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Princípio Antrópico

por desvela, em 25.05.15
Entre as diversas coisas que podem ser encontradas neste blog, e que contemplam uma História mais antiga, primordial, está a consideração básica de que o Universo evoluiu para formar a inteligência, porque sem a existência de seres inteligentes, um universo de escória e calhaus nunca ganharia consciência de si (ver Arquitecturas (3)).
Acabei, entretanto, por encontrar a mesma reflexão com o nome de
«Princípio Antrópico»
e que parece ter sido debatida desde os anos 1950, 60 e 70 (J. A. Wheeler, R. Dicke, J. Barrow, F. Tipler, B. Carter, entre reconhecidos físicos e matemáticos).
Isto é para mim pouco relevante, mesmo. Não procurei, nem me interessa saber, se o assunto teve, tem ou terá mais ou menos adeptos, e por que razão. No entanto, terá interesse para o leitor saber onde poderá encontrar outros autores com trabalhos publicados, e com ideias semelhantes.

Este "princípio antrópico" ao colocar a inteligência como objectivo da evolução universal, tem o inconveniente de ir contra a religião darwinista implantada, e sofre críticas primárias (p. ex.  dererummundi.blogspot.pt), mais próprias de quem não faz a mais pálida ideia do que está a falar.

Assim, é escusado fechar os olhos a que estas coisas suscitam paixões contrárias, com dedicadas legiões de fundamentalistas religiosos ateístas, promotores do niilismo total, até porque vêem este princípio antrópico ligado a uma ideia de desenho inteligente, ou seja, a uma certa perspectiva criacionista.
Como as minhas considerações não tiveram nada a ver com o "criacionismo divino", este chamado "princípio antrópico" só coloca o homem no centro, se admitirmos que a única inteligência possível é a humana.
Ora apesar de ter já tornado claro (p.ex. de-natura-deorum.html) que a inteligência artificial é uma impossibilidade, pelo simples absurdo de que uma máquina finita não pode conceptualizar o infinito (ou outras noções abstractas), isto não invalida que uma inteligência semelhante à nossa não se possa desenvolver noutros contextos, biológicos, ou mesmo cibernéticos.

Equivalências
A cegueira fundamentalista religiosa do ateísmo moderno, não conseguindo negar este princípio antrópico, onde o Homem aparece como objectivo da evolução, acusa-o de ser uma "verdade de La Palisse", como se a afirmação darwiniana da "sobrevivência dos mais aptos", não fosse também ela uma verdade de La Palisse, mas esta já aceite sem pruridos.
Depois, indo a truques baixos, vai chamar da tumba o positivismo de Karl Popper, para poder negar as verdades "auto-evidentes", que não são consideradas científicas, porque não são susceptíveis de falsificação. Esta "ciência da falsificação" convém a qualquer corja falsária, que recusa à aritmética a dignidade falsária da ciência, mas não prescinde dela para as continhas que dão jeito. 

O leitor racional deve tanto quanto possível afastar-se dos feiticeiros e seus aprendizes, e procurar entender que há até razões críticas de ambos os lados.
De facto, perante a constatação de que o Homem é o resultado improvável de uma evolução universal, é igualmente objectivo dizer que foi causa, ou que foi consequência, dessa evolução.
Porquê?
Foi causa, porque sem inteligência, este universo nunca teria nenhum observador inteligente, o que seria equivalente à sua inexistência. Pensar na existência de um universo sem seres inteligentes, é simplesmente esquecer que não há observado sem haver observador. No entanto, o nosso Universo é suficientemente abrangente para admitir o raciocínio de tolos dispostos a negar tudo. Se nenhum universo tivesse admitido inteligência, simplesmente não teria existido nenhum universo, por falta de observador. Os que negam isto, pensam nos seus universos inconsistentes perdidos, mas só o podem fazer porque foram salvos num universo consistente que os acolheu, para sequer poderem pensar nisso.
Assim, por mais absurdas e irracionais que sejam teorias, com os seus big-bangs e relatividades da moda, encontram espaço no imaginário de hoje para falar de um passado sem pés nem cabeça. O nosso passado só fez sentido tendo em vista uma consistência que nos trouxe a este presente. E é nesse sentido que também podemos nos encarar como consequência do passado, e não apenas como causa. O caminho que traçamos do presente para o passado tem que ter consistência, independente de uma nossa existência pré-assumida. 
Numa limitada perspectiva determinista, que vê o futuro condicionado pelo passado, é precisa essa consistência racional mínima para o caminho saído do "nada". Numa alargada perspectiva quântica, as possibilidades do passado só fizeram sentido pelo próprio resultado futuro. Ou seja, se o caos fosse meramente uma probabilidade acéfala, o único futuro que permitira perceber e assegurar a existência do passado, seria o que lhe pudesse ver o traço, invertendo o caminho. O que isto significa é que um passado indetectável, a partir do presente, seria igualmente equivalente a um passado inexistente. 
Para um niilista, onde o caos não tem ordem, a história é qualquer... é uma história da carochinha, e é definida pela liberdade de pensamento da moda dos mandantes inspirados, nunca interessando perceber de onde vêm as ideias do pensamento, que isso só atrapalha as certezas cegas da ciência moderna.

Dimensão 3
No referido artigo da wikipedia, fazem-se algumas considerações sobre a ordem do nosso universo, indo ao ponto de Barrow e Tipler sugerirem que "com grande probabilidade, a nossa espécie é a única inteligente na Via Láctea": An entire chapter argues that Homo Sapiens is, with high probability, the only intelligent species in the Milky Way.
Presumo que essa consideração é meramente estatística, tendo em atenção a necessidade de estar suficientemente afastada do centro galáctico, e dentro dessa hipótese considerar condições ideais para o desenvolvimento de vida com atmosfera, etc... acabam por ser tão reduzidas ou tão alargadas, quanto a vontade de distorcer estatísticas.

Porém, o mais interessante é a consideração sobre as 3 dimensões.
Num pequeno gráfico são analisadas as possibilidades de existirem mais dimensões, não apenas espaciais, mas até temporais. Foi concluído que universos com dimensões superiores a 3 seriam instáveis, não permitindo nem estabilidade atómica, nem mesmo ao nível das órbitas planetárias. A única possibilidade para evitar essa instabilidade seria aumentar também as dimensões temporais!

Aumentar as dimensões temporais é algo que não imaginamos facilmente, mas seria equivalente a admitir a possibilidade de varrer universos 3D simultaneamente. Ou seja, em vez de vermos apenas o futuro de uma maneira, veríamos todas as suas variações. Porque se o tempo não implicar apenas um desfecho, ficamos com um rasto de possíveis desfechos. O tempo ser único é que determina a noção de verdade e falsidade. Por isso, aumentar as dimensões temporais corresponderia a universos onde a verdade não se impõe contra um absurdo.  De certa forma, convivemos com duas dimensões temporais quando somos levados pela imaginação, pelo sonho, para um outro tempo e outra realidade, mas mantemos o regresso a um único tempo, o tempo em que estamos no "acordo", em que acordamos com os outros.

Abaixo de 3 dimensões aparece "demasiado simples", ou seja seriam universos onde não se manifestaria nenhum caos, e tudo seria demasiado previsível, não podendo levar a nenhuma inteligência. 
Por exemplo, se pensarmos num ser a 2 dimensões, simplesmente não poderia alimentar-se... já que o canal do estômago separaria o animal em duas partes (basta fazer um desenho de um boneco com o canal da boca ao ânus, para perceber que ficaria dividido em duas partes)!

O caso sem tempo corresponderia a um universo estático, congelado, e tal coisa pode ser encarada num agregado 3D+1T = 4D concluído. A simetria de possibilidades deveria ser mais evidente, e desconheço a razão de invocar os hipotéticos taquiões no caso 1D+3T... mas também não há grande interesse nesse assunto.
O único interesse adicional é a informação de que a luz, e todas as ondas de rádio funcionariam apenas em dimensão 3, e de certa maneira a ideia que a estabilização das constantes físicas sugere a convergência para um universo físico que não será de índole caótica. Isto é uma das ideias que reforça a adequação do universo à nossa compreensão facilitada dele.

Sinais do Tempo
Por razões que não interessam, fui "forçado" a pensar em várias dimensões espaciais, temporais, e não apenas finitas, como as consideradas acima. Nesse deambular interrogativo, é fácil perceber os caminhos onde o caos irá imperar... como por exemplo, quando assumimos "pretensos paraísos" onde somos levados para situações sem referencial de verdade. Pretensos paraísos, porque sugerem libertações de restrições temporais, podendo fixar ou revisitar momentos bons, mas todas essas ofertas têm um contraponto pouco evidente, mas claro... desacordo, isolamento, por afastamento de uma verdade.

Apesar da imaginação nestes assuntos poder parecer grande, não vi neste caso a consideração do sinal do tempo. E até ao momento em que tive que pensar nisso, de facto não me lembrara do problema. 
As ideias de futuro, as concepções futuristas, dificilmente podem ser explicadas do passado. Não é por razão do pequeno-almoço, ou de um bom almoço, que nos surgem ideias futuristas. É mais fácil que surjam de forma "inexplicável", por inspiração num sonho, ou por reflexão num simples detalhe. Seja como for, são ideias que, inexistentes num passado, só surgem no presente tendo em vista um certo futuro. Nesse sentido podemos vê-las como vislumbre de um certo futuro, como uma qualquer outra visão, mais ou menos racional. 
Se sobre o nosso passado, dificilmente podemos pensar em mudar as coisas, as pressões para seguir um ou outro caminho futuro, podem ter uma razão bem simples. Porque, apenas escolhendo um futuro, haverá múltiplos futuros que serão omitidos, obliterados. 
Ora, admitindo o princípio antrópico mais forte, não estamos apenas em um dos possíveis universos, estamos no Universo consistente que permite conceber os restantes, mas não com a mesma validade. Por razão de verdade, há o tempo único da realidade, e o resto é imaginário. O imaginário é a componente que escapa à realidade construída e definida pelas restrições consistentes do passado. E assim é nesse campo que se joga o futuro... porque uma certa imaginação leva a um futuro e outra ignora-o ou suprime-o. O que para nós será futuro, não significa que não seja em certa medida, um dos múltiplos resultados fundados e definidos pelo passado.
Ora o casamento entre o passado e o futuro faz-se a cada presente, mas sem poligamia... e por isso os futuros que se mostram na imaginação são convites à construção de uma realidade, tendo em vista esse futuro, normalmente apelativo ou assustador para o visitado, pela ideia de futuro que se lhe apresenta. Quanto mais claro se apresentar esse futuro, mais essa ideia o condena um determinado desenrolar previsto, e fará sentido se se conjugar com o passado que conhece, mas será uma completa ilusão infernal, se ao puxar a cabeça as tentações fizerem esquecer os pés assentes na Terra, pela ordem do passado. 
Por razões de desvios, de mentiras cimentadas, o próprio passado consistente só está completamente definido em consistências físicas, e não em escritos ancestrais. Há o que tem a flexibilidade de ser encaixado e modificado - e aí cai praticamente toda a história da carochinha mal contada, e o que dificilmente pode ser modificado, pelos registos de verdadeira ciência. 

Quando chegamos a momentos cruciais, podemos ou não ter a ideia da colisão entre mundos que vão ficar condenados à parte imaginária, ignorados pelo mundo que será realidade. Nessa colisão, que define sempre o presente, o maior conhecimento da ordem científica, estreitará cada vez mais o passado, e com isso limitará cada vez mais o futuro. Assim, do futuro surge o habitual caos pronto a reformular tudo, a arrasar o passado, para um vislumbre de futuro risonho, mas limitado. Nesse caso, a agitação das cabeças faz levantar a temperatura a valores escaldantes. Enquanto pela imposição restritiva de um passado, as possibilidades futuras procuram ser condicionadas exclusivamente por essa ordem conhecida, que tenta manter tudo previsível, congelando as cabeças, e estreitando as possibilidades futuras. 
Escusado será dizer que é inevitável um compromisso entre o caos e ordem, mas isso nem sequer será preciso definir... o piloto automático já foi ligado (pois), e resta assistir e procurar compreender.

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publicado às 05:20


Arquitecturas (6)

por desvela, em 18.05.14
O texto que se segue escrevi-o há quase duas semanas... era suposto ser sobre silêncio e ruído.
Tomou caminho diferente e tive que parar, porque por vezes as coisas ganham vida própria, e do que sabemos chegamos ao que não sabíamos.
Segue o texto conforme ficou... parado:
_______________________________________________ 
Zebras e Leões
Aprendemos de infância uma linguagem, pouco importa qual, interessa o processo.
Ninguém ensina uma criança a falar de forma sistemática... aliás a criança até quase pode dispensar o tutor individualizado, o que interessa é o despertar das palavras em si. Não das palavras, na forma de som, mas sim das noções que se associam a elas. 

Há um martelar do mesmo som associado a situação semelhante, e o som começa a fazer par com a situação que se repete. Até aqui não há nenhuma novidade, mas o "problema" é que não fica por aqui.

Os animais têm uma capacidade de aniquilar diferenças e remete-las ao mesmo tratamento igual.
Uma zebra aniquila a diferença entre leões com mais ou menos juba, pois a informação que lhe interessa é apenas a de se pôr a milhas de qualquer leão...
Pode parecer que o processo é destrutivo de informação, já que não cuidou de ver a distintiva juba do leão, mas a zebra não se podia estar a ralar menos para esse detalhe. De forma semelhante, o leão não parece muito interessado no padrão das listas da zebra, e presta-se a fazer refeição de qualquer uma.

O que interessa isto? 
Interessa que há uma criação de informação tomando por igual o que é diferente. Os leões são processados indistintamente pela zebra, e vice-versa. Se aí encontramos uma luta pela sobrevivência, podemos ver que o mesmo processo de tomar por igual o que é diferente permitiu definir a maior parte das noções abstractas que temos. 
Os copos, as mesas, as cadeiras, podem ser diferentes, mas retirámos as diferenças, e quando falamos num copo, não podemos dizer que falamos nalgum em particular, ainda que possamos nos referir a um em concreto.
Ora, como vimos, essa capacidade de abstracção simples parece estar presente nos animais.
Qualquer bicho tem processos inerentes desse género - servem a alimentação e a reprodução. Nalguns casos esses processos básicos evoluíram para uma socialização básica.

Uma socialização básica é apenas um apuramento desses instintos animais, onde o indivíduo procura obter vantagem aumentando o seu corpo. Ou seja, em vez de ser um único ser, a interacção de vários seres pode efectivamente levar à coordenação de um corpo maior. 
Não foge do seu aspecto animalesco se interagir com outros tendo em vista os fins animalescos.
Os leões ganham vantagem em caçar em manada, os humanos também, e em última análise fizeram exércitos para aumentar esse corpo. Os leões disputam a supremacia no grupo, e entre as fêmeas, e os humanos também... ainda que usem doutros artifícios de despiste. O maior do bairro, da paróquia, ou o mayor da cidade, do país, etc... poucas vezes é mais motivado do que por esse processo animalesco. Seja em que campo for, desde o campo de futebol, ao campo intelectual. 
A situação é tanto mais caricata que o macho em questão raramente pretende ser alfa, pretende que os alfas lhe reconheçam o estatuto de beta...

Quando deixa a socialização de ser básica?
Creio que a maior demonstração de uma socialização que ultrapassa o básico se dá quando o indivíduo abdica dos interesses próprios, para se colocar verdadeiramente noutros interesses.
Quando uma mãe defende uma cria, ainda que defenda a sua reprodução, coloca um futuro doutrém acima do seu interesse individual presente. Se é instintivo, radicado nos genes, então esses genes codificaram o destino presente do indivíduo como irrelevante face ao futuro.

Portanto, a socialização não básica é a dos parvos.
Quando o indivíduo coloca outros interesses acima do seu interesse individual animal, está a ser agente de um processo que ultrapassa os interesses do seu corpo. No entanto, continua a servir a lógica animalesca se tomar como destino apenas os seus filhos, ou alguma descendência comunitária específica. A noção primitiva podemos vê-la na mãe que defende a cria, mas o seu entendimento é limitado, provavelmente limitado pelos genes que lhe programam esse instinto. Esse é ainda o enquadramento fundamental, na ligação ao semelhante, mas deve ser estendido quando a compreensão das semelhanças se alarga à compreensão de todo o universo onde se insere. 

Ora, para a compreensão plena dessa parvoíce altruísta, a que também se chama "amor", os genes não são suficientes... porquê?

O Sísifo das Formigas
As formigas desenvolveram um processo de orientação baseado em feromonas, que lhes é muito útil na definição de caminhos, por onde umas se seguem às outras, mas ocorre um fenómeno interessante que é a possibilidade desse caminho definir um circuito. Como as formigas se basearam exclusivamente na orientação de feromonas, se esse caminho ficar circular, ficam aí presas... É algo ridículo para quem vê de fora, mas a condição de processamento animalesco, baseado numa programação genética, leva àquilo a que se chama um "loop infinito", e ao que é dito, o circuito pode não ser desfeito, ficando sucessivamente a andar em círculos até ao seu esgotamento e morte.

Portanto, nem toda a programação instintiva codificada nos genes ficou à prova de situações absurdas. 
E se a natureza foi madrasta para estas formigas não prevendo este detalhe ao dotá-las de feromonas, ofereceu-nos a possibilidade de ver o fenómeno, e tirar daí algumas ilações... nomeadamente sobre o comportamento de manadas presas a uma repetição tirada da história das suas feromonas.

Qual o principal problema nesta repetição? 
A incapacidade de ver a repetição.
Poderíamos dizer que as formigas não poderiam fazer de forma diferente, dada a informação circular... mas não é assim. Tão confiantes estavam nas suas feromonas que não abdicaram dessa orientação instintiva, apesar de ficarem cada vez mais fracas e sem alimento.

Ora, o que acontece com as formigas, acontecerá sempre com qualquer processo pré-determinado.
Qualquer regra escrita leva às mesmas acções perante as mesmas condições.
Assim, qualquer definição genética sofreria sempre do mesmo problema... do problema das formigas.
Sendo determinadas geneticamente, as acções seriam as mesmas perante situações semelhantes.
Pode argumentar-se que o cérebro se desenvolve distintamente, permitindo reacções diferentes perante situações similares... mas isso já é propriedade de cérebros mais evoluídos, e ainda assim não sairia do mesmo vício circular. Porquê? 
Porque se o cérebro fosse definido por um número finito de genes então esse próprio cérebro seria definido por um número finito de ligações (os neurónios não são infinitos), e a certa altura entrava em repetição, ao esgotarem-se todas as combinações possíveis. E isto é independente do exterior... quando o exterior se repete.

Portanto, para abdicar de andar à volta em repetições, o indivíduo teria que ter capacidade de questionar os seus instintos genéticos, ou animalescos. Teria que ter capacidade de se questionar, de ser parvo ao ponto de recusar o caminho por onde todos seguiam, e que instintivamente deveria seguir.
Ora, essa capacidade de auto-análise não é programável geneticamente.
Porquê? Porque é anti-instintiva, recusando o que é programado geneticamente.
A única coisa que a genética pode fazer é abrir a porta à programação exterior, ou seja, deixar que o caos externo se possa sobrepor à ordem interna inerente. A programação cerebral deixa de depender dos genes, e encontrando outra ordem nesse caos, é a ordem do caos exterior que definirá as noções infinitas.

Isto é apenas um pequeno complemento à evidência, já falada, de que um número finito de genes nunca poderiam programar um ser capaz de conceber o infinito. Num mundo de bezerros dourados pode ocultar-se que a inteligência artificial é impossível, pelo simples facto de ser impossível aritmeticamente a uma máquina finita desenvolver conceitos infinitos, mas isso seria voltar a falar do vortex de formigas. Isso seria falar do ruído do silêncio... 
____________________________________ 5/05/2014

Por que razão parei o texto?
Ora, o texto até estava a fluir, e apesar de extenso, até a questão maternal ligava bem com o "dia da mãe".
Apareciam várias ideias novas, que ainda não tinha aqui falado, e iria aproveitar para pegar noutras para o contexto do "Sísifo das formigas".
A parte que está a cinzento, era o fluxo planeado. A conclusão já a tinha, antes de aparecer outra.
É essa nova conclusão que remete a mais um item no tópico "Arquitecturas".

Poderia não escrever mais nada, mas não sei se fica suficientemente claro o que escrevi.
Ora, eu estava a seguir a argumentação genética, conforme a ciência tanto gosta.
O meu ponto era repetir que essa argumentação genética não podia funcionar no nosso caso, pela capacidade de conceber o infinito, pela capacidade de auto-análise, etc.
Porém, subitamente vi que poderia funcionar na mesma... e isso não estava à espera.

Ia para o argumento negativo porque não via o argumento científico positivo.
Ia para o argumento negativo porque estamos habituados a ver-nos de dentro para fora.
No entanto, bastava aceitar que a visão era feita de fora para dentro... e tudo encaixava!

O que significa isto?
Algo muito complicado e muito simples ao mesmo tempo.
Complicado porque é contra-intuitivo, simples porque é compreensível.
Significa que estamos fora do universo que vemos.
O universo físico é apenas uma plataforma de informação e comunicação.
Ninguém está dentro da internet... liga-se ao universo da internet.
Se se desligar, apenas perde a possibilidade de aí interagir e comunicar...

Até aqui seria apenas uma teoria normal, própria de um livro de sci-fi.
O problema é o encaixe. E o encaixe é perfeito.

Começa pela linguagem.
Como já disse várias vezes, ter a noção de infinito só poderia ocorrer num ser infinito. Se o nosso interior físico é limitado, o exterior não é. Por isso, a nossa noção de infinito tinha que estar fora do corpo.
O mesmo acontece com a simples noção de número.
Sabemos o que são 7 maçãs ou 7 laranjas, mas em que parte física está o número 7?
O número 7 não está em nenhuma natureza que conheçamos. Transcende toda a natureza, porque sabemos que podemos identificar 7 coisas, e estas coisas são o quê? São só o que conhecemos?
Não! A noção do número 7 aplica-se a coisas desconhecidas também.
Ora, como podemos ter esta certeza sobre o desconhecido?
O número 7 não se aplica a sete coisas... aplica-se a uma infinidade de coisas e à nossa capacidade de agrupá-las, contando sete... Pior, estabelece uma tal identificação que permite misturar na contagem alhos com bugalhos.
Tal noção só pode ter emergido depois de se ter formado. Esse invariante numérico é uma noção que o universo repetiu e repetirá pela eternidade. Só depois do número ter ficado como invariante universal, é que é impensável ser colocado em causa. Só depois é que pudemos pensar nele dessa forma.

Portanto a linguagem trouxe-nos noções infinitas invariantes que resistiram a todos os tempos.
São despoletadas nas crianças pela repetição, e ecoam firmes no infinito da sua mente onde se alicerçaram.

O processo vem de fora para dentro biologicamente... e essa foi a conclusão.
Foi a conclusão quando os genes que determinavam o indivíduo levaram a um cérebro.
Os animais passavam a ter uma possibilidade de ajustar a sua acção com o exterior. A programação ordenada geneticamente passou a aceitar modificações no comportamento através do cérebro. A formação do cérebro era interior pelo lado genético, mas exterior pela sua reprogramação na aprendizagem.
Se os instintos resultavam de ordens finitas programadas, a ordem que emergia do caos exterior permitia um novo conhecimento. O cérebro passou a ser programado como máquina formatada, com alguns programas de sobrevivência, vindos da genética, mas abriu-se também à programação externa. Se não existisse alguma ordem no caos exterior, nenhumas noções teriam sido adquiridas. Porém, o cérebro aberto a esse exterior incorporou essas manifestações externas, e fixou-as pelas noções invariantes.
Portanto, o nosso pensamento abstracto não vem do interior, está cimentado no exterior, e encontrou nos cérebros humanos uma maneira de manifestar as noções que tem... porque a arquitectura do cérebro humano era suficientemente flexível para o aceitar consistentemente.

Ora, esse exterior é comum, e por isso as noções abstractas são comuns, permitindo a linguagem.
Doutra forma, seria até suficientemente estranho que as noções abstractas fossem as mesmas, não havendo ponto comum.
Aquilo que estou a dizer nem sequer vai contra o que é assumido habitualmente... porque é obviamente pelo exterior que o cérebro aprende a linguagem. A grande diferença é que admitido que o exterior conseguiria com umas tantas repetições fazer despertar numa criança as noções da linguagem... que são infinitas, mas que ficariam dominadas "magicamente" por um cérebro finito. Isso é que é impossível matematicamente.
Por isso o nosso pensamento não pode residir nessa limitação, pode é ser condicionado por ela.

Por outro lado, ao colocar o pensamento num exterior que se manifesta e é condicionado por um avatar corpóreo, isso parece implicar que para além dessa condicionante corpórea, o substrato comum é o mesmo.
Digamos, vindos do exterior, os diversos pensamentos são canalizados para o cérebro onde fazem sentido no contexto corpóreo que o definiu. Como é óbvio, ainda que não tenham nenhuma manifestação física, ideias abstractas comuns existem... e com o contexto físico apropriado, podem ser partilhadas, mesmo para além da linguagem. Ou seja, se temos noções comuns, só condicionantes físicas implicam que não possamos ter pensamentos comuns. No entanto, quanto mais não seja a bem da diversidade, haver pensamento distinto é uma benesse contra o isolamento numa única entidade.

Este texto não será tão fundamental quanto os anteriores desta série, mas pela constatação dessa localização comum externa da abstracção do pensamento, apresenta uma visão bem diferente do habitual.

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publicado às 03:59


Inevitabilidade (1)

por desvela, em 17.11.13
Procurando seguir a linha científica mais sustentada, afastando-nos apenas por ausência ou insuficiência explicativa, vamos tentar apresentar um resumo actualizado do que foi aqui apresentado, juntando outras informações.

A ligação genética coloca quase como evidente uma evolução com ponto comum nalgum primata. Não é por aí que contestamos o darwinismo: - o problema é que quem fala em origem acidental omite a origem do acidente!
De forma análoga, quem fala em origem fabricada não responde sobre a origem do fabricante... e por aí contestamos a pertinência do criacionismo, seja ele extra-terrestre ou divino.
A perspectiva que seguimos é a da inevitabilidade lógica - foi assim, pois não podia ter sido doutra forma. Esta filosofia de inevitabilidade não serve a previsão, serve a pós-visão. Serve o compreender descomprometido e não o prever pré-intencionado.

A existência requer uma observação... mas não observação literal, não é uma réplica ou espelho.
A existência confronta a não-existência, e portanto há um olhar além do simples constatar.
Assim, a existência do universo implicaria um "olhar inteligente" - é o caso humano.
A história serve o nexo da formação desse olhar.

Saindo da macacada
A vivência pacífica de hominídeos em estado tribal podia ter prosseguido por gerações incontáveis.
O desejo de subjugar o adversário não se deve ter mostrado imediatamente. A competição entre elementos da mesma espécie é ocorrência animal recente. Passou por três fases notórias, desde a competição se resumir à constatação de selecção pela alimentação e reprodução, a uma competição por confronto singular - na disputa da liderança local por um território, e finalmente à competição por confronto de grupos, tribos, algo que se manifesta nalguns hominídeos e de forma clara nos humanos.

Quando os animais se organizam em grupos, podemos entender que é formada uma nova estrutura animal, diferente do animal singular. O indivíduo aparece fragilizado e pode ser vítima do novo predador, que é o grupo. Essa nova estrutura domina e pode alimentar-se dos indivíduos de diferentes formas. Uma é a simples aniquilação, outra é a exploração, e ainda outra, a cooperação.
Na aniquilação, o indivíduo pode ser destruído ou não integrado - visando o desaparecimento daquele indivíduo, mas ignorando que o problema não desaparece. Na exploração, o indivíduo é inserido na estrutura como uma parte funcional dela, faz parte de um órgão, mas o peso da sua individualidade é apenas o de uma unidade na funcionalidade. Finalmente, na cooperação, o indivíduo insere-se na estrutura, num órgão, e a sua individualidade é tão importante quanto o conjunto, pois o conjunto visa o benefício de todos os indivíduos, e o número não se sobrepõe à unidade.

Portanto, numa fase inicial é natural que os hominídeos se preocupassem mais em estabelecer a sua sobrevivência e domínio sobre as outras espécies, e não vissem os outros com preocupação, excepto na questão de alguma interacção social ligada a uma hierarquia tribal. 
Os primatas mais próximos dos humanos são os chimpanzés e bonobos. Ao partilharem 90-98% da genética, estão mais próximos de humanos que de gorilas ou orangotangos (os outros hominídeos), mas têm atitudes sociais diferentes. Ao invés da agressividade característica dos chimpanzés, os bonobos são mais cooperativos, resolvendo muitos dos seus problemas por interacção sexual. 
É aliás bem conhecido que os bonobos e chimpanzés conseguem realizar tarefas de forma muito similar aos humanos, e são sujeitos a experimentação no campo da linguagem, onde os resultados são quase sempre limitados. A palavra "limitado" é propositada, pois a questão é justamente essa... o que faltará a esses hominídeos será uma constatação da sua limitação. Não procuram por si próprios colmatar as suas falhas, e estando satisfeitos com o seu conhecimento, com a sua compreensão, não os move o desejo do ilimitado, do infinito. Não estando condenados a essa permanente insatisfação humana, podem reagir, mas não têm a necessária curiosidade que move um evoluir, por aceitarem as lacunas. Afinal, o seu conservadorismo, pode ter mantido a herança da sua ancestral linhagem genealógica, mas nunca os aventurou para além das florestas tropicais.
Bonobos -África Central

A ideia de que os primeiros hominídeos seriam agressivos (ao contrário dos bonobos ou orangotangos), mais agressivos que gorilas, ou até que os chimpanzés, parece carecer de sustentação: 
However, the picture of early hominins as “killer ape‑like creatures” is not realistic, considering the hard evidence from fossil remains, primatology, and ethnography (cf. Sousa e Casanova, 2006)

Portanto, inicialmente não terá havido uma movimentação de conquista, nem domínio, mas uma natural expansão territorial, semelhante à que acontece com outros animais. As florestas tropicais da África Central (bonobos, chimpanzés, gorilas) e da Indonésia-Melanésia (orangotangos), podem revelar uma expansão antiga de hominídeos, entre África e o sul da Ásia, mas que não chegou a paragens americanas. A chegada americana deu-se posteriormente, com migrações humanas.

Do saber à compreensão
Algumas proezas humanas estão longe de ser proezas absolutas. O homem mais rápido não é o animal mais rápido, muito menos será o veículo mais rápido ou mais forte. Nem o homem com melhor memória ou maior capacidade de cálculo suplanta uma máquina programada para a mesma tarefa.
A capacidade de memorizar ou efectuar tarefas mecanicamente não é sintoma de nenhuma inteligência humana. Um robot pode ser programado para saber fazer tarefas mecânicas específicas. A inteligência humana manifesta-se na capacidade de compreensão, pela abstracção subjacente, podendo ser aplicada noutros contextos. Assim acontece com as simples histórias infantis, onde não é tão importante o enredo literal, mas sim a apreensão da moral subjacente.

Por isso, quando vemos algumas pedras lascadas, e outros artefactos que denunciam intencionalidade de aplicação, não significam "inteligência humana", apesar de poderem ter precedido essa inteligência humana. O mesmo olhar que vê inteligência no uso de uma pedra lascada, não pode deixar de ver inteligência num camaleão que adopta uma cor de camuflagem. Porém onde está essa inteligência?
É um reflexo interpretativo, está na génese do executor, ou no executor?
A simples constatação de que uma pedra lascada serviria o propósito de trinchar alimentos, de que uma lança poderia perfurar, ou de que o uso do fogo permitia cozinhar alimentos não é ainda revelador da transcendência humana. Há vários exemplos de animais que recorrem a utensílios, e mesmo a agricultura não é um sintoma claro dessa inteligência humana. As formigas saúvas (leaf-cutters) usam folhas para cultivar fungos, entre outros exemplos (há inclusive um peixe da família da  Castanheta que cultiva algas). Mesmo o simples construir de estruturas não revelaria essa inteligência não-programada, bastando lembrar os ninhos das aves, ou as construções das térmitas. Também encontramos entre vários animais uma interacção em estrutura social, pré-programada, onde os esquemas de servidão, actuação em matilha, obediência a hierarquia, etc... estão bem presentes e dificilmente denunciam mais inteligência do que a simples vivência para sobrevivência. 
Castanheta néon (Pomacentrus coelestis, Timor Leste)

Onde se manifesta então a inteligência humana? Na necessidade de compreender o desconhecido, na aquisição e incorporação desse desconhecido numa linguagem não literal. A religiosidade, a filosofia, ao procurarem um significado para a compreensão da existência, manifestam isso. O activo entendimento superior da natureza, procurando uma previsão de fenómenos naturais, também.
O ponto comum é a capacidade de o homem subir para se ver a si próprio e ao restante, não aceitar apenas a oferta das suas faculdades, compreender que há um racional para além delas. Por isso, o homem ciente duma ilimitação vê-se inicialmente incompleto por constatar a sua limitação... se não adquirir que, ao poder interiorizar o ilimitado, isso é prova de que não é limitado.
Máquinas ou animais que não questionem o nexo, não precisam de nexo. No entanto, o nexo ganhou existência a partir do momento em que houve animais que o viram - os humanos. Esse nexo funciona como um estômago faminto, que precisa de ser alimentado, até à completa consistência. Toda a filosofia humana passou a alimentar essa fome de compreensão, que a espécie herdou. A incompreensão gerava incompreensão... e se os bonobos podiam usar a actividade sexual para resolver os seus problemas sociais, aos humanos restava ainda resolver os problemas existenciais.

Panspérmia e Gaya
Entendendo a vida como um corpo "Gaya", que engloba todos os seres vivos, a vida apareceu e nunca desapareceu. A morte de uma célula não é a morte do corpo, e olhando o conjunto, a morte de um ser pouco afecta o conjunto da vida.
Analogamente, a vida, enquanto conjunto, esteve a evoluir, como evolui um embrião, desde a sua formação até atingir a fase adulta.
Um ser complexo tem uma individualidade que está para além da individualidade celular. Nesse mesmo sentido o conjunto da vida pode bem ser encarada como uma individualidade para além dos seus seres. Tem múltiplos componentes, tal como os animais tem múltiplos órgãos. As células morrem, o animal não. Os seres morrem, a vida na Terra não.
E, se a vida nunca cessou, esse organismo global apenas esteve em processo de formação... passando por várias fases, como uma borboleta. Podemos ter o preconceito de ver um corpo conectado pela união das células, mas se pela disjunção há diferença, há também um património genético comum entre todos os seres vivos... tal como há diferença entre as células dos diferentes órgãos de um mesmo corpo, não deixando de terem o mesmo DNA.
Os transplantes mostram até que as células não têm uma fidelidade excessiva, podendo servir a diferentes corpos. Assim, mais do que servirem exclusivamente um ser, servem o propósito maior do conjunto da vida.

Isto pode remeter para uma teoria chamada Panspérmia (ver Portugalliae - José Manuel).
O planeta Terra (ou outro planeta), funcionaria como óvulo, pronto a ser fecundado por matéria extraterrestre, da mesma forma que um óvulo aguarda a fecundação por um espermatozóide.
Se virmos essa matéria genética transportada por um cometa... as analogias são "claras no ovo".
O Sol seria a fonte materna de energia que iria alimentar essa vida, e embelezando o cenário, a própria Lua pode ser o que resta da colisão fecundadora, pairando vigilante sobre o embrião de vida que crescia e evoluía na Terra.
Tendo-se descoberto sinais de matéria orgânica nos cometas, isso dá algum suporte a uma teoria que remonta a Anaxágoras, ou mais recentemente a H. Helmholtz. Faltaria dizer de onde viria então essa matéria reprodutora, que inseria nos cometas matéria orgânica tão significativa que levaria à formação de vida em planetas distantes. Ou seja, podemos falar de um "Úrano" que fecunda Gaya?
[Escrevo "Gaya" e não Gaia, porque tenho usado o nome Gaia para algo muito maior, quase identificável ao próprio universo, e este conceito de Gaya é muito mais restrito, pois aplica-se apenas ao universo físico, e em concreto à vida na Terra. No entanto, e mais uma vez, podem ver-se analogias.]

Supernova Simeis 147 (Constelação de Touro)

Ora, há uma outra questão que normalmente é evitada. A Terra tem metais e outra "matéria pesada" que não cabe na simples produção nuclear solar, que envolve hidrogénio e hélio. Isso indica uma proveniência diferente - que remete à explosão de uma supernova, onde tal fusão seria possível. Ou seja, a matéria terrestre é suposto ter vindo de uma "estrela morta" (isto é a teoria oficial), a que acresce a própria matéria orgânica poder seguir, depois, em cometas ou asteróides. Assim sendo, um "Úrano" emissor de panspérmia, não seria destas paragens, e poderia ter gerado filhos em diversos sistemas solares.
A intencionalidade disso é assunto mais especulativo, e não liberta o criador de tal fonte emissora da sua própria origem... que até poderia ser semelhante. Por isso, como a ausência de intencionalidade precede sempre a intencionalidade, basta remeter a essa ausência. A introdução que fizemos explica onde está a razão das razões.
De qualquer forma, por um lado este é um quadro perfeitamente sustentável para admitir uma replicação de situações semelhantes à da Terra, à geração de vida análoga, e possibilidade de vida inteligente extra-terrestre. Por outro lado, interessa-nos apenas o quadro da origem sem nenhuma interferência inteligente externa, porque mais uma vez, o oposto iria remeter os "pais" aos "pais dos pais", e a uma estéril lengalenga da "galinha e do ovo".
Por perfeição, o nexo deverá ser simultaneamente circular e linear. Circular no que diz respeito à unidade, linear no que diz respeito à multiplicidade e diversidade. A junção desses dois olhares é um outro olhar, que não deixa de ser interior aos dois outros.




Inevitabilidade
Quando uma célula se divide em duas, o conjunto das duas não é visto por nenhuma delas, mas é inegável para o universo onde se dá. Uma pode ver a outra, mas quem vê as duas tem que estar num plano superior. Por isso, a duplicação, a réplica, não coloca de um lado o original e no outro a imagem literal. A duplicação não é vista pelo indivíduo, manifesta-se sim no observador acima.
No início dos inícios, o único observador disso, por inevitabilidade, seria o universo onde a réplica aparecia. Até criar um nível superior de análise, essa "visão-constatação" era exclusividade inerente.
Num nível superior podemos colocar seres que constatam o mundo anterior, podem estar acima e ver os outros, da mesma forma que o universo anterior constatava. Só que, mais uma vez, não se vêm a si mesmos... vêem o nível abaixo, mas não vêm o próprio nível onde estão. Essa diferença/união só é constatada pelo novo universo que os contém, noutro nível acima.
Voltamos por isso à situação anterior, que parece não ter fim...

Porém, esse não ter fim, é já uma constatação muito superior que, levada ao infinito, constata a sua invariância. E é nesse plano de observação, que esgota todos os planos de observação, que surgem constatações invariantes. São as noções abstractas que fundam a nossa linguagem, a nossa lógica e matemática, que constatamos como verdades universais... por exemplo, a parte está no todo, o número existe para além dos objectos contados, etc.
Esse é o nosso universo, o universo que se viu a si mesmo e onde as noções invariantes foram aparecer sob a forma de linguagem na comunicação. Tudo o resto abstracto seria redundante, no sentido em que poderia ser descrito por composição das noções base de uma linguagem.
O que faltava ver? Toda a matéria que sobrava, que não era definitiva, e que seria apresentada como deliciosos frutos ou perigosos monstros, passageiros.
Essa matéria não invariante poderia ser encapsulada de muitas formas, desde que entrasse na compreensão abstracta que era oferecida. O observado e o observador ajustam-se. Não podemos ver para além da compreensão que podemos ter, estamos apenas circunscritos à evolução dessa compreensão.
Temos a característica fundamental de sabermos que somos incompletos... como será sempre o universo, quando cada nível faz surgir um novo nível superior. Isso motiva-nos a ver mais, e nunca parece bastar o que sabemos. Porém há o outro lado... quanto mais soubermos menos resta por saber, quanto maior for o entendimento, menor será o deslumbre. Por isso, se as nossas capacidades fossem infinitas, apenas apressaríamos o fim... e o fim é tudo ver. Sendo que esse fim total é nada, porque nada mais restaria. Move-nos a incompletude, procurando a completude, mas faltava dizer que a completude é um total equivalente ao nada.
A parte e o todo coincidem na unidade... e tudo se repetiria desde o início.

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publicado às 20:17


Banho maria

por desvela, em 17.10.13
A minha falta de cultura hermética nacional revela-se em pequenos detalhes, como o simples "usar sem pensar" de algumas expressões que nos foram legadas.
Uma delas estava em banho-maria.
É claro que é uma expressão conhecida desde criança, no que diz respeito a aquecer coisas... porém faltou a curiosidade de perguntar - quem era a Maria?
Como esta há tantas outras... e simplesmente não inspeccionamos a língua que herdámos.
Muitos podem considerar que é uma invocação da figura temperada de Santa Maria, e isso levaria a um texto mais indicado para o 13 de Outubro, e não para hoje.

Maria, a judia.
Maria, a judia, alquimista do Séc. III a.C.

Do que pude apurar, a expressão refere-se a uma percursora do alquimismo - Maria, a judia, também dita Maria, a profetisa, ou a copta.
Sendo uma figura semi-mítica, aparece em dois contextos diferentes. Ou como Miriam, irmã de Moisés, ou como discípula copta de um hermetismo de Hermes Trimegisto, onde é referida como tendo influência em Demócrito (o que a remeteria para o Séc. V a.C.), ou ainda vivendo já no período romano, sendo citada por Zosimo de Panopolis, numa panóplia de atribuições alquimistas. Para o gnóstico Zósimo os anjos caídos teriam ensinado às mulheres a arte da metalurgia, e o conhecimento fundamental estaria guardado pelos egípcios e hebreus, ou seja, passando a tempos modernos, é legado da maçonaria e judiaria.

Isto é praticamente irrelevante face aquilo a que se chama o Axioma de Maria, e que foi relacionado com a filosofia alquimista dos quatro elementos (terra, água, ar, fogo):
Um passa a Dois, Dois passa a Três, e pelo Terceiro aparece o Um como Quarto.

Esta aritmética hermética é praticamente a mesma que encontramos no taoísmo, em Laozi, conforme referi num texto anteriorO Caminho faz nascer a Unidade, a Unidade faz nascer a Dualidade, a Dualidade faz nascer a Trindade, e a Trindade faz nascer uma miríade de criaturas.

Nesse texto anterior (Arquitecturas-5) procurei dar um nexo a estas afirmações que parecem gratuitas, mas podem ter um substrato racional, se bem entendidas... algo que não está presente, mesmo hermeticamente, nas frases transmitidas. Não é o "um" que passa a "dois", nem é a "unidade" que gera a "dualidade", etc...
Para dar nexo racional, pode observar-se o boneco que coloquei no Odemaia:
... em que a construção é um simples enquadrar do desenhado anteriormente. 
Outra explicação pode ser vista como uma charada - "escreva numa frase tudo o que foi escrito":
0 - nada
1 - foi escrito "nada"
2 - foi escrito "nada" e ainda "foi escrito "nada""
3 - foi escrito "nada" e ainda "foi escrito "nada"" e ainda "foi escrito "nada" e ainda "foi escrito "nada""" 
etc...

O que parece uma brincadeira infantil é intrinsecamente mais que isso, pois evidencia uma inevitabilidade de uma geração, qualquer que seja o ponto de partida... mesmo que se comece do "nada".

Ver nisto uma brincadeira é infantil. Os antigos filósofos sabiam bem disso, pois prezavam a profundidade da simplicidade complexa. É nesse sentido que nos aparecem as frases herméticas, como o Axioma de Maria, ou o Caminho de Laozi.

A inexistência implicaria uma existência da inexistência, e o processo não pára.
É indiferente de onde se parte. Podemos chegar ao terceiro ponto e dizer que tudo aquilo é nada... mas voltar ao zero não nos deixa de remeter aos pontos seguintes. A tentativa de redução, de anulação, não resolve nada.
Quando dizemos "nada" podemos dizer "qualquer coisa", ou até "tudo"... o processo está lá e não pára, mesmo com tudo. Afinal, o tudo não tem fim, não é estático.
Numa visão estática isto parece contraditório, e baralhou filósofos e lógicos, como Russell, no início do Séc. XX... e é ainda hoje ensinado como paradoxo. Mas não há nenhum paradoxo... simplesmente não faz sentido querer parar o processo para o analisar. É tão ridículo quanto os propalados milhões gastos na investigação para descobrir o funcionamento profundo do cérebro humano. O ridículo é que um cérebro pode entender outro cérebro, mas não o próprio... a análise a qualquer momento seria desactualizada, pois não incluiria o novo conhecimento entretanto analisado.
Até uma criança percebe isto, mas mesmo assim o assunto colecta dinheiro e propaganda pseudo-científica, para disfarçar as insuficiências epistemológicas da ciência moderna.

Isto não significa que não haja matéria para o conhecimento profundo. Há. Simplesmente não envolve bisturis, envolve apenas pensar seriamente, sem os preconceitos induzidos pela modernidade.
O método experimental serve a experiência, e pouco serve à descoberta. A experimentação revela mais novos mundos por descobrir do que serve para a descoberta do inicial. E o ponto crucial é que todos os mundos são mundos, diferentes nuns aspectos, iguais noutros. E quando se trata do geral, olhar para as particularidades das diferenças é mera distracção.
À descoberta filosófica basta a simples observação e reflexão... o velho método aristotélico. Não foi esse o caminho seguido pelos alquimistas, que forçaram a experimentação aos limites, interessando-se pelo detalhe, pelo particular. Não se compreende melhor a água sabendo que é H2O, porque isso não responde em nada aos porquês. Por que razão a soma dos números atómicos da água é 1+1+8=10? Tudo isso serve apenas para levantar novas questões, esquecendo as fundamentais.

O Axioma de Maria, ou o Caminho de Laozi, têm uma tradução filosófica simples, própria dos gnósticos. 
A unidade começa por ser a consciência do eu, só que essa consciência do eu está para além do eu que observa, revela um não-eu, levando à dualidade entre o "eu" e o "não-eu". A unidade que se vê a si própria separa-se no observador e observado - o um gera o dois. Porém, "ver os dois" é uma terceira identidade, mas não deixa de ser ainda o observador, o eu inicial, o um. Ou seja, quem tem a consciência do "eu e não-eu" é o próprio eu, e a trindade fecha-se. O terceiro é o primeiro.
Na perspectiva mais abstracta não há qualquer necessidade de quarto ou quinto elemento... 
A sequência que leva ao quarto segundo Maria, ou a sequência de Laozi que leva à miríade natural, é já uma crença facultativa.
E isto é mais complicado de escrever, porque não se vê escrito em parte alguma... mas encarar o não-eu como uma entidade múltipla é uma mera opção do observador. O eu prefere encarar o mundo numa multiplicidade, em que o não-eu são muitas coisas e não uma só, uma única entidade que lhe é dual. Pior, isso é válido para o eu e para o não-eu... ou seja, o eu, que se vê como unitário, aparece ao não-eu como múltiplo. Esta dança a dois, com o seu carácter abstracto, aplica-se a tudo. Se o "eu" se vê pequeno e impotente perante um ameaçador "não-eu", que inclui os outros e toda a natureza restante, convém lembrar que o "eu" é o "não-eu" desse outro imenso. As dimensões equivalem-se pela complementaridade, tudo o que falha a um está no outro. Algo completamente diferente é a consciência do eu presente, já que essa complementaridade vai para além desse tempo. A nossa história não é feita a um tempo só, foi feita a dois tempos... o que já se cumpriu em potência, e o que se cumpre, que é uma revisitação em consciência.

Em suma, ambas as afirmações, de Maria ou Laozi, fazem sentido dentro de um hermetismo, mas é preciso entendê-las racionalmente.
Agora, é de facto um pouco estranho saber destas coisas em "banho-maria".

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publicado às 02:48


Com chás (3)

por desvela, em 23.07.13
Chá Mate.
O Chimarrão, ou Chá Mate, é uma infusão popular do Sul do Brasil até à Argentina, e também em toda a América do Sul. O recipiente por onde se bebe esta infusão é normalmente a parte inferior de uma cabaça (ou cuia):
Cabaça (cuia) por onde se bebe o chá mate.

O assunto do chá na cabaça parece ser aqui um pouco forçado, por via do título dos textos e tema anterior. No entanto, posso fazer uma ligação simples e interessante, indo parar rapidamente das pampas argentinas à zona sul, à Patagónia, cuja conquista se deu na transição para o Séc. XX. A partir daí, deixou-se de ouvir falar naquela raça de gigantes que enchia a imaginação europeia desde a viagem de Magalhães.
Sim, já falei disto aqui, aquiaqui ou aqui... e sendo certo que não gosto de me repetir, há um ligeiro detalhe que devo adicionar. Repisco a famosa imagem de contacto entre patagões e europeus, e ao lado coloco uma imagem do chinês Yao Ming, a estrela de basquetebol da NBA, que alinhou pelos Houston Rockets:
 
Imagem de Patagões no contacto europeu, e imagem de Yao Ming na NBA
(a ligação mostra ainda outros 5 jogadores de 2,30 m)
... a desproporção é muito semelhante.

Bom, e o que nos diz o "Viajante Universal", antes de falar sobre o Taiti... fala por acaso da "Terra Magallanica", da altura dos patagões, e de como era um mito infundado que fossem "gigantes", porque:
Sua controvertida estatura excede geralmente à dos Europeus: medidos escrupulosamente os mais altos, achou-se que não passavam de 7 pés e 1,25 polegadas (2,17 m); e a comum estatura era de 6,5 até 7 pés (ou seja, entre 2,00 e 2,13 metros). Segundo reflecte Mr. Bougainville não é tão notável seu talhe como sua corpulência, que em alguns chegava a 4 pés e 4 polegadas (1,35m) na circunferência do peito; porém seus pés e mãos não correspondem ao membrudo das outras partes (!) Todos estão cobertos de carne sem poder-se chamar gordos: a tensão de seus músculos manifesta a sua força, e não é desagradável sua figura (...)
Uma estatura que (nos medidos) variava entre 2 e 2,20 metros torna claro que a imagem da ilustração era bem verosímil, e estávamos em presença de um povo quase gigante, em que Yao Ming seria um indivíduo normal, e não uma excepção. Aliás, recordamos, era isso que dizia Buffon (1774-89):
- "As raças de gigantes antigamente tão comuns na Ásia, já aí não subsistem. Por que razão as encontramos hoje na América?"

Como dissemos, a pergunta de Buffon, teria uma actualização no Séc. XX:
- Por que razão desapareceram os gigantes do globo?
Há mercados e mercadorias, e a Argentina muito foi subsidiada pelos "mercados" na sua expansão irracional para o terreno patagão, conhecendo um crescimento económico notável no início do Séc. XX. Ao mesmo tempo os patagões foram aniquilados, e passaram a ser confundidos com os Tehuelche.

Por muito que tente a objectividade, há uma confusão de sentimentos associada ao drama de extinção de um povo que tinha o problema nato de ser diferente... dizia Camões (Lusíadas, Canto X - 141):
Dês que passar a via mais que meia
Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
Düa estatura quási giganteia
Homens verá, da terra ali vizinha;
 
E mais avante o Estreito que se arreia
Co nome dele agora, o qual caminha
Pera outro mar e terra que fica onde
Com suas frias asas o Austro a esconde.
Agora, "Duma estatura quase gigantesca, homens já não verá..." porque a mediocridade assim o exigiu, e continuará a tentar exigir o impossível para que os ratos se possam esconder nos buracos financeiros, sendo certo que serão os primeiros a abandonar qualquer barca infernal que conduzam.

Qual a relação dos patagões com o chimarrão, com o chá mate?
Começa pelo nome dos seus fiéis cães:
- "São tão fieis companheiros destes Índios os cães, que rara vez os vimos sem um grande número deles: sua casta é quase semelhante à que em Buenos Aires chamam Cimarrões, dos quais certamente trazem a sua origem (...)"
Quanto à palavra "mate", talvez o "xeique-mate" tenha sido decidido à hora de Londres do chá, chá mate!
A pequena palha chamar-se bomba, também não remeterá necessariamente a bombear o líquido.
Depois, a história ganha detalhes mais sinistros, porque a própria zona Gaúcha, do Chimarrão, já teria uma imigração das Canárias, onde tinha ocorrido uma aniquilação dos Guanches, tidos também como gigantes, aquando da conquista espanhola... "com suas frias asas o Austro a esconde". Esta palavra "austro", que escondeu a ilha australiana, mostrou a bicéfala asa imperial da casa austríaca.

Infusão.
Poderia ficar por aqui, porque o tema assim se justificava.
Porém, esta relação está longe de ser suficiente para quem não aprecia chá...
Há muitas possibilidades de infusões... sendo que o simples chá de limão poderia ter constituído uma bebida popular. Porém, a própria escassez alimentar de citrinos, associada ao escorbuto, é outro facto que merece menção. O nome das laranjas estar associado ao nome de Portugal, é outro ponto que evidencia algo estranho. As laranjeiras eram árvores ornamentais, pelo menos entre persas e árabes.
Se é dito que o nome laranja vem do sânscrito "naranga", onde variou para "naranja" entre árabes, nós ficámos com essa derivação do nome, enquanto italianos, gregos, turcos, e outros árabes usavam "portocala" para designar a laranja. Portanto, usamos o nome vindo do Médio Oriente, e aí usa-se o nome vindo daqui? Não é isso que me leva a seguir o texto...

Afinal o que se bebia na Antiguidade até à Idade Média?... 
Não seria café, nem chá... nem sequer um cházinho de limão!
Bom, na Europa havia o vinho, as misturas com mel, hidromel, e variantes de cerveja. Porém, entre os árabes, por via religiosa, nem isso seria permitido. Há uma tradição do chá árabe, mas ainda assim parece vir da Pérsia, só no Séc. XV (tal como o café, por via etíope)... ou seja, quase ao mesmo tempo que os descobrimentos vão tomar essa importação de chá vinda da China. Na China seria já popular muitos séculos antes, sendo a sua introdução remetida a um dos 3 míticos soberanos chineses, Shennong.
Shenong faria uma investigação sobre a natureza das plantas, tal como os druídas celtas (simbolizados por Panoramix), ou outros xamãs, também se entreteriam com as suas "poções" e "mézinhas":

Da cabaça passamos ao caldeirão:
... afinal, quem estava associado à confecção de estranhas infusões com particularidades "mágicas"? 
... a livre ideia de ferver plantas colhidas no campo, seria benvinda a uma sociedade onde a apenas alguns estava reservado o direito de fazer "poções"?

Ou seja, para banir veleidades de experiências psicotrópicas com ervas, parecem ter sidos introduzidos bloqueadores morais. Na Idade Média fazer uma infusão num caldeirão seria algo associado à "bruxaria" ou "alquimia". Um simples cozinhado "não convencional" poderia ser conotado com práticas pouco recomendáveis de bruxaria. Se ao tempo dos druidas esses cozinhados estariam reservados a uma classe sacerdotal, com a chegada da Idade Média, nem tão pouco isso iria ser bem recebido.

As classes dirigentes da sociedade nunca viram o livre uso de plantas com bons olhos:
- o aspecto medicinal seria positivo, para alguns... mas o aspecto psicotrópico das drogas causaria um problema social grave. Uma coisa é a cocaína na Coca, outra coisa é o refrigerante Coca Cola.
Por isso, a chegada do chá, do café, coincidiu com uma prática alargada que foi recuperar medicamentos nas selvas tropicais, ou outras paragens remotas, como no caso das Quinas e do quinino.

Subitamente a sociedade admitia de novo a experimentação de plantas para o uso benéfico da população, com a contrapartida de controlar o problema nefasto do seu abuso... Mas, foi paradigmático a China, de onde saíra o simbólico chá, ver-se confrontada com a alienação da população por via da Guerra do Ópio.

Transversalmente, nas mais diversas tribos do globo, aparece uma prática religiosa de xamãs que criam condições de alteração de consciência, seja através de plantas, de venenos em doses toleradas, ou outras. A medicina ligava-se às práticas religiosas neste aspecto, sendo comum o duplo papel - médico e religioso, dos xamãs.
Os xamãs em diferentes culturas (imagem da wikipedia)

Nalgumas tribos índias o ritual de iniciação da adolescência passava por um retiro introspectivo do indivíduo, sujeito a alterações de consciência (plantas, veneno de serpente), que o confrontavam consigo próprio, com os seus medos e fantasmas. Serviria como uma entrada num mundo espiritual, mas não visaria apenas a educação do próprio jovem... serviria também para que desse relevo de realidade a um mundo de espíritos, onde contaria com o seu xamã como guardião.
Peter Gabriel - San Jacinto
(relatando a experiência iniciática de um jovem índio)
I hold the line - the line of strength that pulls me through the fear 
San Jacinto - I hold the line 
San Jacinto - the poison bite and darkness take my sight - 
I hold the line - And the tears roll down my swollen cheek - think I'm losing it - getting weaker 
I hold the line - I hold the line San Jacinto - yellow eagle flies down from the sun - from the sun

Ao contrário de uma sociedade tribal, as civilizações desenvolveram-se numa base de privacidade, onde a individualidade não é respeitada, é condicionada. Numa pequena tribo, os conceitos de privacidade fazem pouco sentido e, por outro lado, conhecendo-se melhor os convivas, os seus problemas serão problemas de todo o grupo. Ao contrário, as civilizações fizeram pagar a privacidade com a desconfiança... sendo permitidos segredos, são todos suspeitos disso mesmo. Por melhores sistemas de vigilância que sejam implementados, a desconfiança serve apenas como chama que se alimenta a si própria.

Os xamãs, e análogos, encontram um mundo alternativo... de universos que se quiseram impor e sucumbiram às próprias contradições. Um caos ausente que encontra uma porta para se manifestar através de irracionalidades presentes... irracionalidades que na sua contradição têm tanto de destruidoras, como de criadoras de belos universos em manifestações artísticas. Um caos presente na iminência destruidora de uma simples sinapse de comando, contra uma ordem regeneradora, que se soube sobrepor à aniquilação. E falo no passado, porque é o passado de todos os universos que falharam, mas que reservaram o direito de se manifestar no único que os poderia albergar. Foi esse o preço da racionalidade albergar a irracionalidade, a beleza, a inocência do amor, as incertezas, e a perversidade hedonista e niilista das suas manipulações... é isso que teremos que transportar em cada presente - todas ilusões e mentiras colapsadas dos "amanhãs que cantariam", e que encontraram maior expressão na única porta que lhes ficou aberta - a irracionalidade e aparente fragilidade humana.


Nota adicional (24/7/2013)
Não sendo o chá, propriamente dito, objecto de análise destes textos que escrevi, não quero deixar de sinalizar uma bela obra: 
(1905)

Começa assim a prosa romantizada de Venceslau de Moraes:
É no Oriente, e em especial no Extremo-Oriente, que as coisas communs da creação ou os usos e costumes triviaes da vida são susceptiveis de merecer um tal requinte de solemnidade sentimental e de praxes de rito, que constituam um verdadeiro culto. No espirito do europeu, despoetizado pela chateza dos ideais da epoca, atribulado pelas multiplices exigencias da vida, pervertido pela febre do negocio, não medram de há muito os cultos. Especializando a observação ao chá, havemos de convir que este artigo de commercio, que de tão longe nos vem, propositadamente adulterado conforme o nosso gosto, no fim de contas se resume n'uma detestavel infusão que entrou em moda no sport social, simples pretexto para repastos pelintras, para reuniões banaes, para palestras vãs. 
Este parágrafo ilustra bem como a generalidade da sociedade ocidental iria tratar a informação... os barões assinalados teriam as suas bibliotecas privadas de espampanantes encadernações... de livros nunca abertos.
As camélias chinesas ou japonesas serviriam um ritual de chá que seria uma encadernação do livro que tinha outro significado quando reportado ao local de origem.
Num pequeno texto, fácil de ler, Moraes coloca muita informação sobre o ritual do chá no Japão, que vai desde mitos, costumes, histórias, até à própria produção, em particular no rio Uji:


O texto de Moraes está decorado com belas e informativas ilustrações japonesas da época, que servem como uma fotografia de tempos passados a Oriente, no quadro duma estabilidade colonial e comercial da belle époque que antecederia as convulsões mundiais do Séc. XX.

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publicado às 06:05


Com chás (2)

por desvela, em 12.07.13
Vieira.
Já aqui tínhamos apresentado uma moeda que tinha o símbolo da empresa de D. Sebastião:

Serena Celsa Favent, era o moto, e se o esclarecimento favorece a excelência, aqui temos uma concha, a vieira venusiana, e um peixe, símbolo cristão, sob uma constelação estelar (Pleiades?) enquadrada com o crescente selene, lunar.
Devemos notar que as conchas estão ligadas ao baptismo, havendo mesmo pias baptismais com essa forma:
 
Pia baptismal - Igreja NªSrª Navegantes (Armação de Pera, imagem)e concha baptismal (imagem)

Portanto, há uma ligação da concha à libertação do "pecado original", da expulsão do Paraíso. 
Bom, e tendo acabado de falar nas ilhas polinésias, do Taiti no texto anterior, de forma algo natural estabelecemos a noção de "ilha paradisíaca"... como se congenitamente o fosse reconhecido naquelas paisagens.


Pelicano.
Para além do peixe, também o pelicano, pelo auto-sacrifício pela prole, é considerado um símbolo de Cristo, tendo sido primeiro adoptado por D. João II como seu símbolo.
Vamos encontrar esse símbolo com um influente conselheiro dos reis ingleses Henrique VII e Henrique VIII, tratava-se de Richard Foxe, bispo de Winchester:

Leito de morte de Henry VII Tudor (1509) com destaque para Richard Fox, Bispo de Winchester, 
vêem-se as quinas portuguesas e o pelicano de D. João II.

O que faria o Bispo de Winchester, o conselheiro mais influente de Henrique VII, e depois de Henrique VIII (até ser substituído por Wolsey), usar armas com quinas e o pelicano, símbolos do já defunto D. João II?
Estava aqui implícito que a política de D. João II teria uma continuação pelo lado inglês?

Richard Foxe vai fundar o Colégio Corpus Christi de Oxford, que ainda hoje usa o símbolo do pelicano:
  
Richard Fox, o pátio central com o Pelicano do Corpus Christi de Oxford, e as armas do colégio,
que incluem ainda as armas de Hugh Oldham (com 3 mochos e rosas vermelhas de Lancaster)

Mais tarde, também Isabel I, filha de Henrique VIII, a rainha que determinará a expansão inglesa, irá adoptar o pelicano como símbolo no seu papel de "mãe" da Igreja Anglicana. A simbologia cristã do pelicano remontará a S. Tomás de Aquino, a sua ligação às quinas portuguesas só fica evidente através de Fox, e da influência que terá tido na regência dos Tudor.

A tomba de Fox está na catedral de Winchester da Santíssima Trindade, que era a mais influente à época, e que curiosamente esteve em perigo de colapso por inundação das fundações, sendo "salva" pelo trabalho contínuo de um escafandrista, William Walker, entre 1906-11, que tem um busto na catedral cuja cripta ainda se encontra imersa em água. 

Catedral de Winchester, o escafandrista Walker, e a cripta inundada (com escultura moderna).

Cordeiros.
Curiosamente, 50 anos antes, outro Bispo de Winchester, Henry Beaufort, ficou famoso por dirigir o processo inquisitório que condenou Joana d'Arc à fogueira. Tratava-se de um meio-irmão de Filipa de Lancastre, sendo um dos muitos filhos de John de Gaunt (com Katherine Swynford, no terceiro casamento que originou a linha Beaufort). 
Henry Beaufort, o inquisidor, e Joana d'Arc... 
um cordeiro entregue à fogueira.

Joana d'Arc tinha sido entregue por Philippe III de Borgonha (casado com Isabel de Portugal, filha de D. João I, sobrinha do inquisidor). Margaret Beaufort, também sobrinha deste Henry, será mãe do rei Henrique VII, que derrota Ricardo III, tornando-se o primeiro dos Tudor. Henrique VII usa a rosa de Lancaster, mas ao casar com uma rosa de York, terminará a Guerra das Rosas com a união.
Um detalhe importante é Henrique VII usar num retrato o colar do Tosão de Ouro, o símbolo da Ordem fundada por Philippe III de Borgonha, aquando do casamento com Isabel de Portugal.
Phillipe III de Bourgogne, fundador da Ordem do Tosão de Ouro (esq.)
Henry VII Tudor, membro da Ordem do Tosão de Ouro (dir.)
Ambos usam o colar da ordem, com o cordeiro sacrificial.

Duque de Kent, chefe da Grande Loja de Londres, com colar da Maçonaria.

Juntei uma imagem de colar da maçonaria porque o compasso, ou o esquadro, descaindo em forma de V invertido, assemelham-se ao cordeiro sacrificial, que vemos nos colares da Ordem do Tosão de Ouro.
Conforme já referi noutros textos, o cordeiro tem vários significados, não apenas ligados à lenda de Jasão e dos Argonautas. É claro que a Ordem surgindo no contexto do casamento da irmã do Infante D. Henrique, carrega um aspecto dos Descobrimentos ligado aos "Argonautas" e ao Velo de Ouro.
Descobrir foi desvelar, tirar véus... na forma Ariana deste carneiro, o Velo seria a pele de Aries, uma pele de Ouro, ou de Oro, forma abreviada de Hórus, o olho vigilante que se pode ligar ao verbo Orar.
Descobrir foi revelar, levantar Velas e não tanto retirá-las. As cara-velas do Infante velaram pelo véus antigos, e a Ordem do Tosão ou "Velo de Ouro", pode ser vista como preservação do "véu de Hórus".
Jasão teve que vencer o Dragão da Cólquida para obter o Velo de Ouro, tal como Hércules teve que vencer o dragão Ládon, que guardava as ocidentais Hespérides, num dos 12 trabalhos (ou 12 Oras...).
Ao mesmo tempo aparecia a Ordem do Dragão, de que fez parte o Infante D. Pedro, e que já ligámos à Dra-cola, ou Cola do Dragão, em que o "Colar" se refere ao pescoço, tal como Coço e Cola se referem à retaguarda, entrelaçada ao pescoço... (sobre o significado antigo de "coço da procissão" ser "atrás da procissão", ler D. Manuel Clemente)

A história do cordeiro tem ainda o aspecto hebraico que remete à Páscoa, ou à paz-côa, quando Abraão é sujeito ao teste de obediência divino, e o seu filho Isaac é substituído pelo cordeiro no sacrifício:
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis... dona nobis pacem
É um bocado complicado falar deste ponto, porque o sacrifício do cordeiro ordeiro envolve aqui um conceito perverso, no outro verso interpretativo. Deus não permitiria o sacrifício do filho eleito, apenas dos cordeiros... e por isso os cordeiros poderiam ser sacrificados, até que Deus se manifestasse em sentido contrário. E quem eram os cordeiros a sacrificar? O sacrifício indiscriminado traria a presença de Deus?
Pois... até que ponto os Árias foram pastores de Aries, cordeiros? Até que ponto os pastores sacrificariam os seus cordeiros para reencontrarem Deus, ou o Messias?
Esta filosofia continha uma aposta tripla 1X2, se Deus não interviesse perante a iniquidade, os pastores beneficiariam do velo de ouro, uma opção hedonista face à ausência divina. De forma oposta, justificariam a sua acção perante o divino, requerendo a sua presença, afinal a sua omnipotência só permitiria o sacrifício dos sacrificáveis. A incógnita X seria a recusa teológica de outras possibilidades... obviamente possível por crença, mas afinal insustentável racionalmente. Azar, este universo foi definido justamente pela racionalidade, e os absurdos levam ao vazio contraditório - o caos irracional fica no seu exterior. O tempo permite o absurdo diferido, temporário, mas não o simultâneo e permanente. Todos os filhos de Gaia são introspectivamente recuperáveis, pela lógica do arrependimento, do reconhecimento de erros, mas não é possível a recuperação dos irrecuperáveis. A persistência eterna no absurdo foi simplesmente excluída, nem tampouco poderia ser humana. Logicamente, não poderia ser doutra forma... os erros podem viver nas ilusões temporárias, que acolhem elementos do caos, mas não o caos completo. Desse oceano caótico importamos a imprevisibilidade, elementos artísticos e sentimentais, mas esses impulsos devem sujeitar-se ao enquadramento racional, sob pena de serem o convite ao estabelecimento do irracional, e à recusa da principal faculdade humana, que nos distingue das alimárias, a racionalidade.

Chapéus...
Há muitos, vários formatos de chapéus. Assim, para além do colar com o cordeirinho sacrificial, também o chapéu usado por Filipe III de Borgonha fez moda, ficou conhecido como "chapéu borgonhês", e resistiu aos tempos, sendo ainda hoje uma indumentária usada pela Confraria do Vinho do Porto:
É claro que no caso da confraria de vinho usa-se no colar uma taça de escanção, para averiguar da cor do vinho, afinal simbolicamente tratado como "sangue de Cristo".
A taça do vinho da Última Ceia foi habitualmente designada como Graal, e houve já quem sugerisse que o nome Portugal encerraria um críptico "por-tu-graal", que assim se complementaria, pela associação de Porto e Gaia, nas caves do famoso vinho, que sozinhas asseguravam as contrapartidas do Tratado de Methuen. Para adivinhos, há outros vinhos... os famosos vinhos da Borgonha, ou de Bordéus, da antiga região da Guiana occitana-basca, entre outros preciosos néctares de um Baco divino di-vinho, cuja preservação de antiguidade necessita do devido arrefecimento em caves bem seladas.

Baptista
Não longe, encontramos a Igreja Matriz de Vila do Conde, cuja a entrada é interessante.
De construção biscainha, apresenta de um lado as armas de D. Manuel (num caso raro, em que ainda aparece a dupla esfera armilar, sugerida por D. João II), e do outro lado temos: a âncora da Póvoa de Varzim, o antigo barco de Vila do Conde, e um outro brazão com uma figura humana que emerge de uma concha (símbolo associado à localidade de S. Pedro de Rates).
Igreja Matriz, de S. João Baptista, em Vila do Conde (imagem).

Como a Igreja é dedicada a S. João Baptista (que aparece no topo da porta), a concha será baptismal, mas também referente à mítica presença do Apóstolo Santiago, que teria ordenado S. Pedro de Rates como primeiro Bispo de Braga (45 a 60 d.C.).
Há assim essa dupla ligação a conchas, cuidando ambas para o simbolismo do renascimento, numa igreja renascentista emanuelina. O homem que sai da concha aparece depois, com D. Sebastião, na forma de peixe, invocando esse Renascimento cristão, que seria o renascimento de Cristo, na forma humana.
O ritual baptista parece remeter para uma origem aquática, pela imersão do baptizado, ou mais simbolicamente vertendo água na sua cabeça.
No entanto, há variações baptistas.
Um outro aspecto de baptismo, era o baptismo com óleo, aplicado na unção de sacerdotes.
Aí podemos ver outro aspecto das vieiras que, virtude dos tempos, são reencontradas no símbolo de uma famosa companhia petrolífera:

A vieira usada como símbolo de petróleo pela Shell.

O petróleo, também designado como "ouro negro", passou a encerrar outros véus, ou velos de ouro negro... mas para essas considerações remetemos para um texto anterior.

Poderíamos ainda falar de outros aspectos interessantes das vieiras, nomeadamente pela sua geometria.
Há uma confluência entre parte de um quadrado e parte de um círculo, podendo ser usado para simbolizar a relação do número Pi na quadratura do círculo.
Por outro lado, as divisões naturais das vieiras (ou outras conchas) poderiam servir para marcar ângulos, constituindo um simples instrumento de posicionamento, semelhante a um vulgar quadrante, para simples uso náutico, em navegações primitivas. Esse seria um aspecto prático de orientação astral para qualquer peregrino, associando a vieira ao cajado do pastor.

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publicado às 22:13


Arquitecturas (5)

por desvela, em 14.02.13
Num comentário anterior disse que faltaria escrever um Arquitecturas (5), e por isso acrescento este texto. Claro que faltariam muito mais coisas, nomeadamente uma boa indexação, e ainda uma revisão de textos anteriores, adicionando novo material, corrigindo algumas insinuações, etc... Porém, não vejo este trabalho que aqui tive como sendo algo acabado. Convivo bem com os erros, alguns não intencionais, outros nem tanto, e o mais importante é saber justificar as decisões e opções. 
Pouco mais somos do que uma linha de decisões conscientes. Essas decisões podem ser acções ou inacções, mas apenas somos capazes de justificar as que fazemos conscientemente. Do ponto de vista externo, pouco mais se verá que as decisões, e sobre a consciência com que as tomámos, resta-nos uma linguagem ambígua, e uma maior ou menor inibição de revelar o nosso pensamento mais íntimo.
Essa inibição é um resultado da vivência social, e quanto mais inibidora e incompreensiva for a sociedade mais acumulará conhecimento reprimido, escondido num mundo de trevas. Agora, como é óbvio, o conhecimento deve ser informado e enquadrado. O conhecimento não deve servir o propósito contraditório de aniquilar o conhecimento. Da mesma forma que o conhecimento não deve ser negado a quem está em condições de o compreender.

Quem aqui aportar pode cair em frases ou textos soltos que, retirados do contexto, podem levar a interpretações precipitadas. Tratou-se de um estudo pessoal, ziguezagueante, que serve para mostrar dúvidas e incertezas, conceitos e preconceitos. Apesar de cada texto ser razoavelmente autocontido, sofre obviamente do conhecimento circunstancial, ou até do simples estado de espírito, que se foi adaptando, tentando encaixar diversas peças de um imenso puzzle. Também isso é instrutivo.

Interessa-me aqui voltar à questão da cosmogonia, no fim, começando pelo princípio...
Para esse efeito, refiro um mito criacionista chinês, atribuído a Laozi (séc. VI a.C), segundo a tradução disponível na wikipedia:
The Way gave birth to unity, Unity gave birth to duality, Duality gave birth to trinity, Trinity gave birth to the myriad creatures. The myriad creatures bear yin on their back and embrace yang in their bosoms. They neutralize these vapors and thereby achieve harmony.
Este mito procura justificar o aparecimento de tudo, através de um caminho, que pode ser visto no sentido abstracto. É interessante, porque basicamente individualiza a unidade, a dualidade, e a partir da trindade, tudo o resto é consequência.
Podemos ver aqui uma perspectiva de trindade, comum noutras religiões, e mesmo em filosofia, no sentido da percepção cartesiana do "eu", da evidência do "não-eu", e do agrupamento destas duas entidades num conceito maior, eventualmente num "Eu" solipsista, conforme já abordei
Porém, essa visão, que remete o indivíduo para a sua introspecção, é muito própria da filosofia budista, ou ainda mais antiga, do hinduísmo, Veda, ou vedado, entre castidades, castas, árias e párias.

Não faz muito sentido usar analogias de autores que inventam personagens, que se misturam com personagens na sua história, até porque um personagem resistente pode duvidar do autor, e até considerar que o próprio autor não passa de um personagem da sua imaginação... contradições do paradoxo do pensador, porque o pensador não pode conhecer a raiz do seu pensamento.

Passamos pois, para o "vácuo sagrado", como eventual fonte primeva, em qualquer mito criacionista.
O universo intemporal é uma entidade estável e imutável... por definição, por negação do tempo enquanto entidade aniquiladora.
No entanto, ao admitir mudança, surge sempre a questão do que foi antes de ser o que o que é...
Ora, a simples assumpção de inexistência, seguida de existência, define o universo também como a junção desses dois eventos. Passamos do 0 ao 1, definindo o 2 na junção. Será como um shakespeariano "ser ou não ser", a dúvida entre o existir e o não existir, sendo que essa dúvida é já uma terceira nova entidade.
Creio que esta passagem até à trindade é similar ao invocado por Laozi. Bom, e a partir daqui o processo pode repetir-se. Georg Cantor definiu de forma similar a construção dos números naturais.

Porém, enquanto construção puramente abstracta, um simples processo de edificação, resume-se a uma lista de "estados":
 (0): 0
 (1): 1
 (2): 0 1
 (4): 0 1 0 2
 (8): 0 1 0 2 0 2 0 4
(16): 0 1 0 2 0 2 0 4 0 2 0 4 0 4 0 8 
                                                              etc...

Aquilo que vemos é apenas uma sequência numérica, de replicação da estrutura anterior. A estrutura anterior é mantida, e a nova (a negrito) corresponde a uma evolução dessa para o estado seguinte (porque o universo tem que actualizar os conceitos com a nova estrutura). Os números são apenas símbolos que podem ser substituídos pela sua atribuição anterior. Ou seja, é mais rápido escrever 2 do que (01), e mais rápido escrever 4 do que (0102).

Bom, e como se comporta esta sucessão numérica, que emula uma concepção abstracta, de um universo que forçosamente inclui as entidades geradas? A sucessão numérica em causa está directamente ligada a uma representação binária (cf. OEIS), e apesar de poder ser gerada por uma simples linha de programação u = unir(u,2u), começando com u=(0,1), ao fim de algumas repetições torna-se bastante complexa, evidenciando ainda um comportamento fractal.
Podemos mostrar isso num percurso definido por direcções correspondentes aos números obtidos:

esta figura é apenas ilustrativa, mas serve para mostrar a complexidade, imprevisibilidade e não simetria do sistema gerado, ainda que se possam vislumbrar repetições de padrões (fractalidade). Computacionalmente podemo-nos ficar por umas dezenas de repetições, talvez centenas ou milhares, com grandes máquinas... mas tudo isso é nada, porque a estrutura emerge automaticamente, sem limites, pela sua simples definição.
Bom, e do que se compõe a estrutura? Simplesmente de vários estados do mesmo universo. Por isso, cada "partícula" pode ser encarada como um universo num estado mais elementar, e associações mais complexas aparecem em estados posteriores.
Estranho? Não é assim tão estranho, se notarmos que a idealização de uma máquina universal, uma modelação simplificada como sequência de "0" e "1", esteve presente na concepção de Turing.
Tanto poderá ser visto como enigma, como deus ex machina (ou ex mecanica).
Também não será de estranhar, atendendo à própria opinião da escola pitágorica, que encarava o mundo como uma simples manifestação numérica, acrescentando "a vida é como uma sala de espectáculos, entra-se, vê-se e sai-se"... e nesse sentido seria bom evitar a repetição de tragédias.

Importante é também a interrogação no sentido oposto.
Ou seja, assumindo a existência de partes no universo, de que podem elas ser constituídas?
São universos fechados em si mesmos? Então obedecem à própria lógica de um universo.
São outra coisa? Mas o quê, se são obrigatoriamente partes do universo. Só a nossa modelação física nos leva a pensar em constituintes diferentes, vindos sabe-se lá de onde...
Por isso, as partes de um universo, resultam de manifestações do próprio. Também por isso, quando a estrutura ganha consciência pode entender que uma sua parte é um universo fechado em si mesmo (concepção solipsista).
Bom, e como pode uma estrutura abstracta ganhar consciência?
Pode responder-se com outra questão - e como pode uma estrutura física, um corpo humano, ganhar consciência?
Não só. Há algumas pistas não desprezáveis. Não sei, mas creio que na ausência de uma estrutura social, para um indivíduo isolado, não será verosímil a necessidade de uma linguagem. Acaba por ser a linguagem a formatar conceitos no nosso pensamento. A linguagem emerge de uma experiência de vida social, solidifica-se por múltiplas experiências, e pode liquidificar-se mais tarde, com outras...
Como é possível a partir de repetições, de associações, aprender uma linguagem, num cérebro feito de neurónios? Ou seja, a emergência é natural, numa aparente predisposição do cérebro para esse efeito.

Não houve nenhuma evolução especial no sentido de preservar informação por via genética. Há uma parte, que designamos "instintiva", e essa deve ser considerada herdada, e há uma outra parte, que fez aparecer noções ou valores semelhantes, em diferentes culturas, que também pode ser considerada herdada (parcialmente, porque se mistura com a educação).
Porém, o que é mais importante é que a linguagem não se tornou apenas circunstancial, ligada ao que observamos. Tornou-se abstracta, capaz de evidenciar as mesmas conclusões em indivíduos distintos (por exemplo, através da matemática, ou simplesmente em jogos), e capaz de idealizar mundos para além do observado.
Ora, quando as noções abstractas ganham corpo de ciência, para além do homem, como se verifica no caso das noções e conclusões matemáticas, isso indicia que há uma realidade que transcende as habituais concepções físicas, ainda que possa ser inspirada por elas.

Regressando ao modelo de repetição associativa para um universo, convém notar que cada repetição não significa necessariamente um salto temporal... da mesma forma que não se evidenciam ali nenhumas dimensões físicas. A única coisa que se evidencia é sua complexidade emergente, e de como as partes não são mais do que diferentes associações do todo.
Uma coisa é não ter acesso cognitivo ao passado, outra coisa é achar que ele se perdeu irremediavelmente, como se houvesse um "caixote de lixo" temporal.
E se isto é válido para a história, enquanto passado, também é válido para outras incapacidades cognitivas, provavelmente por defeito de evolução na nossa comunicação.

As efémeras certezas acerca das nossas potências podem transformar-se em incertezas face às nossas impotências. Porque as nossas potencialidades surgem-nos como aparentes dádivas, mas nada disso surgiu com certificado vitalício, e maior potencialidade interior resulta de perspectivar adversidades, sem que isso constitua uma negação às actuais faculdades.

14 de Fevereiro de 2013

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publicado às 07:23


Arquitecturas (4)

por desvela, em 15.12.12
Tinha arrumado o tópico "Arquitecturas", mas na sequência das pertinentes questões levantadas no comentário do Sid, acrescento mais algumas considerações.

Gillray: Britannia entre a Rocha Democrática e o Remoínho do Poder Absoluto.

O raciocínio humano entricheira-se entre Scila e Caribdis... de um lado forma conceitos que emergem da previsibilidade, por outro lado tende a submergir o que é previsível.
Num universo caótico não seria possível formar conceitos, edificar noções estáveis, e num universo demasiado previsível os conceitos mais complexos seriam desnecessários, a ponto de nem serem cogitados. Este ajustamento é mais do que uma simples "coincidência"...
Para dar um exemplo simples, basta pensar na condução... se a resposta do veículo fosse imprevisível face aos movimentos do volante, ninguém saberia conduzir (nem haveria nada para "saber"...), e por outro lado, após sabermos conduzir, o processo torna-se tão automático que fica submerso, relegado em gestos instintivos - o assunto já não merece reflexão.

Em sociedades de fácil sobrevivência, ao género de "paraísos tropicais", onde a fruta está à distância do braço, o engenho humano fica como acessório de vivência. Mas essa vivência pode transformar-se em problema de sobrevivência pelo engenho complexificador de relações sociais. Quando o mundo ficou sob domínio humano, os humanos passaram a temer o seu maior predador - os "outros".
Os "nossos" maiores inimigos são sempre os "outros"... nos "nossos" confiamos, dos "outros" desconfiamos. É claro que o engenho social conseguiu complexificar ainda mais, e a noção de "traição" deixa o indivíduo essencialmente isolado, face à imprevisibilidade de "todos os outros".
Pode caricaturar-se a situação: - na "lotaria dos animais" o Homem ganhou o paraíso, sem ler o aviso - "a incapacidade de partilha transforma paraísos em infernos".

Creio que já não há ministérios "da guerra", só "da defesa"... legitimando-se agora as guerras como "formas preventivas de defesa". E sempre assim foi... mesmo os mais empenhados conquistadores, em última análise procuravam eliminar ou neutralizar "inimigos", fosse por motivos externos ou internos. O medo dos "outros" é também "o medo dos outros", e auto-alimenta-se.

A "ascendência primata" do Homem parece ter relegado o Homem a um papel menos especial na "criação", libertando-se da visão antropocêntrica religiosa. Porém, não é apenas isso... ao contrário do que parece, legitima uma visão bem mais elitista. Afinal, se a diferença entre um homem e um outro primata for apenas resultado de uma evolução animal, também se pode pretender que a Eugenia possa levar a uma variação de raça, e até de espécie, ao ponto de se gerarem "super-homens". A visão do homem-macaco serve muito mais para justificar o tratamento animal que é dado a certos homens, do que para dar um tratamento humano aos animais... 
Há quem tenha cultivado a pureza na descendência, e não foram apenas os aristocratas de ascendência bárbara-goda, nem os nazis pela ideia de "raça ariana". Aproveito para agradecer aqui a oferta de um livro sobre "jewish eugenics", que me chegou há uns tempos pelo correio, sem que eu tenha percebido como obtiveram o meu endereço, ou qual foi o interesse em que o recebesse.

A falta de verdade, a necessidade de ludibriar, de esconder segredos, tudo isso resulta de uma falta de confiança, de fé nos "outros". Todas as quebras legitimarão ainda maiores desconfianças, e o cumprimento exemplar nunca afastará essa noção, escondida nos mais íntimos medos. Um sintoma típico da necessidade de confiança, sentida por algumas pessoas, acaba por se manifestar em animais de estimação, companheiros de onde não esperam especiais surpresas.
A confiança, a fé, sendo afastada dos outros, seus semelhantes, foi também relegada para um conceito externo, divino. As provações, os infortúnios, seriam compensados numa balança de justiça, repositora da verdade, para além da morte. Com alguma tentativa científica de desmistificação religiosa, e com uma expansão do pragmatismo moderno, a confiança humana passou depois a ter à "cabeça" - o capital. As instituições, os estados, vão perdendo a confiança depositada pelos cidadãos, e progressivamente aceita-se a "pena capital", como último depósito de garantias humanas.

Ao indivíduo que incorporou respostas a alguns porquês na sua infância, a ciência actual surge como estéril a esse tipo de perguntas. Formada pelo pragmatismo experimental, a ciência é essencialmente descritiva, e a sua máxima justificativa é a constatação ou "o acaso". À queda da pedra, acrescenta uma relação de aceleração, uma noção de gravidade, mas está longe de justificar, ou sequer de perguntar, por que razão tal força existe. Existe "porque sim", responde-se, como responde qualquer criança incomodada com uma pergunta. E nem é preciso ir à Física, cheia de "buracos negros", mesmo a Matemática pode estudar os números primos, estabelecer teoremas, mas não explica a razão da imprevisibilidade dessa sequência gerada afinal pela simples aritmética da multiplicação. Aliás, ainda é um problema em aberto saber se há uma infinidade de "primos gémeos"... o problema pode ser colocado a uma criança, mas a sua prova resiste há séculos, ou talvez há milénios, já que Euclides apresentou a prova da infinidade dos primos (simples) há mais de 2200 anos, e esses assuntos tinham a atenção dos gregos.

Acontece que, também por experiência, as coisas têm habitualmente algum nexo de causa, que nos permite uma compreensão do mundo que nos rodeia. É claro que este tipo de arquitectura faz suspeitar de um "desenho inteligente", a compasso da noção de um arquitecto divino. Ora, isso não acrescenta informação, apenas transfere o problema, porque essa mesma noção levanta outros problemas lógicos. Há uma outra resposta, que é parecida com o "porque sim", mas tem implícita uma informação muito maior - "é assim, porque não poderia ser doutra forma". E para se perceber um pouco dessa informação subjacente, volto à imagem de Scila e Caribdis... se não houvesse nenhum nexo, nada seria inteligível, e se o nexo fosse facilmente prescrutável, não seria necessária nenhuma inteligência complexa, porque a complexidade nem sequer existiria. Isto é mais ou menos óbvio, muita gente intui este "ter que ser assim", e ainda que seja entendido não é assumido, nem é reconfortante.
Há uma pretensão subjacente de compreensão absoluta, esquecendo a questão do aprofundamento no remoinho de Caribdis - caso tudo fosse explicado, entendido e corrigido, o que nos motivaria para o dia seguinte?

Também por constatação - algo muito científico - verificamos que as coisas ocorreram de uma maneira e não de outra. Isso levou à noção de determinismo, associada indelevelmente à noção de "destino". Talvez por receio de conotação religiosa, e para evitar a desresponsabilização humana, essa noção caiu em desuso no início do Séc. XX. A modelação humana iria ganhar supremacia face ao desenrolar do universo... ridículo, mas tido como "científico". As coisas eram colocadas desta forma: "a moeda tanto pode cair em cara ou coroa", uma constatação de modelação da possibilidade que escondia a impossibilidade de se saber se iria ser uma coisa ou outra. Não é errado pensar em probabilidades, mas é de um absurdo e arrogância considerar que a nossa incompreensão é que modela o universo. E, no entanto, hoje quase ninguém se atreve a dizer o contrário. Porque dizer o contrário é também assumir a impossibilidade do livre-arbítrio, e há que responsabilizar escolhas...
A noção de decisão surge da modelação interna que fazemos do que nos rodeia. O nosso modelo é obviamente impreciso, e por isso não conseguimos antecipar o resultado. Aliás se isso fosse possível, significaria que nos identificaríamos com o universo, e não haveria surpresas, nem tão pouco razão de ser. Ora, como a nossa modelação é imprecisa, pensamos em cenários, em diferentes possibilidades, e daí surge o conceito de que temos escolhas, e de que uma acção diferente levaria a outro resultado. Temos as mãos atadas ao volante, e seguimos o destino nos carris, sem distinguir se é o volante que vira por acção das nossas mãos, ou se são as nossas mãos que viram por acção do volante que segue os carris... e pensamos que poderíamos ter virado atrás noutra direcção, ou que teremos poder de decisão na próxima curva. Aí não seremos enganados, já vemos os carris, e viramos noutra direcção... seguindo os carris, porque os que víamos eram afinal parte do cenário onde contemplamos as diversas possibilidades.

O aumento da nossa compreensão não reduz necessariamente a nossa incompreensão, porque novos problemas se colocam. A melhor compreensão permite apenas que estejamos "mais sintonizados" com o que nos rodeia. A fabricação de logros, enganos, armadilhas, não é nenhuma evolução especial, e pode ser encontrada como forma de sobrevivência ou defesa em muitos animais, não é propriamente uma invenção da inteligência humana... e se há novidade é em ser usado contra a própria espécie. Aliás, se há espécie empenhada em eliminar os seus próprios elementos, é a humana...
O jogo entre a percepção interna e a realidade externa foi estabelecido há muito na "natureza", e tem um sucesso limitado. Em última análise, serve para caçar alguns, durante algum tempo, até que se torne quase irrelevante pela sua previsibilidade, dada a melhoria de percepção dos sobreviventes, ou pela competição interna que anula os predadores.
No jogo entre a fabricação de realidades e a percepção desse fabrico, uns procuram distorcer a percepção, e os outros apuram a compreensão e identificação das distorções. Uns afastam-se da realidade procurando criar um mundo à sua medida, os outros vão, por força das circunstâncias, apurar a sua percepção para a distinção entre realidade e fabricações.

No limite, uns pretendem uma manipulação artística do universo, transformando-o num teatro dos seus modelos, e para isso vão parasitando tudo, inclusivé as descobertas alheias, dos que abnegadamente vão aumentando a percepção científica. A essoutros, resta a convicção profunda, ou fé, de que o universo não se poderá reduzir a uma manipulação teatral. Uns acreditam que o fabrico de uns tantos artífices terá engenho suficiente para submeter tudo e todos, outros acharão que essa pretensão megalómana é "ligeiramente" excessiva... dado o universo em questão. 

Porém, convirá perceber que se devemos diminuir o drama das hostilidades, algumas dificuldades, adversidades, não podem deixar de existir, sob pena de estagnação... afinal, "viver feliz para sempre" é apenas uma frase aplicável a vegetais, desprovidos de sistema nervoso.

The Cure - "Where the birds always sing" (*) 

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publicado às 19:01


Arquitecturas (4)

por desvela, em 15.12.12
Tinha arrumado o tópico "Arquitecturas", mas na sequência das pertinentes questões levantadas no comentário do Sid, acrescento mais algumas considerações.

Gillray: Britannia entre a Rocha Democrática e o Remoínho do Poder Absoluto.

O raciocínio humano entricheira-se entre Scila e Caribdis... de um lado forma conceitos que emergem da previsibilidade, por outro lado tende a submergir o que é previsível.
Num universo caótico não seria possível formar conceitos, edificar noções estáveis, e num universo demasiado previsível os conceitos mais complexos seriam desnecessários, a ponto de nem serem cogitados. Este ajustamento é mais do que uma simples "coincidência"...
Para dar um exemplo simples, basta pensar na condução... se a resposta do veículo fosse imprevisível face aos movimentos do volante, ninguém saberia conduzir (nem haveria nada para "saber"...), e por outro lado, após sabermos conduzir, o processo torna-se tão automático que fica submerso, relegado em gestos instintivos - o assunto já não merece reflexão.

Em sociedades de fácil sobrevivência, ao género de "paraísos tropicais", onde a fruta está à distância do braço, o engenho humano fica como acessório de vivência. Mas essa vivência pode transformar-se em problema de sobrevivência pelo engenho complexificador de relações sociais. Quando o mundo ficou sob domínio humano, os humanos passaram a temer o seu maior predador - os "outros".
Os "nossos" maiores inimigos são sempre os "outros"... nos "nossos" confiamos, dos "outros" desconfiamos. É claro que o engenho social conseguiu complexificar ainda mais, e a noção de "traição" deixa o indivíduo essencialmente isolado, face à imprevisibilidade de "todos os outros".
Pode caricaturar-se a situação: - na "lotaria dos animais" o Homem ganhou o paraíso, sem ler o aviso - "a incapacidade de partilha transforma paraísos em infernos".

Creio que já não há ministérios "da guerra", só "da defesa"... legitimando-se agora as guerras como "formas preventivas de defesa". E sempre assim foi... mesmo os mais empenhados conquistadores, em última análise procuravam eliminar ou neutralizar "inimigos", fosse por motivos externos ou internos. O medo dos "outros" é também "o medo dos outros", e auto-alimenta-se.

A "ascendência primata" do Homem parece ter relegado o Homem a um papel menos especial na "criação", libertando-se da visão antropocêntrica religiosa. Porém, não é apenas isso... ao contrário do que parece, legitima uma visão bem mais elitista. Afinal, se a diferença entre um homem e um outro primata for apenas resultado de uma evolução animal, também se pode pretender que a Eugenia possa levar a uma variação de raça, e até de espécie, ao ponto de se gerarem "super-homens". A visão do homem-macaco serve muito mais para justificar o tratamento animal que é dado a certos homens, do que para dar um tratamento humano aos animais... 
Há quem tenha cultivado a pureza na descendência, e não foram apenas os aristocratas de ascendência bárbara-goda, nem os nazis pela ideia de "raça ariana". Aproveito para agradecer aqui a oferta de um livro sobre "jewish eugenics", que me chegou há uns tempos pelo correio, sem que eu tenha percebido como obtiveram o meu endereço, ou qual foi o interesse em que o recebesse.

A falta de verdade, a necessidade de ludibriar, de esconder segredos, tudo isso resulta de uma falta de confiança, de fé nos "outros". Todas as quebras legitimarão ainda maiores desconfianças, e o cumprimento exemplar nunca afastará essa noção, escondida nos mais íntimos medos. Um sintoma típico da necessidade de confiança, sentida por algumas pessoas, acaba por se manifestar em animais de estimação, companheiros de onde não esperam especiais surpresas.
A confiança, a fé, sendo afastada dos outros, seus semelhantes, foi também relegada para um conceito externo, divino. As provações, os infortúnios, seriam compensados numa balança de justiça, repositora da verdade, para além da morte. Com alguma tentativa científica de desmistificação religiosa, e com uma expansão do pragmatismo moderno, a confiança humana passou depois a ter à "cabeça" - o capital. As instituições, os estados, vão perdendo a confiança depositada pelos cidadãos, e progressivamente aceita-se a "pena capital", como último depósito de garantias humanas.

Ao indivíduo que incorporou respostas a alguns porquês na sua infância, a ciência actual surge como estéril a esse tipo de perguntas. Formada pelo pragmatismo experimental, a ciência é essencialmente descritiva, e a sua máxima justificativa é a constatação ou "o acaso". À queda da pedra, acrescenta uma relação de aceleração, uma noção de gravidade, mas está longe de justificar, ou sequer de perguntar, por que razão tal força existe. Existe "porque sim", responde-se, como responde qualquer criança incomodada com uma pergunta. E nem é preciso ir à Física, cheia de "buracos negros", mesmo a Matemática pode estudar os números primos, estabelecer teoremas, mas não explica a razão da imprevisibilidade dessa sequência gerada afinal pela simples aritmética da multiplicação. Aliás, ainda é um problema em aberto saber se há uma infinidade de "primos gémeos"... o problema pode ser colocado a uma criança, mas a sua prova resiste há séculos, ou talvez há milénios, já que Euclides apresentou a prova da infinidade dos primos (simples) há mais de 2200 anos, e esses assuntos tinham a atenção dos gregos.

Acontece que, também por experiência, as coisas têm habitualmente algum nexo de causa, que nos permite uma compreensão do mundo que nos rodeia. É claro que este tipo de arquitectura faz suspeitar de um "desenho inteligente", a compasso da noção de um arquitecto divino. Ora, isso não acrescenta informação, apenas transfere o problema, porque essa mesma noção levanta outros problemas lógicos. Há uma outra resposta, que é parecida com o "porque sim", mas tem implícita uma informação muito maior - "é assim, porque não poderia ser doutra forma". E para se perceber um pouco dessa informação subjacente, volto à imagem de Scila e Caribdis... se não houvesse nenhum nexo, nada seria inteligível, e se o nexo fosse facilmente prescrutável, não seria necessária nenhuma inteligência complexa, porque a complexidade nem sequer existiria. Isto é mais ou menos óbvio, muita gente intui este "ter que ser assim", e ainda que seja entendido não é assumido, nem é reconfortante.
Há uma pretensão subjacente de compreensão absoluta, esquecendo a questão do aprofundamento no remoinho de Caribdis - caso tudo fosse explicado, entendido e corrigido, o que nos motivaria para o dia seguinte?

Também por constatação - algo muito científico - verificamos que as coisas ocorreram de uma maneira e não de outra. Isso levou à noção de determinismo, associada indelevelmente à noção de "destino". Talvez por receio de conotação religiosa, e para evitar a desresponsabilização humana, essa noção caiu em desuso no início do Séc. XX. A modelação humana iria ganhar supremacia face ao desenrolar do universo... ridículo, mas tido como "científico". As coisas eram colocadas desta forma: "a moeda tanto pode cair em cara ou coroa", uma constatação de modelação da possibilidade que escondia a impossibilidade de se saber se iria ser uma coisa ou outra. Não é errado pensar em probabilidades, mas é de um absurdo e arrogância considerar que a nossa incompreensão é que modela o universo. E, no entanto, hoje quase ninguém se atreve a dizer o contrário. Porque dizer o contrário é também assumir a impossibilidade do livre-arbítrio, e há que responsabilizar escolhas...
A noção de decisão surge da modelação interna que fazemos do que nos rodeia. O nosso modelo é obviamente impreciso, e por isso não conseguimos antecipar o resultado. Aliás se isso fosse possível, significaria que nos identificaríamos com o universo, e não haveria surpresas, nem tão pouco razão de ser. Ora, como a nossa modelação é imprecisa, pensamos em cenários, em diferentes possibilidades, e daí surge o conceito de que temos escolhas, e de que uma acção diferente levaria a outro resultado. Temos as mãos atadas ao volante, e seguimos o destino nos carris, sem distinguir se é o volante que vira por acção das nossas mãos, ou se são as nossas mãos que viram por acção do volante que segue os carris... e pensamos que poderíamos ter virado atrás noutra direcção, ou que teremos poder de decisão na próxima curva. Aí não seremos enganados, já vemos os carris, e viramos noutra direcção... seguindo os carris, porque os que víamos eram afinal parte do cenário onde contemplamos as diversas possibilidades.

O aumento da nossa compreensão não reduz necessariamente a nossa incompreensão, porque novos problemas se colocam. A melhor compreensão permite apenas que estejamos "mais sintonizados" com o que nos rodeia. A fabricação de logros, enganos, armadilhas, não é nenhuma evolução especial, e pode ser encontrada como forma de sobrevivência ou defesa em muitos animais, não é propriamente uma invenção da inteligência humana... e se há novidade é em ser usado contra a própria espécie. Aliás, se há espécie empenhada em eliminar os seus próprios elementos, é a humana...
O jogo entre a percepção interna e a realidade externa foi estabelecido há muito na "natureza", e tem um sucesso limitado. Em última análise, serve para caçar alguns, durante algum tempo, até que se torne quase irrelevante pela sua previsibilidade, dada a melhoria de percepção dos sobreviventes, ou pela competição interna que anula os predadores.
No jogo entre a fabricação de realidades e a percepção desse fabrico, uns procuram distorcer a percepção, e os outros apuram a compreensão e identificação das distorções. Uns afastam-se da realidade procurando criar um mundo à sua medida, os outros vão, por força das circunstâncias, apurar a sua percepção para a distinção entre realidade e fabricações.

No limite, uns pretendem uma manipulação artística do universo, transformando-o num teatro dos seus modelos, e para isso vão parasitando tudo, inclusivé as descobertas alheias, dos que abnegadamente vão aumentando a percepção científica. A essoutros, resta a convicção profunda, ou fé, de que o universo não se poderá reduzir a uma manipulação teatral. Uns acreditam que o fabrico de uns tantos artífices terá engenho suficiente para submeter tudo e todos, outros acharão que essa pretensão megalómana é "ligeiramente" excessiva... dado o universo em questão. 

Porém, convirá perceber que se devemos diminuir o drama das hostilidades, algumas dificuldades, adversidades, não podem deixar de existir, sob pena de estagnação... afinal, "viver feliz para sempre" é apenas uma frase aplicável a vegetais, desprovidos de sistema nervoso.

The Cure - "Where the birds always sing" (*) 

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publicado às 11:01


A viagem ao Brasil em 1498

por desvela, em 04.06.12
Ao fim de muito tempo, vi ontem, pela primeira vez em televisão, alguém referir-se à descoberta do Brasil em 1498 por Duarte Pacheco Pereira. Quem o fez foi Miguel Sousa Tavares, respondendo à pergunta final num programa da SIC-Notícias, chamado "Conversas Improváveis".

O incidente é isolado e nada tem de especial, para além de ir completamente contra a versão oficial, que atribui o relato de descoberta à viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500.
A tese deveria ser largamente conhecida desde a publicação do Esmeraldo de Situ Orbis em 1892, por Raphael Basto, conservador da Torre do Tombo. Mais conhecida ainda quando Jorge Couto em 1995 sustentou a tese dessa descoberta anterior, com documentação adicional. Jorge Couto é uma figura reconhecida, tendo sido presidente do Instituto Camões e director da Biblioteca Nacional (2005-2011).
No entanto, apesar disso, que eu saiba, a tese de 1500 nunca foi beliscada em comunicações públicas, para uma larga plateia, por exemplo em televisão. Assim, a demonstração por Jorge Couto da viagem de Duarte Pacheco Pereira, em 1498, passa ao lado do folclore oficial, e de todo o comentário ou discussão, ao longo dos últimos 20 anos. Nada de estranhar, pois já teria passado ao lado da discussão do grande público durante todo o Séc. XX. Afinal, passam já 120 anos desde a publicação por Raphael Basto, que confrontou dois exemplares do Esmeraldo de Situ Orbis. Os exemplares estavam incompletos, sem nenhum dos 16 mapas (vistos na biblioteca dos Marqueses de Abrantes), e aparentemente em Setembro de 1844, para além da lei sobre funerais que originou depois a Revolta da Maria da Fonte, também houve uma portaria que retirou o livro da Biblioteca de Évora.
O detalhe da descoberta do Brasil em 1498, inscrito no livro, não passou obviamente despercebido, pois é referido pelo próprio inspector em 1891, na primeira página.

A afirmação que Duarte Pacheco Pereira dirige a D. Manuel é esta:
(...) alem do que dito é, a experiência que é madre das coisas nos desengana & de toda duvida nos tira & portanto bem aventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro ano de vosso Reinado do ano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte ocidental passando alem a grandeza do mar oceano onde é achada & navegada uma tão grande terra firme com muitas & grandes ilhas adjacentes a ela que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo artico  & posto que seja assaz fora é grandemente pauorada, & do mesmo circulo equinocial toma outra vez & vai além em vinte & oito graus & meio de ladeza contra o polo antartico (...)

Fica completamente claro que Duarte Pacheco Pereira ao referir-se a uma extensão de terra firme que vai da latitude 70ºN (Gronelândia, Norte do Canadá) a 28ºS (Rio Grande do Sul, Brasil), dá logo no ano de 1506 uma informação demasiado detalhada sobre o que se conhecia da América. Aliás, dá informações precisas sobre a parte da América que estaria destinada dentro do Hemisfério português, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Isto praticamente mostra que o conhecimento do continente americano era completo, antes mesmo do nome América ter sido associado a Alberico Vespúcio. Dizer que 1498 é a data da primeira viagem ao Brasil apenas peca por ser tão escasso quanto tudo o que esconde essa afirmação e que Duarte Pacheco Pereira revela.

Quando falei do Esmeraldo de Situ Orbis, em 17 de Dezembro de 2009, no Knol da Google, escrevi o seguinte:

Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!
Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Nessa altura procurei ligar a descrição da Costa de África à descrição da Costa Americana
Paralelismo África-América (Tese de Alvor-Silves, Dezembro 2009)

Vim na altura a saber (pelo José Manuel-CH) que a Duquesa de Medina-Sidonia, Luisa Alvarez de Toledo tinha argumentado no mesmo sentido no livro Africa versus America.

Provavelmente, caso fosse hoje, nem teria escrito nada acerca desse paralelismo... simplesmente porque é difícil sustentar a tese baseando-nos apenas na leitura de textos antigos, já que facilmente se poderá contra-argumentar que se tratam de coincidências interpretativas, sem usar outras provas.
Se usei aqui muitas interpretações, e fui avançando com diversas possibilidades, elas foram sendo sustentadas cada vez mais em citações literais, e factos documentais. Inicialmente não fazia ideia de que existisse tanta matéria "escondida com o rabo de fora", e por isso ainda procurava estabelecer relações fugazes, que pouco a pouco deixaram de ser fugazes... 

Quebrada a confiança com o conhecimento oficial, aquilo que escrevi sofre de toda a incerteza sobre as fontes e sobre a interpretação que fazemos delas. As diversas hipóteses que fui escrevendo resultam de tentativas parciais de encontrar nexo lógico, sem desacreditar tudo o que nos foi transmitido. O formato de blog tem a vantagem de não pretender ser mais do que uma interpretação escrita naquela data, em face da conjugação dos diversos dados acumulados, procurando focar mais no nexo lógico global do que no detalhes contraditórios.
Afinal, o que podemos saber resulta apenas do que nos é dado a saber... nada mais do que isso.
A maioria dos textos a que temos acesso é posterior à Idade Média, e muito tempo terá havido para definir o conhecimento que se divulgaria e o que iria ser ocultado. O povo nasce órfão de informação antiga... mal conhecemos os nomes dos trisavós, e poucas famílias passaram no seu seio histórias anteriores ao Séc. XIX. A partir daí fica só a confiança na cultura comum aprendida na escola formadora de mentes... Mesmo sobre monumentos/livros, devemos contar com reconstruções/ reedições, com a boa-fé dos criadores/autores, etc.
Quebrada a confiança, a grande certeza é a incerteza... e se dela não se livra o povo, órfão de antigos legados familiares, também não estarão muito mais seguros os depositários de conhecimento mais antigo. Afinal, têm que contar que a informação nunca foi alterada, coisa algo difícil de assumir mesmo em casas reais europeias, cujo legado teve múltiplas oscilações, e dificilmente chega ao Séc. X d.C. Indo mais longe, o registo perde-se nos legados religiosos. 
De qualquer forma, esquecendo o encobrimento nas descobertas arqueológicas, não há aparentemente um registo fiável para além das civilizações egípcias ou mesopotâmicas... como se os nossos anteriores antepassados nada nos tivessem querido deixar de importante. 
E, no entanto, em todos os povos parece ter havido a necessidade de transmitir um legado, não tanto uma história factual, mas antes uma tradição cultural religiosa, cujo significado primeiro se perdeu. A excepção parece ser a tradição hebraica, já que o Velho Testamento engloba também uma história do povo.
Vemos assim que o conhecimento que foi passando, não apagado entre gerações, foi uma mensagem religiosa autorizada. As histórias de heróis deveriam ser igualmente populares, mas retirando personagens divinos, poucas ficaram nos mitos, e talvez Hércules seja a excepção humana.
As novas gerações nasciam com conhecimento restrito, com pouco mais do que recebiam dos pais,  quase ignorando os avós. Quando isso acontece a evolução é normalmente pequena, e os jovens arriscam a fazer apenas uma repetição do percurso dos progenitores, sem acumular inovação no conhecimento. Isso seria tanto mais efectivo quanto as imposições religiosas visassem condicionar o progresso do conhecimento. A motivação poderia ser simplesmente manter o maior conhecimento na pequena elite reinante, para facilitar o controlo. No entanto, essa estagnação cultural funciona localmente, permite manter uma elite tribal, pelas condicionantes e proibições, mas não aguenta o embate com outra civilização em que o progresso de conhecimento seja mais valorizado e generalizado. Basta ver que em pouco mais de 200 anos de difusão de conhecimento, passámos de carruagens para aviões e foguetões....
Na tentativa de preservar a ordem, mantendo a habitual distância entre o conhecimento da elite e o conhecimento popular, compromete-se o progresso e a sociedade cairá no vício de estagnação, alimentado por sucessivas imposições e proibições, tal como nas primitivas sociedades tribais condicionadas pela religiosidade e tradição cultural fechada.

No santuário de Delfos haveria a inscrição "conhece-te a ti mesmo"... e sem dúvida que esse é o primeiro passo do homem, mas depois deve ser aplicado aos homens em conjunto, na sua unidade de conhecimento. 
Enquanto não percebermos o que fomos, o que nos condicionou e condiciona, dificilmente podemos definir o que devemos ser, funcionando como uma hidra insana... com múltiplas cabeças não coordenadas, competindo pelo controlo do mesmo corpo.
Temos até um exemplo interno... se os nossos hemisférios cerebrais direito e esquerdo funcionassem isoladamente e competitivamente, desconfiando um do outro, mentindo um ao outro... alguma vez teríamos tido sucesso enquanto organismo?

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