trinta Anos e que a partir do Tratado de Vestfália definiram o mundo moderno)

O texto francês alerta para os perigos do seu monopólio que se verificavam já também em França em 1764. Dois anos mais tarde, Cook inicia a sua viagem, e a Companhia Francesa fica fora desse jogo... e acaba extinta  por decreto real. Porém, como já se nota nesse texto, é estranha a atitude da Companhia Holandesa, que limitava de tal forma a actuação dos holandeses que prejudicava o próprio país(*). A atitude era tanto mais estranha, pois já se sabia que o continente era praticamente desabitado, havia terrenos eram férteis e suspeitava-se que as anunciadas tribos assustadoras pouco mais serviam do que de fábula para amedrontar exploradores.

O poder do Cobrimento saiu de imposição medieval de cariz religioso, ligado a um catolicismo fundamentalista, e ganhou nova expressão como consequência moderna dos interesses interligados das diversas Companhias das Índias. O encobrimento religioso deu lugar e forma a um encobrimento económico, justificado por aparentes interesses financeiros dos monopólios das "companhias das índias".
O metal continuava a ser o Cobre... os cobres dados aos mercadores justificavam o encobrimento dos descobrimentos. O controlo quase total exercido pela religião em épocas medievais dava lugar ao controlo quase total exercido pelo comércio oligárquico das companhias das índias...

As Companhias das Índias eram alvos visíveis e a revolta do chá em Boston, contra esse monopólio, prelúdio da Revolução Americana, mostrava isso mesmo. Por isso estas Companhias tornaram-se mais sofisticadas, as suas lojas tomaram forma secreta, e os nomes "Grande Oriente" saíram das Companhias das Índias estabelecendo-se em lojas mais selectas e discretas.

Após a derrota de Napoleão e do Congresso de Viena, em 1815, a nova ordem mundial passaria a estrutura económica para a forma Bolsista. Assim, no início do Séc. XIX consolida-se essa nova estrutura económica que irá dominar por completo a sociedade nos próximos 200 anos e na actualidade. A evolução das Companhias das Índias para a forma de Bolsas de Valores é notória (Bolsas de Valores de Londres, Paris, Nova Iorque...) passando a controlar todos os produtos e não apenas o comércio de importação das colónias.
No fundo, todo o mundo passaria a uma gigantesca Índia e assim controlado como uma grande colónia.
Conforme já dizia o Vice-Rei Francisco de Almeida, era mais útil ter governos locais conduzidos por marajás colaborantes do que empreender numa efectiva conquista. A política subserviente de alguns líderes de nações europeias transformou-os em simples marajás colaborantes duma Índia alargada a todo o mundo.

Com o mercado bolsista dá-se a primeira efectivação de acordos de globalização, em que as nações comprometem a sua independência a entidades financeiras ao assumir uma completa dependência a um comércio controlado essencialmente por grandes entidades financeiras e bancárias. O comércio globalizado, passa a ser exercido sob controlo de organizações transnacionais, como é o caso da OMC - Organização Mundial do Comércio (ou do FMI). As desregulações e impunidades permitem uma actuação sem-rosto e sem-fronteiras, controlando todos os "cobres". A Era dos Cobres implantava-se, cobrando o encobrimento.


(*) é citado Jean de Wit: "Quand la Compagnie des Indes Orientales, dit-il, a été à un certain degré de richesses & de puissance, son intéret est devenu contraire à celui de son Pays" (...)
A França, com o fim da sua Companhia das Índias vê também a sua situação financeira aproximar-se da bancarrota. 
Luís XV terá dito "aprés-moi, le déluge" - e ao filho Luis XVI deixa um caos financeiro, uma fonte para o dilúvio da Revolução Francesa... É interessante reparar no contraste com o esplendor do seu pai, Luis XIV, o Rei Sol, que iniciara o seu mandato justamente com a constituição desta Companhia.


(reeditado em 9/04/2012)

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publicado às 06:42


Era dos Cobres

por desvela, em 08.04.12
Os retratos de Fayum ilustram claramente o conceito de regressão civilizacional.
É sempre revelador olhar para o naturalismo numa pintura do período Romano-Egípcio, como no caso desta criança de Fayum (Egipto, Séc. I a.C):
que tem uma precisão quase fotográfica. Depois basta lembrar todos os retratos toscos (por exemplo na tapeçaria de Bayeux), ao nível de pinturas de crianças na escola primária, que caracterizaram a época medieval (ocidental e oriental) até ao Renascimento.
Ou seja, a pintores que dominavam as cores e a luz, de forma perfeita, na época romana (ver ainda os frescos de Pompeia ou Herculano), sucederam gerações dos mais inábeis pintores que há registo, fazendo parecer qualquer homem das cavernas como um sobredotado desenhador.

O aspecto educacional associado esquece este pequeno detalhe de regressão na técnica de pintura, e ensina uma lenta evolução que, ao fim de quase dois milénios atingiria uma técnica retratista, ou seja - levaria de volta ao ponto de partida dos retratos de Fayum. Assim, como dos gregos ou romanos restaram poucos registos contraditórios, sempre que se olhar para uma pintura ou escultura demasiado realista tender-se-à a vê-la como coisa recente, com poucos séculos e nunca como uma pintura milenar.

A ideia criada e ensinada, é a de que houve uma lenta evolução, semelhante à evolução que uma criança tem no seu conhecimento. Como essa ideia é transmitida na juventude, quando as crianças estão num processo evolutivo, a ideia de que a humanidade passou pelo mesmo caminho evolutivo é apelativa e facilmente apreendida pelos jovens petizes. Os legados greco-romanos são vistos como "excepções que confirmam a regra", servindo para apenas elogiar o prodígio pontual desses antepassados.

Poderá pensar-se que foi um problema com a pintura... mas é claro que não foi! Foi um problema transversal que afectou todo o conhecimento, desde as artes às ciências e tecnologia (relembramos a máquina de Anticitera e a pilha de Bagdade). 
A humanidade foi infantilizada regredindo para um pensamento primário, recorrendo a ensino dogmático, primeiro pela argumentação "magister dixit" - Idade Média, depois pela fama/prestígio - Idade Moderna e actual. Sofreu uma amnésia ou uma lobotomia... conduzida pela Invasão dos Godos e dos Árabes, que de povos "bárbaros" (alguns vindos literalmente da Barbária) passaram a potências dominantes que instalaram o seu referencial de subdesenvolvimento como referencial do futuro não-desenvolvimento. Do ponto de vista cultural e científico, estes povos permaneceram com os valores e superstições que tinham antes, como se tivessem feito um compromisso assumido de regressão universal. Conforme diz Galvão, toda a memória e legado anterior foi destruído, como se tivessem inveja do desenvolvimento dos povos que conquistavam.
Porém é demasiado redutor pensar que se perdia deliberadamente conhecimento, apenas por inveja... e afinal os povos que conquistavam, sob domínio Romano, já estavam também eles condicionados no seu progresso. O condicionamento tem origem anterior...

A história foi bem coberta, desde a Idade do Cobre. A complexidade de manufactura dos metais não está directamente ligada ao necessário desenvolvimento tecnológico para que tal acontecesse. É pretendido que sociedades rudimentares conseguissem produzir metal para armamento em massa, ao mesmo tempo que não seriam capazes de menores prodígios para conveniência do seu uso civil... por exemplo a simples orientação por mapas. Na Era do Cobre cobre-se um desenvolvimento tecnológico, do qual restam apenas alguns prodígios megalíticos. 

Parte do Cobrimento só seria levantado pelos Descobrimentos... autorizados!
Os cobres... as moedas, ajudaram e ajudam a consolidar o encobrimento, de forma mais inteligente, aceitando um descobrimento controlado. Iniciou-se a Era dos Cobres. Na dúvida, ainda alguém falou em Achamento... como no Achamento do Brasil! Podiam achar que achavam algo de novo, e por isso o achamento era um conceito bem mais fraco que o descobrimento. Alguns achamentos têm direito a ser descobertos, outros mantêm-se cobertos a troco de cobres.

Na Histoire des Terres Australes (Liv, XVII, Ch. XI) em 1764 diz-se:
On peut aussi attribuer, en quelque façon, à une Politique intéressée tant de Relations absurdes & ridicules qu'on a données de différentes parties de notre Globe, & surtout du Continent Austral, en ce qu'une connaissance plus parfaite de ces Pays ne s'accorderoit vraisemblablement point avec l'interêt de certains Corps ou de certains Particuliers, qui ont un grand crédit.
Este é o primeiro texto que encontro em que se denuncia a estupidez da não exploração do "Continente Austral"... ou seja da Austrália, por interesse de "certos Corpos ou certos Particulares"!
É aliás mais ridículo, porque nesse texto há até uma necessidade de especificar em que consiste esse continente, limitando a possível localização da Austrália. Essa estupidez será associada directamente à política das Companhias das Índias... e já aqui falámos de como essa companhia funcionaria como uma "boa companhia" para evitar "más companhias". O texto fala mais especificamente da Companhia das Índias Holandesas, mas sabemos que havia uma "companhia da índias" com monopólio em cada "potência descobridora":
(à excepção dos originais, Portugal+Espanha, as restantes companhias foram instaladas os reinos que saíram vencedores da Guerra dos Trinta Anos e que a partir do Tratado de Vestfália definiram o mundo moderno)

O texto francês alerta para os perigos do seu monopólio que se verificavam já também em França em 1764. Dois anos mais tarde, Cook inicia a sua viagem, e a Companhia Francesa fica fora desse jogo... e acaba extinta  por decreto real. Porém, como já se nota nesse texto, é estranha a atitude da Companhia Holandesa, que limitava de tal forma a actuação dos holandeses que prejudicava o próprio país(*). A atitude era tanto mais estranha, pois já se sabia que o continente era praticamente desabitado, havia terrenos eram férteis e suspeitava-se que as anunciadas tribos assustadoras pouco mais serviam do que de fábula para amedrontar exploradores.

O poder do Cobrimento saiu de imposição medieval de cariz religioso, ligado a um catolicismo fundamentalista, e ganhou nova expressão como consequência moderna dos interesses interligados das diversas Companhias das Índias. O encobrimento religioso deu lugar e forma a um encobrimento económico, justificado por aparentes interesses financeiros dos monopólios das "companhias das índias".
O metal continuava a ser o Cobre... os cobres dados aos mercadores justificavam o encobrimento dos descobrimentos. O controlo quase total exercido pela religião em épocas medievais dava lugar ao controlo quase total exercido pelo comércio oligárquico das companhias das índias...

As Companhias das Índias eram alvos visíveis e a revolta do chá em Boston, contra esse monopólio, prelúdio da Revolução Americana, mostrava isso mesmo. Por isso estas Companhias tornaram-se mais sofisticadas, as suas lojas tomaram forma secreta, e os nomes "Grande Oriente" saíram das Companhias das Índias estabelecendo-se em lojas mais selectas e discretas.

Após a derrota de Napoleão e do Congresso de Viena, em 1815, a nova ordem mundial passaria a estrutura económica para a forma Bolsista. Assim, no início do Séc. XIX consolida-se essa nova estrutura económica que irá dominar por completo a sociedade nos próximos 200 anos e na actualidade. A evolução das Companhias das Índias para a forma de Bolsas de Valores é notória (Bolsas de Valores de Londres, Paris, Nova Iorque...) passando a controlar todos os produtos e não apenas o comércio de importação das colónias.
No fundo, todo o mundo passaria a uma gigantesca Índia e assim controlado como uma grande colónia.
Conforme já dizia o Vice-Rei Francisco de Almeida, era mais útil ter governos locais conduzidos por marajás colaborantes do que empreender numa efectiva conquista. A política subserviente de alguns líderes de nações europeias transformou-os em simples marajás colaborantes duma Índia alargada a todo o mundo.

Com o mercado bolsista dá-se a primeira efectivação de acordos de globalização, em que as nações comprometem a sua independência a entidades financeiras ao assumir uma completa dependência a um comércio controlado essencialmente por grandes entidades financeiras e bancárias. O comércio globalizado, passa a ser exercido sob controlo de organizações transnacionais, como é o caso da OMC - Organização Mundial do Comércio (ou do FMI). As desregulações e impunidades permitem uma actuação sem-rosto e sem-fronteiras, controlando todos os "cobres". A Era dos Cobres implantava-se, cobrando o encobrimento.


(*) é citado Jean de Wit: "Quand la Compagnie des Indes Orientales, dit-il, a été à un certain degré de richesses & de puissance, son intéret est devenu contraire à celui de son Pays" (...)
A França, com o fim da sua Companhia das Índias vê também a sua situação financeira aproximar-se da bancarrota. 
Luís XV terá dito "aprés-moi, le déluge" - e ao filho Luis XVI deixa um caos financeiro, uma fonte para o dilúvio da Revolução Francesa... É interessante reparar no contraste com o esplendor do seu pai, Luis XIV, o Rei Sol, que iniciara o seu mandato justamente com a constituição desta Companhia.


(reeditado em 9/04/2012)

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publicado às 22:42


Companhias nas Indias

por desvela, em 13.06.11
Num mapa da América do Sul no Atlas Universal de João Teixeira Albernaz, de 1643, podemos ler na região da Patagónia "Terra de Gigantes". 
América do Sul no Atlas Universal, 1643,
de João Teixeira Albernaz (Torre do Tombo)

Fomos encontrar estes mapas com alta definição um ano depois de ter aqui colocado um mapa de menor definição, do mesmo autor, curiosamente ilustrado com um "Santo António e o menino".
Não há propriamente grande novidade neste mapa, à primeira vista, mas nota-se perfeitamente que havia uma barreira entre as cidades coloniais espanholas, seja do Chile ou de Tucuman, que não passavam o paralelo do Rio da Prata. Aliás o foco era colocado na exploração da prata, ilustrada no mapa pelo relevo dado à cidade de Potossi.

Nenhuma cidade estava estabelecida na chamada Terra de Gigantes ou Patagónia... e assim permaneceu até ao Séc XIX. Pode sempre invocar-se o clima mais frio, mas para europeus, estamos ainda em zonas temperadas, em latitudes europeias. Só mesmo a ponta sul na Terra do Fogo exibiria um clima próximo da Escandinávia, e ainda assim habitável.

Não insistimos no tema de gigantes, que já abordámos aqui e várias vezes.
O assunto mais relevante é um Privilégio dado à Companhia das Indias Holandesa em 1621. Colocámos aqui as duas primeiras páginas que encontrámos nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1908, Vol.30). 

É especialmente instrutivo ler-se sobre a absoluta proibição de navegação, a menos de consentimento expresso da Companhia, e ainda que esta restrição praticamente cobrisse todo o globo terrestre, há alguns locais que são mencionados em particular: o Cabo da Boa Esperança, a Terra Nova, os Estreitos de Magalhães e Le Maire até ao Estreito de Anian, bem como "as Terras Austrais (...) que atingem a Leste o Cabo da Boa Esperança e a Oeste a extremidade oriental da Nova Guiné, inclusivé". 
Esta última descrição corresponde a uma efectiva proibição da navegação à Austrália.
A Companhia das Índias queria restringir o contacto com "más" companhias índias... (*)

Se dúvidas ainda houvesse, neste documento oficial de 1621 fica claro que as terras estavam identificadas e a navegação era proibida. Neste caso era proibida pela Companhia das Índias da Holanda, mas o texto revela um poder quase universal, talvez pretencioso, mas também talvez efectivo e que se manifestava num possível acordo com as outras Companhias das Índias, ou no decurso favorável da Guerra dos Trinta Anos. 
Na prática estava estabelecido um código de comércio europeu global. As histórias de descobertas que ouvimos depois disto são meras fantasias de estórias de encantar, com heróis seleccionados.

Em concreto, o Estreito de Anian (no texto escrito "Anjan"), que tantas vezes aparecia nos mapas, e que já aqui falámos várias vezes, é neste documento identificado oficialmente.
Não pode ninguém invocar agora fantasia ou incerteza dos cartógrafos. A descoberta do mesmo estreito por Bering foi apenas uma mera formalidade, talvez honrando uma colaboração entre dinamarqueses e russos na aniquilação do Império Tártaro Siberiano e Anian do Alasca.

Também João Teixeira Albernaz coloca o Estreito de Anian, entre a Tartária Oriental e o reino de Anian (a parte noroeste da América Setentrional), ao mesmo tempo que identifica algumas ilhas acima do Japão, descobertas por D. João da Gama.
Estreito de Anian, no Atlas de João Teixeira Albernaz de 1643

Podemos ainda ver neste mapa, a sequência Cabo de Fortuna, Costa de los Tucayos, Cabo Bravo, V. Honda, Costa de Arboredos, V. baixo, V. de montanhas, etc... uma sequência de nomes em que os dois últimos estão rasurados, e quanto a Honda é um nome que o Japão fez questão de recuperar pela sua indústria automóvel.

Tudo se passava num cenário que foi completamente ocultado, sendo revelados e admitidas algumas chacinas, algumas guerras, em que os heróis e vilões eram seleccionadamente escolhidos para a glória ou repúdio.
Podemos encontrar ainda na mesma Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma relação de consultas do Conselho da Fazenda relativa ao Ano de 1634, onde se lêem alguns aspectos caricatos das nossas explorações. Seleccionamos a vermelho um pedido pagamento de Pedro de Ieter, de um soldo de 648 escudos... relativo à descoberta do Estreito de Le Maire (dito Mayre) por ordem do Marquês de Alenquer:

O Estreito de Le Maire, aqui dito Mayre, é um nome inventado pelo próprio holandês Le Maire, em 1616, com a incumbência oficial de provar que a Terra do Fogo não era um continente... A situação é especialmente caricata porque seria já suposto que Drake tivesse ido pelo Cabo Horn, de onde viria o nome Passagem de Drake... porém depois considerou-se que Drake seguiu o caminho de Magalhães, e afinal uma tormenta é que o mandou para trás... nunca falta imaginação tormentosa!

Sobre Pedro de Ieter não encontrei nada... poderá ter seguido na expedição de Garcia de Nodal, que partiu de Lisboa em 1619, então sob regência do Marquês de Alenquer, Diego de Silva y Mendonza, vice-rei de Filipe III. É este vice-rei o filho dos notáveis Príncipes de Eboli, Ruy Gomes da Silva e Ana Mendonza de La Cerda, de que já falámos, sendo neste período que se sentiu uma maior autonomia portuguesa sob domínio filipino.
Esta expedição espanhola em resposta à holandesa de Le Maire, torna claro como as descobertas eram respostas políticas, muito mais do que empreendimentos de navegação. Pela parte espanhola, foram descobertos territórios sul até às ilhas de Diego Ramirez, mas não se ousou declarar mais do que isso... o "novo estreito de Mayre" incumbido a Pedro Ieter ficou por se saber. A Espanha iria perder a Guerra dos Trinta Anos, e a sua capacidade de reclamar territórios ficaria definitivamente comprometida em Vestfália, 1648 (**).

Quanto aos territórios antárticos, apesar de quase contíguos a toda essa região, ficaram guardados até ao final do Século XIX, princípio do XX. Talvez se aceite isto de forma leve sabendo que os espanhóis não gostam muito de frio... se existiu algum monumento na Antártida, colocado por espanhóis ou portugueses, ele foi certamente destruído para sempre - por algum acidente natural, é claro!

Notas:
(*) Até que ponto o nome Companhia da Índias se relacionaria pela necessária "companhia" nos navios... digamos um autêntico serviço de acompanhantes, destinado a não desencaminhar os navios do seu rumo. Fora desse "escorting service", só funcionariam mesmo os navios piratas...  


(**) O texto escrito em 1621 fala no prazo de 24 anos... revelando um plano de longo curso, que se materializaria em 1645. Isto tem características de "protocolo do Sião" no sentido em que antevê alguns desenvolvimentos que irão materializar o domínio holandês. Vestfália é assinada em 1648 e o erro seria apenas de 3 anos, caso fosse a previsão para a vitória na Guerra dos Trinta Anos. Ao mesmo tempo, 1645 é o ano em que as forças parlamentares de Cromwell ganham um controlo total de Inglaterra, levando o rei Carlos I a fugir para a Escócia, sendo depois executado em 1649. É ainda dentro desse prazo de 24 anos, em 1640, que Portugal se liberta do jugo espanhol... é aqui difícil perceber se a coordenação das rebeliões ibéricas foi um facto lateral ou se efectivamente vinha do objectivo de enfraquecer a unidade espanhola.
Para além do apoio surgido nas guerras da restauração, há um facto que relaciona a Restauração portuguesa e o lado vencedor da Guerra do Trinta Anos... essa guerra começou com um episódio da defenestração de Praga. Haverá sempre um certo desejo de alguma assinatura, que passará por moda da época!

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publicado às 16:49


Companhias nas Indias

por desvela, em 13.06.11
Num mapa da América do Sul no Atlas Universal de João Teixeira Albernaz, de 1643, podemos ler na região da Patagónia "Terra de Gigantes". 
América do Sul no Atlas Universal, 1643,
de João Teixeira Albernaz (Torre do Tombo)

Fomos encontrar estes mapas com alta definição um ano depois de ter aqui colocado um mapa de menor definição, do mesmo autor, curiosamente ilustrado com um "Santo António e o menino".
Não há propriamente grande novidade neste mapa, à primeira vista, mas nota-se perfeitamente que havia uma barreira entre as cidades coloniais espanholas, seja do Chile ou de Tucuman, que não passavam o paralelo do Rio da Prata. Aliás o foco era colocado na exploração da prata, ilustrada no mapa pelo relevo dado à cidade de Potossi.

Nenhuma cidade estava estabelecida na chamada Terra de Gigantes ou Patagónia... e assim permaneceu até ao Séc XIX. Pode sempre invocar-se o clima mais frio, mas para europeus, estamos ainda em zonas temperadas, em latitudes europeias. Só mesmo a ponta sul na Terra do Fogo exibiria um clima próximo da Escandinávia, e ainda assim habitável.

Não insistimos no tema de gigantes, que já abordámos aqui e várias vezes.
O assunto mais relevante é um Privilégio dado à Companhia das Indias Holandesa em 1621. Colocámos aqui as duas primeiras páginas que encontrámos nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1908, Vol.30). 

É especialmente instrutivo ler-se sobre a absoluta proibição de navegação, a menos de consentimento expresso da Companhia, e ainda que esta restrição praticamente cobrisse todo o globo terrestre, há alguns locais que são mencionados em particular: o Cabo da Boa Esperança, a Terra Nova, os Estreitos de Magalhães e Le Maire até ao Estreito de Anian, bem como "as Terras Austrais (...) que atingem a Leste o Cabo da Boa Esperança e a Oeste a extremidade oriental da Nova Guiné, inclusivé". 
Esta última descrição corresponde a uma efectiva proibição da navegação à Austrália.
A Companhia das Índias queria restringir o contacto com "más" companhias índias... (*)

Se dúvidas ainda houvesse, neste documento oficial de 1621 fica claro que as terras estavam identificadas e a navegação era proibida. Neste caso era proibida pela Companhia das Índias da Holanda, mas o texto revela um poder quase universal, talvez pretencioso, mas também talvez efectivo e que se manifestava num possível acordo com as outras Companhias das Índias, ou no decurso favorável da Guerra dos Trinta Anos. 
Na prática estava estabelecido um código de comércio europeu global. As histórias de descobertas que ouvimos depois disto são meras fantasias de estórias de encantar, com heróis seleccionados.

Em concreto, o Estreito de Anian (no texto escrito "Anjan"), que tantas vezes aparecia nos mapas, e que já aqui falámos várias vezes, é neste documento identificado oficialmente.
Não pode ninguém invocar agora fantasia ou incerteza dos cartógrafos. A descoberta do mesmo estreito por Bering foi apenas uma mera formalidade, talvez honrando uma colaboração entre dinamarqueses e russos na aniquilação do Império Tártaro Siberiano e Anian do Alasca.

Também João Teixeira Albernaz coloca o Estreito de Anian, entre a Tartária Oriental e o reino de Anian (a parte noroeste da América Setentrional), ao mesmo tempo que identifica algumas ilhas acima do Japão, descobertas por D. João da Gama.
Estreito de Anian, no Atlas de João Teixeira Albernaz de 1643

Podemos ainda ver neste mapa, a sequência Cabo de Fortuna, Costa de los Tucayos, Cabo Bravo, V. Honda, Costa de Arboredos, V. baixo, V. de montanhas, etc... uma sequência de nomes em que os dois últimos estão rasurados, e quanto a Honda é um nome que o Japão fez questão de recuperar pela sua indústria automóvel.

Tudo se passava num cenário que foi completamente ocultado, sendo revelados e admitidas algumas chacinas, algumas guerras, em que os heróis e vilões eram seleccionadamente escolhidos para a glória ou repúdio.
Podemos encontrar ainda na mesma Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma relação de consultas do Conselho da Fazenda relativa ao Ano de 1634, onde se lêem alguns aspectos caricatos das nossas explorações. Seleccionamos a vermelho um pedido pagamento de Pedro de Ieter, de um soldo de 648 escudos... relativo à descoberta do Estreito de Le Maire (dito Mayre) por ordem do Marquês de Alenquer:

O Estreito de Le Maire, aqui dito Mayre, é um nome inventado pelo próprio holandês Le Maire, em 1616, com a incumbência oficial de provar que a Terra do Fogo não era um continente... A situação é especialmente caricata porque seria já suposto que Drake tivesse ido pelo Cabo Horn, de onde viria o nome Passagem de Drake... porém depois considerou-se que Drake seguiu o caminho de Magalhães, e afinal uma tormenta é que o mandou para trás... nunca falta imaginação tormentosa!

Sobre Pedro de Ieter não encontrei nada... poderá ter seguido na expedição de Garcia de Nodal, que partiu de Lisboa em 1619, então sob regência do Marquês de Alenquer, Diego de Silva y Mendonza, vice-rei de Filipe III. É este vice-rei o filho dos notáveis Príncipes de Eboli, Ruy Gomes da Silva e Ana Mendonza de La Cerda, de que já falámos, sendo neste período que se sentiu uma maior autonomia portuguesa sob domínio filipino.
Esta expedição espanhola em resposta à holandesa de Le Maire, torna claro como as descobertas eram respostas políticas, muito mais do que empreendimentos de navegação. Pela parte espanhola, foram descobertos territórios sul até às ilhas de Diego Ramirez, mas não se ousou declarar mais do que isso... o "novo estreito de Mayre" incumbido a Pedro Ieter ficou por se saber. A Espanha iria perder a Guerra dos Trinta Anos, e a sua capacidade de reclamar territórios ficaria definitivamente comprometida em Vestfália, 1648 (**).

Quanto aos territórios antárticos, apesar de quase contíguos a toda essa região, ficaram guardados até ao final do Século XIX, princípio do XX. Talvez se aceite isto de forma leve sabendo que os espanhóis não gostam muito de frio... se existiu algum monumento na Antártida, colocado por espanhóis ou portugueses, ele foi certamente destruído para sempre - por algum acidente natural, é claro!

Notas:
(*) Até que ponto o nome Companhia da Índias se relacionaria pela necessária "companhia" nos navios... digamos um autêntico serviço de acompanhantes, destinado a não desencaminhar os navios do seu rumo. Fora desse "escorting service", só funcionariam mesmo os navios piratas...  


(**) O texto escrito em 1621 fala no prazo de 24 anos... revelando um plano de longo curso, que se materializaria em 1645. Isto tem características de "protocolo do Sião" no sentido em que antevê alguns desenvolvimentos que irão materializar o domínio holandês. Vestfália é assinada em 1648 e o erro seria apenas de 3 anos, caso fosse a previsão para a vitória na Guerra dos Trinta Anos. Ao mesmo tempo, 1645 é o ano em que as forças parlamentares de Cromwell ganham um controlo total de Inglaterra, levando o rei Carlos I a fugir para a Escócia, sendo depois executado em 1649. É ainda dentro desse prazo de 24 anos, em 1640, que Portugal se liberta do jugo espanhol... é aqui difícil perceber se a coordenação das rebeliões ibéricas foi um facto lateral ou se efectivamente vinha do objectivo de enfraquecer a unidade espanhola.
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