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Torre Vítrea de Nennius

por desvela, em 20.12.12
Um dos relatos mais surpreendentes que li está na 
Historia Brittonum (c. 830 d.C), 
escrita por Nennius, monge galês. Dificilmente se encontram relatos mais próximos do período conturbado que sucedeu à queda do Império Romano do Ocidente (exceptuando Gildas que não é tão informativo).

Turrim vitream in medio mari
No entanto, talvez o que mais surpreende é uma descrição das primeiras tentativas de colonização da Irlanda, que mais uma vez é atribuída a migrações da Hispânia. Eis a parte mais estranha:
After these came three sons of a Spanish soldier with thirty ships, each of which contained thirty wives; and having remained there during the space of a year, there appeared to them, in the middle of the sea, a tower of glass, the summit of which seemed covered with men, to whom they often spoke, but received no answer. At length they determined to besiege the tower; and after a year's preparation, advanced towards it, with the whole number of their ships, and all the women, one ship only excepted, which had been wrecked, and in which were thirty men, and as many women; but when all had disembarked on the shore which surrounded the tower, the sea opened and swallowed them up. Ireland, however, was peopled, to the present period, from the family remaining in the vessel which was wrecked. Afterwards, others came from Spain, and possessed themselves of various parts of Britain.
A menos de efeito alucinogénico de cogumelos, a informação passada como histórica por Nennius descreve algo muito bizarro. Tratava-se de uma "Torre Vítrea" no meio do mar (turrim vitream in medio mare), e no topo haveria homens, que não respondiam aos hispânicos, que tinham chegado à Irlanda em 30 navios.
Depois de procurar mais informação sobre o assunto, verifiquei haver uma interpretação quase tão bizarra quanto a descrição - tratar-se-ia de um iceberg com focas em cima... pelo nível de apuramento da explicação, pode ser coisa oficial.
Tudo bem, vamos admitir que os hispânicos eram ignorantes, nunca tinham visto um iceberg, chamavam-lhe torre vítrea, e achavam que as focas eram parecidas com humanos. Acontece que Nennius diz que demoraram um ano a preparar o ataque... ou seja, o iceberg ficou ali estacionado durante um ano com as focas em cima. Pior, uma vez sitiado o iceberg, desembarcando todos na sua periferia, e cercadas as focas, o conjunto foi todo submergido, desaparecendo tudo.
Antes de ler a versão explicativa com o iceberg e as focas, interpretei abusivamente, e considerei poder tratar-se de um submergível, com uma torre vítrea de comando e observação, que incomodaria os novos colonos, a ponto de eles considerarem a sua abordagem... e quando o fizeram, submergiu!
Porém, como somos ensinados que nenhum desses aparelhos seria possível naquela época, só a versão das focas ao comando do iceberg estacionário é que deve fazer sentido...

A travessia de 40 anos
Este episódio é o terceiro contado por Nennius. Ao que parece os hispânicos insistiam na colonização da Irlanda, que seria meio inóspita para quem está habituado a climas mais temperados, mas a coisa afigurava-se complicada. Da primeira vez tinham saído da Hispânia mil (escotos) sob o comando de Partholomus, e sendo quatro mil ao fim de alguns anos, todos teriam morrido no espaço de uma semana (pode ter sido dos cogumelos)! Da segunda vez teria sido um tal de Nimech, mas teria regressado ao fim de poucos anos com todos os que o tinham seguido. Desta terceira vez, como vimos, foi o problema das focas... mas terá havido sobreviventes, e com a chegada de nova gente da Hispânia, a colonização acabou por se verificar.

Geoffrey of Monmouth na Historia Regum Britanniae (livro III, cap.XII) conta uma versão posterior mais resumida da colonização. Segundo ele, o mesmo Partholoim (pequena variação no nome face a Nennius), com uma frota de 30 navios (o número da 3ª expedição de Nennius), abordara o rei bretão Barbtruc no sentido de lhe dar asilo, pela sua expulsão da Hispânia. Segundo Monmouth, tratavam-se de "Barclenses" - nome demasiado próximo de "Barcelenses" (aludimos a uma possível origem da região de Barcelos, Barcelona, ou ainda Basca - ver a hipótese "Basclense"). Na sua versão, o rei bretão teria cedido, encaminhando-os para a Irlanda, que se encontrava desabitada, e à data de Geoffrey ainda aí viveriam os seus descendentes.

Num ponto está em acordo com Nennius, que também afirma que a Irlanda estava desabitada à chegada dos escotos. Aliás afirma que a Irlanda seria desabitada até à época da travessia do Mar Vermelho pelos Israelitas.
Surge aqui um novo ponto interessante.
Entre os escotos haveria um nobre de origem cita, com grande família, que tinha sido banido, e que tinha tido um percurso notável. Neste ponto a versão de Nennius coincide parcialmente, numa nobreza cita, com a da Declaração de Arbroath mencionada aqui.
O percurso notável desse nobre cita tem semelhanças com o de Moisés...
Após a sua expulsão da Cítia, ter-se-ia refugiado no Egipto, e dado o desaparecimento da nobreza egípcia no Mar Vermelho, os egípcios consideraram que ele poderia tentar apoderar-se do poder, e expulsaram-no de novo. Nennius refere então:
Thus reduced, he wandered forty-two years in Africa, and arrived with his family at the altars of the Philistines, by the Lake of Osiers. Then passing between Rusicada and the hilly country of Syria, they travelled by the river Malva through Mauritania as far as the Pillars of Hercules; and crossing the Tyrrhene Sea, landed in Spain, where they continued many years, having greatly increased and multiplied Thence, a thousand and two years after the Egyptians were lost in the Red Sea, they passed into Ireland, and the district of Dalrieta. 
ou seja, deambulou 42 anos em África, provavelmente no deserto saariano.
O percurso indicado por Nennius mostra a confusão de nomenclatura. O país montanhoso da Síria, seria provavelmente a Tunísia, e o nome "Síria" estaria muito provavelmente ligado à origem fenícia de Cartago. O rio Malva existe - trata-se do actual rio Moulouya, conforme pode ser verificado aqui, já na zona de Marrocos.

Chegam assim aos Pilares de Hércules, estreito de Gibraltar, e vão passar o "Mar Tirreno" para chegar à Hispânia... Percebe-se imediatamente que o nome Mar Tirreno nada tinha a ver com a limitação dada actualmente (que o circunscreve hoje à área entre a Itália, Sardenha e Sicíla). Tratava-se muito provavelmente de todo o Mar Mediterrâneo, ou pelo menos da parte vizinha ao Estreito de Gibraltar.

continuado a 20/12/2012
Aliás, o nome Tirreno pode sugerir outra origem - da colónia fenícia Tiro (ver).
Como é habitual nestas coisas, podemos estar em presença de uma junção de histórias - por um lado a passagem do Mar Vermelho, por outro lado a deambulação de 40 anos no deserto.
Já falámos do Mar VermelhoEbreus do Ebro, e Nennius referindo-se aos filhos de Jafé (Japheth), netos de Noé, diz:
from the fifth, Tubal, arose the Hebrei, Hispani, and Itali.
[quintus Tubal, a quo Hebraei et Hispani et Itali]

Portanto, inclui no conjunto dos filhos de Tubal três populações distintas: Hebreus, Hispânicos e Itálicos (não necessariamente latinos, talvez etruscos). Estabelece-se mais uma ligação explícita entre Hebreus e Hispânia, para além das várias implícitas que já fomos comentando aqui noutros textos.

É claro que todas estas relações são confusas, as informações são (propositadamente?) contraditórias, e é difícil seguir com alguma certeza, apenas vamos estabelecendo algumas relações, que podem formar um corpo mais consistente. Assim, Nennius acaba por falar numa origem britânica que remontaria ao consul romano Brutus, de onde derivaria o nome Britania. Se por um lado seria o mesmo Brutus que passaria o Lima, num tempo demasiado recente, por outro lado esse tempo é anterior, vai até à Guerra de Tróia. Tal como os romanos, também os britânicos procuram uma descedência por algum Eneias troiano.

O texto de Nennius é especialmente conhecido por referir o Rei Artur, sendo talvez o primeiro fazê-lo. Ilustra a tentativa dos britânicos susterem a invasão dos Saxões, frisando em particular o convite ao seu estabelecimento feito pelo Rei Vortigern. Não indo ao aspecto fabuloso de Monmouth, Nennius reporta 12 batalhas vitoriosas de Artur, em particular a de Mount Baden, onde poderá ter exagerado no número de opositores eliminados só por Artur - 960, num só dia.

Traduções, transcrições, e Filisteus
Adiciono um pequeno detalhe instrutivo... no link inicial, que segui, na tradução da Fordham University de Nova York, aparece:
"The twelfth was a most severe contest, when Arthur penetrated to the hill of Badon. In this engagement, nine hundred and forty fell by his hand alone, no one but the Lord affording him assistance. In all these engagements the Britons were successful. For no strength can avail against the will of the Almighty."
Por outro lado, seguindo a versão transcrita em latim aqui lemos apenas:
"Duodecimum fuit bellum in monte Badonis, in quo corruerunt in uno die nongenti sexaginta viri de uno impetu Arthur; et nemo prostravit eos nisi ipse solus, et in omnibus bellis victor exstitit."

Ou seja, a menos que o tradutor tivesse outra versão, há um claro colorido e uma decoração que não está presente na transcrição do latim. Até o número é diferente num caso diz-se 940, noutro 960.
No entanto, estes detalhes não são assim tão importantes. Pode haver alterações, imprecisões, mas o que importa sempre é a visão de conjunto. De qualquer forma, há detalhes que alteram as coisas, e assim retomando o texto anterior, relativo ao mapa, agora em latim lemos:
at ille per quadraginta et duos annos ambulavit per Africam, et venerunt ad aras Filistinorum per lacum Salinarum et venerunt inter Rusicadam et montes Azariae et venerunt per flumen Malvam et transierunt per Maritaniam ad columnas Herculis et navigaverunt Tyrrenum mare et pervenerunt ad Hispaniam usque et ibi habitaverunt per multos annos et creverunt et multiplicati sunt nimis et gens illorum multiplicata est nimis. 
Portanto, temos o Lago Salinarum (em vez de Osiers), e Montes Azariae (em vez de "hilly country of Syria").  Isto muda um pouco as coisas. Já falámos do Lago Tritonis, e à época de Nennius já deveria estar a transformar-se numa enorme superfície salgada, que é hoje o Chott el-Jerid, de onde o nome "Salinarum". Depois dessa região tunisina, há já na Argélia uma cidade, junto à cadeia montanhosa do Atlas que ainda se chama Azaria. Rusicada era também uma cidade romana na zona argelina (foi identificada a Skikda, cidade costeira), e estes locais estão no mapa anterior.
Os Altares dos Filisteus nesta zona (Tunísia/Argélia-Atlas) é ainda mais relevante. Os filisteus deveriam estar na zona de Gaza, junto a Israel... onde desenvolveram lutas com os Hebreus. Porém, se atendermos a que acabámos de realçar a  conexão dos Hebreus com a Hispânia, podemos perceber que o ponto de conflito com os filisteus poderia ocorrer noutro lado - no Norte de África.

Maximus, Ambrósio, Ida e Conan
A Historia Brittonum de Nennius parece ser encarada como meio fantasiosa, e no entanto, não deixam de ali estar alguns acontecimentos que poderiam passar por falsos e não eram, como os referentes a Maximus (de quem falámos no texto anterior), já que a memória desse imperador tinha sido eliminada por decreto romano.
Nennius, como todos os restantes, terá seguido variada documentação. Poderá é ter seguido alguma que não devia... mas na maioria dos "historiadores" da Antiguidade há esse problema, falam de coisas que são hoje desacreditadas. Escolhe-se assim uma parte do que é dito,  que cola com a versão oficial, e o resto é negligenciado. Não sei se há algum historiador antigo que seja considerado fiável, do princípio ao fim, e se há, é porque se tem apenas uma parte histórica muito limitada e particular (o caso de alguns romanos). Ora, não haver nenhum historiador geral da Antiguidade, fiável, do princípio ao fim, é no mínimo um sintoma do problema subjacente há muito tempo.

Tem-se associado a figura do romano Ambrosius Aurelianus à lenda do Rei Artur (e.g. este filme), mas Nennius, como outros, refere-se a Ambrósio de forma distinta de Artur. O ponto comum seria a resistência ao invasor.
Nennius fala depois de Ida, Rei da Bernicia, reino anglo-saxão. Curiosamente esse nome será também o de (Santa) Ida, mãe dos reis de Jerusalém, e mulher do conde do Bulhão, de que já falámos, e que era Eustácio II, um comandante na invasão normanda em Hastings (1066).

Finalmente, regressando à Torre Vítrea, regressamos a Conan... temos numa edição de 1838 da Historia Brittonum, publicada pela English Historical Society, a seguinte observação:

Turrim vitream: Concerning the tower of glass and its frequent occurrence in the early Welsh legends, see Roberts’s Cambr. Antiq. pp. 75, 78, and Davies’s Mythology of the British Druids, p. 212. O’Connor states that this tower was built by a certain Conan upon the island called Tor-Inis, or Tory Island, and refers to a poem written long before A.D. 908, in proof of the antiquity of the tradition, Prolog. I. xxxvi

Ou seja, que a "Torre Vitrea" seria uma antiga lenda galesa, associada a uma torre na ilha de Tory (ver aqui também), construída por um certo Conan...

Ilha de Tory, onde estaria a Torre Vítrea de Conan (em panoramio)

No segundo filme de Conan (Destroyer), encontra-se justamente um episódio no "castelo de gelo do mago Toth-Amon" (ver), reportando talvez essa associação lendária a Conan e por outro lado à migração do cita via Egipto.

Esta descrição da Torre Vítrea pode ser considerada como alegórica, fantasiosa, associada a outras lendas medievais. Por exemplo, Geoffrey Monmouth (livro III, cap. XV) descreve o episódio do tirano Morvidus que teria sido devorado por um "monstro" na costa da Irlanda.
No entanto, a Torre Vítrea dificilmente pode ser enquadrada no tipo de mitos medievais comuns, não há propriamente nenhuma conotação heróica ou religiosa. Há apenas um episódio que é descrito com algum detalhe, sem qualificativos, explicações ou implicações. Se fosse algo que abalasse menos os preconceitos, seria mais facilmente aceite, assim permanece como desafio às explicações mais racionais.
22/12/2012

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:29


Torre Vítrea de Nennius

por desvela, em 19.12.12
Um dos relatos mais surpreendentes que li está na 
Historia Brittonum (c. 830 d.C), 
escrita por Nennius, monge galês. Dificilmente se encontram relatos mais próximos do período conturbado que sucedeu à queda do Império Romano do Ocidente (exceptuando Gildas que não é tão informativo).

Turrim vitream in medio mari
No entanto, talvez o que mais surpreende é uma descrição das primeiras tentativas de colonização da Irlanda, que mais uma vez é atribuída a migrações da Hispânia. Eis a parte mais estranha:
After these came three sons of a Spanish soldier with thirty ships, each of which contained thirty wives; and having remained there during the space of a year, there appeared to them, in the middle of the sea, a tower of glass, the summit of which seemed covered with men, to whom they often spoke, but received no answer. At length they determined to besiege the tower; and after a year's preparation, advanced towards it, with the whole number of their ships, and all the women, one ship only excepted, which had been wrecked, and in which were thirty men, and as many women; but when all had disembarked on the shore which surrounded the tower, the sea opened and swallowed them up. Ireland, however, was peopled, to the present period, from the family remaining in the vessel which was wrecked. Afterwards, others came from Spain, and possessed themselves of various parts of Britain.
A menos de efeito alucinogénico de cogumelos, a informação passada como histórica por Nennius descreve algo muito bizarro. Tratava-se de uma "Torre Vítrea" no meio do mar (turrim vitream in medio mare), e no topo haveria homens, que não respondiam aos hispânicos, que tinham chegado à Irlanda em 30 navios.
Depois de procurar mais informação sobre o assunto, verifiquei haver uma interpretação quase tão bizarra quanto a descrição - tratar-se-ia de um iceberg com focas em cima... pelo nível de apuramento da explicação, pode ser coisa oficial.
Tudo bem, vamos admitir que os hispânicos eram ignorantes, nunca tinham visto um iceberg, chamavam-lhe torre vítrea, e achavam que as focas eram parecidas com humanos. Acontece que Nennius diz que demoraram um ano a preparar o ataque... ou seja, o iceberg ficou ali estacionado durante um ano com as focas em cima. Pior, uma vez sitiado o iceberg, desembarcando todos na sua periferia, e cercadas as focas, o conjunto foi todo submergido, desaparecendo tudo.
Antes de ler a versão explicativa com o iceberg e as focas, interpretei abusivamente, e considerei poder tratar-se de um submergível, com uma torre vítrea de comando e observação, que incomodaria os novos colonos, a ponto de eles considerarem a sua abordagem... e quando o fizeram, submergiu!
Porém, como somos ensinados que nenhum desses aparelhos seria possível naquela época, só a versão das focas ao comando do iceberg estacionário é que deve fazer sentido...

A travessia de 40 anos
Este episódio é o terceiro contado por Nennius. Ao que parece os hispânicos insistiam na colonização da Irlanda, que seria meio inóspita para quem está habituado a climas mais temperados, mas a coisa afigurava-se complicada. Da primeira vez tinham saído da Hispânia mil (escotos) sob o comando de Partholomus, e sendo quatro mil ao fim de alguns anos, todos teriam morrido no espaço de uma semana (pode ter sido dos cogumelos)! Da segunda vez teria sido um tal de Nimech, mas teria regressado ao fim de poucos anos com todos os que o tinham seguido. Desta terceira vez, como vimos, foi o problema das focas... mas terá havido sobreviventes, e com a chegada de nova gente da Hispânia, a colonização acabou por se verificar.

Geoffrey of Monmouth na Historia Regum Britanniae (livro III, cap.XII) conta uma versão posterior mais resumida da colonização. Segundo ele, o mesmo Partholoim (pequena variação no nome face a Nennius), com uma frota de 30 navios (o número da 3ª expedição de Nennius), abordara o rei bretão Barbtruc no sentido de lhe dar asilo, pela sua expulsão da Hispânia. Segundo Monmouth, tratavam-se de "Barclenses" - nome demasiado próximo de "Barcelenses" (aludimos a uma possível origem da região de Barcelos, Barcelona, ou ainda Basca - ver a hipótese "Basclense"). Na sua versão, o rei bretão teria cedido, encaminhando-os para a Irlanda, que se encontrava desabitada, e à data de Geoffrey ainda aí viveriam os seus descendentes.

Num ponto está em acordo com Nennius, que também afirma que a Irlanda estava desabitada à chegada dos escotos. Aliás afirma que a Irlanda seria desabitada até à época da travessia do Mar Vermelho pelos Israelitas.
Surge aqui um novo ponto interessante.
Entre os escotos haveria um nobre de origem cita, com grande família, que tinha sido banido, e que tinha tido um percurso notável. Neste ponto a versão de Nennius coincide parcialmente, numa nobreza cita, com a da Declaração de Arbroath mencionada aqui.
O percurso notável desse nobre cita tem semelhanças com o de Moisés...
Após a sua expulsão da Cítia, ter-se-ia refugiado no Egipto, e dado o desaparecimento da nobreza egípcia no Mar Vermelho, os egípcios consideraram que ele poderia tentar apoderar-se do poder, e expulsaram-no de novo. Nennius refere então:
Thus reduced, he wandered forty-two years in Africa, and arrived with his family at the altars of the Philistines, by the Lake of Osiers. Then passing between Rusicada and the hilly country of Syria, they travelled by the river Malva through Mauritania as far as the Pillars of Hercules; and crossing the Tyrrhene Sea, landed in Spain, where they continued many years, having greatly increased and multiplied Thence, a thousand and two years after the Egyptians were lost in the Red Sea, they passed into Ireland, and the district of Dalrieta. 
ou seja, deambulou 42 anos em África, provavelmente no deserto saariano.
O percurso indicado por Nennius mostra a confusão de nomenclatura. O país montanhoso da Síria, seria provavelmente a Tunísia, e o nome "Síria" estaria muito provavelmente ligado à origem fenícia de Cartago. O rio Malva existe - trata-se do actual rio Moulouya, conforme pode ser verificado aqui, já na zona de Marrocos.

Chegam assim aos Pilares de Hércules, estreito de Gibraltar, e vão passar o "Mar Tirreno" para chegar à Hispânia... Percebe-se imediatamente que o nome Mar Tirreno nada tinha a ver com a limitação dada actualmente (que o circunscreve hoje à área entre a Itália, Sardenha e Sicíla). Tratava-se muito provavelmente de todo o Mar Mediterrâneo, ou pelo menos da parte vizinha ao Estreito de Gibraltar.

continuado a 20/12/2012
Aliás, o nome Tirreno pode sugerir outra origem - da colónia fenícia Tiro (ver).
Como é habitual nestas coisas, podemos estar em presença de uma junção de histórias - por um lado a passagem do Mar Vermelho, por outro lado a deambulação de 40 anos no deserto.
Já falámos do Mar VermelhoEbreus do Ebro, e Nennius referindo-se aos filhos de Jafé (Japheth), netos de Noé, diz:
from the fifth, Tubal, arose the Hebrei, Hispani, and Itali.
[quintus Tubal, a quo Hebraei et Hispani et Itali]

Portanto, inclui no conjunto dos filhos de Tubal três populações distintas: Hebreus, Hispânicos e Itálicos (não necessariamente latinos, talvez etruscos). Estabelece-se mais uma ligação explícita entre Hebreus e Hispânia, para além das várias implícitas que já fomos comentando aqui noutros textos.

É claro que todas estas relações são confusas, as informações são (propositadamente?) contraditórias, e é difícil seguir com alguma certeza, apenas vamos estabelecendo algumas relações, que podem formar um corpo mais consistente. Assim, Nennius acaba por falar numa origem britânica que remontaria ao consul romano Brutus, de onde derivaria o nome Britania. Se por um lado seria o mesmo Brutus que passaria o Lima, num tempo demasiado recente, por outro lado esse tempo é anterior, vai até à Guerra de Tróia. Tal como os romanos, também os britânicos procuram uma descedência por algum Eneias troiano.

O texto de Nennius é especialmente conhecido por referir o Rei Artur, sendo talvez o primeiro fazê-lo. Ilustra a tentativa dos britânicos susterem a invasão dos Saxões, frisando em particular o convite ao seu estabelecimento feito pelo Rei Vortigern. Não indo ao aspecto fabuloso de Monmouth, Nennius reporta 12 batalhas vitoriosas de Artur, em particular a de Mount Baden, onde poderá ter exagerado no número de opositores eliminados só por Artur - 960, num só dia.

Traduções, transcrições, e Filisteus
Adiciono um pequeno detalhe instrutivo... no link inicial, que segui, na tradução da Fordham University de Nova York, aparece:
"The twelfth was a most severe contest, when Arthur penetrated to the hill of Badon. In this engagement, nine hundred and forty fell by his hand alone, no one but the Lord affording him assistance. In all these engagements the Britons were successful. For no strength can avail against the will of the Almighty."
Por outro lado, seguindo a versão transcrita em latim aqui lemos apenas:
"Duodecimum fuit bellum in monte Badonis, in quo corruerunt in uno die nongenti sexaginta viri de uno impetu Arthur; et nemo prostravit eos nisi ipse solus, et in omnibus bellis victor exstitit."

Ou seja, a menos que o tradutor tivesse outra versão, há um claro colorido e uma decoração que não está presente na transcrição do latim. Até o número é diferente num caso diz-se 940, noutro 960.
No entanto, estes detalhes não são assim tão importantes. Pode haver alterações, imprecisões, mas o que importa sempre é a visão de conjunto. De qualquer forma, há detalhes que alteram as coisas, e assim retomando o texto anterior, relativo ao mapa, agora em latim lemos:
at ille per quadraginta et duos annos ambulavit per Africam, et venerunt ad aras Filistinorum per lacum Salinarum et venerunt inter Rusicadam et montes Azariae et venerunt per flumen Malvam et transierunt per Maritaniam ad columnas Herculis et navigaverunt Tyrrenum mare et pervenerunt ad Hispaniam usque et ibi habitaverunt per multos annos et creverunt et multiplicati sunt nimis et gens illorum multiplicata est nimis. 
Portanto, temos o Lago Salinarum (em vez de Osiers), e Montes Azariae (em vez de "hilly country of Syria").  Isto muda um pouco as coisas. Já falámos do Lago Tritonis, e à época de Nennius já deveria estar a transformar-se numa enorme superfície salgada, que é hoje o Chott el-Jerid, de onde o nome "Salinarum". Depois dessa região tunisina, há já na Argélia uma cidade, junto à cadeia montanhosa do Atlas que ainda se chama Azaria. Rusicada era também uma cidade romana na zona argelina (foi identificada a Skikda, cidade costeira), e estes locais estão no mapa anterior.
Os Altares dos Filisteus nesta zona (Tunísia/Argélia-Atlas) é ainda mais relevante. Os filisteus deveriam estar na zona de Gaza, junto a Israel... onde desenvolveram lutas com os Hebreus. Porém, se atendermos a que acabámos de realçar a  conexão dos Hebreus com a Hispânia, podemos perceber que o ponto de conflito com os filisteus poderia ocorrer noutro lado - no Norte de África.

Maximus, Ambrósio, Ida e Conan
A Historia Brittonum de Nennius parece ser encarada como meio fantasiosa, e no entanto, não deixam de ali estar alguns acontecimentos que poderiam passar por falsos e não eram, como os referentes a Maximus (de quem falámos no texto anterior), já que a memória desse imperador tinha sido eliminada por decreto romano.
Nennius, como todos os restantes, terá seguido variada documentação. Poderá é ter seguido alguma que não devia... mas na maioria dos "historiadores" da Antiguidade há esse problema, falam de coisas que são hoje desacreditadas. Escolhe-se assim uma parte do que é dito,  que cola com a versão oficial, e o resto é negligenciado. Não sei se há algum historiador antigo que seja considerado fiável, do princípio ao fim, e se há, é porque se tem apenas uma parte histórica muito limitada e particular (o caso de alguns romanos). Ora, não haver nenhum historiador geral da Antiguidade, fiável, do princípio ao fim, é no mínimo um sintoma do problema subjacente há muito tempo.

Tem-se associado a figura do romano Ambrosius Aurelianus à lenda do Rei Artur (e.g. este filme), mas Nennius, como outros, refere-se a Ambrósio de forma distinta de Artur. O ponto comum seria a resistência ao invasor.
Nennius fala depois de Ida, Rei da Bernicia, reino anglo-saxão. Curiosamente esse nome será também o de (Santa) Ida, mãe dos reis de Jerusalém, e mulher do conde do Bulhão, de que já falámos, e que era Eustácio II, um comandante na invasão normanda em Hastings (1066).

Finalmente, regressando à Torre Vítrea, regressamos a Conan... temos numa edição de 1838 da Historia Brittonum, publicada pela English Historical Society, a seguinte observação:

Turrim vitream: Concerning the tower of glass and its frequent occurrence in the early Welsh legends, see Roberts’s Cambr. Antiq. pp. 75, 78, and Davies’s Mythology of the British Druids, p. 212. O’Connor states that this tower was built by a certain Conan upon the island called Tor-Inis, or Tory Island, and refers to a poem written long before A.D. 908, in proof of the antiquity of the tradition, Prolog. I. xxxvi

Ou seja, que a "Torre Vitrea" seria uma antiga lenda galesa, associada a uma torre na ilha de Tory (ver aqui também), construída por um certo Conan...

Ilha de Tory, onde estaria a Torre Vítrea de Conan (em panoramio)

No segundo filme de Conan (Destroyer), encontra-se justamente um episódio no "castelo de gelo do mago Toth-Amon" (ver), reportando talvez essa associação lendária a Conan e por outro lado à migração do cita via Egipto.

Esta descrição da Torre Vítrea pode ser considerada como alegórica, fantasiosa, associada a outras lendas medievais. Por exemplo, Geoffrey Monmouth (livro III, cap. XV) descreve o episódio do tirano Morvidus que teria sido devorado por um "monstro" na costa da Irlanda.
No entanto, a Torre Vítrea dificilmente pode ser enquadrada no tipo de mitos medievais comuns, não há propriamente nenhuma conotação heróica ou religiosa. Há apenas um episódio que é descrito com algum detalhe, sem qualificativos, explicações ou implicações. Se fosse algo que abalasse menos os preconceitos, seria mais facilmente aceite, assim permanece como desafio às explicações mais racionais.
22/12/2012

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publicado às 21:29


Conan, o bretão

por desvela, em 18.12.12
Do longínquo tempo em que o governador da Califórnia representava, não no protocolo, mas sim no cinema, conhecemos um dos personagens fabulosos que marcou gerações - Conan, o Bárbaro:
Arnold Schwarzenegger em Conan (1982, 84)

Conan foi visto como um produto de fantasia moderna, iniciada com o livro de R. Howard, em 1932, depois em banda-desenhada, e passados 50 anos aparece o filme. Era assim mais fácil a Howard introduzir um nome esquecido que foi visto como herói noutro contexto:
Conan, primeiro rei da Bretanha (383-427)

Conan, aparece ainda na fábula como Cimério, ligando-o a outros cimérios, apesar de Howard referir que se tratava de um celta... como o próprio nome indicia (Conan é um nome comum na Bretanha). É natural que Howard ligasse Cymmerian a Cymry - o nome celta de Gales, e que Hyboria invocasse a Hibernia-Irlanda. Com a grande excepção do Rei Artur, os mitos que surgiram na época de queda do Império Romano e transição para a época medieval, acabaram mais ou menos esquecidos, e toda essa época aparece envolta numa enorme névoa histórica.

A informação sobre Conan está, no entanto, bem detalhada na obra de 1854, de Charles Barthelemy:
Histoire de la Bretagne, ancienne et moderne
que toma o moto atribuído a Conan: "Malo mon quam foedari"... "antes morrer que me manchar", e associa os arminhos no escudo da Bretanha a um episódio que Conan tomara como bom presságio - ao desembarcar nas costas da Bretanha, alguns arminhos refugiaram-se sob o seu escudo. 

 
Um arminho. Escudo da Bretanha, com o símbolo dos arminhos.

Talvez não seja despropositado notar que se o latim "ermini" se mantém no catalão, não difere muito no francês "hermines". Ou seja, também poderíamos ter o nome "hermínios" em vez de "arminhos"... e os Montes Hermínios dariam significado a uma fauna entretanto extinta em Portugal (manter-se-à na Galiza).

Antes de retomar o lendário Conan, neste caso o bretão, é adequado numa veneta falar dos Venetos. Charles Barthelemy inicia a sua história com as dificuldades que Júlio César teria sentido na tentativa de anexação da Bretanha (ou Armorica), especialmente no que dizia respeito aos Venetos.
Acontecia que os Venetos eram navalmente superiores aos Romanos... no Oceano Atlântico os quadrirremes eram pouco eficazes, e os Venetos manobravam superiormente apenas com velas.
Barthelemy refere que, finalmente, com um expediente engenhoso, os romanos conseguiram cortar as cordas que operavam o velame, permitindo a abordagem aos navios. A maioria dos barcos venetos foi subjugada, e a independência da Bretanha/Armorica perdeu-se num só dia de batalha. Sucessivamente todos os portos se renderam... Júlio César foi implacável contra os Venetos que não escolheram morrer, e a história de uma Bretanha independente seria retomada quando entra Conan em cena - no final do Séc. IV.

Ora, como é natural, o nome "Venetos" sugere outra região... a "Venetia", a região de Veneza.
Essa ligação foi estabelecida (cf. Vénètes), e também outra ligação com a região de Gwynedd (Gales), denominada Venedotia pelos romanos.
Temos assim uma ligação marítima entre Gales, Bretanha e Veneza... havendo ainda quem adicione uma região polaca, ou eslava, referente aos Wendes, que migrariam para a Sérvia.
Coincidência?
Pelo critério etimológico, não podemos deixar de relembrar a conexão por Gal... deixando Portu-gal, passando à Galiza, aos Gauleses, Galeses, Galicia (Ucrânia/Polónia), ou até à Galatia (Turquia). Isto praticamente evidencia uma conexão marítima de grande escala fora do Mediterrâneo.
Para relembrar esta ligação, feita por onde antes a terra era mar, coloco de novo o mapa ilustrativo:

e assim, a propósito deste texto, notar que há uma razão para uma Grã-Bretanha e outra "pequena" Bretanha - pelo menos em tempos anteriores ambas teriam sido ilhas. César conquista uma Bretanha, Cláudio conquistará a outra, ou parte dela (os Pictos resistirão na Escócia). O mesmo nome, e a sua proximidade, parece prestar-se a confusões nas referências históricas.
Aliás Barthelemy refere que essa conexão entre as Bretanhas era tão presente, que durante vários séculos o rei comum residia em Trinovante - Londres. Conan partiu da Grã Bretanha para conquistar a Bretanha.

Como se as duas ligações marítimas apontadas não fossem suficientes, temos ainda os Pictones na França, ao sul da Bretanha, e os Pictos na Escócia. Etimologicamente ligam-se Vene, Gal, Picto, a distintas partes marítimas.
Coincidência? - A genética falou antes de a calarem... lê-se no Scotsman.com de 21/09/2006:
uma notícia que mostra como a maioria dos ingleses, escoceses e galeses descendem das mesmas tribos que os povos da Península Ibérica, concluindo aliás serem migrações destes.
(...) a research team at Oxford University has found the majority of Britons are Celts descended from Spanish tribes who began arriving about 7,000 years ago.
Even in England, about 64 per cent of people are descended from these Celts, outnumbering the descendants of Anglo-Saxons by about three to one.
The proportion of Celts is only slightly higher in Scotland, at 73 per cent. Wales is the most Celtic part of mainland Britain, with 83 per cent.
Previously it was thought that ancient Britons were Celts who came from central Europe, but the genetic connection to populations in Spain provides a scientific basis for part of the ancient Scots' origin myth.
The Declaration of Arbroath of 1320, following the War of Independence against England, tells how the Scots arrived in Scotland after they had "dwelt for a long course of time in Spain among the most savage tribes".
Olhando para a Declaração de Arbroath, dirigida ao Papa, a "coisa" torna-se ainda mais clara:
Most Holy Father, we know and from the chronicles and books of the ancients we find that among other famous nations our own, the Scots, has been graced with widespread renown.  It journeyed from Greater Scythia by way of the Tyrrhenian Sea and the Pillars of Hercules, and dwelt for a long course of time in Spain among the most savage peoples, but nowhere could it be subdued by any people, however barbarous.  Thence it came, twelve hundred years after the people of Israel crossed the Red Sea, to its home in the west where it still lives today.  The Britons it first drove out, the Picts it utterly destroyed, and, even though very often assailed by the Norwegians, the Danes and the English, it took possession of that home with many victories and untold efforts; and, as the histories of old time bear witness, they have held it free of all servitude ever since.  In their kingdom there have reigned one hundred and thirteen kings of their own royal stock, the line unbroken by a single foreigner.
Não restam muitas dúvidas de como as gaitas (de foles) são comuns a Trás-os-Montes e à Escócia. Também não restam muitas dúvidas de como "os mitos" que foram passando, nas "crónicas dos antigos", são afinal "mitos" com alguma "sustentação genética". Em 1320 os escoceses acabavam de receber uma das duas partes principais dos templários perseguidos em França... Se pelo lado português, os templários se estabeleceram na Ordem de Cristo, pelo lado escocês acabaram por formalizar a Maçonaria, de onde terá saído o "rito escocès".

É ainda interessante estes escoceses traçarem a sua origem a tempos de migrações da "Grande Cítia", ou seja da zona Tartária, a norte do Mar Negro e mar Cáspio. Depois de viverem muito tempo na Península Ibérica, acabam por aportar na Irlanda ("... its home in the west"), e numa grande contracção de tempo falam da destruição dos Pictos e invasões vikings... Para entender melhor isto, é preciso recorrer a Nennius, e à sua Historia Brittonum, do Séc. VIII - o que merece um texto separado.
Por outro lado, o traço genético é mais alargado, e não diz respeito apenas aos escoceses, inclui especialmente os galeses, e por isso reporta a tempos bem mais antigos, talvez próximos dos 5000 a.C. sugeridos pelo estudo genético.
Mas para não alongar nesta variante, voltamos a Conan...

Barthelemy começa por abordar o assunto referindo Cohel (nat King Cole) e o irmão Octavius (Outam), últimos reis de Trinovante-Londres. Diz que Cohel seria pai de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino... tese controversa que procurou ligar a consagração imperial de Constantino em York, a uma ascendência britânica. Apesar da origem de Santa Helena ser algo incerta, há enormes hiatos temporais nestas versões. Se a Europa continental tinha um unificador em Carlos Magno, os britânicos procuraram associar-se a Constantino "Magno". Através de Geoffrey de Monmouth, outra referência incontornável para este período britânico, o rei Artur seria descendente do rei Cohel.

Conan aparece como protagonista na sucessão de Octavius seu tio (ou pai?), numa altura em que o imperador romano Graciano estava prestes a ser defrontado por Maximus, um general romano da Hispânia.
Maximus estaria destacado na Grã Bretanha, e como no caso de Constantino, as legiões britânicas irão apoiar a sua pretensão a Imperador Romano. Ele surge como sucessor de Octavius pelo casamento com a filha Elen (outra Santa Helena). A esta sucessão opõe-se Conan, segundo diz Barthelemy, e aparecerá contra Maximus ao lado dos Pictos e Escotos.
Conan perde a batalha, e as legiões proclamam Maximus imperador romano. Maximus tem planos maiores, e propõe a Conan uma aliança para a invasão da Bretanha. Em 383 d.C. Conan desembarca ao serviço desse plano de Maximus, tem os arminhos a recebê-lo, e em breve terá um reino sob seu poder. Maximus prossegue, derrota Graciano na batalha de Lutécia, e durante 4 anos será imperador romano.

Magnus Maximus, Imperador Romano do Ocidente (384-388)

Maximus é primeiro visto como usurpador, mas é aceite com o co-imperador Valentiniano II, até que o tenta depor. Apesar do seu êxito no Império Romano do Ocidente, acabará por ser morto por Teodósio I, Imperador do Oriente, que irá recolocar Valentiniano II no Ocidente. Como era habitual em Roma, a mulher (Elen) e os filhos, serão também mortos. O senado romano declara a sua "memória danada"... e por isso é natural que pouca memória oficial da época se tenha mantido. Na tradição galesa, o nome de Maximus é Macsen Wledig, e Conan Meriadoc aparece como irmão de Elen, sua mulher. 

Com a aniquilação de Maximus, Conan não deixa de ficar no poder da Bretanha mais 40 anos, de acordo com Barthelemy. A incursão de Maximus acaba por deixar o Império do Ocidente fragilizado, e Honório, sucessor de Valentiniano II, terá por ter que negociar as diversas concessões de poder aos suevos, alanos, e godos. Roma já não controlaria a maior parte da Gália e Hispânia. Também a Bretanha teria um acordo de autonomia com Honório.
Assim, o período de Conan acaba por reflectir, segundo Barthelemy, uma grande estabilidade e independência, que atraírá o mundo celta à Bretanha, face ao desmoronar do mundo romano. O sucessor de Conan, será o seu filho Salomon, e apesar de Conan ter favorecido o cristianismo, não deixa de ser interessante este nome, e notar que Maximus teria sido acusado de "judaísmo", por Santo Ambrósio, por se ter oposto ao incêndio de uma sinagoga em Roma...

Finalmente, Barthelemy vai associar Conan a um outro episódio marcante - o martírio de Santa Ursula e das 11 000 virgens. Conan terá solicitado a mão da filha de Dionote, rei da Grã Bretanha, e Ursula terá partido também com a missão de "cristianizar o bárbaro". Por resultado de tempestade, o barco teria sido desviado para uma embocadura do Reno na Holanda, onde Ursula teria sido presa e depois morta pelos Hunos. Desde 406 d.C. que os Hunos tinham forçado a migração das tribos germânicas para oeste do Reno, e essa pressão levara às primeiras incursões bárbaras a que Honório cedeu. Quanto às 11000 virgens, o número é emblemático, por ser implausível que Ursula fosse acompanhada em tal número.
Assim, levantam-se hipóteses instrutivas de como alguma informação é facilmente deturpável ou interpretativa. Uma hipótese diz que "XI M V" foi entendido como 11 mil virgens e deveria ser 11 mártires virgens... outra diz que se referia a Ursula como virgem com 11 anos, etc.
Este exemplo é instrutivo porque são muitas as abreviaturas em latim, o que deixa alguma margem de interpretação e possível distorção face ao conteúdo original dos textos.

Conclusão. Barthelemy refere que Ana da Bretanha, bem como todos os duques anteriores, orgulhava-se da sua ascendência até Conan. A Bretanha seria definitivamente incorporada no Reino da França pelo casamento de Ana da Bretanha, e a sua autonomia seria depois limitada.
A ascendência de Conan seria bretã, não seguia a linhagem goda que resultaria na aristocracia europeia depois das invasões bárbaras. Também dificilmente se poderá invocar uma ascendência germânica aos godos, já que os Alamani eram uma confederação de Suevos. Os suevos acabaram por ser dominados pelos visigodos na Hispania, e por isso grande parte do que se chamaria "alemães" seriam muito mais suevos, de ligação celta, em grande parte inseridos no mundo romano. Os godos teriam uma origem diversa e alargada, sendo escandinava pela parte visigoda, até à Cítia/Tartária (zona Khazar) pela parte ostrogoda.
As monarquias estabelecidas na Europa acabarão todas por ter essa linhagem goda (os monarcas suevos não a teriam e não eram reconhecidos em Roma). Assim, quando os escoceses invocam a sua migração a partir da Cítia, estão a invocar a mesma zona geográfica dos ostrogodos, e talvez a mesma nobreza goda para justificar as pretensões de realeza.
No entanto, pelo traço genético, a população das ilhas britânicas terá essencialmente a mesma origem ibérica, e esse traço alagar-se-ia por uma civilização atlântica que incorporaria ainda a costa francesa, e poderia mesmo chegar a paragens mais orientais, remontando a épocas de ligação com o Mar Negro.
Na parte ocidental, há evidentes traços de ligação cultural, denominada celta, que vão das ilhas britânicas à parte ibérica, onde os monumentos de pedra, de "brita", os menires, cromeleches, dólmens, estão bem presentes. A tradição naval seria uma ligação, tornada clara na menção que se faz acerca da superioridade dos barcos venetos bretões face aos romanos, e a que se ligará também certamente um conexão fenícia.
Toda a mitologia celta britânica, acabará por se fundar numa nacionalidade perdida, desde o tempo do Rei Artur, e de Avalon. As invasões dos Anglos, Saxões e Normandos, acabam por reduzir os bretões praticamente a servos, como é bem ilustrado no conto de Robin Hood. Isso não acontece apenas na Grã Bretanha, por todo o lado, a cultura "celta" permanecerá como um resquício pagão popular. Porém, não apenas pelo nome, a Britania, acabará por conseguir trazer lendas que se perderam noutros tempos e lugares.

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publicado às 05:57


Conan, o bretão

por desvela, em 17.12.12
Do longínquo tempo em que o governador da Califórnia representava, não no protocolo, mas sim no cinema, conhecemos um dos personagens fabulosos que marcou gerações - Conan, o Bárbaro:
Arnold Schwarzenegger em Conan (1982, 84)

Conan foi visto como um produto de fantasia moderna, iniciada com o livro de R. Howard, em 1932, depois em banda-desenhada, e passados 50 anos aparece o filme. Era assim mais fácil a Howard introduzir um nome esquecido que foi visto como herói noutro contexto:
Conan, primeiro rei da Bretanha (383-427)

Conan, aparece ainda na fábula como Cimério, ligando-o a outros cimérios, apesar de Howard referir que se tratava de um celta... como o próprio nome indicia (Conan é um nome comum na Bretanha). É natural que Howard ligasse Cymmerian a Cymry - o nome celta de Gales, e que Hyboria invocasse a Hibernia-Irlanda. Com a grande excepção do Rei Artur, os mitos que surgiram na época de queda do Império Romano e transição para a época medieval, acabaram mais ou menos esquecidos, e toda essa época aparece envolta numa enorme névoa histórica.

A informação sobre Conan está, no entanto, bem detalhada na obra de 1854, de Charles Barthelemy:
Histoire de la Bretagne, ancienne et moderne
que toma o moto atribuído a Conan: "Malo mon quam foedari"... "antes morrer que me manchar", e associa os arminhos no escudo da Bretanha a um episódio que Conan tomara como bom presságio - ao desembarcar nas costas da Bretanha, alguns arminhos refugiaram-se sob o seu escudo. 

 
Um arminho. Escudo da Bretanha, com o símbolo dos arminhos.

Talvez não seja despropositado notar que se o latim "ermini" se mantém no catalão, não difere muito no francês "hermines". Ou seja, também poderíamos ter o nome "hermínios" em vez de "arminhos"... e os Montes Hermínios dariam significado a uma fauna entretanto extinta em Portugal (manter-se-à na Galiza).

Antes de retomar o lendário Conan, neste caso o bretão, é adequado numa veneta falar dos Venetos. Charles Barthelemy inicia a sua história com as dificuldades que Júlio César teria sentido na tentativa de anexação da Bretanha (ou Armorica), especialmente no que dizia respeito aos Venetos.
Acontecia que os Venetos eram navalmente superiores aos Romanos... no Oceano Atlântico os quadrirremes eram pouco eficazes, e os Venetos manobravam superiormente apenas com velas.
Barthelemy refere que, finalmente, com um expediente engenhoso, os romanos conseguiram cortar as cordas que operavam o velame, permitindo a abordagem aos navios. A maioria dos barcos venetos foi subjugada, e a independência da Bretanha/Armorica perdeu-se num só dia de batalha. Sucessivamente todos os portos se renderam... Júlio César foi implacável contra os Venetos que não escolheram morrer, e a história de uma Bretanha independente seria retomada quando entra Conan em cena - no final do Séc. IV.

Ora, como é natural, o nome "Venetos" sugere outra região... a "Venetia", a região de Veneza.
Essa ligação foi estabelecida (cf. Vénètes), e também outra ligação com a região de Gwynedd (Gales), denominada Venedotia pelos romanos.
Temos assim uma ligação marítima entre Gales, Bretanha e Veneza... havendo ainda quem adicione uma região polaca, ou eslava, referente aos Wendes, que migrariam para a Sérvia.
Coincidência?
Pelo critério etimológico, não podemos deixar de relembrar a conexão por Gal... deixando Portu-gal, passando à Galiza, aos Gauleses, Galeses, Galicia (Ucrânia/Polónia), ou até à Galatia (Turquia). Isto praticamente evidencia uma conexão marítima de grande escala fora do Mediterrâneo.
Para relembrar esta ligação, feita por onde antes a terra era mar, coloco de novo o mapa ilustrativo:

e assim, a propósito deste texto, notar que há uma razão para uma Grã-Bretanha e outra "pequena" Bretanha - pelo menos em tempos anteriores ambas teriam sido ilhas. César conquista uma Bretanha, Cláudio conquistará a outra, ou parte dela (os Pictos resistirão na Escócia). O mesmo nome, e a sua proximidade, parece prestar-se a confusões nas referências históricas.
Aliás Barthelemy refere que essa conexão entre as Bretanhas era tão presente, que durante vários séculos o rei comum residia em Trinovante - Londres. Conan partiu da Grã Bretanha para conquistar a Bretanha.

Como se as duas ligações marítimas apontadas não fossem suficientes, temos ainda os Pictones na França, ao sul da Bretanha, e os Pictos na Escócia. Etimologicamente ligam-se Vene, Gal, Picto, a distintas partes marítimas.
Coincidência? - A genética falou antes de a calarem... lê-se no Scotsman.com de 21/09/2006:
uma notícia que mostra como a maioria dos ingleses, escoceses e galeses descendem das mesmas tribos que os povos da Península Ibérica, concluindo aliás serem migrações destes.
(...) a research team at Oxford University has found the majority of Britons are Celts descended from Spanish tribes who began arriving about 7,000 years ago.
Even in England, about 64 per cent of people are descended from these Celts, outnumbering the descendants of Anglo-Saxons by about three to one.
The proportion of Celts is only slightly higher in Scotland, at 73 per cent. Wales is the most Celtic part of mainland Britain, with 83 per cent.
Previously it was thought that ancient Britons were Celts who came from central Europe, but the genetic connection to populations in Spain provides a scientific basis for part of the ancient Scots' origin myth.
The Declaration of Arbroath of 1320, following the War of Independence against England, tells how the Scots arrived in Scotland after they had "dwelt for a long course of time in Spain among the most savage tribes".
Olhando para a Declaração de Arbroath, dirigida ao Papa, a "coisa" torna-se ainda mais clara:
Most Holy Father, we know and from the chronicles and books of the ancients we find that among other famous nations our own, the Scots, has been graced with widespread renown.  It journeyed from Greater Scythia by way of the Tyrrhenian Sea and the Pillars of Hercules, and dwelt for a long course of time in Spain among the most savage peoples, but nowhere could it be subdued by any people, however barbarous.  Thence it came, twelve hundred years after the people of Israel crossed the Red Sea, to its home in the west where it still lives today.  The Britons it first drove out, the Picts it utterly destroyed, and, even though very often assailed by the Norwegians, the Danes and the English, it took possession of that home with many victories and untold efforts; and, as the histories of old time bear witness, they have held it free of all servitude ever since.  In their kingdom there have reigned one hundred and thirteen kings of their own royal stock, the line unbroken by a single foreigner.
Não restam muitas dúvidas de como as gaitas (de foles) são comuns a Trás-os-Montes e à Escócia. Também não restam muitas dúvidas de como "os mitos" que foram passando, nas "crónicas dos antigos", são afinal "mitos" com alguma "sustentação genética". Em 1320 os escoceses acabavam de receber uma das duas partes principais dos templários perseguidos em França... Se pelo lado português, os templários se estabeleceram na Ordem de Cristo, pelo lado escocês acabaram por formalizar a Maçonaria, de onde terá saído o "rito escocès".

É ainda interessante estes escoceses traçarem a sua origem a tempos de migrações da "Grande Cítia", ou seja da zona Tartária, a norte do Mar Negro e mar Cáspio. Depois de viverem muito tempo na Península Ibérica, acabam por aportar na Irlanda ("... its home in the west"), e numa grande contracção de tempo falam da destruição dos Pictos e invasões vikings... Para entender melhor isto, é preciso recorrer a Nennius, e à sua Historia Brittonum, do Séc. VIII - o que merece um texto separado.
Por outro lado, o traço genético é mais alargado, e não diz respeito apenas aos escoceses, inclui especialmente os galeses, e por isso reporta a tempos bem mais antigos, talvez próximos dos 5000 a.C. sugeridos pelo estudo genético.
Mas para não alongar nesta variante, voltamos a Conan...

Barthelemy começa por abordar o assunto referindo Cohel (nat King Cole) e o irmão Octavius (Outam), últimos reis de Trinovante-Londres. Diz que Cohel seria pai de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino... tese controversa que procurou ligar a consagração imperial de Constantino em York, a uma ascendência britânica. Apesar da origem de Santa Helena ser algo incerta, há enormes hiatos temporais nestas versões. Se a Europa continental tinha um unificador em Carlos Magno, os britânicos procuraram associar-se a Constantino "Magno". Através de Geoffrey de Monmouth, outra referência incontornável para este período britânico, o rei Artur seria descendente do rei Cohel.

Conan aparece como protagonista na sucessão de Octavius seu tio (ou pai?), numa altura em que o imperador romano Graciano estava prestes a ser defrontado por Maximus, um general romano da Hispânia.
Maximus estaria destacado na Grã Bretanha, e como no caso de Constantino, as legiões britânicas irão apoiar a sua pretensão a Imperador Romano. Ele surge como sucessor de Octavius pelo casamento com a filha Elen (outra Santa Helena). A esta sucessão opõe-se Conan, segundo diz Barthelemy, e aparecerá contra Maximus ao lado dos Pictos e Escotos.
Conan perde a batalha, e as legiões proclamam Maximus imperador romano. Maximus tem planos maiores, e propõe a Conan uma aliança para a invasão da Bretanha. Em 383 d.C. Conan desembarca ao serviço desse plano de Maximus, tem os arminhos a recebê-lo, e em breve terá um reino sob seu poder. Maximus prossegue, derrota Graciano na batalha de Lutécia, e durante 4 anos será imperador romano.

Magnus Maximus, Imperador Romano do Ocidente (384-388)

Maximus é primeiro visto como usurpador, mas é aceite com o co-imperador Valentiniano II, até que o tenta depor. Apesar do seu êxito no Império Romano do Ocidente, acabará por ser morto por Teodósio I, Imperador do Oriente, que irá recolocar Valentiniano II no Ocidente. Como era habitual em Roma, a mulher (Elen) e os filhos, serão também mortos. O senado romano declara a sua "memória danada"... e por isso é natural que pouca memória oficial da época se tenha mantido. Na tradição galesa, o nome de Maximus é Macsen Wledig, e Conan Meriadoc aparece como irmão de Elen, sua mulher. 

Com a aniquilação de Maximus, Conan não deixa de ficar no poder da Bretanha mais 40 anos, de acordo com Barthelemy. A incursão de Maximus acaba por deixar o Império do Ocidente fragilizado, e Honório, sucessor de Valentiniano II, terá por ter que negociar as diversas concessões de poder aos suevos, alanos, e godos. Roma já não controlaria a maior parte da Gália e Hispânia. Também a Bretanha teria um acordo de autonomia com Honório.
Assim, o período de Conan acaba por reflectir, segundo Barthelemy, uma grande estabilidade e independência, que atraírá o mundo celta à Bretanha, face ao desmoronar do mundo romano. O sucessor de Conan, será o seu filho Salomon, e apesar de Conan ter favorecido o cristianismo, não deixa de ser interessante este nome, e notar que Maximus teria sido acusado de "judaísmo", por Santo Ambrósio, por se ter oposto ao incêndio de uma sinagoga em Roma...

Finalmente, Barthelemy vai associar Conan a um outro episódio marcante - o martírio de Santa Ursula e das 11 000 virgens. Conan terá solicitado a mão da filha de Dionote, rei da Grã Bretanha, e Ursula terá partido também com a missão de "cristianizar o bárbaro". Por resultado de tempestade, o barco teria sido desviado para uma embocadura do Reno na Holanda, onde Ursula teria sido presa e depois morta pelos Hunos. Desde 406 d.C. que os Hunos tinham forçado a migração das tribos germânicas para oeste do Reno, e essa pressão levara às primeiras incursões bárbaras a que Honório cedeu. Quanto às 11000 virgens, o número é emblemático, por ser implausível que Ursula fosse acompanhada em tal número.
Assim, levantam-se hipóteses instrutivas de como alguma informação é facilmente deturpável ou interpretativa. Uma hipótese diz que "XI M V" foi entendido como 11 mil virgens e deveria ser 11 mártires virgens... outra diz que se referia a Ursula como virgem com 11 anos, etc.
Este exemplo é instrutivo porque são muitas as abreviaturas em latim, o que deixa alguma margem de interpretação e possível distorção face ao conteúdo original dos textos.

Conclusão. Barthelemy refere que Ana da Bretanha, bem como todos os duques anteriores, orgulhava-se da sua ascendência até Conan. A Bretanha seria definitivamente incorporada no Reino da França pelo casamento de Ana da Bretanha, e a sua autonomia seria depois limitada.
A ascendência de Conan seria bretã, não seguia a linhagem goda que resultaria na aristocracia europeia depois das invasões bárbaras. Também dificilmente se poderá invocar uma ascendência germânica aos godos, já que os Alamani eram uma confederação de Suevos. Os suevos acabaram por ser dominados pelos visigodos na Hispania, e por isso grande parte do que se chamaria "alemães" seriam muito mais suevos, de ligação celta, em grande parte inseridos no mundo romano. Os godos teriam uma origem diversa e alargada, sendo escandinava pela parte visigoda, até à Cítia/Tartária (zona Khazar) pela parte ostrogoda.
As monarquias estabelecidas na Europa acabarão todas por ter essa linhagem goda (os monarcas suevos não a teriam e não eram reconhecidos em Roma). Assim, quando os escoceses invocam a sua migração a partir da Cítia, estão a invocar a mesma zona geográfica dos ostrogodos, e talvez a mesma nobreza goda para justificar as pretensões de realeza.
No entanto, pelo traço genético, a população das ilhas britânicas terá essencialmente a mesma origem ibérica, e esse traço alagar-se-ia por uma civilização atlântica que incorporaria ainda a costa francesa, e poderia mesmo chegar a paragens mais orientais, remontando a épocas de ligação com o Mar Negro.
Na parte ocidental, há evidentes traços de ligação cultural, denominada celta, que vão das ilhas britânicas à parte ibérica, onde os monumentos de pedra, de "brita", os menires, cromeleches, dólmens, estão bem presentes. A tradição naval seria uma ligação, tornada clara na menção que se faz acerca da superioridade dos barcos venetos bretões face aos romanos, e a que se ligará também certamente um conexão fenícia.
Toda a mitologia celta britânica, acabará por se fundar numa nacionalidade perdida, desde o tempo do Rei Artur, e de Avalon. As invasões dos Anglos, Saxões e Normandos, acabam por reduzir os bretões praticamente a servos, como é bem ilustrado no conto de Robin Hood. Isso não acontece apenas na Grã Bretanha, por todo o lado, a cultura "celta" permanecerá como um resquício pagão popular. Porém, não apenas pelo nome, a Britania, acabará por conseguir trazer lendas que se perderam noutros tempos e lugares.

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