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Guerra das Laranjas e Marotos

por desvela, em 11.05.14
Este apontamento resulta de várias coisas.
Primeiro, porque fui ver a razão pela qual a corte portuguesa de D. João VI teria tido que vender o diamante "Espelho de Portugal", uma valiosa pedra referida pelo José Manuel e Maria da Fonte, em comentários anteriores. 
Por esse lado, chega-se imediatamente à Guerra das Laranjas, e à perda de Olivença para os espanhóis. 
Porém, não sou daqueles que se satisfaça com um nome desses, quando a estorieta remete para um ramo de laranjeira numa carta que Godoy envia para a rainha espanhola.

Ora, quando se começa a ler outras coisas, começam a aparecer outros personagens, outras estórias, outras ligações... e rapidamente fico com uma dezena de tópicos em aberto. 
Um desses tópicos foi o dos Marotos...
Começa com um relato no jornal Ecco, que compara Maroto a Dumouriez.
Trata-se do espanhol Rafael Maroto
Ser comparado ao "traidor" Ch. Dumouriez não era nada de elogioso, já que apesar de se apresentar como defensor da França Monárquica, exerceu funções importantes na França Revolucionária, mas em segredo colocava-se ao serviço da Inglaterra, onde se acabou por exilar.
Tal como o maneta general Loison ficou entre nós com a expressão associada de "ir para o Maneta", fui ver até que ponto ia a marotice de Maroto.

Maroto aparece discretamente na invasão de Godoy, da Guerra das Laranjas, mas o seu relevo será no movimento carlista, um movimento semelhante ao miguelismo em Portugal. As guerras entre liberais e absolutistas ocorreram praticamente ao mesmo tempo em Portugal e Espanha, porque, como se sabe, estas coisas aos pares compram-se mais barato. 
Vejamos as diferenças... 
- Em Portugal, a guerra civil seria entre o tio absolutista e a sobrinha liberal.
- Em Espanha, a guerra civil seria entre o tio absolutista e a sobrinha liberal.
Pois, não é por aqui que vemos as diferenças. Ah! Os nomes fazem toda a diferença:
- Em Portugal era entre Miguel e Maria filha de Pedro.
- Em Espanha era entre Carlos e Isabel filha de Fernando.
Quantas vezes houve guerras entre tios pretendentes e sobrinhas legítimas? 
Que me lembre, bem conhecidas, foram apenas estas.

Claro que estou a forçar a situação - retirando as semelhanças, as coisas ficam diferentes. Não é sempre assim?
Bom, mas uma das diferenças é que as guerras carlistas se prolongaram - houve 3 guerras. 
A segunda guerra carlista começa em 1846, com novos confrontos entre absolutistas e liberais.
Ora, em 1846, em Portugal, dava-se a revolta da Maria da Fonte, que levou a novos confrontos entre absolutistas e liberais. 
Aos pares é mais barato... mas não há duas sem três. 
E houve uma terceira guerra carlista, em 1872, mas como não há regra sem excepção, a tentativa de revolta de Saldanha tinha ocorrido em 1870.

Esta ligação ibérica não era inocente porque havia mesmo a Quádrupla Aliança, com o direito da Inglaterra e França intervirem em Espanha e Portugal. A ligação era forçada pelo exterior... porém o detalhe de ter coincidido entre tios e sobrinhas já é algo menos fácil de entender. O facto da França, completamente derrotada com Napoleão, ser depois uma útil aliada dos ingleses, sem dívidas de guerra (ao contrário dos estados ibéricos, vencedores), também é algo muito engraçado.
Também não deixa de ser engraçado que, após Waterloo, os estados ibéricos tinham sido forçados a independências das suas colónias americanas. Umas mais naturais que as outras... e como Waterloo foi relembrado em 1974, acabavam-se de seguida as colónias portuguesas em África.
Acabaram-se todas as colónias europeias na América? Quase todas... o Canadá era inglês, com tolerância à francesa Québéc. As restantes colónias, africanas e asiáticas, acabariam só depois da 2ª Guerra, e realmente Portugal em 1974 teimava ainda em não perceber isso. 
Todas? Bom, nem por isso, não é? Franceses e ingleses entenderam-se em Waterloo. Os argentinos perceberam isso nas Malvinas. Havia ainda um amor explosivo nos atóis polinésios. Amor à distância, de difícil separação. E depois do amor?

Voltamos aos Marotos.
Bascos e Catalães apareceram no conflito espanhol, do lado carlista, e Maroto jogou um papel ambíguo, dizendo-se carlista, mas sendo mais hábil a executar os seus rivais generais carlistas do que os inimigos generais liberais. Essa era a razão da tal comparação com Demeuriez, era visto como um traidor infiltrado.
Mereceria isso apenas o epíteto de "maroto"?
Pois, não me convenceu...
Procurei um pouco mais, e encontrei uma referência mais antiga, do Séc. XVI, a uns versos de Maroto, que aparentemente eram algo marotos, satirizando impropriamente passagens bíblicas. 
Quem era este Maroto? 
Era apenas Maroto na transcrição ibérica, o seu nome era Clément Marot, e ainda que seja hoje bem menos conhecido que Rabelais, os seus versos eram muito populares, dado esse carácter profano e humorado.

                    (...) não se ouvia tratar de outro, senão das novelas e contos de "Rabeles", escritos em derisão da honestidade das freiras, e da vida dos religiosos, e em desprezo da Igreja, das suas cerimónias, e das mais coisas sagradas; nem se cantava pelos campos senão os versos de Maroto, plenos também de impiedade, e desvergonha: e assim não foi muito difícil abrir as portas da heresia. Porque estes autores foram imitados por outros (...)


Passamos finalmente à Guerra das Laranjas.
Se Rafael Maroto militava nas tropas espanholas que entraram em Olivença, o personagem principal dessa história parece ser Manuel Godoy.
O ministro espanhol Manuel Godoy, vencedor da Guerra das Laranjas, 
olha a amassada bandeira portuguesa.

Parece ser... porque o nome "Guerra das Laranjas", associado à missiva de Godoy para a "amada rainha", mãe de Carlota Joaquina, parece nem ter sido muito comum no Séc. XIX.

O Ramo dos "Laranjas" tem outro significado.
Qual?... Quando temos uma caricatura de Gillray, as coisas ficam mais simples:

O cupido holandês, repousado nas fatigas de plantação dos ramos, é Willem V, da Casa Oranje-Nassau.
A plantação de muitas laranjinhas similares, vemos passar também por diversos ventres campesinos. 
Bom, mas o principal problema de Willem V foi a França de Napoleão e em 1795 acabou por fugir para Inglaterra. 
A execução de Luís XVI levou a uma declaração de guerra das monarquias europeias contra a França.
Portugal, apesar de não ter exército apto, desde a política do Marquês de Pombal, juntou-se à declaração de guerra, e com a Espanha participou na tentativa de invasão do Rossilhão, a Catalunha francesa.
Só que os tempos eram outros, e os amigos precisavam de pensar em si e em dinheiro.
Como a campanha do Rossilhão não resultou, os espanhóis de Manuel de Godoy, ministro de Fernando VII,  ficam aliados dos franceses, num tratado assinado em Aranjuez em 1801.
O sucesso militar de Napoleão veio na medida das confusões, querendo arrumar os imóveis da Europa noutra disposição. Havia distribuição de reinos, não só pelos familiares, e em particular na Itália que tinha invadido inventou o Reino da Etrúria... para lembrar os Etruscos.
Isso não diria respeito a Portugal, mas pelo Tratado de Fontainbleau, fez nova arrumação e decidiu passar o Rei da Etrúria, um Carlos Bourbon, para Entre-Douro-e-Minho, depois denominada (ao estilo da águia romana afrancesada) Lusitânia Setentrional. 
Bom, estes eram os planos que Napoleão tinha acordado com Godoy, que ficaria com o Principado dos Algarves:
 
De acordo com o plano napoleónico a Lusitânia Setentrional - do Porto ao Minho, 
ficaria com as cores do Rei da Etrúria (curiosamente, o azul e branco listado do FCP).

O falhanço das invasões napoleónicas em Portugal, não concretizou nada disto, ideias que parecem ridículas, mas a dezena de anos de hegemonia francesa na Europa durou o suficiente para ser levada muito a sério. Quando a família real migrou para o Brasil em 1808, o Marquês de Abrantes ainda foi prestar vassalagem a Napoleão, tendo ficado retido com o filho em França até final do conflito. O Marquês de Abrantes passou a ser Junot, o general invasor.

A Guerra das Laranjas passa-se antes, em 1801.
Willem V está exilado na Inglaterra e procura recuperar a Holanda dominada já pelos franceses.
Há uma tentativa de reconquista do território em 1799, uma invasão Anglo-Russa comandada pelo Duque de York, no quadro da Segunda Coligação, onde a Espanha aparecia agora aliada da França.  
Com a mudança espanhola, Portugal ficava encurralado, e recusando a captura dos navios ingleses, ficava pronto a uma invasão conjunta de Espanha e França, comandada pelo próprio Manuel Godoy. 
Essa exigência naval era resultado da ameaça inglesa, após a investida na Holanda. A esquadra espanhola tinha sido destruída antes, em 1797, numa das várias Batalhas no Cabo de S. Vicente, depois a esquadra francesa será derrotada em 1805, em Trafalgar.
Por isso o problema não resultou das laranjas de Godoy, mas mais de Orange, de Willem V de Orange.

Bom, o resto é história, a que não tenho muito a acrescentar... Até que a Inglaterra decida intervir, Portugal dada a sua fragilidade militar herdada do Marquês de Pombal, vê-se forçado a aceitar a perda de Olivença, a perda de parte da Guiana, e de muito dinheiro e joias - inclusivé o tal "Espelho de Portugal", para assinar uma paz com os espanhóis. 
Há certamente muitíssimos mais detalhes, que me escapam, nem me interessam, num período complexo. 
Porém convinha aqui esclarecer este detalhe, mais porque se reporta a um período que antecede as invasões napoleónicas, e que é normalmente ignorado. O "espelho de Portugal", tivesse o que tivesse, foi apenas uma jóia perdida, entre tantos outros despojos, nomeadamente milhares e milhares de vidas que caminharam para um espelho do valor potência militar, valor efémero, mas pretendido eterno... sempre um espelho de morte.

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publicado às 06:42

Tendo em conta dois comentários recentes, um do José Manuel sobre os alfacinhas, e outro da Maria da Fonte sobre a realeza de linha bastarda, podemos juntar os temas.

Quem quiser acreditar que a terminologia "alfacinha" resulta de um gosto lisboeta por alfaces, pode terminar aqui a leitura.
O resto do texto destina-se apenas aos que não se contentam com essa explicação. Essa é, aliás, uma linha principal deste blog... para além de procurar mostrar contradições das versões habituais, procura uma visão com nexo alargado. 
Ora não há contradição nenhuma em associar alfaces ao lisboetas, podiam ser tomates... mas, à falta de tomates, ficaram as alfaces. Portanto, não havendo aqui contradição, não podemos dizer que a salada está mal feita... a única coisa que fazemos é, digamos, juntar tomates à história. E sim, por vezes, exageramos na quantidade de sal e azeite, e até juntamos cebola.

Adiante. 
A história vai começar nos campos de Alvalade, com ou sem alfaces. 
Será longa, porque o nexo mereceu-me a pena de ser estabelecido.

A ocorrência de bastardos reais deve ser tão velha quanto a existência de reis... no entanto, só seria um problema se alguma força apoiasse uma linha não legítima, de acordo com a tradição real.
Certamente por acaso, isso ocorreu assim que os templários se estabeleceram em Portugal, acolhidos por D. Dinis.

Aldonça Talha - Afonso Sanches
De entre muitos bastardos, D. Dinis reconheceu um, Afonso Sanches como legítimo, o que colocaria em causa a sucessão de D. Afonso IV, o único filho da Rainha Santa Isabel, dois anos mais novo que o irmão bastardo. A agravar a situação, D. Dinis colocava-o mesmo no testamento de sucessão...

D. Afonso IV, o Bravo, que foi decisivo para a histórica Batalha do Salado... montou arraiais nos campos do Lumiar,  juntando exército contra o pai, e a batalha esteve às portas de Lisboa, nos campos de Alvalade. Sendo incerto saber qual dos campos tinha tomates ou alfaces, temos a nossa opinião sobre esta outra salada, antes da batalha do Salado.
Consta que uma intervenção algo miraculosa da Rainha Santa Isabel teria evitado que o confronto prosseguisse... e, entre o mito e a realidade, é colocada sozinha a atravessar a linha de fogo, montada num burro. Afonso Sanches teve depois que se exilar.

A situação da bastardia poder ameaçar a linha legítima deve ter servido de lição a Afonso IV, que não tolerou que a cena do pai se viesse a repetir com o filho... perdido de amores por Inês de Castro.
Como "coincidência", Inês de Castro terá vivido no castelo de Albuquerque, com a tia, que era afinal Teresa Martins, mulher do bastardo Afonso Sanches. Teresa era filha do Conde de Barcelos... como veremos, os galináceos de Barcelos vão procurar sempre poleiro mais alto.

Teresa Lourenço - D. João I
Porém, a história não segue pelo lado de Inês de Castro, apesar da pretensão dos seus filhos, segue pelo lado doutra amante de D. Pedro I, uma certa Teresa Lourenço, algo incógnita, que é referida como acompanhante de Inês de Castro, ou como filha de um comerciante lisboeta.
Aljubarrota vai levar o seu filho bastardo, já promovido a Mestre de Avis, à situação de rei. A juba rota pela bastardia conseguiria a primeira juba de rei, D. João I.
Não estava em causa o valor humano, pois nada diminui um ser humano, estava em causa a lógica da legitimidade monárquica... os bastardos afinal podiam passar a reis. Tinha sido tentado com Afonso Sanches, e era conseguido com o Mestre de Avis.
Para as cortes de Coimbra contribuíram mais as Ordens Militares (de Avis, Cristo, Santiago) do que a retórica de João das Regras, já que a legitimidade de D. Beatriz era clara, apesar de estar casada com D. Juan... esse problema ocorria sempre nestas coisas! Mas, mesmo havendo a questão de independência, dificilmente o Mestre de Avis se sobrepunha em legitimidade a João de Portugal, filho de Inês de Castro, que tinha sido consagrada rainha em morte, reabilitando assim a legitimidade dos filhos. 

Inês Pires - Afonso de Bragança
Só que o precedente criado causaria uma ferida de legitimidade nos séculos seguintes. A nobreza, que tinha alinhado pela legitimidade, era substituída por nova nobreza.
Novos actores, o mesmo guião.
A bastardia voltava a colocar-se com Afonso, filho do Mestre de Avis com Inês Pires.
O pai passava de bastardo a rei, e certamente que o filho do Mestre poderia ser opção na sucessão... era uma questão do pai se empenhar tanto quanto tinha feito D. Dinis por Afonso Sanches.
Só que D. João vai casar-se com Filipa de Lencastre, e as esperanças de Afonso resumem-se ao casamento arranjado com a filha de Nun'Álvares, então já tornado poderoso Conde de Barcelos, com domínios de terras que rivalizavam com os reais.
Por muito que tente... e o galo de Barcelos vai cantar muito, conseguindo depois criar o ducado de Bragança, a casa do bastardo Afonso só irá tomar o poder muito depois: - Após ter trazido os espanhóis e ter-se livre deles, em 1640.
Afonso vai destabilizar a corte até Alfarrobeira, provocando a morte do meio-irmão, Infante D. Pedro, que o tinha feito duque... Pedro, duque de Coimbra, pensara que igual tratamento seria suficiente para Afonso, criando o ducado de Bragança, mas não era. A influência dos Bragança já estava em Castela, e a aposta na neta - Isabel, a Católica, seria ganha contra D. Afonso V e D. João II, que apoiavam Joana.

Ana Mendonça - Jorge Lancastre
D. João II procurará eliminar a questão Bragança, ou dos galos de Barcelos, executando o filho de Afonso, Fernando, mas o problema da bastardia voltaria a colocar-se com a morte do príncipe Afonso.
D. João II procura legitimar o seu bastardo Jorge (filho de Ana Mendonça), algo que seria perfeitamente natural no quadro ilegítimo que iniciara a própria dinastia de Avis, uma vez que não havia sucessores... porém, afastados pela bastardia, os Bragança não iriam agora tolerar excepções. 
Assim, a linha segue com o primo, D. Manuel, mas há uma efectiva quebra de Dinastia. 
Manuel não sucede a D. Afonso V, nem a D. João II. No panteão da Batalha só teria o avô D. Duarte, e o bisavô D. João I, e por isso constrói um novo panteão nos Jerónimos.
Será na Dinastia Avis-Beja a continuação do ducado de Viseu, iniciado com o Infante D. Henrique. O ducado de Coimbra teria em D. João II um rei único. Depois de Viseu, chegaria a vez dos Bragança, não sem antes convidarem os espanhóis.

Violante Gomes - D. António
Quando volta a colocar-se o problema da bastardia?
Tal como D. Manuel era primo de D. João II, também depois o eram os seus netos, Filipe II de Espanha e o Cardeal D. Henrique. Assim, pela morte de D. Sebastião, a questão da legitimidade apontava de novo para a vizinha Espanha quando morre o velho cardeal... 
O cenário repetia-se. A nova nobreza, pela questão legitimista, ainda que tivesse toda resultado dessa quebra de legitimidade, alinharia pela lógica intrínseca ao seu poder... o poder legal. Os Bragança, excluídos pela bastardia, alinhariam nessa lógica, com promessas de terras, mais do que haviam perdido com D. João II. 
Do outro lado estava D. António I, Prior do Crato - mais um bastardo... também neto de D. Manuel, filho do Infante Luís com Violante Gomes (dita "a Pelicana", dita judia). Obteve algum apoio, pouco, tentou resistir ao Duque de Alba, desembarcado em Cascais sem problemas, mas perdeu a Batalha de Alcântara. Filipe II poderia fazer a sua entrada triunfal em Lisboa.

Alfacinhas de gema, amigos da onça, e os amigos de Peniche, a ver navios
Chegamos assim ao período em que "andava o diabo em casa do Alfacinha".
"Demon-du-midi", ou diabo, foi designação colada a Filipe II pelos franceses, ameaçados pelo seu poder crescente. Quanto à alfacinha...
Alfacinha (Lechuguilla): certo género de cabeções e de punhos de camisa muito grandes e bem engomados, frisado com ferro em forma de folhas de alface, e que se usavam muito no tempo de Filipe II de Espanha.
Dicionário espanhol-português (pg. 1004) de Manuel Mascarenhas Valdez (1864)
Não é difícil encontrar esses exemplares de "alfacinhas" em quadros da época, era moda usada pela burguesia e pela aristocracia. Os que usavam alfacinhas estavam na elite lisboeta.
Quanto às gemas preciosas e às onças de ouro... (como bem salientou o José Manuel), podem ser ilustradas pelo monumental Arco dos Ourives e Lapidários
a imagem do centro é do Filipe II, alfacinha, conforme é ilustrado
no blog "do Porto e não só"... 

A grande alface abria a sua face, recebendo Filipe II com múltiplos Arcos Triunfais, conforme ilustrado no antigo postal que fizemos sobre a Monumentália Filipina Lisboeta, e depois ainda melhor ilustrado no blog "do Porto e não só".
O que aconteceu a tantos arcos? - foram destruídos. Porque a memória era algo inconveniente. 
Por exemplo, o "Arco do Ouro" e o "Arco do Espinho" caíram em 1754... o terramoto, relembramos, foi em 1755. Ficou um só Arco, sobre a Rua Augusta... acho que esse e todos os outros podem ser vistos simbolicamente na designação "Arco do Cego" (zona de Lisboa, onde não há hoje nenhum arco, diz-se que foi demolido para facilitar a passagem do coche de D. João V quando ia a banhos às Caldas).

D. António I não deixou de procurar apoios para recuperar o trono que lhe fora fugaz... conseguiu convencer Isabel I de Inglaterra, e uma frota de Francis Drake entraria por Cascais isolando a cidade, enquanto outra, de Norris, desembarcaria em Peniche.

Uma parte do plano não funcionou... contava-se que Lisboa se revoltasse, e apoiasse D. António. E parecendo querer puxar a imagem do Mestre de Avis, que entrara em 28 de Maio de 1384, pelas portas de Santa Cantarina, D. António ataca aí, também junto à contígua Porta da Trindade:
 "D. António atacou Lisboa aos 3 de Junho de 1589, com o exercito Inglez que o auxiliava, fazendo grande destruição, e pondo fogo a todos os edifícios exteriores do seu muro, e das circumvizinhas". (Revista Panorama, 1838, vol. 1-2, pág. 339).
Porém, D. António terá "ficado a ver navios do alto de Santa Catarina".
Drake aguardava, e parece não ter investido o suficiente, pois esperava-se que a alface se abrisse com a coragem de D. António, mas isso parece não ter bastado à salada.
Os alfacinhas revoltaram-se? 
Abriram as portas ao rei português e libertaram-se do jugo espanhol?
Os alfacinhas de gema, mais amigos da onça, parece que não... 

Poderiam queixar-se de não ver os "amigos de Peniche", ou seja, um exército inglês ainda maior, mas de facto Lisboa já não alinhava com os ingleses. Foi de Lisboa que zarpara a Armada Invencível, um ano antes, em 1588, e o lado português, pelo menos lisboeta, era o lado espanhol, ibérico.
A designação "gema" pode até ser mais "gémea", pois Lisboa via-se como gémea de Madrid, e os lisboetas estavam mais preocupados em convencer Filipe II a trazer a capital para Lisboa. Essa alusão está aliás no arco dos ourives.

A guerra de D. António, filho da "Pelicana" (em clara alusão a D. João II), era também uma guerra contra os Bragança, altamente favorecidos por Filipe II, e dificilmente uma revolta aconteceria fora da teia cortesã montada por uma casa que nunca reconheceria outros bastardos. Para bastardos, estavam lá eles... e por isso a Restauração só foi feita com os descendentes do Barbadão, em 1640. A desonra do pai de Inês Pires, sapateiro que não cortara as barbas devido ao "deslize" da filha, tinha honras de comandar um Império de Timor ao Brasil. Sobre alguma honrada irmã de Inês Pires... pois, é óbvio que não sabemos o destino da descendência popular.

Esse enguiço da casa de Bragança, que os perturbou além do racional, durante séculos, levou à extinção da concorrente Casa de Aveiro, da descendência do bastardo pelicano, D. Jorge. Foi o conhecido Processo dos Távoras, onde, para além dos Távoras, se eliminou o último duque e se extinguiu a casa que de Coimbra fora forçada a chamar-se Aveiro por D. Manuel. Curiosamente, o nome ligado ainda a essa descendência é Abrantes... local onde D. João II simulara a execução do Bragança fugitivo, e convém não esquecer a expressão "tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"... aplicada à invasão francesa de Junot, mas em que a escolha de quartel pode não ser tão mole quanto parecem os ovos.

Poderia continuar... mas o texto já vai longo. 
Há muitos detalhes que ficam sempre por dizer. 
Escolho alguns sortidos.

A lista da Revista Panorama, de 27 de Outubro de 1838, vol. 1-2, pág. 337 ... comunicada por um "anónimo", é excelente. Aprende-se muito sobre o que existiu e desapareceu na cidade de Lisboa. As referências às destruições pelo "terramoto" de 1755 são nalguns casos deliciosamente subtis, invocando explícita ou implicitamente outra origem na destruição.

Podemos ver que "Abaixo da Porta Moniz, na Costa do Castelo, existiu uma povoação chamada Villa Quente, que foi submergida pelo lastimoso terremoto que sucedeu em Lisboa a 26 de Janeiro de 1531".
Portanto, o famoso maremoto foi mesmo em 1531... quando se construiu o Bairro Alto.

Outro exemplo, é pouco conhecido - e nada divulgado - que a Universidade fundada em Lisboa por D. Dinis esteve sediada no Pátio dos Quintalinhos... não fui lá, não sei se estas imagens correspondem ou não a essa glória da cultura nacional:
Onde foi a primeira universidade? 1290 - Pátio dos Quintalinhos, Lisboa.
... ou como os alfacinhas de gema guardaram o seu património histórico.
À atenção dos responsáveis camarários, a bem do turismo ou cultura... 
... que façam uso dos seus instrumentos de maçonaria fora das negociatas.

Conforme é dito na Revista Panorama, houve aí a velha Casa da Moeda, onde D. Dinis teria instalado inicialmente a Universidade, e acrescentamos, onde depois D. Manuel colocou os Estudos-Gerais.
Apesar da página no CNC, tem sido apontado para local da universidade o Largo do Carmo... mas para esse, há outras comemorações, ao que parece de uma revolução que, como o nome indica - na revolta, a volta repete-se. 
Afinal entre o Quartel do Carmo e a Porta da Trindade (de D. António), será tudo como dantes, Quartel-General em Abrantes?

Serão detalhes do arco-da-velha (expressão antiga usada para o arco-íris, por invocar lei velha do acordo entre Deus e os homens), e assim termino com o diálogo entre "Archia" e "Íris", da peça/ópera "Encantos de Circe" (1756), que ilustra diversos arcos... e praças.

Íris: Na verdade, tão cativo estás de mim?
Arch: E tão cativo, que se me viessem resgatar, me faria um renegado de Grécia, só por estar na masmorra da tua graça.
Íris: Tão bem te pareço?
Arch: Já que és Íris, por arcos te explico a tua beleza; porque comparo as tuas sobrancelhas aos Arcos da Capella; os teus olhos ao Arco do Cego; o nariz ao Arco dos Pregos; a boca ao Arco das Mentiras; o pescoço ao Arco do Espinho; o corpo ao Arco do Garajão; e toda tu és um arco da velha, e sendo toda arco, não vi coisa mais desarcada.
Íris: Não te pareça que menos agradada estou de ti; e por praças te retratarei: e assim é a tua testa praça vazia, os teus olhos Praça do Remolares; o nariz Praça do Castelo; a boca Praça da Palha; o pescoço Praça do Pelourinho; o corpo praça morta; e sendo tu homem de tantas praças, não vi homem de menos praça.
Íris vai-se.
Arch: Parece que lhe não agradou o retrato, se já não é que por ser já noite, não deve aparecer este arco da velha.

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publicado às 05:51


Nave espiritual

por desvela, em 20.10.13
É suposto a palavra "nave" derivar de "navis" do latim, que por sua vez sairia de um "naos" grego.
Em todos os casos tratam-se de embarcações para... navegar.
Se "navio" pode advir do latim e "nau" do grego, é de notar que a letra "v" apresentou duplicidades, não apenas na troca dos "b" pelos "v", mas também na troca de "v" por "u"... ou seja, o "navis" latino poderia pronunciar-se "nauis", da mesma forma que "Julius" seria escrito "IVLIVS". 
Esta duplicidade entre o "u" e o "v" não desapareceu com a invenção do "w" que também manteve a duplicidade de ser lido como "u", pela via inglesa, e como "v", pela via francesa e germânica.

Ao contrário dos ingleses não falamos de "navio espacial", e a designação "nave espacial" parece ser tipicamente das línguas ibéricas, porquanto a palavra "nave" solitariamente teria perdido o significado marítimo e seria mais aplicada na arquitectura de catedrais, falando-se habitualmente da sua "nave central".
 
Naves centrais do Mosteiro de Alcobaça e do Mosteiro da Batalha

A relação da nave marítima com a estrutura das catedrais é bem conhecida. Havia uma grande semelhança invertida entre o fundo dos navios e o tecto das catedrais. Os fiéis seriam assim convidados para uma embarcação que teria a sua quilha penetrante nos céus, tal como a quilha dos navios entraria nas águas... afinal também a parte espiritual sediada na cabeça estaria mais próxima dos céus do que os pés que conduziam o corpo.
É num mundo medieval, onde as navegações marítimas estavam praticamente proibidas que vamos encontrar alusões a outras naves, de carácter espiritual. Ao contrário de anfiteatros, o formato linear, sob o comprido, que passaria a ser característica típica das igrejas, não era o mais adequado para comunicar a uma plateia de fiéis. Envolvia uma direcção - as igrejas estavam normalmente viradas a Nascente, e o próprio sacerdote, virando costas aos fiéis, tomava posição semelhante na embarcação, primeiro na proa em direcção a esse renascimento figurado numa alvorada (após o controverso Concílio do Vaticano II, em 1962, estas tradições caem, diz-se que por influência maçónica na igreja).

Movendo-nos um pouco para outra parte do globo, para as Caves de Ellora, Índia, datadas do Séc. VII, encontramos uma estrutura de topo curiosamente semelhante... em que o tecto poderia bem representar o fundo de um navio:
Nave da Cave... Cave 10 (dita do Buda Carpinteiro)

De acordo com a Revista Panorama (número de 8 Julho 1837), já Diogo Couto dava conta da existência destas Grutas de Ellora, bem como da Ilha de Elefanta (ou Elefante) e da Ilha de Salsete. É interessante que a Ilha de Elefanta tenha feito parte do dote de Catarina de Bragança a Carlos II de Inglaterra, o que simbolicamente mostra já uma cedência do poder aos ingleses sobre a Índia. No entanto, creio que na Ilha de Elefanta, dedicada a Xiva não se apresenta este tipo de estrutura.

As estruturas dedicadas a Xiva envolviam mais construções de Pirâmides, como são os vários templos Tamil, como seja Chidambaram (partes atribuídas ao Séc. XIII):

ou os templos hindús de Annamalayiar (datados do Séc. XV):

ou ainda, do mais recente Templo de Meenakshi (datado do Séc. XVII):

bem como de vários outros (ver lista). Estes templos piramidais têm também uma linha de orientação definida, ao contrário do que acontece com as habituais pirâmides... mas não deixam de exibir características que remetem para conjuntos monumentais egípcios ou mexicanos. É mais difícil perceber aqui se havia algum significado religioso especial, mas a orientação não é constante, e o efeito de nave não estará presente nestes templos. 

Finalmente, sobre as construções com forma do fundo de barco, convém lembrar a menção que já fizemos às mapalias da Numídia, no relato do Rei Hiempsal II. Segundo esse relato, os persas que acompanharam Hércules na expedição que este fez à Hispânia, ficaram a habitar a costa africana, usando os cascos invertidos dos seus navios para fazerem casas. Esta tradição ter-se-ia mantido como forma de construção no Norte de África, no fabrico das mapalias (também chamadas magalias). 
Mapalias da Numídia - inversão dos cascos dos barcos dos companheiros persas de Hércules.


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publicado às 06:04


Banho maria

por desvela, em 17.10.13
A minha falta de cultura hermética nacional revela-se em pequenos detalhes, como o simples "usar sem pensar" de algumas expressões que nos foram legadas.
Uma delas estava em banho-maria.
É claro que é uma expressão conhecida desde criança, no que diz respeito a aquecer coisas... porém faltou a curiosidade de perguntar - quem era a Maria?
Como esta há tantas outras... e simplesmente não inspeccionamos a língua que herdámos.
Muitos podem considerar que é uma invocação da figura temperada de Santa Maria, e isso levaria a um texto mais indicado para o 13 de Outubro, e não para hoje.

Maria, a judia.
Maria, a judia, alquimista do Séc. III a.C.

Do que pude apurar, a expressão refere-se a uma percursora do alquimismo - Maria, a judia, também dita Maria, a profetisa, ou a copta.
Sendo uma figura semi-mítica, aparece em dois contextos diferentes. Ou como Miriam, irmã de Moisés, ou como discípula copta de um hermetismo de Hermes Trimegisto, onde é referida como tendo influência em Demócrito (o que a remeteria para o Séc. V a.C.), ou ainda vivendo já no período romano, sendo citada por Zosimo de Panopolis, numa panóplia de atribuições alquimistas. Para o gnóstico Zósimo os anjos caídos teriam ensinado às mulheres a arte da metalurgia, e o conhecimento fundamental estaria guardado pelos egípcios e hebreus, ou seja, passando a tempos modernos, é legado da maçonaria e judiaria.

Isto é praticamente irrelevante face aquilo a que se chama o Axioma de Maria, e que foi relacionado com a filosofia alquimista dos quatro elementos (terra, água, ar, fogo):
Um passa a Dois, Dois passa a Três, e pelo Terceiro aparece o Um como Quarto.

Esta aritmética hermética é praticamente a mesma que encontramos no taoísmo, em Laozi, conforme referi num texto anteriorO Caminho faz nascer a Unidade, a Unidade faz nascer a Dualidade, a Dualidade faz nascer a Trindade, e a Trindade faz nascer uma miríade de criaturas.

Nesse texto anterior (Arquitecturas-5) procurei dar um nexo a estas afirmações que parecem gratuitas, mas podem ter um substrato racional, se bem entendidas... algo que não está presente, mesmo hermeticamente, nas frases transmitidas. Não é o "um" que passa a "dois", nem é a "unidade" que gera a "dualidade", etc...
Para dar nexo racional, pode observar-se o boneco que coloquei no Odemaia:
... em que a construção é um simples enquadrar do desenhado anteriormente. 
Outra explicação pode ser vista como uma charada - "escreva numa frase tudo o que foi escrito":
0 - nada
1 - foi escrito "nada"
2 - foi escrito "nada" e ainda "foi escrito "nada""
3 - foi escrito "nada" e ainda "foi escrito "nada"" e ainda "foi escrito "nada" e ainda "foi escrito "nada""" 
etc...

O que parece uma brincadeira infantil é intrinsecamente mais que isso, pois evidencia uma inevitabilidade de uma geração, qualquer que seja o ponto de partida... mesmo que se comece do "nada".

Ver nisto uma brincadeira é infantil. Os antigos filósofos sabiam bem disso, pois prezavam a profundidade da simplicidade complexa. É nesse sentido que nos aparecem as frases herméticas, como o Axioma de Maria, ou o Caminho de Laozi.

A inexistência implicaria uma existência da inexistência, e o processo não pára.
É indiferente de onde se parte. Podemos chegar ao terceiro ponto e dizer que tudo aquilo é nada... mas voltar ao zero não nos deixa de remeter aos pontos seguintes. A tentativa de redução, de anulação, não resolve nada.
Quando dizemos "nada" podemos dizer "qualquer coisa", ou até "tudo"... o processo está lá e não pára, mesmo com tudo. Afinal, o tudo não tem fim, não é estático.
Numa visão estática isto parece contraditório, e baralhou filósofos e lógicos, como Russell, no início do Séc. XX... e é ainda hoje ensinado como paradoxo. Mas não há nenhum paradoxo... simplesmente não faz sentido querer parar o processo para o analisar. É tão ridículo quanto os propalados milhões gastos na investigação para descobrir o funcionamento profundo do cérebro humano. O ridículo é que um cérebro pode entender outro cérebro, mas não o próprio... a análise a qualquer momento seria desactualizada, pois não incluiria o novo conhecimento entretanto analisado.
Até uma criança percebe isto, mas mesmo assim o assunto colecta dinheiro e propaganda pseudo-científica, para disfarçar as insuficiências epistemológicas da ciência moderna.

Isto não significa que não haja matéria para o conhecimento profundo. Há. Simplesmente não envolve bisturis, envolve apenas pensar seriamente, sem os preconceitos induzidos pela modernidade.
O método experimental serve a experiência, e pouco serve à descoberta. A experimentação revela mais novos mundos por descobrir do que serve para a descoberta do inicial. E o ponto crucial é que todos os mundos são mundos, diferentes nuns aspectos, iguais noutros. E quando se trata do geral, olhar para as particularidades das diferenças é mera distracção.
À descoberta filosófica basta a simples observação e reflexão... o velho método aristotélico. Não foi esse o caminho seguido pelos alquimistas, que forçaram a experimentação aos limites, interessando-se pelo detalhe, pelo particular. Não se compreende melhor a água sabendo que é H2O, porque isso não responde em nada aos porquês. Por que razão a soma dos números atómicos da água é 1+1+8=10? Tudo isso serve apenas para levantar novas questões, esquecendo as fundamentais.

O Axioma de Maria, ou o Caminho de Laozi, têm uma tradução filosófica simples, própria dos gnósticos. 
A unidade começa por ser a consciência do eu, só que essa consciência do eu está para além do eu que observa, revela um não-eu, levando à dualidade entre o "eu" e o "não-eu". A unidade que se vê a si própria separa-se no observador e observado - o um gera o dois. Porém, "ver os dois" é uma terceira identidade, mas não deixa de ser ainda o observador, o eu inicial, o um. Ou seja, quem tem a consciência do "eu e não-eu" é o próprio eu, e a trindade fecha-se. O terceiro é o primeiro.
Na perspectiva mais abstracta não há qualquer necessidade de quarto ou quinto elemento... 
A sequência que leva ao quarto segundo Maria, ou a sequência de Laozi que leva à miríade natural, é já uma crença facultativa.
E isto é mais complicado de escrever, porque não se vê escrito em parte alguma... mas encarar o não-eu como uma entidade múltipla é uma mera opção do observador. O eu prefere encarar o mundo numa multiplicidade, em que o não-eu são muitas coisas e não uma só, uma única entidade que lhe é dual. Pior, isso é válido para o eu e para o não-eu... ou seja, o eu, que se vê como unitário, aparece ao não-eu como múltiplo. Esta dança a dois, com o seu carácter abstracto, aplica-se a tudo. Se o "eu" se vê pequeno e impotente perante um ameaçador "não-eu", que inclui os outros e toda a natureza restante, convém lembrar que o "eu" é o "não-eu" desse outro imenso. As dimensões equivalem-se pela complementaridade, tudo o que falha a um está no outro. Algo completamente diferente é a consciência do eu presente, já que essa complementaridade vai para além desse tempo. A nossa história não é feita a um tempo só, foi feita a dois tempos... o que já se cumpriu em potência, e o que se cumpre, que é uma revisitação em consciência.

Em suma, ambas as afirmações, de Maria ou Laozi, fazem sentido dentro de um hermetismo, mas é preciso entendê-las racionalmente.
Agora, é de facto um pouco estranho saber destas coisas em "banho-maria".

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publicado às 02:48


Antes Maroiços e Antas

por desvela, em 07.09.13
A Associação Portuguesa de Arqueologia, APIA, através de Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, tem vindo a publicitar várias descobertas nos Açores. Praticamente todos os anos estamos com novidades, e desta vez são estruturas piramidais, denominadas "Maroiços":

 
Maroiços no Pico (Madalena) [esq: foto Expresso, dir: foto Artazores]

É claro que só se tratam de descobertas para quem não sabe... e a questão mais uma vez é atribuir uma autoria, já que ao contrário da Grota do Medo, duvido que alguma sumidade nacional arriscasse uma versão natural para tais construções. Há ainda assim alguns limites para o ridículo. Mais uma vez, há uma versão oficial que atribui tal obra aos agricultores, dentro do quadro da Paisagem da Ilha do Pico.
Já tinhamos mencionado no texto "Degraus da Maia" que os muros da Ilha do Pico tinham sido classificados na lista WHC da UNESCO, o que nos pareceu algo estranho, mas meritório. Estranho, porque não parecia haver nada de tão extraordinário naqueles muros, que não se encontrasse frequentemente em serras portuguesas... conforme já referimos na zona da Serra dos Candeeiros, não longe de Fátima, há vários quilómetros quadrados cheios de muros, que dão ideia de cidadelas abandonadas no tempo.

Ora, uma coisa é haver uma sensação visual, outra coisa é arriscar dizer que se tratam de monumentos arqueológicos. Neste caso dos "Maroiços" é nítido que há uma construção piramidal, a questão é saber se tal obra se pode reportar a período anterior à colonização oficial portuguesa... ou se são apenas construções agrícolas mais recentes. A notícia do Expresso:
http://expresso.sapo.pt/arqueologos-revelam-segredos-das-piramides-da-ilha-do-pico=f827624
dá a entender que há vários factores que podem apontar para ser construção antiga. Nomeadamente a semelhança com estruturas semelhantes noutras ilhas (e.g. dos guanches nas Canárias), o facto de terem câmara interna (falsa abóbada), e a orientação solar. Apenas estes factores estão longe de ser decisivos, e seria fácil rebater tal hipótese... O problema é que também é difícil de acreditar que os agricultores açorianos andaram a copiar construções arqueológicas antigas. Já são pelo menos 3 ou 4 monumentos bem distintos que invocam uma presença anterior à versão oficial portuguesa.

O nome Maroiço não é exclusivo açoriano. Há uma serra perto de Fafe que se chama Serra do Maroiço, e esse nome já foi associado pelo arqueólogo Luis Chaves (1951) à presença de antas:
Luis Chaves, As Antas de Portugal.

Nesse texto, Luis Chaves, faz uma pequena síntese de topónimos que poderiam invocar essa ligação.
Deixo aqui um breve resumo das diversas palavras que ele associou na toponímia nacional:
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Altar (ex: Anta de Altar, Mamaltar).
Anta (ex: Pedra d'Anta, Vale de Antas, Antadega, Anto).
Antão, Antões: : aumentativos de Antas.
Ante (ex: Penedante, Pedra Dante, Touça Dante, Antemil)
Antela, Antelas, Antaínha, Antoínha : diminuitivos de Antas (Antanhol).
Arca (ex: Fraga de Arcas, Pena de Arcas, Arcã) : montes de terra.
Arcaínha, Arcanha, Arcela, Arcelo, Arquinha : diminuitivos de Arcas.
Arcal, Arcais, Arcão : aumentativos de Arcas.

Casa : "nome comum às antas e às lapas, covas, etc."
Casarelo, Casinola : diminuitivo de Casa.
Cova : similar a Casa, pode não ser Anta.
Covelo : diminuitivo de Cova.

Forno : "por semelhança construtiva com fornos".
Fundo : similar a Cova, Casa.

Lagar : por "sugestão de capacidade e imagem dos lagares".
Lagarão : aumentativo de Lagar.
Lagareta : diminuitivo de Lagar.
Lapa : (gr. lapados) rochedo, "a Anta formada por esteios e coberta" (Lapa dos Mouros, Lapa da Orca)

Madorra: monte de pedras miúdas ou cascalho.
Medorra, Modorra, Mudura, Madorrinha : vem de Madorra.
Mamôa: "monte, colina, ou proeminência de terra", arredondada, "semelhante a peito".
Maroiço, Marouço, Maroço, Meroço, Tulha : "monte de seixos".
Mêda : "monte de pedras".
Monte : "o monte de pedras quando a Anta não tinha cobertura de terra".
Montilhão : aumentativo de Monte.
Moimento : vem de Monumento, Leite de Vasconcelos dizia ser de Antas desaparecidas.

Orca : "grande vaso de barro ... conserva de peixe seco", passou a designar habitação mítica (Casa da Orca, Lapa da Orca, Pedra da Orca, Orca das Orcas).

Padrão, Padrões, Pedrão, Pedrões : "pedra grande, o conjunto da anta" (Anta dos Padrões, Antela da Mamoinha do Senhor do Pedrão)
Pala : "pedra horizontal sobre outras (Pala da Moura).
Pedra : "a pedra formada pelo todo da anta, ou conservada de pé (Pedralta, Pedra do Altar, Pedra da Anta, Pedra da Orca).
Penedos : "associado o nome às antas que os formam" (Penedante, Penedo de Anta, Penedos de Arcas)

Sepultura: "associação ao uso sepulcral".
Touça, Touca, Toutiço ou Touta : toma a forma de cabeça.
Urna : "vaso onde se guardavam as cinzas dos mortos".
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Esta lista organizada por Luís Chaves é extensa, mas creio que ainda faltam associar outras palavras que se ligam a construções antigas, como por exemplo Fragas, Azambuja, Zambujal, Zambujeiro, etc...
Ainda que não tenham resistido os monumentos, houve um registo de nomes que ainda não se perdeu, e que nos liga a tempos imemoriais.

Aditamento (08/09/2013):
Por lapso ao compor o texto falei dos guanches, mas esqueci-me depois de explicitar a relação destes Maroiços com os Marajos, as pirâmides das Canárias, colocando uma imagem ilustrativa:
Pirâmides de Guímar, Tenerife (Canárias)

Também no caso espanhol é suposto que estas pirâmides sejam já posteriores à ocupação espanhola, não sendo reconhecido oficialmente que remetam aos guanches. No caso das Canárias, como é reconhecido uma habitação anterior pelos guanches, não se coloca a questão das ilhas serem desabitadas, o problema é que a estrutura parece ter sofrido alterações ou reconstrução no Séc. XIX, pondo em causa um registo mais antigo. Também no caso canarinho, foi demonstrada uma orientação solar dos monumentos.

Para quem queira ver nestas construções uma obra agrícola de camponeses europeus, deve explicar por que razão tiveram a mesma ideia os agricultores do Pico e de Tenerife, e porque razão tal construção não tem tradição nos países de origem, em Portugal e Espanha. Justificação complicada... boa sorte!

Contribuição (Sid, 17-11-2013):
Na última coisa que aqui escrevi, disse faltar uma justificação para o aparecimento destas estruturas agrícolas. Tendo a sorte de ter o comentário de Sid, natural da Ilha do Pico, sobre este assunto, creio que esclarece no outro sentido. A característica específica dos terrenos vulcânicos levaria a este amontoar de pedras ordenado.
Os arqueólogos da APIA, que certamente ouviram estas explicações dos agricultores, deveriam ter tornado públicas as razões pelas quais não ficaram convencidos.
Pela minha parte, dou o devido destaque a ambos, e a conversa segue na caixa de comentários.

-- Comentário de Sid --

Atraquei aqui porque o assunto diz-me respeito, pois sou natural do Pico e fui criado no sopé daquela montanha.
O meu contributo para a questão é simples e curto, pois eu próprio em criança fazia deles o meu castelo e em jovem ajudei meu pai a construir alguns (pequeninos) ao limpar o chão dos terrenos para torna-los próprios para as sementeiras e diversas culturas próprias de quem vive da terra. 
Como tal, passo a descrever os maroiços em causa, e até dou, de boa vontade, uma ajuda na compreensão razão para agora estas gentes andarem a estudar estes amontoados de pedras.
Diversas áreas da ilha do Pico são de solo coberto de pedra basáltica, digo coberto porque refiro-me a uma camada que pode variar em espessura, mas é muito comum, depois de se escavar meio metro ou um metro encontrar terra própria para cultivo. Esta característica, quanto a mim, é fruto de erupções vulcânicas intercaladas por grandes períodos de tempo, na ordem dos milhares de anos, tempo suficiente para que a erosão natural forme terra arável mas que depois acaba por ser coberta por um manto de lava. Manto este que actualmente, já em forma de pedras soltas e cascalho definem o solo de grande parte da paisagem do Pico, principalmente aquela localizada no sopé da montanha, como é o caso da vila da Madalena.
Os maroiços, começam a nascer a partir do momento em que alguém limpa uma qualquer área que nunca havia sido usada para cultivo, estes variam de dimensão consoante o tipo de cultura ou a quantidade de pedras existente sobre o solo. No caso da vinha, que é muito comum nas áreas em questão e onde por sinal a paisagem e o solo são a imagem de marca dos vinhos do Pico, bem como paisagem classificada pela UNESCO desde 2004. Ora, o processo original de trabalhar solo desta zona para o cultivo a vinha, consistia em abrir uma pequena cova entre as pedras, introduzir terra e nessa terra plantar a videira, com as pedras maiores que se encontravam sobre o solo, faziam-se os muros que servem de abrigo ás videiras, contra os ventos, e ao mesmo tempo que se faz obrigo arruma-se a pedra duma forma rápida e pratica. Para os casos em que há maroiços, esses surgem naturalmente quando estes muros não chegam para arrumar toda a pedra, então num canto ou mais cantos de uma determinada parcela levantavam-se muros, dispostos em formas variadas - circular, rectangular, triangular ou quadrangular, para reter as pedras que posteriormente foram depositadas no seu interior. Estas construções variam muito de tamanho, algumas vão crescendo com o passar dos anos, conforme o área em redor vai sendo explorada, principalmente nos casos em que a cultura é de sementeiras. Nestas, sempre que se trabalha a terra, surgem pedras entre a terra, que são recolhidas e depositadas no maroiço, o que leva à necessidade de reforçar este com a construção de mais um "andar" fazendo com que estes formem pirâmides. Ainda é de salientar que em tempos passados estas terras eram a base da economia da ilha, era comum ver nestas terras famílias inteiras a trabalhar de sol a sol, levavam almoço, levavam as crianças e era para maroiço que se atirava tudo o que era lixo e sólidos encontrados no chão da propriedade onde esta localizado, daí ser frequente encontrar restos de loiças, restos metálicos, conchas de lapas (marisco muito apreciado nas ilhas) etc. 
Estas ideias recentes que tem surgido em torno destes montes (organizados) de pedra, são isso mesmo, ideias.

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publicado às 05:57


As valetas, o Gozo e a Malta

por desvela, em 01.08.13
Há Carris nos Açores... mas menos conhecidos. Teriam outro propósito que não servir para subsidiar rendas, rendilhados, subvenções vitalícias, com que a via direita alimenta a esquerda, e assim conduz os protestos da manada pelos carris programados...

São estas as imagens dos Açores, de carris definidos agora em pedra solidificada, que estão em causa:
Açores: imagens de carris "pré-históricos" - segundo ancient-wisdom.co.uk

Segundo a informação constante do site ancient-wisdom.co.uk

The presence of cart-ruts on the Azores is one of the most unexpected facts to present itself in the search for the first settlers on the Azores. The Portuguese cart-ruts are pre-Christian, as are those on Malta. As we have no record of their being made since the 'official' discovery of the Azores, we must assume that these were made by a people prior to the Portuguese.
... e sim, é tão surpreendente encontrar estes carris, tratando-se de registos "pré-cristãos", tais como os "carris" de Malta.

Serão apenas valetas naturais?
Vamos seguir a Malta, no encalço das valetas... não pela capital La Valeta, porque isso seria um gozo óbvio com a designação. Ao lado, sim, está a Ilha de Gozo... bem conhecida pelos monumentos megalíticos, onde também se encontram estas valetas:
Valetas ou carris, de Gozo, na Malta. 
(mais imagens em ancient-wisdom.co.uk

Estas valetas bem pronunciadas, sugerindo carris, não estão apenas no Gozo, encontram-se espalhadas nos diversos continentes. No mesmo site podemos encontrar registos em:
deixamos aqui a imagem dos que estão no Piódão:

Poderíamos seguir no encalço das espirais que também fazem parte de monumentos, onde?... bom, no Piódão, e não é que também é no Gozo?
  
Espirais no Gozo (Templo de Tarxien), e no Piódão (Vale da Égua).

As espirais não expiram no Gozo ou no Piódão... como é óbvio, encontram-se espalhadas por toda a cultura megalítica da Europa Atlântica (o José-Manuel já fez bastantes vezes referências a elas).

Encontra-se ainda em Gozo, uma referência a uma deusa-mãe:

Duas Estatuetas de deusa-mãe em Gozo. (ancient-wisdom.co.uk/malta.htm)
Estatueta boliviana de Pachamama (obtida em ucl.ac.uk)

Se a primeira figura de deusa-mãe remete para vénus neolíticas, como a de Willendorf, podendo anteceder o culto de Cíbele (deveria escrever-se Cúbele...), já a segunda tem demasiadas semelhanças com Pachamama... na região de Machupichu, para que não se note. 

A língua maltesa não é indo-europeia... e a explicação parece ser o domínio árabe durante 2 séculos.
Se em território nacional estiveram 5 séculos e 8 na Andaluzia... parece que aos árabes só o gato maltês não lhes comeu a língua, já nos outros casos o malte foi bem destilado.
Esta maneira de escrever pode parecer coisa de Puto, de Raia miúda, de Gaiato, invocando algumas piadas fonéticas fáceis... porém como temos visto as coisas são mais complicadas do que parecem.
Podemos falar de coincidências quando não passam a dezena, já é negação fazê-lo acima disso, mas quando as coincidências passam as centenas, como é o caso... então, negá-lo seria simples ocultação deliberada.

Falo ou não falo? Fá-lo ou não fá-lo?
Só havia deusas-mãe, símbolos exagerados de fertilidade?
Por Min, não... mas, já se sabe como foi e é a política de repressão cultural.
 
Culto do falo - deus egípcio Min.
Divindade primordial criadora.

Mais do que uma repressão de carácter sexual, terá começado por ser uma necessidade de repressão religiosa, destinada a erradicar os antigos cultos sexuais de fertilidade, que ofendiam a tradição judaica, tradição que o cristianismo bebeu pelos exageros.
Será de prever que todas as representações e símbolos fálicos explícitos, mais do que ocultados, foram pura e simplesmente destruídos e omitidos. 
Se parece ter-se mantido algum registo primevo na linguagem, parece ter sido remetido para as reprimidas asneiras populares... Gaia em gaja, com os gaiatos, Reia na raia miúda, Cupido como puto, e a mãe Vénus, como Laputa

Não há nenhum gozo no dom dos trocadilhos da língua portuguesa.
"Dom" é manifestação de "senhor" - alguém que exibia o "senho", que escondia uma "senha"... quando se brinca a clubes de Chaves, levando ao fundo de Caves... porque o "Ch" foi adulterado, escrevia-se "Chimera" para se ler "Quimera". 
As regras ortográficas tiveram propósitos notórios - por exemplo, ao fazer ler "cinco" como "sinco", mas não perdemos o "quinto" que nos recorda que deveria ler-se "quinco"... porque a convenção do "ce" se ler "se" ou do "ci" se ler "si" encerra milénios de deturpação e ocultação.

Haveria muito mais a dizer, mas terminamos com a ligação ao lado "Jovem", do Abraçadabra...
Gozo parece ter os monumentos megalíticos mais antigos... que aparecem numa ilha mediterrânica, há mais de 5000 anos. Há uma tradição da população posterior que liga a construtores gigantes... 
Esses construtores surgiram e morreram por ali? 
Ou antes de mais... certamente que os malteses não chegaram a nado a Malta! Teriam barcos.
Bom, a parte "jovem" é no sentido "jovial" de Jove, ou seja de Júpiter, filho de Saturno.
Como referimos no texto Abraçadabra  uma nova cultura haveria de suplantar a cultura pré-existente, e teria a sua germinação nas ilhas mediterrânicas. Tendo os indo-europeus dominado o continente, da Índia até à Europa Atlântica, faltaria o domínio sobre o Mediterrâneo. Cresceriam como potência naval a ocidente, e lançariam um ataque crucial a partir do seu domínio sobre essas ilhas (Malta, Sicília, Creta, Chipre), contra as populações estabelecidas na orla mediterrânica. Esse ataque seria manipulador, não destruiria as civilizações existentes... iria manobrá-las como colónias sujeitas à sua influência. Condicionariam a ascenção e queda dos restantes, procurando manter-se fora dos conflitos. Talvez a excepção tenha sido a até hoje enigmática invasão dos "povos do mar", após a Guerra de Tróia. 
Quando a influência chegou ao ponto de fundar uma colónia nas "barbas" dos aqueus, estes rebelaram-se, perante a ameaça externa... e rumaram em direcção à Tróia original. Aí foi preciso um reínicio que restabelecesse o poder, o poder onde ele sempre esteve... oculto.

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publicado às 07:55


Fernão de Oliveira

por desvela, em 08.06.13
A primeira gramática portuguesa impressa, conhecida, é a "Grammatica da lingoagem portuguesa", de 1536, de Fernão de Oliveira, que obteve o merecido destaque na página da Biblioteca Nacional:
Começa assim:
"Esta he a primeyra anotação que Fernão doliveira fez da lingua Portuguesa. Dirigida ao mui manífico senhour nobre fidalgo o senhor dom fernando Dalmada."

Esta "anotação" tem menos de 80 páginas, mas terá matéria para muita conversa.
Em primeiro lugar, só queremos realçar que apesar das regras de escrita serem algo diferentes, não prejudicam a fonética. Talvez seja mais complicado identificar os caracteres góticos do que perceber as palavras pela sua sonoridade. "Magnífico" realça-se que foi escrito sem ler o "g", apenas como "Manífico"... assim como encontrámos, noutras obras, "manho" em vez de "magno", ou seja, é-nos dito que pode haver uma leitura de "magnas" nas "manhas". 

A escrita influenciou a fonética, assim como a fonética influenciou a escrita.
Nunca tivemos uma escrita igual à fonética, e ainda assim podemos constatar que, sem grande esforço, poderíamos entender o que dizia um português do Séc. XVI. Ou seja, ao longo das últimas 20 gerações, os pais ensinaram os filhos a falar de forma semelhante à sua... e pasme-se! - não começaram a falar diferente.
É claro que há artistas que nos gostam de convencer que a "língua evolui"... 
Claro que sim, especialmente à pancada, por imposição do poder às populações... ou então, mais subtilmente, por "modas" dos infernos, do Hades:
- ui, ui, veja-se só aquele pacóvio diz "hádes" em vez de "hás-de"!
- "hádem" esquecer-se!... 
E é claro, já todos se esqueceram de Ádem, da presença portuguesa naquela meia cratera de vulcão extinto. Na página da wikipedia a única menção à presença portuguesa em Ádem está neste quadro
... porque os barcos que a protegem têm no seu pavilhão a bandeira das quinas!

Faço esta pequena introdução, porque há artistas que vão a compasso de foice, esquadrilhando e martelando tudo com o seu escopro de pedreiro, e já tentaram demasiadas vezes perturbar a nossa língua. Enfiaram-lhe e tiraram-lhe vogais ou consoantes, consoante lhes convinha à vinha, que alimenta a embriaguez demente, da mente. Não é difícil suspeitar que até na ajuda de agentes psicotrópicos, estas gentes procuram ver o além, mas assim só "hádem" ver o aquém que transportam consigo, o "hádes".

Adiante, há ainda quem lute contra a imposição de maior caos linguístico... ainda bem! 
Porque, a pretexto de imitar a fonética, aparecem neste "novo acordo ortográfico" autênticos atentados que não servem nenhuma uniformização, apenas servem maior confusão fonética. 
Querem a "adoção" em vez da "adopção", mas só a nossa Pública Ré, dita República, que visa o ideal de ter uma Rês Pública, pronta para abate, foi na "Adoção". Adoçam agora a língua dos outros lusófonos no "adotar" das suas "adoções", por mais contra-natura que sejam.

O que sentirá um grego que olha para um texto que pode ler bem, e que terá mais de 2 mil anos?
Sentirá que ao longo de 100 gerações, de pais para filhos, a perturbação que houve pelo domínio estrangeiro das suas terras não fez com que os pais abdicassem da herança que lhes foi legada, mesmo que umas palavras tivessem caído fora de moda, e outras as tivessem substituído.

O romano já não poderá dizer o mesmo... onde estão os romanos que falavam latim?
Qual foi a geração de romanos que decidiu ensinar aos filhos uma língua diferente daquela que os pais lhe tinham ensinado? Que godos chegaram a Roma e obrigaram o povo a falar "italiano", ao mesmo tempo que obrigariam a que as missas fossem recitadas em latim?
O que era afinal o latim? 
Talvez pouco mais que uma construção erudita baseada nas línguas latinas, ensinada aos patrícios, mas que não seria a língua popular. Uma espécie de "esperanto", que tem sofrido o mesmo destino... sem base de tradição popular as línguas, por mais científicas e simples que sejam, não se enraízam nas populações.

Assim, a menos que houvesse um castigo por falar a língua nativa, o natural seria as línguas manterem-se sem grandes alterações ao longo de inúmeras gerações. Porque o natural é ensinar a mesma língua que se fala na comunidade, e a evolução pouco mais será que umas palavras que entram na moda e outras que saem.
É pois natural que seja possível ler textos com 500 anos sem nenhum estudo, e sem nenhuma dificuldade especial. Ora, nestes últimos 500 anos, de grande mudança, de grande contacto entre civilizações, em que muitas palavras entraram e saíram, as mudanças linguísticas foram pequenas. O que dizer dos 500 anos anteriores? Tudo depende do tipo de comunidade e das influências que sofreu. Comunidades rurais, mais isoladas, é natural que tenham mantido mais naturalmente a sua língua primitiva, mas também podem ter sido aliciadas pelas "modas" ou imposições citadinas, numa vontade de não serem discriminadas por serem diferentes. Isso nota-se nos imigrantes, que abandonam o cuidado de passar aos filhos a língua de origem, preferindo que eles se adaptem à língua dominante, na ausência duma comunidade. Porém, quando essa comunidade existe, e não estão isolados, a língua materna vai passando.
O caso dos bascos é paradigmático... a sua língua não é nenhuma variação de vizinhança, é uma passagem de uma língua original, ao longo de muitas gerações, favorecida pelo espírito comunitário, apesar das potências vizinhas que os influenciavam e os controlaram politicamente. Nem terão sido permeáveis a nenhuma influência de línguas latinas, mesmo durante o período romano, onde já era notado que aquela população teria uma língua completamente diferente das restantes.

Talvez a maior mudança linguística se tenha dado exactamente com a difusão da imprensa, porque a palavra escrita passou a marcar o compasso fonético. Haveria menos variações entre regiões, menos dialectos, e a inclusão de uma ou outra consoante, a mudança do seu valor fonético, poderiam alterar a pronúncia, como se veio a verificar.

Fernão de Oliveira dizia que só usávamos as cinco vogais latinas, mas que poderiam distinguir-se muitos sons para a mesma vogal. E, é claro que não usámos a tradição de acentuar tudo, muito ficou implícito.
Olhamos para "sem" e o valor de "e" passa a um breve "" pois lemos "saín". Alguma acentuação fazia-se com as consoantes "mudas", e por isso "detecta" podia ser escrito "detéta", mas escrever "deteta" retira esse valor fonético, e haverá uma tendência futura a ler-se "detêta". 
A escrita foi usada para replicar a fonética, mas depois foi modificada para a deturpar.

"GAIVS IVLIVS CAESAR", é habitual passar o "I" de "Iulius" para "Julius", mas ninguém ousa escrever "Gajus", e escreve antes "Caius". Além disso, o "Caesar" foi usado pelos alemães em "Kaiser", ou pelos russos em "Czar", passou nas línguas latinas a "César", modificando por completo a fonética com raiz no mesmo nome... devido à regra imposta que o "e" e "i" fariam o "c" ler-se como "s".
Há inúmeros exemplos destes, e houve claramente um propósito de confusão, porque tratando-se de traduções de termos eruditos, vindos do latim e grego, não estavam presos à tradição popular. 
A letra "G", pela confusão de no alfabeto grego o "gama" aparecer como terceira letra, serviu também como "C", e vice-versa.

Só depois de escrever isto, se pode entender algumas coisas que Fernão de Oliveira irá dizer.
A propósito do nome Portugal critica Duarte Galvão, que remetia a origem de Portocale ao Porto de Gaia (seria mais à romana Cale, que seria mesmo o Porto). Ou seja, criticava a associação que é ainda hoje tida como boa. Reclamava pois que a origem vinha dos povos, da mistura entre Turdulos e Galos:
Turdulos + Galos = Turdugal daria por corrupção, Portugal
... enfim, já vi pior, eu até já usei a fonética Por Tubal para escrever um texto... por isso nada há a censurar, é mais uma hipótese com algum sentido. 
Fernão de Oliveira fala também do nome Lisboa que diz vir de "Libisona", por referência a Hércules Líbico - o herói mítico teria escolhido morrer na Ibéria. Na mesma linha mítica, fala de Luso, dizendo que não foi grego, teria nascido aqui, filho de Sicileo (ele escreve Ciçeleu que, está-se a ver... nessa mitologia aparecia ligado à Sicília). Curiosamente associa o nome Dionísio a Dinis - ligação que nunca me ocorrera, mas que também tem todo o sentido.


Nota-se a referência aos reis míticos, pela moda resultante de Anio de Viterbo, que transcreveu uma obra de Beroso. Porém, essa transcrição foi alvo de acusações de falsificação. No entanto, até ao Iluminismo, as acusações de falsificação não vingavam, e essa mitologia durou vários séculos... basicamente de 1500 até 1800. Muito se escreveu com essa base "Viterbense", apoiada pelos sectores católicos. 
O Iluminismo acabaria por fazer uma selecção interessante - alguns mitos pagãos sobreviveram como lendas, mas os registos que acrescentavam descendências a Noé, e assim iam além da Bíblia, esses foram proscritos, e nem sequer como lendas passaram para o Séc. XX. Não seria uma questão científica, era uma questão de inviolabilidade e exclusividade do antigo testamento, muito cara aos protestantes... e aos judeus.

Porém, Fernão de Oliveira vai bem mais longe. Argumenta que antes de gregos e latinos, os primeiros a falar viveram cá nesta terrinha, quer dizer, na Península! Para isso recorre a Vitrúvio, que tinha dito que a origem da língua resultara de necessidade entre os homens, por razão de um grande fogo. Citando:
"(...) primeiro souberam falar os da nossa terra. Porque Vitrúvio diz no 2º livro dos seus Edifícios que, ajuntando-se os homens a um certo fogo, o qual por acerto com grande vento se acendeu em matos, e ali, conversando uns com os outros, souberam formar vozes e falar. E não dizendo ele onde foi esse fogo, conta Diodoro Siculo, no 6º livro da sua Biblioteca, que foi nos Montes Pirinéus (...)"

Ou seja, Fernão de Oliveira remete a origem da línguagem humana à região dos Pirinéus, e não há dúvida que nos últimos séculos sempre houve quem visse na língua basca uma excepção que poderia justificar a sua maior ancestralidade. 
É suficientemente ambíguo, porque ele nem fala disso, vai argumentar apenas que a língua portuguesa seria mais antiga que o grego ou o latim, algo depois melhor sustentado pelo Cardeal Saraiva, que separou o português de uma raiz latina.
Acrescenta Oliveira que a língua não teria inicialmente cuidados gramaticais, e esses sim teriam sido implementados no grego e no latim, e depois importados para adaptação na nossa língua. 
Segundo ele, a língua portuguesa só teria o devido cuidado linguístico no reinado de D. Dinis, porque antes teríamos estado sempre demasiado ocupados em guerras. Recusa todo o papel da nobreza Goda na protecção da Ibéria, e diz que foi devido aos vícios dos Visigodos que a península teria sido invadida pelos árabes... mas, é claro, nem toda a península! Portugal tinha ficado sempre com uma parte resistente.

Para isso argumenta com a lenda do Abade João de Montemor, que viveu c. 850 d.C., em Montemor-o-Velho (Mosteiro de Lorvão) e que tinha ficado conhecido por se opor aos mouros na Estremadura. Ora, diz ele, se ele vivia em Montemor-o-Velho, isso significava que essa zona não tinha ficado sob domínio árabe.
Podemos acrescentar que houve sempre registos de Bispos de Coimbra. Porém, diz-se, que isso era uma posição no exílio... ou que as investidas islâmicas iam e vinham. Umas vezes subiam o Mondego, outras vezes ficavam abaixo dele. Parece-nos que, pelo menos algum papel deverá ter tido Vímara Peres, cujo nome ficou ligado a Guimarães (e aos vimaranenses), e que viveu no mesmo século que o Abade João. No entanto, Vimara Peres é suposto ter apenas chegado ao Porto e a Gaia.

A obra teria muito mais assuntos a discutir... mas já nos alongámos muito.
Deixo mais uma observação instrutiva, conforme é citada por Teófilo Braga:
Fernão de Oliveira também nota as alterações da moda: «Nem os lavradores de Entre Douro e Minho entendem as novas vozes que este ano vieram de Tunes com suas gorras». E o mesmo: «o costume novo traz à terra novos vocábulos: como agora pouco há, trouxe este nome picote, que quer dizer burel; do qual, porque de fora trouxeram os malgalantes o costume, ou para melhor dizer, o desdém de vestir o tal pano, trouxeram também o nome com esse costume: e alquice tão-pouco é vestido da nossa terra, por isso também traz o nome estrangeiro consigo.» A pragmática de 3 de Junho de 1535 proibia o trazer luvas perfumadas aos homens.
É preciso introduzir o poderoso galeão português Botafogo para perceber o que ali está escrito:
Galeão Botafogo no cerco a Tunis (1535).
Os seus 366 canhões tornavam-no o navio mais temível dos mares.

O que é dito é que os "nomes da moda" reflectiam questões políticas, de forma implícita.
Carlos V queria impor-se com uma grande proeza militar - a conquista de Tunis, que realizou em 1535, um ano antes de Fernão de Oliveira escrever o que escreveu. Os lavradores de Entre-Douro e Minho não sabiam dos mexericos cortesãos, e não perceberiam a razão dos nomes usados nas suas vestes, mas Oliveira sabia, Teófilo Braga também...

Sabia que Carlos V tinha pago a expedição a peso de ouro, o peso que Pizarro pedira pelo resgate de Atahualpa, o Inca feito prisioneiro, que prometera encher uma sala de ouro, em troca da sua vida.
De nada valeu a Atahualpa presentear Pizarro com imenso ouro, foi executado...
O ouro já tinha outro destino, serviria para as imensas despesas da expedição de Carlos V contra os turcos de Barbarrosa. Para isso requisitara uma armada Genovesa, e outra Portuguesa, em que entrava o poderoso  galeão Botafogo. Esse galeão era comandado pelo Infante D. Luís, irmão de D. João III, e foi com ele que se rebentaram as correntes de ferro que protegiam o porto de Tunis. Depois, os seus 366 canhões (provavelmente para anos bissextos), ajudaram a destruir por completo a frota de Barbarrosa.
Carlos V requisitara especificamente a presença desse galeão, por ser o maior e mais temível, alguma vez construído - ainda hoje, no Rio de Janeiro temos um bairro do Botafogo, e à frente, a ilha chamada Galeão.

Adequa-se também esta referência à outra parte da história... afinal os franceses, 20 anos mais tarde tomaram o Rio de Janeiro durante uns anos, onde pensavam que iriam formar a sua França Antártica. Como diria um cronista inglês, ao tomarem a baía de Guanabara chamaram-lhe Antártica com a pretensão de que tinham tomado posse de todo o continente austral.

Onde entram os franceses na história de Tunis? 
Carlos V também pedira o apoio francês, mas sem grande sucesso. Quando entrou em Tunis, verá balas de canhão com a chancela da "flor-de-lis" francesa. Os Otomanos de Barbarrosa tinham o apoio dos franceses contra as forças cristãs. A aliança entre franceses e otomanos veio mesmo a ser oficializada pouco depois.

A história cheirava mal, luvas perfumadas adequariam-se à moda. 
Os ingleses não usaram a asneira "picote", mas depois derivaram a palavra "bureau", usado para divisão governamental, da palavra francesa "burel", que designava um pano de má qualidade para cobrir a secretária, ou os negócios maltrapilhos feitos à secretária. Não sei como se chamaram os gorros...

Quando em 1574 os Otomanos reconquistam Tunis, os franceses tinham já perdido a sua França Antártica, e haviam de lembrar-se do Botafogo.
D. Sebastião alerta Filipe II para o perigo da ameaça turca, que de novo se aproximava dos limites ibéricos.
Porém Filipe II já deveria ter percebido o significado do "bureau", ou do "picote" francês, em troca do Botafogo oferece-lhe o elmo que Carlos V teria usado na conquista de Tunis.
O resto da história, ou parte dela, já sabemos... D. Sebastião parte para combater a ameaça turca em Laracha, e terá o seu destino traçado junto à antiga cidade Lixo às margens do rio Loucos, numa batalha que ficou afinal com o nome de Alcácer Quibir... comemorada efusivamente pelos judeus como o "Purim dos Cristãos".

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publicado às 07:55


Acordar

por desvela, em 16.07.12
Acordar tem origem latina, de raiz no "cor" de coração, tal como concordar, discordar, recordar...
Quando "Acordar!" é ouvido numa caserna, os soldados saem dos seus sonhos unipessoais e são convocados para um Acordo... o acordo com a realidade comum.
Uns podem discordar, outros concordar, mas do sonho anterior só lhes restará o recordar.

Estas particularidades linguísticas são heranças que passam desapercebidas no nosso uso comum da língua, apesar de estarem ali, óbvias, prontas a serem compreendidas.
A relação com o "cor" de coração já é menos óbvia, e poderíamos ser levados numa "corda" que perdeu o "h" na transliteração de "chorda".

Isto a propósito de uma particularidade interessante na palavra "Quinas".
A transliteração do K tornou semelhante as formas:
Chinas, Quinas, Cinas ou Sinas.
No caso da China isso é ainda notório pela sua declinação latina enquanto "Sínica".

Porém, devido a essa simples alteração, ganha um significado substancialmente diferente falar em
Cinco Quinas / Cinco Chinas / Cinco Sinas

As cinco quinas fizeram parte da identidade nacional, variando apenas o número de bezantes, que acabou por se fixar também em cinco, com D. João II. Falamos da altura em que o nome Índias serviu tanto para territórios a ocidente, quanto a oriente. Aliás, a designação "índios" serviu praticamente para a maioria dos novos povos. Não seria de estranhar talvez uma designação de "Cinco Índias", para ilustrar a diversidade geográfica, mas os índios americanos estavam claramente mais próximos de uma ancestralidade chinesa.
Convém ainda notar que era "Seres" o nome que era usado pelos romanos para os chineses, e que à época dos descobrimentos, o nome mais comum era "Cathay" (a confusão entre Cathay e China manteve-se até à viagem de Bento de Goes). António Galvão faz ainda a referência da mudança de nome de "Taybencos" para "Chins", como sendo coisa recente em meados do Séc. XVI.

A palavra "quina" está ainda ligada a cantos, ou melhor a "esquinas", como quando se refere o Castelo das Cinco Quinas, devido ao formato da torre do Castelo do Sabugal, de que já falámos.
O nome Torre Quinária, referindo-se aos cinco cantos da Torre de Hércules do Castelo de Coimbra, dá ainda uma junção da raiz de "Quinto" com "Quina", dispensando quase a menção de serem cinco, as quinas, ou esquinas. Também já falámos muito desta torre destruída pelo Marquês de Pombal, acrescentamos apenas que se achou por bem destruir o que restava - o chão, no decurso da demolição do Observatório, por volta de 1950:
Demolição do Observatório, que antes servira de pretexto 
para demolir a Torre Quinária de Coimbra, dita de Hércules.

O parecer "erudito" no sentido da completa destruição é, digamos, bastante "traquinas".

Acrescento um documento interessante publicado em 1799, dirigido a D. João VI, sobre uma disciplina denominada "Quinografia Portugueza", de José Mariano Veloso, que se debruçava sobre as 22 espécies de "quinas", plantas que se encontravam no Brasil, e das quais se extraía o quinino... substância eficaz contra as febres, especialmente da malária.
Quina ou Cinchona, de onde se extrai o quinino

É um pouco mais complicado estabelecer se há alguma relação etimológica para o nome da planta, mas se o cravo foi especiaria procurada, a quina resolveu o problema da malária nas navegações.

Quando ainda se discute o Acordo ortográfico, é talvez conveniente não desprezar o legado linguístico, e acordar acordado. 

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publicado às 07:46


Acordar

por desvela, em 15.07.12
Acordar tem origem latina, de raiz no "cor" de coração, tal como concordar, discordar, recordar...
Quando "Acordar!" é ouvido numa caserna, os soldados saem dos seus sonhos unipessoais e são convocados para um Acordo... o acordo com a realidade comum.
Uns podem discordar, outros concordar, mas do sonho anterior só lhes restará o recordar.

Estas particularidades linguísticas são heranças que passam desapercebidas no nosso uso comum da língua, apesar de estarem ali, óbvias, prontas a serem compreendidas.
A relação com o "cor" de coração já é menos óbvia, e poderíamos ser levados numa "corda" que perdeu o "h" na transliteração de "chorda".

Isto a propósito de uma particularidade interessante na palavra "Quinas".
A transliteração do K tornou semelhante as formas:
Chinas, Quinas, Cinas ou Sinas.
No caso da China isso é ainda notório pela sua declinação latina enquanto "Sínica".

Porém, devido a essa simples alteração, ganha um significado substancialmente diferente falar em
Cinco Quinas / Cinco Chinas / Cinco Sinas

As cinco quinas fizeram parte da identidade nacional, variando apenas o número de bezantes, que acabou por se fixar também em cinco, com D. João II. Falamos da altura em que o nome Índias serviu tanto para territórios a ocidente, quanto a oriente. Aliás, a designação "índios" serviu praticamente para a maioria dos novos povos. Não seria de estranhar talvez uma designação de "Cinco Índias", para ilustrar a diversidade geográfica, mas os índios americanos estavam claramente mais próximos de uma ancestralidade chinesa.
Convém ainda notar que era "Seres" o nome que era usado pelos romanos para os chineses, e que à época dos descobrimentos, o nome mais comum era "Cathay" (a confusão entre Cathay e China manteve-se até à viagem de Bento de Goes). António Galvão faz ainda a referência da mudança de nome de "Taybencos" para "Chins", como sendo coisa recente em meados do Séc. XVI.

A palavra "quina" está ainda ligada a cantos, ou melhor a "esquinas", como quando se refere o Castelo das Cinco Quinas, devido ao formato da torre do Castelo do Sabugal, de que já falámos.
O nome Torre Quinária, referindo-se aos cinco cantos da Torre de Hércules do Castelo de Coimbra, dá ainda uma junção da raiz de "Quinto" com "Quina", dispensando quase a menção de serem cinco, as quinas, ou esquinas. Também já falámos muito desta torre destruída pelo Marquês de Pombal, acrescentamos apenas que se achou por bem destruir o que restava - o chão, no decurso da demolição do Observatório, por volta de 1950:
Demolição do Observatório, que antes servira de pretexto 
para demolir a Torre Quinária de Coimbra, dita de Hércules.

O parecer "erudito" no sentido da completa destruição é, digamos, bastante "traquinas".

Acrescento um documento interessante publicado em 1799, dirigido a D. João VI, sobre uma disciplina denominada "Quinografia Portugueza", de José Mariano Veloso, que se debruçava sobre as 22 espécies de "quinas", plantas que se encontravam no Brasil, e das quais se extraía o quinino... substância eficaz contra as febres, especialmente da malária.
Quina ou Cinchona, de onde se extrai o quinino

É um pouco mais complicado estabelecer se há alguma relação etimológica para o nome da planta, mas se o cravo foi especiaria procurada, a quina resolveu o problema da malária nas navegações.

Quando ainda se discute o Acordo ortográfico, é talvez conveniente não desprezar o legado linguístico, e acordar acordado. 

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publicado às 23:46


Laracha, Lixo, Loucos, Maluco

por desvela, em 02.04.12
Há uma obra que já fiz aqui referência:
Jornada de África, de Jerónimo de Mendonça (1607)

e talvez mereça uma menção (que nem sei bem como adjectivar) haver uma obra homónima, de Manuel Alegre, o nosso contemporâneo poeta, político e assumido maçon. Apesar de mencionar a obra original, a usurpação do mesmo título "Jornada de África", por Manuel Alegre, pouco mais parece servir do que contribuir para uma conveniente confusão.

A obra de Jerónimo de Mendonça relata a expedição de D. Sebastião a Alcácer-Quibir, e surge em pleno domínio de Filipe II de Espanha. Portanto todo o enquadramento é condicionado por uma escrita aparentemente subserviente a esse domínio filipino, tendo a necessária consciência de qualquer outra abordagem não seria autorizada.

Tornou-se comum usar a expressão "Larachas" para designar palavras sem sentido, mas ao que pude constatar esta expressão só se tornou habitual em textos já na segunda metade do Séc. XIX.
Diz Jerónimo de Mendonça:
           "porque de uma maneira ou doutra melhorava no partido; pois tomando el Rey Dom Sebastião Larache segurava os Reynos de Espanha, e morrendo na demanda ficava seu herdeiro"

... é claro que esta confortável posição de Filipe II não é denunciada por Mendonça, mas sim repudiada por ele, tentando defender acusações que circulavam. Uma maneira sagaz de dizer o que não podia ser dito...

Larache, ou Laracha (também aparece assim designada), aparecia como o destino estratégico de conquista na jornada de África de D. Sebastião. 
O nome Quibir associado à batalha acaba por substituir um verdadeiro objectivo anunciado - Laracha!
Larache - gravura de J. Ogilvy (1670)

Será elucidativo associar-se depois à palavra Laracha um significado distinto, de índole jocosa.
Esta suposta coincidência... ou que quer que seja, não está isolada. 
Já mencionámos várias vezes o problema Maluco... das ilhas Malucas, depois designadas Molucas.
Para além de serem um problema no anti-meridiano (prometidas como dote a Sebastião, tivesse ele querido o casamento espanhol), as Malucas eram a essência da especiaria!
Acresce que, como sabemos, o Mulei inimigo de Sebastião era também designado Mulei Moluco...

Podemos ignorar isto, evitar a expressão "Malucos" e passar a "Loucos"...
... curiosamente isto não resolve bem o problema porque a batalha dá-se ao pé do Rio Loukos.

Às margens deste Rio Loukos, encontravam-se as ruínas de Lixo (cidade antiga que antecedeu Laracha):
Lixo - ruínas, Loucos - rio

Para dia 1 de Abril, parece-me bem maluca esta Laracha, que veio de Lixo, e é claro - rio de Loucos.
Não rio da laracha, mas rio de loucos fazendo lixo.

De origem latina, o Lixo tem mais raiz no lixar, traduzido directamente de Queimar... é lixado, mas já a palavra Lixo enquanto "depósito de desperdício" parece-me ter entrado apenas nos nossos textos posteriormente.

Ainda indo aos tempos em que o "calendário de Rómulo" começava em Abril, sendo depois substituído pelo "calendário de César" que passou a começar em Janeiro, honrando Janos das duas faces, parece que esta cidade de Lixo era a última cidade habitável admitida, a partir dali o resto seria... lixo, ou talvez ficassem lixados... queimados!

Minas no Séc. XVI
O texto de Jerónimo de Mendonça fala de minas...
Que o texto de Manuel Alegre pudesse falar das minas na guerra de África... é algo normal e trivial.
Porém, de que minas fala Mendonça?... Não é certamente das Fortalezas das Minas.
Vejamos o texto, logo no final do prólogo "ao leitor":

       E quando trata del Rey Phelippe nosso senhor segundo deste nome, na Cidade de Lisboa diz, que correu nela dois grandes perigos de vida, porque duas vezes foram descobertas minas que os portugueses fizeram nos paços Reais, e na igreja onde costumava ouvir Missa, e se isto senão descobrira, fora el Rey arruinado, ou nos paços, ou na igreja, e que os Autores desta maldade foram gravemente castigados (...)

Se isto não é uma descrição de uma tentativa de atentado, com minas explosivas, colocadas para serem detonadas na presença de Filipe II, não sei que outra laracha pode ser inventada para justificar este texto.

Portanto trata-se de um relato de minas explosivas, com detonamento programado, e seja de que forma fosse, é um claro sinal de que a tecnologia era suficientemente sofisticada para ser dissimulada e usada num atentado. Para além de raras experiências e relatos chineses, até ao Séc. XIX não há propriamente registo da utilização de minas explosivas, especialmente com o intuito de atentado.

Se esta iniciativa portuguesa tinha origem numa ideia chinesa, ou não, pouco importa, pois este é um dos raros casos em que compreendemos que houvesse alguma necessidade prática em evitar a divulgação destas ideias literalmente explosivas.

Não deixa de ser curioso que a palavra Mina, originalmente ligada ao minério, tanto se vai associar depois à riqueza do minério como ao explosivo... no fundo, a uma riqueza explosiva.

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publicado às 07:35


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