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Outros Quinhentos

por desvela, em 25.03.14
"Outros Quinhentos" é uma expressão razoavelmente popular cuja origem parece algo incerta. Uma das várias explicações que vi apontava para uma coima por injúria à elite nobre.

Deveríamos ter entrado este ano com alguma comemoração relativa à primeira notícia da chegada a Timor. Essa notícia remetia para Janeiro de 1514, e portanto estão já quinhentos anos passados. 
Outros quinhentos anos passaram sobre a notícia da chegada à China de Jorge Álvares, em 1513.

Não houve comemoração significativa destes quinhentos, porquê? São precisos outros quinhentos?
É claro que se pode falar da "crise"... a tal crise selectiva que só afecta parte da estrutura, mas como é óbvio não há nenhuma crise económica que impedisse que se falasse abundantemente do assunto.
A menos, é claro, que tal crise impusesse uma qualquer chantagem que impedisse a menção desse período épico português. Bom, mas isso seria alinhar por uma daquelas teorias da conspiração - sei lá, que os judeus não esqueciam a expulsão ibérica, e que do muro das lamentações de Wall Street imporiam um enorme garrote financeiro. Qualquer coisa absurda desse género.
Ora, como isso não parece fazer sentido nenhum, resta a habitual incompetência e insensibilidade governativa... por acaso de um governo da ala mais ligada aos símbolos da história nacional.
Portanto, esta explicação também parece muito incompetente, e ficamos perdidos. 
Serão outros quinhentos?

É claro que se pode argumentar que a vice-regência de Afonso de Albuquerque foi muito traumática no Oriente, e conviria não hostilizar parceiros comerciais com "más lembranças"... mas dificilmente há herdeiros directos desses reinos, e o "politicamente correcto" não chegaria ao ponto de se evitar a comemoração intramuros. 
O "César do Oriente", como foi epitetado, estabeleceu de facto um domínio completo sobre o Índico, abrindo a comunicação directa à China após a conquista de Malaca em 1511, o que libertou a entrada no estreito. Podem-se questionar as datas a partir daqui... logo de seguida, os navios com bandeira portuguesa navegaram pelas diversas ilhas indonésias, até atingirem as Molucas e Timor. Pode ter sido um, dois ou três anos depois, mas é difícil de acreditar que a maioria das ilhas da Indonésia até à Austrália não foi pelo menos avistada, e em grande parte cartografada durante a regência de Afonso de Albuquerque. Quando Pedro Nunes refere que tudo tinha sido descoberto, desde a mais remota ilha ao simples penedo ou baixio, reporta mais de 20 anos depois, mas é natural que o conhecimento global já estivesse presente em 1514 como atesta o Globo do Mapa de Marinharia.

Apesar de haver quem esteja disposto a todo o folclore da negação (e é claro, com espaço de antena para isso), a chegada a Timor em 1514 (pelo menos) é confirmada por Armando Cortesão (Esparsos, Vol. 3, pag. 326, Acta Univ. Conimbrigensis, 1975), que diz o seguinte:
"Na Suma Oriental confirma Tomé Pires esta viagem do junco português à China, quando, escrevendo em Dezembro de 1513, ou começo de Janeiro de 1514, informa: «Lugares onde os nosso juncos e naus foram; as nossas naus a Java, a Banda, a China. Junco é a Pacee(?), a Paleacate(?); agora vão a Timor por sândalos, e vão a outras partes e foi já nosso junco a Pegú ao porto de Martaniane(?)» (fol. 177r) (118). A informação tem ainda o valor especial de nos dizer, de fonte bem autorizada e fidedigna, quem em 1514 foi um junco de Portugueses a Timor, em que iriam Portugueses, como foram nos outros (119).
Na nota (119) menciona-se uma carta de Rui de Brito que diz que não teriam então chegado a Timor, mas o próprio Cortesão esclarece que Brito fala do passado e Pires do presente, 1514. No passado mês de Fevereiro Xanana Gusmão esteve em Portugal, e como podemos ler, não houve menção a esse evento histórico na comunicação social.

Bom, mas este texto não é certamente sobre política, manipulação histórica, nem tão pouco para lamentar a falta de comemorações, sempre muito desligadas da população... Cada macaco no seu galho, e à racionalidade humana só compete distinguir naturais incertezas de evidentes contradições.

Este texto é sobre outros quinhentos: - Nan Madol.
 
Nan Madol - Micronésia (Ilhas Carolinas)

Por lapso, esqueci-me de juntar este conjunto monumental no texto Lemuria, onde referi a pedra-dinheiro de Palau... Foi agora num comentário de Maria da Fonte que relembrei que este monumento ainda não tinha aqui tido nenhuma referência, apesar de ser várias vezes falado nos comentários, ligado à ideia do continente perdido, Mu. 
Não vou falar sobre Mu, porque já de alguma forma foi mencionado no texto sobre a Lemuria, e penso tratar-se do mesmo mito. Há por vezes ideias sobre continentes de dimensões gigantescas, como se isso acrescentasse dimensão à civilização. Na realidade basta reparar na enorme superfície euro-asiática para perceber que é na sua maioria inabitada. O mesmo se passa na América, basta reparar na grande Amazónia ou no enorme Canadá. Mesmo com 6 biliões de pessoas, a nossa concentração dá-se em pontos muito particulares... e ilhas de dimensão menor, como o arquipélago do Japão, podem oferecer um grande desenvolvimento. Por isso, a ideia de continentes de grande dimensão apenas traria mais terra inabitada a um planeta que já tem muita terra inabitada.
Conforme referi no texto sobre Lemuria, o aumento do nível do mar terá submergido uma grande parte da região da Melanésia, então contígua da Malásia até às ilhas da Nova-Guiné. Essa parte era suficientemente extensa para corresponder ao afundamento de uma superfície semelhante à da Austrália, justificando-se perfeitamente essa associação mítica àquelas paragens.

O complexo monumental de Nan Madol não revela nenhum surpreendente esplendor técnico, mas é notável do ponto de vista megalítico, e remete mais uma vez para uma parte da história que parece ter submergido juntamente com Mu. Essa submersão não vem apenas de natural falta de dados, vem de propositada ocultação ou distorção. 

Damos um exemplo ilustrativo. O texto de Armando Cortesão foi encontrado ao procurar informação adicional sobre as Ilhas Carolinas. Essa descoberta é atribuída a Gomes de Sequeira em 1525 (ou Janeiro de 1526, ver pág. 320 de Esparsos, vol. III). Pelo menos a ilha de Palau deverá ter tido o nome de Sequeira, antes de passarem a ser nomeadas Novas-Filipinas, por Álvaro Saavedra em 1529, e depois Carolinas, por respeito ao imperador espanhol Carlos (V?). 
Esta nomeação de Carolinas é encontrada em quase todo o lado, mas há uma versão diferente. Numa tradução de Jacques Arago, viajante francês, lemos ("De um a outro pólo", pág. 177) numa nota de rodapé que afinal teria sido o espanhol Ponce de Léon (!!!) a descobri-las em 1512, e que o nome Carolinas era devido a Carlos IX, rei francês, é claro, e que o nome teria sido mantido por Carlos II, rei inglês. O facto dos nomes reais serem moda numa certa época permite estas variações, em que nomes similares servem vários propósitos ambíguos, só faltava um Karl germânico, para justificar Karolinen sob sua alçada. Só encontrámos na tradução do livro de Arago tal versão afrancesada, mas presumo que tenha origem noutra fonte. Isto mostra suficientemente como as tentativas de alterar o registo histórico foram constantes e tiveram frequentemente origem nas mesmas paragens europeias.

A contrario desta tentativa francesa, Cortesão procura provar que a viagem de Sequeira não teria chegado à Austrália, como entretanto foi pretendido, e dá uma justificação pelos relatos e pelos ventos... De facto a documentação existente não parece ter nenhuma referência directa à Austrália, até porque não seria assim nomeada à época, como é natural. Os mapas que Cortesão conhecia pareciam estar fora de uso para fazer prova. Não parecia haver nome, nem registo da navegação que teria permitido fazê-los. No entanto, esses mapas existem e mostram o conhecimento completo à época de D. Sebastião, pelo menos. Qualquer outra pretensão é apenas pura formalidade burocrática ou cegueira.


Nota adicional (01/04/2014):
Esta referência a Nan Madol foi colocada há já muito tempo num comentário de José Manuel, onde se refere a descoberta de Nan Madol por Pedro Fernandes Queirós e a sua associação à colónia de Nova Jerusalém, por vezes ligada também a Vanuatu.
Mapa de 1612 de Hessel Gerritsz onde se aponta a Australis Incognitae 
a uma descoberta de Queirós.
Este mapa é especialmente relevante por ser holandês...

Já tínhamos aqui mencionado o cartógrafo holandês Gerritsz, que em 1618, ou seja passados 6 anos, já poderá desenhar a costa australiana ocidental com toda a precisão... de Queirós, a Australia terá apenas herdado o nome com que a baptizara - Australia do Espírito Santo.
Qual a diferença entre 1612 e 1618?
Em 1618 é declarada a Guerra dos Trinta Anos, e a Holanda vai aparecer como autónoma reivindicando então o seu quinhão de descobertas, então ocultas, nomeadamente a Australia.

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publicado às 06:24


Batochina e Pulo Cabale

por desvela, em 22.01.14
Na sequência de um comentário sobre Zheng He, navegador chinês popularizado por Gavin Menzies no livro 1421 - ou seja, o ano em que a China tinha percorrido os mares até ao Atlântico, falei numa hipótese de "ameaça chinesa" à Europa, por essa altura.
O José Manuel fez o favor de indicar um bom documentário da televisão ARTE sobre Zheng He:

O documentário estabelece uma ligação entre Zheng He e o conhecimento árabe de navegação, o que teria permitido aos chineses uma aventura, registada pelo menos certamente até às costas africanas, em particular a Madagáscar (chamada Ilha de São Lourenço, pelos portugueses).
Depois, subitamente, tal como rapidamente havia surgido, o interesse chinês pelas navegações parece desaparecer.
Os tempos são demasiado coincidentes para não se estabelecer alguma relação. Se a China avançava no início do Séc. XV em direcção à Europa, e o ano 1421 é marcante... também é marcante no mesmo período para as navegações portuguesas, que em 1418 e 1419 registam o Porto Santo e a Madeira.
Portanto, se uns avançavam numa direcção, outros avançavam na outra - terá havido recontros?
É difícil saber porque à época seria possível registar como "mouro" tudo o que fosse inimigo.
No entanto, não é de excluir que a ameaça asiática estivesse na ordem de partida papal em direcção ao Sul.
O tempo que demora a passagem do "Cabo Bojador" é tão fictício que pode corresponder a várias interpretações, enquanto alegoria de outro facto. Se já estabeleci um paralelismo entre as navegações africanas e americanas, podendo isso corresponder a uma tentativa de descoberta de passagem ocidental para as Índias (ao jeito de Colombo), talvez seja mais verosímil pensar numa autorização de passagem, libertada a ameaça chinesa nas costas africanas.

Numa recensão crítica à obra de Menzies (feita por J. M. Azevedo e Silva), podemos ler:
Em boa verdade, os portugueses começaram a descobrir «mares nunca dantes navegados» em 1434, quando Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, precisamente (pura coincidência?) no ano seguinte ao fim das navegações chinesas do almirante Zeng He (1405-1433).
Portanto, aquelas duas palavras com interrogação "(pura coincidência?)" são uma forma abreviada de sugerir algo semelhante... O Bojador teria sido um "cabo de trabalhos" com vista a libertar a parte ocidental de África da presença chinesa.
Segue-se outro problema, que seria libertar mesmo a parte oriental, e assim permitir o avanço para a Índia, esse cabo de trabalhos seria o da Boa Esperança.
Se esses "cabos de trabalhos" foram apenas diplomáticos ou representaram violentas acções de guerra naval... é algo difícil de estabelecer.
Porquê?
Porque nada justifica os mais de 50 anos entre a passagem do Bojador e a chegada ao Cabo da Boa Esperança... conforme já se disse, era mais rápido ir a pé, pela praia... bastariam 1 ou 2 anos, a caminhar sem grandes pressas - é só fazer contas.
Ao contrário, quando Vasco da Gama entra no Índico, deveria deparar-se com uma poderosa ameaça naval, e essa viagem é feita sem problemas demasiado dramáticos.
Portanto, poderia bem ter ocorrido que a ameaça naval tivesse sido debelada ao tempo de D. João II, deixando o Oceano Índico pacificado para a entrada de Vasco da Gama.

Por outro lado, devemos reparar na história dos descobrimentos que é divulgada, começando na figura de Marco Polo, que visita Kublai Khan, numa viagem de 1271 a 1295.

Tal como Marco Polo se consegue entender com Kublai Khan, também o mestre dos Templários, Jacques de Molay, vai solicitar uma ajuda do Império Mongol na Terra Santa, levando uma ofensiva conjunta contra os mamelucos árabes em 1300.
Em 1305 começam os problemas do rei Filipe, o Belo, com os templários, que por ordem papal são extintos e Jacques de Molay será executado em 1314.

No entanto, os templários têm uma passagem melhor conhecida pelo lado português, e menos bem conhecida pelo lado inglês-escocês, mistificada pela Rosslyn Chapel.
No lado português estabelece-se a Ordem de Cristo, e inicia-se o projecto de D. Dinis.
Pelo outro lado, digamos que o rito escocês é menos explícito com o nome "Soberano Grande Inspector Geral", mas quando o rito de York estabelece como máximo grau "Ordem dos Cavaleiros Templários", não há dúvidas que a herança da Maçonaria remete a essa origem.
É claro que houve duas rosas no confronto Lancaster-York, mas depois Tudor ficou bem juntando as duas com Tosão de Ouro.

Este é o panorama pelo lado europeu. Porém, desde a entrada dos Hunos, a ideia de ameaça mongol deveria permanecer, e os impérios de Tamerlão e Gengis Khan seriam ameaça renovada.
O filho Kublai Khan tenta invadir o Japão, mas a armada é desbaratada pelos ventos Kamikaze (que darão depois origem ao nome dos pilotos). Porém, a frota naval terá sido implementada em grande escala, e é natural que menos de 100 anos depois, ainda não se tivesse perdido a ideia de uma China potência naval.
Esse seria o projecto que levaria Zheng He até África, e muito provavelmente até às Américas, já que parecem existir vestígios, e não só na zona do Pacífico, em Fusang.

Cito aqui o blog Portugalliae do José Manuel (2009):
(...) Gunnar Thompson questiona porque atribuem a descoberta da América a Colombo se romanos e os portugueses já conheciam a Florida? Actualmente ele defende que os chineses também lá iam, eu digo TODA a gente lá ia e voltava, a peste e guerras reduziu substancialmente a população na Europa, portanto não havia interesse de se dar a conhecer territórios vastíssimos no Continente Americano, os mapas que se conheciam eram segredos de comércios, malagueta milho peru drogas metais etc. eram trazidas para as cortes europeias, e egípcias, isto está documentado, só não vê quem não quer.
Ora, este propósito de evitar perda de população - ou pior, perda do controlo da população, era algo que sempre pareceu preocupar os poderes, desde o velho Senado de Cartago (conforme refere Aristóteles), até mesmo os chineses, conforme refere João de Barros.
João de Barros, falando da Batachina - que queria dizer terra da China - mas que era normalmente usada para as Celebes (Batachina do Moro, havendo também a Batachia do Muar), diz explicitamente (Década Terceira da Ásia, Livro V, cap. 5):
Depois que estes Chijs começaram continuar a navegação destas ilhas, e gostaram deste seu cravo, da noz, e massa de Banda, à fama deste comércio acudiram também os Jáos e cessaram os Chijs. E segundo parece foi por razão de lei que os Reis de China puseram em todo seu Reino que nenhum natural seu navegasse fora dele: por importar mais a perda da gente e cousas que saíam dele, que quanto lhe vinha de fora: como já atrás escrevemos, falando das cousas da China e conquista que tiveram na Índia por razão das especiarias.
É especialmente notável o papel que as pequenas 5 ilhas Molucas, juntamente com as minúsculas ilhas de Banda, tiveram no desenvolvimento comercial mundial. Não sei se é coisa maluca ou de ficar de cara à banda, mas o cravo e a noz-moscada ganharam estatuto de preciosidades superior a ouro... algo só com paralelo na Tulipomania!
Havia um mecanismo de produção, que fazia os saquinhos em Gilolo, e as panelas de barro em Pulo Cabale (Pulo seria nome para ilha, e Cabale para panela)... portanto temos um mecanismo de exportação que usava os indonésios (Jáos) para distribuir depois, ou pela China, ou pela Europa, pela rota da Seda até Veneza, antes do aparecimento português.

Bom, e onde estavam situadas estas ilhas especializadas em comércio global?
Exactamente na zona da Oceania ao lado de uma Papua - Nova Guiné ou de uma Austrália, em que ao contrário, os seus habitantes viviam praticamente como no Neolítico. Algo que só ali teria mudado, de acordo com João de Barros, devido à presença chinesa nas Molucas, e provavelmente em toda a zona marítima oriental ao tempo de Zheng He.

Quando os portugueses ali chegam começa novo período de restrições nas descobertas.
Esta difícil conquista das Molucas é levada por António Galvão, de que já aqui falámos... e que depois cairá em desgraça, quando regressado à corte lisboeta, sempre pronta a cortes.
De novo coloca-se a questão de Tordesilhas pelo anti-meridiano, e se algo poderia justificar inicialmente um encobrimento, a presença espanhola naquelas ilhas da Melanésia também irá acontecer após a viagem de Magalhães, numa partilha entre o imperador Carlos V e D. João III.

Dado o interesse nas Molucas, que a sul do Mar de Timor têm a Austrália, na zona da cidade de Darwin, parece algo incompreensível o desinteresse. Já sabemos das proibições, nomeadamente da Companhia da Índias Holandesa, dos mapas alterados, de que se queixou Dampier e tantos outros...

Achámos curioso o relato de Manoel Pimentel (Arte de navegar, 1752, pg.440), que diz, acerca da restrição de estar na parte sul de Timor apenas nos três meses de Verão (Fevereiro a Abril):
Este vento Sul é tão impetuoso que colhendo algum navio daquela parte do Sul [de Timor], o faz soçobrar ou dar à costa, mas a natureza acudiu a este perigo com tal providência, que oito, ou nove dias antes da mudança do tempo começam a soar debaixo do mar, da parte donde há de ventar, uns roncos, que os naturais da terra e navegantes têm por certo aviso
Acresce ainda que no seu livro (pág. 439) Pimentel diz que o melhor caminho para Timor seria, é claro, navegando directamente de África após o Cabo da Boa Esperança... indo encontrar rapidamente a Nova Holanda (Austrália), e até mais rapidamente do que indicavam as cartas ("por força das correntes").
Especificamente, indica a latitude de 21 a 22 graus, e que se evitasse o baixio "Trial", indo encontrar a "Terra Nova" a 1350 léguas portuguesas...

Vemos aqui que "Terra Nova" foi designação que se aplicou também à Austrália... como tantas outras já especuladas desde Java-a-Grande, Terra Magalanica, ou mesmo Nova Guiné.
Aconselhamos um livro de G. Collingridge (1895)
Being The Narrative of Portuguese and Spanish Discoveries in the Australasian Regions, between the
Years 1492-1606, with Descriptions of their Old Charts.

que tenta mostrar a presença portuguesa na Austrália. É claro que tentativas destas parecem sofrer o escárnio e maldizer da academia portuguesa, que se preocupa mais em abafar e perder registos históricos.
Assim no final usamos a citação dos Lusíadas de Camões, que refere Sunda (Java, que deu nome ao estreito) e Banda (a sul está a Austrália):

Olha a Sunda tão larga que uma banda
Esconde para o Sul dificultoso

... e foi assim que Collingridge abriu o seu livro - com Camões!


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publicado às 07:59


Armada Aborígene

por desvela, em 21.01.14
Nos últimos dois anos passei a ter um certo cuidado em não procurar mais coisas... porque já eram demasiadas as que me chegavam por acaso. Eis mais um exemplo.
Na sequência da notícia sobre o canguru das Caldas, num jornal inglês dei com este comentário:
(David loves Roma) The Telegraph really don't like posts that show them to be fools or run counter to the narrative. However even though my post was deleted 3 times I will still post it again.
Aboriginal rock paintings some dating back 1000 years or more have suggested depictions of Long Boat craft visiting Australia which makes this article rather redundant

http://museum.wa.gov.au/maritime-archaeology-db/sites/default/files/no._216_indigenous_depicts_2.pdf
Não sei se o Telegraph cortou o comentário do David três vezes... se o fez, é porque se calhar estas coisas envolvem custos em Bolsa, e pode não ser na Bolsa do Canguru, já que há muita ninhada que vive no conforto doutras bolsas marsupiais (etimologia alternativa - "março piais").

Bom, e o que tinha de relevante o link que o David mostrava?
- A grande Armada Aborígene!
(clicar para aumentar)

Trata-se de um PDF do Relatório de Nicolas Bigoudain 
Report 216. Dept. Maritime Archeology (Western Australia Museum) 2006.
que parece dar um bigode à ideia de que os aborígenes não eram possuidores de uma grande armada naval... Estou a brincar, é claro. Porém, dado que as explicações oficiais remetem sempre para navios recentes, do Séc. XIX, quem andará a brincar?
Note-se que alguns destes barcos são assumidos tratarem-se de barcos-a-vapor. Para dúvidas a esse respeito, remetemos para o artigo sobre o barco-a-vapor de Blasco de Garay, apresentado a Carlos V em 1543.

Já há mais de um ano, no outro blog:
http://odemaia.blogspot.pt/2012/10/djulirri-cavena-aboriginal.html
tinha colocado uma figura de uma caravela, encontrada em Djulirri:
Foto em artigo do The Independent (2011)

Claro que nada disto parece importante para a Inglaterra ou Austrália. Há realidades mais importantes.
Um problema está no cricket inglês em confronto na Austrália, e no mesmo jornal vemos a notícia sobre o Capitão Cook (capitão da selecção de cricket, não confundir com o Capitão Cook, navegador que "descobre" a Austrália):
From hero to zero - the tour that has brought Cook to his knees

Sim, havia um grilo (cricket) que falava ao Pinóquio, mas ninguém vai meter o nariz onde não é chamado, e é tempo de regressar à nossa estorieta, que saltámos devido ao canguru.

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publicado às 04:05


Cangurus e cãs dos gurus

por desvela, em 18.01.14
O José Manuel fez o favor de enviar um link do jornal Público (16/1/2014):

"Um canguru pode provar que foram os portugueses a descobrir a Austrália"
Ilustração num livro de orações do Séc. XVI

Não aceitar que a Austrália estivesse descoberta ao tempo da chegada dos portugueses a Timor, em 1514, é a maior prova do controlo global que se exerceu sobre o conhecimento até aos dias de hoje.
Ilibar responsabilidades portuguesas é difícil, pois D. Manuel não se assumia vassalo de ninguém, aliás usava o epíteto imperial de César.

A maioria das pessoas não liga ao assunto, considerando-o um facto menor, quando é o facto mais claro do poder absoluto que se gerou sobre a divulgação e a educação a um nível global nos últimos 500 anos

Sim, já fez este ano 500 anos sobre o registo documental dessa chegada, conforme se pode ler (wikipedia)
A primeira fonte documental europeia conhecida que refere a ilha é uma carta de Rui de Brito Patalim a Manuel I de Portugal, datada de 6 de janeiro de 1514, na qual são mencionados navios que tinham partido para Timor. 
McINTYRE, Kenneth Gordon. The secret discovery of Australia... 1977. p. 69.
A situação é tanto mais caricata quando confrontamos em mapa a evolução das descobertas:

Como é óbvio, os laranjinhas holandeses fizeram a mesma ocultação, de forma ainda mais caricata, reduzindo o território por descobrir a uma zona bem definida.
Não há quaisquer limites naturais que impedissem as viagens, como é óbvio... só limites da inteligência.

O ridículo é tanto maior quando se tenta traçar a linha divisória entre o conhecido e o desconhecido... a fronteira do desconhecido bate na linha de costa australiana, e portanto a terra só era desconhecida por ser conhecida. Proibição superior, e nada mais!

Quem obedeceu a esta proibição?
Pelo menos, o poder português, espanhol, holandês, e finalmente inglês.
É claro que, tal como a América, era um mero segredo de Polichinelo para quem ali viajava, ou para quem tinha posição influente nas cortes europeias e no meio eclesiástico da Igreja Católica.

No entanto, e dado que estamos a recuperar a história desde outros tempos e influências, parece-nos claro que a proibição australiana era ainda muito mais antiga.
Porquê?
Porque não encontramos vestígios de templos hindús, ou até de influência islâmica. Algo especialmente estranho, dada a proximidade com Java e Bali, onde abundam esses vestígios.
Podem ter os ingleses apagado os últimos vestígios, destruindo os últimos restos de presenças anteriores?
Não são relatados pelos aborígenes, australianos, ou será que havia efectivamente essa proibição antiga?

A lista complica-se bastante, porque temos que juntar hindús, árabes... e certamente chineses, que não deixariam de navegar, tal como o fizeram até Madagáscar.

Os Gurus indianos desconheciam? O Kublai Khan de Marco Polo também?
Só os Khan-Gurus é que reservam esse conhecimento.

Chegamos assim às Caldas da Rainha, das ca...vacas, algo muito sagrado para hindús.
Carvalho, Catarina, era o nome da religiosa que aí viveria, de acordo com a notícia, e que tinha o livro de orações com o "canguru"... cuja datação é colocada entre 1580 e 1620. Estava em posse portuguesa, mas só fica "público" quando é vendido a uma galeria de Nova Iorque. 
As Caldas estão muito ligadas à Rainha D. Leonor, e por consequência a D. João II, por isso seria um local dado a algum conhecimento privado à época dos descobrimentos.

Já tínhamos aqui falado noutro canguru, como Prova, que aparecia no mapa do Museu da Marinha, e que seria um mapa-mundi à altura d'El Rei D. Sebastião... que recordamos:
Porém sabemos que "provas" são folclore que lembrará a Canção de Lisboa.
Estas costas australianas não assentam, e o que interessa à população é entretê-la com outros contos, que evitam esta prova.

Informação adicional:

Todos os anos mencionamos o assunto... mas deixemos os cangurus, ou as grisalhas cãs dos gurus. 
A informação verdadeira relevante aparecerá naturalmente, a outra ficará na ilusão, nos ilusos, e lusos ou não.

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publicado às 05:33


Pontas da língua (3)

por desvela, em 07.07.13
Conforme referido no texto anterior, em condições favoráveis uma pequena tribo familiar teria a possibilidade de constituir um grande aglomerado populacional, digamos que ao fim de mil anos poderia atingir um milhão de pessoas. 
Porém, para o grande aumento populacional teria que se fazer uma mudança radical na sociedade... teria que se organizar como sociedade agrícola. Essa mudança parece ser recente.

(Como facto lateral, este mapa dá uma ideia de como a agricultura nalgumas zonas verdes ou amareladas 
poderiam ter o óbice de estar sob gelo, ou debaixo de água... noutros tempos)

Expansão da agricultura na Europa (fonte: eupedia.com
e possíveis origens mundiais:
Médio Oriente (9000 a.C., trigo, centeio),  Nova Guiné (9000 a.C., inhame), China (7000 a.C., arroz),
México (3000 a.C., milho, feijão, cacau), Peru (3000 a.C., batata, cabaças), 
África (2000 a.C., sorgo), EUA (2000 a.C., girassol).

A dedução destes mapas virá da arqueologia neolítica, considerando a datação de algumas sementes encontradas. Notável é o primitivo aparecimento de agricultura na Nova Guiné, Timor, Ilhas Salomão, que chega a ser considerado existente há 25 000 anos, nas Salomão.
Este aspecto é interessante para nos reportarmos a culturas que pouco terão mudado nos últimos 10 mil anos. Talvez uma causa comece por rituais iniciáticos. É especialmente curioso este ritual encontrado numa tribo da Papua-Nova Guiné, onde os jovens rapam o cabelo e colam ao rosto, para parecerem mais velhos:
imagem em themonthly.com.au ... de fotos © James Morgan 

Há por isso uma questão - tradição versus necessidade. A tradição tende a preservar, a necessidade a mudar.
Uma das primeiras zonas que parece ter introduzido a agricultura é também aquela que menos parece apresentar evolução face aos ancestrais ritos. O que encontramos nestas zonas é uma estrutura social dimensionada para um conjunto limitado de habitantes, que é replicada pelo território circundante.

Creio que não é preciso ser antropólogo para perceber uma provável transição.
1) Tribos primitivas. Terão sido as primeiras, e não se afastariam muito do padrão social de muitos primatas superiores. Comunidades familiares até algumas dezenas de elementos. Passado esse número, alguns jovens sairiam do território original, movimentando-se para territórios adjacentes, fazendo novas famílias, novas tribos. Enquanto a expansão territorial fosse possível, por exemplo em África, teríamos essencialmente uma disseminação pouco competitiva. A competição entre animais da mesma espécie é quase sempre reduzida ao mínimo confronto possível. O grande confronto interno à espécie aparece depois como característica humana.
A sedentarização das tribos aparecerá primeiro ligada a um território favorável. Um bom território de caça, fixaria tribos de caçadores-colectores. Não haveria uma subespeciação evidente porque acabaria por haver uma mistura de elementos no mesmo território. Poderia ocorrer subespeciação por rejeição de elementos... um caso frequente ainda em África são os albinos. A rejeição de albinos é uma causa provável de diferenciação na tez da pele. Foi provavelmente mais frequente em período glaciar, e poderá ter levado a um isolamento de elementos que se definiriam na subespeciação, talvez como os neandertais. Mas seria o excesso populacional, ocorrendo ao fim de poucos milhares de anos, que levaria a confrontos pela inevitável escassez de recursos com o sucessivo aumento das tribos. 
Se os animais lutavam individualmente por um território, o homem passando a ser animal social transformou o conceito de individualidade à tribo. Em vez de termos um leão a desafiar outro pela posse de um território, teríamos uma tribo a desafiar outra. Onde isso poderia ocorrer? O mais natural é que ocorresse num local donde já não haveria migração possível e onde o confronto fosse inevitável.
Não falamos aqui de nenhuma razão civilizacional, os propósitos seriam essencialmente de sobrevivência por coexistência. Os territórios deveriam ser inicialmente suficientemente vastos para permitirem o direito de passagem sem confronto... a ideia de um território cuidadosamente guardado será noção recente. O único cuidado antigo seria com um abuso de permanência que ameaçaria os mesmos recursos. Isso iria mudar com a agricultura, podendo requerer uma efectiva vigilância do espaço, e uma disputa de carácter mais letal.
Iremos tomar o exemplo da Oceania com particular importância.
Porque a Oceania com o fim da Idade do Gelo passaria a uma situação de várias ilhas onde se poderia formar uma competição feroz, devido à limitação territorial. Em pequenas ilhas talvez não se formassem muitas tribos, e o destino de alguns passou por uma migração marítima, resultando numa expansão polinésia. O resultado mais violento e letal desse confronto talvez se tenha dado na Papua - Nova Guiné, onde o espaço era suficientemente grande para múltiplas tribos, hoje culturalmente desligadas por quase 900 línguas diferentes. Aí a expansão populacional implicaria um confronto mortal entre tribos. Ainda na 2ª Guerra Mundial, apesar de estar incluída na Austrália, as tribos da Nova Guiné alinhavam com australianos ou com japoneses consoante o alinhamento das tribos rivais. Havia uma guerra cultural local e intemporal que não parecia afectada pela presença dos novos deuses da guerra, externos ao seu micro-confronto ancestral.

2) Primeiras civilizações. Para se constituírem as primeiras civilizações, a sociedade teve que mudar de paradigma. Precisaria de tempo suficiente para se constituir numa estrutura estável de divisão de tarefas, tendo por um lado elementos autoritários, e por outro, elementos obedientes. Ou seja, a menos de grande entendimento, havia uma coabitação de duas culturas... a cultura de mandar e a cultura de obedecer. Deixamos de ter uma tribo onde todos eram vistos como iguais, recebiam rituais iniciáticos semelhantes, e partilhariam a mesma cultura transmitida pelos anciãos. Nas civilizações passaria a haver uma cultura cortesã ou sacerdotal, diferente da cultura popular.
As múltiplas tribos que adoptaram a filosofia de partilha comunitária cultural acabaram por não se desenvolver... desde as ultra-competitivas tribos da Nova Guiné, às tribos da Guiné, passando pelas da Guiana. 
Onde terá ocorrido esta mudança de paradigma? Um sistema de castas antigo, não sabemos se o mais antigo, é sem dúvida o indo-europeu, onde sobressai o velho sistema de castas indiano.
De qualquer forma, o incremento populacional numa metrópole não permitiria uma cultura tribal equalitária. De entre os irmãos surgiam os varões que passavam a barões. Ao fim de poucas gerações, a prole dos restantes irmãos constituiria uma enorme massa populacional... a prole passava a proletariado.
Esse era um mecanismo, o outro mais evidente era o da simples conquista. Se nos confrontos das tribos da Nova Guiné o resultado era habitualmente a aniquilação, as primeiras civilizações passaram a usar uma estrutura social de escravos, resultante das capturas de tribos derrotadas.

A linguagem comum passou a ser fulcral nas comunicações e a língua comum da civilização impôs-se pelo seu sucesso a todos os intervenientes, passando a ser uma caracterização de nova estrutura - o povo. Poderia haver uma linguagem diferente falada pela elite da varonia, mas a longo termo a linguagem comum da população iria dominar. Deve ter sido esse o caso do latim, que a longo termo acabou apenas por ter espaço na erudição, tal como foi o caso do francês usado pela corte inglesa normanda que desapareceu.
A comunicação específica no poder passou a usar preferencialmente alegorias, símbolos e códigos abstractos, cujo significado escaparia à generalidade da população. Ao estilo dos hieróglifos egípcios, um mesmo texto poderia ter vários significados.

Munda.
Na filogenia dos haplogrupos Y-DNA aparece uma origem comum K que irá variar para diferentes haplogrupos que constituem a maioria da população mundial, gerando os L, M, N, O, P, Q, R, S, T.
Já vimos no texto "abertura genética" os mapas dos N, O, Q, R, que constituem a maioria da população terrestre, faltava mostrar, os M e S que se situam justamente na Oceania, e os L e T de pequena expressão (especialmente Oceano Índico, na zona do Indo (L) e do corno de África (T)).

  
Haplogrupos M e S
 
Haplogrupos L e T


Bom, falta ainda o P... mas sobre esse não encontrei mapa, tal como o K, talvez por serem comuns aos "descendentes" não aparecem especificados. Mas encontrei esta frase (Abe-Sandes, Human Biology, 2004)
This haplogroup P-92R7 is frequently observed among Europeans: 44.0% among Italians (Previdere` et al. 2000), 52.0% among Portuguese, and 54.0% among Spaniards...
Por outro lado, no site eupedia.com é basicamente afirmado que o P é hoje inexistente, e na wikipedia remete-se para a zona central asiática ou para os Munda, no Bangladesh. Visitando um pequena discussão técnica aquando publicação de resultados sobre Portugal diz-se: "The authors have no individuals who would have been typed as P (92R7) who are not also typed as R1a or R1b, so there is no way to associate it with or exclude it from P."
Ou seja, mudou-se a classificação, e na prática os P foram misturados nos R1b.
Atendendo a como a academia encara a Grota do Medo, usa-se o habitual "método científico":
- os resultados servem para provar a teoria (existente).
Dificilmente temos acesso a dados que não estejam enquadrados numa teoria... se isso acontecesse, ou os resultados estariam mal (o que não interessa aos autores), ou seria a teoria vigente a estar mal (o que não interessa à academia). Mudanças ou falhas na teoria só aparecem garantindo os devidos cuidados na divulgação e divulgadores, assegurando os interesses da academia...

Qual o problema? Bom, o haplogrupo P é suposto preceder o Q, dos ameríndios, e seria estranho ter uma maioria P entre os latinos, conforme reportada no artigo de Abe-Sandes. Como a disciplina era recente no início de 2000, não excluo uma confusão nas primeiras análises de resultados.
Porém, também cada vez mais será difícil ver resultados genuínos... há uma flagrante tentativa de apresentar os resultados numa linha politicamente correcta, indo sempre buscar um centro euro-asiático de onde tudo se espalha.
Ironizando... pode ver-se como uma teoria da estrelinha dispersora, assim:

Nova ou Velha Guiné?
Como referimos, a forte presença dos M e S na Nova Guiné parece sugerir algo bem diferente (mesmo não sabendo por onde andam os P)... porque a questão é que os P não deveriam estar longe da Oceania, já que o haplogrupo "pai", o K é ainda encontrado com grande frequência aí. Pode ler-se na wikipedia:
"Paragroup K - Specially in Oceania. Also in Timor, Philippines and East India."
Esse haplogrupo K originaria os actuais orientais, siberianos, ameríndios, e indo-europeus.

A hipótese que se levanta aqui é completamente diferente. A origem dessas linhas estaria na imensidão de ilhas entre o Pacífico e o Índico, na zona da Oceania. Alguns australianos queixam-se, e com razão, que toda a cultura aborígene parece ter sido esquecida, apesar de ter os registos de pinturas mais antigas da humanidade.
Ora, uma hipótese bem plausível é que um primeiro degelo tenha levado ao isolamento de populações naquelas ilhas. Tratavam-se ainda de mares mais susceptíveis à navegação... e se há povos que associemos à água são justamente os povos da Oceania.
Com o degelo as águas subiam mergulhando o seu continente, digamos Mu, e ficariam afastados de populações vizinhas, em ilhas que podiam ver à distância. Que fazer então?
Os mais próximos do continente asiático podem ter retornado a "terra firme", mas os restantes acabariam por ter uma vertente mais aquática. Já sabemos onde foram parar os M e S... estão concentrados nas diversas ilhas da Oceania. E os outros?
Os P que vão dar os Q ameríndios e os R indo-europeus podem ter tomado um caminho mais complicado!

A questão é que há semelhanças entre as culturas tribais dos ameríndios e das tribos da Oceania.
Um desses aspectos é a adaptabilidade à água. As canoas, as pirogas, são um desses elementos comuns.
As culturas da Oceania usavam e abusavam das pirogas, tal como depois os europeus foram encontrar essa tradição entre os índios americanos, especialmente na zona do Canadá ou da Amazónia, mas também na zona das Caraíbas, ou similares (até em esquimós). Note-se que não é assim tão comum ver noutras paragens uma antiga vocação humana aquática, apesar dos inúmeros cursos de água.
Alguns hábitos antropofágicos de indígenas americanos, e a extrema violência contra outras tribos também parecem ser um ponto comum com a Nova Guiné, competição atroz que a priori não se justificaria nos novos territórios americanos, de grandes espaços desabitados.
Ou seja, aqui seria precisa a teoria Kon-Tiki inversa... uma migração dos polinésios no sentido americano. A América já estaria povoada pelo haplogrupo C3 (mongol), pelo que pode ter havido aspectos de invasão, onde figurou o elemento masculino Q no Y-DNA, mas o mtDNA, pelo lado feminino, teria emprestado um aspecto oriental à descendência invasora. Convém notar que os Olmecas, civilização primeira na mesoamérica, teriam um aspecto menos oriental do que o que se viria a encontrar depois.
Cabeça Olmeca  (La Venta, 1400 a 400 a.C.)

Algo semelhante se poderá ter passado com violência no Japão. Os Ainos D terão sido suplantados pelo haplogrupo O, o traço vencedor que se disseminou pela China e sudeste asiático, talvez remetendo os N para paragens siberianas.

Nesta pequena especulação alternativa falta falar dos R, que originariam os Indo-Europeus.
Bom, os R são "irmãos" genéticos dos ameríndios Q, ambos descendendo do haplogrupo P, de que se perdeu o rasto.
Por muito que se tente esconder, há um registo R na costa leste americana, na zona do Canadá, dos grandes lagos, típica zona de canoas ou caiaques. Também, como descendentes dos K, temos os L que se estabeleceram na zona do Indo e os T que entraram em África.
Vou considerar duas hipóteses para a migração dos R:
a) A mais plausível, com os dados conhecidos, leva a uma entrada dessas populações da Oceania no subcontinente indiano, onde há ainda um grande registo R (R2 e R1a). Aí, na Índia, submeteram as populações anteriores (E,F,H), instituindo um sistema de castas, e prosseguiram na direcção do continente europeu, que praticamente esmagaram com o seu ímpeto característico. A sua língua, que seria afinal uma das centenas de variantes na Oceania, ganhou uma dimensão igual à sua expansão conquistadora. Entraram pelo Oceano Índico e só pararam quando viram mar de novo... no Oceano Atlântico, ou teriam prosseguido (ainda em caiaques?) para as paragens canadianas.
b) A mais especulativa, indo pela teoria de Schwennhagen. Os R (tal como os Q) também teriam migrado para a América e constituído aí uma civilização dominante (no norte da América). Chegariam como colonizadores à Europa Atlântica, em particular à península Ibérica onde teriam feito a sua progressão na direcção indiana. Isto seria a versão de uma "Atlântida americana", que teria sido colonizadora da bacia mediterrânica, segundo os registos egípcios comunicados a Sólon, reportados por Platão no Timeu. Esta hipótese pode ter várias falhas...

Ambas as hipóteses ajustam-se a uma predominância R na Europa, e justificam haver um diferente haplogrupo R-M173 na zona oeste da Austrália e na parte atlântica canadiana, que doutra forma tem permanecido como "mistério". Só este detalhe inviabiliza muito da teoria habitual sobre a expansão centrada no Cáucaso.

Em qualquer caso, antes da chegada dos R, a Europa deveria ter uma distribuição do haplogrupo E (especialmente na Grécia), do J (na bacia mediterrânica), do I (Escandinávia e Balcãs), e do G, que se espalhava pela Europa (mas que hoje se concentra apenas no Cáucaso). A chegada dos indo-europeus terá embatido com todas estas populações, quase fez desaparecer os G, dividiu os I, e entrou nos territórios dos E e J.
A língua indo-europeia tornou-se quase exclusiva na Europa, com variantes adaptadas aos povos sucessivamente conquistados. O caso basco, tido como singular, por não ser língua indo-europeia, mas ter a maior concentração de R1b, pode ter duas explicações simples... por um lado na Oceania a variação linguística seria uma técnica defensiva básica, por outro lado isso só seria feito num ambiente exclusivo de elementos da tribo... que teriam escolhido aquela região como assento próprio, não se misturando com os habitantes primitivos. Os casos magiar ou finlandês são substancialmente diferentes, prendendo-se com as migrações posteriores, nomeadamente dos hunos.

Esta invasão indo-europeia do haplogrupo R pode ter acontecido nos milénios subsequentes à época glaciar, na sequência do degelo. Isto seria um registo demasiado tardio, mesmo para mais velhos mitos que nos levam apenas até ~ 4000 a.C. A subsequente evolução teria misturado populações, mas também a separação do continente europeu na zona do Mar Negro terá contribuído para a separação R1a e R1b.

Os R1b formariam depois a indistinta população celta que habitou a Europa Ocidental.
Não teriam conquistado a zona mediterrânica, mas também não há propriamente registos míticos de que tenha havido qualquer conquista europeia. Curiosamente, ou não, nem mesmo os mitos parecem esclarecer o que se passou nesse passado remoto. Talvez seguindo os gregos se possa dar sentido às guerras com Titãs, Gigantes, ou Centauros... mas isso será outra história.

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publicado às 08:04


Prova

por desvela, em 10.05.13
Se dúvidas ainda houvessem... aqui está a prova:

Há 3 anos coloquei aqui o Teatro dos descobrimentos onde apresentava um mapa do Museu da Marinha, onde se dizia ter sido 
"Executado pelo pessoal técnico do Museu da Marinha. Maio de 1970"

Em conjunto com KTemplar e Maria da Fonte discutimos este mapa, e se havia naturais suspeitas que se tratava de algo baseado em mapas antigos, o facto de ter um contorno perfeito, só visto no Séc. XX, poderia fazer duvidar que se baseava num único mapa antigo, que seria do reinado de D. Sebastião, muito provavelmente de 1570-78, dada a bandeira castelhana em Manila. 
Passados 400 anos, o pessoal técnico do Museu da Marinha colocava em circulação um mapa exacto da Terra, como D. Sebastião a conhecera, apresentada provavelmente por Pedro Nunes, ou por outro cartógrafo, que aceitou explicitar o globo na projecção Mercator.

A prova disto encontrei-a fortuitamente, numa pequena imagem que ilustrava um artigo sobre a Austrália:
http://www.newdawnmagazine.com/articles/the-first-race-out-of-australia-not-africa
(artigo da New Dawn Magazine, de 15 de Março de 2012, David Jones / Steve Strong)


Esta imagem que o autor desse artigo usa (e não identifica) não vem da "execução do pessoal técnico", não é a de 1970, será do original, ou de uma cópia do original, de 1570. 
Só que tem um problema... é exactamente igual à outra, nos contornos e nas linhas de navegação, e até mesmo nas ilustrações que se vêem no interior da Austrália.
É a prova! 
É a prova de que o mapa do Museu da Marinha, é uma cópia fiel de um original com 400 anos.
Vemos ali a Terra na sua plenitude de contornos, como foi apresentada a D. Sebastião.

Quando Pedro Nunes dizia que os portugueses tinham visto todos os penedos, ilhéus ou baixios, poderia duvidar-se... mas foi ainda mais que isso, cartografaram-no com uma precisão sem rival nos 300 anos seguintes. Ao mapa praticamente só falta a Antártida...

Talvez D. Sebastião tenha ousado divulgar o mapa, e encontrou uma guerra em África, tal como Marcelo Caetano, encontrava outra, onde terminaria a aventura ultramarina portuguesa. 
Há guerras que são contadas como obstinações, ou de um jovem rei, ou de um regime repressor, e ainda que isso tenha uma parte da história, não é a História. Fica aqui este pequeno contributo para a procura de verdade, que justifique esses milhares de vidas, de ambos os lados, que se perderam em guerras "sem razão".

Nota adicional [12-05-2013]
Esqueci-me de citar um outro texto, que já tinha escrito sobre a Grande Alca, onde tinha destacado os pinguins árticos e os cangurus:
... entretanto, dando demasiado nas vistas a figura dos pinguins (alcas) no Ártico,
que foram extintas, por caça excessiva, a solução foi pintar por cima - como está hoje:

Agora, isto pode ser visto ainda no Museu da Marinha - Local onde está exposto o Mapa:
... até que uma qualquer troika exija que se coloque uma tapeçaria de Arraiolos, e se retire o mapa!

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publicado às 04:40


Austrália do Espírito Santo

por desvela, em 08.05.13
Austrália do Espírito Santo é como Pedro Fernandes de Queiroz terá baptizado o continente austral


numa viagem quase esquecida, em 1606, mas que o Padre José Agostinho de Macedo faz questão de lembrar noutra parte do poema "Newton":
O trabalho mortal, o amor da gloria.
Ó nome Lusitano, ó Patria minha,
Eu culpo o teu silencio, a huma virtude,
Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia.
Descreve Newton c'o compasso d'ouro
O globo que Varennio exposto havia;
Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville,
Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyrão.
Do Continente austral foge o fantasma,
Que avarento Hollandez (nem hoje avaro;
Nem já por crimes se conhece a Hollanda)
Julgou grande porção do globo, e sua.
Assombrado do gelo atraz voltárão,
Mas nunca hum passo além co' lenho óvante
Da Terra forão que tocára hum Luso;
Magnanimo Queiroz, déste-lhe hum nome
Para ti foi brazão, e he meta aos outros
Do nebuloso Sul prescrutadores:
E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo,
Se ao pensativo Bátavo pertence,
E ao pertinaz navegador Britanno,
No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte,
Mais além de Queiroz nenhum se avança.
Foi entre tantos Magalhães primeiro,
Todos de hum centro os raios se derramão,
Que vem tocar d'hum circulo os extremos,
Há uma referência a vários nomes... e essencialmente o Padre Macedo transmite uma versão muito clara das condicionantes sobre as descobertas no período entre Fernão de Magalhães e James Cook.
Macedo começa por queixar-se do silêncio, inércia portuguesa, para reivindicar a presença no continente Australiano. Mas não se fica por aí, traça um rasto...

O rasto começa no trabalho do jovem holandês Bernhardus Varenius, "Geographia Generalis", republicado pelo jovem Newton... um escreve-o e morre aos 28 anos, e com a mesma idade, o outro vai recuperá-lo. Não consegui obter nenhum "globo exposto", nem um único mapa dessa geografia... é certo que o trabalho ficou conhecido por ser teórico, mas uma geografia sem um único mapa, parecia-me ser apenas sina de portugueses e espanhóis após o Séc. XVI.

Cook é sobejamente conhecido, e já falámos sobre o Cozinheiro e Sanduíche
John Byron será aqui o avô do famoso poeta. Esse Byron acompanhou George Anson numa viagem de circum-navegação. Ambos ficaram conhecidos por contribuírem para a derrota franco-espanhola na Guerra dos Sete-Anos.
A partir daí ficou Pacífico que o Oceano seria inglês, com a anuência e silêncio do aliado, Portugal.
Se o francês Bougainville tinha bem preparada a viagem Pacífica pelos mares do Sul, pela derrota sofrida Luís XV não a pode creditar. Bougainville contentou-se com o nome associado às belas buganvílias, flores que antes de serem "descobertas" por si, era suposto abundarem em toda a América do Sul, com vários nomes, entre os quais "três-marias"...
Os franceses ficavam com as buganvílias, e os holandeses com as túlipas...

A Holanda, já tinha tido o seu quinhão de guerras navais com os ingleses, e a sua rota seria uma derrota. Uma derrota é nauticamente uma mudança do curso previsto na rota. Conforme referimos em Túlipas e Futuros, a invasão inglesa protagonizada por Guilherme de Oranje foi uma vitória holandesa que cedeu o doce da Laranja e acomodou o ácido, ao jeito do que aconteceria com o aliado português.

Do continente austral foge o fantasma
Era disso que se tratava... de uma fantasia política que impedia a sua descoberta.
Por isso, diz Macedo... do avarento Holandês já nem se conheciam "os crimes" no início do Séc. XIX.
A sede do comércio, dos avarentos, tinha passado para a City Londrina.
Porém, Macedo lembra... lembra da vontade de dominar os mares, julgando sua grande porção do globo... afinal pecadilho semelhante ao dos portugueses. Podemos relembrar aqui os privilégios que a Companhia das Índias Holandesa arrogava ter
Antes de falar de Pedro Fernandes de Queiroz, o Padre Macedo faz questão de salientar
"nunca um passo foram avante com os barcos, do que onde tinham tocado os Lusos"
tal como dissera Pedro Nunes, os lenhos das naus portuguesas tinham ido a todo o ilhéu, todo o baixio.

Para Queiroz, o Padre Macedo não reclama a descoberta, reclama o nome a "Austrália do Espírito Santo", nome que constaria do diário de Cook, e que acabou por se sobrepor enquanto Austrália à designação inconveniente de Nova Holanda... que lembraria os holandeses. A viagem de Queiroz à Austrália Oriental é de 1606, e no mesmo ano é reclamado que Janszoon teria avistado a parte Ocidental. Mais uma vez, uma quase simultaneidade, passando quase um século que os portugueses aportavam a Timor, ali ao lado. Poderíamos lembrar ainda a viagem de Heredia em 1601, mas Macedo é mais claro:
"mais além de Queiroz nenhum se avança, foi entre tantos Magalhães o primeiro"
 ... ou seja, Macedo dá a entender que Magalhães teria sido o primeiro a aportar à Austrália.
É algo natural, porque em muitos mapas, a parte austral é denominada "Terra Magallanica"... e por isso, mais do que o crédito da viagem de circum-navegação pelo Estreito (que o próprio denunciara, ao falar no mapa de Behaim), seria natural que essa viagem se destinasse também a reclamar a Austrália para Espanha. 

Ao pensativo Batavo pertence...
A Austrália seria a gota de água que transbordaria o Oceano político europeu.
Quando Magalhães começava a preparar a sua viagem, em 1517, Martinho Lutero confronta a Igreja com as suas teses que questionam o Poder Papal. Quando Elcano regressa em 1522, já Lutero tinha afixado as suas teses e passado pela Dieta de Worms (ligada à saga dos Nibelungos)... estando proscrito por Carlos V. 
Só que o imperador, após séculos de tradição germânica, estava agora em solo espanhol!
A questão explorada pela simples avareza não oferecia grande dúvida.
- De um lado, o Tratado de Tordesilhas que dividia o mundo em dois, reconhecido pelo Papa, e com o Imperador Carlos V interessado numa das partes desse mundo.
- Do outro lado, a restantes nações europeias fora da partilha, e um Martinho Lutero que, tal como dezenas de outros, criticava o poder papal, o seu despotismo... Continuava a fazê-lo. Nada de letal, próprio dos tempos, lhe acontecia, porque o momento era o momento político de colocar um travão sobre o poder e arbitragem papal. 
A restante Europa não iria cruzar os braços. Em 1532, o inglês Henrique VIII encontra-se com o francês Francisco I... o assunto parece ser o casamento com Ana Bolena, mas será efectivamente a separação da Igreja Anglicana, que ocorre no ano seguinte.
Quando o poder papal reage, iniciando a Contra-Reforma, em 1545, já estava aberta a ferida que se iria prolongar até hoje, na divisão entre catolicismo e protestantismo.

Ainda estamos longe de chegar ao "pensativo Batavo"...
Há várias camadas que se confundem naquela transição do Séc. XVI. Ninguém quereria travar o Renascimento, mas certamente que se temia uma evolução das relações sem arbitragem papal, ao mesmo tempo que os estados protestantes se queriam libertar daquele jugo romano que os desfavorecera.
Religiosamente, havia agora uma disputa aberta. Politicamente, o tratado de Tordesilhas abrira outra.
Estas já eram suficientes para complicar as coisas. 
Porém, em cima destas, estavam os problemas "secretos". 
Havia novos territórios, novas revelações, que praticamente estavam excluídas de serem mencionadas.
Falar-se-ia de Índias Ocidentais e Orientais, mas pouco mais que isso. Mesmo uma boa parte da nobreza não teria acesso a uma visão geral do problema, o que aumentaria a confusão!

Retirando a autoridade papal, que outra forma de arbitragem haveria entre as nações, que não ameaçasse toda a estrutura do poder europeu, assente na separação entre nobreza e burguesia. Como se isso não bastasse, o protestantismo envolvia a crença popular, e o povo não deixava de fazer parte da equação.
A isso acrescia um Império Otomano que se expandia pelo Mediterrâneo, e é claro... havia os judeus.
A solução pelo lado católico foi clássica... reprimiu tudo o que podia. Pelo lado protestante, que estava em perda, interessava uma motivação aglutinadora, e foi necessariamente mais tolerante. 
Note-se que o próprio Lutero tinha escritos anti-semitas, e por isso logo se formaram variantes religiosas, cujo objecto podia ser teológico, incluíam calvinistas, metodistas, e outras variantes... mas o importante é que os Estados deixavam de ser definidos pela religião. Porém, interessava manter uma aglutinação do Estado sobre algum ponto comum, que não fosse o velho conceito medieval de Rei.  

É neste contexto que aparece a República de maior sucesso (após Roma)... a República Holandesa. Se Veneza era já um bom exemplo de reedição do ideal de república, a Holanda foi muito mais longe.
Com D. Sebastião, Portugal extingue o último sopro em 1578, em 1579 dá-se a União de Utrecht que formaliza a República Holandesa, pronta a acolher todos os refugiados judeus... muitos dos quais já tinham partido da Península Ibérica. A Holanda torna-se rapidamente numa terra de acolhimento para milhares de refugiados, que impulsionam aquele pequeno território para uma rápida ascensão.

Faltava o enquadramento global. 
É nesse contexto que aparece o "pensativo Batavo"... Hugo Grotius.
Grotius vai propor uma Lei Internacional diferente, que irá invalidar o poder natural do Papa.
Teria sido provavelmente esquecida, mas a vitória na Guerra dos Trinta Anos, e o Tratado de Vestfália, exigiam uma nova ordem. Essa ordem mundial seria definida pelo pensativo holandês, que diz Macedo - "teve a glória de buscar no Mundo um Mundo".
Se o Papa proclamava o poder pelo direito natural, Grotius afirmava a legalidade pelo poder efectivo, acordado entre Estados, em função do equilíbrio de forças. É assim um pretexto para atacar todas as possessões ibéricas, especialmente as portuguesas, pela Companhia das Índias Holandesas. Deixa de haver um direito natural associado a qualquer descoberta, ou a validação papal... os holandeses passam a atacar as possessões dos restantes, conforme os seus interesses. Só respeitariam os acordos de paz, que seriam depois firmados entre Estados. 
É nesse sentido que proliferam os Tratados de Paz, porque são a única lei respeitada, por via de conflito.

Ainda assim, é notável que os Holandeses são mais temerários em atacar as possessões alheias do que propriamente a desbravar novos territórios, mesmo aqueles que eles sabiam existir e não estavam declarados. Têm especial cuidado com a Austrália... onde só arriscam avançar pela parte ocidental. Na América entram em disputa com os ingleses na posse da costa leste, mas nada fazem na costa oeste!
Ignoram praticamente todas as ilhas do Pacífico, excepto a parte Indonésia.

Ou seja, parecia manter-se uma proibição, uma auto-exclusão mais forte do que a simples lei internacional que Grotius enunciara, e que entrara em vigor após Vestfália. Havia territórios ainda assombrados de onde não saíam os fantasmas, mesmo por via das relações internacionais. As Companhias das Índias pareciam sobrepor-se às relações estatais...
A globalização só acaba por ocorrer quando o poder migra para a City de Londres, especialmente quando é autorizada a descoberta de Cook, que é praticamente simultânea à Independência dos EUA.
A Holanda será quase esquecida, o poder financeiro já tinha definido um novo centro de acção...
Afinal, tão ou  mais importante que a relação entre os Estados, seria definir um sistema político que mantivesse um certo secretismo, ao mesmo tempo que aparentava ser democrático.
Entravam aí as teorias sociais... especialmente de Thomas Hobbes, que definiria o "Contrato Social", a que se seguiram Locke e Rousseau.
Teorias que pouco mais serviam do que para justificar o "status quo", arranjando um qualquer nexo causal que eliminasse responsabilidade de quem teria o poder. Como se qualquer jovem que nasce tivesse delegado, por sua vontade, algum poder no sistema que definiria a sua própria formação e o condicionaria na sua inserção social e cultural.
Tal como no caso de Grotius, estas teorias traziam um substrato ideológico, mas pouco mais eram do que uma mera descrição do observado e do trivial, não fornecendo nenhuma teoria que justificasse relações humanas ou lhes desse um verdadeiro nexo.

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publicado às 04:36


O panorama austral

por desvela, em 25.11.12
Uma das pequenas surpresas que ganhou uma popularidade turística foi o Ukulele, o cavaquinho havaiano, reportado como tendo sido levado por emigrantes madeirenses para o Havai. Conta a estória que após uma actuação entusiasmante, os havaianos, através do seu rei Kalakaua, começaram a incorporar o cavaquinho na sua música. Se nos parece que o fabrico do cavaquinho pode ter ajudado à música, nada na tradição musical portuguesa se compara aos sons havaianos que dali surgiram... Ao que parece os nativos não dão cavaco a essa estória oficial, e argumentam que a música é mais antiga. 
Talvez até a introdução do cavaquinho tivesse sido mais antiga, nalguma viagem Pacífica não registada, também levada a cabo por portugueses. Pragmaticamente o Rei Kalakaua teria concordado com a versão emigrante... afinal o que se teria passado noutras paragens Pacíficas não afigurava nada de pacífico.

Na página 230 da revista Panorama (Vol. 16) lê-se uma informação instrutiva:
- Os aborígenes australianos dividiam-se em dois grupos: - um de raça negra, semelhante à africana, e outro dos malaios-polinésios... que seria a raça dominante, e a única a impor resistência aos europeus.



Passados alguns anos, os aborígenes passaram a ser entendidos como sendo apenas os negros... os outros teriam desaparecido, como antevia já a revista Panorama. Dos malaios-polinésios podemos ter uma ideia do que se entendia como tal, olhando os Maoris da Nova Zelândia.
É muito natural que os maoris se estendessem da Nova Zelândia à Austrália, e não haveria aparente razão para excluir a Austrália das fixações dos polinésios, especialmente da sua costa oriental.
Já tinha aqui falado na possibilidade de um "reino pirata" na costa oriental australiana, para justificar as ilustrações dos mapas de Dieppe, e a prolongada ausência de exploração de um continente que ficava a distância de piroga das rotas comerciais dos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses ou ingleses... Não tinha considerado a hipótese de um reino polinésio hostil, cujo destino se esfumou na historiografia oficial, até ler este apontamento numa revista da época. 
O genocídio associado à Black War dos anos 1830's é essencialmente reportado à Tasmânia e à raça aborígene negra, e nunca me lembro de ler nenhuma referência a malaios-polinésios... percebe-se agora porquê - desapareceram todos!

Por isso, dado o modo de resolução destes problemas Pacíficos, entendem-se as colaborações mais pacíficas doutros reis, nomeadamente de Kalakaua, ainda que um século antes a vida de Cook tivesse terminado nas ilhas havaianas em 1779, de forma algo similar à de Magalhães.

Os polinésios surgem como um dos últimos mistérios à navegação... a menos que se aceite a tese dos acidentes sucessivos, a sua colonização do maior oceano terrestre, espalhando-se por todas as ilhas pacíficas, faz parecer a história das navegações europeias como aquilo que é - uma fantochada completa!
Em 1947 alguns noruegueses mostraram como seria possível navegar entre a América e a Polinésia, através da viagem da jangada Kon-Tiki (aka Viracocha)... ainda me lembro de ver o livro da expedição na estante lá de casa, foi uma aventura que teve sucesso mundial à época!
No entanto, a estória que iria ser vendida no pós-guerra seria outra, e estas aventuras revelam-se mais como desventuras, a quem não soprarem os ventos da boa ventura. E em navegações com ventos tão adversos, melhor é recolher o velame, ou ousar uma navegação à bolina, como faziam as primeiras caravelas.

Nesse sentido há alguma informação interessante compilada no artigo da Wikipedia "Theory of Portuguese Discovery of Australia", onde se reúnem algumas informações relevantes pelo lado português. Já que o material recolhido em terras australianas parece desaparecer ou ser desacreditado, alinhando toda a documentação oficial na fabulosa teoria do "grande continente difícil de encontrar", é especialmente interessante o mapa de Nicola Desliens (que se inclui nos mapas de Dieppe):

Nicola Desliens (1566)

... e é especialmente interessante ver um mapa onde não aparece o Japão, por isso suspeitaremos baseado em original anterior a 1544, mas onde a extensão australiana começa delineada, com o nome Java Maior, e com as respectivas bandeirinhas portuguesas...

Mas, ao contrário do que é popularizado, descobrir não é encontrar, é retirar do encobrimento, e isso só pode ser feito identificando primeiro o que o encobre. Ora, o encobrir resulta normalmente de calculadas vantagens face ao descobrir... e até que se torne por demais evidente que é pior desvelar o encobridor do que o encoberto, os ventos continuam a soprar no sentido errado da História.

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publicado às 07:52


O panorama austral

por desvela, em 24.11.12
Uma das pequenas surpresas que ganhou uma popularidade turística foi o Ukulele, o cavaquinho havaiano, reportado como tendo sido levado por emigrantes madeirenses para o Havai. Conta a estória que após uma actuação entusiasmante, os havaianos, através do seu rei Kalakaua, começaram a incorporar o cavaquinho na sua música. Se nos parece que o fabrico do cavaquinho pode ter ajudado à música, nada na tradição musical portuguesa se compara aos sons havaianos que dali surgiram... Ao que parece os nativos não dão cavaco a essa estória oficial, e argumentam que a música é mais antiga. 
Talvez até a introdução do cavaquinho tivesse sido mais antiga, nalguma viagem Pacífica não registada, também levada a cabo por portugueses. Pragmaticamente o Rei Kalakaua teria concordado com a versão emigrante... afinal o que se teria passado noutras paragens Pacíficas não afigurava nada de pacífico.

Na página 230 da revista Panorama (Vol. 16) lê-se uma informação instrutiva:
- Os aborígenes australianos dividiam-se em dois grupos: - um de raça negra, semelhante à africana, e outro dos malaios-polinésios... que seria a raça dominante, e a única a impor resistência aos europeus.



Passados alguns anos, os aborígenes passaram a ser entendidos como sendo apenas os negros... os outros teriam desaparecido, como antevia já a revista Panorama. Dos malaios-polinésios podemos ter uma ideia do que se entendia como tal, olhando os Maoris da Nova Zelândia.
É muito natural que os maoris se estendessem da Nova Zelândia à Austrália, e não haveria aparente razão para excluir a Austrália das fixações dos polinésios, especialmente da sua costa oriental.
Já tinha aqui falado na possibilidade de um "reino pirata" na costa oriental australiana, para justificar as ilustrações dos mapas de Dieppe, e a prolongada ausência de exploração de um continente que ficava a distância de piroga das rotas comerciais dos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses ou ingleses... Não tinha considerado a hipótese de um reino polinésio hostil, cujo destino se esfumou na historiografia oficial, até ler este apontamento numa revista da época. 
O genocídio associado à Black War dos anos 1830's é essencialmente reportado à Tasmânia e à raça aborígene negra, e nunca me lembro de ler nenhuma referência a malaios-polinésios... percebe-se agora porquê - desapareceram todos!

Por isso, dado o modo de resolução destes problemas Pacíficos, entendem-se as colaborações mais pacíficas doutros reis, nomeadamente de Kalakaua, ainda que um século antes a vida de Cook tivesse terminado nas ilhas havaianas em 1779, de forma algo similar à de Magalhães.

Os polinésios surgem como um dos últimos mistérios à navegação... a menos que se aceite a tese dos acidentes sucessivos, a sua colonização do maior oceano terrestre, espalhando-se por todas as ilhas pacíficas, faz parecer a história das navegações europeias como aquilo que é - uma fantochada completa!
Em 1947 alguns noruegueses mostraram como seria possível navegar entre a América e a Polinésia, através da viagem da jangada Kon-Tiki (aka Viracocha)... ainda me lembro de ver o livro da expedição na estante lá de casa, foi uma aventura que teve sucesso mundial à época!
No entanto, a estória que iria ser vendida no pós-guerra seria outra, e estas aventuras revelam-se mais como desventuras, a quem não soprarem os ventos da boa ventura. E em navegações com ventos tão adversos, melhor é recolher o velame, ou ousar uma navegação à bolina, como faziam as primeiras caravelas.

Nesse sentido há alguma informação interessante compilada no artigo da Wikipedia "Theory of Portuguese Discovery of Australia", onde se reúnem algumas informações relevantes pelo lado português. Já que o material recolhido em terras australianas parece desaparecer ou ser desacreditado, alinhando toda a documentação oficial na fabulosa teoria do "grande continente difícil de encontrar", é especialmente interessante o mapa de Nicola Desliens (que se inclui nos mapas de Dieppe):

Nicola Desliens (1566)

... e é especialmente interessante ver um mapa onde não aparece o Japão, por isso suspeitaremos baseado em original anterior a 1544, mas onde a extensão australiana começa delineada, com o nome Java Maior, e com as respectivas bandeirinhas portuguesas...

Mas, ao contrário do que é popularizado, descobrir não é encontrar, é retirar do encobrimento, e isso só pode ser feito identificando primeiro o que o encobre. Ora, o encobrir resulta normalmente de calculadas vantagens face ao descobrir... e até que se torne por demais evidente que é pior desvelar o encobridor do que o encoberto, os ventos continuam a soprar no sentido errado da História.

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publicado às 23:52


Era dos Cobres

por desvela, em 09.04.12
Os retratos de Fayum ilustram claramente o conceito de regressão civilizacional.
É sempre revelador olhar para o naturalismo numa pintura do período Romano-Egípcio, como no caso desta criança de Fayum (Egipto, Séc. I a.C):
que tem uma precisão quase fotográfica. Depois basta lembrar todos os retratos toscos (por exemplo na tapeçaria de Bayeux), ao nível de pinturas de crianças na escola primária, que caracterizaram a época medieval (ocidental e oriental) até ao Renascimento.
Ou seja, a pintores que dominavam as cores e a luz, de forma perfeita, na época romana (ver ainda os frescos de Pompeia ou Herculano), sucederam gerações dos mais inábeis pintores que há registo, fazendo parecer qualquer homem das cavernas como um sobredotado desenhador.

O aspecto educacional associado esquece este pequeno detalhe de regressão na técnica de pintura, e ensina uma lenta evolução que, ao fim de quase dois milénios atingiria uma técnica retratista, ou seja - levaria de volta ao ponto de partida dos retratos de Fayum. Assim, como dos gregos ou romanos restaram poucos registos contraditórios, sempre que se olhar para uma pintura ou escultura demasiado realista tender-se-à a vê-la como coisa recente, com poucos séculos e nunca como uma pintura milenar.

A ideia criada e ensinada, é a de que houve uma lenta evolução, semelhante à evolução que uma criança tem no seu conhecimento. Como essa ideia é transmitida na juventude, quando as crianças estão num processo evolutivo, a ideia de que a humanidade passou pelo mesmo caminho evolutivo é apelativa e facilmente apreendida pelos jovens petizes. Os legados greco-romanos são vistos como "excepções que confirmam a regra", servindo para apenas elogiar o prodígio pontual desses antepassados.

Poderá pensar-se que foi um problema com a pintura... mas é claro que não foi! Foi um problema transversal que afectou todo o conhecimento, desde as artes às ciências e tecnologia (relembramos a máquina de Anticitera e a pilha de Bagdade). 
A humanidade foi infantilizada regredindo para um pensamento primário, recorrendo a ensino dogmático, primeiro pela argumentação "magister dixit" - Idade Média, depois pela fama/prestígio - Idade Moderna e actual. Sofreu uma amnésia ou uma lobotomia... conduzida pela Invasão dos Godos e dos Árabes, que de povos "bárbaros" (alguns vindos literalmente da Barbária) passaram a potências dominantes que instalaram o seu referencial de subdesenvolvimento como referencial do futuro não-desenvolvimento. Do ponto de vista cultural e científico, estes povos permaneceram com os valores e superstições que tinham antes, como se tivessem feito um compromisso assumido de regressão universal. Conforme diz Galvão, toda a memória e legado anterior foi destruído, como se tivessem inveja do desenvolvimento dos povos que conquistavam.
Porém é demasiado redutor pensar que se perdia deliberadamente conhecimento, apenas por inveja... e afinal os povos que conquistavam, sob domínio Romano, já estavam também eles condicionados no seu progresso. O condicionamento tem origem anterior...

A história foi bem coberta, desde a Idade do Cobre. A complexidade de manufactura dos metais não está directamente ligada ao necessário desenvolvimento tecnológico para que tal acontecesse. É pretendido que sociedades rudimentares conseguissem produzir metal para armamento em massa, ao mesmo tempo que não seriam capazes de menores prodígios para conveniência do seu uso civil... por exemplo a simples orientação por mapas. Na Era do Cobre cobre-se um desenvolvimento tecnológico, do qual restam apenas alguns prodígios megalíticos. 

Parte do Cobrimento só seria levantado pelos Descobrimentos... autorizados!
Os cobres... as moedas, ajudaram e ajudam a consolidar o encobrimento, de forma mais inteligente, aceitando um descobrimento controlado. Iniciou-se a Era dos Cobres. Na dúvida, ainda alguém falou em Achamento... como no Achamento do Brasil! Podiam achar que achavam algo de novo, e por isso o achamento era um conceito bem mais fraco que o descobrimento. Alguns achamentos têm direito a ser descobertos, outros mantêm-se cobertos a troco de cobres.

Na Histoire des Terres Australes (Liv, XVII, Ch. XI) em 1764 diz-se:
On peut aussi attribuer, en quelque façon, à une Politique intéressée tant de Relations absurdes & ridicules qu'on a données de différentes parties de notre Globe, & surtout du Continent Austral, en ce qu'une connaissance plus parfaite de ces Pays ne s'accorderoit vraisemblablement point avec l'interêt de certains Corps ou de certains Particuliers, qui ont un grand crédit.
Este é o primeiro texto que encontro em que se denuncia a estupidez da não exploração do "Continente Austral"... ou seja da Austrália, por interesse de "certos Corpos ou certos Particulares"!
É aliás mais ridículo, porque nesse texto há até uma necessidade de especificar em que consiste esse continente, limitando a possível localização da Austrália. Essa estupidez será associada directamente à política das Companhias das Índias... e já aqui falámos de como essa companhia funcionaria como uma "boa companhia" para evitar "más companhias". O texto fala mais especificamente da Companhia das Índias Holandesas, mas sabemos que havia uma "companhia da índias" com monopólio em cada "potência descobridora":
(à excepção dos originais, Portugal+Espanha, as restantes companhias foram instaladas os reinos que saíram vencedores da Guerra dos Trinta Anos e que a partir do Tratado de Vestfália definiram o mundo moderno)

O texto francês alerta para os perigos do seu monopólio que se verificavam já também em França em 1764. Dois anos mais tarde, Cook inicia a sua viagem, e a Companhia Francesa fica fora desse jogo... e acaba extinta  por decreto real. Porém, como já se nota nesse texto, é estranha a atitude da Companhia Holandesa, que limitava de tal forma a actuação dos holandeses que prejudicava o próprio país(*). A atitude era tanto mais estranha, pois já se sabia que o continente era praticamente desabitado, havia terrenos eram férteis e suspeitava-se que as anunciadas tribos assustadoras pouco mais serviam do que de fábula para amedrontar exploradores.

O poder do Cobrimento saiu de imposição medieval de cariz religioso, ligado a um catolicismo fundamentalista, e ganhou nova expressão como consequência moderna dos interesses interligados das diversas Companhias das Índias. O encobrimento religioso deu lugar e forma a um encobrimento económico, justificado por aparentes interesses financeiros dos monopólios das "companhias das índias".
O metal continuava a ser o Cobre... os cobres dados aos mercadores justificavam o encobrimento dos descobrimentos. O controlo quase total exercido pela religião em épocas medievais dava lugar ao controlo quase total exercido pelo comércio oligárquico das companhias das índias...

As Companhias das Índias eram alvos visíveis e a revolta do chá em Boston, contra esse monopólio, prelúdio da Revolução Americana, mostrava isso mesmo. Por isso estas Companhias tornaram-se mais sofisticadas, as suas lojas tomaram forma secreta, e os nomes "Grande Oriente" saíram das Companhias das Índias estabelecendo-se em lojas mais selectas e discretas.

Após a derrota de Napoleão e do Congresso de Viena, em 1815, a nova ordem mundial passaria a estrutura económica para a forma Bolsista. Assim, no início do Séc. XIX consolida-se essa nova estrutura económica que irá dominar por completo a sociedade nos próximos 200 anos e na actualidade. A evolução das Companhias das Índias para a forma de Bolsas de Valores é notória (Bolsas de Valores de Londres, Paris, Nova Iorque...) passando a controlar todos os produtos e não apenas o comércio de importação das colónias.
No fundo, todo o mundo passaria a uma gigantesca Índia e assim controlado como uma grande colónia.
Conforme já dizia o Vice-Rei Francisco de Almeida, era mais útil ter governos locais conduzidos por marajás colaborantes do que empreender numa efectiva conquista. A política subserviente de alguns líderes de nações europeias transformou-os em simples marajás colaborantes duma Índia alargada a todo o mundo.

Com o mercado bolsista dá-se a primeira efectivação de acordos de globalização, em que as nações comprometem a sua independência a entidades financeiras ao assumir uma completa dependência a um comércio controlado essencialmente por grandes entidades financeiras e bancárias. O comércio globalizado, passa a ser exercido sob controlo de organizações transnacionais, como é o caso da OMC - Organização Mundial do Comércio (ou do FMI). As desregulações e impunidades permitem uma actuação sem-rosto e sem-fronteiras, controlando todos os "cobres". A Era dos Cobres implantava-se, cobrando o encobrimento.


(*) é citado Jean de Wit: "Quand la Compagnie des Indes Orientales, dit-il, a été à un certain degré de richesses & de puissance, son intéret est devenu contraire à celui de son Pays" (...)
A França, com o fim da sua Companhia das Índias vê também a sua situação financeira aproximar-se da bancarrota. 
Luís XV terá dito "aprés-moi, le déluge" - e ao filho Luis XVI deixa um caos financeiro, uma fonte para o dilúvio da Revolução Francesa... É interessante reparar no contraste com o esplendor do seu pai, Luis XIV, o Rei Sol, que iniciara o seu mandato justamente com a constituição desta Companhia.


(reeditado em 9/04/2012)

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