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Caricaturas revolucionárias

por desvela, em 07.05.12
As questões que se levantam à época da Revolução Francesa, estão bem retratadas nalgumas caricaturas de Gillray.
Liberdade Francesa (vs) Escravidão Inglesa (1792)

A caricatura é 1792, passados 3 anos e meio sobre a "tomada da Bastilha", e para além da clareza do desenho, os balões dos personagens dizem o seguinte...
French Liberty: O Sacre Dieu! _vat blessing be de Liberté. Vive Le Assemblè Nationale! _ no more Tax! _ no more Slavery!_ all Free Citizen! _ ha hah! _by Gar, how we live!_ve swim in the Milk & Honey.
British Slavery: Ah! this cursed Ministry! they'll ruin us with their damn'd Taxes!_ why, Lounds! they're making Slaves of us all, & Starving us to Death.

Gillray não é propriamente um vassalo passivo, como já tivemos oportunidade de mostrar com outras caricaturas (sobre Napoleão ou sobre Cook), mas coloca-se claramente do lado conservador. Ficava claro para os Tories que o caminho da "liberdade francesa" tinha levado a uma regressão, a uma pobreza apenas alimentada por uma ilusão de liberdade. Ao contrário, os ingleses queixavam-se dos impostos, mas de barriga cheia...
A afiliação política aos Tories, mesmo anti-Whig, fica ainda mais clara na caricatura seguinte:

Devil: nice Apple Johnny! _ nice Apple.
John Bull: Very nice Napple!_ but my Pokes are full of Pippins from the other Tree: & besides I hates Medlars they're so domn'd rotten that I'se afraid they'll gee me the Guts-ach for all their vine looks!

Em primeiro plano, na árvore da "Liberté", com o barrete frígio da Revolução Francesa, a serpente representando o Diabo oferece uma maçã de "Reforma", que o "zé povinho" inglês recusa dizendo ao invés tratar-se duma nespera europeia (associada a prostituição). Esta árvore reflectiria um requisito de reforma exigido pelos Whigs, que aparecem como fruto nesta árvore.
Mais atrás, a árvore de onde o personagem obteve as "maçãs verdadeiras"... a árvore dos Tories, com  raízes nos Comuns, Rei e Lordes, troncos na Justiça subdivididos em Leis e Religião, com maçãs de liberdade e segurança(?). 
Na árvore da frente, as raízes são a inveja, ambição e desapontamento, levando a um tronco de oposição, subdividido no tronco dos "direitos do homem" (de onde saem as maçãs do Clube Whig, da "Liberté", da conspiração, revolução, pilhagem, democracia, assassínio, traição, escravatura) e no tronco da "extravagância imoral" (com maçãs da idade da razão, deísmo, impiedade, blasfémia, ateísmo).
A Inglaterra conhecera a Revolução de Cromwell, e o sistema aceite depois por Charles II tinha permitido uma estável Monarquia Parlamentar (que ainda hoje se mantém...), e ainda recordaria os excessos vividos na República de Cromwell, no século anterior. A divisão parlamentar Tories-Whigs debatia estas duas visões. 
É curioso que ainda hoje os ingleses ironizam dizendo que a Inglaterra tem uma Monarquia Parlamentar, enquanto a França mantém uma República Monárquica (devido aos excessivos poderes presidenciais).

Convirá notar que o período da Revolução Francesa permitirá por contágio na Inglaterra uma liberdade suplementar, quase um "Dumping", que iludirá um pouco a situação que se irá seguir. A Inglaterra de Gillray não terá muito a ver com a que irá ser objecto da ilustração de Charles Dickens, já que a Revolução Industrial acabará por trazer uma exploração humana, e este tipo de abertura de ideias ficará encerrado. Será depois o tempo em que Lewis Carrol falará através de Alice sobre os "Telescópios que se fecham"!

Convenção ou subvenção?
Porém podemos ver como alguma liberdade crítica era ainda publicada, como neste cartoon de Woodward, de 1809, sobre a Convenção de Sintra... em que há um acordo entre Ingleses e Franceses sobre o destino a dar ao tesouro português:
George Woodward, Convention of Cintra, 1809

- This is the City of Lisbon
- This is the Gold, that lay in the City of Lisbon
- These are the French who took the Gold that lay in the City of Lisbon
- This is Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) who beat the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.
- This is the Convention that Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon 
- These are the Ships that carried the spoil, that the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon
- This is John Bull, in great dismay, at the sight of the Ships which carried away the gold and silver and all the spoil, the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.

Há vários pormenores interessantes... começando pelo formato do cartoon que é até moderno na sequência conforme organiza a banda desenhada! Estamos em 1809... e não no Séc. XX.
Depois, a forma irónica de contar a história tem um ritmo repetitivo bastante jocoso!
Finalmente, la pièce de resistance... apesar da vitória dos ingleses (e portugueses!!), Junot pode sair incólume, e retirava-se mesmo com o saque, transportado pelos navios ingleses!... e os portugueses nada tiveram a dizer sobre o assunto? - Estranho? - Amigos de Peniche, agora em Sintra?
Qual seria a vantagem dos ingleses em tanta delicadeza, fornecendo ouro ao inimigo?
Repare-se na cadeira onde se senta John Bull... nas listas alvas e encarnadas:
- fazem lembrar a bandeira dos Estados Unidos da América?
- ou fazem lembrar a bandeira da Companhia Britânica da Índias Orientiais?
- ... ou fazem lembrar ambas?

Conforme já aqui referido, havia um projecto comum das Companhias das Índias Orientais, que incluía o desenvolvimento dos Estados Unidos da América. Por isso, é natural que o ouro português não tivesse financiado a "Revolução Francesa", mas sim a "Revolução Americana". Através das suas influentes lojas maçónicas, os três países concordariam com esse destino... que no fundo apenas comprometia os fundos reais portugueses, duma corte instalada no Brasil.

Apesar da derrota francesa no curso das Guerras Peninsulares, o espólio português pilhado não regressou, e também nunca se viu um grande rasto em França! Durante todo o Séc. XIX, Portugal e Espanha ficariam permanentemente endividados, ao passo que a França renascia da guerra em poucos anos, recuperando o seu desenvolvimento, a níveis que tornavam a imagem de miséria de Gillray uma ilusão do passado, e talvez depois mais apropriada aos povos ibéricos, aliados dos britânicos. Isso levou a revoltas populares, como a da Maria da Fonte, que trouxe de novo tropas francesas a território ibérico... mas agora ao abrigo de Quádrupla Aliança, em que Inglaterra e França eram aliadas para cuidar da permanência do regime de endividamento das nações ibéricas, e evitar qualquer ressurgimento nacionalista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:10


Caricaturas revolucionárias

por desvela, em 07.05.12
As questões que se levantam à época da Revolução Francesa, estão bem retratadas nalgumas caricaturas de Gillray.
Liberdade Francesa (vs) Escravidão Inglesa (1792)

A caricatura é 1792, passados 3 anos e meio sobre a "tomada da Bastilha", e para além da clareza do desenho, os balões dos personagens dizem o seguinte...
French Liberty: O Sacre Dieu! _vat blessing be de Liberté. Vive Le Assemblè Nationale! _ no more Tax! _ no more Slavery!_ all Free Citizen! _ ha hah! _by Gar, how we live!_ve swim in the Milk & Honey.
British Slavery: Ah! this cursed Ministry! they'll ruin us with their damn'd Taxes!_ why, Lounds! they're making Slaves of us all, & Starving us to Death.

Gillray não é propriamente um vassalo passivo, como já tivemos oportunidade de mostrar com outras caricaturas (sobre Napoleão ou sobre Cook), mas coloca-se claramente do lado conservador. Ficava claro para os Tories que o caminho da "liberdade francesa" tinha levado a uma regressão, a uma pobreza apenas alimentada por uma ilusão de liberdade. Ao contrário, os ingleses queixavam-se dos impostos, mas de barriga cheia...
A afiliação política aos Tories, mesmo anti-Whig, fica ainda mais clara na caricatura seguinte:

Devil: nice Apple Johnny! _ nice Apple.
John Bull: Very nice Napple!_ but my Pokes are full of Pippins from the other Tree: & besides I hates Medlars they're so domn'd rotten that I'se afraid they'll gee me the Guts-ach for all their vine looks!

Em primeiro plano, na árvore da "Liberté", com o barrete frígio da Revolução Francesa, a serpente representando o Diabo oferece uma maçã de "Reforma", que o "zé povinho" inglês recusa dizendo ao invés tratar-se duma nespera europeia (associada a prostituição). Esta árvore reflectiria um requisito de reforma exigido pelos Whigs, que aparecem como fruto nesta árvore.
Mais atrás, a árvore de onde o personagem obteve as "maçãs verdadeiras"... a árvore dos Tories, com  raízes nos Comuns, Rei e Lordes, troncos na Justiça subdivididos em Leis e Religião, com maçãs de liberdade e segurança(?). 
Na árvore da frente, as raízes são a inveja, ambição e desapontamento, levando a um tronco de oposição, subdividido no tronco dos "direitos do homem" (de onde saem as maçãs do Clube Whig, da "Liberté", da conspiração, revolução, pilhagem, democracia, assassínio, traição, escravatura) e no tronco da "extravagância imoral" (com maçãs da idade da razão, deísmo, impiedade, blasfémia, ateísmo).
A Inglaterra conhecera a Revolução de Cromwell, e o sistema aceite depois por Charles II tinha permitido uma estável Monarquia Parlamentar (que ainda hoje se mantém...), e ainda recordaria os excessos vividos na República de Cromwell, no século anterior. A divisão parlamentar Tories-Whigs debatia estas duas visões. 
É curioso que ainda hoje os ingleses ironizam dizendo que a Inglaterra tem uma Monarquia Parlamentar, enquanto a França mantém uma República Monárquica (devido aos excessivos poderes presidenciais).

Convirá notar que o período da Revolução Francesa permitirá por contágio na Inglaterra uma liberdade suplementar, quase um "Dumping", que iludirá um pouco a situação que se irá seguir. A Inglaterra de Gillray não terá muito a ver com a que irá ser objecto da ilustração de Charles Dickens, já que a Revolução Industrial acabará por trazer uma exploração humana, e este tipo de abertura de ideias ficará encerrado. Será depois o tempo em que Lewis Carrol falará através de Alice sobre os "Telescópios que se fecham"!

Convenção ou subvenção?
Porém podemos ver como alguma liberdade crítica era ainda publicada, como neste cartoon de Woodward, de 1809, sobre a Convenção de Sintra... em que há um acordo entre Ingleses e Franceses sobre o destino a dar ao tesouro português:
George Woodward, Convention of Cintra, 1809

- This is the City of Lisbon
- This is the Gold, that lay in the City of Lisbon
- These are the French who took the Gold that lay in the City of Lisbon
- This is Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) who beat the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.
- This is the Convention that Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon 
- These are the Ships that carried the spoil, that the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon
- This is John Bull, in great dismay, at the sight of the Ships which carried away the gold and silver and all the spoil, the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.

Há vários pormenores interessantes... começando pelo formato do cartoon que é até moderno na sequência conforme organiza a banda desenhada! Estamos em 1809... e não no Séc. XX.
Depois, a forma irónica de contar a história tem um ritmo repetitivo bastante jocoso!
Finalmente, la pièce de resistance... apesar da vitória dos ingleses (e portugueses!!), Junot pode sair incólume, e retirava-se mesmo com o saque, transportado pelos navios ingleses!... e os portugueses nada tiveram a dizer sobre o assunto? - Estranho? - Amigos de Peniche, agora em Sintra?
Qual seria a vantagem dos ingleses em tanta delicadeza, fornecendo ouro ao inimigo?
Repare-se na cadeira onde se senta John Bull... nas listas alvas e encarnadas:
- fazem lembrar a bandeira dos Estados Unidos da América?
- ou fazem lembrar a bandeira da Companhia Britânica da Índias Orientiais?
- ... ou fazem lembrar ambas?

Conforme já aqui referido, havia um projecto comum das Companhias das Índias Orientais, que incluía o desenvolvimento dos Estados Unidos da América. Por isso, é natural que o ouro português não tivesse financiado a "Revolução Francesa", mas sim a "Revolução Americana". Através das suas influentes lojas maçónicas, os três países concordariam com esse destino... que no fundo apenas comprometia os fundos reais portugueses, duma corte instalada no Brasil.

Apesar da derrota francesa no curso das Guerras Peninsulares, o espólio português pilhado não regressou, e também nunca se viu um grande rasto em França! Durante todo o Séc. XIX, Portugal e Espanha ficariam permanentemente endividados, ao passo que a França renascia da guerra em poucos anos, recuperando o seu desenvolvimento, a níveis que tornavam a imagem de miséria de Gillray uma ilusão do passado, e talvez depois mais apropriada aos povos ibéricos, aliados dos britânicos. Isso levou a revoltas populares, como a da Maria da Fonte, que trouxe de novo tropas francesas a território ibérico... mas agora ao abrigo de Quádrupla Aliança, em que Inglaterra e França eram aliadas para cuidar da permanência do regime de endividamento das nações ibéricas, e evitar qualquer ressurgimento nacionalista.

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publicado às 00:10


Abalos de Sebastião - Marquês

por desvela, em 30.10.11
Se há méritos na actuação do Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José, eles não são muito fáceis de encontrar, ao contrário do que se institucionalizou na propaganda, formada durante os séculos seguintes, que o tornou numa figura central da História Portuguesa. 

Sebastião (de Carvalho e Melo) combateu o Sebastianismo, tornando-se numa espécie de último Sebastião, visto como último protagonista do papel de "regente esclarecido".

Se este último Sebastião pretendeu combater o sebastianismo, é bom notar que antes desses dois "Sebastiões", houve um terceiro Sebastião português... no Séc. V. 

Sebastião - general romano
Em 427 d.C. quando o Império Romano se fragmentava e a Hispania começava  a ser "concessionada" aos godos, há um general romano, de nome Sebastião que organiza os Lusitanos, derrotando uma coligação de Alanos e Suevos, ao ponto de conquistar Lisboa!
De acordo com Pinho Leal, esse general Sebastião decide então aclamar-se rei, contra a "vontade popular", e é assassinado... qual César. Pouco depois, os Alanos e Suevos reconquistavam Lisboa! 

Esta história, pouco ou nada conhecida (... e sobre isto agradeço mais informação!), talvez complemente o motivo do singular nome de Sebastião dado ao Rei Desejado. 
A posteriori parece infelizmente adequada a conexão a São Sebastião, o santo - cristão infiltrado que chega a capitão da Guarda Pretoriana, mas que é executado ao ser descoberto. Também D. Sebastião sendo capitão da Cristandade, poderá ter sido executado ao lutar no sentido de restaurar a verdade histórica.

(reconstituição da condenação de "falso" D. Sebastião)


A Fama do Sebastião - Marquês de Pombal
Houve vários factores que concorreram para esta fama do Marquês.
1º) A eliminação da Casa de Aveiro tornou-o personagem agradável à Casa de Bragança, que deixou de ter fantasmas a assombrarem a legitimidade da sua linha de sucessão definida na Restauração.
2º ) A sua ligação à maçonaria granjeou-lhe um clube de fãs que se propagaram na história, nas artes e ciências, nunca atacando o lado ditatorial e tirano. A maçonaria estava então particularmente activa, participando na criação dos EUA e na Revolução Francesa.
3º) Reabilitando os descendentes dos cristãos-novos, colocando-os a par dos outros cidadãos, terá sido uma medida positiva, certamente apreciada no contexto de influência judaica.
4º) Mesmo o lado jesuíta, ligado a Roma, tendo sido fortemente perseguido pelas repressões do Marquês, acabou por aceitar o personagem. Isto não deixa de ser algo estranho, e talvez diga mais sobre a evolução dessa organização católica, do que propriamente sobre o Marquês.
5º) Salazar viu no Marquês um exemplo de "despotismo iluminado", que adoptou como referência reformista para a ditadura do seu "estado novo". Estratégia inteligente, indo captar um herói caro à 1ª República, pelo lado maçónico, ditos combatentes encarniçados da influência da Igreja de Roma. Salazar, ao colocar o Marquês no mais alto pedestal de Lisboa - na Rotunda, coloca o símbolo maçónico no alto, perante o silêncio de uma Igreja rendida, que via em Salazar a sua maior esperança contra o anticlericalismo maçónico.

Assim, de forma algo singular, o Marquês apareceu como figura consensual entre lados opostos!
Os registos críticos que apareceram sobre a actuação do Marquês foram quase sempre tímidos e algo silenciados. 
A nova censura - o politicamente correcto, impede pôr em causa a obra do Marquês em Lisboa, após o Terramoto, ou na reestruturação administrativa ou da universidade, admitindo a crítica sobre a chacina dos Távoras. Os adeptos do Marquês tentam usar a semelhança com as execuções ordenadas por D. João II... sendo óbvio que a comparação é algo absurda. A execução dos Távoras teria melhor paralelo nos métodos da Antiga Roma, ao estender-se a toda a família.

Os agentes do encobrimento histórico parecem apreciar tornar vilões em heróis, e denominar como fracos os regentes mais lúcidos. Dessa forma ignoram os mais sensatos e elogiam os mais cruéis...  ficando assim mais próximos, pelos defeitos, daqueles que colocaram no panteão que inventaram. 

Assim, a maioria dos erros foram passados ao antecessor, D. João V, quiçá o melhor governante da dinastia de Bragança... já que ameaçava colocar Portugal de novo no caminho de potência mundial.
D. João V é criticado por trazer ouro do Brasil... esquecendo que essas remessas pararam pelo total desinteresse do Marquês no Brasil.
Ao Marquês elogia-se a pretensa obra nacional, omitindo o desastre que foi a sua condução do império... foi aliás durante essa pretensa "regência brilhante" que se serviu a Sandwich Havaiana e Australiana aos ingleses.
Se há mérito nalguma actuação será coisa de bastidores... e apenas se justificaria se a ruína nacional fosse necessária para algum bem maior!

Os sucessos de um rei, levam a uma absorção e a um descuido com a sucessão. Era assim habitual um investimento no príncipe seguinte, por aqueles que eram preteridos pelo rei.
Quando D. João V morre, é a rainha (austríaca, Habsburgo) Maria Ana Josefa que vai indicar Sebastião de Carvalho e Melo ao seu filho, D. José.
Este diplomata, antes embaixador na Inglaterra e depois na Áustria, e que D. João V acabara de demitir, aparece num lugar de destaque arranjado pela Rainha Maria Ana de Áustria, que o irá proteger (casando mesmo com uma austríaca). As ligações à maçonaria, essas parecem ocorrer aquando da embaixada em Londres... onde certamente terá privado com cozinheiros e sanduíches.

Porém, atrevemos também a sugerir um plano de longo curso, que estava já a ser testado pelos hábeis Habsburgos. De facto, uma maneira de controlar uma sociedade maçónica, em crescimento acentuado de poder, seria usar essa avidez de poder a serviço da aristocracia implantada. 
D. José I passa assim como figura despercebida, desfrutando das delícias da corte, longe dos assuntos de estado, encarregues a Sebastião de Melo... mas influenciando decisivamente as decisões mais controversas - como a execução dos Távoras. Em troca desses serviços, o Sebastião passa a Conde de Oeiras e depois a Marquês de Pombal. A aristocracia usaria o prestígio como moeda de troca na governação, e poderia descansar... mas a Revolução Francesa alterou um pouco estas contas.

Este plano aristocrata de longo curso seria inteligente... abdicavam das tarefas pesadas de governação, e passavam a desfrutar das vantagens do Reino. As quebras de popularidade passavam para os ministros, que tinham aparente carta-branca, mas que estavam condicionados.
Os Habsburgos austríacos, com Metternich, preferiam a via absolutista, que viam como única solução face à experiência caótica da Revolução Francesa de 1789. Os ingleses, que já tinham uma experiência revolucionária bem anterior, com Cromwell ao invés de Napoleão, preconizavam uma filosofia ainda mais inteligente - a Monarquia Liberal.

A Monarquia Liberal, tornou-se a forma comum de governo nos Séc. XIX e XX, especialmente após as Revoluções de 1848, e ainda hoje perdura na Europa. A legitimidade do Rei não era afectada, mas o governo passava a ser opção por eleição. No fundo a responsabilidade da governação visível passava para o próprio povo, por resultado de uma pretensa eleição, mas estes governantes estavam depois condicionados a todo o jogo que se passava nos bastidores, nas armadilhas cortesãs.
A população era co-responsabilizada nos erros governativos dos ambiciosos líderes que elegia, e a cabeça coroada passava incólume pelos pingos da chuva.

A experiência mais decisiva ocorreria com as Repúblicas... mesmo com a destituição do Rei e das Cortes, os poderes instituídos seriam corrompidos pelas ligações ancestrais das famílias, e na prática esses elementos aristocratas voltavam a concentrar o poder sob forma camuflada. 
Aparentemente partilhavam o poder com uma nova parte da população burguesa, que subia nos degraus do poder, mas esses novos protagonistas eram seduzíveis a honrarias e festas, e poderiam ser manipulados em jogos cortesãos, onde a aristocracia reinava sem concorrência.
Talvez a última experiência, destinada a erradicar essa submersa influência aristocrática nas Repúblicas, terá sido tentada na Revolução Russa de 1917. No entanto, é fácil perceber como os jogos de bastidores assumiam, mesmo assim, contornos tenebrosos... a luta de poder na antiga URSS acabou por substituir um sistema oligárquico por outro - em que a aristocracia passou a ser o "partido único". 
Essa experiência russa foi fechada, expondo fantasmas semelhantes aos fantasmas do Reino de Terror, que se seguiu à Revolução Francesa. Os escritores da História decidiam assim fechar definitivamente a hipótese comunista, usando dos habituais reflexos pavlovianos - a palavra comunista ganharia um tom pejorativo automático.


Abalos Lisboetas antes de 1755
Voltamos a Sebastião, Marquês de Pombal, e aos sentidos abalos!
Um dos méritos propagandeados ao Marquês é a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755.
Isto é colocado como se Lisboa não tivesse passado antes por dezenas de terramotos severos.

Em 26 de Janeiro de 1531 estima-se que tenham morrido 30 mil pessoas em Lisboa, número até maior ao avançado para o de 1755. 
Também nessa altura foi feito um bairro com estrutura quadricular que sobreviveu - o Bairro Alto (ver p.ex. aqui). Assim, a proclamada "quadrícula inovadora" nas ruas da baixa lisboeta, pensada pelo Marquês, já tinha tido um precedente com 250 anos, durante o reinado de D. João III.

Vejamos então um registo de sismos em Lisboa (usamos os adjectivos de Pinho Leal):
1009 - grande terramoto que destroi "mais ou menos" Lisboa.
1117 - idem
1146 - ibidem
1290 - fortíssimo terramoto aluíram muitas casas de Lisboa.
1344 - idem
1531 - espantoso terramoto que dura 50 dias! Arruinados alguns templos e 1500 casas cairam. 
1551 - terramoto medonho destruiu 200 casas em Lisboa
1575 - violento terramoto sem vítimas
1598 - violento terramoto sem vítimas
1699 - violento tremor de terra de 3 dias com alguns intervalos 
1724 - fortíssimo tremor de terra, não causou desgraças 


O abalo sísmico de 1531, tendo até levado à construção do Bairro "Alto", parece ter um registo histórico mais devastador que o de 1755...
Porém o abalo do Marquês teve várias componentes - especialmente posteriores.

Selecção Herculana
O terramoto do Marquês e assessores foi de tal forma potente que parece ter feito cair as Torres de Hércules em Cadiz (construção que tinha aguentado milénios de terramotos), apesar de ter poupado o Aqueduto das Águas Livres em Lisboa, ou o Convento de Mafra.
As ditas Torres de Hércules tiveram ainda uma queda diferente em Coimbra, onde a Torre Pentagonal tombou pela outra proeza pombalina - a universidade!
Não terá sido a Universidade de Évora, que Pombal decidiu fechar, nem o Observatório Astronómico, que apenas serviu de pretexto para a destruição da Torre de Hércules. O que Pombal fez foi importar génios... ou melhor arrumar o génio nacional na prateleira e contratar a subsidariedade, pela ideia de que um bom estrangeiro seria sempre melhor! Os textos de autores do Séc. XVIII que ironizam esse estado de coisas são particularmente interessantes para se perceber quando se começou a venerar a importação externa de valores, e a consolidar a dívida subjacente, transformando os valores nacionais em resignados, menosprezados, e desconsiderados subsidiários de uma inteligentia externa.

Como era Lisboa antes do Terramoto?
Apesar de serem pouco vistas imagens de Lisboa anteriores ao Terramoto de 1755, sobreviveram algumas bem ilustrativas, onde se percebe que a "grande reconstrução", ou a "grande alteração", é essencialmente manobra publicitária.
Pormenor da zona do Palácio do Rei,  onde depois do Terramoto será o Terreiro do Paço.
Estampa na Biblioteca Nacional de Maillet (impresso em Paris, 1760)


Estampa na Biblioteca Nacional de Clara Black (início Séc. XVIII)


Podemos ver em particular que o posterior Terreiro do Paço e os edifícios pouco mais são do que a adaptação do que já era o Palácio do Rei. Aliás, o que se notará mais é que a zona do Paço terá até perdido alguma qualidade estética, a avaliar pelas estampas. Se havia caos urbanístico na zona interna até ao Rossio, pois isso é algo que não se consegue avaliar nestas imagens, e não seria no Bairro Alto. Mas há outras que mostram pelo menos uma grande rua com clara vista do Tejo, e podem ainda ver-se edifícios com altura de 5 andares.

Em resumo, para além da duplicação dos torreões no Paço, não se vislumbra propriamente uma "grande" alteração face ao que era Lisboa antes do terramoto.

A destruição de Lisboa, não terminou no Terramoto, e em larga parte uma das maiores perdas resultou do incêndio, que também destruiu os Arquivos da Torre do Tombo. Estes acidentes, ditos fortuitos, têm a particular selectividade de destruir a memória histórica, de forma quase definitiva. Este caso, ou a Biblioteca de Alexandria, são alguns dos muitos exemplos ao longo dos séculos (e.g. Grande Incêndio de Londres, ao tempo da nossa Rainha Catarina)...

Quanto à contenção do desastre, conhece-se a forma brutal de repressão que se processou após o terramoto, causando mais vítimas do que o próprio acidente (isso é habitualmente ilustrado nesta imagem).

Processo dos Távoras - 1758
Ainda no rescaldo do acontecimento, e devido à sensação de "castigo divino", a insatisfação sobre a actuação do Marquês acentua-se, mas irá terminar de forma contundente.
Três anos depois do terramoto, dá-se o incidente da "tentativa de assassinato" do Rei, que resulta no chamado Processo dos Távoras, sendo implicados o Duque de Aveiro, o Conde da Atouguia e toda a família dos Távoras, entre outros.

Processo dos Távoras
Teatro da Execução (estampa na Bibl. Nac., anónima, c. 1759-60)

Já aqui falámos sobre a particularidade dos mortos envolvidos no processo serem das mesmas Casas que estiveram até à morte ao lado de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, e até de 1578 e 1758 terem os mesmos dígitos.
O que choca mais neste processo é a brutalidade envolvida nas execuções públicas. Talvez não fosse novidade, dado o tratamento de tortura e esquartejamento que Louis XV decidiu implementar a Robert Damiens em 1757... a novidade aqui foi a sua aplicação a uma casa aristocrata rival.
Convirá ler Pinho Leal sobre o Processo, num apontamento que tem sobre o sítio "Chão Salgado"... nunca é demais saber de que matéria são feitos os heróis que estão no pedestal mais alto da capital lisboeta.

Guerra Fantástica
Portugal participou na Guerra dos Sete Anos, ao lado da Inglaterra...
... e assim, ao contrário do que é habitualmente publicitado, os conflitos com Espanha não terminaram nas vitórias da Restauração. Houve a Guerra Fantástica.
A Espanha, aliada da França, entrou em Portugal, e ameaçou a invasão em 1762, durante a regência do Marquês... o exército português tinha sido reduzido desde 1754 a metade dos efectivos - manda dizer a publicidade instituída - que por culpa de D. João V - que apesar de este ter morrido em 1750, tinha costas largas para aguentar com esta culpa adicional, mesmo morto. Lê-se isto na wikipedia:


       "O Exército Português, abandonado desde a doença de D. João V, não tinha oficiais preparados para a guerra — fardamento, soldados e armas eram praticamente inexistentes."

Ainda que isso fosse verdade, será que a ausência de espírito crítico é tal que não se percebe que a doença de D. João V ocorreu em 1750... e que nos 12 anos seguintes as responsabilidades sobre o exército estariam a cargo de D. José e do ministro Pombal.

Há ilustrações dessas batalhas, que levaram a fortes derrotas das forças portuguesas.

"Guerra Fantástica"
O espanhol Conde de Aranda invade Portugal em 1762, durante a regência pombalina,
conquistando Salvaterra e ameaçando Lisboa. (**)

A solução pombalina recai mais uma vez na ajuda externa, pela organização militar do Conde de Lippe, aparentando quase que já não poderia ter sob controlo português um exército forte - aconteceu depois o mesmo com a ajuda de Wellington - as tropas portuguesas nunca parecem ter ousado responder sem haver direcção externa. De forma semelhante, mesmo a presença do Duque de Schomberg, durante a Guerra da Restauração nunca foi bem vista pelos nacionais (nomeadamente o Marquês de Marialva), e terá contribuído mais para a deposição de Afonso VI em favor de Pedro II, ou para colher os louros de da vitória portuguesa em Montes-Claros.

Esta "Guerra Fantástica" evidencia a acentuada degradação nacional após D. João V.
Dir-se-à uma decadência quase propositada, conduzida pelo Marquês de Pombal, e pelas forças infiltradas de traição nacional que continuam a promover a incompetência, de forma a suprimir qualquer renascimento organizado.
Foi essa a principal herança pombalina!

(**) ________________
Observação [18/05/2013]
Lê-se na legenda:
Vue perspective de la Bataille remportée par les Troupes Espagnoles et Françoises aux ordres de Mr. le Comte d'Aranda sur les Portugais aprés laquelle le Comte d'Aranda s'est emparé de la Place de Salvatierra ainsi que du Chateau de Segura sur le Tage ou il a laissé une partie de ses Troupes. Cette Ville a capitulé le seize Septembre 1762.
A figura induz em erro, pela extensão de água apresentada para o Tejo, pensando-se em Salvaterra de Magos. Porém, tratava-se da zona fronteiriça Salvaterra do Extremo e do Castelo de Segura, na proximidade de Idanha. 
Fica assim em dúvida a imaginação artística ao ponto de colocar navios numa parte montante do Tejo, que só faria sentido na zona do Mar da Palha, próxima da outra Salvaterra de Magos...
... a menos que consideremos alguma barragem na zona das Portas do Ródão, como falámos aqui:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/07/portas-do-rodao.html
... algo que dificilmente justificaria a navegabilidade de embarcações consideráveis, pelo que é mais natural admitir a confusão do artista na mistura de paisagens das duas Salvaterras...

Nota 19/03/2014:  
Correcção de todos os links para as imagens, devido a mudanças nos links da Biblioteca Nacional.

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publicado às 05:13


Abalos de Sebastião - Marquês

por desvela, em 29.10.11
Se há méritos na actuação do Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José, eles não são muito fáceis de encontrar, ao contrário do que se institucionalizou na propaganda, formada durante os séculos seguintes, que o tornou numa figura central da História Portuguesa. 

Sebastião (de Carvalho e Melo) combateu o Sebastianismo, tornando-se numa espécie de último Sebastião, visto como último protagonista do papel de "regente esclarecido".

Se este último Sebastião pretendeu combater o sebastianismo, é bom notar que antes desses dois "Sebastiões", houve um terceiro Sebastião português... no Séc. V. 

Sebastião - general romano
Em 427 d.C. quando o Império Romano se fragmentava e a Hispania começava  a ser "concessionada" aos godos, há um general romano, de nome Sebastião que organiza os Lusitanos, derrotando uma coligação de Alanos e Suevos, ao ponto de conquistar Lisboa!
De acordo com Pinho Leal, esse general Sebastião decide então aclamar-se rei, contra a "vontade popular", e é assassinado... qual César. Pouco depois, os Alanos e Suevos reconquistavam Lisboa! 

Esta história, pouco ou nada conhecida (... e sobre isto agradeço mais informação!), talvez complemente o motivo do singular nome de Sebastião dado ao Rei Desejado. 
A posteriori parece infelizmente adequada a conexão a São Sebastião, o santo - cristão infiltrado que chega a capitão da Guarda Pretoriana, mas que é executado ao ser descoberto. Também D. Sebastião sendo capitão da Cristandade, poderá ter sido executado ao lutar no sentido de restaurar a verdade histórica.
Morte del Re di Portogalli condanatta dall'Inquisizione l'anno 1628
(reconstituição da condenação de "falso" D. Sebastião)


A Fama do Sebastião - Marquês de Pombal
Houve vários factores que concorreram para esta fama do Marquês.
1º) A eliminação da Casa de Aveiro tornou-o personagem agradável à Casa de Bragança, que deixou de ter fantasmas a assombrarem a legitimidade da sua linha de sucessão definida na Restauração.
2º ) A sua ligação à maçonaria granjeou-lhe um clube de fãs que se propagaram na história, nas artes e ciências, nunca atacando o lado ditatorial e tirano. A maçonaria estava então particularmente activa, participando na criação dos EUA e na Revolução Francesa.
3º) Reabilitando os descendentes dos cristãos-novos, colocando-os a par dos outros cidadãos, terá sido uma medida positiva, certamente apreciada no contexto de influência judaica.
4º) Mesmo o lado jesuíta, ligado a Roma, tendo sido fortemente perseguido pelas repressões do Marquês, acabou por aceitar o personagem. Isto não deixa de ser algo estranho, e talvez diga mais sobre a evolução dessa organização católica, do que propriamente sobre o Marquês.
5º) Salazar viu no Marquês um exemplo de "despotismo iluminado", que adoptou como referência reformista para a ditadura do seu "estado novo". Estratégia inteligente, indo captar um herói caro à 1ª República, pelo lado maçónico, ditos combatentes encarniçados da influência da Igreja de Roma. Salazar, ao colocar o Marquês no mais alto pedestal de Lisboa - na Rotunda, coloca o símbolo maçónico no alto, perante o silêncio de uma Igreja rendida, que via em Salazar a sua maior esperança contra o anticlericalismo maçónico.

Assim, de forma algo singular, o Marquês apareceu como figura consensual entre lados opostos!
Os registos críticos que apareceram sobre a actuação do Marquês foram quase sempre tímidos e algo silenciados. 
A nova censura - o politicamente correcto, impede pôr em causa a obra do Marquês em Lisboa, após o Terramoto, ou na reestruturação administrativa ou da universidade, admitindo a crítica sobre a chacina dos Távoras. Os adeptos do Marquês tentam usar a semelhança com as execuções ordenadas por D. João II... sendo óbvio que a comparação é algo absurda. A execução dos Távoras teria melhor paralelo nos métodos da Antiga Roma, ao estender-se a toda a família.

Os agentes do encobrimento histórico parecem apreciar tornar vilões em heróis, e denominar como fracos os regentes mais lúcidos. Dessa forma ignoram os mais sensatos e elogiam os mais cruéis...  ficando assim mais próximos, pelos defeitos, daqueles que colocaram no panteão que inventaram. 

Assim, a maioria dos erros foram passados ao antecessor, D. João V, quiçá o melhor governante da dinastia de Bragança... já que ameaçava colocar Portugal de novo no caminho de potência mundial.
D. João V é criticado por trazer ouro do Brasil... esquecendo que essas remessas pararam pelo total desinteresse do Marquês no Brasil.
Ao Marquês elogia-se a pretensa obra nacional, omitindo o desastre que foi a sua condução do império... foi aliás durante essa pretensa "regência brilhante" que se serviu a Sandwich Havaiana e Australiana aos ingleses.
Se há mérito nalguma actuação será coisa de bastidores... e apenas se justificaria se a ruína nacional fosse necessária para algum bem maior!

Os sucessos de um rei, levam a uma absorção e a um descuido com a sucessão. Era assim habitual um investimento no príncipe seguinte, por aqueles que eram preteridos pelo rei.
Quando D. João V morre, é a rainha (austríaca, Habsburgo) Maria Ana Josefa que vai indicar Sebastião de Carvalho e Melo ao seu filho, D. José.
Este diplomata, antes embaixador na Inglaterra e depois na Áustria, e que D. João V acabara de demitir, aparece num lugar de destaque arranjado pela Rainha Maria Ana de Áustria, que o irá proteger (casando mesmo com uma austríaca). As ligações à maçonaria, essas parecem ocorrer aquando da embaixada em Londres... onde certamente terá privado com cozinheiros e sanduíches.

Porém, atrevemos também a sugerir um plano de longo curso, que estava já a ser testado pelos hábeis Habsburgos. De facto, uma maneira de controlar uma sociedade maçónica, em crescimento acentuado de poder, seria usar essa avidez de poder a serviço da aristocracia implantada. 
D. José I passa assim como figura despercebida, desfrutando das delícias da corte, longe dos assuntos de estado, encarregues a Sebastião de Melo... mas influenciando decisivamente as decisões mais controversas - como a execução dos Távoras. Em troca desses serviços, o Sebastião passa a Conde de Oeiras e depois a Marquês de Pombal. A aristocracia usaria o prestígio como moeda de troca na governação, e poderia descansar... mas a Revolução Francesa alterou um pouco estas contas.

Este plano aristocrata de longo curso seria inteligente... abdicavam das tarefas pesadas de governação, e passavam a desfrutar das vantagens do Reino. As quebras de popularidade passavam para os ministros, que tinham aparente carta-branca, mas que estavam condicionados.
Os Habsburgos austríacos, com Metternich, preferiam a via absolutista, que viam como única solução face à experiência caótica da Revolução Francesa de 1789. Os ingleses, que já tinham uma experiência revolucionária bem anterior, com Cromwell ao invés de Napoleão, preconizavam uma filosofia ainda mais inteligente - a Monarquia Liberal.

A Monarquia Liberal, tornou-se a forma comum de governo nos Séc. XIX e XX, especialmente após as Revoluções de 1848, e ainda hoje perdura na Europa. A legitimidade do Rei não era afectada, mas o governo passava a ser opção por eleição. No fundo a responsabilidade da governação visível passava para o próprio povo, por resultado de uma pretensa eleição, mas estes governantes estavam depois condicionados a todo o jogo que se passava nos bastidores, nas armadilhas cortesãs.
A população era co-responsabilizada nos erros governativos dos ambiciosos líderes que elegia, e a cabeça coroada passava incólume pelos pingos da chuva.

A experiência mais decisiva ocorreria com as Repúblicas... mesmo com a destituição do Rei e das Cortes, os poderes instituídos seriam corrompidos pelas ligações ancestrais das famílias, e na prática esses elementos aristocratas voltavam a concentrar o poder sob forma camuflada. 
Aparentemente partilhavam o poder com uma nova parte da população burguesa, que subia nos degraus do poder, mas esses novos protagonistas eram seduzíveis a honrarias e festas, e poderiam ser manipulados em jogos cortesãos, onde a aristocracia reinava sem concorrência.
Talvez a última experiência, destinada a erradicar essa submersa influência aristocrática nas Repúblicas, terá sido tentada na Revolução Russa de 1917. No entanto, é fácil perceber como os jogos de bastidores assumiam, mesmo assim, contornos tenebrosos... a luta de poder na antiga URSS acabou por substituir um sistema oligárquico por outro - em que a aristocracia passou a ser o "partido único". 
Essa experiência russa foi fechada, expondo fantasmas semelhantes aos fantasmas do Reino de Terror, que se seguiu à Revolução Francesa. Os escritores da História decidiam assim fechar definitivamente a hipótese comunista, usando dos habituais reflexos pavlovianos - a palavra comunista ganharia um tom pejorativo automático.


Abalos Lisboetas antes de 1755
Voltamos a Sebastião, Marquês de Pombal, e aos sentidos abalos!
Um dos méritos propagandeados ao Marquês é a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755.
Isto é colocado como se Lisboa não tivesse passado antes por dezenas de terramotos severos.

Em 26 de Janeiro de 1531 estima-se que tenham morrido 30 mil pessoas em Lisboa, número até maior ao avançado para o de 1755. 
Também nessa altura foi feito um bairro com estrutura quadricular que sobreviveu - o Bairro Alto (ver p.ex. aqui). Assim, a proclamada "quadrícula inovadora" nas ruas da baixa lisboeta, pensada pelo Marquês, já tinha tido um precedente com 250 anos, durante o reinado de D. João III.

Vejamos então um registo de sismos em Lisboa (usamos os adjectivos de Pinho Leal):
1009 - grande terramoto que destroi "mais ou menos" Lisboa.
1117 - idem
1146 - ibidem
1290 - fortíssimo terramoto aluíram muitas casas de Lisboa.
1344 - idem
1531 - espantoso terramoto que dura 50 dias! Arruinados alguns templos e 1500 casas cairam. 
1551 - terramoto medonho destruiu 200 casas em Lisboa
1575 - violento terramoto sem vítimas
1598 - violento terramoto sem vítimas
1699 - violento tremor de terra de 3 dias com alguns intervalos 
1724 - fortíssimo tremor de terra, não causou desgraças 


O abalo sísmico de 1531, tendo até levado à construção do Bairro "Alto", parece ter um registo histórico mais devastador que o de 1755...
Porém o abalo do Marquês teve várias componentes - especialmente posteriores.

Selecção Herculana
O terramoto do Marquês e assessores foi de tal forma potente que parece ter feito cair as Torres de Hércules em Cadiz (construção que tinha aguentado milénios de terramotos), apesar de ter poupado o Aqueduto das Águas Livres em Lisboa, ou o Convento de Mafra.
As ditas Torres de Hércules tiveram ainda uma queda diferente em Coimbra, onde a Torre Pentagonal tombou pela outra proeza pombalina - a universidade!
Não terá sido a Universidade de Évora, que Pombal decidiu fechar, nem o Observatório Astronómico, que apenas serviu de pretexto para a destruição da Torre de Hércules. O que Pombal fez foi importar génios... ou melhor arrumar o génio nacional na prateleira e contratar a subsidariedade, pela ideia de que um bom estrangeiro seria sempre melhor! Os textos de autores do Séc. XVIII que ironizam esse estado de coisas são particularmente interessantes para se perceber quando se começou a venerar a importação externa de valores, e a consolidar a dívida subjacente, transformando os valores nacionais em resignados, menosprezados, e desconsiderados subsidiários de uma inteligentia externa.

Como era Lisboa antes do Terramoto?
Apesar de serem pouco vistas imagens de Lisboa anteriores ao Terramoto de 1755, sobreviveram algumas bem ilustrativas, onde se percebe que a "grande reconstrução", ou a "grande alteração", é essencialmente manobra publicitária.
Pormenor da zona do Palácio do Rei,  onde depois do Terramoto será o Terreiro do Paço.
Estampa na Biblioteca Nacional de Maillet (impresso em Paris, 1760)


Estampa na Biblioteca Nacional de Clara Black (início Séc. XVIII)

Podemos ver em particular que o posterior Terreiro do Paço e os edifícios pouco mais são do que a adaptação do que já era o Palácio do Rei. Aliás, o que se notará mais é que a zona do Paço terá até perdido alguma qualidade estética, a avaliar pelas estampas. Se havia caos urbanístico na zona interna até ao Rossio, pois isso é algo que não se consegue avaliar nestas imagens, e não seria no Bairro Alto. Mas há outras que mostram pelo menos uma grande rua com clara vista do Tejo, e podem ainda ver-se edifícios com altura de 5 andares.

Em resumo, para além da duplicação dos torreões no Paço, não se vislumbra propriamente uma "grande" alteração face ao que era Lisboa antes do terramoto.

A destruição de Lisboa, não terminou no Terramoto, e em larga parte uma das maiores perdas resultou do incêndio, que também destruiu os Arquivos da Torre do Tombo. Estes acidentes, ditos fortuitos, têm a particular selectividade de destruir a memória histórica, de forma quase definitiva. Este caso, ou a Biblioteca de Alexandria, são alguns dos muitos exemplos ao longo dos séculos (e.g. Grande Incêndio de Londres, ao tempo da nossa Rainha Catarina)...

Quanto à contenção do desastre, conhece-se a forma brutal de repressão que se processou após o terramoto, causando mais vítimas do que o próprio acidente (isso é habitualmente ilustrado nesta imagem).

Processo dos Távoras - 1758
Ainda no rescaldo do acontecimento, e devido à sensação de "castigo divino", a insatisfação sobre a actuação do Marquês acentua-se, mas irá terminar de forma contundente.
Três anos depois do terramoto, dá-se o incidente da "tentativa de assassinato" do Rei, que resulta no chamado Processo dos Távoras, sendo implicados o Duque de Aveiro, o Conde da Atouguia e toda a família dos Távoras, entre outros.
Processo dos Távoras
Teatro da Execução (estampa na Bibl. Nac., anónima, c. 1759-60)

Já aqui falámos sobre a particularidade dos mortos envolvidos no processo serem das mesmas Casas que estiveram até à morte ao lado de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, e até de 1578 e 1758 terem os mesmos dígitos.
O que choca mais neste processo é a brutalidade envolvida nas execuções públicas. Talvez não fosse novidade, dado o tratamento de tortura e esquartejamento que Louis XV decidiu implementar a Robert Damiens em 1757... a novidade aqui foi a sua aplicação a uma casa aristocrata rival.
Convirá ler Pinho Leal sobre o Processo, num apontamento que tem sobre o sítio "Chão Salgado"... nunca é demais saber de que matéria são feitos os heróis que estão no pedestal mais alto da capital lisboeta.

Guerra Fantástica
Portugal participou na Guerra dos Sete Anos, ao lado da Inglaterra...
... e assim, ao contrário do que é habitualmente publicitado, os conflitos com Espanha não terminaram nas vitórias da Restauração. Houve a Guerra Fantástica.
A Espanha, aliada da França, entrou em Portugal, e ameaçou a invasão em 1762, durante a regência do Marquês... o exército português tinha sido reduzido desde 1754 a metade dos efectivos - manda dizer a publicidade instituída - que por culpa de D. João V - que apesar de este ter morrido em 1750, tinha costas largas para aguentar com esta culpa adicional, mesmo morto. Lê-se isto na wikipedia:


       "O Exército Português, abandonado desde a doença de D. João V, não tinha oficiais preparados para a guerra — fardamento, soldados e armas eram praticamente inexistentes."

Ainda que isso fosse verdade, será que a ausência de espírito crítico é tal que não se percebe que a doença de D. João V ocorreu em 1750... e que nos 12 anos seguintes as responsabilidades sobre o exército estariam a cargo de D. José e do ministro Pombal.

Há ilustrações dessas batalhas, que levaram a fortes derrotas das forças portuguesas.
"Guerra Fantástica"
O espanhol Conde de Aranda invade Portugal em 1762, durante a regência pombalina,
conquistando Salvaterra de Magos e ameaçando Lisboa.

A solução pombalina recai mais uma vez na ajuda externa, pela organização militar do Conde de Lippe, aparentando quase que já não poderia ter sob controlo português um exército forte - aconteceu depois o mesmo com a ajuda de Wellington - as tropas portuguesas nunca parecem ter ousado responder sem haver direcção externa. De forma semelhante, mesmo a presença do Duque de Schomberg, durante a Guerra da Restauração nunca foi bem vista pelos nacionais (nomeadamente o Marquês de Marialva), e terá contribuído mais para a deposição de Afonso VI em favor de Pedro II, ou para colher os louros de da vitória portuguesa em Montes-Claros.

Esta "Guerra Fantástica" evidencia a acentuada degradação nacional após D. João V.
Dir-se-à uma decadência quase propositada, conduzida pelo Marquês de Pombal, e pelas forças infiltradas de traição nacional que continuam a promover a incompetência, de forma a suprimir qualquer renascimento organizado.
Foi essa a principal herança pombalina!

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publicado às 22:13


O cozinheiro e o sanduíche

por desvela, em 22.07.11
Esta posta explica-se com um boneco.

Como várias outras caricaturas já apresentadas, é de James Gillray (1780 ou 84). 
Agora que se fala na noção pomposa de Thinker Tanks, acho Gillray lhes chamaria mais Tinker Thanks. Neste sentido, digamos que Gillray diz tratar-se de um painel de funileiros, evitando outra tradução mais literal para o português. A panela tem forma de hemisfério ocidental...

De casaca azul estará o Conde de Sandwich, e ajoelhado tentando reparar a panela está Lord North, enquanto o rei Jorge III aguarda que os buracos sejam reparados. O estado a que a panela chegou é resultado da acção do cozinheiro... Cook.

John Montagu, Conde de Sandwich, enquanto comandante da marinha inglesa, foi entusiasta e providenciou o financiamento da expedição de James Cook.
Em reconhecimento desse apoio, Cook terá baptizado o Havai como Ilhas Sandwich.
Há, é claro uma estória sobre sanduíches e a sua "invenção" por Sandwich...
Se Colombo teve o seu ovo, pois Sandwich teve o seu sanduíche.
Entre o pedaço de pão Asiático e o Americano, Sandwich iria reclamar o bife Pacífico.
Não vejo outra sanduíche que não esta... talvez ficando demasiado explícito, no final do Séc. XIX o Havai foi renomeado e apenas ficaram as ilhas Sandwich do Sul.
Talvez possamos dizer que a viagem anterior de Bougainville e as pretensões francesas foram ensanduichadas pelo plano do grupo de Sandwich:
Da esquerda para a direita: Solander, Banks, Cook, Hawkesworth e Sandwich.
Solander era sueco, botânico da escola de Lineu, amigo de Banks, 
e sobre Sir Banks, Gillray dá conta da sua apreciação nesta caricatura...
... uma lagarta encontrada nos Mares do Sul é transformada em borboleta pelo Sol imperial.

O problema complicou-se, e conforme Gillray escreve na primeira caricatura: 
- por cada buraco tapado, abrem-se dois novos!
Digamos que um dos "buracos" de Sandwich que o primeiro-ministro Lord North não conseguiu tapar foi a Independência Americana (o desenho sobre Banks é publicado num 4th of July), projecto em que a França se empenhou...  
Digamos que ainda estava o Endeavour no mar, entre a Nova Zelândia e a Austrália, em 1770, e rebentava a rebelião em Boston, o primeiro gesto que levou à guerra de independência americana.

Havia certamente uma parte do novos territórios Pacíficos prometidos à França, que acabou por ficar com algumas ilhas (que ainda hoje mantém), mas a solução de Sandwich terá sido um rude golpe nas aspirações francesas. 

Quanto aos holandeses, tiveram que fazer quase de conta que nunca tinham visto a Austrália...
Para termos uma ideia da precisão que os mapas holandeses chegaram a ter, basta ver este mapa de Gerritsz em 1618, muito antes da viagem de Tasman (1642):

Apesar de Gerritsz ser considerado um dos maiores cartógrafos, o seu trabalho tem pouca divulgação... e percebe-se que não se queira questionar a razão pela qual as linhas perfeitas acabam onde acabam em 1628, e que os sucessores até Tasman nada tenham feito para completar o circuito. Nem Tasman, nem nenhum seguinte... e é claro que os portugueses estando com colónias em Timor, ou os espanhóis com colónias nas Filipinas, continuavam a não acertar com as velas, e não conseguiam aí navegar para sul! 
Foi preciso Sandwich e Cook para resolver o assunto!

O mapa de Gerritsz tem ainda outros problemas... identifica a descoberta de Houtman das ilhas Abrolhos, e apesar de estar datado de 1618 apresenta as descobertas até 1628. Parece claro ao inspeccionar o mapa que as inscrições com as datas e exploradores são posteriores à execução do mapa!
Quanto ao arquipélago e recifes de Abrolhos... descobertas por Houtman em 1619(!), ficaram definitivamente nomeadas Houtman Abrolhos.
Open your eyes... abram os olhos, abrolhos!
Nada mais apropriado, desde sempre até hoje...
Ilhas australianas de Houtman Abrolhos

Por via das confusões, e não tivesse ficado registo português com esse nome, apareceram também umas ilhas Abrolhos no Brasil. Assim, uma das estórias relata que Houtman terá sido inspirado por essoutras. Não é de espantar, porque Tasman vai repetir a inspiração com Pedra Branca, na Tasmânia, que lhe vai lembrar Pedra Branca, perto de Singapura.

Por acaso, Abrolhos faz-nos lembrar "Vannila Sky" que na versão original espanhola se chamava "Abre los Ojos"... só a Penelope Cruz seria a mesma. 
No fundo, um problema de chancela que tem vários aspectos e protagonistas ao longo dos tempos.
Independentemente dos protagonistas, o argumento, esse é intemporal...

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publicado às 03:45


O cozinheiro e o sanduíche

por desvela, em 21.07.11
Esta posta explica-se com um boneco.

Como várias outras caricaturas já apresentadas, é de James Gillray (1780 ou 84). 
Agora que se fala na noção pomposa de Thinker Tanks, acho Gillray lhes chamaria mais Tinker Thanks. Neste sentido, digamos que Gillray diz tratar-se de um painel de funileiros, evitando outra tradução mais literal para o português. A panela tem forma de hemisfério ocidental...

De casaca azul estará o Conde de Sandwich, e ajoelhado tentando reparar a panela está Lord North, enquanto o rei Jorge III aguarda que os buracos sejam reparados. O estado a que a panela chegou é resultado da acção do cozinheiro... Cook.

John Montagu, Conde de Sandwich, enquanto comandante da marinha inglesa, foi entusiasta e providenciou o financiamento da expedição de James Cook.
Em reconhecimento desse apoio, Cook terá baptizado o Havai como Ilhas Sandwich.
Há, é claro uma estória sobre sanduíches e a sua "invenção" por Sandwich...
Se Colombo teve o seu ovo, pois Sandwich teve o seu sanduíche.
Entre o pedaço de pão Asiático e o Americano, Sandwich iria reclamar o bife Pacífico.
Não vejo outra sanduíche que não esta... talvez ficando demasiado explícito, no final do Séc. XIX o Havai foi renomeado e apenas ficaram as ilhas Sandwich do Sul.
Talvez possamos dizer que a viagem anterior de Bougainville e as pretensões francesas foram ensanduichadas pelo plano do grupo de Sandwich:
Da esquerda para a direita: Solander, Banks, Cook, Hawkesworth e Sandwich.
Solander era sueco, botânico da escola de Lineu, amigo de Banks, 
e sobre Sir Banks, Gillray dá conta da sua apreciação nesta caricatura...
... uma lagarta encontrada nos Mares do Sul é transformada em borboleta pelo Sol imperial.

O problema complicou-se, e conforme Gillray escreve na primeira caricatura: 
- por cada buraco tapado, abrem-se dois novos!
Digamos que um dos "buracos" de Sandwich que o primeiro-ministro Lord North não conseguiu tapar foi a Independência Americana (o desenho sobre Banks é publicado num 4th of July), projecto em que a França se empenhou...  
Digamos que ainda estava o Endeavour no mar, entre a Nova Zelândia e a Austrália, em 1770, e rebentava a rebelião em Boston, o primeiro gesto que levou à guerra de independência americana.

Havia certamente uma parte do novos territórios Pacíficos prometidos à França, que acabou por ficar com algumas ilhas (que ainda hoje mantém), mas a solução de Sandwich terá sido um rude golpe nas aspirações francesas. 

Quanto aos holandeses, tiveram que fazer quase de conta que nunca tinham visto a Austrália...
Para termos uma ideia da precisão que os mapas holandeses chegaram a ter, basta ver este mapa de Gerritsz em 1618, muito antes da viagem de Tasman (1642):

Apesar de Gerritsz ser considerado um dos maiores cartógrafos, o seu trabalho tem pouca divulgação... e percebe-se que não se queira questionar a razão pela qual as linhas perfeitas acabam onde acabam em 1628, e que os sucessores até Tasman nada tenham feito para completar o circuito. Nem Tasman, nem nenhum seguinte... e é claro que os portugueses estando com colónias em Timor, ou os espanhóis com colónias nas Filipinas, continuavam a não acertar com as velas, e não conseguiam aí navegar para sul! 
Foi preciso Sandwich e Cook para resolver o assunto!

O mapa de Gerritsz tem ainda outros problemas... identifica a descoberta de Houtman das ilhas Abrolhos, e apesar de estar datado de 1618 apresenta as descobertas até 1628. Parece claro ao inspeccionar o mapa que as inscrições com as datas e exploradores são posteriores à execução do mapa!
Quanto ao arquipélago e recifes de Abrolhos... descobertas por Houtman em 1619(!), ficaram definitivamente nomeadas Houtman Abrolhos.
Open your eyes... abram os olhos, abrolhos!
Nada mais apropriado, desde sempre até hoje...
Ilhas australianas de Houtman Abrolhos

Por via das confusões, e não tivesse ficado registo português com esse nome, apareceram também umas ilhas Abrolhos no Brasil. Assim, uma das estórias relata que Houtman terá sido inspirado por essoutras. Não é de espantar, porque Tasman vai repetir a inspiração com Pedra Branca, na Tasmânia, que lhe vai lembrar Pedra Branca, perto de Singapura.

Por acaso, Abrolhos faz-nos lembrar "Vannila Sky" que na versão original espanhola se chamava "Abre los Ojos"... só a Penelope Cruz seria a mesma. 
No fundo, um problema de chancela que tem vários aspectos e protagonistas ao longo dos tempos.
Independentemente dos protagonistas, o argumento, esse é intemporal...

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publicado às 19:45


Sinais vermelhos

por desvela, em 21.06.11
Quando há uns meses colocámos aqui um post com o título Traffic Signs, não estávamos exactamente a pensar no que Estrabo (passarei a usar esta variante do nome, mais apropriada) nos tinha para revelar (Livro 1):
All those who have sailed along the coasts of Libya, whether starting from the Arabian Gulf, or the Pillars, after proceeding a certain distance, have been obliged to turn back again on account of a variety of accidents;
Se tivesse sabido desta passagem de Estrabo, teria sido usada nesse cartoon de Março.
Mas podemos hoje acrescentar algo mais...
Estávamos concentrados na proibição em navegar para além dos Pilares (Estreito de Gibraltar), ao longo da costa de África, e faltou-nos o outro lado... que ele chama o Golfo Arábico, ou seja o Mar Vermelho.

Ao ler a transcrição somos imediatamente confrontados com alguns problemas que se colocaram aos tradutores... digamos que se viram gregos (língua do original, que desconheço largamente), e misturam termos recentes com termos antigos, nomeadamente sobre o Mar Eritreu (Erythraen Sea). A confusão será já própria de Estrabo, que invoca Eratóstenes sobre uma antiga passagem entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, por inundação. Estrabo contesta a inundação argumentando que o nível do mar seria uniforme, pelo contacto entre todos os mares. Com o nível do mar elevado, podemos ver que essa ligação pode ter existido:
Médio-Oriente com o nível do mar elevado
(o Mar Morto seria mesmo um mar, ou baía, 
e a África ficava separada, como uma ilha)

Porém a verdadeira questão é outra... é que o Mar Eritreu também foi designação aplicada ao golfo que se situava no exterior das Colunas de Hércules, na altura em que a ilha Eriteia era situada a oeste dos Pilares, conforme já abordámos a propósito do Lago Tritonis.

Ou seja, havia um Mar Vermelho a Ocidente e outro a Oriente. Só para confusão?
Em parte sim, mas creio que havia outra questão que Estrabo torna clara:
- quem se arriscasse a navegar para além destes pontos, arriscava os mais diversos acidentes!
Acidentalmente, ou o acidental mente... porque os acidentes sistemáticos deixam de ser acidentes.
Se pensámos que o Acidental era Ocidental, Estrabo reporta que também se aplicava às navegações africanas pelo lado oriental.

Onde estavam os Sinais? 
- Um Sinai estava junto ao Mar Vermelho, próximo do Egipto...
- Creio que o outro Sinai estava do outro lado, na península que definia a zona de Tingis, a antiga Tanger, na Mauritania Tingitana.
Tratavam-se de Sinais Vermelhos... a proibição de navegar não poderia passar aqueles mares "vermelhos", em direcção a África.

Porquê?
Pela razão que Aristóteles invocava sobre Cartago... o medo de que os refractários se instalassem nos territórios paradisíacos. Se cidadãos instruídos formassem novas civilizações fora da alçada do controlo central, as colónias passariam a ser uma ameaça para os territórios originais. Dada a extensão africana... e americana, a proibição seria a primeira arma de controlo, caso contrário poderia formar-se um reino suficientemente poderoso que ameaçaria o poder instalado no Mediterrâneo, e os seus segredos sobre as terras virgens ficariam ameaçados. Esse problema teve que ser resolvido na Austrália, antes da sua descoberta oficial por Cook. Digamos que a América, os EUA, foram a primeira experiência autorizada para uma colónia independente dos velhos poderes europeus!

Aliás, se pensarmos bem, só uma política de ocultação justificaria a ausência de contactos reportados entre romanos, indianos ou chineses. Será ridículo pensar que a República Romana não sentiu curiosidade de enviar os seus navios pelo mundo fora, pelo menos na rota de Alexandre Magno... que já o teria feito! Há apenas o incidente relatado por Cornélio Nepote, de que já falámos, e processou-se no sentido inverso, com uma visita à Europa.


A partir daqui fica ainda mais claro que a passagem do Mar Vermelho ou Eritreu, tanto se poderia dar pelo lado oriental ou ocidental, indo no mesmo sentido daquilo que já dissemos sobre o Mar Eritreu e sobre os Ebreus do Ebro.


Aditamento (22/06/2011)
Esqueci-me de tornar explícita a relação com o texto sobre o Mar Vermelho apontado nos mapas do Séc. XVI de Ortelius, Ghisolfi e Agnese:
Os dois mares vermelhos, coloridos no mapa de Agnese, 1544.

O que estes autores pretenderiam colocar em evidência é que havia um novo Sinai Vermelho... a Califórnia! Esta península seria o novo Sinai, onde se colocava um novo Mar Vermelho - as navegações acima da Califórnia ficariam proibidas!
Não admira pois que essa seja o foco de concentração de muitos judeus, especialmente no Séc. XX, tratava-se de assinalar um novo Sinai... na Califórnia.

A estória será esta... Moisés abriu caminho pelo Mar Vermelho, passando o Mar Proibido, sujeitando-se aos Mandamentos divinos, e assim atingiu a Terra Prometida. Conseguiu uma libertação temporária para o seu povo, mas esqueceram o problema de libertação universal... Digamos que os magos de Nabucodonosor fizeram lembrar aos judeus essa universalidade com o preço do cativeiro. Quando Ciro acaba por restituir alguma liberdade aos judeus, volta a estar implementada a restrição universal dos Sinais vermelhos! O que é surpreendente, é que esta restrição é de tal forma poderosa que não podemos olhá-la em termos europeus... nenhuma nação asiática entrou em contacto directo com a Europa, durante milénios.

Primeiro o Infante D. Henrique, e depois Colombo acabam por ter assim papel fundamental na nova autorização de levantar o cobrimento, ou seja, a autorização de descobrimento, dos novos territórios... em certo sentido figurado poderia ser-lhes atribuído um papel messiânico, ao nível de Moisés.

Porém, fica claro que houve uma nova proibição no Séc. XVI, que é ilustrada neste mapa de Agnese, e que já identificámos várias vezes... a Austrália e o Noroeste Americano ficariam proibidos até Cook, que será na mesma linha o próximo a ter autorização para descobrir a parte restante.

Se colocamos demasiado o foco no papel da Hispânia, é porque ele se vai revelando, mas não ignoramos o detalhe da migração judaica para a zona da Etiópia, também aqui marcando a transposição do outro Mar Vermelho. O Obelisco de Psamético na praça de Montecitorio, de que falámos, usado como relógio de Sol por Augusto, é afinal o último marco de conquista egípcia nos territórios núbios a sul. Nesse sentido pode dizer-se que se a alguns judeus foi aberta a passagem para a Etiópia, aos Egípcios ela esteve sempre fechada.

Para quem seguiu ainda o outro blog alvorsilves, saberá que no último dia de 2009 decidimos marcar a passagem para 2010 no fuso californiano, e desde então usámos aqui a hora do Pacific Time.
A estória vai batendo certo, e se isso é algo surpreendente pela positiva, é mais surpreendente pela negativa revelando a dimensão do controlo. Talvez quando houver autorização para passar ao Planeta Vermelho, Marte, nos seja autorizado perceber toda a nossa História!
Até lá, o novo Sinai Vermelho parece ser o planeta nomeado pelo deus da guerra... quanto a Vénus, planeta da deusa do amor, que tanto passou por Lucifer, portador da luz a nascente, como por Hesper, sinal de esperança a poente, Vénus continua proibido a observações!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:33


Sinais vermelhos

por desvela, em 20.06.11
Quando há uns meses colocámos aqui um post com o título Traffic Signs, não estávamos exactamente a pensar no que Estrabo (passarei a usar esta variante do nome, mais apropriada) nos tinha para revelar (Livro 1):
All those who have sailed along the coasts of Libya, whether starting from the Arabian Gulf, or the Pillars, after proceeding a certain distance, have been obliged to turn back again on account of a variety of accidents;
Se tivesse sabido desta passagem de Estrabo, teria sido usada nesse cartoon de Março.
Mas podemos hoje acrescentar algo mais...
Estávamos concentrados na proibição em navegar para além dos Pilares (Estreito de Gibraltar), ao longo da costa de África, e faltou-nos o outro lado... que ele chama o Golfo Arábico, ou seja o Mar Vermelho.

Ao ler a transcrição somos imediatamente confrontados com alguns problemas que se colocaram aos tradutores... digamos que se viram gregos (língua do original, que desconheço largamente), e misturam termos recentes com termos antigos, nomeadamente sobre o Mar Eritreu (Erythraen Sea). A confusão será já própria de Estrabo, que invoca Eratóstenes sobre uma antiga passagem entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, por inundação. Estrabo contesta a inundação argumentando que o nível do mar seria uniforme, pelo contacto entre todos os mares. Com o nível do mar elevado, podemos ver que essa ligação pode ter existido:
Médio-Oriente com o nível do mar elevado
(o Mar Morto seria mesmo um mar, ou baía, 
e a África ficava separada, como uma ilha)

Porém a verdadeira questão é outra... é que o Mar Eritreu também foi designação aplicada ao golfo que se situava no exterior das Colunas de Hércules, na altura em que a ilha Eriteia era situada a oeste dos Pilares, conforme já abordámos a propósito do Lago Tritonis.

Ou seja, havia um Mar Vermelho a Ocidente e outro a Oriente. Só para confusão?
Em parte sim, mas creio que havia outra questão que Estrabo torna clara:
- quem se arriscasse a navegar para além destes pontos, arriscava os mais diversos acidentes!
Acidentalmente, ou o acidental mente... porque os acidentes sistemáticos deixam de ser acidentes.
Se pensámos que o Acidental era Ocidental, Estrabo reporta que também se aplicava às navegações africanas pelo lado oriental.

Onde estavam os Sinais? 
- Um Sinai estava junto ao Mar Vermelho, próximo do Egipto...
- Creio que o outro Sinai estava do outro lado, na península que definia a zona de Tingis, a antiga Tanger, na Mauritania Tingitana.
Tratavam-se de Sinais Vermelhos... a proibição de navegar não poderia passar aqueles mares "vermelhos", em direcção a África.

Porquê?
Pela razão que Aristóteles invocava sobre Cartago... o medo de que os refractários se instalassem nos territórios paradisíacos. Se cidadãos instruídos formassem novas civilizações fora da alçada do controlo central, as colónias passariam a ser uma ameaça para os territórios originais. Dada a extensão africana... e americana, a proibição seria a primeira arma de controlo, caso contrário poderia formar-se um reino suficientemente poderoso que ameaçaria o poder instalado no Mediterrâneo, e os seus segredos sobre as terras virgens ficariam ameaçados. Esse problema teve que ser resolvido na Austrália, antes da sua descoberta oficial por Cook. Digamos que a América, os EUA, foram a primeira experiência autorizada para uma colónia independente dos velhos poderes europeus!

Aliás, se pensarmos bem, só uma política de ocultação justificaria a ausência de contactos reportados entre romanos, indianos ou chineses. Será ridículo pensar que a República Romana não sentiu curiosidade de enviar os seus navios pelo mundo fora, pelo menos na rota de Alexandre Magno... que já o teria feito! Há apenas o incidente relatado por Cornélio Nepote, de que já falámos, e processou-se no sentido inverso, com uma visita à Europa.


A partir daqui fica ainda mais claro que a passagem do Mar Vermelho ou Eritreu, tanto se poderia dar pelo lado oriental ou ocidental, indo no mesmo sentido daquilo que já dissemos sobre o Mar Eritreu e sobre os Ebreus do Ebro.


Aditamento (22/06/2011)
Esqueci-me de tornar explícita a relação com o texto sobre o Mar Vermelho apontado nos mapas do Séc. XVI de Ortelius, Ghisolfi e Agnese:
Os dois mares vermelhos, coloridos no mapa de Agnese, 1544.

O que estes autores pretenderiam colocar em evidência é que havia um novo Sinai Vermelho... a Califórnia! Esta península seria o novo Sinai, onde se colocava um novo Mar Vermelho - as navegações acima da Califórnia ficariam proibidas!
Não admira pois que essa seja o foco de concentração de muitos judeus, especialmente no Séc. XX, tratava-se de assinalar um novo Sinai... na Califórnia.

A estória será esta... Moisés abriu caminho pelo Mar Vermelho, passando o Mar Proibido, sujeitando-se aos Mandamentos divinos, e assim atingiu a Terra Prometida. Conseguiu uma libertação temporária para o seu povo, mas esqueceram o problema de libertação universal... Digamos que os magos de Nabucodonosor fizeram lembrar aos judeus essa universalidade com o preço do cativeiro. Quando Ciro acaba por restituir alguma liberdade aos judeus, volta a estar implementada a restrição universal dos Sinais vermelhos! O que é surpreendente, é que esta restrição é de tal forma poderosa que não podemos olhá-la em termos europeus... nenhuma nação asiática entrou em contacto directo com a Europa, durante milénios.

Primeiro o Infante D. Henrique, e depois Colombo acabam por ter assim papel fundamental na nova autorização de levantar o cobrimento, ou seja, a autorização de descobrimento, dos novos territórios... em certo sentido figurado poderia ser-lhes atribuído um papel messiânico, ao nível de Moisés.

Porém, fica claro que houve uma nova proibição no Séc. XVI, que é ilustrada neste mapa de Agnese, e que já identificámos várias vezes... a Austrália e o Noroeste Americano ficariam proibidos até Cook, que será na mesma linha o próximo a ter autorização para descobrir a parte restante.

Se colocamos demasiado o foco no papel da Hispânia, é porque ele se vai revelando, mas não ignoramos o detalhe da migração judaica para a zona da Etiópia, também aqui marcando a transposição do outro Mar Vermelho. O Obelisco de Psamético na praça de Montecitorio, de que falámos, usado como relógio de Sol por Augusto, é afinal o último marco de conquista egípcia nos territórios núbios a sul. Nesse sentido pode dizer-se que se a alguns judeus foi aberta a passagem para a Etiópia, aos Egípcios ela esteve sempre fechada.

Para quem seguiu ainda o outro blog alvorsilves, saberá que no último dia de 2009 decidimos marcar a passagem para 2010 no fuso californiano, e desde então usámos aqui a hora do Pacific Time.
A estória vai batendo certo, e se isso é algo surpreendente pela positiva, é mais surpreendente pela negativa revelando a dimensão do controlo. Talvez quando houver autorização para passar ao Planeta Vermelho, Marte, nos seja autorizado perceber toda a nossa História!
Até lá, o novo Sinai Vermelho parece ser o planeta nomeado pelo deus da guerra... quanto a Vénus, planeta da deusa do amor, que tanto passou por Lucifer, portador da luz a nascente, como por Hesper, sinal de esperança a poente, Vénus continua proibido a observações!

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