Site Meter

Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Estória alternativa (3)

por desvela, em 10.01.14
Uma tentação natural seria centrar a história em torno do nosso cantinho português ou ibérico.
Evito ao máximo fazer isso, ainda que possa parecer que não... 
Simplesmente não posso ignorar o que sei, e tudo apontou para um problema aqui.
A princípio fui certamente levado por algum centralismo patriota, dada a recusa estrangeira em assumir os feitos nacionais. Porém, rapidamente tentei abranger o problema maior, procurando influências noutros lados para o problema global de ocultação. 
A coisa porém assumiu outras proporções quando comecei a deparar com as demasiadas coincidências línguisticas. Aí já era difícil pensar que o português era uma língua como outra qualquer... não é! Tem demasiada informação encriptada para se poder achar que é mero acidente de percurso.
É claro que há a ligação ao latim e grego, mas é apenas ligação, não é descendência... e é claro que as penínsulas ibérica, itálica e grega, definiram grande parte da história que temos. Focamos só aqui o lado europeu, que acabou por se impor globalmente... justamente após a expansão portuguesa.

Bom, tínhamos ficado na Guerra de Tróia, e relendo agora a Ilíada ou a Odisseia poderia juntar muitas outras observações, mas não nos vamos perder em detalhes. Se a hipótese for correcta, as coisas vão-se ajustar naturalmente, se não for, será a estória que é.

Ó disse eu, U lesses
Odisseus, na versão latina Ulisses, depois da Guerra de Tróia perdeu-se certamente que não pelo sobejamente conhecido Mediterrâneo, mas pelo Atlântico, dada a tradição que o liga a Lisboa, a Ulissipo, onde teria desposado Calipso (Calipo foi nome do rio Sado). Os gregos descobririam assim um mundo atlântico, além das Colunas, que lhes estava antes vedado. Menelau teria circumnavegado a África, de acordo com a mesma tradição.
Por outro lado, os romanos, com Virgilio, colocaram um Eneias como herdeiro de Troia, deambulando nos braços de Dido, primeira rainha de Cartago, antes de partir para a fundação de Roma.

Eneias e Dido

Vemos facilmente como há cronologias quase inconciliáveis e mitos concorrentes. Roma teria supostamente origem com Remo e Rómulo, apenas c. 750 a.C., ou seja quase um milénio depois da reportada queda de Tróia, e da consequente fuga de Eneias, para e dos, braços de Dido. 
Porém, antes de Roma e Cartago disputarem a hegemonia, houve Tarsis, na Tartéssia ibérica.
Schwennhagen dá-lhe o relevo de grande potência marítima controlando a entrada mediterrânica, e sugere que teriam sido os tartéssios a apoiar os fenícios e depois os hebreus. O tártaro era o inferno grego, que foi depois colocado na Cítia.

É indiscutível a presença fenícia, e depois cartaginesa, na Ibéria. Se Schwennhagen deu relevo ao "Car" em Cartago, podemos também salientar o "Tago", nome antigo do Tejo. Podemos ver assim uma Dido de Cartago em paragens semelhantes às de Calipso que reteve Ulisses, tal como Dido reteve Eneias.
Claro que os tempos mudam, e a Cartago deixou de ser a outrora Ulissipo.

Galo e Fenix
Os fenícios definiram uma Ur, uma Tur, dita Tiro, na costa libanesa.
Nessa altura, para além de tartéssios, habitariam a costa portuguesa os Turdulos velhos, e não deixamos de reparar no fonema "Tur". Podemos pensar numa manifestação do domínio fenício, mas seguindo Schwennhagen, será mais natural ver o contrário. Até porque na costa portuguesa havia ainda os Venetos, ou Venécios, que da Gália até à zona Etrusca definiram uma influência naval que se mantinha à época romana... antes de serem finalmente derrotados na Bretanha. Essa seria origem da grande influência naval que passou para Veneza. Os Venécios talvez se tenham confundido com os Turdulos, e depois com os Fenícios... todos os nomes remetem para origem comum, renascida dos galos troianos.

O legado de Tróia, ao contrário do que os romanos pretenderam, dar-se-ia antes com os fenícios. Estes seriam resultado da estabilização dos Povos do Mar em paragens libanesas. Estes povos do mar vinham de mais longe, provavelmente de colónias hispanicas/troianas na América, e quando depararam com o entreposto ibérico destruído, irromperam pelo Mediterrâneo. 
O próprio poder egípcio teria mudado quando surge Akenaton... é tempo dos crânios alongados, tradição que se poderá remeter a paragens americanas. Talvez, como sugere Schwennhagen, o culto monoteísta de Car tenha florescido no Brasil. Afinal é Akenaton que irá iniciar esse culto monoteísta egípcio de Rá, que é rapidamente anulado, ao tempo de Tutankamon.
Akenaton e a esposa Nefertiti

O embate entre a tendência monoteísta e politeísta permanecerá entre os descendentes americanos de Car, dos magos caldeus, e o domínio sacerdotal politeísta dos magos arianos do Cáucaso, ligados aos hindús e medos.
A figura de Car parece desempenhar papel similar à de Zoroastro, e o embate entre as monarquias será favorável aos caldeus, aquando da ascenção de Ciro e a definição de um grande império Aqueménida persa. 
Porém, antes disso, perante a derrota do monoteísmo, parece haver uma tentativa de dar sequência à visão monoteísta com Moisés e com os hebreus, escravizados no Egipto, logo depois do fim de Akenaton. 
Parecem definir-se assim três grandes poderes... o dominante sacerdotal ariano, com os grandes impérios - medos, egípcios, babilónios, essencialmente politeísta. Outro poder sacerdotal, caldeu, descendente de Car, com influência até à América, e finalmente os antecessores fenícios - venécios e tartéssios, mais pragmáticos nas questões religiosas, herdeiros dos galos e da plebe atlante.

É neste enquadramento que depois se daria a colaboração entre fenícios e hebreus através de Tarsis, conforme refere Schwennhagen. Será mais frutuosa no tempo de Salomão e Hirão, onde as coisas parecem correr bem, e a influência dos magos arianos ter sido reduzida, a ponto do comércio fenício florescer com as paragens americanas, alargando-se pelos hebreus às paragens orientais até à Sião tailandesa.
É o tempo de Sião, que será sempre chorada pelos hebreus...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:26


Estória alternativa (2)

por desvela, em 08.01.14
A ideia principal nesta estorieta é objectivar um nexo ao longo dos tempos. Para uma história que descreve acontecimentos mas que não os enquadra, que faz parecer tudo fruto de acasos avulsos, para esse efeito já temos a história habitual, como uma imensa manta de retalhos... em que uns povos são diferentes porque sim, e outros são semelhantes porque sim. Uns têm os olhos em bico, outros não têm, uns fizeram civilizações outros não... constata-se, mas não há sequer tentativa de enquadrar.

Há uma grande uniformização fisionómica a oriente que só me parece explicável por um ascendente quase único, mas circunscrito a essas paragens. A recessividade genética tem tendência a sobrepor certas características, mas isso teria levado a uma população global muito mais parecida com a indiana do que com a chinesa, europeia ou africana. O maior vestígio duma mistura natural num contacto de culturas será o indiano, e a partir daí começou a impor-se alguma separação racial... as castas terão sido o primeiro sinal dessa ordem.

De luva e lava
O dilúvio reportado terá sido o segundo no registo dos magos. Teriam sobrevivido nas partes altas das ilhas da Oceania pela primeira vez, e daí definido o seu poder local, depois migrado para a Índia e China. A palavra "dilúvio" tem no "luv" uma derivação latina do "lav" de lavar... e a lava não é só de água, é também de vulcões. Fenómenos que lavaram registos humanos como uma luva.

Na parte grega do mito diluviano encontramos um Licaão da Arcádia, que pelo seu sacrifício de crianças é transformado em lobo por Zeus, e os licantropos seriam varridos pelo dilúvio... 
Se os pelasgos da Arcádia eram condenados com Licaão, ao mesmo tempo, pelo lado de Atenas encontramos Cécrope, figura mítica metade homem - metade peixe, que é incumbido de ensinar aos gregos a leitura, a escrita, e até sepultar os mortos. Cécrope tem um aspecto capricórnio, tal como será apresentado em Matsya, o avatar de Visnu que salva Manu.
Zeus condena Licaão e a Arcádia... 
os licantropos sobreviventes seriam vistos como lobisomens.

O mito grego é completado com Deucalião, filho de Prometeu, sobrinho de Atlas, que também sobreviverá ao dilúvio no monte Parnaso, em conjunto com a mulher Pirra. Prometeu e Atlas fazem parte dos titãs condenados por Zeus, vencedor da Titanomaquia contra Cronos. Atlas ficará sempre ligado às paragens ocidentais, dando o nome às montanhas mauritanas, ao próprio oceano, e por associação aos atlantes. 

Houve um caminho que se fez entre o imaginário e o real. Quanto mais racional se tornou a humanidade, menos espaço houve para um acordar em mundos fantasiosos. O poder da ilusão pode ser imposto quando não há um substrato racional para o questionar. Esse era o mundo ideal da magia, que se impunha naturalmente, como convite a uma miragem da realidade. Havendo predisposição para isso, esse era um mundo em que magos podiam condicionar exércitos, e escrever outra realidade.
Quando os homens deixaram de ser tão sugestionáveis pelos espíritos, e pragmaticamente começaram a erigir fundações do seu conhecimento, esse mundo mágico começou a ficar condicionado pela racionalidade. Por isso os espíritos dos deuses-magos sempre procuraram condicionar os progressos mais racionais, e promover dedicação à sua causa, onde não haveria restrições físicas-matemáticas.

Os atlantes ao procurarem maior conhecimento despertaram a racionalidade humana para um patamar que exigiria um outro controlo, para além da mera ilusão xamã. Atlas terá que aguentar esse novo mundo, um mundo de homens despertados pelo fogo de Prometeu, mas ameaçado pelas contradições que Zeus fez questão de trazer, pela oferta de Pandora. O desejo e curiosidade incessante, o mesmo que é oferecido pela serpente a Eva, e que retira os homens da sua inocência primitiva.
A invocação do mito grego foi aqui trazida na continuação do argumento do texto anterior. Um novo poder divinal de magos iria instalar-se sobre paragens caucasianas, recuperando povos que estavam condicionados a uma informação quase infantil, órfãos constantes do passado. A evolução desses povos seria usada para contrabalançar restos de população rebelde, atlante, perdida em ilhas... os Pelasgos, expulsos da Arcádia, pintados como lobisomens. 

Hércules
Pelo lado do panteão dos magos-deuses iriam definir-se então impérios servidores... sumérios, egípcios, gregos. Por esse lado se contará a história habitual, e é preciso perceber no que faltava a história restante. Se houve uma cultura primitiva desenvolvida na arte rupestre pelo lado europeu, onde estaria ela por essa altura? Não eram as planícies ibéricas, italianas, francesas, suficientemente atractivas para gerar civilizações? Por que razão se circunscreviam então as civilizações naquelas paragens próximas do Cáucaso, da Ásia Menor? As montanhas gregas ou turcas favoreciam a agricultura? As zonas áridas do Crescente Fértil não eram áridas? Então e o que dizer da zona norte de África, magrebina? Parava a influência egípcia no Nilo, nada havia a ocidente?

Bom, a ocidente haveria então a influência restante da população atlante esquecida. Alguma estabelecer-se-ia na Mauritânia, e nos antigos geógrafos greco-romanos ainda encontramos a referência "Atlantes" para os povos que viviam nessa parte do norte de África. 
Conforme observámos no texto "Grota do Medo", o Rei Hiempsal tinha o relato da expedição de Hércules à Hispania. Um exército de Arménios, Persas, Medos e outras nações... tipicamente da região caucasiana, provavelmente enviado para terminar com um novo poder que se estabelecia na Ibéria.

Schwennhagen dá importância ao domínio dos Geriões sobre a Ibéria, que teria quebrado a dinastia atlante. Os Geriões são remetidos à Ilha Eritreia e à capital Carteia... Muito provavelmente, em tempos de maior nível de água, a ilha Eritreia, contígua à península seria o Algarve, e Carteia é um nome antigo de Quarteira. 
Hércules contra os Geriões (dito melhor, "Guerriões"?)

A figura de Gerião, confunde-se com os filhos Geriões, e colide com a de Hércules. Um dos trabalhos seria roubar os Touros de Gerião... mas por outro lado, Hércules é visto como aniquilador do despotismo de Gerião, sendo depois vítima dos seus três filhos... que foram vistos como um monstro de 3 cabeças. Todo o contexto do mito, da história, depende do lado em que se coloca o contador. Os Geriões chegaram a ser vistos como libertadores da Ibéria... e nesse caso o invasor seria Hércules. Ora, isso embate contra a fama popular do herói grego (líbio ou egípcio), que emprestava o seu nome a quase todos os monumentos ibéricos, conforme criticava André de Resende.

A entrada de Hércules marca um período em que a revolta da restante população atlante foi esmagada pelo envio de um exército enviado pelos deuses-magos após a abertura do Mediterrâneo à navegação. As Colunas de Hércules marcariam a imposição desse domínio, e a proibição dos mediterrânicos a contactos para além daquele ponto. Após as colunas foi definido um Mar Eritreu, vermelho, como limite às navegações mediterrânicas.

O exército de Hércules após a sua morte acaba expulso, e segundo Hiempsal os persas, medos e arménios acabam por ficar do lado africano, sem qualquer simpatia dos hispanicos. É de considerar que apesar da derrota, os hispânicos tivessem acolhido bem Hércules e algum eventual acordo de paz, que os circunscreveria ao lado atlântico para navegações. Os deuses-magos exerceriam o seu poder sobre o lado mediterrânico e oriental até à Índia. As Colunas selariam esse limite... durante algum tempo, para obter as maçãs de ouro hespérides, Hércules aguentou com o equilíbrio do mundo, em substituição de Atlas. O acordo que passava do vermelho ao laranja, com maçãs douradas, seria esse... um fornecimento de ouro hispânico, que tornou o Tejo famoso na Antiguidade. 
Carregamentos que eram enviados para a Ásia Menor, para a Lycia, Lidia, Frigia... e que deram origem aos mitos de Midas e Creonte. Nem seria claro que fosse o Tejo a origem do ouro. Possivelmente poderia ser trazido doutras paragens, até americanas, e ali reunido para remessa posterior.
O "Velo de Ouro", missão dos Argonautas e Jasão na Cólquida caucasiana, verificaria o mundo restante após o prejuízo diluviano, circunscrevendo a grande ilha europeia. A Cólquida caucasiana simbolizaria a vontade de velar pelo ouro presente noutras paragens.

Car
Schwennhagen dá especial relevância à Cária, região vizinha da Lycia e Lidia, e ao seu fundador Car, um nome cabal, associado aos Cários e à capital Halicarnasso ("jardim sagrado de Car"). Citando-o:
Na época de 1800 a 1700 a.C. saiu da Caldeia, como emissário da Ordem dos Magos, o progenitor, respectivamente organizador e legislador dos povos cários, chamado K.A.R. Esse nome é uma forma cabalística cujo significado pertencia aos segredos da Ordem.
Depois prossegue, estabelecendo uma vasta ligação entre os Cários e os Tupis brasileiros. Car seria o precursor de uma religião monoteísta centrada em PAN ("senhor do universo"), os tupis chamavam-lhe TuPan, que se encontra também em Moisés com Jeová, ou até no faraó egípcio Akenaton, com o seu culto ao sol Rá.
Schwennagen dá exemplos de múltiplas palavras que usam Car, passando pelo feminino Caeres que daria Ceres (divindade similar a Cíbele, Gaia), e ainda das Cariátides, filhas de Car. Outras atribuições vão do fenício Cartago ao egípcio Carnac... mas também ao tupi Carioca, e até ao coloquial brasileiro "cara"! 
Portanto, se às vezes parece que exagero nas associações, basta olhar para outros autores para ver que até me contenho bastante nas simples especulações. Segundo ele, PIA era outra palavra dos magos para compreender a religião, e AGA era um servidor divino... assim, "carpia" pode ser relacionado com carpir - está correcto, e quanto a "caraga"? Bom, é só uma linha de exploração evidente. Nem estou só a brincar, porque estas coisas têm um lado "caricato", anedótico - mas também já vimos outras "piadas", e que os Anedotos eram afinal os poderosos Anunaki dos sumérios.

Esta associação de Schwennagen é importante porque mostra como o poder dos deuses-magos estava interessado também em consolidar-se nas paragens americanas, evitando a forma subsidiária dos hispanicos. Schwennhagen considera que a ligação ibérica era feita através de Tarsis e dos tartéssios, ligando logo aos fenícios e ao acordo entre Hirão e Salomão. Porém, creio que é preciso recuar um pouco mais, e falar de Tróia.

Tróia
Os barretes frígios foram vistos como um símbolo de liberdade, e Heródoto remete a origem dos frígios para a Europa. Aliás, os Países Baixos foram identificados com a Frísia, nome algo semelhante, tal como é semelhante o nome dos Lusos relativamente à Lycia (Lucia), lembrando que se escreveu Lysitania.
Pode ter acontecido que depois do embate herculeano, as populações atlânticas tenham recuperado lentamente, e constituído uma confederação de "galos", talvez melhor ilustrada pela presença da cerâmica campaniforme em toda a Europa. Conforme já referimos, esta seria a origem comum do nome da Galiza, da Gália, de Gales, da Galécia ucraniana, e depois da Galácia, na Ásia Menor. Toda esta região seria então navegável, e este ponto comum seria a base de uma cultura celta que ia buscar o seu passado anterior à invasão ariana. O seu porto principal seria, pois, um porto-galo, nos limites anteriores às colunas de Hércules, numa certa Tróia. 
Haveria uma correspondente Tróia na Ásia Menor, onde desembarcaria o ouro devido aos magos, pelo acordo de paz. O mais natural é que as cidades da Ásia Menor ficassem efectivamente com a riqueza explorada às colónias europeias.
Isso até ao ponto de ruptura, em que há uma tentativa de sublevação da colónia europeia de Tróia. Será o pretexto para a Guerra de Tróia, onde mais uma vez os gregos são encarregues pelos deuses de restabelecer a sua ordem em paragens afastadas. Conforme assinala Schwennhagen, o "Aga" em Agamemnon revelaria esse servidor dos deuses.
Ou seja, a Tróia turca existiria, seria destruída, mas o que demorou dez anos de guerra, e a odisseia de Ulisses seria uma outra Tróia remota, muito provavelmente em paragens ibéricas que acolhessem o ouro do Tejo e das várias minas alentejanas.
O desfecho é conhecido... Tróia cai, mas também se segue um período que ficou conhecido pela invasão dos "povos do mar". Estes povos do mar, vistos como piratas, seriam resultado do fim da estrutura social dos galos troianos... ficando por sua conta, atacariam o Mediterrâneo de forma caótica. Roma reclamará a herança troiana, mas antes disso os galos vão despertar como uma fénix que iria criar a Fenícia por via dos Venécios ou Venetos, que também seriam antecessores etruscos.
Este período é já colocado num tempo próximo... por volta de 1500 a.C.

(datação)
Temos evitado falar de datas porque não me parece haver nenhuma história plausível por mais do que 10 ou 20 mil anos, desde que o homem não é macaco! Falar de histórias com 100 mil anos ou até milhões de anos é simplesmente não pensar na actividade humana. Ninguém fica dezenas de milhar de anos a pintar grutas e a ver o tempo passar. Por isso, por estranho que pareça, a datação religiosa parece ser mais plausível, concatenando o despertar humano nuns simples 6000 anos... De resto parecem haver simplificações lineares de hipóteses nas datações científicas. Os ciclos não tiveram que ser sempre iguais, e a datação lunar precedeu a datação solar, o que multiplica anos por mais de 12 em registos de outras épocas... ou até por mais, se o ciclo lunar nem sempre fosse constante como hoje.
Ao contrário do ciclo lunar, que é evidente pelas fases da Lua, o ciclo solar só se deve ter tornado evidente com a agricultura numa época pós-glacial, em que as estações se ligavam directamente com as colheitas.

Aliás é de considerar que tenha sido uma perturbação orbital no sistema Terra-Lua, por algum embate violento de asteróide, que pode ter originado forças de marés semelhantes a dilúvios. Alterações climáticas e geológicas súbitas podem comprometer as hipóteses dos sistemas de datação simplificados, que normalmente ignoram "catástrofes", apesar de algumas delas estarem bem claras nos registos fósseis.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:23


Estória alternativa (1)

por desvela, em 07.01.14
Conforme referi no "ponto de situação" é tempo de embarcar por uma estória da história.
Alguém me fez notar que não é acidental não termos duas palavras e assim não distinguimos uma história contada da História passada. Talvez sempre se tivesse achado que tudo eram apenas "histórias", com importância relativa e não absoluta... como se a verdade fosse sempre impossível de escrutinar. 
Portanto, contamos aqui uma história ou estória, e nada mais que isso.

De Gelo ao Degelo.
Vamos retomar então o contexto no momento em que os invasores indo-europeus chegam à Europa.
Nessa altura haveria neandertais ou descendentes, que ligamos às primeiras pinturas rupestres. Já teriam tido contacto com outros sapiens, mas não com os arianos. Esse contacto seria talvez competitivo, mas não agressivo... Provavelmente a civilização desenvolvia-se em torno de pequenas aldeias-tribo, sem maior necessidade de contacto que o da vizinhança no tradicional território de caça. Haveria populações de grande estatura, quase gigantes, especialmente na zona da Bósnia-Croácia, mas também não seriam hostis... seriam depois forçados a migrar para paragens escandinavas.

A chegada dos invasores Oceânicos à Índia teria introduzido o sistema de castas, e ao fim de poucos milénios a estrutura social teria sido implementada com uma hierarquização brutal. Os invadidos eram tratados como escravos, isso não teria novidade, mas a própria hierarquia teria produzido novos estratos entre os invasores. Essa sociedade seria mais brutal do que sofisticada... mais sacrificial, ao género Azteca, mas sem a monumentalidade associada.
Para evitar o conflito interno iria ocorrer nova migração, sob a forma de força invasora na rota do ocidente. O oriente já teria ensinado que o desfecho de conflitos internos levaria praticamente a uma auto-destruição, de onde restariam apenas um ou dois clãs. Esses clãs teriam praticamente refeito do zero a população asiática, nas vertentes siberianas e chinesas. Para evitar o mesmo desfecho, a elite ariana seria impelida a uma invasão ocidental.
Começariam por ser mais agressivos com os povos mesopotâmicos, visando também uma entrada em África. Porém, a paisagem africana não se adequaria a aventuras invasoras. Os conflitos anteriores em África já teriam definido uma população esquiva, com tradições comuns às da própria Nova Guiné. Ninguém invade uma selva, a menos que se queira estabelecer como colono agricultor. As intenções dessa elite indo-europeia seriam outras... visariam replicar o sistema hierárquico nas paragens ocidentais.

Nesta altura a zona habitável seria reduzida. Latitudes acima do paralelo 45º seriam pouco convidativas. O início do degelo abriria novas paisagens, novas passagens, e seria por aí que avançaria a população indo-europeia ariana, evitando o contacto com uma população mediterrânica, mais avisada pelos embates na zona persa-mesopotâmica.
Seria então no avanço pela Europa central que se consolidaria o domínio indo-europeu e a invasão para ocidente, ficando o enorme lago mediterrânico cercado a norte.
O embate traria novidades para a comunidade indo-europeia, e essas inovações apareceriam em todo o continente euro-asiático.
Subitamente, para além da maior agressividade indo-europeia, ariana, uma nova componente mais criativa, resultante do embate com os místicos pintores rupestres iria catapultar a civilização.

Nesta história, haverá um fundador inicial, um Brama (Vrama), que pode ligar-se a Urano, na posterior tradição grega. A ideia de ter 10 Prajapati (... ou "praia-p'a-ti") que o aliviariam da regência do mundo... mas se os Vedas significam "conhecimento", também sabemos que "veda" é para vedar um conhecimento (que não se "chiba"). 
De qualquer forma percebe-se que actividades principais seriam medicina, música-dança, e uma arte militar muito ligada ao conjunto arco-flecha (dhanur-veda). Seria ainda a "onda" da Oceania, mais especificamente uma onda de Java... ilha de onde teriam emigrado os invasores indo-europeus.
Eventualmente a sequência poderá parecer parva, mas "parva" é também uma palavra hindu para livro.

Templo a Trimurti - a trindade «Brama, Visnu, Chiva» (Prambanan, Java, Indonesia)

Com a saída da Índia dá-se uma divisão principal, que se nota não só na diferença dos haplogrupos R1a (India e Europa-oriental) e R1b (Europa-ocidental), mas também na diferença linguística... sendo coincidentes na forma geográfica de forma surpreendente.
Centum vs. Satem - diferença da raiz da palavra 100 nas línguas indo-europeias.
O mapa coincide com a diferença entre R1a e R1b (as múmias Tocharian em Tarim eram R1b)

No lado ocidental terá havido mais uma confluência de culturas, já que o que restaria da herança neandertal seria europeu, mas separado de outras populações mediterrânicas. O estabelecimento dos arianos pode ter sido feito com alguns e contra os restantes. A língua base seria a dos indo-europeus forçados a migrar, mas talvez se tivesse mantido uma língua original (basca), dos invadidos. Essa distinção seria depois usada como factor elitista no novo poder que se iria consolidar. Das encostas dos Himalaias, onde dominavam a Índia, a nova migração usaria as encostas dos Pirinéus para definir um novo poder... atlântico, atlante.

Esta será uma época de transição de gelo para degelo, e uma época de primeiras navegações... as navegações atlantes, que vão chegar à América, em particular ao Canadá, onde há um registo R1b antigo (curiosamente existe na India uma linguagem chamada Kannada).
Esses atlantes americanos encontram também na América as populações que teriam migrado da Oceania pela orla do Pacífico, e que seriam os ascendentes da maioria da população índia americana.
Estes atlantes iriam sair da sua base nos Pirinéus e definir cidades chave na costa atlântica... talvez as sete cidades. Controlariam o vasto território ocidental, tendo praticamente perdido o contacto com a civilização indiana e ariana... excepto ao nível mais elevado, da casta sacerdotal dos magos. 
Detinham um certo avanço tecnológico, especialmente marítimo, mas também ao nível dos artefactos, nomeadamente com o metal. Esse conhecimento era ainda mágico, ou seja dos magos, da classe sacerdotal, e não estaria difundido na população. 
Durante os milénios seguintes, até à fase crítica do degelo, iriam demonstrar a sua superioridade como deuses. Por vezes entrariam como cavaleiros que passavam por centauros, doutras vezes apareceriam no seu baile de máscaras como mistura divina homem-animal. Os povos mediterrânicos, que antes tinham evitado, passavam a ser usados como crianças órfãs, para passatempo em jogos divinais, e o objectivo principal seria mantê-los ignotos.

O Dilúvio
Uma hipótese que me parece interessante, e que levaria à queda parcial do poder atlante, seria a ameaça progressiva da subida das águas. A certa altura tal subida poderá ter sido mais abrupta, devastadora, levando ao colapso das principais cidades costeiras, onde os atlantes definiam o seu poder.
Até onde subiriam as águas?
Também na Índia encontramos um registo semelhante ao de Noé, com um sobrevivente humano... Manu, em conjunto com "sete sábios"...
Matsya - avatar peixe de Vishnu - salva o homem Manu e os sete sábios

Tal aumento marítimo deveria ter conduzido a um colapso social dessa sociedade atlante.
Os sete sábios atlantes teriam que tentar a sua sorte com outros povos para definir nova mão-de-obra operacional... os restantes atlantes entrariam em revolta, num caos social que demoraria a estabilizar, e que já não seria cooperativo com o poder xamã, dos magos, dos sábios, dos sacerdotes.
O reínicio dos magos pode ter sido feito de novo com a ajuda de um poder centralizado nos Himalaias.
Pelo lado ocidental seria consolidado na zona turca do Cáucaso, preparando-se no monte Ararat uma embarcação colossal para uma eventual subida dramática das águas.
Essa seria a ligação ao mito da "arca de Noé".
O estabelecimento de nomes como Ibéria e Albânia traduziria essa ligação às penínsulas ibérica e itálica, perdidas... não tanto pelo risco de submersão, mas mais pelo risco de subversão. 
Os magos tinham perdido o seu poder na parte atlântica.
Por sua vez, a Cólquida deveria referir as paisagens perdidas por submersão no lado americano, muito provavelmente na zona da Terra Nova e também das Caraíbas.

É tempo de reconstruir a sociedade mágica, e os magos vão precisar de reeducar as tribos incipientes que antes amedrontavam e exploravam. É tempo de fazer nascer impérios e culturas no médio-oriente. Começa aqui o tempo da história contada, não sem antes fazer desaparecer o que restava da história pelo lado ocidental. Com a ajuda dos magos exilados, feitos deuses, é tempo dos gregos derrotarem as populações atlantes, fragilizadas, que se refaziam do colapso social. Este seria o orgulho grego que os sacerdotes de Heliópolis contariam a Sólon. 

Porém, essa restante sociedade ocidental atlante, quebrada pela subida de águas e pela manipulação dos magos sobreviventes, emigrados em paragens caucasianas, tentaria recompor-se de novo, várias vezes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:36


Ponto de situação

por desvela, em 03.01.14
Até aqui tenho basicamente colocado informações sobre as quais tenho informação considerável.
A informação fica solta, e fiz várias tentativas de prosseguir colando a diversa informação... porém, o problema acaba por ser escolher uma das múltiplas vias.
Se damos mais valor ao registo mítico acabamos por versões demasiado especulativas, com pouca base na informação disponível. Se nos deixamos ficar pelo material mais fiável, paramos... mas não é por isso que deixam de se colocar várias hipóteses que fazem sentido.

Em concreto, podemos seguir a linha de Ludwig Schwennahagen, que me parece ser quem melhor procurou compilar a informação antiga. No entanto, fazer aparecer uma Atlântida do nada, como faz Schwennagen, não me satisfaz, porque deixa tantas ou mais perguntas. Tem a vantagem de acompanhar o registo bíblico das viagens de Salomão...

Surgiu uma hipótese que estou a considerar, mas faltam-me muitos dados ainda para a tornar mais sólida.
Em poucas palavras, a ideia seria que o propalado "Império Atlante" não saiu do nada... foi resultado uma evolução migratória que começou noutras ilhas remotas, a oriente, na Oceania, e marchou como uma invasão imparável, com duas vertentes coordenadas. A vertente oriental que se consolidou na China, e uma vertente ocidental que se consolidou na Índia e depois no Atlântico, dando origem à ligação indo-europeia. A Índia poderá ter servido de charneira na ligação entre estes dois pólos geográficos, que depois se autonomizaram consideravelmente.

Na Idade do Gelo ter-se-ia consolidado uma vertente ocidental, europeia, que teria acolhido o ímpeto agressivo dos invasores indo-europeus, incorporando o registo místico dos pintores rupestres. Aceitar um espasmo artístico cavernoso sem outra continuidade parece-nos redutor.
Essa incorporação definiria um poder completamente diferente. À componente secreta do poder sacerdotal dos invasores acrescia um misticismo mágico dos invadidos. O ilusionismo poderia adquirir estatuto de pragmatismo no poder. As elites iriam manipular e jogar com a ignorância dos povos.
À distância ficavam os restantes povos mediterrânicos e africanos, de outra ascendência, condicionados por manobras de bastidores. Essa nova elite actuaria sem se revelar, condicionando tribos, fabricando mitos e deuses. Se apareciam montados em cavalos, eram centauros que roubavam mulheres gregas, e disfarçados numa mistura animal-humana podiam aparecer como deuses de vários panteões.
Esses "atlânticos" só entrariam no Mediterrâneo, um lago na Idade do Gelo, pelo estabelecimento em ilhas chave... esse espaço serviria de recreio para essa "elite atlântica", autênticos deuses que presidiriam à construção e destruição de impérios.
Ainda na Idade do Gelo, o poder atlântico consolidar-se-ia pelo estabelecimento próximo, numa Europa Atlântica que ligaria à Mauritânia, mas também pelo estabelecimento distante... em paragens idílicas, em Hespérides, na zona das Caraíbas, e em outras paragens americanas. Essa seria a parte que mais sofreria com o degelo posterior.

É natural que o crescente aumento do nível das águas determinasse uma instabilidade social, e um eventual colapso hierárquico nessa estrutura "atlântica". O império pode ter colapsado pela base, separando a elite atlântica da maioria da população europeia, desagregada da sua antiga estrutura de poder...
Esta hipótese serve para justificar o aparente retrocesso civilizacional da população europeia, que se viu forçada a uma reconstrução social, tendo provavelmente criado os primeiros ensaios tribais republicanos.
A plebe atlante estaria sujeita ao ataque das estruturas civilizacionais mediterrânicas, apadrinhadas pelo imperialismo duma elite sacerdotal remanescente, mas ausente.

Surge agora a "novidade", que é uma simples conjectura, até reúna outras evidências. 
Podemos especular que, perante o avanço do degelo, a "migração de Noé" para o Cáucaso tenha sido mais uma organizada navegação lacustre, com o objectivo de estabelecer na Ásia Menor uma reedição das paragens atlânticas que iam ficando submersas pelo avanço dessas águas. Em desespero de causa, talvez os partidários de Noé tenham mesmo pensado em fazer uma enorme arca no topo do monte Ararat, último refúgio, caso tudo o resto falhasse. Quando dizemos isto, apontamos para a reprodução de nomes na península turca, e em particular para a existência de uma Ibéria e Albânia caucasiana... a Cólquida pode representar assim a parte ocidental, para sempre submergida.
Seria essa nova Cólquida que encerraria o Velo de Ouro, o símbolo do velho poder atlante mergulhado no Dilúvio. Os "deuses do antigo poder" passariam a reunir-se em paragens Olímpicas bem altas, temendo novo colapso diluviano. Restabelecido o poder em torno do Cáucaso, da Turquia, da Grécia, o mar não subiria tanto quanto temido, e as populações abandonadas tenderiam a reorganizar-se autonomamente.
A mesopotâmia ibérica com as suas províncias de Entre-Rios pode ter esboçado uma reorganização independente, ausente que estava o poder em paragens caucasianas... podem ter erguido grandes torres, desafiando o antigo poder, e sofreriam consequências. Aguardaria aos deportados uma nova Mesopotâmia, colocada em lugar mais próximo do Cáucaso, mais facilmente controlável... uma Babilónia onde sempre chorariam Cião. A história seria recontada partindo do oriente, lugar bem central, que só foi chamado oriente relativamente ao ocidente perdido.
O ocidente tem que se erguer de novo, de restos sobreviventes, mas com um considerável atraso. É tempo dos grandes monumentos na Mesopotâmia... pelo lado europeu refaz-se uma cerâmica campaniforme. Entretanto o mar pára de subir, Jasão tem autorização divina para fazer a sua viagem exploratória pela passagem norte, pelos pântanos polacos, que em breve fechariam o Mar Negro à entrada norte.

Os gregos dominariam temporariamente os mares, mas despertaria de novo o lado ocidental pelos "galos", celtas e venetos etruscos, é então altura de Tarsis, e da tentativa de colocar na Fenícia um posto marítimo avançado, em Ur, Tur, Tiro. Os galos fenícios disputarão o Mediterrâneo com os gregos. O galo passaria a ser a ave fénix fenícia, e reergueria nas suas velas as riscas alvi-rubras, as vezes necessárias.

Egipto, Grécia, Pérsia e depois Roma, serão palco de disputas internas religiosas de índole política.
No Egipto, o monoteísmo de Akenaton, centrado num Rá solar, e também os segredos de Hermes Trimegisto... opunham-se de certa forma à panóplia de divindades tradicionais. Algo semelhante ocorre com o Zoroastrismo na Pérsia, que de alguma forma vai substituir as divindades antigas.
O mesmo se passa na Grécia, onde as várias vertentes filosóficas mais racionais embatem contra o panteão clássico de divindades. Na Índia com o budismo, na China com o taoísmo, aparece esse movimento global, que dá um estatuto filosófico à religião, ainda que ela mantenha um certo carácter popular.
Em Roma a principal disputa será entre o cristianismo e o panteão clássico de divindades, mas inicialmente este cristianismo é gnóstico, ligado a essa vertente filosófica hermética.

Esta instabilidade acaba por seguir, grosso modo, a transmissão do poder mundial, de acordo com as "monarquias universais" de Figueiredo.
Tentarei nos próximos textos dar alguma sequência mais detalhada a estas ideias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:38


Às Portas Cáspias

por desvela, em 16.07.11
A progressão de Alexandre Magno em direcção ao Oriente tem um episódio que foi retratado num romance iniciado no Séc. III, com variações no primeiro período medieval, denominado o "Romance de Alexandre". As variações incluem uma exploração subaquática do próprio Alexandre... 
Romance de Alexandre (edição russa, Séc. XVII)

... o que pelo menos mostrará que a ideia de explorar os fundos marinhos não foi certamente ideia recente, e esteve presente, pelo menos no imaginário humano, desde a Antiguidade.

Porém o episódio que talvez tenha ficado como mais simbólico é a estória de Alexandre definir uma muralha contra Gog e Magog, personagens bíblicos, episódio que até se encontrará mencionado no Corão (na identificação de Alexandre a Dhul Qarnayn).
A ideia terá sido construir uma muralha (ou portas de ferro...) para impedir uma invasão dos povos do norte, descritos como Gog e Magog, enquanto gigantes lendários. Esta invocação tem sido atribuída a uma tentativa de controlar invasões do Norte, e diverge desde se considerar o perigo das Amazonas, o perigo dos Godos, ou até a ameaça Mongol. Neste último sentido é atribuída uma confusão entre a muralha de Alexandre e a própria muralha da China... feita com o mesmo propósito!
No sentido de associar os Godos a Gog fala-se na semelhança do nome (Goth e Gog), e finalmente o próprio romance estabelece uma relação com Taléstris, uma rainha amazona. 
A conexão com as rainhas amazonas tinha já outro protagonista anterior. 
Com efeito, a rainha amazona Tomiris (ou Thamiris), como vingança da morte de seu filho, teria ordenado que a cabeça de Ciro fosse mergulhada em sangue:
Rubens: a cabeça de Ciro é entregue a Tomiris 
A história oficial não confirma este funesto destino para Ciro, o Grande, que assim terminaria a sua imensa saga de conquistas numa vingança Amazona. Há alguma consonância em reportar a sua morte em batalha com os Citas... designação geral onde se poderiam enquadrar as Amazonas, ou pelo menos uma rainha Tomiris.

No mesmo sentido, Alexandre Magno parece ter reportado uma proposta de casamento com uma princesa ou rainha dos Citas, que poderia ser Taléstris, entendida enquanto amazona.
Parece haver uma certa relutância em aceitar um reino com um poder no feminino, neste caso o reino das Amazonas, sendo que há diversas evidências de sociedades matriarcais. Por outro lado, constata-se ainda que todos os grandes impérios da Antiguidade tiveram como limite de progressão as paragens mais setentrionais... os romanos debatiam-se dificilmente com os godos, e parece nunca terem conseguido um controlo sobre a parte norte do Mar Negro.

Conforme temos aqui insistido, é bastante natural que a configuração geográfica fosse especialmente diferente, e estava a alterar-se na altura de Alexandre (ou mesmo já de Ciro), com a diminuição do nível do mar. As terras contíguas aos montes Urais deixavam de estar isoladas enquanto ilhas num Oceano setentrional, e ao fechar-se progressivamente num Mar Negro, por um lado, e num Mar Cáspio, pelo outro... tornava mais real a ameaça de invasão por povos desse mítico Norte de citas, tártaros, ou amazonas...
Um desses pontos de ligação seria exactamente o istmo (ou península) caucasiana.
A construção de uma defesa que permitisse evitar a invasão terrestre, que entretanto se tornava possível, aproveitando a cadeia montanhosa do Cáucaso, é algo que parece fazer sentido estratégico.

Portas Cáspias de Derbent
Essa linha de defesa foi aliás efectuada em Derbent.
As Portas Cáspias de Derbent parecem datar pelo menos do período sassânida persa, mas podem bem assentar numa linha de defesa já anterior. Uma parte é mesmo conhecida como Muralha de Alexandre, e ainda que não seja reportada a Alexandre, pode bem resultar de uma construção Seleucida, imediatamente posterior.

 

Portas Cáspias de Gorgan
De forma semelhante, na parte sudeste do Mar Cáspio, estão as Muralhas de Gorgan, já datadas pelo menos até ao império Parto-Persa, império sucessor dos Seleucidas macedónicos, em 247 a. C. Estas muralhas estendem-se por uma vasta linha, que as torna segundas em comprimento, com 195 Km. Sendo claramente superadas em extensão pela imensa Muralha da China, o propósito seria possivelmente o mesmo, evitando uma invasão tártara pelas margens do Cáspio.
  

Como Gorgan estaria na rota de progressão de Alexandre, pode ser considerado mais natural associar-lhe estoutra muralha. Porém, parece mais natural que no curto e intenso reinado de Alexandre apenas se possa ter planeado tal empreendimento. Qualquer concretização ligada a Alexandre deverá ser relegada para a dinastia do seu sucessor, o general Seleuco.

Gog e Magog
O Mar Cáspio que agora tende a desaparecer, seria a zona de defesa perante as ameaças de Citas, Tártaros ou Mongóis. A identificação dos gigantes bíblicos Gog e Magog (neto de Noé) aos Citas é feita por Flávio Josefo, com uma conotação de povos bárbaros, e que são até ligados ao Apocalipse!
Independentemente disso, os gigantes Gog e Magog são até considerados como patronos da City de Londres e estão ligados a mitos de gigantes nas ilhas britânicas:
Caricatura que mostra como os gigantes Gog e Magog 
sustentam o Paddy inglês.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:55


Às Portas Cáspias

por desvela, em 15.07.11
A progressão de Alexandre Magno em direcção ao Oriente tem um episódio que foi retratado num romance iniciado no Séc. III, com variações no primeiro período medieval, denominado o "Romance de Alexandre". As variações incluem uma exploração subaquática do próprio Alexandre... 
Romance de Alexandre (edição russa, Séc. XVII)

... o que pelo menos mostrará que a ideia de explorar os fundos marinhos não foi certamente ideia recente, e esteve presente, pelo menos no imaginário humano, desde a Antiguidade.

Porém o episódio que talvez tenha ficado como mais simbólico é a estória de Alexandre definir uma muralha contra Gog e Magog, personagens bíblicos, episódio que até se encontrará mencionado no Corão (na identificação de Alexandre a Dhul Qarnayn).
A ideia terá sido construir uma muralha (ou portas de ferro...) para impedir uma invasão dos povos do norte, descritos como Gog e Magog, enquanto gigantes lendários. Esta invocação tem sido atribuída a uma tentativa de controlar invasões do Norte, e diverge desde se considerar o perigo das Amazonas, o perigo dos Godos, ou até a ameaça Mongol. Neste último sentido é atribuída uma confusão entre a muralha de Alexandre e a própria muralha da China... feita com o mesmo propósito!
No sentido de associar os Godos a Gog fala-se na semelhança do nome (Goth e Gog), e finalmente o próprio romance estabelece uma relação com Taléstris, uma rainha amazona. 
A conexão com as rainhas amazonas tinha já outro protagonista anterior. 
Com efeito, a rainha amazona Tomiris (ou Thamiris), como vingança da morte de seu filho, teria ordenado que a cabeça de Ciro fosse mergulhada em sangue:
Rubens: a cabeça de Ciro é entregue a Tomiris 
A história oficial não confirma este funesto destino para Ciro, o Grande, que assim terminaria a sua imensa saga de conquistas numa vingança Amazona. Há alguma consonância em reportar a sua morte em batalha com os Citas... designação geral onde se poderiam enquadrar as Amazonas, ou pelo menos uma rainha Tomiris.

No mesmo sentido, Alexandre Magno parece ter reportado uma proposta de casamento com uma princesa ou rainha dos Citas, que poderia ser Taléstris, entendida enquanto amazona.
Parece haver uma certa relutância em aceitar um reino com um poder no feminino, neste caso o reino das Amazonas, sendo que há diversas evidências de sociedades matriarcais. Por outro lado, constata-se ainda que todos os grandes impérios da Antiguidade tiveram como limite de progressão as paragens mais setentrionais... os romanos debatiam-se dificilmente com os godos, e parece nunca terem conseguido um controlo sobre a parte norte do Mar Negro.

Conforme temos aqui insistido, é bastante natural que a configuração geográfica fosse especialmente diferente, e estava a alterar-se na altura de Alexandre (ou mesmo já de Ciro), com a diminuição do nível do mar. As terras contíguas aos montes Urais deixavam de estar isoladas enquanto ilhas num Oceano setentrional, e ao fechar-se progressivamente num Mar Negro, por um lado, e num Mar Cáspio, pelo outro... tornava mais real a ameaça de invasão por povos desse mítico Norte de citas, tártaros, ou amazonas...
Um desses pontos de ligação seria exactamente o istmo (ou península) caucasiana.
A construção de uma defesa que permitisse evitar a invasão terrestre, que entretanto se tornava possível, aproveitando a cadeia montanhosa do Cáucaso, é algo que parece fazer sentido estratégico.

Portas Cáspias de Derbent
Essa linha de defesa foi aliás efectuada em Derbent.
As Portas Cáspias de Derbent parecem datar pelo menos do período sassânida persa, mas podem bem assentar numa linha de defesa já anterior. Uma parte é mesmo conhecida como Muralha de Alexandre, e ainda que não seja reportada a Alexandre, pode bem resultar de uma construção Seleucida, imediatamente posterior.

 

Portas Cáspias de Gorgan
De forma semelhante, na parte sudeste do Mar Cáspio, estão as Muralhas de Gorgan, já datadas pelo menos até ao império Parto-Persa, império sucessor dos Seleucidas macedónicos, em 247 a. C. Estas muralhas estendem-se por uma vasta linha, que as torna segundas em comprimento, com 195 Km. Sendo claramente superadas em extensão pela imensa Muralha da China, o propósito seria possivelmente o mesmo, evitando uma invasão tártara pelas margens do Cáspio.
  

Como Gorgan estaria na rota de progressão de Alexandre, pode ser considerado mais natural associar-lhe estoutra muralha. Porém, parece mais natural que no curto e intenso reinado de Alexandre apenas se possa ter planeado tal empreendimento. Qualquer concretização ligada a Alexandre deverá ser relegada para a dinastia do seu sucessor, o general Seleuco.

Gog e Magog
O Mar Cáspio que agora tende a desaparecer, seria a zona de defesa perante as ameaças de Citas, Tártaros ou Mongóis. A identificação dos gigantes bíblicos Gog e Magog (neto de Noé) aos Citas é feita por Flávio Josefo, com uma conotação de povos bárbaros, e que são até ligados ao Apocalipse!
Independentemente disso, os gigantes Gog e Magog são até considerados como patronos da City de Londres e estão ligados a mitos de gigantes nas ilhas britânicas:
Caricatura que mostra como os gigantes Gog e Magog 
sustentam o Paddy inglês.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:55


Carpo

por desvela, em 15.07.11
Como complemento dual ao texto Tarso, ficaria incompleto não falar do Carpo, mesmo que pareça ser algo que surge do pé para a mão...
Os primeiros RX de Roentgen, em 1896.

Há sempre alguma dúvida em fazer associações, porque é muito fácil associar coisas completamente distintas, sem que haja necessariamente uma relação. Esse é o caminho restritivo, que conhecemos bem, que nos guia na precaução, mas que não deve conduzir à inibição.
Neste caso do "carpo" a linha condutora não tem a mesma sustentação do "tarso"... tem a sua própria razão.

Cárpatos
Os Cárpatos são montanhas que se estendem da Eslováquia, pela Polónia, Ucrânia, e Roménia até à fronteira Sérvia. O nome das montanhas foi apontado por Ptolomeu e associado a um povo denominado Carpos
Ora, indo recuperar um mapa anterior (sobre a viagem de Jasão), reparamos que as montanhas dos Cárpatos estão praticamente coladas às montanhas dos Balcãs: 
relembrando que já havíamos referido a particularidade da região húngara aparecer como uma planície  ao nível do mar, que assim aparece neste mapa colocada como lago.
O notável é que estas duas grandes cadeias montanhosas separam-se nas chamadas Portas de Ferro, sulcadas pelo curso do Danúbio, numa extensão de 134 Km.
Danúbio nas Portas de Ferro

O Danúbio esculpiu uma paisagem de gargantas, entre as duas cadeias montanhosas, no seu percurso para nascente, que termina no Mar Negro. 
Não foi só o Danúbio que foi escultor nas Portas de Ferro...

Quem fizer o cruzeiro pelo Danúbio, ficará certamente surpreendido por uma enorme escultura na montanha invocando Decebalus, que foi feita entre 1994 e 2004, por um promotor romeno, Constantin Dragan... fecit. Para além das dificuldades inerentes à obra, não devemos esquecer que este período de dez anos inclui uma turbulência na zona, não tanto na parte romena, mas mais na parte sérvia.
Uma estátua desta dimensões num pilar natural do rio, não deixa de despertar a invocação de Tolkien, no filme "Senhor dos Anéis", relativa aos "pilares dos reis" da "terra média". Constantin Dragan, sendo historiador pode apenas ter querido homenagear o mítico rei Decebalus, mas a obra também não deixa de sugerir que naquelas Portas podem ter estado esculturas que o "tempo" apagou...
Filme "Senhor dos Anéis" - pilares dos reis

Não longe, encontra-se a célebre Ponte de Trajano, de que já aqui falámos, a propósito "de uma ponte de Lisboa há muitos mil anos".
 
Esboço da Ponte de Trajano sobre o Danúbio (comprimento ~ 1 200 metros);
Vestígios da ponte (princípio do Séc. XX);
Placa de Trajano (Tabula Traiana)... o que resta depois
da construção da barragem Dardap I em 1972, que submergiu o conjunto.

Na sua expedição contra os Dácios, Trajano terá derrotado Decebalus, que se suicida para evitar o cativeiro, cortando a própria garganta, conforme ilustrado no relevo romano:
Relevo invocando a morte de Decebalus, derrotado por Trajano

O anel dos Cárpatos completa-se juntando a Iliria, as montanhas balcânicas, fechando como uma bacia Ilíaca sobre a planície húngara. A divisão entre os Cárpatos e os Balcãs surge singularmente como uma brecha nos Portões de Ferro (que não devemos confundir com a Cortina de Ferro, ainda que a sua divisão com uma Jugoslávia neutral tivesse passado por esse ponto do Danúbio). 
Esta brecha chega a reduzir-se a 150 metros de largo, mas com 53 metros de profundidade... um trabalho de erosão notável para o Danúbio, podendo mesmo dizer-se quase de precisão cirúrgica! 
Essa erosão é tanto mais um prodígio "natural" se atendermos a que o rio desde a zona de Budapeste vai serpenteando calmamente a Hungria a um nível próximo de 100 m até chegar a Belgrado, com aproximadamente 80 m de altitude... são muitos milhares de quilómetros de extensão, com uma inclinação reduzidíssima, até desaguar no Mar Negro.


Carpetani
Carpetanos era ainda o nome de um dos povos ibéricos assinalados por Estrabo. Ao falar no Tejo diz:
The river contains much fish, and is full of oysters. It takes its rise amongst the Keltiberians, and flows through the [country of the] Vettones, Carpetani, and Lusitani, towards the west;
Portanto os Carpetanos viveriam provavelmente na zona montanhosa da Extremadura espanhola, sendo "vizinhos" dos Lusitanos. É claro que aqui convém não ignorar que etimologicamente temos a palavra "escarpa", que era ainda latina, e que se liga a uma possível origem dos "carpos", tendo o significado de rocha na língua albanesa, na Ilíria. 
Estrabo diz ainda que devido à estóica resistência Galaica, muitos dos Lusitanos tinham passado a designar-se como Galegos.
Já aqui mencionámos que a Galicia era uma região da Ucrânia (e Polónia), convém agora dizer que esta região se situa exactamente na zona dos Cárpatos, nesses países.
A Roménia tem ainda o episódio singular de manter uma língua latina, com a desculpa de ter resultado de uma política romana de colonização agressiva, que basicamente teria substituído os Dácios de Decebalus por colonos romanos. 
Porém, estoutra eventual ligação deixa outra pista para essa ligação linguística... poderia acontecer que esses povos - em partes tão distintas - estivessem ligados por uma língua e cultura semelhante.
Essa conexão seria marítima, não através do Mediterrâneo, mas sim através da costa oceânica europeia, que se estenderia com ligação até ao Mar Negro... até que essa ligação desapareceu, com o fecho final do Tanais. 


Lethes
O que aqui falamos é de uma possível conexão entre povos em extremidades diferentes, e de um esquecimento, tal como o simbolizado pelo Rio Lethes - Lima. Estrabo menciona um outro detalhe relativo à lenda do esquecimento no Rio Lima. Se já tínhamos mencionado a ligação entre os nomes a norte (como Astorga) e os nomes a sul (como Conistorga), e as desavenças internas que podem até ser reflectidas no nome "Endovélico", Estrabo conta que o episódio que teria dado fama ao Lima resultava de uma desavença, da morte de um líder, e da dispersão dos que habitavam as margens do Guadiana para norte do Lima:
Around it dwell the Keltici, a kindred race to those who are situated along the Guadiana. They say that these latter, together with the Turduli, having undertaken an expedition thither, quarrelled after they had crossed the river Lima, and, besides the sedition, their leader having also died, they remained scattered there, and from this circumstance the river was called the Lethe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:25


Carpo

por desvela, em 14.07.11
Como complemento dual ao texto Tarso, ficaria incompleto não falar do Carpo, mesmo que pareça ser algo que surge do pé para a mão...
Os primeiros RX de Roentgen, em 1896.

Há sempre alguma dúvida em fazer associações, porque é muito fácil associar coisas completamente distintas, sem que haja necessariamente uma relação. Esse é o caminho restritivo, que conhecemos bem, que nos guia na precaução, mas que não deve conduzir à inibição.
Neste caso do "carpo" a linha condutora não tem a mesma sustentação do "tarso"... tem a sua própria razão.

Cárpatos
Os Cárpatos são montanhas que se estendem da Eslováquia, pela Polónia, Ucrânia, e Roménia até à fronteira Sérvia. O nome das montanhas foi apontado por Ptolomeu e associado a um povo denominado Carpos
Ora, indo recuperar um mapa anterior (sobre a viagem de Jasão), reparamos que as montanhas dos Cárpatos estão praticamente coladas às montanhas dos Balcãs: 
relembrando que já havíamos referido a particularidade da região húngara aparecer como uma planície  ao nível do mar, que assim aparece neste mapa colocada como lago.
O notável é que estas duas grandes cadeias montanhosas separam-se nas chamadas Portas de Ferro, sulcadas pelo curso do Danúbio, numa extensão de 134 Km.
Danúbio nas Portas de Ferro

O Danúbio esculpiu uma paisagem de gargantas, entre as duas cadeias montanhosas, no seu percurso para nascente, que termina no Mar Negro. 
Não foi só o Danúbio que foi escultor nas Portas de Ferro...

Quem fizer o cruzeiro pelo Danúbio, ficará certamente surpreendido por uma enorme escultura na montanha invocando Decebalus, que foi feita entre 1994 e 2004, por um promotor romeno, Constantin Dragan... fecit. Para além das dificuldades inerentes à obra, não devemos esquecer que este período de dez anos inclui uma turbulência na zona, não tanto na parte romena, mas mais na parte sérvia.
Uma estátua desta dimensões num pilar natural do rio, não deixa de despertar a invocação de Tolkien, no filme "Senhor dos Anéis", relativa aos "pilares dos reis" da "terra média". Constantin Dragan, sendo historiador pode apenas ter querido homenagear o mítico rei Decebalus, mas a obra também não deixa de sugerir que naquelas Portas podem ter estado esculturas que o "tempo" apagou...
Filme "Senhor dos Anéis" - pilares dos reis

Não longe, encontra-se a célebre Ponte de Trajano, de que já aqui falámos, a propósito "de uma ponte de Lisboa há muitos mil anos".
 
Esboço da Ponte de Trajano sobre o Danúbio (comprimento ~ 1 200 metros);
Vestígios da ponte (princípio do Séc. XX);
Placa de Trajano (Tabula Traiana)... o que resta depois
da construção da barragem Dardap I em 1972, que submergiu o conjunto.

Na sua expedição contra os Dácios, Trajano terá derrotado Decebalus, que se suicida para evitar o cativeiro, cortando a própria garganta, conforme ilustrado no relevo romano:
Relevo invocando a morte de Decebalus, derrotado por Trajano

O anel dos Cárpatos completa-se juntando a Iliria, as montanhas balcânicas, fechando como uma bacia Ilíaca sobre a planície húngara. A divisão entre os Cárpatos e os Balcãs surge singularmente como uma brecha nos Portões de Ferro (que não devemos confundir com a Cortina de Ferro, ainda que a sua divisão com uma Jugoslávia neutral tivesse passado por esse ponto do Danúbio). 
Esta brecha chega a reduzir-se a 150 metros de largo, mas com 53 metros de profundidade... um trabalho de erosão notável para o Danúbio, podendo mesmo dizer-se quase de precisão cirúrgica! 
Essa erosão é tanto mais um prodígio "natural" se atendermos a que o rio desde a zona de Budapeste vai serpenteando calmamente a Hungria a um nível próximo de 100 m até chegar a Belgrado, com aproximadamente 80 m de altitude... são muitos milhares de quilómetros de extensão, com uma inclinação reduzidíssima, até desaguar no Mar Negro.


Carpetani
Carpetanos era ainda o nome de um dos povos ibéricos assinalados por Estrabo. Ao falar no Tejo diz:
The river contains much fish, and is full of oysters. It takes its rise amongst the Keltiberians, and flows through the [country of the] Vettones, Carpetani, and Lusitani, towards the west;
Portanto os Carpetanos viveriam provavelmente na zona montanhosa da Extremadura espanhola, sendo "vizinhos" dos Lusitanos. É claro que aqui convém não ignorar que etimologicamente temos a palavra "escarpa", que era ainda latina, e que se liga a uma possível origem dos "carpos", tendo o significado de rocha na língua albanesa, na Ilíria. 
Estrabo diz ainda que devido à estóica resistência Galaica, muitos dos Lusitanos tinham passado a designar-se como Galegos.
Já aqui mencionámos que a Galicia era uma região da Ucrânia (e Polónia), convém agora dizer que esta região se situa exactamente na zona dos Cárpatos, nesses países.
A Roménia tem ainda o episódio singular de manter uma língua latina, com a desculpa de ter resultado de uma política romana de colonização agressiva, que basicamente teria substituído os Dácios de Decebalus por colonos romanos. 
Porém, estoutra eventual ligação deixa outra pista para essa ligação linguística... poderia acontecer que esses povos - em partes tão distintas - estivessem ligados por uma língua e cultura semelhante.
Essa conexão seria marítima, não através do Mediterrâneo, mas sim através da costa oceânica europeia, que se estenderia com ligação até ao Mar Negro... até que essa ligação desapareceu, com o fecho final do Tanais. 


Lethes
O que aqui falamos é de uma possível conexão entre povos em extremidades diferentes, e de um esquecimento, tal como o simbolizado pelo Rio Lethes - Lima. Estrabo menciona um outro detalhe relativo à lenda do esquecimento no Rio Lima. Se já tínhamos mencionado a ligação entre os nomes a norte (como Astorga) e os nomes a sul (como Conistorga), e as desavenças internas que podem até ser reflectidas no nome "Endovélico", Estrabo conta que o episódio que teria dado fama ao Lima resultava de uma desavença, da morte de um líder, e da dispersão dos que habitavam as margens do Guadiana para norte do Lima:
Around it dwell the Keltici, a kindred race to those who are situated along the Guadiana. They say that these latter, together with the Turduli, having undertaken an expedition thither, quarrelled after they had crossed the river Lima, and, besides the sedition, their leader having also died, they remained scattered there, and from this circumstance the river was called the Lethe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:25


Contos de reis (2)

por desvela, em 07.07.11
Há quase um ano atrás, escrevemos a este propósito:
O valor da moeda reside numa fé de que ela será reconhecida como troca em qualquer transacção social. Serve razoavelmente as pretensões materiais, mas tem ainda como ameaça os valores espirituais ou morais, embebidos na sociedade, através da cultura e religião. Não é aí capaz de servir como moeda eficaz, vai contando apenas com a progressiva menorização desses valores, ao edificar uma sociedade materialista.
Estando os aspectos materiais indexados a um valor, a omnipotência material será efectiva através da moeda... Quais são as restrições?
  - a maior restrição prática é que a lógica pragmática de que "tudo tem um preço" não é ainda universal...

Quando os indivíduos duma sociedade aceitarem que todos os seus bens e actos são contabilizáveis economicamente, através do dinheiro, então quem estiver capacitado de cunhar moeda pode agir quase como semideus, omnipotente material. 
Acaba por deter não apenas a possibilidade de adquirir qualquer bem, mas também a possibilidade de seduzir qualquer vontade, pelo preço exigido.
Só que esta lógica de transformação de alguns homens em semideuses sociais conta com um pequeno detalhe - é necessário criar uma desigualdade económica de grandes proporções. Ou seja, é preciso ter cidadãos em situação económica instável... já que doutra forma, socialmente protegida, dificilmente aceitarão reduzir a sua personalidade ou vontade numa troca comercial.

No estado actual do desenvolvimento tecnológico seria possível, de forma concertada, ter basicamente toda a população mundial com um nível de vida próximo da classe média portuguesa... e falamos de forma ecologicamente sustentada, com o trabalho de menos de 10% da população mundial. 
Como é natural, as classes mais abastadas dificilmente estariam dispostas a abdicar do seu nível actual de vida, para se moverem no sentido desse equilíbrio.
Não queremos ser completamente triviais acerca deste assunto... na prática uma situação de equilíbrio pode ser muito instável. Ou seja, as hierarquias, quando não existem, desenvolvem-se naturalmente pelo espírito competitivo, que é inato, e que educacionalmente é incentivado numa economia de mercado. A maioria das pessoas acaba por formar um modelo em que é de alguma forma "o protagonista" e não apenas "um figurante", igual a tantos outros. Como é óbvio, numa sociedade equalitária em que não há protagonistas, quebra-se essa motivação individualista...
Se isto é natural, é igualmente perigoso... no sentido em que, num estado equalitário, novos grupos poderiam surgir organizados para tomar controlo sobre uma sociedade resignada. 
O perigo é mais sério, perante a possibilidade humana de convencer grandes massas, criando ilusões de superioridade que arrastam violência e destruição. Ou seja, é necessário ter sob algum controlo as manifestações de superioridade individual, que são assim mais facilmente detectáveis pelo desejo inato de ascenção social. 
Analogamente, uma das formas da sociedade combater o crime, estando ciente da incapacidade da sua erradicação completa, é controlá-lo, aceitando manifestações que previnam atempadamente o desenvolvimento de outras formas incontroláveis. Os jovens infractores são conduzidos a uma competição com velhos instalados, sendo normalmente anulados por esses "conhecidos" do sistema. A sociedade pode assim esconder uma faceta de actuação ilegal, tendo como objectivo a prevenção descontrolada de manifestações mais graves...  
Há ainda uma outra razão para algum desequilíbrio social e que será simples... a necessidade de incutir um objectivo à generalidade da população, que se irá manifestar pela condução desse objectivo no sentido da posse individual e reconhecimento comunitário. 

Esta dissertação anterior pressupõe um controlo efectivo, justificável por "boas intenções globais", detido por uma certa elite, quase incógnita, que retiraria os frutos da sua prevalência económica como efeito lateral da sua missão. Essa necessidade de prevalência económica começa a ficar completamente injustificada quando as diferenças se vão acentuando, em vez de diminuirem, criando focos de perturbação social... o que mais parece justificar os interesses privados, do que acautelar qualquer "boa intenção global".
A situação torna-se ainda mais implosiva, quando em vez de se colocarem objectivos além da Terra, por exemplo, numa exploração espacial, esses são reduzidos ou quase anulados.

A Libra é nome de moeda antiga, cuja designação permanece nalguns países, sendo mais conhecida a inglesa. A Libra é ainda uma unidade de pesagem material, associada à palavra latina "balança", representado o equilíbrio, e o signo de transição, após o equinócio de outono (seria o sétimo mês pela tradição astrológica, que mantém Peixes como último signo)... Foi também a divisa adoptada pelo Infante D. Pedro:

A moeda, sob qualquer forma, transformou-se num símbolo de fé estável, pelo exacto valor material que esperamos obter com ela. A redução de valores a essa quantificação monetária reflecte o sucesso de harmonização financeira, e da redução da maioria dos valores numa tradução em expectativa material.
No entanto, convém notar que mais do que o número afixado, é a informação que define o seu valor.
Não sendo sempre de ouro, cada novo rei, ou imperador, tinha a necessidade de afirmar uma independência política cunhando a sua moeda... foi por exemplo o caso de D. António, Prior do Crato, que cunhou ainda moeda própria. Tivesse havido harmonia entre os portugueses para aceitar apenas essa moeda, e de pouco teria valido o ouro filipino. A falta de fé na moeda de D. António foi reflexo da submissão voluntária dos portugueses a uma lógica global protagonizada por Filipe II, com todo o exagero de manifestações bajulatórias, conforme as ocorridas em Lisboa, a que se somou a falha dos "amigos de Peniche".
Mais do que instrumento para uma simples troca comercial, na sua manifestação em comunidade a moeda reflecte ainda a adesão ao modelo social instituído, que faz fé nessa aceitação.
Na situação de duas moedas a circular, representando projectos políticos diferentes, caberia aos cidadãos optar pela escolha do modelo em que fariam fé, funcionando para as suas trocas... e já sabemos o que aconteceu com o Prior do Crato!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:15


Contos de reis (2)

por desvela, em 06.07.11
Há quase um ano atrás, escrevemos a este propósito:
O valor da moeda reside numa fé de que ela será reconhecida como troca em qualquer transacção social. Serve razoavelmente as pretensões materiais, mas tem ainda como ameaça os valores espirituais ou morais, embebidos na sociedade, através da cultura e religião. Não é aí capaz de servir como moeda eficaz, vai contando apenas com a progressiva menorização desses valores, ao edificar uma sociedade materialista.
Estando os aspectos materiais indexados a um valor, a omnipotência material será efectiva através da moeda... Quais são as restrições?
  - a maior restrição prática é que a lógica pragmática de que "tudo tem um preço" não é ainda universal...

Quando os indivíduos duma sociedade aceitarem que todos os seus bens e actos são contabilizáveis economicamente, através do dinheiro, então quem estiver capacitado de cunhar moeda pode agir quase como semideus, omnipotente material. 
Acaba por deter não apenas a possibilidade de adquirir qualquer bem, mas também a possibilidade de seduzir qualquer vontade, pelo preço exigido.
Só que esta lógica de transformação de alguns homens em semideuses sociais conta com um pequeno detalhe - é necessário criar uma desigualdade económica de grandes proporções. Ou seja, é preciso ter cidadãos em situação económica instável... já que doutra forma, socialmente protegida, dificilmente aceitarão reduzir a sua personalidade ou vontade numa troca comercial.

No estado actual do desenvolvimento tecnológico seria possível, de forma concertada, ter basicamente toda a população mundial com um nível de vida próximo da classe média portuguesa... e falamos de forma ecologicamente sustentada, com o trabalho de menos de 10% da população mundial. 
Como é natural, as classes mais abastadas dificilmente estariam dispostas a abdicar do seu nível actual de vida, para se moverem no sentido desse equilíbrio.
Não queremos ser completamente triviais acerca deste assunto... na prática uma situação de equilíbrio pode ser muito instável. Ou seja, as hierarquias, quando não existem, desenvolvem-se naturalmente pelo espírito competitivo, que é inato, e que educacionalmente é incentivado numa economia de mercado. A maioria das pessoas acaba por formar um modelo em que é de alguma forma "o protagonista" e não apenas "um figurante", igual a tantos outros. Como é óbvio, numa sociedade equalitária em que não há protagonistas, quebra-se essa motivação individualista...
Se isto é natural, é igualmente perigoso... no sentido em que, num estado equalitário, novos grupos poderiam surgir organizados para tomar controlo sobre uma sociedade resignada. 
O perigo é mais sério, perante a possibilidade humana de convencer grandes massas, criando ilusões de superioridade que arrastam violência e destruição. Ou seja, é necessário ter sob algum controlo as manifestações de superioridade individual, que são assim mais facilmente detectáveis pelo desejo inato de ascenção social. 
Analogamente, uma das formas da sociedade combater o crime, estando ciente da incapacidade da sua erradicação completa, é controlá-lo, aceitando manifestações que previnam atempadamente o desenvolvimento de outras formas incontroláveis. Os jovens infractores são conduzidos a uma competição com velhos instalados, sendo normalmente anulados por esses "conhecidos" do sistema. A sociedade pode assim esconder uma faceta de actuação ilegal, tendo como objectivo a prevenção descontrolada de manifestações mais graves...  
Há ainda uma outra razão para algum desequilíbrio social e que será simples... a necessidade de incutir um objectivo à generalidade da população, que se irá manifestar pela condução desse objectivo no sentido da posse individual e reconhecimento comunitário. 

Esta dissertação anterior pressupõe um controlo efectivo, justificável por "boas intenções globais", detido por uma certa elite, quase incógnita, que retiraria os frutos da sua prevalência económica como efeito lateral da sua missão. Essa necessidade de prevalência económica começa a ficar completamente injustificada quando as diferenças se vão acentuando, em vez de diminuirem, criando focos de perturbação social... o que mais parece justificar os interesses privados, do que acautelar qualquer "boa intenção global".
A situação torna-se ainda mais implosiva, quando em vez de se colocarem objectivos além da Terra, por exemplo, numa exploração espacial, esses são reduzidos ou quase anulados.

A Libra é nome de moeda antiga, cuja designação permanece nalguns países, sendo mais conhecida a inglesa. A Libra é ainda uma unidade de pesagem material, associada à palavra latina "balança", representado o equilíbrio, e o signo de transição, após o equinócio de outono (seria o sétimo mês pela tradição astrológica, que mantém Peixes como último signo)... Foi também a divisa adoptada pelo Infante D. Pedro:

A moeda, sob qualquer forma, transformou-se num símbolo de fé estável, pelo exacto valor material que esperamos obter com ela. A redução de valores a essa quantificação monetária reflecte o sucesso de harmonização financeira, e da redução da maioria dos valores numa tradução em expectativa material.
No entanto, convém notar que mais do que o número afixado, é a informação que define o seu valor.
Não sendo sempre de ouro, cada novo rei, ou imperador, tinha a necessidade de afirmar uma independência política cunhando a sua moeda... foi por exemplo o caso de D. António, Prior do Crato, que cunhou ainda moeda própria. Tivesse havido harmonia entre os portugueses para aceitar apenas essa moeda, e de pouco teria valido o ouro filipino. A falta de fé na moeda de D. António foi reflexo da submissão voluntária dos portugueses a uma lógica global protagonizada por Filipe II, com todo o exagero de manifestações bajulatórias, conforme as ocorridas em Lisboa, a que se somou a falha dos "amigos de Peniche".
Mais do que instrumento para uma simples troca comercial, na sua manifestação em comunidade a moeda reflecte ainda a adesão ao modelo social instituído, que faz fé nessa aceitação.
Na situação de duas moedas a circular, representando projectos políticos diferentes, caberia aos cidadãos optar pela escolha do modelo em que fariam fé, funcionando para as suas trocas... e já sabemos o que aconteceu com o Prior do Crato!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:15


Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Maio 2017

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D