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Para entendermos melhor a diferença entre o que se passa do lado de cá da fronteira (onde são raros os vestígios rupestres), e o que se passa do lado espanhol (onde abundam), basta atender ao que se passou em Ribeiro das Casas.

Resumindo a história (que se encontra descrita num artigo de M. V. Gomes e N. Neto de 2010)... em 2002 foi reportada a seguinte pintura rupestre, do que aparentava ser um cavalo em corrida:

Poucos anos depois, a pintura foi destruída, conforme explicado pelos autores:
A destruição da pintura zoomórfica que referimos, ocorrida em 2009, dada a completa indiferença demonstrada perante o seu achado, tanto pelos órgãos de poder local como pela tutela do património, deu então lugar a diversas notícias na imprensa regional e nacional, tendo mesmo chegado aos jornais televisivos, onde ingloriamente se atribuiu significativa importância àquele testemunho arqueológico, apesar de sem quase se dizer porquê, ou só porque teria cerca de 5.000 anos.
(...)
Muito próximo dos painéis com pinturas existe exploração de pedra, que tem aberto extensas crateras no terreno e em muito alterado a paisagem, conferindo-lhe aspecto desértico.
Segundo se julga, foi no intuito de não prejudicar aquela actividade económica que a principal imagem pintada ali existente foi irremediavelmente destruída, sendo primeiro esfregada, com gasóleo (?), e depois bujardada.
Portanto, para além de outras razões, menos claras, há o simples interesse económico de particulares, que vêm nestes achados milenares um possível empecilho para a sua negociata desregrada.
Se for para desaparecer "antes elas que o meu..." é a lógica que tem prevalecido no espaço nacional, com toda a complacência e desinteresse, dir-se-ia mais que suspeito, dos poderes, locais e centrais.

Dado que neste país o poder judicial condena mais facilmente quem acusa eminências pardas, do que quem destrói património histórico, a situação aconselha que quem descobrir alguma coisa faz melhor em guardar a descoberta para si... ou especialmente, a não revelar o local onde encontrou, sob pena de alguns anos depois nada restar... seja pelo método de esfregar com gasóleo e bujardar, seja por outro método qualquer.

O referido artigo ainda revela outras inscrições, não apenas as de Ribeiro das Casas, mas também alguns petróglifos da zona do Vale do Tejo. Para esse efeito, ver por exemplo o site:
http://tejo-rupestre.com
Petroglifo circular no topo da rocha, em São Simão - Vale do Tejo.
Melhor sorte parece ter tido Anta Pintada de Antelas (indicada em comentário do José Manuel), cuja inscrição rupestre terá aguentado milénios sem nenhuma ordem destruidora, e apresenta até um bom estado de conservação
Anta pintada de Antelas - pintura rupestre num dolmen em Portugal.
Neste caso de Antelas, e ao contrário de Ribeiro das Casas, voltamos a ver os motivos geométricos, e não a representação de figuras animais. Nestes casos é ainda mais difícil uma possível interpretação do significado, ainda que não seja de excluir de novo a hipótese de poder ser um mapa local.

Igualmente significativo, e também pouco conhecido, é o caso da Lapa dos Louções, que tal como a Lapa dos Gaivões está situada em Arronches:
Lapa dos Louções em Arronches
Há uma pequena catalogação de diversos locais com pinturas rupestres, num total de 65, a maioria dos quais descobertos nos últimos 20 anos (ver publicação de Andrea Martins), o que mostra que apesar de todas as bujardas e gasóleo, não são assim tão escassos os vestígios que se conseguiram encontrar.

No final de contas, dada a má vontade dos poderes centrais, e de alguns poderes locais, o que será talvez mais notável é que ainda existam pinturas rupestres e petróglifos para serem vistos...
Talvez com a moda do interesse turístico, e dada a pobreza nacional comparada com Espanha, se vislumbre futuro numa negociata mais virada para a preservação das pinturas do que para a sua destruição corriqueira.


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publicado às 05:52


Estado da Arte (10) - pintas nacionais

por desvela, em 02.10.16
Há uma questão relativa aos Neandertais que é razoavelmente estranha - não se encontrarem ossadas suas em paragens africanas. A questão é tanto mais estranha, porque como o nível da água estaria uns 200 metros mais baixo, permitiria uma passagem facilitada do Estreito de Gibraltar, podendo mesmo supor-se que a passagem pode ter chegado a estar fechada. 
No entanto, apesar de Gibraltar ter sido um dos primeiros locais onde se encontraram Neandertais, falando-se mesmo em "Neandertais de Gibraltar", é curioso que não tivessem dado um pequeno salto que os levaria ao Norte de África.
Convém recordar que nessa altura da Idade do Gelo, é considerado que a região do Saara seria bastante fértil, e com comida abundante, ou seja, muito diferente do deserto que se tornaria depois.

Uma hipótese possível é que os Neandertais não fossem adeptos de aventuras aquáticas... algo que acontece com todos os grandes primatas, excepto os humanos, ou melhor, os Sapiens. 
Como o Estreito de Gibraltar tem uma profundidade que varia entre 200 e 400 metros, poderia estar no limite de passagem, e bastaria sofrer algumas oscilações para permitir ou vedar a ligação. Se os Neandertais não se aventurassem em expedições aquáticas, isso seria justificação suficiente, mesmo que a margem oposta fosse bem visível.

Mas queria juntar aqui algumas pinturas rupestres que se encontram em Portugal, e que fazem parte de outra particularidade, que já referimos - a abundância de cavernas com pinturas em Espanha, parece que termina misteriosamente, ao passar-se a fronteira para Portugal.
Os exemplos são muito escassos, e agradeço que quem souber de mais, os indique.

Lapa dos Gaviões
Sobre a Lapa dos Gaviões já falámos, e juntamos aqui apenas para não a esquecer no conjunto.

São as três seguintes, que não conhecia, que foram alvo de uma publicação "recente", associada à tese de mestrado da arqueóloga Luísa Teixeira, natural de Alijó.
Já sabemos que o passado não tem vida fácil em Portugal, mas algumas destas pinturas rupestres foram identificadas há muito tempo... e para o mal e para o bem, foram deixadas como estavam, com a degradação natural de estarem expostas ao tempo.

Cachão da Rapa
Uma grande laje de pedra está no Cachão da Rapa, junto ao rio Douro, bastante próximo da linha de caminho de ferro. Os seus desenhos foram transcritos em 1735 pelo padre D. Jerónimo Contador de Argote, ou seja, há quase 300 anos... mas apesar desse interesse, depois da lavagem cerebral imposta pelo Marquês de Pombal, praticamente passam por desenhos desconhecidos da população, ainda hoje.
Estas pinturas chegaram a ser dadas como desaparecidas, vindo depois a ser reencontradas c. 1930,
Também assim podemos ver que o caso das figuras de Foz Côa foi um caso singular na preservação e divulgação do passado histórico em Portugal. 
Ainda assim, em 1943 foram classificadas como Monumento Nacional, caso diferente do que veremos de seguida.
Quanto às inscrições, estão agora muito esbatidas, mas ainda se nota uma invulgar composição de cores em padrões geométricos, que não sendo escrita, é muito provável que se trate de uma planta de antiga aldeia pré-histórica (com datação atribuída ao 2º ou 3º milénio a.C.). 
No entanto, esta hipótese de ser uma planta é mera suposição minha, já que como é óbvio, oficialmente não é dada qualquer interpretação às figuras desenhadas.

Cachão da Rapa pelo Contador de Argote e reencontro das inscrições nos anos 30.

 
Fotografias actuais das pinturas (ver).



Pala Pinta (no concelho de Alijó)
Neste outro caso houve também uma proposta recente de classificar o Abrigo rupestre de Pala Pinta como Monumento Nacional. Porém, conforme se lê na página da Direcção Geral do Património Cultural (a que remete o primeiro link): 
"Despacho de 20-02-2012 da subdiretora do IGESPAR, I.P. a determinar a reanálise da categoria de classificação pelo órgão consultivo, por considerar a classificação como MN desadequada "
Portanto, em vez de Monumento Nacional, Pala Pinta foi classificada apenas como "Sítio de Interesse Público". 
No entanto, podemos ver que as inscrições são notáveis, únicas em Portugal (que eu saiba), revelando aquilo que pode ser considerado representações solares, ou a isso se assemelhando.
Abrigo rupestre de Pala Pinta - inscrições que se assemelham a "sóis".
Penas Róias (na área do Castelo Templário de Penas Róias)
Terminamos com inscrições rupestres que estão num abrigo próximo do antigo Castelo Templário de Penas Róias, um dos castelos que se encontra desenhado no Livro de Fortalezas de Duarte d'Armas.
Será especulativo fazer a associação que a presença de um Castelo Templário naquelas paragens, fora de perigo de incursões árabes, estivesse ligada à presença dos vestígios rupestres. No entanto, convém não esquecer que os principais locais templários, antes da sua extinção, estavam localizados no sul de França, zona especialmente rica em vestígios rupestres.
Sobre este local não encontrei nenhuma tentativa de classificação - nem como monumento, nem como sítio de interesse público... aparentemente o que parece haver notoriamente é uma total falta de interesse dos responsáveis. A única coisa que fazem para proteger os locais, parece ser mantê-los fora de qualquer divulgação ao público.
As formas desenhadas, em vermelho ocre, podem ter alguma interpretação como figuras antropomórficas, mas também podem tratar-se de símbolos complexos.
Ruínas do Castelo Templário de Penas Róias
Pinturas rupestres num abrigo de Penas Róias. (imagens)
Haveria ainda que fazer pelo menos referência à Gruta do Escoural que se mantém como o único caso de vestígio de pinturas rupestres dentro de uma gruta, e não apenas como inscrições em abrigos, ao ar livre, havendo ainda notáveis inscrições nos menires e nalgumas pedras de antas. 
Se foram encontrados outros vestígios em grutas, parece que ao contrário de Espanha, deste lado da fronteira não se encontra sinal de vida.

Finalmente deixo um vídeo feito por Luísa Teixeira, relativo a estes: 
"Abrigos com pinturas rupestres de Trás-os-Montes e Alto Douro"


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publicado às 22:45


Estado da arte (9) - Atlatl

por desvela, em 15.09.16
Atlatl é a designação azteca para um propulsor de lanças encontrado também com relativa abundância na Idade do Gelo, no final do Paleolítico.
Há uns belos exemplares (ver por exemplo link indicado por José Manuel), como o caso dos encontrados na gruta Mas d'Azil (como habitual, no sul de França):
Atlatl (propulsor) encontrado em Mas d'Azil, e exemplo de utilização (em baixo).

Estes propulsores inovaram bastante na forma de lançar... as lanças.
Na prática funcionavam como um acrescento de braço, suplantando capacidades de indivíduos maiores, ou com braços maiores, na possibilidade de alcançar maiores distâncias. 
Este é um exemplo de como o engenho humano poderia suplantar uma vantagem genética.
A natureza poderia querer definir, no seu processo selectivo de ADN, que Golias iriam ter vantagem sobre Davids, mas conforme é ilustrado no episódio bíblico, a Terra não iria ser de gigantes, iria ser de humanos manhosos, capazes de usar novas armas e engodos para que o engenho suplantasse os atributos naturais. 
É claro que este é só um dos muitos aspectos em que isso se manifestou, e nem todos esses aspectos foram honrados, porque o engano e o roubo serviram também vantagens competitivas nessa evolução. Só que as sociedades também evoluíram, e sociedades em que todos os membros eram vigaristas ou ladrões teriam um rápido fim caótico, prevalecendo as que definiram esse privilégio apenas para uma reduzida elite, por um lado, e para marginais, por outro.

Outro aspecto que se salienta nestes atlatl é o excepcional trabalho artístico de escultura, que usa e aproveita o formato do chifre de veado, de que eram feitos. Portanto, estes são dos primeiros trabalhos onde se conjuga utilidade com estética, mesmo que a estética visasse algum propósito religioso - ou seja, poderia pensar-se que as figuras dos animais visavam um bom augúrio para a caçada.

Estes atlatl acabaram por desaparecer nas civilizações europeias e asiáticas, enquanto se mantiveram em uso corrente do outro lado do Atlântico, em particular entre os Aztecas. No entanto, a sua eficácia enquanto arma de arremesso levou até a que fosse considerada como 
"Kalashnikov da Idade da Pedra"
Os espanhóis, desconhecendo a função do Atlatl, entenderam alguns belos objectos ornamentados como um bastão de comando... e será de ponderar se o simbólico bastão não teria ganho essa importância devido a uma utilidade então perdida na Europa.
Relativamente ao arco e flecha, do outro lado do Atlântico, estes atlantes aztecas usavam os atlatles com a capacidade de enviar lanças mais pesadas, o que teria sido uma vantagem razoável em tempos que não havia poder de fogo, nem armaduras de metal, na Europa.

Uma consideração lateral tem a ver com o nome Atlatl ser particularmente semelhante a Atlas, o titã que deu nome ao Atlântico, separando os Aztecas dos Europeus. Aliás só há uma outra palavra começada por Atl (típico som azteca) que é a palavra Atleta, o que designava na Grécia os desportistas que competiam por um prémio. Ambas estas palavras gregas são consideradas "de origem desconhecida".

Sendo o lançamento do dardo uma modalidade olímpica da Grécia Antiga, o nome "dardo" apesar de ser usado na Europa, não tem origem grega ou romana. Raphael Bluteau recusava uma associação do nome aos Dardânios ou ao Dardanelos, associação que parecia ser corrente no Séc. XVII.
Os Romanos distinguiam o Pilum do Jaculum, consoante a lança fosse para atirar, ou para manter... mas curiosamente as Pila (plural de pilum) é que passaram a ser entendidas para arremesso, enquanto o Jaculum era suposto ser mantido erguido (um contra-senso para a etimologia de ejacular).  
Com alguma semelhança aos atlatles foi reportado que os gregos e as tribos ibéricas usavam contra os romanos uma variante com corda, conhecida como Amentum, algo que provocava uma rotação da lança, o que conferia maior estabilidade no voo, podendo aumentar a distância de 20 para 80 metros.

Interessa que, apesar de se ter mantido nas tropas o uso tradicional de lanceiros (até que as baionetas os tornaram obsoletos), ou de archeiros, por alguma razão o antigo uso dos atlatles deixou de ser considerado, especialmente durante a Idade Média.
E ninguém se terá lembrado de o reinventar, dado o espanto que levou até à confusão com um bastão?
Falta pois falar nos aborígenes australianos.
Na Austrália também se usou o propulsor, mas não era chamado atlatl, o nome dado pelos aborígenes é woomera, que de certa maneira é uma extensão do úmero, o osso do braço, mas que normalmente é feito de madeira.

Acresce que uma outra arma típica dos aborígenes, e bastante mais conhecida, é o bumerangue...
Ora, poderá ter sido uma invenção australiana, mas tendo-se encontrado uma colecção de bumerangues guardada pelo faraó Tutankamon, e até mesmo um bumerangue com 20 mil anos, feito de dente de mamute, encontrado na Polónia... conclui-se que mesmo este tipo de arma, que parecia tão característica dos aborígenes, pode ter tido um uso mais difundido na Antiguidade. Acresce que até entre os índios americanos Navajo o bumerangue também era usado como arma de caça.

Em resumo, as informações disponíveis parecem mostrar que havia, até à época da Idade do Gelo, uma circulação de informação, de partilha de conhecimento, à escala mundial - da América até à Austrália. Também podemos considerar que foram invenções que surgiram independentemente, em diversas partes do globo, mas isso não me parece tão natural neste caso dos atlatles ou dos bumerangues, porque serviram depois para algum espanto dos europeus. Aliás, esse argumento também serviria para os aborígenes terem descoberto o uso de metais, o que não aconteceu.

Para além disso, ocorreu depois uma possível proibição de utilização de certas armas... algo que só pode ser entendido como "muito estranho", em situação de guerra. 
O caso do atlatl não é o mais estranho... nem nada que se pareça!
Por exemplo, aquando da invenção dos mosquetes, era perdido imenso tempo a carregar a arma... e estranhamente, ninguém se terá lembrado de colocar dois ou mais canos, permitindo um grande aumento de eficácia.
Apesar de os besteiros usarem também um simples arco e flecha, na China há mais de 2 mil anos foram inventadas bestas de repetição... autênticas metralhadoras de flechas, que permitiam disparar 10 flechas em 15 segundos, ao invés da normal situação de disparar 2 flechas por minuto (mas é claro, com menor precisão e potência que um simples arco).
Houve uma série de invenções que simplesmente foram desconsideradas, ou rejeitadas, e isto para não falar no caso do barco a vapor de Garay, apresentado em 1543, ou do mecanismo de relógio de Anticítera, conhecido dos Gregos, e outras invenções antigas de que já falámos. 

Mesmo perante os inimigos mais ferozes e riscos de aniquilação, o registo de batalhas da Antiguidade e Idade Média parece denotar sempre um certo equilíbrio de processos e técnicas, onde a grande diferença era marcada essencialmente pelo número de tropas em combate e não pela tecnologia.
A diferença só seria avassaladora quando começou a Idade Moderna, com os descobrimentos e colonização de povos com arsenal muito primitivo... que não tinham evoluído desde o Paleolítico!


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publicado às 05:19

Vero Beach, Florida. Um colector de fósseis reparou em 2009 que, um osso que tinha recolhido dois anos antes, continha um desenho de um mamute.
O achado foi para o Smithsonian que validou a descoberta, com anúncio público em 2011:

BONE FRAGMENT IS ONLY ICE AGE ARTWORK FROM AMERICA TO SHOW A “PROBOSCIDEAN”

Desenho de um mamute inscrito num osso encontrado na América.
Osso onde se vê ao centro o desenho do mamute.
Se repararmos bem na imagem, vemos um traço no desenho que é muito semelhante aos que encontramos nas inscrições rupestres na Europa.
Portanto, como os mamutes se extinguiram em ambos os continentes no final da Idade do Gelo, estamos provavelmente a falar de uma ligação directa entre os povos que fizeram este desenho na Flórida e os que faziam os mesmos desenhos na Espanha e em França.
Ou seja, mesmo querendo excluir uma viagem marítima, haveria uma passagem pela ponte de gelo que ligaria os dois continentes, e que justificaria sem problemas este achado. 

No entanto, para a comunidade troglodita que acha que Colombo foi o primeiro a chegar à América vindo da Europa, este achado revelou-se um problema difícil de contornar.
Poderiam ter argumentado que o osso tinha ido parar à costa da Flórida arrastado por alguma corrente mirabolante... só que Vero Beach tinha sido um local que já tinha sido alvo de explorações há 100 anos, por Elias Sellards, onde tinham sido encontrado mesmo ossadas humanas, e falara-se então do Vero Man. A história e controvérsia está bastante bem detalhada no site Don's Maps:
http://www.donsmaps.com/vero.html

Foi aí que fui encontrar esta "novidade", cinco anos após a comunicação pública do Smithsonian, divulgação que passou ao lado de tudo o que é tablóide nacional ou internacional, e também ao lado da malta que passa a vida a encher os facebooks de grandes novidades (encontrei apenas uma referência cruzada num artigo do Herald Tribune de 2010 - ainda antes do reconhecimento pelo Smithsonian). 
Mexer com a descoberta da América por Colombo é sempre complicado... 

Numa época de fácil comunicação, se fosse o diz-que-disse habitual, ou a foto de um gatinho fofo, teria rapidamente agregado uma rápida comunicação no espaço de horas... tratando-se de um assunto mais inconveniente, pois temos que contar com anos, neste caso com 5 anos, até dar com isto, o que nem é mau... será mais ou menos o tempo que as notícias deveriam correr mundo no Paleolítico.

E para vermos que nem é mau, basta atentar num dos 3 comentários que se lê na página do Smithsonian (esquecendo o trombudo que não consegue ver nem tromba, nem animal, e o outro que lhe tenta explicar):
Wrong! There is a piece of artwork that was found in Delaware which depicts a mastodon dating back to at least the Clovis period, and it was discovered almost a hundred years ago.
A acreditar neste comentário, e tendo verificado que houve de facto achados que mostram a caça de mastodontes na zona do Rio Delaware, haverá outros desenhos de mamutes, encontrados há perto de 100 anos... mas que não serão agora do conhecimento público. Como, ao que parece, os caçadores de Foz Côa importavam sílex da zona de Lisboa, creio que 100 anos era tempo exagerado de comunicação, mesmo para os standards do Paleolítico (lembrando que, caminhando a passo, se poderia ir da Europa à China em menos de um ano).

Acresce que esta descoberta também concorda, de certa maneira, com os estudos de haplogrupos, que mostraram haver entre os índios da zona do Canadá uma dominância do R1, que é o dominante na Europa, e característico da cultura indo-europeia. 

A Flórida, no tempo da Idade do Gelo não seria zona costeira... a costa estaria milhares de quilómetros avançada, e por isso este achado em Vero Beach deve ser encarado como uma descoberta no interior da antiga América. 
Havendo desenhos desta qualidade em ossos, tal como existem na Europa, será de considerar que possam igualmente existir pinturas rupestres em cavernas americanas... mas dada a política de ocultação, isso seria tão difícil vir a público nos EUA, quanto o é em Portugal.

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publicado às 03:37

No ano passado publiquei 6 textos sobre o "Estado da arte": (1), (2), (3), (4), (5), (6); em que o sentido da expressão era duplo ou triplo... já que "estado da arte" é uma expressão genérica que significa o estado de um conhecimento, de uma certa arte, num dado momento, mas pode ainda referir-se ao estado em que está a arte, a arte pictórica por exemplo, ou ainda a um estado que é dominado pelo conhecimento artístico... como se fosse a arte a mandar no estado das coisas. 

Há um site muito bom, que reúne muita informação e imagens sobre arte rupestre:
Don's Maps (de Don Hitchcock)

No texto de Don Hitchcock dedicado à gruta de Combarelles, vêem-se imagens de grande qualidade, por exemplo, o grande realismo na cabeça de um cavalo:
 Heinrich Wendel (© The Wendel Collection, Neanderthal Museum)
 ... que está inserida num conjunto, que evidencia uma característica típica - sobreposição de imagens:
Desenho das inscrições feito em 1902 por Capitan e Breuil, onde se vê a cabeça do cavalo fotografada em cima.

Há aqui várias coisas que ocorrem tipicamente.
Uma delas é a enigmática sobreposição de desenhos, cujo propósito ou significado não parece fácil de decifrar. Ao visitar o museu de Foz Côa, o arqueólogo explicava que uma das placas que tinha acabado com as dúvidas acerca da datação das inscrições tinha sido uma placa enterrada cujo solo que a cobria fôra datado (por Carbono 14) como tendo 18 mil anos. Assim, a placa em causa não estava exposta há 18 mil anos, e as inscrições seriam obrigatoriamente mais antigas, e além disso dizia que as sobreposições de desenhos não tinham sido de várias épocas... o desenho tinha propositadamente as sobreposições!
Outra coisa que ocorre frequentemente é não identificarmos os desenhos... ou seja, pelo menos alguns deles, só os conseguimos ver depois de consultar a cábula auxiliar (ou nem isso). No desenho de 1902 aparece outra cabeça de cavalo, que não consigo ver na fotografia acima, ainda que pareça ter havido uma degradação da rocha.

Assim, poderá bem ocorrer que algumas das interpretações feitas pelos arqueólogos resultem de um fenómeno conhecido como pareidolia ou apofenia.
Ora, acresce que uma coisa conhecida é que os artistas rupestres usavam as saliências ou buracos na rocha como auxiliares para os seus desenhos.

Pois bem, para explicar melhor o ponto deste texto, vou buscar uma imagem de um silex que está na página de Don Hitchcock sobre o Abrigo de La Madeleine:
Sílex cortante, no abrigo de La Madeleine (França)
Depois de olhar para vários desenhos constantes em arte rupestre, os olhos ficam treinados para tentar decifrar imagens de bicharocos nas rochas, existam ou não... porque à partida não sabemos.
É claro que num sílex ninguém está à espera de ver nenhuma inscrição rupestre, mas olhando para este sílex pareceu-me que seria igualmente possível ver ali animais, ou mais precisamente, a partir das saliências do sílex fazer aparecer animais... que lá não estavam:
Animais que "aparecem" - uma sugestão de desenho, criada pelas saliências da pedra.
Ora, o ponto que aqui pretendo levantar é simples.
Seria esta a fonte de inspiração dos pintores rupestres?
Ou seja, vendo algumas linhas que lhes poderiam sugerir contornos de animais, seguiam essa via, e limitavam-se a adicionar alguns traços que permitissem completar o desenho?
Devo dizer que o resultado final surpreende, porque não teria sido capaz de fazer os mesmos desenhos se não tivesse usado as inspiradoras linhas já existentes no sílex.
Usei a imagem do sílex, porque se tivesse pegado numa imagem de uma rocha, colocar-se-ia a hipótese de ter havido ali um verdadeiro desenho, e neste caso isso parece-me fora de hipótese.

O que adianta esta suposição? 
Ainda que não se aplique certamente a todos os desenhos, no caso em que há sobreposição de imagens, isso poderia resultar de o pintor ver vários bichos aparecerem de diversos contornos que se sobrepunham. 
Considerando importante dar relevo a todos eles, para que aparecessem no campo, tal como apareciam na rocha, não via desvantagem nem confusão na sobreposição de imagens - muito pelo contrário, isso antevia uma abundância para a caça. O valor da superstição poderia ser diferente se fosse apenas um desenho resultante da sua imaginação (esses seriam arbitrários em número), ou se resultasse de identificar nas cavernas alguns escassos contornos que sugeriam o aparecimento de caça.

Esta hipótese de superstição daria ainda motivo para que não se desenhassem figuras humanas (algo que é raro, ou praticamente inexistente, na arte rupestre europeia). Porque, ao fazer aparecer pessoas, ainda que os contornos o sugerissem, isso significaria fazer aparecer desconhecidos, que poderiam ser competidores inimigos. 

Voltando à imagem do cavalo, podemos notar que há traços mais demarcados do que outros, que podem ter sido os traços originais, que serviram de inspiração à figura que se seguiu. Por outro lado, parece nunca ter havido uma tendência de alisar, de retirar confusão da rocha, para que uma imagem pretendida ficasse mais clara e liberta da confusão de riscos. Esta hipótese poderia ser melhor verificada, analisando se as pinturas seguem nalgumas linhas contornos pré-existentes (algo que está fora do meu alcance pessoal). 

Em paisagens graníticas, com grandes blocos de rocha, como é o caso da Beira Interior, há ainda formações naturais que sugerem diversas formas, e poderá ter ocorrido terem sido feitas pequenas alterações de escultura nas pedras para evidenciá-las. As melhores talvez tivessem sido depois destruídas, já que especialmente durante o período cristão, seriam associadas a idolatria de deuses pagãos, algo bastante reprimido pela Roma papal, que sucedeu à Roma pagã.

Em todo o caso, seja a situação de aproveitamento dos contornos das rochas muito ou pouco acidental, como técnica de pintura ou escultura seria mais fácil produzir excelentes desenhos vendo a imagem do animal em traços pré-existentes, do que procurar fazer o desenho de raiz, sem outro auxílio. Talvez essa simples descoberta tenha feito a diferença entre a qualidade dos desenhos que vemos na Europa, e outros desenhos bem mais toscos que apareceram noutras paragens.

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publicado às 05:18


Estado da arte (6)

por desvela, em 01.10.15
Com um certo atraso, coloco aqui algumas imagens que foram trazidas pelo José Manuel, e que já tinham sido referidas no espaço de comentários em

http://alvor-silves.blogspot.pt/2015/07/estado-da-arte.html

Em concreto, referia-se a uma fotografia a um menir do cromeleche dos Almendres, onde José Manuel evidenciava uma forma em espiral ali cravada. A fotografia está na Wikipedia:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Megalithic_spirals_at_Almendres_Cromlech.jpg

No entanto, trago-a aqui também porque reparamos que para além da forma no menir em primeiro plano, também é possível ver uma outra forma, que está no menir em segundo plano:
Almendres (Foto de JM, na Wikipedia)

Essa forma mostra uma parte da mesma lua que se encontra num menir de Portela de Mogos (não muito longe dos Almendres):
Portela de Mogos


Ver ainda http://www.sourcememory.net/art2/portugal/almendres.html 
- onde esse menir é descrito como «necklaced stone».

Como referi na altura, parece-me que há uma semelhança razoavelmente grande entre esta figura e a uma representação associada à deusa Tanit (Tânia):
Figura do British Museum - invocação à Deusa Tanit
(repare-se na meia lua com um ponto)

Há bastantes menires com inscrições (por exemplo: http://www.wikiwand.com/en/Statue_menhir), e não será de estranhar que este aparecimento fálico se associasse a divindades maternais, pelo lado feminino, como símbolos da fertilidade, onde se incluiria ainda Tanit.

A parte dramática irá ocorrer com o ideal da fertilidade.
Está muito bem representada no mito de Cronos e Zeus.
O problema, claro está... foram as cabras!
A lógica sai tão transparente, que chega a parecer uma verdade cristalina - por muito pequena que seja a base factual de sustentação.

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publicado às 03:19


Estado da Arte (5)

por desvela, em 19.08.15
Um dos blogs que disponibiliza ao público informação sobre investigação arqueológica é Portuguese Enclosures (com relevo para as escavações em Perdigões), e que me foi indicado há uns tempos pela Amélia Saavedra. Daí trago um mapa interessante sobre a localização desses acercamentos em Portugal, como sejam fossos circulares ou cercas muradas: 
 A.C. Valera (2015), "Map of walled and ditched enclosures"
(muradas - quadrados vermelhos, fossos - círculos laranja)
É interessante, porque o mapa escolhido apresenta a cinzento a orografia, e facilmente se nota que, à excepção de um caso (perto de Aveiro), todos os outros pontos foram encontrados em altitude. Ou seja, estão sobre a mancha cinzenta, que julgo corresponder a 100 metros de altitude (ou mais). 
Especialmente significativo é o caso a sul do Tejo, já que dessas dezenas de acercamentos, nenhum foi encontrado na parte abaixo dos 100 metros, e vários situam-se na linha fronteira dessa altitude.

Por outro lado, encontrei no ano passado um mapa que tinha uma localização extensiva das cavernas com registos pré-históricos, a que adiciono também um mapa de altitude:


Cavernas com inscrições rupestres (em cima), e mapa com o relevo do terreno (em baixo).

Observação: O blog que tinha a imagem de cima desapareceu entretanto... de forma que o link não funciona, mas deixo-o conforme o encontrei. A imagem de baixo tem link operacional, mas não é o mapa orográfico que aqui usava habitualmente. Esse era shaded-relief.com, que subitamente também deixou de funcionar... Aliás é curioso que o Google Maps também incorporou uma faceta de relevo do terreno, mas foi simplesmente desactivada na nova versão. É bom que nos habituemos a que as "novas versões" podem ganhar tendência sistemática em serem piores que as anteriores, com o pretexto de "facilitarem a compreensão".  

Ou seja, o que notei então é que o mapa das cavernas com inscrições apontava também para uma localização em altitude, especialmente por falhar a zona mais baixa da Aquitânia francesa. Não consigo saber se o registo aponta sempre para valores acima de 100 metros, mas é natural que sim.

Por outro lado, também sabemos que já mencionámos Cosquer, uma caverna cuja entrada estava 37 metros abaixo do nível do mar... Parece portanto informação contraditória. Por um lado, temos um registo frequente de cavernas acima dos 100 metros, e por outro lado há excepções, abaixo até do nível actual do mar. Como conjugar a informação?

Bom, o caso das cavernas ainda que fosse uma dica, era isolado. Trago este assunto porque há muito que reparei que os registos arqueológicos são normalmente encontrados em altitude, afastados de zonas baixas. São encontrados próximo da costa quando essa costa é alta. Este novo caso de investigação dos acercamentos parece indiciar o mesmo fenómeno - a sua localização é em altitude.
Se ainda podemos argumentar que os vestígios humanos em cavernas estão mais ligados a altitude pela presença de formações montanhosas calcárias, já é mais estranho que isso ocorra também com acercamentos, que poderiam ser construídos em qualquer lugar.

Assim, após as Idades do Gelo, o degelo fazia naturalmente aumentar o nível do mar, e estas variações não são nada insignificantes... é admitido que a linha de costa na época glaciar se estendia bastante e até deixei nos comentários um possível mapa, com um contorno obtido por análise do Google Maps, baixando o nível do mar:
Possível contorno da costa com o nível do mar reduzido, em época Glaciar
(a linha branca corresponderia a uma eventual localização dos gelos permanentes).
Se repararmos no mapa, haveria nessa época glacial várias ilhas ao largo da costa portuguesa, e que hoje estão submersas, sendo denominadas "bancos", e poderá ser grande a sua riqueza arqueológica.
Ora o problema é que quando havia uma ligação à "terra firme" (designação antiga, interessante, para o continente), a fuga das populações com a subida da água, poderia ser feita... mas também poderia ocorrer que o refúgio não fosse suficientemente alto. Nesse caso, ainda que as populações se tivessem refugiado nuns montes com algumas centenas de metros, a invasão das águas começaria por tornar esse monte numa ilha, e com a subida progressiva, essa ilha seria submersa. 

Claro que alguns poderiam escapar, se usassem barcos, mas o problema colocar-se-ia quando o número de embarcações fosse ausente ou insuficiente, e a subida das águas fosse suficientemente rápida, a ponto de não permitir viagens suficientes para resgatar toda a população cercada. Ou seja, os que escapassem, saberiam que teriam afogado muita mágoa, em má água. Especialmente se isso tivesse ainda envolvido uma escolha entre "homens" e "animais", não exactamente como o pintado na Arca de Noé.

Há uma tradição sobre uma grande seca na Península Ibérica, em tempos "recentes". Bernardo Brito fala do assunto no Cap. 24 da sua Monarchia Lusitana -  De certa esterilidade que os autores contam, que aconteceu em Espanha neste tempo, e da verdadeira e menos duvidosa opinião que há nesta matéria. Essa seca teria levado a um enorme despovoamento da península, e isso poderá estar relacionado com um aumento de temperatura que teria não só causado uma grande seca, mas também ocasionado uma razoável subida das águas. Não é de excluir que os acercamentos (datados os mais antigos por volta de 3000-4000 a.C.) possam reflectir um tempo em que a temperatura aumentou, e com isso houve uma subida de águas muito significativa, uma escassez de recursos alimentares, e um aumento da conflitualidade entre as populações.

Como curiosidade, mencionamos ainda que uma subida da ordem de 100 metros seria suficiente para isolar a Península Ibérica, como ilha face ao restante continente europeu, ou seja, a figura da "jangada de pedra", se foi apenas figuração de Saramago, poderá ter tido um correspondente efectivo em tempos remotos.


Noutra Atlantis
O continente americano foi entendido durante vários séculos como a verdadeira Atlântida, para onde a navegação era condicionada ou proibida, até que se impôs a necessidade de manter o mito de uma Atlântida a meio do Oceano Atlântico.
Ora, no continente americano têm-se encontrado inúmeros registos de pinturas rupestres, especialmente no sudoeste dos EUA, e como há muitos fotógrafos que disponibilizam imagens, encontrei esta, com alguma semelhança com a da Lapa dos Gaviões, ou se quisermos, com o registo da Kanaga e Wolu, dos Dogon, que mostrámos no Estado da Arte (4):
 
Pintura rupestre americana (foto W. Harrell) e Lapa dos Gaviões (Portugal)

Mas não são apenas estas que são semelhantes. Há várias outras. Ficam aqui um link de fotos tiradas no White River Narrows - Archeological District ou aqui (sem menção do local). E também uma outra que mostra que há "talibãs" em várias partes do mundo, apostados em destruir registos passados:
Vandalismo presente sobre o rupestre antigo (foto de W. Harrell)
... e o problema será maior quando algumas das letras modernas disfarçarem traços ou letras antigas.  
Apenas como curiosidade, W. Harrell foi até descobrir o símbolo da Triple Marfel ... ou muito semelhante;
ou ainda o símbolo nuclear num possível escudo guerreiro!!

Acresce que o símbolo Kanaga dos Dogon aparece também na Colômbia, em conjunto com o símbolo do Indalo, da Almeria espanhola (de que falámos antes):
Indalo e Kanaga numa inscrição na Colômbia
(http://indalocodex.com/codigo-indalo/)
Estes são apenas alguns exemplos, há vários outros casos. No exemplo do Indalo já foi também sugerida uma semelhança com esta representação egípcia, da época de Ramsés:
Possível interpretação do Indalo em inscrições egípcias de Ramsés.
(http://leyendasyfabulas.com/el-indalo-simbolo-de-almeria/)
O que interessa notar é que mesmo que estejamos dispostos a aceitar um certo número de coincidências, e mostrámos algumas, haverá uma sistemática repetição de símbolos em paragens tão distintas como as europeias e americanas, e em que só os muito crentes pensarão apenas em coincidência, sem se interrogarem minimamente. Tendo vistas muito mais imagens do que as apresentadas aqui, o caso do Indalo e Kanaga parecem-me fazer parte dessa "lista de coincidências". Tratar isto como coincidência, está ao nível de considerar que é uma coincidência o sol nascer e se pôr todos os dias... e só um certo tipo de "cientistas" consegue tal redução absoluta.

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publicado às 06:56


Estado da Arte (4)

por desvela, em 18.08.15
Alguns dos animais mais representado nas antigas pinturas rupestres europeias eram Bisontes (bison europaeus) e Auroques (bos primogenius), bovinos de espécies diferentes. Apesar da caça intensiva ter levado praticamente à sua extinção, na Antiguidade ainda existiam na Europa. Os últimos exemplares foram caçados durante a Idade Média, mas sob protecção real ainda permaneceram alguns na zona da Polónia. Tendo sido o último bisonte selvagem morto em 1921, usaram-se os existentes em cativeiro para evitar o fim da espécie, e sobrevivem hoje pequenas manadas de bisontes em vários países europeus. O auroque extinguiu-se por completo no Séc. XVII.

 
Wisent - bisonte europeu em reserva, e na cave de Altamira

O nome para o bisonte europeu é Wisent, curiosamente lendo-se Vizent, ou seja, extinto o animal nestas paragens, a palavra mais próxima que nos ficou em português é Vicente.

É sabido que, num certo compromisso da cristianização com o politeísmo popular, certos cultos antigos foram mantidos através da grande panóplia de santos admitidos pela Igreja. Conforme já aqui falámos, o "Caminho de Santiago" era um caminho de peregrinação celta, mantido pelos romanos.
O Caminho de Iano (ou Janus), passou depois em época de peregrinação romana a ser o Caminho de Iago (Iago ou Tiago, São Tiago, Santiago).
De forma semelhante, não me surpreenderia que o destaque dado a São Vicente pudesse estar ligado a um culto bem mais antigo, que remontaria a tempos de arte rupestre, onde se representavam os "vizentes", os bisontes (aliás a própria palavra "bisonte", se atendermos à habitual troca dos "b" e "v", não difere assim tanto, se a lermos como "vizonte", e como detalhe lateral lembramos que a pele mais procurada foi o "vison"... um nome estranho para pele de lontras).

Acresce que o nome "Auroque" parece ter também uma certa deturpação moderna, sendo ainda no Séc. XIX também escrito como "Urox", ver por exemplo:
(1) The Annals and Magazine of Natural History, Vol. 4, p. 236  - "On the existing and extinct animals of Scandinavia", by Prof. Nilsson of Lund.
Este "ur-ox" era entendido em inglês como uma concatenação de "Ox" (boi) com "Ur", o bovino que em latim se designava como "Urrus", e hoje chamado "auroque" (num certo desvio fonético do "Ox" para o "Oc", occitano...)
A característica principal dos auroques eram os seus grandes chifres, e será de questionar se os bois de raça mirandesa, maronesa ou barrosã, não serão suas versões domesticadas, mais próximas dos originais que os bois ou touros, que foram mantidas e apuradas ao longo de gerações:
 
Chaves - "Feira dos Santos" onde os bois são "reis da feira" (esq.), e "auroques" desenhados em Lascaux (dir.).
É claro que os bois serem o foco na "Feira dos Santos" de Chaves, não significa nada, tal como a etimologia é suficientemente especulativa. No entanto, sem querer abusar demasiado do assunto, notamos que o nome latim "Urrus" se associa directamente à nossa palavra "urros", e pode ser visto como um caso de onomatopeia... Aliás, talvez não seja acidental o uso da palavras infantil "turras", para designar o embate de cabeças, já que o combate entre estes animais se processaria com essas cabeçadas e com "urros".

Para terminar este tema, vou citar um texto do Séc. XIX:
Baal, Bel, Belus, Chronus, Moloch, Saturn, the same deity. Chronus derived from "horn", which was an emblem of power and dominion among the Eastern nations (...) Chronus must have been rendered by the Greeks "Koronus", and there was a place dedicated to him in the island of Cyprus, which was called "Koronis", and both these words are a transposition of "Kon-Orus", the "Lord Orus", or lux, vel ignis. (...)

Esta facilidade na etimologia deixa sempre muitas dúvidas... e só a usámos para notar que a associação entre "Cronus" e "cornos" é audível em português, mas não deixa de estar referenciada.
Já a relação com "Koronus" leva-nos também à palavra latina "Corona", ou seja "Coroa", e não deixa de ser interessante entender as cabeças coroadas como cabeças corneadas. Apesar de se referir a Lord Orus, o autor não estabelece ali nenhuma ligação ao Horus egípcio, talvez porque ao falcão faltaria o ornamento coroado.

Relaciona-se tudo isto pouco com o anterior texto Estado da Arte (3), mas como diria o guia timorense então citado, "it's a hairdresser"... ou seja um enfeite da cabeça!

Para esse efeito, especialmente significativas são as máscaras dos Dogon (povo do Mali):
Máscaras na tribo dos Dogon (imagem daqui)
A da esquerda chama-se Kanaga e a do centro será um Wolu (cf. aqui)
Se atendermos a estas imagens, e repararmos nalgumas das pinturas rupestres, que aqui coloquei anteriormente, por exemplo, a da Lapa dos Gaviões:
Pintura na Lapa dos Gaviões (esq.), e inscrição moderna dos Dogon (dir.) invocando a Kanaga.

... vemos que as enigmáticas figuras humanas cuja cabeça aparece enfeitada - a ponto de noutros casos se entenderem algumas imagens como "capacetes de astronautas", podem naturalmente dever-se a simples enfeites de máscaras rituais.

Algumas máscaras representavam directamente animais, outras nem tanto... por exemplo, o símbolo das tábuas em forma de "H" é abstracto e conhecido como Kanaga e fez parte das bandeiras do Senegal e Mali (este nome "Kanaga" pode ainda estar ligado ao rio Canagua, depois passado a rio Senegal).

Noutras paragens - Nova Guiné, Papua, vemos máscaras igualmente estranhas, e que uma vez desenhadas numa parede poderiam levar facilmente à suposição de se tratar doutra coisa, estando em moda, a associação a ET's.
Tribo da Papua em máscara ritual, Nova Guiné (imagem daqui)
...
Portanto, parece natural que o simbolismo que levava a fazerem-se máscaras com animais, ou outros símbolos menos óbvios, fosse transportado para a pintura ritual, para a pintura rupestre.
A parte mais estranha, que é agora moda remeter para extraterrestres, deve ser remetida para outros seres igualmente estranhos, os xamãs, magos, e sacerdotes, que exploraram essa faceta ritual. E se algumas das pinturas foram inspiradas em alucinações, em transes, conforme mencionado no documentário da BBC, esses rituais seriam uma parte do foco cultural, mas não seria o único foco.

Finalmente, o nome dos Dogon lembra-nos o Anedoto Dagon, de que já falámos (por exemplo, sobre as bolsas), e que sendo um Anedoto  (ou Anunaki), que aparecia aos babilónios sob a forma de peixe, tem uma filiação interessante na mitologia fenícia que o remete como irmão de Cronos (ver "Abertura de Sancho")... ou seja, o outro elemento de destaque nas máscaras Wolu, embelezadas com um par de chifres.
18-08-2014

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publicado às 07:57


Estado da Arte (3)

por desvela, em 04.08.15

Prossigo a sequência do Estado da Arte com a observação de José Manuel acerca de um detalhe no vídeo de El Castillo, referente a losangos
Losangos na Caverna de El Castillo
... que, conforme notou, os losangos são também as formas encontradas na Caverna de Lena Hara, em Timor Leste. Basta para esse efeito lembrar a imagem que divulgou em 2011 no blog Portugalliae 
Losangos na Caverna de Lena Hara, em Timor Leste
Conforme o José Manuel fez questão de notar, o nome colonial de Tutuala, onde foram encontradas estas inscrições datadas entre 6 e 20 mil anos, era um sonante "Nova Sagres". Talvez o nome se devesse apenas à localização extrema, na ponta de Timor, oposta à outra Sagres... ou talvez não!


Melanésia... o outro lado da arte
Procurando um pouco mais acerca de pinturas rupestres em Timor, e para além dos petróglifos com caras humanas (com óculos?!) assinalados no Portugalliae, num blog 
https://musicwork.wordpress.com/2010/12/09/rock-art-near-tutuala/
há uma interessante colecção de imagens de um local adjacente a Lena Hara, chamado Ile Kere-Kere.
Para além de serem vistos barcos (recentes?) e mãos (antigas?) - que sou forçado a deixar "sem comentários", por não ter informação sobre possíveis datações...
 

... há uma estranha representação, que faria o gosto dos "teóricos dos deuses-astronautas":

Mas sobre esta estranha representação, cito directamente o autor do blog, que descreve o assunto com uma piada monumental:
I disgraced myself with this one by asking why a picture of a TV antenna has been included among the rock art. Maleve (one of the TImorese people with us) groaned and stared at me incredulously. “It’s a head-dress!” he said emphatically. 
Lá está... uma ilustrativa questão de contexto!
Enquanto o "homem branco" conjectura, pensa em ovnis, em antenas de TV, (ou fazendo auto-crítica ao meu texto anterior... pensa em mapas), o habitante inserido na cultura local vê ali um ornamento decorativo, uma espécie de chapéu.

Chapéus...
No entanto, focarei uma outra imagem que encontrei, que aparece apenas associada a Timor-Leste
"Pintura rupestre em Timor-Leste"
imagem do blog "asfolhasardem.wordpress.com" 
Porque, não se tratando de Bugs Bunny, estas imagens evidenciam duplas protuberâncias na cabeça - talvez a imitar chifres, e mais uma vez damos o salto - agora de Timor para Portugal e Espanha.

Uma das raras inscrições rupestres conhecidas em território português é a Lapa dos Gaviões, onde são representadas três figuras... eu diria semelhantes, na ornamentação da cabeça:
Lapa dos Gaviões - Portugal (daqui)
E como umas coisas vão dar a outras, há uma colecção impressionante de imagens rupestres, feita por um punhado de fotógrafos amadores, num repositório do flickr:https://www.flickr.com/groups/pinturasrupestres/pool/... e que por si daria para uma série de "estados de arte" interminável. Um outro igualmente interessante é este:https://www.flickr.com/groups/bestofruins/pool/

Mas, continuando, se a legenda fala numa existente interpretação como "bovídeo, rinoceronte e javali", nunca me tinha ocorrido pensar em ver as figuras como projecção horizontal... tudo bem, mas mesmo assim dificilmente conseguiria ali vislumbrar tais bichos.

Por isso, socorro-me da mais abundante expressão existente em Espanha, que parece não ter grandes dúvidas sobre a orientação das suas pinturas. Ou seja, mais concretamente falo do "Brujo", na Cueva de Los Letreros, que teve direito a uma escultura significativa para promoção turística:
Cueva de Los Letreros - "O Bruxo" - (ver aqui)
Esta imagem icónica está degradada (ver original), mas é possível ver claras representações noutras cenas, onde aparece com os característicos chifres, ou com o "chapéu correspondente":
Cueva de Los Letreros (de comarca de los velez)
Portanto, parece-me mais natural ver representações antropomórficas que evidenciam talvez bruxos, conforme sugerido pelos espanhóis, atendendo ainda por cima à proximidade geográfica... com Timor a questão é mais complicada.
E, por outro lado, pode complicar-se mais ainda se atendermos a que há semelhanças nestas cenas com as inscrições na Serra da Capivara, no Brasil, sendo que o bruxo parecia acompanhar-se de uma bolsa, e isso já foi abordado como uma questão de moda das Bolsas da Capivara, bolsas que podem ter antecedido as mais modernas, em que as flutuações do mercado nas Bolsas nos vai ao Bolso. 
Em contraponto, o bruxo apresenta ainda uma ou duas foices, algo mais comunista e menos capitalista, mas que devemos entender no contexto saturniano mais lato - ou seja, como a foice adamantina de Cronos, castradora de Urano.

Universalidade
Mais icónico ainda do que o bruxo, na zona da Cueva de Los Letreros, em Almeria (Andaluzia), o símbolo da região é o Indalo (entendido como Mensageiro dos Deuses, ou seja um Hermes... mas não das bolsas, ou ainda que sim, Hermes-Mercúrio era associado ao comércio). 
Este Indalo é uma representação que se diria logotipo moderno, próprio de uma qualquer empresa com ambições globais:
Indalo - Cueva de Los Letreros, Almeria (Espanha)

Em Almeria vendem-se porta-chaves com este ícone, mas há alguma imprecisão na cabeça, porque se repararmos bem, o disco não se une ao corpo, sugerindo ao mesmo tempo uma forma de olho, e não apenas um homem num certo abraço universal (ou talvez, simplesmente, a saltar à corda...).

Porém há um o ponto de universalidade, que se observa nas pinturas, que vai desde Timor, de toda a Melanésia, até à Europa, e não só... prolonga-se ao continente americano, não apenas no Brasil, mas a sítios tão remotos quanto a Cueva de Las Manos, na Patagónia Argentina, conforme já aqui tinhamos salientado... ou ainda mais, a ilhas chilenas do Estreito de Magalhães, como a Ilha de Madre Dios:
Ilha da Madre Dios - região do Estreito de Magalhães. (imagens)
Primeiro, a enorme caverna (vejam-se os homens na seta vermelha) onde foram encontradas.
Segundo, as pinturas nessa caverna, com o mesmo tipo de ilustrações e tinta.

A caverna, onde foram encontradas as inscrições rupestres da Ilha de Madre Dios, é gigantesca, a ponto de terem mesmo sido encontrados ossos de baleia numa plataforma a 30 metros de altura, acima do mar. Nessa caverna vemos as inscrições com o aspecto característico de quase todas as pinturas rupestres.

A questão é que quando temos estes símbolos enigmáticos, ou mãos pintadas na rocha, não estamos a falar de culturas sem qualquer ligação entre si. Há pontos comuns de uma parte à outra do globo, e são tão distantes no tempo quanto a competição para as mais antigas se coloca nos 40 mil anos, quer nas ilhas Celebes na Indonésia, quer na Espanha. 
Por muito que os actuais bruxos tentem menosprezar ou desligar umas e outras manifestações, considerá-las casualidades naturais, não há muito de natural na presença global de uma cultura antiga de bruxos ou xamãs, dos quais os actuais são herdeiros.

Seria natural a diferentes culturas aspergirem as suas mãos para as deixarem impressas na rocha?
Então e por que não deixar também os braços, os pés, ou outra parte do corpo?
A técnica e a representação era invariante, mas não havia nenhum traço unificador, passado de geração em geração? Percebemos que seja conveniente evitar esta "teoria global", porque ela sugere uma herança global, e este tipo de "conspiração" é facilmente metido na caixa de "teorias da conspiração"... mas o traço comum está aí, e só não o vê quem não quer que seja visto.

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publicado às 06:41


Estado da Arte (2)

por desvela, em 01.08.15
Depois de ter escrito o texto anterior, encontrei um bom documentário da BBC sobre Arte Rupestre, apresentado por Nigel Spivey, da Universidade de Cambridge.

Prehistoric Europeans. People who invented Art.


O documentário tem o mérito de dar ênfase a questões importantes, ainda que depois tenda a concentrar-se numa conjectura como resposta - ou seja, o que seria desenhado nas cavernas seriam descrições de estados de transe dos xamãs.

Bom, mas este assunto da pintura tornou-se numa questão de um milhão de dólares, valores atingidos nos leilões de pinturas abstractas desde o início do Séc. XX. Ignorando pertenças de ídolos, raramente encontramos outros objectos, sem ser quadros, cujo valor de mercado é astronomicamente superior ao valor dos materiais ou dos processos utilizados na construção. 

Uma das revelações feitas neste documentário, e que foi para mim uma surpresa, foi a história de um turco, no início do Séc. XX, que não associava o animal à pintura realista de um cavalo. Ou seja, para esse turco, fundamentalista, de uma religião islâmica que proíbe a representação em pinturas, a pintura do cavalo, por mais realista que fosse, nada tinha a ver com o animal. 
O animal era tridimensional, e a pintura era apenas um boneco bidimensional.

Mas vejamos um caso mais concreto.
Em Espanha não há só Altamira, e em El Castillo podemos encontrar um esboço numa parede:
Cave de El Castillo (Espanha, perto de Altamira)

Será que o pintor troglodita, num certo estilo minimalista de Picasso, procurou evidenciar a cabeça de um auroque, usando apenas dois traços? Ou ainda melhor, será que todas as pessoas vêem naqueles dois traços uma cabeça bovina, ou haverá quem, tal como o personagem turco, não associa aqueles traços a nenhuma representação animal. De facto, olhando novamente para a imagem, a curva à esquerda poderia ser um traço em forma de 2 ou de Z. 
Portanto, é preciso um certo clique de contexto... Em pinturas rupestres, evidentemente as letras estão excluídas, e os nossos olhos procuram figuras que sugiram animais, sendo essa associação feita. 
Noutro contexto não seria assim... e por isso uma certa surpresa é entender que precisamos de alguma educação para associar às imagens o que elas representam, por muito realistas que possam parecer.


PLANTAS
El Castillo é uma gruta muito interessante, até porque a datação oficial têm-na colocado como uma das mais antigas, anterior até às grutas francesas, com cerca de 40 mil anos... ou seja, mais em épocas de Neandertais do que Homo Sapiens, levantando algumas interrogações sobre se seriam esses os autores originais das pinturas (nesse ponto, de remeter algumas das pinturas a Neandertais tem-se destacado J. Zilhão - ver por exemplo o artigo Spanish cave paintings world’s oldest says new dating tech ).

Talvez o mais surpreendente em El Castillo consiste em representações com pontilhados e "estruturas quadrangulares", conforme podemos ver nas figuras e vídeo seguintes:



Estas imagens foram retiradas do vídeo sobre El Castillo

Texnai Digital Archive (empresa japonesa)

Desconheço se a Nigel Spivey também se ofereceria interpretar estas estruturas como resultado da representação de imagens vistas em estados de transe. Ainda que essa ideia possa fazer algum sentido nalguns casos, está muito longe de servir como panaceia, parecendo servir mais como tentativa de reduzir toda a pintura rupestre a estados de alucinação sem significado especial.
Não negligencio de nenhuma forma o papel que os xamãs tiveram na evolução humana, como já aqui abordei, simplesmente não considero que parou em tempos remotos... transformou-se mas nunca se alterou a essência desse controlo ou influência sacerdotal nas decisões políticas, mesmo actuais.

Voltando aos quadrados de El Castillo, esses lembram outros quadrados, e avançamos muitos milhares de anos para Çatal Huyuk (ainda assim reportada com mais de 8 mil anos):



Çatal Huyuk - possível planta da cidade - figuras originais e desenho
(imagens daqui e daqui)

A questão é que em Çatal Huyuk, por muito que se tenha tentado desprezar o significado deste mural (a esse propósito, consultar Portugalliae), verificou-se que os quadrados apresentados correspondiam muito bem à planta dos edifícios da própria cidade desenterrada, ou citando directamente M. Tomczak: "A wall painting from one of the shrines, dated to 6200 BC with an error margin of less than 100 years, depicts the plan of the city and corresponds very accurately to the arrangement of the houses as they were excavated."

Bom, o que isto tem a ver com as pinturas de El Castillo?
Lá está... falta-nos o contexto explicativo, e cada um pode ver o que quiser. Se forem os "alienados" do Canal História, certamente que podem ali ver planos de dispositivos ou veículos espaciais! Pelo lado do documentário da BBC, talvez sejam representações de visões de xamãs em estados de transe.

Está já clara qual é a minha opinião - poderiam bem ser representações de estruturas habitacionais, provavelmente em madeira, onde os pontos seriam meras pessoas. Ou seja, poderia ser uma simples planta dos edifícios existentes, ou simplesmente planeados.

O problema é que, dada a profunda ocultação a que fomos sujeitos educacionalmente, tendemos a ver mapas e plantas como um produto recente, como se as construções antigas não requeressem um planeamento igualmente ponderado e colocado no "papel", antes de ser levado a efeito.

Não estou a pretender que é a única hipótese com sentido. Também poderia fazer sentido pensar-se que as cavernas funcionavam como prisões, e cada ponto representava um dia preso, ou que aquilo era uma espécie de tabuleiro do jogo do galo, que iam jogando para passar o tempo... tudo isso, e mais uma centena de possibilidades.

A questão que coloco é simples.
Tinham ou não os romanos uma planta de Roma, ou os atenienses uma planta de Atenas, etc.?
Se tinham, já alguém as viu?


Plantas romanas (Museu da Cidade de Roma)


Existiam de facto plantas de Roma em pedra, em mármore... e pergunto, quantas cidades de hoje tem a sua planta gravada em mármore, ou em pedra?
No entanto, como vemos, o que chegou dessa obra monumental de 18 x 13 metros em mármore, foram minúsculos fragmentos partidos. Para além disso, quantas pessoas têm a noção de que os romanos faziam plantas como hoje fazemos? Por que razão esta informação fica perdida num recanto de um museu, sem qualquer destaque?


Horror-a-mapas
Horror a mapas foi a manifestação de uma doença que consumiu a humanidade, e cujos principais doentes estão longe de estar curados. Destruir plantas de cidades foi só um dos muitos aspectos, mas na sua fase mais crítica levou à destruição de todas as imagens que representassem não apenas deuses, mas também imagens da realidade circundante.
Basta atendermos às directivas judaicas ou islâmicas na arte, para compreendermos a forma brutal como foram reprimidas todas as manifestações de imagens, o que levou então ao exemplo caricato do sujeito turco que não associava o cavalo à imagem do cavalo. Grandes pintores árabes ou judeus, antes do Séc. XX estavam proibidos de exercer... e mesmo os outros só começaram a poder recuperar o fino traço da Antiguidade, depois do Renascimento.
Portanto houve ordens... dos "deuses", ou "astronautas", ou mais simplesmente de alguns magos ou xamãs de serviço, para que fossem reprimidas e destruídas todas as representações, especialmente por imagens. Ainda hoje essas ordens são levadas a sério pelos radicais islâmicos... mas está longe de ser só aí que está a doença, que é mais profunda. Afinal, uma das maiores forças do poder pretende ser negar uma correcta informação sobre o passado.

Dito isto, ouso dizer, sem grandes problemas, que em nada me espantaria encontrar um bom mapa da Europa pintado numa caverna com 10 ou 20 mil anos... é claro que não seria bem desta Europa, porque o nível do mar não seria o mesmo.

Mas isso é outra conversa... de qualquer forma, lembro que foi a pequena Maria que sinalizou os "touros" de Altamira. O pai, o Marquês Sautuola, foi depois ridicularizado no Congresso de Pré-História, realizado em 1880, em Lisboa. Um dos principais opositores, Cartilhac, seria eleito curador da Academia dos Jogos Florais... a célebre academia Occitana, que referimos no texto anterior.
Na sua região occitana, uma outra pequena Bernadette ficara famosa uns anos antes, em Lourdes, pelas visões numa gruta, onde seria erguido um dos maiores monumentos ao culto mariano. Alguns anos mais tarde, também numa região de muitas grutas, outros jovens com outras visões marianas, e um novo local de culto, Fátima.
Curiosamente, e serve isto para fazer esse reparo, tirando as gravuras de Foz Côa, que mal se vêem, conheço apenas em território nacional uma inscrição pintada na Lapa dos Gaviões, e outra na Gruta do Escoural. Devo dizer que já entrei em grutas não abertas ao público, quando era mais jovem, e também nunca vi nada... Aparentemente, o desígnio artístico deve ter perdido ímpeto quando se passava a fronteira de Espanha para Portugal.

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publicado às 06:59


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