Site Meter

Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Nave espiritual

por desvela, em 20.10.13
É suposto a palavra "nave" derivar de "navis" do latim, que por sua vez sairia de um "naos" grego.
Em todos os casos tratam-se de embarcações para... navegar.
Se "navio" pode advir do latim e "nau" do grego, é de notar que a letra "v" apresentou duplicidades, não apenas na troca dos "b" pelos "v", mas também na troca de "v" por "u"... ou seja, o "navis" latino poderia pronunciar-se "nauis", da mesma forma que "Julius" seria escrito "IVLIVS". 
Esta duplicidade entre o "u" e o "v" não desapareceu com a invenção do "w" que também manteve a duplicidade de ser lido como "u", pela via inglesa, e como "v", pela via francesa e germânica.

Ao contrário dos ingleses não falamos de "navio espacial", e a designação "nave espacial" parece ser tipicamente das línguas ibéricas, porquanto a palavra "nave" solitariamente teria perdido o significado marítimo e seria mais aplicada na arquitectura de catedrais, falando-se habitualmente da sua "nave central".
 
Naves centrais do Mosteiro de Alcobaça e do Mosteiro da Batalha

A relação da nave marítima com a estrutura das catedrais é bem conhecida. Havia uma grande semelhança invertida entre o fundo dos navios e o tecto das catedrais. Os fiéis seriam assim convidados para uma embarcação que teria a sua quilha penetrante nos céus, tal como a quilha dos navios entraria nas águas... afinal também a parte espiritual sediada na cabeça estaria mais próxima dos céus do que os pés que conduziam o corpo.
É num mundo medieval, onde as navegações marítimas estavam praticamente proibidas que vamos encontrar alusões a outras naves, de carácter espiritual. Ao contrário de anfiteatros, o formato linear, sob o comprido, que passaria a ser característica típica das igrejas, não era o mais adequado para comunicar a uma plateia de fiéis. Envolvia uma direcção - as igrejas estavam normalmente viradas a Nascente, e o próprio sacerdote, virando costas aos fiéis, tomava posição semelhante na embarcação, primeiro na proa em direcção a esse renascimento figurado numa alvorada (após o controverso Concílio do Vaticano II, em 1962, estas tradições caem, diz-se que por influência maçónica na igreja).

Movendo-nos um pouco para outra parte do globo, para as Caves de Ellora, Índia, datadas do Séc. VII, encontramos uma estrutura de topo curiosamente semelhante... em que o tecto poderia bem representar o fundo de um navio:
Nave da Cave... Cave 10 (dita do Buda Carpinteiro)

De acordo com a Revista Panorama (número de 8 Julho 1837), já Diogo Couto dava conta da existência destas Grutas de Ellora, bem como da Ilha de Elefanta (ou Elefante) e da Ilha de Salsete. É interessante que a Ilha de Elefanta tenha feito parte do dote de Catarina de Bragança a Carlos II de Inglaterra, o que simbolicamente mostra já uma cedência do poder aos ingleses sobre a Índia. No entanto, creio que na Ilha de Elefanta, dedicada a Xiva não se apresenta este tipo de estrutura.

As estruturas dedicadas a Xiva envolviam mais construções de Pirâmides, como são os vários templos Tamil, como seja Chidambaram (partes atribuídas ao Séc. XIII):

ou os templos hindús de Annamalayiar (datados do Séc. XV):

ou ainda, do mais recente Templo de Meenakshi (datado do Séc. XVII):

bem como de vários outros (ver lista). Estes templos piramidais têm também uma linha de orientação definida, ao contrário do que acontece com as habituais pirâmides... mas não deixam de exibir características que remetem para conjuntos monumentais egípcios ou mexicanos. É mais difícil perceber aqui se havia algum significado religioso especial, mas a orientação não é constante, e o efeito de nave não estará presente nestes templos. 

Finalmente, sobre as construções com forma do fundo de barco, convém lembrar a menção que já fizemos às mapalias da Numídia, no relato do Rei Hiempsal II. Segundo esse relato, os persas que acompanharam Hércules na expedição que este fez à Hispânia, ficaram a habitar a costa africana, usando os cascos invertidos dos seus navios para fazerem casas. Esta tradição ter-se-ia mantido como forma de construção no Norte de África, no fabrico das mapalias (também chamadas magalias). 
Mapalias da Numídia - inversão dos cascos dos barcos dos companheiros persas de Hércules.


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:04


Com chás (2)

por desvela, em 12.07.13
Vieira.
Já aqui tínhamos apresentado uma moeda que tinha o símbolo da empresa de D. Sebastião:

Serena Celsa Favent, era o moto, e se o esclarecimento favorece a excelência, aqui temos uma concha, a vieira venusiana, e um peixe, símbolo cristão, sob uma constelação estelar (Pleiades?) enquadrada com o crescente selene, lunar.
Devemos notar que as conchas estão ligadas ao baptismo, havendo mesmo pias baptismais com essa forma:
 
Pia baptismal - Igreja NªSrª Navegantes (Armação de Pera, imagem)e concha baptismal (imagem)

Portanto, há uma ligação da concha à libertação do "pecado original", da expulsão do Paraíso. 
Bom, e tendo acabado de falar nas ilhas polinésias, do Taiti no texto anterior, de forma algo natural estabelecemos a noção de "ilha paradisíaca"... como se congenitamente o fosse reconhecido naquelas paisagens.


Pelicano.
Para além do peixe, também o pelicano, pelo auto-sacrifício pela prole, é considerado um símbolo de Cristo, tendo sido primeiro adoptado por D. João II como seu símbolo.
Vamos encontrar esse símbolo com um influente conselheiro dos reis ingleses Henrique VII e Henrique VIII, tratava-se de Richard Foxe, bispo de Winchester:

Leito de morte de Henry VII Tudor (1509) com destaque para Richard Fox, Bispo de Winchester, 
vêem-se as quinas portuguesas e o pelicano de D. João II.

O que faria o Bispo de Winchester, o conselheiro mais influente de Henrique VII, e depois de Henrique VIII (até ser substituído por Wolsey), usar armas com quinas e o pelicano, símbolos do já defunto D. João II?
Estava aqui implícito que a política de D. João II teria uma continuação pelo lado inglês?

Richard Foxe vai fundar o Colégio Corpus Christi de Oxford, que ainda hoje usa o símbolo do pelicano:
  
Richard Fox, o pátio central com o Pelicano do Corpus Christi de Oxford, e as armas do colégio,
que incluem ainda as armas de Hugh Oldham (com 3 mochos e rosas vermelhas de Lancaster)

Mais tarde, também Isabel I, filha de Henrique VIII, a rainha que determinará a expansão inglesa, irá adoptar o pelicano como símbolo no seu papel de "mãe" da Igreja Anglicana. A simbologia cristã do pelicano remontará a S. Tomás de Aquino, a sua ligação às quinas portuguesas só fica evidente através de Fox, e da influência que terá tido na regência dos Tudor.

A tomba de Fox está na catedral de Winchester da Santíssima Trindade, que era a mais influente à época, e que curiosamente esteve em perigo de colapso por inundação das fundações, sendo "salva" pelo trabalho contínuo de um escafandrista, William Walker, entre 1906-11, que tem um busto na catedral cuja cripta ainda se encontra imersa em água. 

Catedral de Winchester, o escafandrista Walker, e a cripta inundada (com escultura moderna).

Cordeiros.
Curiosamente, 50 anos antes, outro Bispo de Winchester, Henry Beaufort, ficou famoso por dirigir o processo inquisitório que condenou Joana d'Arc à fogueira. Tratava-se de um meio-irmão de Filipa de Lancastre, sendo um dos muitos filhos de John de Gaunt (com Katherine Swynford, no terceiro casamento que originou a linha Beaufort). 
Henry Beaufort, o inquisidor, e Joana d'Arc... 
um cordeiro entregue à fogueira.

Joana d'Arc tinha sido entregue por Philippe III de Borgonha (casado com Isabel de Portugal, filha de D. João I, sobrinha do inquisidor). Margaret Beaufort, também sobrinha deste Henry, será mãe do rei Henrique VII, que derrota Ricardo III, tornando-se o primeiro dos Tudor. Henrique VII usa a rosa de Lancaster, mas ao casar com uma rosa de York, terminará a Guerra das Rosas com a união.
Um detalhe importante é Henrique VII usar num retrato o colar do Tosão de Ouro, o símbolo da Ordem fundada por Philippe III de Borgonha, aquando do casamento com Isabel de Portugal.
Phillipe III de Bourgogne, fundador da Ordem do Tosão de Ouro (esq.)
Henry VII Tudor, membro da Ordem do Tosão de Ouro (dir.)
Ambos usam o colar da ordem, com o cordeiro sacrificial.

Duque de Kent, chefe da Grande Loja de Londres, com colar da Maçonaria.

Juntei uma imagem de colar da maçonaria porque o compasso, ou o esquadro, descaindo em forma de V invertido, assemelham-se ao cordeiro sacrificial, que vemos nos colares da Ordem do Tosão de Ouro.
Conforme já referi noutros textos, o cordeiro tem vários significados, não apenas ligados à lenda de Jasão e dos Argonautas. É claro que a Ordem surgindo no contexto do casamento da irmã do Infante D. Henrique, carrega um aspecto dos Descobrimentos ligado aos "Argonautas" e ao Velo de Ouro.
Descobrir foi desvelar, tirar véus... na forma Ariana deste carneiro, o Velo seria a pele de Aries, uma pele de Ouro, ou de Oro, forma abreviada de Hórus, o olho vigilante que se pode ligar ao verbo Orar.
Descobrir foi revelar, levantar Velas e não tanto retirá-las. As cara-velas do Infante velaram pelo véus antigos, e a Ordem do Tosão ou "Velo de Ouro", pode ser vista como preservação do "véu de Hórus".
Jasão teve que vencer o Dragão da Cólquida para obter o Velo de Ouro, tal como Hércules teve que vencer o dragão Ládon, que guardava as ocidentais Hespérides, num dos 12 trabalhos (ou 12 Oras...).
Ao mesmo tempo aparecia a Ordem do Dragão, de que fez parte o Infante D. Pedro, e que já ligámos à Dra-cola, ou Cola do Dragão, em que o "Colar" se refere ao pescoço, tal como Coço e Cola se referem à retaguarda, entrelaçada ao pescoço... (sobre o significado antigo de "coço da procissão" ser "atrás da procissão", ler D. Manuel Clemente)

A história do cordeiro tem ainda o aspecto hebraico que remete à Páscoa, ou à paz-côa, quando Abraão é sujeito ao teste de obediência divino, e o seu filho Isaac é substituído pelo cordeiro no sacrifício:
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis... dona nobis pacem
É um bocado complicado falar deste ponto, porque o sacrifício do cordeiro ordeiro envolve aqui um conceito perverso, no outro verso interpretativo. Deus não permitiria o sacrifício do filho eleito, apenas dos cordeiros... e por isso os cordeiros poderiam ser sacrificados, até que Deus se manifestasse em sentido contrário. E quem eram os cordeiros a sacrificar? O sacrifício indiscriminado traria a presença de Deus?
Pois... até que ponto os Árias foram pastores de Aries, cordeiros? Até que ponto os pastores sacrificariam os seus cordeiros para reencontrarem Deus, ou o Messias?
Esta filosofia continha uma aposta tripla 1X2, se Deus não interviesse perante a iniquidade, os pastores beneficiariam do velo de ouro, uma opção hedonista face à ausência divina. De forma oposta, justificariam a sua acção perante o divino, requerendo a sua presença, afinal a sua omnipotência só permitiria o sacrifício dos sacrificáveis. A incógnita X seria a recusa teológica de outras possibilidades... obviamente possível por crença, mas afinal insustentável racionalmente. Azar, este universo foi definido justamente pela racionalidade, e os absurdos levam ao vazio contraditório - o caos irracional fica no seu exterior. O tempo permite o absurdo diferido, temporário, mas não o simultâneo e permanente. Todos os filhos de Gaia são introspectivamente recuperáveis, pela lógica do arrependimento, do reconhecimento de erros, mas não é possível a recuperação dos irrecuperáveis. A persistência eterna no absurdo foi simplesmente excluída, nem tampouco poderia ser humana. Logicamente, não poderia ser doutra forma... os erros podem viver nas ilusões temporárias, que acolhem elementos do caos, mas não o caos completo. Desse oceano caótico importamos a imprevisibilidade, elementos artísticos e sentimentais, mas esses impulsos devem sujeitar-se ao enquadramento racional, sob pena de serem o convite ao estabelecimento do irracional, e à recusa da principal faculdade humana, que nos distingue das alimárias, a racionalidade.

Chapéus...
Há muitos, vários formatos de chapéus. Assim, para além do colar com o cordeirinho sacrificial, também o chapéu usado por Filipe III de Borgonha fez moda, ficou conhecido como "chapéu borgonhês", e resistiu aos tempos, sendo ainda hoje uma indumentária usada pela Confraria do Vinho do Porto:
É claro que no caso da confraria de vinho usa-se no colar uma taça de escanção, para averiguar da cor do vinho, afinal simbolicamente tratado como "sangue de Cristo".
A taça do vinho da Última Ceia foi habitualmente designada como Graal, e houve já quem sugerisse que o nome Portugal encerraria um críptico "por-tu-graal", que assim se complementaria, pela associação de Porto e Gaia, nas caves do famoso vinho, que sozinhas asseguravam as contrapartidas do Tratado de Methuen. Para adivinhos, há outros vinhos... os famosos vinhos da Borgonha, ou de Bordéus, da antiga região da Guiana occitana-basca, entre outros preciosos néctares de um Baco divino di-vinho, cuja preservação de antiguidade necessita do devido arrefecimento em caves bem seladas.

Baptista
Não longe, encontramos a Igreja Matriz de Vila do Conde, cuja a entrada é interessante.
De construção biscainha, apresenta de um lado as armas de D. Manuel (num caso raro, em que ainda aparece a dupla esfera armilar, sugerida por D. João II), e do outro lado temos: a âncora da Póvoa de Varzim, o antigo barco de Vila do Conde, e um outro brazão com uma figura humana que emerge de uma concha (símbolo associado à localidade de S. Pedro de Rates).
Igreja Matriz, de S. João Baptista, em Vila do Conde (imagem).

Como a Igreja é dedicada a S. João Baptista (que aparece no topo da porta), a concha será baptismal, mas também referente à mítica presença do Apóstolo Santiago, que teria ordenado S. Pedro de Rates como primeiro Bispo de Braga (45 a 60 d.C.).
Há assim essa dupla ligação a conchas, cuidando ambas para o simbolismo do renascimento, numa igreja renascentista emanuelina. O homem que sai da concha aparece depois, com D. Sebastião, na forma de peixe, invocando esse Renascimento cristão, que seria o renascimento de Cristo, na forma humana.
O ritual baptista parece remeter para uma origem aquática, pela imersão do baptizado, ou mais simbolicamente vertendo água na sua cabeça.
No entanto, há variações baptistas.
Um outro aspecto de baptismo, era o baptismo com óleo, aplicado na unção de sacerdotes.
Aí podemos ver outro aspecto das vieiras que, virtude dos tempos, são reencontradas no símbolo de uma famosa companhia petrolífera:

A vieira usada como símbolo de petróleo pela Shell.

O petróleo, também designado como "ouro negro", passou a encerrar outros véus, ou velos de ouro negro... mas para essas considerações remetemos para um texto anterior.

Poderíamos ainda falar de outros aspectos interessantes das vieiras, nomeadamente pela sua geometria.
Há uma confluência entre parte de um quadrado e parte de um círculo, podendo ser usado para simbolizar a relação do número Pi na quadratura do círculo.
Por outro lado, as divisões naturais das vieiras (ou outras conchas) poderiam servir para marcar ângulos, constituindo um simples instrumento de posicionamento, semelhante a um vulgar quadrante, para simples uso náutico, em navegações primitivas. Esse seria um aspecto prático de orientação astral para qualquer peregrino, associando a vieira ao cajado do pastor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:13


Sirenes

por desvela, em 26.12.12
Na 2ª Parte da Monarquia Lusitana, Frei Bernardo de Brito vai arriscar um tema controverso:
- "Homens Marinhos", que é como quem diz no feminino "sereias" ou "sirenes"...
Brito sabe que o tema é controverso, e diz (pág 7, livro 5):
Nem pareça isto coisa impossível aos leitores escrupulosos de coisas pouco vulgares, porque no mesmo tempo, mandaram os Franceses outra embaixada ao Imperador Tibério, sobre um número grande destes monstros, que o mesmo mar lançara mortos na praia, e afirma Plínio (...)
Brito já antes tinha citado Plínio para falar numa "mulher marinha" que o mar lançara na costa de Lisboa, "cujos gritos ou uivos, ao tempo que morria, ouviram os moradores da terra a grande distância". Talvez faltasse a Brito o termo "sirene" que para além de designar "sereia", foi depois (no Séc. XIX) usado para designar um som característico de alarme. Mas, de entre os inúmeros exemplos que Brito cita, é também frequente serem mudos - "Meyer Baliollano, nos Anais da Flandres, conta que em 1403 foi tomada e trazida à cidade de Harlem uma mulher marítima muda, mas perfeita e proporcionada nas demais partes, a qual viveu muitos anos(...)".

A sereia, da Copenhaga de Hans Christian Andersen.

A questão habitual com que nos defrontamos ao ler textos antigos é misturar-se uma sequência de relatos perfeitamente concordantes com a história oficial - Brito está a relatar a época de Tibério - com relatos inverosímeis - Brito relata uma embaixada Lusitana a Roma por causa de um "homem-marinho" [cf. Nota 1].
Como Brito sabe que o assunto seria risível, avança com uma dezena de exemplos documentados (Plínio, Damião de Goes, Nicephoro Calisto, Mariano, Meyer Baliollano, Guiciardino, Luis Veues, Alberto Magno, Pineda, Cornelio de Amsterdam, Pyerio Valeriano e o Conde D. Pedro).

Não se pode acusar Bernardo de Brito de falta de citações e documentação. A História actual usa os mesmos métodos. A sua diferença face a qualquer autor moderno é que hoje há uma auto-censura educacional, que leva a omitir assuntos, sob pena de ser alvo de chacota, por não ser "sério".  
É isso que fará a Escola que faz Escola a partir de Alexandre Herculano. Corta todas as fontes antigas que contrariem o "politicamente incorrecto", que invoquem o "fabuloso". É uma forma diferente de censura, é mais poderosa, benigna e eficaz - aparece sob a forma de auto-censura para evitar a exposição ao ridículo. Um pensador que estiver certo de uma teoria contra-corrente sofre hoje uma censura tão poderosa quanto a que sofreu Galileu. Galileu não conseguiu convencer os outros, hoje ao fim de algum tempo o pensador é levado a desconfiar da sua sanidade. Galileu viu os seus livros banidos, o tal pensador nem conseguiria publicar um livro sério.

Em condições normais, rir-me-ia desta crença em "homens-marinhos", explicitada por Bernardo Brito. Porém, as condições estão longe de ser normais... houve uma ocultação demasiado grande de demasiados assuntos. Há razões objectivas de desconfiar - não apenas das afirmações de Brito, mas também da sua negação, pelos opositores naturais.
Resta-nos o bom senso, que vamos acumulando pela experiência... e sob esse aspecto, não tenho nenhuma informação que me permita eliminar definitivamente a hipótese de "homens-marinhos", e ainda que considere implausível, não a vou rejeitar a priori essa possibilidade.

Acabando de falar de sereias, no correr do texto sobre o tempo de Tibério, Brito vai abordar logo de seguida a morte de Jesus Cristo. Mais uma vez parece-nos estranho, politicamente incorrecto, mas Brito parece cingir-se à cronologia - ambos os factos teriam ocorrido na mesma governação.
Sob esse assunto, Bernardo Brito não será menos polémico, mas a fácil censura encontrará aí a oposição da  fé católica, a quem não interessam sereias, mas para quem os acontecimentos da vida de Jesus fazem parte da sua religião. Diz Brito
Tornando pois à continuação do império e vida de Tibério Caesar, conta Paulo Orósio, e Eutropio, que aos anos 16 da sua monarquia, no mês de Março houve um terramoto universal no mundo, acompanhado de um eclipse tão extraordinário, que não houve sábio (havendo grandes naquele tempo) que soubesse dar razão a tão novo modo de oposição como então tiveram o Sol e a Lua : tudo o qual foi aquele geral sentimento que a Natureza mostrou na morte do seu Criador, e nosso Redentor Jesus Cristo, referido no Evangelho Sagrado (Mateus, Marcos), e por coisa tão notável, e que não menos se viu nestas partes de Portugal e Espanha (onde diz Laimundo que se mostravam rochas abertas deste terramoto), que nas de Ásia e Judeia (...)
Também sobre este assunto poderia Bernardo Brito citar Plínio, já que conforme aqui referimos é suficientemente estranho o registo de anomalias que poderiam estar na causa do desajuste do Solarium Augusti, o enorme relógio solar que Octávio Augusto fizera no Campo de Marte, e que a partir dessa altura tinha ficado inútil.
É ainda curioso Brito estabelecer exactamente o dia da morte de Jesus - sexta-feira, 25 de Março, incluindo o nome dos "ladrões" também crucificados (Dimas, arrependido, e Gestas), falando ainda da ressurreição a 27 de Março, de ter feito S. Pedro seu vigário a 4 de Abril, junto ao mar da Galileia, e da "subida ao céu" apenas a 6 de Maio... tendo após 10 dias "consolado e confirmado os seu discípulos com a vinda do Espírito Santo, dando-lhe a força e sabedoria necessárias (...)"
Creio que estes detalhes, com datas precisas, estão completamente omissos na tradição católica.
Ao contrário, as datas adoptadas para a Sexta-Feira Santa usam como referência a Páscoa judaica, ajustada ao calendário lunar e não solar. Isto não deixa de ser interessante porque o carácter universal que tomou o cristianismo, não deixou de se vergar à agenda judaica. Isso poderia ser aceitável no islamismo, que vê Jesus apenas como um profeta, e usa ainda o calendário lunar. No entanto, a Bíblia católica, apesar de considerar Jesus como o Messias, não deixou de integrar o Testamento dos Velhos, incorporando por completo toda a tradição judaica fundamental, enquanto nos Evangelhos são raras as referências a esse texto, praticamente dispensando a sua leitura.

Nota 1: (26/12/2012) Sobre a embaixada que os lusitanos enviaram a Tibério diz Bernardo Brito:
"Por este próprio tempo conta Plínio que mandaram os portugueses de Lisboa uma solene embaixada a Roma, e com ela dar conta ao imperador de um portento que aparecia naquela costa, que era um homem marinho, da forma que vulgarmente o pintam, e saindo em terra, entre as rochas que pendiam sobre o mar, e faziam uma semelhança de cova, tocava uma buzina feita de concha de búzio, com tanta força, que o som dela fez advertir os moradores da terra, em quem a tangia, ficando tão admirados de sua visita, que lhe pareceu matéria bastante para com ela formarem a embaixada."

Nota 2: Convirá não esquecer também a descrição do "monstro-marinho", a Ipupiara de Pero de Magalhães Gandavo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:23


Sirenes

por desvela, em 25.12.12
Na 2ª Parte da Monarquia Lusitana, Frei Bernardo de Brito vai arriscar um tema controverso:
- "Homens Marinhos", que é como quem diz no feminino "sereias" ou "sirenes"...
Brito sabe que o tema é controverso, e diz (pág 7, livro 5):
Nem pareça isto coisa impossível aos leitores escrupulosos de coisas pouco vulgares, porque no mesmo tempo, mandaram os Franceses outra embaixada ao Imperador Tibério, sobre um número grande destes monstros, que o mesmo mar lançara mortos na praia, e afirma Plínio (...)
Brito já antes tinha citado Plínio para falar numa "mulher marinha" que o mar lançara na costa de Lisboa, "cujos gritos ou uivos, ao tempo que morria, ouviram os moradores da terra a grande distância". Talvez faltasse a Brito o termo "sirene" que para além de designar "sereia", foi depois (no Séc. XIX) usado para designar um som característico de alarme. Mas, de entre os inúmeros exemplos que Brito cita, é também frequente serem mudos - "Meyer Baliollano, nos Anais da Flandres, conta que em 1403 foi tomada e trazida à cidade de Harlem uma mulher marítima muda, mas perfeita e proporcionada nas demais partes, a qual viveu muitos anos(...)".

A sereia, da Copenhaga de Hans Christian Andersen.

A questão habitual com que nos defrontamos ao ler textos antigos é misturar-se uma sequência de relatos perfeitamente concordantes com a história oficial - Brito está a relatar a época de Tibério - com relatos inverosímeis - Brito relata uma embaixada Lusitana a Roma por causa de um "homem-marinho" [cf. Nota 1].
Como Brito sabe que o assunto seria risível, avança com uma dezena de exemplos documentados (Plínio, Damião de Goes, Nicephoro Calisto, Mariano, Meyer Baliollano, Guiciardino, Luis Veues, Alberto Magno, Pineda, Cornelio de Amsterdam, Pyerio Valeriano e o Conde D. Pedro).

Não se pode acusar Bernardo de Brito de falta de citações e documentação. A História actual usa os mesmos métodos. A sua diferença face a qualquer autor moderno é que hoje há uma auto-censura educacional, que leva a omitir assuntos, sob pena de ser alvo de chacota, por não ser "sério".  
É isso que fará a Escola que faz Escola a partir de Alexandre Herculano. Corta todas as fontes antigas que contrariem o "politicamente incorrecto", que invoquem o "fabuloso". É uma forma diferente de censura, é mais poderosa, benigna e eficaz - aparece sob a forma de auto-censura para evitar a exposição ao ridículo. Um pensador que estiver certo de uma teoria contra-corrente sofre hoje uma censura tão poderosa quanto a que sofreu Galileu. Galileu não conseguiu convencer os outros, hoje ao fim de algum tempo o pensador é levado a desconfiar da sua sanidade. Galileu viu os seus livros banidos, o tal pensador nem conseguiria publicar um livro sério.

Em condições normais, rir-me-ia desta crença em "homens-marinhos", explicitada por Bernardo Brito. Porém, as condições estão longe de ser normais... houve uma ocultação demasiado grande de demasiados assuntos. Há razões objectivas de desconfiar - não apenas das afirmações de Brito, mas também da sua negação, pelos opositores naturais.
Resta-nos o bom senso, que vamos acumulando pela experiência... e sob esse aspecto, não tenho nenhuma informação que me permita eliminar definitivamente a hipótese de "homens-marinhos", e ainda que considere implausível, não a vou rejeitar a priori essa possibilidade.

Acabando de falar de sereias, no correr do texto sobre o tempo de Tibério, Brito vai abordar logo de seguida a morte de Jesus Cristo. Mais uma vez parece-nos estranho, politicamente incorrecto, mas Brito parece cingir-se à cronologia - ambos os factos teriam ocorrido na mesma governação.
Sob esse assunto, Bernardo Brito não será menos polémico, mas a fácil censura encontrará aí a oposição da  fé católica, a quem não interessam sereias, mas para quem os acontecimentos da vida de Jesus fazem parte da sua religião. Diz Brito
Tornando pois à continuação do império e vida de Tibério Caesar, conta Paulo Orósio, e Eutropio, que aos anos 16 da sua monarquia, no mês de Março houve um terramoto universal no mundo, acompanhado de um eclipse tão extraordinário, que não houve sábio (havendo grandes naquele tempo) que soubesse dar razão a tão novo modo de oposição como então tiveram o Sol e a Lua : tudo o qual foi aquele geral sentimento que a Natureza mostrou na morte do seu Criador, e nosso Redentor Jesus Cristo, referido no Evangelho Sagrado (Mateus, Marcos), e por coisa tão notável, e que não menos se viu nestas partes de Portugal e Espanha (onde diz Laimundo que se mostravam rochas abertas deste terramoto), que nas de Ásia e Judeia (...)
Também sobre este assunto poderia Bernardo Brito citar Plínio, já que conforme aqui referimos é suficientemente estranho o registo de anomalias que poderiam estar na causa do desajuste do Solarium Augusti, o enorme relógio solar que Octávio Augusto fizera no Campo de Marte, e que a partir dessa altura tinha ficado inútil.
É ainda curioso Brito estabelecer exactamente o dia da morte de Jesus - sexta-feira, 25 de Março, incluindo o nome dos "ladrões" também crucificados (Dimas, arrependido, e Gestas), falando ainda da ressurreição a 27 de Março, de ter feito S. Pedro seu vigário a 4 de Abril, junto ao mar da Galileia, e da "subida ao céu" apenas a 6 de Maio... tendo após 10 dias "consolado e confirmado os seu discípulos com a vinda do Espírito Santo, dando-lhe a força e sabedoria necessárias (...)"
Creio que estes detalhes, com datas precisas, estão completamente omissos na tradição católica.
Ao contrário, as datas adoptadas para a Sexta-Feira Santa usam como referência a Páscoa judaica, ajustada ao calendário lunar e não solar. Isto não deixa de ser interessante porque o carácter universal que tomou o cristianismo, não deixou de se vergar à agenda judaica. Isso poderia ser aceitável no islamismo, que vê Jesus apenas como um profeta, e usa ainda o calendário lunar. No entanto, a Bíblia católica, apesar de considerar Jesus como o Messias, não deixou de integrar o Testamento dos Velhos, incorporando por completo toda a tradição judaica fundamental, enquanto nos Evangelhos são raras as referências a esse texto, praticamente dispensando a sua leitura.

Nota 1: (26/12/2012) Sobre a embaixada que os lusitanos enviaram a Tibério diz Bernardo Brito:
"Por este próprio tempo conta Plínio que mandaram os portugueses de Lisboa uma solene embaixada a Roma, e com ela dar conta ao imperador de um portento que aparecia naquela costa, que era um homem marinho, da forma que vulgarmente o pintam, e saindo em terra, entre as rochas que pendiam sobre o mar, e faziam uma semelhança de cova, tocava uma buzina feita de concha de búzio, com tanta força, que o som dela fez advertir os moradores da terra, em quem a tangia, ficando tão admirados de sua visita, que lhe pareceu matéria bastante para com ela formarem a embaixada."

Nota 2: Convirá não esquecer também a descrição do "monstro-marinho", a Ipupiara de Pero de Magalhães Gandavo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:23


Hwui Shan e Fusang

por desvela, em 12.11.12
Na sequência do texto anterior, sobre a eventual presença de Cristo na Índia, comentei sobre o papel dos missionários budistas na divulgação da religião. Esse aspecto está bem salientado no livro 
"An Inglorious Columbus", de Edward Vining, 1885

O livro fala do relato missionário de Hui Shan, monge budista do Séc. V, que teria abordado o desconhecido país de Fusang em conjunto com um grupo de budistas do Afeganistão.  Este seria o mesmo Fusang reportado por Marco Polo, e que começava a constar na Cartografia do Séc. XVIII, conforme já aqui abordámos.
Na realidade este debate sobre uma Fusang americana começa a ser explícito em França, em 1761, por Joseph de Guignes, que lança nesse ano duas memórias (cf. wiki):
  • Recherches sur les Navigations des Chinois du Cote de l'Amerique, et sur quelques Peuples situés a l'extremite orientale de l"asie. (1761)
  • Le Fou-Sang des Chinois est-il l'Amérique? Mémoires de l'Académie des Inscriptions et Belles Lettres, tome 28, Paris, 1761
A Companhia das Índias Francesa cessaria funções pouco depois, e passados 5 anos Cook é autorizado a zarpar pelo Pacífico - o Fusang americano desaparece sem rasto. No entanto, durante o Séc. XIX e até à 1ª Guerra Mundial, a questão da ligação chinesa à América estará presente nas discussões, como verificámos com Cândido Costa
Dez anos antes de Vining, em 1875 Charles Leland já tinha lançado o livro:
 Fusang or the Discovery of America by Chinese Buddhist Priests in the Fifth Century
que praticamente aborda o mesmo tema. Ou ainda, 
Notices of Fusang de William Wells, 1881, traduzido de Ma Twan-Lin (Séc. XIII).

É perfeitamente natural que a determinação dos monges budistas, na propagação da sua religião, os tivesse levado a paragens americanas. As civilizações americanas, por exemplo a Azteca ou a Inca não parecem ter acolhido essa filosofia, e se os houve, não restaram nenhuns Budas de pé, nem sentados ou mesmo deitados... ainda que Vining tenha procurado encontrar poses budistas nalgumas figuras Aztecas. De acordo com Vining, a rota seguida por Hwui Shan teria sido a seguinte:
E. Vining - suposta navegação feita por Hwui Sheng

A terra de Fusang, Fu Sang Kwoh, situar-se-ia na região californiana, e já na parte mexicana encontramos assinalado o "país das mulheres"... lembrando a motivação feminina que levou à designação do Amazonas, já em plena América do Sul.

Fu sang seria o nome dado a uma árvore sagrada, associada ao Aloe ou Agave Americano (ver chinahistoryforum.com), ou Piteira, uma espécie de cacto que quando floresce produz uma notável árvore:
A "árvore" da Piteira - Aloe ou Agave Americano

Noutra versão, o nome Fu Sang é associado a uma outra árvore - a Amoreira. A este propósito, citamos Alexander M'Alan:
Mulberry land is there, say the Chinese.
Mulberry land is here, say the Mexicans.
no livro Ancient Chinese account of the Grand Canyon (1913).

Porém, de entre estes autores, Joseph de Guignes levanta uma hipótese surpreendente, e que foi fortemente rebatida pelos seus contemporâneos - Teria sido a China uma colónia egípcia?
E se a argumentação assentava essencialmente no carácter ideográfico de ambas as escritas, não sei por que razão não seria de levantar o recíproco... até porque o Egipto apareceu quase singular a ocidente na sua faceta ideográfica. Essa argumentação continha ainda a pretensão da ligação chinesa aos povos mexicanos, que também tinham desenvolvido escritas ideográficas.

É interessante encontrar estas possibilidades abordados no Séc. XVIII, e talvez só pecassem por tardias... e por mais inverosímeis que possam parecer, é mais estranho terem desaparecido, e no meio do politicamente correcto, numa altura em que sabemos já da existência de pirâmides na China, ninguém ousa retomar as ligações.

Será que os construtores de pirâmides estavam destinados a desenvolver escritas ideográficas? 
Não parecerá estranho terem sido desenvolvidas pirâmides no Egipto, na China, no México, e sempre associadas a povos com escritas ideográficas? Não será de suspeitar de um elo comum?
Para esse efeito, Vining vai buscar uma notável associação feita por Humboldt, entre a designação dos animais associados aos signos tibetanos e os hieróglifos mexicanos para a ordem dos dias, evidenciando uma coincidência que dificilmente se poderá tomar como acidental:
Tabela de Humboldt - signos tibetanos e dias mexicanos

Ainda que se ofereça perguntar por que razão os mexicanos falariam em tigres, talvez se trate de associação com o jaguar, não sendo de excluir outras possibilidades menos convencionais - afinal foram encontradas representações de leões - ver Leão de Techialoyan, e ver agora também as piteiras, que constavam na página ao lado...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:31


Hwui Shan e Fusang

por desvela, em 11.11.12
Na sequência do texto anterior, sobre a eventual presença de Cristo na Índia, comentei sobre o papel dos missionários budistas na divulgação da religião. Esse aspecto está bem salientado no livro 
"An Inglorious Columbus", de Edward Vining, 1885

O livro fala do relato missionário de Hui Shan, monge budista do Séc. V, que teria abordado o desconhecido país de Fusang em conjunto com um grupo de budistas do Afeganistão.  Este seria o mesmo Fusang reportado por Marco Polo, e que começava a constar na Cartografia do Séc. XVIII, conforme já aqui abordámos.
Na realidade este debate sobre uma Fusang americana começa a ser explícito em França, em 1761, por Joseph de Guignes, que lança nesse ano duas memórias (cf. wiki):
  • Recherches sur les Navigations des Chinois du Cote de l'Amerique, et sur quelques Peuples situés a l'extremite orientale de l"asie. (1761)
  • Le Fou-Sang des Chinois est-il l'Amérique? Mémoires de l'Académie des Inscriptions et Belles Lettres, tome 28, Paris, 1761
A Companhia das Índias Francesa cessaria funções pouco depois, e passados 5 anos Cook é autorizado a zarpar pelo Pacífico - o Fusang americano desaparece sem rasto. No entanto, durante o Séc. XIX e até à 1ª Guerra Mundial, a questão da ligação chinesa à América estará presente nas discussões, como verificámos com Cândido Costa
Dez anos antes de Vining, em 1875 Charles Leland já tinha lançado o livro:
 Fusang or the Discovery of America by Chinese Buddhist Priests in the Fifth Century
que praticamente aborda o mesmo tema. Ou ainda, 
Notices of Fusang de William Wells, 1881, traduzido de Ma Twan-Lin (Séc. XIII).

É perfeitamente natural que a determinação dos monges budistas, na propagação da sua religião, os tivesse levado a paragens americanas. As civilizações americanas, por exemplo a Azteca ou a Inca não parecem ter acolhido essa filosofia, e se os houve, não restaram nenhuns Budas de pé, nem sentados ou mesmo deitados... ainda que Vining tenha procurado encontrar poses budistas nalgumas figuras Aztecas. De acordo com Vining, a rota seguida por Hwui Shan teria sido a seguinte:
E. Vining - suposta navegação feita por Hwui Sheng

A terra de Fusang, Fu Sang Kwoh, situar-se-ia na região californiana, e já na parte mexicana encontramos assinalado o "país das mulheres"... lembrando a motivação feminina que levou à designação do Amazonas, já em plena América do Sul.

Fu sang seria o nome dado a uma árvore sagrada, associada ao Aloe ou Agave Americano (ver chinahistoryforum.com), ou Piteira, uma espécie de cacto que quando floresce produz uma notável árvore:
A "árvore" da Piteira - Aloe ou Agave Americano

Noutra versão, o nome Fu Sang é associado a uma outra árvore - a Amoreira. A este propósito, citamos Alexander M'Alan:
Mulberry land is there, say the Chinese.
Mulberry land is here, say the Mexicans.
no livro Ancient Chinese account of the Grand Canyon (1913).

Porém, de entre estes autores, Joseph de Guignes levanta uma hipótese surpreendente, e que foi fortemente rebatida pelos seus contemporâneos - Teria sido a China uma colónia egípcia?
E se a argumentação assentava essencialmente no carácter ideográfico de ambas as escritas, não sei por que razão não seria de levantar o recíproco... até porque o Egipto apareceu quase singular a ocidente na sua faceta ideográfica. Essa argumentação continha ainda a pretensão da ligação chinesa aos povos mexicanos, que também tinham desenvolvido escritas ideográficas.

É interessante encontrar estas possibilidades abordados no Séc. XVIII, e talvez só pecassem por tardias... e por mais inverosímeis que possam parecer, é mais estranho terem desaparecido, e no meio do politicamente correcto, numa altura em que sabemos já da existência de pirâmides na China, ninguém ousa retomar as ligações.

Será que os construtores de pirâmides estavam destinados a desenvolver escritas ideográficas? 
Não parecerá estranho terem sido desenvolvidas pirâmides no Egipto, na China, no México, e sempre associadas a povos com escritas ideográficas? Não será de suspeitar de um elo comum?
Para esse efeito, Vining vai buscar uma notável associação feita por Humboldt, entre a designação dos animais associados aos signos tibetanos e os hieróglifos mexicanos para a ordem dos dias, evidenciando uma coincidência que dificilmente se poderá tomar como acidental:
Tabela de Humboldt - signos tibetanos e dias mexicanos

Ainda que se ofereça perguntar por que razão os mexicanos falariam em tigres, talvez se trate de associação com o jaguar, não sendo de excluir outras possibilidades menos convencionais - afinal foram encontradas representações de leões - ver Leão de Techialoyan, e ver agora também as piteiras, que constavam na página ao lado...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:31


Cristo na Índia

por desvela, em 11.11.12
Há uns meses atrás, num comentário amistoso, cafc colocou aqui uma questão sobre a presença de Cristo na Índia. Os interessantes links que deixou:
http://www.dominiosfantasticos.xpg.com.br/id196.htm e também id197.htm
reportavam eventuais pistas para uma presença de Cristo na Índia. Assumia-se no texto que essa presença seria posterior à crucificação. 

Nestas coisas, uma ocasional releitura pode levar a outra atenção. Aconteceu com a Chronographia repertorio dos tempos, de Manoel de Figueiredo, de 1603, que já aqui mencionámos três vezes.
E estava ali, exactamente na mesma página 131, que já aqui tinhamos mencionado - a propósito da designação Mérica para A Mérica. Antes do Capítulo XI "da América", está o Capítulo X "da Ásia" onde se lê isto:
Também a regam muitos rios caudalosos, Eufrates, Ganges, o mar Abachu. Nesta parte do mundo andou Christo nosso senhor, é mui fertil, & abundante de todo o género de cheiros, frutos, sementes (...)
Assim, despercebidamente, Figueiredo revela que Cristo "andou pela Ásia", e se isso pode ser entendido como uma referência à Palestina, enquanto parte da Ásia, era mais natural colocar-se "viveu" e não "andou"... especialmente quando se acaba de fazer referência ao Eufrates e ao Ganges. Quanto ao "mar Abachu" é uma designação perdida do Mar Tártaro, que aqui é estranhamente incluído no contexto de rios caudalosos. Talvez houvesse ainda aqui uma remniscência da ligação do Cáspio ao Oceano Ártico. O mar Tártaro era colocado a leste do Oceano Hiperbórico, de Nova Zembla ao Japão, ou seja incluiria uma parte do que é hoje considerado o Oceano Ártico.

Ora, já no fim do Séc. XIX, um russo, Novovitch, vai levantar a hipótese de Cristo ter vivido na Índia, por ter aprendido num mosteiro de Ladakh (Tibete) sobre a vida do Santo Issa, onde Isa em árabe corresponde a Jesus. Antes, em 1869, já um francês, Jacolliot, ligara o nome Cristo a Krishna, num livro: "La Bible dans l'Inde, vie de Ieseus Christna". [cf. wikipedia]
 O mosteiro de Hemis, Ladakh, onde Novovitch terá ouvido o relato de Issa.

Passados mais de 350 anos sobre a presença portuguesa na Índia, e a forte tentativa evangelizadora, parece natural que os missionários europeus tentassem eventuais semelhanças com Krishna, e que os hindus não tivessem especiais problemas em tolerar que Jesus pudesse ser uma outra encarnação de Krishna, para satisfação do invasor externo.

No entanto, como referi a cafc, não deixa de ser curiosa a expressão: "Ver para crer, como São Tomé", atendendo que foi São Tomé o apóstolo responsável pela difusão da fé na Índia, e também aquele que presenciou a Ascenção de Nª Srª, indo de encontro à hipótese de uma fuga de Jesus para a Índia com a mãe, no sentido preconizado pelo site, de que Jesus teria sobrevivido à crucificação, com a ajuda de José de Arimateia, segundo cafc, e isso estaria na origem do mito do Graal. Ora, eu diria ainda que o segredo do "cálice", será mais um simples "cale-se", como frisou Chico Buarque.

Não deixa de ser curioso o texto de Manoel de Figueiredo, referindo que "Jesus andou pela Ásia", numa altura em que os portugueses saberiam em primeira mão o que os hindus lhes reportavam.
No Ganges encontrou Alexandre Magno os Magos gimnosofistas (literalmente "sábios nús", em grego), os ascetas hindus, que lhe fizeram frente. Nesse sentido indiano, há pontos de ligação entre a doutrina asceta, o budismo, e a própria doutrina que Jesus introduzira na Judeia. A perspectiva solipsista de Jesus, que se assume como o todo e a parte, o pai e o filho, não é estranha à filosofia hindú que encara a realidade como um sonho do próprio. Os outros não passam de emanações de si mesmo, e assim é natural deverem ser tratados como irmãos. 
Curiosamente esta filosofia cristã seria adaptada por J. P. Sartre, um ateu convicto, que numa linha mais zoroastrista-socialista invocava essa irmandade social, agora mais cientificamente, apenas como filhos humanos de uma mesma natureza.

Há ainda um ponto de contacto interessante entre as religiões. O budismo terá sido a primeira religião transnacional, que rompeu com o carácter religioso local. Até aí, as religiões manifestavam-se como um aspecto cultural distinto de cada povo, levando até à noção de "povo eleito" no caso judaico. Os primeiros missionários foram monges budistas, e o cristianismo, com S. Paulo, vai seguir essa linha unificadora, tal como depois acontecerá com o islamismo. Os romanos no seu império não objectavam aos deuses locais, apenas não queriam a rejeição dos seus. A ideia de religião universal, e da utilização de missionários começa por ser uma atitude budista. Essa atitude tem sucesso no Oriente, onde se difunde extensivamente, mas estranhamente não tem registos a Ocidente, e não terá sido só por falta de esforço.
No entanto, as semelhanças entre a doutrina budista e cristã não comportam o inicial carácter judaico da religião cristã, antes da sua extensão aos "gentios", promovida por S. Paulo. Por outro lado, não constam registos de perseguições romanas a monges budistas, como a que encetaram contra os cristãos, e assim, de forma singular, o budismo apenas aparecerá difundido e implantado a Oriente da Índia. Acresce que o cristianismo e islamismo serão implantados como religiões aglutinadoras, focos de intervenção directa no poder, e tal preponderância religiosa só terá semelhança no budismo implantado no Tibete, onde os monges definiam a estrutura do Estado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:35


Cristo na Índia

por desvela, em 10.11.12
Há uns meses atrás, num comentário amistoso, cafc colocou aqui uma questão sobre a presença de Cristo na Índia. Os interessantes links que deixou:
http://www.dominiosfantasticos.xpg.com.br/id196.htm e também id197.htm
reportavam eventuais pistas para uma presença de Cristo na Índia. Assumia-se no texto que essa presença seria posterior à crucificação. 

Nestas coisas, uma ocasional releitura pode levar a outra atenção. Aconteceu com a Chronographia repertorio dos tempos, de Manoel de Figueiredo, de 1603, que já aqui mencionámos três vezes.
E estava ali, exactamente na mesma página 131, que já aqui tinhamos mencionado - a propósito da designação Mérica para A Mérica. Antes do Capítulo XI "da América", está o Capítulo X "da Ásia" onde se lê isto:
Também a regam muitos rios caudalosos, Eufrates, Ganges, o mar Abachu. Nesta parte do mundo andou Christo nosso senhor, é mui fertil, & abundante de todo o género de cheiros, frutos, sementes (...)
Assim, despercebidamente, Figueiredo revela que Cristo "andou pela Ásia", e se isso pode ser entendido como uma referência à Palestina, enquanto parte da Ásia, era mais natural colocar-se "viveu" e não "andou"... especialmente quando se acaba de fazer referência ao Eufrates e ao Ganges. Quanto ao "mar Abachu" é uma designação perdida do Mar Tártaro, que aqui é estranhamente incluído no contexto de rios caudalosos. Talvez houvesse ainda aqui uma remniscência da ligação do Cáspio ao Oceano Ártico. O mar Tártaro era colocado a leste do Oceano Hiperbórico, de Nova Zembla ao Japão, ou seja incluiria uma parte do que é hoje considerado o Oceano Ártico.

Ora, já no fim do Séc. XIX, um russo, Novovitch, vai levantar a hipótese de Cristo ter vivido na Índia, por ter aprendido num mosteiro de Ladakh (Tibete) sobre a vida do Santo Issa, onde Isa em árabe corresponde a Jesus. Antes, em 1869, já um francês, Jacolliot, ligara o nome Cristo a Krishna, num livro: "La Bible dans l'Inde, vie de Ieseus Christna". [cf. wikipedia]
 O mosteiro de Hemis, Ladakh, onde Novovitch terá ouvido o relato de Issa.

Passados mais de 350 anos sobre a presença portuguesa na Índia, e a forte tentativa evangelizadora, parece natural que os missionários europeus tentassem eventuais semelhanças com Krishna, e que os hindus não tivessem especiais problemas em tolerar que Jesus pudesse ser uma outra encarnação de Krishna, para satisfação do invasor externo.

No entanto, como referi a cafc, não deixa de ser curiosa a expressão: "Ver para crer, como São Tomé", atendendo que foi São Tomé o apóstolo responsável pela difusão da fé na Índia, e também aquele que presenciou a Ascenção de Nª Srª, indo de encontro à hipótese de uma fuga de Jesus para a Índia com a mãe, no sentido preconizado pelo site, de que Jesus teria sobrevivido à crucificação, com a ajuda de José de Arimateia, segundo cafc, e isso estaria na origem do mito do Graal. Ora, eu diria ainda que o segredo do "cálice", será mais um simples "cale-se", como frisou Chico Buarque.

Não deixa de ser curioso o texto de Manoel de Figueiredo, referindo que "Jesus andou pela Ásia", numa altura em que os portugueses saberiam em primeira mão o que os hindus lhes reportavam.
No Ganges encontrou Alexandre Magno os Magos gimnosofistas (literalmente "sábios nús", em grego), os ascetas hindus, que lhe fizeram frente. Nesse sentido indiano, há pontos de ligação entre a doutrina asceta, o budismo, e a própria doutrina que Jesus introduzira na Judeia. A perspectiva solipsista de Jesus, que se assume como o todo e a parte, o pai e o filho, não é estranha à filosofia hindú que encara a realidade como um sonho do próprio. Os outros não passam de emanações de si mesmo, e assim é natural deverem ser tratados como irmãos. 
Curiosamente esta filosofia cristã seria adaptada por J. P. Sartre, um ateu convicto, que numa linha mais zoroastrista-socialista invocava essa irmandade social, agora mais cientificamente, apenas como filhos humanos de uma mesma natureza.

Há ainda um ponto de contacto interessante entre as religiões. O budismo terá sido a primeira religião transnacional, que rompeu com o carácter religioso local. Até aí, as religiões manifestavam-se como um aspecto cultural distinto de cada povo, levando até à noção de "povo eleito" no caso judaico. Os primeiros missionários foram monges budistas, e o cristianismo, com S. Paulo, vai seguir essa linha unificadora, tal como depois acontecerá com o islamismo. Os romanos no seu império não objectavam aos deuses locais, apenas não queriam a rejeição dos seus. A ideia de religião universal, e da utilização de missionários começa por ser uma atitude budista. Essa atitude tem sucesso no Oriente, onde se difunde extensivamente, mas estranhamente não tem registos a Ocidente, e não terá sido só por falta de esforço.
No entanto, as semelhanças entre a doutrina budista e cristã não comportam o inicial carácter judaico da religião cristã, antes da sua extensão aos "gentios", promovida por S. Paulo. Por outro lado, não constam registos de perseguições romanas a monges budistas, como a que encetaram contra os cristãos, e assim, de forma singular, o budismo apenas aparecerá difundido e implantado a Oriente da Índia. Acresce que o cristianismo e islamismo serão implantados como religiões aglutinadoras, focos de intervenção directa no poder, e tal preponderância religiosa só terá semelhança no budismo implantado no Tibete, onde os monges definiam a estrutura do Estado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:35


Mayday

por desvela, em 02.05.12
Mayday... é um sinal de socorro.
Mayday... é o primeiro de Maio. 
Um dia da Maia, deusa-da-Terra, comemorado por trabalhadores/servos/escravos no mês de Maio.

O sinal de socorro pode ser entendido de muitas maneiras. Eu entendo-o como um pedido de ajuda de decisores para controlarem o Demo nas suas Demonstrações (Demonstrations=Manifestações).
Quem é o Demo?
Não precisamos falar das Terras do Demo... o Demo vê-se no grego e significa Povo.
O Demo foi e sempre será o "povo", a multidão que vive na escuridão, controlada por alguns iluminados.
Por isso, quando S. Jerónimo introduz a designação "Lucifer", transforma a expressão "portador da luz", que antes se aplicara a Cristo, no pior inimigo dos homens e de uma concepção de Deus.
O povo irá aprender a temer o "Demo", que é afinal o próprio povo, e ainda "Lucifer" que era designação de Cristo - ou seja iria ter como principal inimigo aquele que traria a luz, que libertaria o povo das trevas.
Do ponto de vista da lógica de manutenção do poder, é algo tenebrosamente bem pensado.

Na lógica do poder, podemos ter um sistema de classes, que estabelece uma hierarquia bem definida, mas que arrisca a ser pouco eficaz.

1) A primeira etapa, a escravatura, que remonta à Hera do Cobre.
Escrevo propositadamente Hera e não Era.
Os que descansam nas informações exclusivas dos livros do passado, dos testamentos dos Velhos, conhecem, desconhecendo, um detalhe importante sobre a História que virou Estória... e não se trata apenas desta História poder ficar ocultada numa nova Estória. Sobre a mentira não se erguem vencedores que reescrevem a História, erguem-se ilusões.

O sujeito que nascia na condição de escravo não era obviamente um trabalhador motivado.
A sua produção era claramente destinada a incrementar o poder de quem oprimia a sua família, a sua tribo, o seu povo. Pior que isso, os escravos reconheciam facilmente os opressores e estes podiam ser alvo de uma revolta. O exemplo que marcou esta ira foi a revolta de Spartacus, e o erro crasso, de Crasso, em reprimi-la de forma exemplar com 6000 crucificações na Via Ápia... a Cruz tornou-se definitivamente num símbolo do sofrimento dos escravos, algo continuado com o cristianismo.

2) A segunda etapa, o servilismo, que irá fundar a Hera Média, ou Idade Média.
O cristianismo teve a virtude de incutir nos escravos uma religião de aceitação do sacrifício, uma recompensa numa vida posterior, e a ideia de um juízo final. Talvez não fosse ainda motivante como factor produtivo, mas apaziguava o espírito de revolta.
A progressiva integração do cristianismo no Império Romano levou mesmo a uma substituição funcional do poder na Idade Média. Roma não caiu, apenas deixou de ser o centro de decisão política e passou a centro de decisão religiosa... No entanto, este centro religioso era afinal um centro de consenso político, que harmonizava as pretensões individuais dos diversos reinos. Os laços familiares entre as diversas famílias reais europeias eram o corpo comum às várias cabeças coroadas, uma Hidra portanto.
Os Godos serviram a ilusão de vários poderes, mas mantinham o mesmo centro... o poder reconhecido era o outorgado pelo Papa, em Roma.
Nessa transição cumpriu-se ainda uma pretensão cristã, há muito adiada... o fim da escravatura! Para além disso, a liberdade do escravo, agora servo, acabava por ser mais "barata" já que o seu senhorio não estava "obrigado a alimentá-lo".

Só que o fim da escravatura teve alguns preços... Primeiro, para os próprios escravos, que não tinham terras outorgadas, e assim ficavam completamente dependentes do trabalho em terra alheia.
Da condição de escravos, remetiam-se à condição de servos, para subsistência própria. Essa dependência, essencialmente alimentar, tornava-os na prática em novos escravos.
O sistema requeria ainda uma efectiva regressão civilizacional, por forma a não permitir grandes progressos tecnológicos, mantendo uma constante necessidade de trabalho. Os impostos seriam uma desculpa, mas o que se procurava efectivamente seria manter as cabeças dos servos concentradas na produção. Houve revoltas, mas os grupos que se revoltam seriam sempre frágeis pela falta de organização, pelas rivalidades e invejas internas... e pior, desconheciam o efectivo poder da força que enfrentavam. Em caso de necessidade, o conhecimento guardado, herdado dos Romanos (e de muitos outros antes) revelaria armas completamente desconhecidas ao uso comum do povo.
O sistema foi aparentemente eficaz durante um milénio... e não caiu, mudou de novo a sua face.

O problema principal foi a pimenta... ao fim um milénio, era necessário apimentar o sistema!
Um sistema destes vive da ocultação, de regressão, de proibição de viagens... não só de barcos, mas até de carroças (excepto para transportar alimentos). Aguenta, mas novamente não é produtivo!

A sua extensão e concertação ultrapassou a Europa, esteve presente de igual forma no mundo islâmico, e também nas sociedades asiáticas. Essa espantosa harmonia de desenvolvimento seguido de não-desenvolvimento revela uma extensão global.
No meio, entre a Europa e a Ásia, estavam os Tártaros... que de Genghis Khan a Tamerlão constituíram vastos impérios, denominados Mongóis, ou Mogol.
O Tártaro era afinal o Inferno grego... nos terrenos de Gog e Mogog
Muralha de Ferro construída pelos persas (com ajuda dos 
"sobrenaturais" Jinn) para conter a invasão dos bárbaros Gog e Magog

"In verno"... (entre escravos) o inferno da elite seria de facto uma desprotecção, no meio do povo. Por isso, a primeira evolução medieval começa com o aparecimento de literatura vernacular, na linguagem popular, fora do latim, como é o caso da Divina Comédia, de Dante.
Tal como antes o Tártaro dos Hunos ameaçara e fracturara o Império Romano, também o Tártaro de Tamerlão ou Khan parece ameaçar de novo a estabilidade euroasiática... Marco Polo atesta-o, aparecem depois os Otomanos como novo foco de preocupação, e a Velha Europa é forçada a abrir o véu a novas fronteiras. Os Tártaros desaparecerão depois com a expansão russa de Pedro e Catarina, e da memória dessa civilização ficou muito pouco, se atendermos ao esplendor relatado de Samarcanda e outras cidades.

3) Terceira etapa, o trabalhador e "cidadão", que irá definir a Hera Moderna e Contemporânea.
A solução para evolução medieval começara já a ganhar corpo com os Templários. No início, o argumento principal seria uma extensão da influência da fé, mantendo o mesmo corpo de união na expansão e consolidação ultramarina. Porém, a ideia, que beberá de influência judaica, do Templo de Salomão, e da maçonaria, será uma estrutura de base económica.
Ao beber nos clássicos, recolocar-se-ia a ilusão como base de sustentação.

De início a expansão pelos "descobrimentos" era tímida e muito controlada. Começava a surgir a pimenta que iria apimentar a sociedade europeia, mas necessitava de uma Inquisição activa, que controlava a publicação de material subversivo. Ao mesmo tempo, estas explorações iniciais eram paralelamente conquistas e destruição de civilizações e vestígios anteriores. Caíram Aztecas, Maias, Incas, mas também outras culturas, cujo nome nem sobreviveu.
Um problema efectivo seria evitar uma migração descontrolada da população para outras paragens, e por isso a ideia de colonização acabará apenas por ocorrer já no fim da Idade Moderna, Séc. XVII. 
Se por um lado os servos se tornavam mais livres, e migravam para outras paragens, aparecia uma nova servidão, novamente sob a forma de escravatura, que libertava parcialmente os trabalhadores europeus. Agora os servos podiam ter escravos, e criava-se um novo degrau, que mantinha a estrutura.

O apimentar da sociedade medieval fez o Renascimento, e o conhecimento perdido foi rapidamente recuperado. Apareceu uma nova classe média, burguesa, que aceitava as regras sob condição do seu enriquecimento. O dinheiro, antes escasso, demasiado preso ao valor do metal, passou a circular abundantemente, pelos suplementos de ouro, gerando um circuito de confiança mercantil.
A produtividade conseguia-se com esse estímulo mercantil, e os produtos deixaram de ser fabricados apenas para consumo local, iniciou-se um efectivo comércio de grande troca de bens.

Podemos distinguir duas fases. No início o comércio foi principalmente desenvolvido pelo circuito de navegação com o Oriente. No Ocidente, no continente americano, houve "conquistadores", e as colónias demoraram a desenvolver-se, pelo que não havia propriamente necessidade de trocas, havia um envio de mercadorias para Espanha. Na parte Oriental foi diferente, não houve conquista portuguesa, e foi por esse lado que se consolidou a importância comercial, depois através das diversas Companhias das Índias Orientais.
O principal foco de comércio seria interno à Europa, e não teve o mesmo impacto de desenvolvimento pelo lado da Índia ou da China. Foi dentro da Europa que se desenvolveram as estruturas de comércio, centradas nas Companhias das Índias. Com Henrique VIII em Inglaterra, e com o favorecimento à Reforma de Lutero, noutros reinos, o centralismo do poder papal em Roma foi perdendo a sua importância, e mesmo a Contra-Reforma não alterou isso.

Com a Guerra dos Trinta Anos, a decisão passou por uma independência das nações face ao poder centralizado em Roma, mas principalmente permitiu ainda uma autonomia dessas Companhias das Índias Orientais, que iriam consolidar o comércio. Gerou-se um poder comercial independente do poder real, e a estrutura de poder das nações complexificou-se. O governo deixou de estar centrado na aristocracia, já que passava a depender fortemente do comércio dominado pela burguesia.
Por um lado, há experiências no sentido de libertação total da aristocracia, que começam com a Guerra Civil Inglesa, e em que Cromwell será o primeiro regente de ascendência não real na Europa, desde o Império Romano. Por outro lado, há tentativas de libertação do poder comercial das Companhias das Indias, que no caso francês pela bancarrota levaram à Revolução Francesa.
A burguesia tenta reinstalar a ideia de República, mas a sua fragilidade, e a facilidade de manipulação do ímpeto popular, caem nas armadilhas cortesãs, na falta de referencial unificador (o rei), e acabam por adiar o projecto. As primeiras grandes repúblicas só vão aparecer na transição do Séc. XIX para o XX, se excluirmos os exemplos americanos, onde não havia cortes instaladas, ou ainda "pequenas" repúblicas, como a Holanda (que regressará a monarquia) ou Veneza.

O atraso na descoberta e colonização de novos territórios teve inicialmente a responsabilidade no centralismo de Roma, mas prosseguirá com as várias Companhias das Índias. Uma razão, entre outras, terá sido a necessidade de consolidar e fortalecer o poder comercial. As colonizações sob controlo das regências europeias funcionariam no sentido de exploração dos territórios, e não propriamente no sentido do desenvolvimento comercial.
O grande projecto será a criação de raiz um Estado de modelo comercial, que serão os Estados Unidos. Uma burguesia, unida de forma trans-nacional através da maçonaria, aparece assim apostada num modelo de um "mundo novo", liberto da influência aristocrática.

O problema da real escravatura, que ocorre em simultâneo, aparece como algo relegado para segundo plano, na consolidação da estrutura americana. O modelo de libertação dos servos, deixara esquecida a escravatura, na lógica economicista. Os próprios trabalhadores acabam por ficar desprotegidos no pragmatismo do livre capital. De escravos a servos, e depois a cidadãos trabalhadores, os sistemas acabam por não conseguir impedir o estabelecimento de uma nova aristocracia que exige servos.
É nesta lógica de problema trans-nacional que surgem as ideias marxistas, e o palco escolhido será uma Rússia sob a forma de União Soviética. Esta lógica trans-nacional acaba por abafar as nacionalidades, reduzindo-lhes a História e a margem de manobra.

As experiências republicanas europeias (Itália, Portugal, Espanha, Alemanha) acabam por reeditar esse espírito nacionalista, entretanto submerso ou humilhado, sob a forma de regimes ditatoriais. As monarquias liberais, menos susceptíveis a tomadas súbitas de poder, e ligadas entre si, reagem.
A essa aliança trans-nacional, juntar-se-ão EUA e URSS, regimes aparentemente antagónicos, mas com génese idêntica, que derrotarão a visão nacionalista na 2ª Guerra Mundial.
Qualquer visão nacionalista é reprimida, pois não resolveria o problema global, e a médio prazo retomaríamos as guerras habituais entre nações, mas numa escala bem maior. Quanto à URSS, o sistema de controlo centralizado acabou por criar vícios de poder semelhantes aos da aristocracia, acabando por sucumbir à própria experiência.

Com tanto para esconder, tudo se vai mantendo escondido... mas raramente esquecido!
Por isso, os problemas nacionalistas, que resultam da falta de verdade histórica, acabam por ser o maior problema para ordem trans-nacional, firmemente alicerçada no comércio, e o seu controlo é habitualmente associado à maçonaria e ligação judaica, enquanto poder trans-nacional.
A exposição da verdade histórica é reprimida, pelo exemplo traumático da Revolução Francesa, e pela constatação de que a verdade social, a crença, consegue ser facilmente manipulada e sobrepor-se a qualquer racionalidade... especialmente se essa racionalidade tiver atingido limites não racionais!

Ao mesmo tempo acaba por se sobrepor uma visão relativa, ou relativista... da verdade e da felicidade.
Cada indivíduo cresce e forma as suas expectativas de acordo com a sua educação e do que conhece, por isso a felicidade, ou a verdade, acabam por estar condicionadas pela orientação dessa informação. Crê-se assim ser perfeitamente possível oferecer uma ilusão de vida com expectativas de felicidade, onde alguns acidentes podem ser nefastos ou agradáveis, não precisando de justificação.
Os mais ambiciosos, ao subirem demasiado alto, levados na tentação de um Fausto de Goethe, podem confrontar-se com uma realidade completamente diferente... e exprimem esses sentimentos de censura e frustração sob forma artística ocasionalmente apreciada e recompensada, mas também facilmente esquecida.

Na base da pirâmide pode criar-se a ilusão de felicidade e de verdade, mas as falhas são notórias quando se começa a subir, e o risco de boicote começa com quem se apercebe da prisão em que está encerrado, comprometendo toda a estabilidade do sistema ilusório... e que, apesar de tudo, de poder ser visto apenas como uma forma de aumentar a produtividade do trabalho, trouxe um grau de liberdade sem precedentes, quando olhado o início desta história.


In the Kingdom of the Blind the One-Eyed Are Kings

If it were within, within our power
Beyond the reach of slavish pride
To no longer harbour grievances
Behind the mask's opportunist's facade
We could welcome the responsibility
Like a long lost friend
And re-establish the laughter
In the dolls house once again
For time has imprisoned us in the order of our years
In the discipline of our ways
And in the passing of momentary stillness
We can see our chaos in motion, our chaos in motion
We can see our chaos in motion
View our chaos in motion


(1 e 2 de Maio de 2012)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:46


Mayday

por desvela, em 01.05.12
Mayday... é um sinal de socorro.
Mayday... é o primeiro de Maio. 
Um dia da Maia, deusa-da-Terra, comemorado por trabalhadores/servos/escravos no mês de Maio.

O sinal de socorro pode ser entendido de muitas maneiras. Eu entendo-o como um pedido de ajuda de decisores para controlarem o Demo nas suas Demonstrações (Demonstrations=Manifestações).
Quem é o Demo?
Não precisamos falar das Terras do Demo... o Demo vê-se no grego e significa Povo.
O Demo foi e sempre será o "povo", a multidão que vive na escuridão, controlada por alguns iluminados.
Por isso, quando S. Jerónimo introduz a designação "Lucifer", transforma a expressão "portador da luz", que antes se aplicara a Cristo, no pior inimigo dos homens e de uma concepção de Deus.
O povo irá aprender a temer o "Demo", que é afinal o próprio povo, e ainda "Lucifer" que era designação de Cristo - ou seja iria ter como principal inimigo aquele que traria a luz, que libertaria o povo das trevas.
Do ponto de vista da lógica de manutenção do poder, é algo tenebrosamente bem pensado.

Na lógica do poder, podemos ter um sistema de classes, que estabelece uma hierarquia bem definida, mas que arrisca a ser pouco eficaz.

1) A primeira etapa, a escravatura, que remonta à Hera do Cobre.
Escrevo propositadamente Hera e não Era.
Os que descansam nas informações exclusivas dos livros do passado, dos testamentos dos Velhos, conhecem, desconhecendo, um detalhe importante sobre a História que virou Estória... e não se trata apenas desta História poder ficar ocultada numa nova Estória. Sobre a mentira não se erguem vencedores que reescrevem a História, erguem-se ilusões.

O sujeito que nascia na condição de escravo não era obviamente um trabalhador motivado.
A sua produção era claramente destinada a incrementar o poder de quem oprimia a sua família, a sua tribo, o seu povo. Pior que isso, os escravos reconheciam facilmente os opressores e estes podiam ser alvo de uma revolta. O exemplo que marcou esta ira foi a revolta de Spartacus, e o erro crasso, de Crasso, em reprimi-la de forma exemplar com 6000 crucificações na Via Ápia... a Cruz tornou-se definitivamente num símbolo do sofrimento dos escravos, algo continuado com o cristianismo.

2) A segunda etapa, o servilismo, que irá fundar a Hera Média, ou Idade Média.
O cristianismo teve a virtude de incutir nos escravos uma religião de aceitação do sacrifício, uma recompensa numa vida posterior, e a ideia de um juízo final. Talvez não fosse ainda motivante como factor produtivo, mas apaziguava o espírito de revolta.
A progressiva integração do cristianismo no Império Romano levou mesmo a uma substituição funcional do poder na Idade Média. Roma não caiu, apenas deixou de ser o centro de decisão política e passou a centro de decisão religiosa... No entanto, este centro religioso era afinal um centro de consenso político, que harmonizava as pretensões individuais dos diversos reinos. Os laços familiares entre as diversas famílias reais europeias eram o corpo comum às várias cabeças coroadas, uma Hidra portanto.
Os Godos serviram a ilusão de vários poderes, mas mantinham o mesmo centro... o poder reconhecido era o outorgado pelo Papa, em Roma.
Nessa transição cumpriu-se ainda uma pretensão cristã, há muito adiada... o fim da escravatura! Para além disso, a liberdade do escravo, agora servo, acabava por ser mais "barata" já que o seu senhorio não estava "obrigado a alimentá-lo".

Só que o fim da escravatura teve alguns preços... Primeiro, para os próprios escravos, que não tinham terras outorgadas, e assim ficavam completamente dependentes do trabalho em terra alheia.
Da condição de escravos, remetiam-se à condição de servos, para subsistência própria. Essa dependência, essencialmente alimentar, tornava-os na prática em novos escravos.
O sistema requeria ainda uma efectiva regressão civilizacional, por forma a não permitir grandes progressos tecnológicos, mantendo uma constante necessidade de trabalho. Os impostos seriam uma desculpa, mas o que se procurava efectivamente seria manter as cabeças dos servos concentradas na produção. Houve revoltas, mas os grupos que se revoltam seriam sempre frágeis pela falta de organização, pelas rivalidades e invejas internas... e pior, desconheciam o efectivo poder da força que enfrentavam. Em caso de necessidade, o conhecimento guardado, herdado dos Romanos (e de muitos outros antes) revelaria armas completamente desconhecidas ao uso comum do povo.
O sistema foi aparentemente eficaz durante um milénio... e não caiu, mudou de novo a sua face.

O problema principal foi a pimenta... ao fim um milénio, era necessário apimentar o sistema!
Um sistema destes vive da ocultação, de regressão, de proibição de viagens... não só de barcos, mas até de carroças (excepto para transportar alimentos). Aguenta, mas novamente não é produtivo!

A sua extensão e concertação ultrapassou a Europa, esteve presente de igual forma no mundo islâmico, e também nas sociedades asiáticas. Essa espantosa harmonia de desenvolvimento seguido de não-desenvolvimento revela uma extensão global.
No meio, entre a Europa e a Ásia, estavam os Tártaros... que de Genghis Khan a Tamerlão constituíram vastos impérios, denominados Mongóis, ou Mogol.
O Tártaro era afinal o Inferno grego... nos terrenos de Gog e Mogog
Muralha de Ferro construída pelos persas (com ajuda dos 
"sobrenaturais" Jinn) para conter a invasão dos bárbaros Gog e Magog

"In verno"... (entre escravos) o inferno da elite seria de facto uma desprotecção, no meio do povo. Por isso, a primeira evolução medieval começa com o aparecimento de literatura vernacular, na linguagem popular, fora do latim, como é o caso da Divina Comédia, de Dante.
Tal como antes o Tártaro dos Hunos ameaçara e fracturara o Império Romano, também o Tártaro de Tamerlão ou Khan parece ameaçar de novo a estabilidade euroasiática... Marco Polo atesta-o, aparecem depois os Otomanos como novo foco de preocupação, e a Velha Europa é forçada a abrir o véu a novas fronteiras. Os Tártaros desaparecerão depois com a expansão russa de Pedro e Catarina, e da memória dessa civilização ficou muito pouco, se atendermos ao esplendor relatado de Samarcanda e outras cidades.

3) Terceira etapa, o trabalhador e "cidadão", que irá definir a Hera Moderna e Contemporânea.
A solução para evolução medieval começara já a ganhar corpo com os Templários. No início, o argumento principal seria uma extensão da influência da fé, mantendo o mesmo corpo de união na expansão e consolidação ultramarina. Porém, a ideia, que beberá de influência judaica, do Templo de Salomão, e da maçonaria, será uma estrutura de base económica.
Ao beber nos clássicos, recolocar-se-ia a ilusão como base de sustentação.

De início a expansão pelos "descobrimentos" era tímida e muito controlada. Começava a surgir a pimenta que iria apimentar a sociedade europeia, mas necessitava de uma Inquisição activa, que controlava a publicação de material subversivo. Ao mesmo tempo, estas explorações iniciais eram paralelamente conquistas e destruição de civilizações e vestígios anteriores. Caíram Aztecas, Maias, Incas, mas também outras culturas, cujo nome nem sobreviveu.
Um problema efectivo seria evitar uma migração descontrolada da população para outras paragens, e por isso a ideia de colonização acabará apenas por ocorrer já no fim da Idade Moderna, Séc. XVII. 
Se por um lado os servos se tornavam mais livres, e migravam para outras paragens, aparecia uma nova servidão, novamente sob a forma de escravatura, que libertava parcialmente os trabalhadores europeus. Agora os servos podiam ter escravos, e criava-se um novo degrau, que mantinha a estrutura.

O apimentar da sociedade medieval fez o Renascimento, e o conhecimento perdido foi rapidamente recuperado. Apareceu uma nova classe média, burguesa, que aceitava as regras sob condição do seu enriquecimento. O dinheiro, antes escasso, demasiado preso ao valor do metal, passou a circular abundantemente, pelos suplementos de ouro, gerando um circuito de confiança mercantil.
A produtividade conseguia-se com esse estímulo mercantil, e os produtos deixaram de ser fabricados apenas para consumo local, iniciou-se um efectivo comércio de grande troca de bens.

Podemos distinguir duas fases. No início o comércio foi principalmente desenvolvido pelo circuito de navegação com o Oriente. No Ocidente, no continente americano, houve "conquistadores", e as colónias demoraram a desenvolver-se, pelo que não havia propriamente necessidade de trocas, havia um envio de mercadorias para Espanha. Na parte Oriental foi diferente, não houve conquista portuguesa, e foi por esse lado que se consolidou a importância comercial, depois através das diversas Companhias das Índias Orientais.
O principal foco de comércio seria interno à Europa, e não teve o mesmo impacto de desenvolvimento pelo lado da Índia ou da China. Foi dentro da Europa que se desenvolveram as estruturas de comércio, centradas nas Companhias das Índias. Com Henrique VIII em Inglaterra, e com o favorecimento à Reforma de Lutero, noutros reinos, o centralismo do poder papal em Roma foi perdendo a sua importância, e mesmo a Contra-Reforma não alterou isso.

Com a Guerra dos Trinta Anos, a decisão passou por uma independência das nações face ao poder centralizado em Roma, mas principalmente permitiu ainda uma autonomia dessas Companhias das Índias Orientais, que iriam consolidar o comércio. Gerou-se um poder comercial independente do poder real, e a estrutura de poder das nações complexificou-se. O governo deixou de estar centrado na aristocracia, já que passava a depender fortemente do comércio dominado pela burguesia.
Por um lado, há experiências no sentido de libertação total da aristocracia, que começam com a Guerra Civil Inglesa, e em que Cromwell será o primeiro regente de ascendência não real na Europa, desde o Império Romano. Por outro lado, há tentativas de libertação do poder comercial das Companhias das Indias, que no caso francês pela bancarrota levaram à Revolução Francesa.
A burguesia tenta reinstalar a ideia de República, mas a sua fragilidade, e a facilidade de manipulação do ímpeto popular, caem nas armadilhas cortesãs, na falta de referencial unificador (o rei), e acabam por adiar o projecto. As primeiras grandes repúblicas só vão aparecer na transição do Séc. XIX para o XX, se excluirmos os exemplos americanos, onde não havia cortes instaladas, ou ainda "pequenas" repúblicas, como a Holanda (que regressará a monarquia) ou Veneza.

O atraso na descoberta e colonização de novos territórios teve inicialmente a responsabilidade no centralismo de Roma, mas prosseguirá com as várias Companhias das Índias. Uma razão, entre outras, terá sido a necessidade de consolidar e fortalecer o poder comercial. As colonizações sob controlo das regências europeias funcionariam no sentido de exploração dos territórios, e não propriamente no sentido do desenvolvimento comercial.
O grande projecto será a criação de raiz um Estado de modelo comercial, que serão os Estados Unidos. Uma burguesia, unida de forma trans-nacional através da maçonaria, aparece assim apostada num modelo de um "mundo novo", liberto da influência aristocrática.

O problema da real escravatura, que ocorre em simultâneo, aparece como algo relegado para segundo plano, na consolidação da estrutura americana. O modelo de libertação dos servos, deixara esquecida a escravatura, na lógica economicista. Os próprios trabalhadores acabam por ficar desprotegidos no pragmatismo do livre capital. De escravos a servos, e depois a cidadãos trabalhadores, os sistemas acabam por não conseguir impedir o estabelecimento de uma nova aristocracia que exige servos.
É nesta lógica de problema trans-nacional que surgem as ideias marxistas, e o palco escolhido será uma Rússia sob a forma de União Soviética. Esta lógica trans-nacional acaba por abafar as nacionalidades, reduzindo-lhes a História e a margem de manobra.

As experiências republicanas europeias (Itália, Portugal, Espanha, Alemanha) acabam por reeditar esse espírito nacionalista, entretanto submerso ou humilhado, sob a forma de regimes ditatoriais. As monarquias liberais, menos susceptíveis a tomadas súbitas de poder, e ligadas entre si, reagem.
A essa aliança trans-nacional, juntar-se-ão EUA e URSS, regimes aparentemente antagónicos, mas com génese idêntica, que derrotarão a visão nacionalista na 2ª Guerra Mundial.
Qualquer visão nacionalista é reprimida, pois não resolveria o problema global, e a médio prazo retomaríamos as guerras habituais entre nações, mas numa escala bem maior. Quanto à URSS, o sistema de controlo centralizado acabou por criar vícios de poder semelhantes aos da aristocracia, acabando por sucumbir à própria experiência.

Com tanto para esconder, tudo se vai mantendo escondido... mas raramente esquecido!
Por isso, os problemas nacionalistas, que resultam da falta de verdade histórica, acabam por ser o maior problema para ordem trans-nacional, firmemente alicerçada no comércio, e o seu controlo é habitualmente associado à maçonaria e ligação judaica, enquanto poder trans-nacional.
A exposição da verdade histórica é reprimida, pelo exemplo traumático da Revolução Francesa, e pela constatação de que a verdade social, a crença, consegue ser facilmente manipulada e sobrepor-se a qualquer racionalidade... especialmente se essa racionalidade tiver atingido limites não racionais!

Ao mesmo tempo acaba por se sobrepor uma visão relativa, ou relativista... da verdade e da felicidade.
Cada indivíduo cresce e forma as suas expectativas de acordo com a sua educação e do que conhece, por isso a felicidade, ou a verdade, acabam por estar condicionadas pela orientação dessa informação. Crê-se assim ser perfeitamente possível oferecer uma ilusão de vida com expectativas de felicidade, onde alguns acidentes podem ser nefastos ou agradáveis, não precisando de justificação.
Os mais ambiciosos, ao subirem demasiado alto, levados na tentação de um Fausto de Goethe, podem confrontar-se com uma realidade completamente diferente... e exprimem esses sentimentos de censura e frustração sob forma artística ocasionalmente apreciada e recompensada, mas também facilmente esquecida.

Na base da pirâmide pode criar-se a ilusão de felicidade e de verdade, mas as falhas são notórias quando se começa a subir, e o risco de boicote começa com quem se apercebe da prisão em que está encerrado, comprometendo toda a estabilidade do sistema ilusório... e que, apesar de tudo, de poder ser visto apenas como uma forma de aumentar a produtividade do trabalho, trouxe um grau de liberdade sem precedentes, quando olhado o início desta história.



In the Kingdom of the Blind the One-Eyed Are Kings

If it were within, within our power
Beyond the reach of slavish pride
To no longer harbour grievances
Behind the mask's opportunist's facade
We could welcome the responsibility
Like a long lost friend
And re-establish the laughter
In the dolls house once again
For time has imprisoned us in the order of our years
In the discipline of our ways
And in the passing of momentary stillness
We can see our chaos in motion, our chaos in motion
We can see our chaos in motion
View our chaos in motion


(1 e 2 de Maio de 2012)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:46


Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Maio 2017

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D