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Infante D. Pedro, das Sete Partidas... é uma designação bem conhecida entre nós.
Por outro lado,
Afonso X, das Sete Partidas... é uma designação alternativa de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela, avô de D. Dinis, e pretendente espanhol ao Sacro-Império Germânico. 

Este nome deriva de um famoso corpo legislativo "espanhol", denominado "Sete Partidas", dividido em sete partes. Cada uma das partes começaria com uma das sete letras do nome ALFONSO.

A palavra "partida" tem vários significados, e é claro que poderá referir-se a uma partida para uma viagem, a uma partida de brincadeira, ou também a uma quebra, ou a uma partição. No caso de Afonso X, estas sete partidas ajustam-se à obra legislativa que foi usada nos territórios espanhóis, entre os Séc. XIII e XIX, portanto durante mais de 500 anos. Alguns espanhóis chegaram a dar-lhe uma importância legislativa similar ao código de Hamurabi
Assim, se em Espanha a designação "Sete Partidas" se ligava à obra de Afonso X, em Portugal tal obra não era decerto desconhecida, mas a designação "Sete Partidas" passou agora até a entender-se associada ao número de viagens efectuadas pelo Infante D. Pedro, quando a expressão "as sete partidas do mundo" se associava de certa forma a uma partição de locais mais assinaláveis, ainda que exóticos e distantes, como "as sete maravilhas do mundo".

Como já referimos várias vezes, António Galvão dá aqui conta de que o Infante D. Pedro em 1428 teria trazido dessas viagens uma Mapa Mundo com o Estreito de Magalhães e o Cabo da Boa Esperança. 
Mencionámos até o nome Cola do Dragão, no contexto da criação da Ordem do Dragão pelo Imperador Segismundo, de que fizeram parte o Infante D. Pedro e o famoso Vlad III Dracula (*).

O Infante D. Pedro tendo ficado como regente durante a menoridade de D. Afonso V, ganhou os Bragança como inimigos em Portugal, e também contou com os inimigos em Espanha, nomeadamente por via dos Infantes de Aragão, irmãos da deposta rainha-mãe D. Leonor de Aragão. Nesse sentido, aliou-se ao controverso Álvaro de Luna, influente personagem na corte de D. Juan II de Castela, tendo mesmo enviado o seu filho Pedro, Condestável de Portugal, em seu auxílio. 

Esta história está bastante bem descrita por Teófilo Braga na obra 
Poetas Palacianos  (cap. III),
e se o Infante D. Pedro conseguiu ter a sua filha D. Isabel casada com o sobrinho D. Afonso V, e o seu filho Pedro como Condestável de Portugal, o destino do seu filho acabou também por terminar por via dos Infantes de Aragão. Com efeito, na Guerra Civil Catalã, uma rebelião de Barcelona contra o rei de Aragão, D. Joan II (sim, no Séc. XV o nome João II foi usado por um rei de Portugal, outro de Aragão, e ainda outro de Castela-Leão), o conselho de Barcelona acaba por eleger o filho Pedro, condestável no exílio, como novo Rei de Aragão, D. Pedro V
O reinado do filho não chega a durar 3 anos, mas emitiu moeda nova denominada "Pacific", e deixou na Catedral de Barcelona a sua espada, considerada uma das mais belas do mundo:
Moeda de Pedro V de Portugal, rei de Aragão, filho do Infante D. Pedro
(Petrus Dei Grati Rex, Civitus Barchnona)

Espada de Pedro V - uma das "mais belas" do mundo.
Portanto toda a envolvente em torno do Infante D. Pedro, não se desliga de Espanha, pela via de Aragão, e se o filho se vê a defrontar em batalha os mesmos infantes aragoneses, será o filho de D. Joan II, o rei católico D. Fernando II, quem D. João II, neto do infante D. Pedro, irá defrontar na Batalha de Toro.... mais uma outra vez, sem sucesso.   

Portanto, dadas as diversas circunstâncias, de guerras sucessórias, tão habituais naquele período, que incluem ainda esse apoio de Afonso V à disputa da Beltraneja, sua sobrinha, era mais que natural que as "Setes Partidas" fossem o documento mais consultado, para procura de legitimidade nas aspirações ao trono.
16.02.2016

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

continuação de (4) (3) (2) (1) 


Segundo os nossos coronistas [cronistas] deixaram escrito, depois da Encarnação de Christo 1411 ou 16 anos, no mês de Julho partiu el rey Dom Ioam o primeiro [D. João I ] de Portugal da cidade de Lisboa, & o príncipe dom Duarte, e o ifante dõ Pedro, & dõ Anrique seus filhos, & outros senhores & nobres do reino para Africa, e tomaram a gram cidade de Ceyta [Ceuta], que está da parte do norte em trinta & cinco até seis graus d'altura, que foi uma das principais cousas, alargarem-se os termos Despanha [de Espanha].
Vindos de lá, o ifante D. Anrique desejoso de acrescentar este Reino, e descobrir outro mundo novo, se assentou no Algarve ao cabo de Sã Vicente, donde começou a mandar descobrir a Costa de Mauritânia, porque naquele tempo nenhum Português passava do cabo de Não, que está em xxix graus [29º] d'altura. E para isto se pôr em efeito, mandou o Ifante aparelhar certos navios: & deu aos capitães por regimento que deste cabo por diante fosse seu descobrimento: eles assim o faziam, mas como chegavam a outro que se chama Bojador, nenhuma pessoa ousava aventurar a vida: de que o Ifante andava assaz agastado. 

No anno de 1417 reinando em Castela dom Ioam o ij [D. Juan II] &, governando sua mãe dona Caterina, um Mossem Rubem de Bracamonte que fora almirante de França, lhe pedira a conquista das ilhas Canárias, com titulo de rei para um seu parente, que se chamava Mossem Iam Betancort, & que a Rainha lhas dera, & o ajudara. Partiu de Sevilha com boa armada, & querem ainda que a principal causa que a isto o movera era descobrir a ilha da Madeyra, que Machim achara: Mas foram ter às Canárias, levando consigo um Frey Mendo para Bispo dela, concedido pelo Papa Martinho V. Saídos em terra ganharam Lançarote, Forte vëtura, Gomeyra, e o Ferro, donde mandaram a Espanha muitos escravos, Mel, cera, cãfora [canfora], couros, orchiga, figos, sangue de dragão, e outras mercadorias, em que fizeram bom dinheiro, porque esta Armada diz que descobriu a ilha do Porto Sancto e assentaram em Lançarote, onde fizeram um Castelo de pedra, e barro, com que sustiveram o que tinham ganhado. 

No anno de 1418. Vendo Ioam gonçalvez ho Zarco [João Gonçalves Zarco], & Tristam vaz teixeyra [Tristão Vaz Teixeira], cavaleiros da casa do Ifante, os desejos que ele tinha de descobrir terra: & eles de o servirem na tal empresa, lhe pediram um navio, & licença em que foram a este descobrimento, & junto da costa de Africa lhes deu tal tormenta que se não puderam juntar a ela, e se perderam de todo se os Deus não socorrera com lhes amostrar uma terra & porto a que puseram nome Sancto, onde se salvaram; & estiveram aqui dois anos. No ano de 420 [...1420] descobriram as ilhas da madeira, e se passaram a ela, onde ainda acharam a hirmida [ermida] & pedra que contava como Machim ali estivera. Outros dizem que vendo um Castelhano os desejos que o Ifante tinha de descobrir novo mundo, lhe dera conta como eles acharam a ilha do Porto sancto, & por ser cousa pequena não faziam dela estima. Que foi causa de mandar lá o Ifante a Bertolameu perestrelo [Bartolomeu Perestrelo], Ioam gonçalvez o Zarco, Tristam vaz teixeyra: & pelos sinais, & derrotas que o Castelhano dera do porto sancto, foram ter a ele, e depois de ali estar dous annos, no de 420 se passaram à ilha da madeyra, onde acharam como Machim ali estivera. 

Estando assim Mossem Ioam Betancort na conquista das Canárias (como é dito) dizem que o mataram, & deixara por seu herdeiro um parente que se chamava Mossem Menante, e que este as vendera a um Pero Barba de Sevilha. Outros querem dizer que Mossem Ioam Betancort se fosse a França refazer de novo para esta Conquifta, & deixara ali um sobrinho, & como nunca mais de lá viera: vendo o parente que não podia sustentar a guerra, vendera as Canárias ao Ifante dom Anrique por certa cousa que lhe dera na ilha da Madeira. 

No anno de 424 [... 1424] diz que mandou o Infante fazer uma armada para conquista destas ilhas, ia por capitão mor dela dom Fernando de castro, e como as gentes delas eram belicosas, defenderam bem suas casas. E vendo dom Fernando o grande gasto que fazia se tornou, e depois o Ifante alargou [a largou] esta terra à coroa de Castella pelas ajudas que Abetãcor [a Betancort] dera.  Mas os Castelhanos contam isto doutra maneira, que nem os reis de Portugal, nem o Infante dom Anrique as quiseram alargar, até chegarem a direito diante do Papa Eugenio quarto [IV] Veneziano, o qual vendo isto deu a conquista daquelas ilhas por sentença a el Rey D. Ioam de Castella, no ano de trinta & um [1431], por onde cessou esta contenda das Canarias entre os Reis de Portugal, & Castella. 

Estas Ilhas das Canárias diz que são sete, e que se chamavam as Beatas, ou bem Afortunadas, estão em vintoito [28] graus da parte do Norte, têm o maior dia de treze horas, & a noite de outras tantas, estão de Espanha duzentas léguas, & da costa de Africa dezassete. Em tempos passados adoravam os ídolos, comiam carne crua, por falta de fogo, não tinham ferro, semeavam sem nada, lavravam a terra, com cornos de bodes, & cabras, cada Ilha falava sua linguagem, casavam-se com muitas mulheres, e primeiro que as conhecessem as davam aos senhores: tinham outros diversos costumes, agora todos são da Lei de Christo, têm muito trigo, cevada, açucares, vinhos, e uns pássaros que chamam canários, que em Espanha são estimados. Na Ilha do Ferro não há outra água senão a que de noite deita uma árvore, sobre que está uma nuvem, desta bebem as gentes, & gados, coisa a todos muito notória. 

No ano de 1428 diz que foi o Infante dom Pedro a Inglaterra, França, Alemanha, à casa sancta, e a outras daquela banda, tornou por Itália, esteve em Roma, & Veneza, trouxe de lá um Mapamundo que tinha todo o âmbito da terra, & o estreito do Magalhães se chamava Cola do dragam [Cauda do Dragão], o cabo de Boa esperança, fronteira de Africa, e que deste padrão se ajudava o Infante dom Anrique em seu descobrimento. Francisco de sousa tauarez [Francisco de Sousa Tavares] me disse que no ano de 528 [... 1528] o Infante dom Fernando lhe amostrara um Mapa que se achara no cartório Dalcobaça [de Alcobaça] que havia mais de cento & vinte anos que era feito, o qual tinha toda navegação da Índia, com o cabo de Boa esperança, como as de agora, se assim é isto, já em tempo passado era tanto como agora, ou mais descoberto. 

Com todo o trabalho, & gasto que o Ifante dom Anrique tinha feito, nunca desistiu de seu propósito, e descobrimento, e para isso mandou a ele Gilianes [Gil Eanes] seu criado, que foi o primeiro que passou o Cabo Bojador, tanto por todos arreceado [receado], & trouxe nova não ser tão perigoso como se dizia, da outra banda saiu em terra, & como quem tomava posse, pôs uma Cruz de pau nela por marco: e no ano de 1433, no mês de Agosto faleceu el Rey dom Ioam [D. João I] e alevantaram [e levantaram] por Rei dom Duarte seu filho. 

No ano de 434 [... 1434] mandou o Ifante dom Anrique a Afonso gonçalvez baldaya, [Afonso Gonçalves Baldaia] capitão de um navio, & Gilianes que descobriu o cabo, em outro cabo além dele; saídos em terra conheceram ser povoada, & como sabiam que o Infante desejava haver dela língua foram ter a uma ponta sem ver nenhuma cousa, donde se tornaram, & no ano de 1438, faleceu el Rey dom Duarte: & pelo Príncipe dõ Afonso ficar menino governou o Infante dom Pedro seu tio. 

No anno de 441 mandou o Infante dom Anrriq dois navios, capitães deles Nuno tristam & Antam gonçaluez [Nuno Tristão e Antão Gonçalves], saíram na costa & fizeram presa, & chegaram ao cabo Branco, que está em vinte graus, informado o Infante das cousas daquela terra pelos mouros que estes trouxeram, mandou Fernã lopes Dazeuedo [Fernão Lopes d'Azevedo] dar conta ao Papa Eugenio IV do que passava, e como esperava resultar grande proveito à santa Madre Igreja, o Papa lhe concedeu indulgência, e doação perpétua, e tudo o mais que pedia aos que nesta empresa falecessem. 

Depois disto no ano de 1443 mandou o Ifante, a Antam Gõçaluez, resgatar os escravos que trouxera, e os Mouros deram por eles negros de cabelos revolto, e algum ouro: donde ficou nome rio do Ouro, e mais acrescentou o desejo ao descobrimento; e por isto foi logo lá Nuno Tristam, & chegou às Ilhas Darguim [de Arguim], donde fez presa, e se tornou com ela no ano seguinte de 1444. Lançarote, moço de câmara do Ifante, Gilianes e outros, armaram certos navios, foram por costa até às ilhas da Garça, e tomaram perto de duzentas almas, que foram as primeiras que até então de lá vieram. 

No ano de 1445 foi por Capitão de um navio Gonçalo de Sintra, escudeiro do Infante; saídos em terra numa Angra, que se agora chama de seu nome, tomaram os Mouros com seis, ou sete companheiros, foi esta a primeira perda que recebeu Portugal desta empresa, e no ano seguinte mandou o Ifante três caravelas, capitães delas Antã Gõçaluez, Diogo Afonso, Gomez Pirez, a quem deu regimento que não entrassem no rio do Ouro: & assentassem pazes, & fizessem quantos Christãos pudessem: & sem nada disto se tornaram. 

No ano de 1446 um escudeiro del Rey dõ Afonso, que se chamava Diniz fernandes da cidade de Lixboa, foi a este descobrimento, mais por honra que proveito; chegou ao rio à Sanaga, que está em quinze, ou dezasseis graus d'altura da parte do norte, & extrema os mouros dos Ialophos, onde tomou alguns negros: não contente disto, diz que passou avante, e descobriu o Cabo verde, que está em catorze da mesma parte, & posto sua Cruz de pau nele, tornou contente.  

No ano de 1447 tornou Nuno Tristã em uma caravela, e passou o Cabo verde, & rio Grãde [Rio Grande]: e saiu em outro que está além dele em vinte graus, onde o mataram com dezoito Portugueses, e com quatro ou cinco se tornou o navio em salvamento. Contam mais que neste meio tempo vindo uma nau de Portugueses pelo estreito de Gibaltar fora, lhe dera tal tormenta, que correra a loeste muito mais do que quisera, & foram ter a uma ilha em que havia sete cidades, e falavam a nossa língua, e perguntaram se tinham os Mouros ainda ocupado Espanha donde fugiram pela perdida del rey dõ Rodrigo. O contramestre da nau diz que trouxe uma pouca darea [de areia], e que a vendera a um ourives em Lisboa de que tirara boa quantidade douro [de ouro]: sabendo isto o Infante dõ Pedro que ainda governava, diz que o mandou escrever na casa do tombo. E alguns querem que essas terras, e ilhas que os Portugueses tocaram, sejam aquelas que se agora chamam as Antilhas & nova Espanha, & alegam muitas razões para isso, em que não falo por não tomar isto à minha conta, mas com tudo toda a cousa de que não sabiam dar razão era dizer, é a nova Espanha

No ano de 1449 El Rey D. Afonso V deu licença ao Ifante D. Anrique seu tio para mandar povoar as Ilhas dos Açores que havia dias que eram descobertas: e no ano de 1455 passou este Rei a África, e tomou a Vila Dalcacere [de Alcácer Ceguer], e no de 1461 mandou Soeiro Mendes Fidalgo de sua Casa fazer o castelo Darguim [de Arguim] a que deu Alcaidaria. 

No ano de 1462 vieram a este reino de Portugal três Ianoeses [Genoveses] pessoas nobres, o primeiro deles era Antã de Noly [António da Noli], e um seu irmão, e sobrinho, cada um em seu navio, pediram licença ao Infante para descobrir as ilhas do Cabo Verde, a ele lhe aprouve: alguns querem dizer que fossem aquelas que os antigos chamaram Gorganas, Esperidas, Orcadas, mas eles lhes puseram nome a Maya [ilha do Maio], Sanctiago [ilha de Santiago], Sam Felipe [ilha do Fogo], por as verem em seu dia, outros lhe chamam as ilhas Dantão [de Antão], ou Dantonio [de António]. Neste mesmo ano, ou no outro seguinte faleceu este Infante dom Anrique, deixando descoberto do cabo do Não até a Serra Lioa, que está desta nossa banda em oito graus d'altura. 

No ano de 469 [... 1469] arrendou el rey dom Ioão [um lapso, era D. Afonso V], o trato de Guiné a Fernam Gomes [Fernão Gomes], que se depois chamou da Mina, por cinco anos, a razão de duzentos mil reais cada um ano, e que mandasse em cada um deles descobrir cem léguas além das descobertas. No ano seguinte de 470 passou este Rei, e o príncipe dom Ioão seu filho, em Africa, e tomaram a villa Darzilla [de Arzila], e a cidade de Tangere se despejou com medo, tendo muito custado, parece que permitiu Deus isto, por amostrar que os ousados são dele favorecidos. 

No anno de 1471 mandou Fernam Gomez descobrir a Costa como se obrigara, e foram a isso, Iohão de Santarem [João de Santarém], & Iohão Descouar [João de Escobar], e em cinco graus d'altura acharam a Mina. E no ano seguinte de 1471 descobriu Fernão do poo [Fernão Pó] a ilha que se chama como ele, e neste mesmo tempo foram descobertas as ilhas de Sam Thome & príncipe que estão na Linha, & na terra firme o reino de Benij [Benim] até ao cabo de Caterina [Cabo de S. Catarina] que está da parte do Sul em três graus, e o que fez esse descobrimento era criado de S. A [Sua Alteza?], chamava-se Siqueira. Muitos querem dizer que neste tempo fossem terras, e ilhas descobertas, de que já não há memória, que será de Noé até agora. 

No ano de 1480 faleceu este magnânimo, e esforçado Rei dom Afonso, deixando muitas cousas feitas dignas de memória, e começou logo a reinar dom João seu filho, que no ano de oitenta & um, mandou por Diogo Dazambuja [Diogo de Azambuja] fazer a fortaleza da Mina, & ficou por Capitão dela. 

No anno de 1484 foi mandado por este Rei dom Iohão a este descobrimento Diogo cão, cavaleiro de sua Casa: chegado ao rio de Manicõgo, que está da parte do Sul, em sete, ou oito graus d'altura, pôs nele Padram [padrão] de pedra com armas, e letras reais que denunciavam que o mandava, e o ano, e Era em que se puseram as Cruzes de pau daqui foram ter ao rio Pico de Capricórnio, pondo padrões, onde lhe pareceu ser necessário, tornando a Manicõgo viu-se com el rey dele, e mandou Embaixador, e homens de crédito a este Reino, e no ano seguinte, ou no outro depois dele chegou Ioão Alonso Daveiro do Reino de Benij com pimenta de rabo, que foi a primeira que se viu nesta terra. 

No ano de 486 mandou el Rey dõ Ioam a este descobrimento Bertholameu diaz [Bartolomeu Dias] cavaleiro de sua casa com três velas, indo assim ao longo da terra puseram Padrões de pedra, e descobriu o cabo de boa esperança, e além dele até ao rio do Infante, que se pode dizer que via terra da Índia, mas não entrou nela, como Mouses [Moisés] na terra de promissam [terra prometida]. 

No ano de 487 [... 1487] mandou el Rey dom Ioã [D. João II] descobrir a Índia por terra, foi a isto um Pero de couilhãa [Pêro de Covilhã] seu criado, & Afõso de Paiua [Afonso de Paiva] por saberem a língua Arabia [língua arábica], partiram no mês de Maio do mesmo ano, e na cidade de Nápoles embarcaram. Chegaram à ilha de Rodes, pousaram em casa dos comendadores portugueses, passaram à cidade Dalexandria [de Alexandria], daí foram ao Cayro, e ao porto do Toro em caravanas, e em recovas de mouros, onde embarcaram no mar Roxo, chegaram à cidade Dadem [de Adém], onde se apartaram Ioã de Paiva para Thiopia [Etiópia], e Pêro de covilhãa à Índia, e foi ter à cidade de Cananor, Calecut, & tornou a Goa, onde embarcou para Sofalla, costa Dafrica, a ver aquelas Minas cousas tão nomeadas. 

De Sofala tornou a Moçambique, e à cidade de Quiloa, Bombaça [Mombaça], Melinde, até a cidade Dadem donde Afonso de Paiva se apartara dele, e foi pelo mar Roxo à cidade do Cairo, onde ficaram de se ajuntarem, mas achou nova como aí falecera, & cartas del Rey dom Ioam, em que mandava que se visse com o preste Ioã da Índia [Preste João].

Vendo Pero de covilham este recado, partiu do Cairo ao porto do Toro, & daí à cidade Dadem onde já duas vezes estivera, e tendo noticia de tamanha cousa era, e quão próspera a cidade Dormuz [de Ormuz], determinou de ir à vela, e foi ao longo da costa Darabia ao cabo de Resalgate que está no Trópico de Cancro, e daí a Ormuz, que está situada em vinte sete graus da mesma banda. Informado do estreito da Pérsia, e daquela terra, se tornou ao mar Roxo, e passou-se ao Reyno do Abexim, que vulgarmente se chama Preste Ioam da india, onde esteve até o ano de 1520 que o achou lá o embaixador dom Rodrigo de Lima. Este Pero de Covilhãa foi o primeiro Português que eu saiba que viu as Índias, & seus mares, & outras cousas a nós mui remotas. 

No ano de 1490, mandou el Rey a Manicongo com três navios Gonçalo de Sousa homem fidalgo, tornou em sua companhia o embaixador de Manicongo, que Diogo Cam trouxera, tendo já tomado água de bautismo [baptismo], & outros que com ele vieram, Gonçalo de Sousa faleceu no caminho, e elegeram por Capitão mor a seu sobrinho Ruy de Sousa, chegado a Manicongo, fez-lhe El Rey muito gasalhado, & baptizou-se logo com a mor parte de sua terra, que foi grande louvor, & honra ao Reyno de Portugal, & sua Coroa. 

(continua)

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(*) Nota (10.07.2016):
Suprimi a frase seguinte 
tendo ainda sido notado (na wikipedia) que as insignias dessa ordem Draconis Equitas Societas Imperatur et Regis, envolviam as letras DESIR, moto pessoal do Infante D. Pedro.
que entretanto foi também suprimida da Wikipedia (ver porquê aqui)
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publicado às 07:36

António Galvão é filho do cronista Duarte Galvão, que ao serviço de D. Manuel escreveu a crónica de D. Afonso Henriques. Isto tem relevo para entendermos como dispõe pela via paterna de acesso a informação normalmente reservada aos cronistas. Por outro lado, a sua desvalorização na corte não é caso único no que diz respeito aos filhos de cronistas. Fernão de Pina, filho de Rui de Pina, que aliás sucede ao pai no cargo de cronista-mor.

Sobre Fernão de Pina, coloco aqui informações de um livro de 2012 de G. Marcocci: "A consciência de um império: Portugal e o seu mundo (Séc. XV- Séc. XVI)" (que aliás, já tinha colocado na Wikipedia há algum tempo):
  • Uma longa desatenção por parte dos estudiosos tem caracterizado o processo inquisitorial contra Fernão de Pina, cronista-mor do reino, e guarda-mor do arquivo da Torre do Tombo desde 1523, cargo já ocupado pelo seu pai, Rui de Pina. Julgado culpado de nutrir crenças e «dizer palavras outras muitas sospectas na fé escandalosas», Pina abjurou de forma privada à frente dos inquisidores de Lisboa a 31 de Março de 1550.
  • Em data imprecisa desse ano de 1546 (certamente depois da Páscoa) a Inquisição procedeu à prisão de Pina. Tratava-se de «pessoa poderosa», conforme escreveram os juízes nas actas. Apesar disso, ou talvez mesmo por isso, o cronista régio sofreu um longo abandono.
  • O seu destino já estava escrito antes da sentença. Demonstra-o, de igual modo a atribuição em 1548 do cargo de guarda-mor da Torre do Tombo a Damião de Góis «em quamto Fernão de Pina não for livre dos casos per que ora he preso e acusado».

Há referências ao enorme trabalho que Fernão de Pina teve na reorganização dos forais, algum do qual efectuado a expensas próprias. Nisso há uma semelhança com António Galvão, que também usou das suas finanças pessoais para o serviço da nação.

Porém, se sabemos alguma coisa de António Galvão, devido aos ingleses, de Fernão de Pina não nos terá chegado quase nada. Para isso, é claro que contribuiu o Processo da Inquisição, que o via como "pessoa poderosa"... e este poder só poderia ser o seu acesso à informação privilegiada como cronista-mor, filho de cronista-mor.

João de Barros, Damião de Goes, passam a ser cronistas "autorizados", cujas obras chegaram aos nossos dias, mas não eram "cronistas-mor". Damião de Goes acaba por ser nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, ainda em vida de Fernão de Pina, mas o cargo de cronista-mor era vitalício, e como o próprio Damião de Goes terá problemas com a Inquisição, nem será ele a suceder-lhe.

João de Barros explica, de forma muito curiosa, parte do problema, usando o facto do pai de Alexandre Magno, Filipe II da Macedónia, ser zarolho:
(...) tanto louvor se dá àquele Pintor, que tirando a El Rey Filipe pai de Alexandre per natural, tomou-lhe a postura do rosto de maneira, que lhe encobrisse o defeito que tinha, que era um olho menos. E melhor está a um Autor por este modo dissimular os tais defeitos, que louvar os Príncipes de maneira, que vendo eles tanta lisonjaria, façam o que fez Alexandre; o qual oferecendo-lhe Aristobolo um livro de muitos louvores, deu com ele num rio, dizendo, que desejava depois de morto tornar ao Mundo, para ver se o louvavam tanto.
Foi aliás com este prólogo de João de Barros, que fechei os textos iniciais (feitos ainda em 2009), porque pareceu-me ser a forma de Barros evidenciar que as suas Décadas apenas iriam pintar o "olho bom", escondendo a completa zarolhice da história dos descobrimentos portugueses... e mesmo Camões terá que deixar ficar o retrato zarolho, pelo menos para a leitura simples.

Se António Galvão surpreende na primeira parte, que transcrevi até aqui, irá depois optar por deixar a cegueira manter-se, no relato dos descobrimentos recentes, sob pena de nem ver a sua obra autorizada para publicação. Na altura em que Galvão escreve, já Fernão de Pina teria morrido em 1550, desgraçado pelo processo inquisitorial de que tinha sido vítima. Os tempos tinham mudado... como sentiu bem Cervantes em caricaturar o deslocamento social dos velhos ideais nobres em Quixote de la Mancha. Os heroísmos, as proezas individuais, eram sarcasticamente ridicularizadas pelos ratos de esgoto, que se alimentavam dos podres da corte.

No entanto, como veremos aqui, Galvão não deixa de mostrar como a "rota das especiarias", das drogas, sempre teve o seu caminho de Oriente para Ocidente, ou do Levante para o Poente. Fosse através do Egipto, como ocorrera no tempo da dinastia Ptolomaica, que e como até um filho de Calígula (Caio César Augusto), provavelmente Tiberius Gemelus, tinha visto restos de antigas naus hispânicas nas costas arábicas.

Talvez mais singular seja o registo do confronto directo entre Romanos e Chineses, circa ano 200 a.C. Era uma altura em que se desenrolava ainda a 2ª Guerra Púnica, e portanto inconveniente para uma aventura arriscada de uma armada romana... no entanto, é também a altura em que se dão as guerras que implantam a dinastia Han (entre 206-202 a.C.), sendo que a batalha naval mais significativa (conhecida), é a "batalha dos penhascos vermelhos" que marca o fim da dinastia Han, quatrocentos anos depois (em 208 d.C.). Talvez por isso, Galvão diz "... se é fábula ou certeza, pula como a achei escrita". Onde? Esse é um problema de Galvão, não coloca referências... e o tradutor Ch. Bethune coloca neste ponto a mesma interrogação sobre a fonte: "What histories may these be?".


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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

continuação de (3) (2) (1) 

No ano de 277 Antes da encarnação de Christo, sucedeu neste Reyno Philadelphos, & ordenou que viessem as mercadarias da Europa à cidade de Alexandria pelo rio Nillo acima, até outra que se chama o Copto: e dela por terra as levassem a um porto que está em o mar roxo, que se chama Miosormo, andasse este caminho de noite, governando-se pelas Estrelas, & pilotos que disso tinham conhecimento, & por esta estrada ser pobre de água a levavam para toda a companhia, até que fizeram poços muito fundos, & cisternas, com que se sustêm de maneira que ficou esta estrada mais frequentada. 

Dizem que por este estreito ser perigoso de baixos, ilhas, restingas, foi este rey Philadelphos com seus exércitos da parte dos Trogoditas & em um porto que se chama Bereniche [Berenice], mandou que se descarregassem as naus que vinham da Índia por ser lugar mais seguro & podiam chegar sem perigo donde as levassem à Cidade do Copto & daí a Alexandria: pela qual causa foi esta Cidade tão próspera, & rica que dizem não haver naquele tempo mais na Redondeza. Veio este trato em tanto crescimento que se escreve render em tempo del Rey Tholomeu Aulete pai de Cleópatra sete contos & meio de ouro: & ainda naquela idade não havia mais de xx [vinte] naus neste caminho.

Mas depois de vir esta Província, em poder dos Emperadores de Roma, como eram mais poderosos, ou cobiçosos, em pouco tempo lhes rendeu o tresdobro [sextuplo]: & veio em tanto crescimento, que mandavam em cada um anno à Índia cento & vinte naus de carrega, partiam de Miosormo meado Iulho, & tornavam dentro em um ano: as mercadorias que levavam, dizem que valeriam um milhão douro & duzentos mil cruzados, & no retorno faziam cento de um. E a fora isto as Matronas despendiam em cada um ano muito infindo dinheiro em pedraria, pulpura [púrpura], aljofre [pequena pérola], bëjoim [benjoim], encenso [incenso], almiscre [almíscar], âmbar, sandalos [sândalos], aguila [águila], e outros cheiros, e brinquinhos, nisso se afirmam os escritores daquele tempo.

Também escreve Plinio, citando Cornelio Nepote que em seu tempo houve um rey no Egypto que se chamou Tholomeu Latiro, & um Edoxo [Eudoxo] fugindo dele pelo golfam Arabico [Golfo Arábico] veio pelo mar ao longo da costa Dafrica, & cabo de Boa Esperança à ilha de Calex [Cadiz], & querem ainda que se usasse esta navegação naquele tempo como agora: pelo qual o filho de Cayo Cesar Augusto andando na Arábia achara neste mar Criteo pedaços de naus da feição das Despanha [de Espanha]. 

Assim contam que os reys dos Sudianos, e príncipe dos Batrianos, e outros Capitães famosos foram por terra à Índia, e Sythia [Cítia], & houveram vista daquelas Províncias, & terras todas até ao levante, & mares deles da parte do Norte, & mercadores, & caminhantes que se afirmam andarem por aquelas partes. Marco Paulo [Marco Polo] largas cousas escreveu delas, ainda que o haviam por fabuloso já agora lhe dão mais crédito por acharem nomes de terras, cidades, villas, Angras, sítios, & alturas conformes a suas escrituras. 

No ano de 200 antes da Encarnação de Christo dizem que os Romãos [romanos] mandaram uma Armada à Índia contra o gram cão do Cathayo [China], & saindo pelo Estreito de Gibaltar fora, correram ao Noroeste, e defronte do Cabo de Finisterra acharam dez ilhas em que havia muito estanho, e deviam ser aquelas que chamam Cassiteriaes, & posto em cinquenta graus de altura acharam um Estreito por onde foram a Loeste à superior Índia, e pelejando com o senhor de Cathayo se tornaram à cidade de Roma, se é fábula ou certeza, pula como a achei escrita. 

No ano de cento depois da vinda de Christo o Imperador Trajano mandou fazer uma Armada nos rios Eufrates, & Tigres foi por eles às Ilhas de Zizara, & Estreito de Persya, saíram ao mar Oceano da Índia, & por aquela Costa navegara além donde Alexandre chegara, tomara naus que vinham de Bengala, de que se informara daquela terra, & por ser velho, & cansado, & achar nela pouco mantimento se tornara. 

Depois que os Romãos senhorearam a melhor parte do Mundo se fizeram muitos, & notáveis descobrimentos, mas vieram os Godos, Mouros, & outros Barbaros, e destruiram tudo porque no anno 412 depois da Encarnação de Christo tomaram a Cidade de Roma, e os Vandalos saíram de Espanha a conquistar Africa. E no ano de 450 el rey Atilla destruiu muitas cidades Ditalia [de Itália], & começou-se a de Veneza, & neste tempo os Francos, & Vandalos entraram em França. E no ano de 474 se perdeu o Império de Roma, & depois disto vieram os Longobardos a Itália no qual tempo andavam os demónios tão soltos pela terra que tomaram a figura de Moyses, e os Iudeus [judeus] enganados foram muitos no mar afogados. E a seita Arriana [ariana] prevalecia. E Merlim em Inglaterra foi neste tempo. E no ano de 611 foi Mafamede, & os de sua seita, que tomaram por força Africa & Espanha. 

Assim que segundo parece nestas idades todo o mundo ardia, por onde dizem que esteve quatrocentos anos tão apagado, e escurecido que não ousava nenhum povo andar de uma parte para outra, por mar, nem terra, tão grande abalo, e mudança se fez em tudo que nenhuma cousa ficou em seu ser, e estado, assim Monarquias como reinos, & senhorios, religiões, leis, artes, ciências, navegações, escrituras que disso havia, foi tudo queimado, e consumido segundo consta, porque os Godos eram tão cobiçosos da glória mundana, que quiseram começar em si outro novo Mundo, e que do passado não houvesse nenhuma memória. 

Os que depois sucederam sentindo tamanha perda, & proveito como era o comércio, & trato das gentes umas com as outras, & que não podiam gastar suas mercadorias, nem haver as alheias sem este meio determinaram de buscar maneira como se não perdesse de todo, & as mercadorias do Levante tornassem ao Ponente como saíam. Desesperados de as trazerem pelo mar roxo, & rio Nilo, abriram outro caminho, ainda que muito mais comprido, e custoso, porque as traziam pelo rio Indo acima: & desembarcadas as passavam por terra & portas Peraponesas [portas Cáspias de Alexandre, muralha de Gorgan?] à provincia de Batriana, & embarcavam-nas no rio Oxo [rio Amu Dária], que se mete no mar Caspio, & iam a um porto do rio Ram [Volga], que se chama Sicatrum, & por esse rio acima que se agora diz Volga segundo parece as levavam à cidade de Nonogardia [Novgorod?], que é agora do gram Duque de Moscovia, e está da parte do Norte em 57 graus de altura, e atravessavam por terra a província de Sarmacia ao rio Tanais, que a divide da Europa, onde embarcavam, & por ele abaixo as levava, à Lagoa Meotas, & cidade de Cafa que antigamente se dizia Theodosia [Feodosia], e por ser de Genoeses [Genoveses] vinham por elas às suas galeaças.

E dizem que durou este trato até o tempo de Commodita Emperador Arménio, que mandou mudar este caminho ao rio Carius [rio Kura ?], no fim do qual desembarcavam, & atravessavam o Reino de Hiberia que se agora diz Iorgiana [Georgia], e tornavam a embarcar no rio Facis [rio Phasis]; e por ele iam ao mar de Lacana, & cidade de Trapezonda [Trebizonda], que está em quarenta e tantos graus de altura, onde vinham por estas mercadorias as naus da Europa, e África: e dizem ainda que Nicana [Seleuco I Nicator] determinava, ou tinha já posto por obra de abrir mais de cento & vinte léguas de terra que há desse mar Caspio ao Euxinio para que pudessem ir & vir por água as especiarias, Drogas, & outras mercadorias que por aqui então caminhavam, se o não matara Tholomeu-Carauno [Ptolomeu Cearuno], por onde não executou seu generoso pensamento.

Assim que perdido este caminho, pelas guerras do grão Turco, a indústria humana abriu logo outro a estas mercadorias, & a outras que traziam da ilha de Samatra, cidade de Malaca, ilha da Jaoa [Java]: a enseada de Bengala, e pelo rio Gãje [rio Ganges] acima as levavam à Cidade Dagra [de Agra], donde atravessavam por terra a outra que está no rio Índio que se chama Bacar [Bikaner], donde iam pelo Sertam [sertão] dentro à cidade de Cabor [Cabul], que é a principal dos Mogores: & daí à gram cidade de Samarcante [Samarcanda] que está na Provincia de Batriana: & juntos os mercadores da Índia, Persia, Turquia, que traziam borcados, veludos, chamalotes, escarlatas, alcatifas, feltros, e outros panos de lã que iam gastando até o Cathayo, e gram província da China: donde traziam ouro, prata, pedraria, Aljofre, seda, almiscre, Canfora, aguila, sandalos, e muito Ruybarbo, e outras cousas que cá tinham valia. 

Depois disto diz que levaram estas mercadorias, drogas e especiarias, em naus pelo mar Índico ao estreito Dormuz [de Ormuz], & rio Eufrates & Tigres & as desembarcavam na cidade de Baçora, que está em trinta & um graus ao Norte. Daí iam por terra à Cidade Dalepo [de Alepo], Damasco, Baruti [Beirute], que está da mesma banda em trinta e cinco graus; donde as vinham tomar as galés de Veneza, que traziam romeiros à casa Sancta [Jerusalém]. 

No ano de 1353 em tempo do imperador Federico Barba roxa, diz que foi ter a Lubres [Lübeck ?] cidade Dalemanha [da Alemanha] uma nau com certos índios em uma canoa, que são navios de remo, parecem-se aos tones de Cochim: porém esta canoa devia de ser da costa da Florida bacalhãos, & aquela terra, por estar na mesma altura Dalemanha: de que os Tudescos ficaram espantados do tal navio & gente, por não saberem donde eram, nem entenderem sua linguagem, nem terem notícia daquela terra, como agora, porque bem os podia aí levar o vento, e água, como vemos que trazem as almadias de Quiloa, Moçambique, Sofala, a ilha de sancta Ilena [Santa Helena], que é um ponto de terra, que está naquele gram mar daquela costa, & Cabo de boa esperança tão separada. 

No anno de 1300. depois da vinda de Christo, o gram Soldam [sultão] do Cairo: mandou que tornassem as especiarias, drogas, mercadorias das Índias ao mar Roxo, como em principio costumavam: somente que desta vez desembarcavam da banda de Arábia, e porto de Iuda [porto de Meca, Jidá], as levavam à casa de Meca, e as caravanas que iam a ela em romaria as traziam donde cada um era, por enobrecer sua terra, principalmente a cidade do Cairo, donde as passavam pela provincia do Egipto, Libia, Africa, ao reyno de Tunez, Tremecem [Tlemcen], Fez, Marrocos, Sus, algumas levavam além dos montes Atlanticos à cidade de Tungubutum, & regno dos Ialopsos [reino dos Jalofos], até que os Portugueses as trouxeram pelo cabo de boa esperança à nossa Cidade de Lisboa, como se dirá a seu tempo. 

No ano de 1344 reinando dom Pedro Daragam [Pedro IV de Aragão] o quarto dizem os coronistas [cronistas] de seu tempo, que lhe pediu ajuda dom Luys de la cerda  neto de dom Ioam de Lacerda para ir conquistar as Ilhas Canárias que estão em vintoito graus desta mesma banda, por lhe serem dadas pelo Papa Clemente vj [VI], natural de França. E segundo isto já naquele tempo havia muita notícia daquelas ilhas por toda Europa, quanto mais em Espanha, porque tamanhos príncipes não se haviam de mover a esta empresa sem muita certeza. 

Também querem que neste meio tempo fosse a Ilha da Madeira descoberta, que está em trinta & dous graus, por um Ingres [inglês] que se chamava Machim, que vindo de Inglaterra para Espanha com uma mulher furtada, foram ter à Ilha com tormenta, e surgiram naquele porto que se agora chama Manchico [Machico], de seu nome tomado, e pela amiga vir do mar enjoada saiu em terra com alguns da companhia e a nau com tempo se fez à vela, e ela faleceu danojada. Machim que a muito amava para sua sepultura fez uma Ermida do bõ Iesu [Bom Jesus], e escreveu em uma pedra o nome seu, e dela: e a causa que os ali trouxera, e pôs-lha por cabeceira: e ordenou um barco do tronco de uma arvore, que ali havia muito grossos, e embarcou-se nele com os que tinha, e foram ter à Costa Dafrica sem velas, nem remos. Os mouros houveram isto por cousa milagrosa, e por tal os apresentaram ao Senhor da terra, e ele pela mesma causa os mandou a el rey de Castella. 

No anno de 1393 reinando em Castella el rey dom Enrique III, pela informação que Machim desta Ilha dera, & a nau de sua companhia, moveu a muitos de França, e Castella irem a descobri-la, & a gram Canaria, principalmente Andaluzes, Biscainhos, Lepuzcos: levando assaz gente, e cavalos, mas não sei se foi isto à sua custa, se del Rey: como quer que seja, querem que fossem os primeiros que houvessem vista das Canárias, & saíssem nelas, & cativassem cento & cinquenta pessoas: outros querem que fosse isto no ano de 1405.

(continua)
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publicado às 17:21

Charles Bethune na reedição inglesa do Séc. XIX faz comentários à tradução que Hakluyt tinha feito no final do Séc. XVI, mas vejamos um exemplo, para percebermos como as coisas não são assim tão simples. Galvão (ver em baixo) diz o seguinte:
  • Outros querem q nam passasse da serra Lioa, & que Publio depois dele descobrisse ate a Linha.
Bethune coloca uma nota na tradução de Hakluyt (pág. 40):
  • There be others that say that he passed not beyond Sierra Leona, but people it,(3) and afterwards discovered as far as the line. 
    • (3) And that afterwards he made public the discoveries as far as the line.
Primeiro Hakluyt entendeu que "Publio" significava "povoou", enquanto Bethune vai traduzir mudando para "publicou".
Em ambos os casos, o significado nada tem a ver com o original.
Se é estranho que Hakluyt não tivesse ajuda de nenhum português (havia bastantes à época na corte da rainha Isabel, uma vez que D. António, Prior do Crato, esteve por ali exilado...), mais estranho será Bethune propor-se corrigir a tradução de Hakluyt, sem contar com nenhum apoio português... ou digamos, se o tiveram foi mais como se o não tivessem.

Passei mais de duas horas a procurar quem seria o Publio de que Galvão fala, sem nenhum sucesso, mas não há dúvida que Galvão fala de um navegador, certamente romano, de nome Publius, que depois de Hannon teria atingido a "Linha", ou seja, o Equador.
Ora, que me lembre, tirando o mítico Eneias, não há propriamente nenhum nome de Roma associado a navegações... sendo certo que os romanos tinham barcos e pilotos para os comandar! O nome Publius é demasiado vulgar para permitir rápida inspecção dos casos possíveis, podendo ir de Virgílio até um governador de Malta que acolheu S. Paulo, entre muitos outros.
O que é certo é que esta navegação romana, que teria atingido a linha do equador, acabou por ficar perdida no nevoeiro histórico.

É claro que a malta historiadora tende a desvalorizar estas coisas, e acha perfeitamente normal que os romanos tivessem ficado quietinhos, no Mediterrâneo, o seu Mare Nostrum, e conforme ilustrei há uns tempos o panorama oficial fosse o da figura anexa (onde falta outro principal sinal vermelho... o do Mar Vermelho).

Assim, se procuro colocar algumas indicações para esta transcrição, a "coisa" pode revelar-se mais complicada nuns casos do que noutros.
Outro exemplo, ainda na parte que transcrevo em baixo, Galvão fala de cobras amestradas para guardar as hortas e plantações, algo que se passaria na África do Sul... e que desafia a imaginação que temos, associando cobras ao comportamento de cães. Usa ainda o relato do navegador veneziano Cadamosto (cujo nome é também escrito Cá da Mosto), colocado no reino de Budimol, em África (nome que só vimos associado a rei da Tailândia - Bhumibol), e que daria também conta dessa proeza antiga das cobras!
Acresce ainda o mito das sereias... ou seja de pescado com "rosto e forma" de mulher, e esse deixo-o sem mais comentários.

Finalmente acresce o relato das navegações ibéricas pelos anos 535 a.C., que já nessa época se estenderiam até às Índias e Arábias, onde faziam o comércio de especiarias. Charles Bethune procurou as fontes onde Galvão se poderia ter baseado, e cita Aristóteles (de mirandis in natura auditis), e Estrabão (livro 2, pág. 641, de Gaditanorum longinqua navigatione & ingentibus navibus) a este propósito.

Como dizia Galvão - por onde parece que naquelas partes havia muitos, & muitos anos que se navegavam...

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

continuação de (2) (1) 

No ano de 520 antes do Nascimento de Christo dizem que Cambisis [Cambises], Rey da Persia, tomou o Egypto, ao qual sucedeu Dario filho de Ristassis [Histaspes], determinou de dar fim à empresa que El Rey Sesostres [Sesostris] começara, se lhe não fizeram certo que o mar Erithreo [mar Vermelho] era mais alto que a terra do Egipto, & chegando a água salgada ao rio Nillo perder-se-ia esta Província à fome & sede, porque dele se rega, & os moradores, & gados não bebem outra água, pelo que deixou de haver fim esta obra. 

Ainda que um pouco me aparte do propósito, não deixarei dir [de ir] tocando, em algumas cousas em que vou falando, por dar repouso a tão largo caminho. Tinham, os Egypcios, que em sua terra se criava a geração humana, & que ainda agora nascem nela uns bichos tamanhos como ratos, & se vêm muitos meio torrão & meio bicho, até de todo se despedir da terra: cuido que são estes os que quebram os ovos aos lagartos, que há muitos no rio Nilo, a que também chamam Cocodrilhos [crocodilos]. E querem ainda que em tempos passados fossem encantados, por onde não faziam mal a nenhuma pessoa, mas depois de se desfazerem sua figura de chumbo, com suas letras Egypcias, tornaram a matar a gente, alimárias, gados, & fazer muito dano, principalmente os que saem de água, & se vão pela terra dentro, que são muito mais peçonhentos que os que ficam no Nilo, que estes pescam da Cidade do Cayro [Cairo] para baixo, e os comem, e põem as cabeças pelo muro. 

Também se escreve que estes lagartos se deitam narea [na areia] ao longo da ribeira com a boca aberta, & que vêm umas aves brancas, pouco maiores que melroas, & se metem dentro, & comem aquela çugidade [sujidade] que têm entre os dentes, e gengivas, com que folgam muito; mas contudo cerram a boca para as comerem, o que fariam se a natureza as não provera de um ossinho agudo que tem na cabeça com que os picam no céu da boca, de maneira que a abrem, e o pássaro se vai embora, mas logo vêm outros que acabam de alimparlha [de lha limpar]. Também há nesta ribeira muitos cavalos marinhos [hipópotamos], e na terra quantidade de cegonhas, que têm guerra com as serpes [serpentes] que ali vêm de Arábia, e matam muitas delas, e assim estas cegonhas, como os bichos que comem os ovos dos lagartos, são dos Egypcios mui venerados. 

No ano de 485 antes da Encarnação de Christo, diz que mandou El Rey Xerxes a Sataspis, seu sobrinho, descobrir a Índia, o qual saiu pelo Estreito de Gibaltar [Gibraltar] fora, que está em trinta e seis graus da parte do Norte, e passou o Promontório Dafrica [de África], que é aquele que agora chamamos Cabo de Boa Esperança, que está da parte do Sul em trinta e quatro para cinco graus d'altura. E enfadado de tão grande navegação se tornou, como Bertolameu Dias [Bartolomeu Dias] em nossos tempos fez. 

Antes do Salvador do Mundo vindo 440 anos, Himeleõ [Himilcão], & Annõ [Hanão] seu irmão, capitães Cartagineses, governando a Andaluzia, partiram dela cada um com uma Armada. Himeleõ contra o Norte descobriu a Costa de Espanha, França, Frandes [Flandres], & Alemanha: & alguns querem que a Gótica, & que chegasse à Ilha de Thili [Thule], em Hislãda [Islândia], que está debaixo do circulo Artico em sessenta & seis graus do Norte, & puseram nisto dois anos na viagem, até chegarem a esta Ilha, que tem os dias de Junho de vinte duas horas, & as noites de Dezembro doutro tanto, pelo que é frigidíssima. Parece que bradam, & gemem os homens nela, por onde dizem que ali é o Purgatório de Sam Patrício. 

Tem esta Ilha três montes, que deitam fogo pelo pé, & em cima está nevada, & em um deles que se chama Ecla, é o fogo tão brando que não queima a estopa, e por outra parte tem tanta força que arde nagoa [na água], e consome-a toda. E assim dizem que há nesta Ilha duas fontes, uma como cera derretida, e outra que sempre ferve, e toda a cousa que lhe deitam dentro se converte em pedra, ficando em sua própria figura. 
Há mais nesta Ilha ussos [ursos], raposos, lebres, corvos, falcões, & outras aves, & alimárias bravas: & é tanta a erva, que a cegam duas vezes, para que os gados passem: & muitas vezes os tiram dela, para que não arrebentem de gordura. Há aí muy grandes, & disformes pescados, & tanto que põem aos navegantes medo, & de seus ossos, & costas fizeram uma Igreja. Não há aí pão, vinho, azeite, nem de que o façam, alumiam-se com o do pescado, porque em toda parte provê a divina magestade. 

O Capitão Anon tomou na mão a Costa Dafrica, e Guiné, e dizem que descobriu as Ilhas Bem afortunadas, que agora chamamos Canárias, & além delas outras que dizem Dorcadas [...Órcades?], Esperias [Hespéridas], & as Gorganas, que se agora chamam do Cabo Verde: e foram assim ao longo da Costa, até dobrar o Cabo de Boa Esperança: e tomando na mão a terra foram ao longo dela, a outro Cabo que se chama Aromatico [Aromata], e agora de Guardafuy, que está Lesteoeste com o Verde em quatorze graus da parte do Norte: e que chegara à costa Darabia [da Arábia], que está em dezasseis, e dezassete: e pusera cinco anos até tornar a Espanha. Outros querem que não passasse da serra Lioa [Serra Leoa], & que Publio [???] depois dele descobrisse até à Linha. 
Mas parece que não faria tão comprida navegação, pois gastou tanto tempo neste trabalho. Alguns contam agora que os habitadores desta Costa do Cabo de Boa Esperança são grandes feiticeiros, encantadores, principalmente de cobras: e trazem-nas tanto a seu mando, que lhes guardam as sementeiras, hortas, pomares, e suas granjarias, assim de ladrões, como de alimárias: e se vêem alguns fazer dano cingem-se com ele, e tem-nos presos, e mandam aos filhos chamar seus amos, e entregam-nos: e se a gente é muita, ou alimária poderosa com que se não atrevem, vão-se a casa daquele com que vivem, e se é de noite dão tantos Assovios [assobios], & chirlos [chilros], até que os acordam para ir defender, o que lhe entregaram. Alvici Cadamosto italiano, escreve que se achou no descobrimento de Guine no reyno de Budimol, em casa de Bisborol seu neto: & jazendo na cama ouviu grande silvos darredor [em redor] da casa, a que Bisborol se levantara da cama, e saíra pela porta fora: e quando tornara Cadamosto lhe perguntara donde vinha contou-lhe como acudira às cobras que o chamaram. O que se não deve d'aver [de haver] por muito, porque na Índia há muitas & muy peçonhentas, e trazem-nas em redor do pescoço, metem-nas pelos peitos, e saem-lhes pelos braços fazem-lhe som com que bailam, e o mais que lhe mandam. 

Assim me disseram alguns Portugueses que por aquela Costa do Cabo de Boa Esperança para Çofala, Quiloa, Melide andaram, que havia certos pássaros, a que acudiam os Negros a seu chamado, & como os viam mudavam-se de uma árvore em outra: & os Cafres os seguiam até que se punham em alguma donde se não mudavam, e em olhando os Negros para cima viam mel, e cera, subiam a tomá-lo, e o pássaro ficava ali. Não me souberam dizer se era isto natural, se o faziam por ter dali mantença. Também afirmavam que debaixo da terra em formigueiros se achava muito mel, e cera que as formigas faziam um pouco agro. Diziam mais que nesta Costa havia grandes pescados que andavam o mais do tempo na água direitos, e tinham rostos, e naturas de mulheres, com que os pescadores se desenfadavam quando os tomavam: e se os vendiam davam-lhes juramento se dormiram com elas, e se o não fizeram então lhas compravam, e doutra maneira não lhes davam por elas nenhuma cousa. 

No ano de 535, antes de Christo, diz que navegavam os Espanhões por todo o maremagno, até chegarem às praias das Índias, Arábia, & suas Costas, donde levavam, e traziam muitas, & diversas mercadorias: e andavam nestes tratos, & outros por diversas partes do Mundo em grandes navios: foram ao Noroeste dar em uns canais, & baixos que com a crescente do mar se cobriam, & com o minguante apareciam, donde achavam muitos atuüs [atuns] de maravilhosa grandeza, fizeram neles grandes pescarias, por serem os primeiros que até aquele tempo tinham visto, e por muito estimados. 

Alexandre Magno, segundo pelas idades parecem, foi antes da vinda de Christo 324 anos, como todos sabemos era natural da Europa, passou em Ásia, & Africa, atravessou a Siria, Armenia, Persia, Batuana, que está da parte do Norte em xliiij [44] graus d'altura, que é a maior em que se ele pôs nesta jornada, donde desceu à Índia pelos montes Imãos [Himalaias], e vales Paraponisos [?], e mandou fazer uma Armada no rio Indo & por ele foi sair ao mar Oceano, donde se tornou por terra de Gedrosia, Carmania, Persia, & agram [? a grande], cidade de Babylonia, deixando por capitães da armada, Crito, e Nearco, que depois foi ter com ele pelo Estreito do mar Persico, & rio Neufrates [Eufrates] acima, deixando descoberta aquela terra & costa. 

Depois disso diz que sucedeu por rey do Egipto Tholomeu [Ptolomeu], que alguns querem que fosse filho bastardo de Felipe pai de este grande Alexandre: o qual quis imitar a El Rey Secostres [Sesostres], & a Dario, & para isso mandou fazer uma cava [cova?] de cem pés em largo, & trinta em alto, & dez, ou doze léguas em comprido, até chegar às fontes amargas com intenção de levar esta obra ao mar do rio Nilo, que se chama Peluzio, que entra na Cidade Damiata: não houve efeito seu desejo, por se achar este mar vermelho ser mais alto três covodos que a terra do Egipto, e espalhando-se por ela perder-se-ia tudo.

(continua)
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publicado às 07:49

Atendendo à descrição que Galvão faz da desaparecida ilha de Calex - "tamanha que se juntava à terra de Espanha", a mais apropriada ilustração será algo da forma:
Mapa com um grande abaixamento do nível do mar, conforme post anterior
Haveria múltiplas coisas a comentar, mas este mapa é meramente ilustrativo do contorno que a costa poderia ter quando, conforme relata Galvão, poderiam estar unidas as terras africanas e europeias, aparecendo nesse caso também uma grande ilha Atlântica ou Atlantida nos Açores.

O nome "Calex" deveria ser lido como "Cales" (som "ch" e não "cs" para o "x", como na Galiza), e o território então existente na Idade do Gelo iria desaparecer, aquando do fim do ciclo gelado e regresso a temperaturas bastantes mais quentes. O degelo teria um efeito de dilúvio, mais ou menos repentino, consoante a queda das massas de gelo no mar, fazendo desaparecer povoações em terrenos costeiros. A certa altura, a ligação poderia perder-se definitivamente... vendo que o aumento do nível do mar deixa ilhas, que ainda irão submergir, com novo aumento.
Mapa com um menor abaixamento do nível do mar (conforme post anterior)
Ao nível da Galiza, por exemplo, aparece uma ilha que seria submergida com a subida do mar.
Ora, este nome Calex, faz lembrar outro tema que aqui abordámos:
que resultou de um comentário de Bartolomeu Lança, que se ligava à versão antiga do Caminho de Santiago, que antes de ser Callix Iago, seria Callix Ianus - um Caminho até Lugo, no rio Minho... o rio que desagua em Caminha.

Os que viviam mais próximos da anterior linha da costa atlântica, podem até ter subido para montanhas altas, mas essas montanhas locais não seriam suficientes para os territórios que vemos como "ilhas verdes", hoje submersas por completo.
Portanto, a situação terá sido bastante dramática para os que se viram ali isolados, e para os que assistiam do lado da Ibéria... também eles sem saberem se seriam suficientes as alturas de Espanha para a subida de águas. Seria a serra da Estrela ou os Pirinéus, suficientes, ou precisariam ir ainda para paragens mais altas, os Alpes?... ou ainda mais alto, na zona do Cáucaso, até à Anatólia do Monte Ararat, afinal os refúgios mais altos e mais próximos (excluindo os Himalaias na Ásia).

Nesse eventual drama de se terem perdido as gentes da ilha de Calex, nesse dilúvio que se seguiu à Idade do Gelo, era natural ficar uma nostalgia marítima intemporal, sobre os territórios para sempre perdidos - um lema como "por tu Calex" seria apropriado para recordar um caminho doutrora, que terminava em Finisterra, na Galiza, mas que antes prosseguia para a ilha situada em frente ao Porto de Cale, onde Cale, hoje Vila Nova de Gaia, coincide com o limite inferior para essa plataforma submersa.
Nesse contexto, pareceria então natural que os que escapassem, quisessem render ali na Finisterra, uma homenagem aos que não teriam salvo na sua fuga. E sabe-se que a rota do Callix Ianus reunia celtas de toda a Gália para efectuar essa antiga peregrinação, que não parava em Lugo, tal como a de Santiago, é habitual continuar até à Finisterra... onde ficou definido o fim da terra.

Numa conversa há cinco anos atrás, com o José Manuel, falámos do relato do S. S. Jesmond em 1882, que dava conta do avistamento de uma ilha no meio do Atlântico, conforme está registado nos comentários aqui:
e sobre o qual deverei fazer um post... pois nem me lembrava que não o tinha feito!
É significativo que seja de 1882, época que deve ter correspondido a uma pequena glaciação, a que levaria o Príncipe Wiasemsky a propor-se atravessar o gelo no Estreito de Bering em 1885.
Isso levaria a um significativo abaixamento do nível do mar (e por exemplo ao fim de Alfeizerão, e outras localidades, como portos)... que poderia sido tão grande que estas plataformas submersas fizessem uma fugaz aparição.
Perante o eventual aparecimento de novas terras, qual seria a reacção da liderança europeia?
O ano de 1885 é o ano da Conferência de Berlim, onde é efectuado um reajustamento das pretensões coloniais, o que vai levar à crise do "Mapa Cor de Rosa".
Tudo o que capitão Robson trouxe da ilha (que nem consta da listagem da wikipedia) ficou guardado em Londres... até que tudo desaparece em 1940, na 2ª Guerra Mundial:
Several reporters examined Robson's unusual finds and were infomormed by him that he planned to present the artifacts to the British Museum. Unfortunately for Atlantian research, however, the log of the Jesmond was destroyed during the London blitz of September 1940, along with the offices of the Jesmond's owners. There is no record at the British Museum of their having received Robson's collection. Although it is possible that the artifacts are files in the capacious attics and basements common to all museums. Nor was the island ever heard of again, existing only in the sworn testimony of the captain and crew of the Jesmond.

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321
por António Galvão (1563)


A mesma ilha de Calex se afirma ser tamanha que se ajuntava à terra de Espanha, e que as Ilhas dos Açores era uma ponta das serras da Estrella, que se mete no mar na Vila de Cintra [Sintra]. E que a serra Verde que se mete na agua junto da cidade de Safim em Teracucu, que é a própria de Monchim [Monchique], que do Algarve , & que em estas arrebentam as ilhas do Porto Sancto, e a Madeira, porque dizem que todas as ilhas têm as raizes na terra firme, por muito apartadas que estejam dela, que doutra maneira não se susteria. Outros querem que Despanha [de Espanha], a Ceyta [Ceuta] se passasse por terra, & que as Ilhas de Cerdenha [Sardenha] & Corcega [Córsega] se juntassem uma com outra, Cecilia [Sicília] com Itália , Negroponte com a Grécia. Assim contam que acharam cascos de naus, âncoras de ferro, nas montanhas de Suissa [Suiça], muito metidas pela terra, onde parece que nunca houve mar, nem água salgada. 

Também dizem que na Índia & terra do Malabar que é tamanha & tão povoada, foi já tudo mar atá o pé da serra: & que o Cabo de Comorim, & a Ilha de Ceilão era tudo uma coisa, & a Ilha de Samatra que fora pegada com a terra Malaca, por uns baixos de Capasia [Amazon Maru Shoal], e junto dela está uma ilheta que não há muito que ela e a terra firme tudo era uma coisa. Ptolomeu em suas Tábuas põe esta terra de Malaca ao Sul da linha, em três ou quatro graus de altura, ficando agora a ponta dela, que se chama Ojentana, em um grau da banda do Norte (como se vê no Estreito de Sincapura [Singapura]), onde cada dia passam para a costa de Syão [Tailândia], & China, onde está a ilha de Aynão [Ainão - Hainan] que também dizem que foi junta com a terra da China que Ptolomeu assenta da parte do Norte muito além da linha , ficando agora mais de vinte graus dela da parte do Norte, de maneira, que assim Ásia como Europa, ambas agora estão desta banda. 

Bem podia fer que nos tempos passados, a terra de Malaca, e China fossem acabar além da linha da banda do Sul, como Ptolomeo as pinta, porque pegaria à ponta da terra de Ojentana com as ilhas de Bintão [pulau Bintan], Banqua [pulau Bangka], e Salítres [pulau Belitung?] que há por ali muitas, e seria a terra toda maciça; e assim a ponta da China com as Ilhas dos Luções [Luzon, Filipinas], Borneos [Bornéu], Lequios [Formosa ou Okinawa], Mindanaos [Mindanao, Filipinas], & outras que jazem nesta corda, que também tem por opinião ainda agora, que a Ilha de Samatra foi pegada com a Jaoa [Java], pelo canal de Sunda, e a Ilha de Baly [Bali], Anjane [Lombok], Sinbaba [Sumbawa], Solor, Hogaleao [Pantar], Maulua [Ombai], Vintara [Wetar], Rosolanguim [Rosyngain, (pulau) Romang], & outras que há nesta corda, e alturas, todas foram pegadas com a Jaoa, e a terra uma, & assim o parece a quem as vê de fora, porque aindagora [ainda agora] há nestas partes ilhas tão juntas umas com as outras, que parece tudo uma coisa, e quem passa por antrellas [entre elas] vai tocando com a mão os ramos do arvoredo de uma banda, e da outra. E não há muito tempo que ao Levante das Ilhas de Banda se fundiram muitas; e também dizem agora que na China se alagaram mais de sessenta léguas de terra: por onde senão deve aver [haver] por muito o que Ptolomeo e outros antigos deixaram escrito, que também eu deixo por tornar a meu propósito. 

Depois do Dilúvio 800 anos, diz que foi fundada a Cidade de Troya pelos Dardanos [de Dardano, neto de Atlas pela filha Electra, nome do Estreito de Dardanelos], & que antes disto traziam das Índias à Europa pelo mar Roxo [Mar Vermelho], especiarias, drogas, e outras muitas, e diversas mercadorias, que hi avia [ainda havia] naquele tempo mais que agora. E se assim foi isto bem se pode dar crédito que havia muito tempo que os mares se navegavam, pois naquele tinham tanto comercio o Levante com o Ponente que se traziam estas mercadorias a um porto que se chama Arsinoe, que querem dizer alguns, que seja aquele que agora dizemos Çuez [Suez] que está em trinta graus da parte do Norte neste estreito Arábico. 

Declaram mais os escritores, que deste porto de Arsinoe, Suez (ou como lhe quiserdes chamar) traziam estas mercadorias em caravanas de camelos, asnos, e azemolas [machos ou mulas], ao mar de Levante, a uma Cidade que está nele em xxxij (32) graus de altura que se chama Cazom [Gaza] haverá por aqui de um mar a outro xxxv (35) léguas, dando a cada grau xvii & meio (17,5), como se costumava : pela terra ser quente, e darea [de areia] não andavam senão de noite, governando-se por estrelas, de que tinham conhecimento, & por balizas de paus, e canas que na terra tinham metidas. Vendo que esta estrada não era tal como eles desejavam, diz que duas vezes o mudaram. 

Novecentos anos, pouco mais ou menos, depois do Dilúvio, antes da destruição de Troya houve um Rei no Egypto [Egipto] que se chamou Sesostres [talvez Senusret III], o qual vendo que estes caminhos, e diligências que eram feitas não escusavam muitos custos, homens, bestas, carregas, e descarregas, determinou fazer uma vala do mar Vermelho a um braço do rio Nilo, que vai ter à cidade de Seroum [Seróm, Corom - porto junto a Meca], por onde as naus pudessem ir e vir com as mercadorias das índias à Europa , sem serem tiradas, nem descarregadas até Itália. E por isso foi este o primeiro Rey do Egipto qus mandou fazer carracas grandes para efte caminho, o qual não teve efeito, porque se o tivera ficava Africa em uma Ilha toda dagoa [da água] rodeada, por não ter mais de vinte léguas este jsmo [istmo] de terra. 

Neste meio tempo dizem que os Gregos fizeram uma Armada que chamam dos Argonautas, e iam por capitães dela Jasom [Jasão] & Alceo [Alceu], uns querem que partissem da Ilha de Creta, outros da Grécia, como quer que seja, foram pelo mar Pontico [Pontus], e braço de S. Jorge [Georgia] ao mar Euxino, onde se perderam. Jasom tornou à Grécia, Alceo diz que com tormenta foi ter à lagoa Meotis [supostamente, o mar de Azov], onde se desfez de todo, e os que escaparam com muito trabalho, atravessaram por terra ao mar Oceano Dalemanha [mar Báltico] onde reembarcaram, e pela costa Xaxonia [Saxonia], Frisia, Holanda, Flandres, França, Espanha, Itália, tornaram a Peloponeso, ou Morea,e Grécia, atè a Província da Trácia, deixando descoberto por costa a maior parte da Europa.  

Strabon [Estrabão] citando Aristonico, diz que depois da destruição de Troya el Rey Menalao [Menelau] saiu do estreito, e mar do Levante ao Athlantico, & Costa de Africa, & Guine, & dobrou o cabo de Boa esperança, e em certo tempo foi ter à Índia. Disto se pode tomar aos autores mais estreita conta. Este mar Mediterrâneo, também se chamou Adriatico, Egeo, Hercoleo, e outros nomes, segundo as terras, costas & ilhas, que banha ao mar grande Athlantico & costa de Africa. 

No ano de 1300, depois do Dilúvio mandou Salamão [Salomão] fazer huma Armada no mar do mar Roxo que se chamava Eylam, para ir a Levante da Índia onde dizem estar aquela ilha & terra a que chamavam Tarcis & Offir, & que puseram três anos neste caminho, de que trouxeram muito ouro, prata, aciprestes, pinho. Por onde parece que aquelas terras & ilhas deviam ser as que agora chamam Luções [Filipinas], Lequios [Formosa ou Okinawa-Japão], & Chinas, porque não sabemos lá em outras partes haver prata, aciprestes, pinhos nem navegação de tantos annos. 

Também deixaram escrito os passados que houve um Rey no Egypto que se chamou Neco, que desejou muito ajuntar o mar Roxo com o rio Nillo, e mandou aos Fenicios que deste estreito de Meca navegassem até o fim do mar Mediterraneo para ver se tornavam ao Egypto, eles assím o fizeram, indo ao Sul ao longo da costa & terra de Melinde, Quiloa, Sofala, até o cabo de Boa esperança, ficando-lhe sempre o Sol à mão esquerda. Mas dobrando este Cabo, e vendo o Sol à mão direita, espantaram-se muito: com tudo fizeram ao Norte seu caminho pela Costa de Guinè, & mar Mediterrâneo até tornar ao Egypto donde partirão, e puseram dois anos neste descobrimento, & querem alguns que fossem os primeiros que o fizeram, & andassem a costa Dafrica [de África] toda em roda. 

No ano de 590 - Antes da encarnação de Christo partiu de Espanha uma armada de mercadores Cartagineses feita à sua custa, e foi contra o Ocidente por esse mar grande ver se achavam alguma terra : diz que foram dar nela. E que é aquela que agora chamamos Antilhas, e nova Espanha que Gonçalo Fernandez de Oviedo, quer que nesse tempo fosse já descoberta, ainda que Christovão Colom nos deu dela mais vera certeza, & todos os que escreveram como falam em cousa duvidosa & terra não descoberta, logo acodem com esta da nova Espanha.

(continua)
______________________________

Nota: Entre parentesis rectos estão algumas associações modernas às designações originais usadas por Galvão, uma boa parte das quais resultou de consulta ao Glossário do Visconde de Lagoa.

editado em 17-01-2016

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publicado às 07:56

escrevemos sobre António Galvão, em particular sobre a opinião que divulgou - de que os povos orientais, tinham tido prioridade nas navegações mundiais.

Como a sua obra é de grande importância, e não há praticamente edições recentes que facilitem a compreensão e leitura, decidimos pegar na edição de 1563, para fazer uma transcrição, ao mesmo tempo que revemos, e relemos, este texto, que foi dos primeiros que mereceu aqui um grande destaque.
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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
purl.pt/15321 
por António Galvão (1563)

Querendo ajuntar alguns descobrimentos antigos & modernos, que por mar & terra são feitos, com suas Eras & alturas (como são duas cousas tão difícultosas) achei-me tão confuso com os Autores deles, que determinei desistir do tal propósito. 
Porque os Hebreos dizem que da Criação do Mundo ao Dilúvio houve 1656 annos. E os Setenta Intérpretes [Septuaginta] 2242. Santo Agostinho 2260 & tantos. 
E assim nas alturas há muitas diferenças: porque nunca se ajuntaram em uma Armada de dez pilotos até cento, que uns não estivessem em uma altura, e outros em outra. 

Mas por ter emendado de outros que o melhor entendam, me dispus a fazer isto  ainda que alguns digam que o Mundo foi já descoberto, e possam alegar para isto, que assim como foi povoado, podia ser frequentado, e navegado. E mais sendo os homens daquela idade de vidas mais compridas, leis, linguagens, quasi todas umas. Outros têm dito o contrário, que dizem que não podia a terra ser toda sabida, e a gente, comunicada uma com a outra, porque quando fosse se perderia pela malícia, e sem justiça dos habitadores dela. 

E porque os maiores descobrimentos & mais compridos foram por mar feitos, principalmente em nossos tempos, desejei saber quais foram os primeiros inventores disto depois do Dilúvio. 
Uns escrevem que os Gregos, outros dizem que os Fenicios, outros querem que os Egípcios. Os Indios [Indianos, Chineses, etc...] não consentem nisso, dizendo que eles foram os primeiros, que navegaram, principalmente os Taybencos, a que agora chamamos Chins [chineses], e alegam para isto serem já senhores da Índia, até o Cabo de Boa Esperança, & a Ilha de Sam Lourenço [Madagáscar... ou Austrália], por ser povoada deles ao longo da praia & os Iaos [Java ou Austrália], Timores [Timor], Selebres, Macasares [Celebes], Malucos [ilhas Molucas], Burneos [Bornéu], Mindanaos, Luções [Filipinas], Lequios, Iapões, [Japão] & outras Ilhas, que ha aí muitas & as terras firmes dos Canchenchinas [Vietname], Laos, Siamis [Sião], Bremas, Pegus [Birmânia], Arracões, até Bengala & além disto a Nova Espanha, Perú, Brazil, Antilhas, & outras conjuntas a elas, como se parece nas feições dos homens, mulheres, e seus costumes, olhos pequenos, narizes rombos, & outras proporções que lhe vemos. E chamarem ainda agora a muitas destas Ilhas & terras Batochinas, Bocochinas, que querem dizer terras da China. 

Além disto os nossos Escritores deixaram escrito que a Arca de Noé, se assentara da parte do Norte nos montes Darmenia [da Arménia], que está de XL [quarenta] graus para cima & que logo dali fora a Scithia [Cítia] povoada por ser terra alta, e primeiro das águas descoberta. E como a Provincia de Thaibencos, seja uma das principais da Tartária (se assim é como dizem) bem se mostra serem eles dos mais antigos povoadores, e navegadores, pois neles se acaba aquela terra da parte do Levante, & os mares são tão bons de navegar como os rios destas partes, por jazerem entre os Trópicos onde dias & noites, não fazem muita diferença, assim nas horas, como na quentura: por onde não há ventos tão destemperados que alevantem as águas, nem as façam soberbas, & por experiência o vemos nos pequenos barcos em que navegavam com um ramo por mastro & vela: & um remo na mão com que governam, correm muito mar, e Costa. E assim em uns paus a que chamam Catamarões [catamarãs], em que se escancham, ou assentam, e vão com outro remando. E querem ainda que estes Chins fossem senhores da maior parte da Scithia, e que navegassem toda sua Costa, que parece estar até setenta graus da parte do Norte. 

Cornelio Nepote referido, assim no lo aprova, onde diz, que Metelo colega de Afranio, estando por Consul em França, El Rey de Suevia lhe mandara certos índios, que vieram em uma nau com mercadorias de sua terra pela parte do Norte, às praias de Alemanha: & segundo isto, devia ser da China, por estar de vinte, trinta, quarenta graus para cima, e têm naus fortes, e de pregadura que podiam sofrer mares, e terras tão frias, & destemperadas como aquelas: que as naus de Cambaya [império Mogol na Índia], que também dizem haver muitos annos que no mar andam, não parecem para isso por ser cozeitas de Cairo, & os homens de pouco trabalho & vestido. 

Também os que escaparam do Diluvio ficaram tão assombrados que não ousaram descer aos baixos. Membroth [Nimrod], depois dele cento & trinta anos fez a Torre de Babylonia, com intenção de se salvar nela vindo outra cheia. Pelo que parece que os que mais cedo ao mar chegaram, ora fossem os que iam ao Levante & Província da China, ora os que viessem ao Poente ao fim da Syria aqueles que primeiro ali povoassem seriam os que navegassem, o mais deixo aos Scyrios [Sírios] & Egypcios, que tiveram grandes debates sobre isso: porque todos querem adquirir a si esta honra, e eu vir ao ponto do que os nossos antepassados deixaram escrito. 

Aqueles que de antiguidades se prezaram, dizem que no ano de 143, depois do Dilúvio, viera Tubal por mar a Espanha: por onde parece que já naquele tempo se navegava a nossa Ethiopia. E estes mesmos contam, que depois disto não muito tempo a Rainha Semiramis fora contra os índios: & naquele Rio de que eles tomaram o apelido [rio Indo], dera batalha a El Rey Escorobatis, na qual ele perdera mil navios: por onde parece que naquelas partes havia muitos, & muitos anos que se navegavam. 

No ano de 650, depois do Diluvio, houve um Rey em Espanha que se chamou Hispalo, em cujo tempo diz que foi descoberto até o Cabo Verde, e alguns querem dizer que a ilha de S. Thomé & Principe. E Gonçalo Fernandes de Oviedo que fez as crónicas das Antilhas: que neste tempo fossem Ilhas já descobertas, e do nome deste Rey se chamassem Hespéridas: & alega muitas razões para isto, e aqueles quarenta dias que navegavam do Cabo Verde a estas Ilhas. 
Mas outros querem dizer que o mesmo se fazia deste Cabo à Ilha de S. Thomé & Principe, que estas são as Hespéridas: e não as Antilhas. E não se apartam da razão muito, pois naquele tempo, e depois muitos anos se navegou mais ao longo da terra, que pelo mar Oceano, nem havia altura, nem agulha, nem gente do mar podia ser tão esperta. 

Segundo a opinião dos que escreveram não se pode negar que não houve muitas terras. Ilhas, Cabos, Istmos, Angras, Enseadas, que os tempos & as águas terão gastadas, & apartadas umas das outras, assim na Europa, como em Africa, Asia, & Nova Espanha, Perú, & outras que são descobertas, & estão ocultas pela continua diferença que tem a humidade da água, com a sequidão da terra. 
Diz Platão em os Diálogos de Thymeo Eclisio, que houve antigamente no mar oceano Athlantico grandes ilhas & terras chamadas Athlantides [Atlântidas], maiores que Africa & Europa, e que os Reys daquela terra senhorearam muita parte desta nossa: & com grande tormenta se fundiu com tudo o que tinha, e ficou tanto lodo, e cascalho, que se não pôde por ali navegar muito tempo. E assim escreveram, que junto da Ilha de Calex [Cales], contra o estreito havia umas Ilhas que se chamavam Frodísias [Afrodísias], bem povoadas & frequentadas com muitos jardins, pomares, e hortas, de que já agora não temos outra memória se não o que representa a escritura. 


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publicado às 23:54


Batochina e Pulo Cabale

por desvela, em 22.01.14
Na sequência de um comentário sobre Zheng He, navegador chinês popularizado por Gavin Menzies no livro 1421 - ou seja, o ano em que a China tinha percorrido os mares até ao Atlântico, falei numa hipótese de "ameaça chinesa" à Europa, por essa altura.
O José Manuel fez o favor de indicar um bom documentário da televisão ARTE sobre Zheng He:

O documentário estabelece uma ligação entre Zheng He e o conhecimento árabe de navegação, o que teria permitido aos chineses uma aventura, registada pelo menos certamente até às costas africanas, em particular a Madagáscar (chamada Ilha de São Lourenço, pelos portugueses).
Depois, subitamente, tal como rapidamente havia surgido, o interesse chinês pelas navegações parece desaparecer.
Os tempos são demasiado coincidentes para não se estabelecer alguma relação. Se a China avançava no início do Séc. XV em direcção à Europa, e o ano 1421 é marcante... também é marcante no mesmo período para as navegações portuguesas, que em 1418 e 1419 registam o Porto Santo e a Madeira.
Portanto, se uns avançavam numa direcção, outros avançavam na outra - terá havido recontros?
É difícil saber porque à época seria possível registar como "mouro" tudo o que fosse inimigo.
No entanto, não é de excluir que a ameaça asiática estivesse na ordem de partida papal em direcção ao Sul.
O tempo que demora a passagem do "Cabo Bojador" é tão fictício que pode corresponder a várias interpretações, enquanto alegoria de outro facto. Se já estabeleci um paralelismo entre as navegações africanas e americanas, podendo isso corresponder a uma tentativa de descoberta de passagem ocidental para as Índias (ao jeito de Colombo), talvez seja mais verosímil pensar numa autorização de passagem, libertada a ameaça chinesa nas costas africanas.

Numa recensão crítica à obra de Menzies (feita por J. M. Azevedo e Silva), podemos ler:
Em boa verdade, os portugueses começaram a descobrir «mares nunca dantes navegados» em 1434, quando Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, precisamente (pura coincidência?) no ano seguinte ao fim das navegações chinesas do almirante Zeng He (1405-1433).
Portanto, aquelas duas palavras com interrogação "(pura coincidência?)" são uma forma abreviada de sugerir algo semelhante... O Bojador teria sido um "cabo de trabalhos" com vista a libertar a parte ocidental de África da presença chinesa.
Segue-se outro problema, que seria libertar mesmo a parte oriental, e assim permitir o avanço para a Índia, esse cabo de trabalhos seria o da Boa Esperança.
Se esses "cabos de trabalhos" foram apenas diplomáticos ou representaram violentas acções de guerra naval... é algo difícil de estabelecer.
Porquê?
Porque nada justifica os mais de 50 anos entre a passagem do Bojador e a chegada ao Cabo da Boa Esperança... conforme já se disse, era mais rápido ir a pé, pela praia... bastariam 1 ou 2 anos, a caminhar sem grandes pressas - é só fazer contas.
Ao contrário, quando Vasco da Gama entra no Índico, deveria deparar-se com uma poderosa ameaça naval, e essa viagem é feita sem problemas demasiado dramáticos.
Portanto, poderia bem ter ocorrido que a ameaça naval tivesse sido debelada ao tempo de D. João II, deixando o Oceano Índico pacificado para a entrada de Vasco da Gama.

Por outro lado, devemos reparar na história dos descobrimentos que é divulgada, começando na figura de Marco Polo, que visita Kublai Khan, numa viagem de 1271 a 1295.

Tal como Marco Polo se consegue entender com Kublai Khan, também o mestre dos Templários, Jacques de Molay, vai solicitar uma ajuda do Império Mongol na Terra Santa, levando uma ofensiva conjunta contra os mamelucos árabes em 1300.
Em 1305 começam os problemas do rei Filipe, o Belo, com os templários, que por ordem papal são extintos e Jacques de Molay será executado em 1314.

No entanto, os templários têm uma passagem melhor conhecida pelo lado português, e menos bem conhecida pelo lado inglês-escocês, mistificada pela Rosslyn Chapel.
No lado português estabelece-se a Ordem de Cristo, e inicia-se o projecto de D. Dinis.
Pelo outro lado, digamos que o rito escocês é menos explícito com o nome "Soberano Grande Inspector Geral", mas quando o rito de York estabelece como máximo grau "Ordem dos Cavaleiros Templários", não há dúvidas que a herança da Maçonaria remete a essa origem.
É claro que houve duas rosas no confronto Lancaster-York, mas depois Tudor ficou bem juntando as duas com Tosão de Ouro.

Este é o panorama pelo lado europeu. Porém, desde a entrada dos Hunos, a ideia de ameaça mongol deveria permanecer, e os impérios de Tamerlão e Gengis Khan seriam ameaça renovada.
O filho Kublai Khan tenta invadir o Japão, mas a armada é desbaratada pelos ventos Kamikaze (que darão depois origem ao nome dos pilotos). Porém, a frota naval terá sido implementada em grande escala, e é natural que menos de 100 anos depois, ainda não se tivesse perdido a ideia de uma China potência naval.
Esse seria o projecto que levaria Zheng He até África, e muito provavelmente até às Américas, já que parecem existir vestígios, e não só na zona do Pacífico, em Fusang.

Cito aqui o blog Portugalliae do José Manuel (2009):
(...) Gunnar Thompson questiona porque atribuem a descoberta da América a Colombo se romanos e os portugueses já conheciam a Florida? Actualmente ele defende que os chineses também lá iam, eu digo TODA a gente lá ia e voltava, a peste e guerras reduziu substancialmente a população na Europa, portanto não havia interesse de se dar a conhecer territórios vastíssimos no Continente Americano, os mapas que se conheciam eram segredos de comércios, malagueta milho peru drogas metais etc. eram trazidas para as cortes europeias, e egípcias, isto está documentado, só não vê quem não quer.
Ora, este propósito de evitar perda de população - ou pior, perda do controlo da população, era algo que sempre pareceu preocupar os poderes, desde o velho Senado de Cartago (conforme refere Aristóteles), até mesmo os chineses, conforme refere João de Barros.
João de Barros, falando da Batachina - que queria dizer terra da China - mas que era normalmente usada para as Celebes (Batachina do Moro, havendo também a Batachia do Muar), diz explicitamente (Década Terceira da Ásia, Livro V, cap. 5):
Depois que estes Chijs começaram continuar a navegação destas ilhas, e gostaram deste seu cravo, da noz, e massa de Banda, à fama deste comércio acudiram também os Jáos e cessaram os Chijs. E segundo parece foi por razão de lei que os Reis de China puseram em todo seu Reino que nenhum natural seu navegasse fora dele: por importar mais a perda da gente e cousas que saíam dele, que quanto lhe vinha de fora: como já atrás escrevemos, falando das cousas da China e conquista que tiveram na Índia por razão das especiarias.
É especialmente notável o papel que as pequenas 5 ilhas Molucas, juntamente com as minúsculas ilhas de Banda, tiveram no desenvolvimento comercial mundial. Não sei se é coisa maluca ou de ficar de cara à banda, mas o cravo e a noz-moscada ganharam estatuto de preciosidades superior a ouro... algo só com paralelo na Tulipomania!
Havia um mecanismo de produção, que fazia os saquinhos em Gilolo, e as panelas de barro em Pulo Cabale (Pulo seria nome para ilha, e Cabale para panela)... portanto temos um mecanismo de exportação que usava os indonésios (Jáos) para distribuir depois, ou pela China, ou pela Europa, pela rota da Seda até Veneza, antes do aparecimento português.

Bom, e onde estavam situadas estas ilhas especializadas em comércio global?
Exactamente na zona da Oceania ao lado de uma Papua - Nova Guiné ou de uma Austrália, em que ao contrário, os seus habitantes viviam praticamente como no Neolítico. Algo que só ali teria mudado, de acordo com João de Barros, devido à presença chinesa nas Molucas, e provavelmente em toda a zona marítima oriental ao tempo de Zheng He.

Quando os portugueses ali chegam começa novo período de restrições nas descobertas.
Esta difícil conquista das Molucas é levada por António Galvão, de que já aqui falámos... e que depois cairá em desgraça, quando regressado à corte lisboeta, sempre pronta a cortes.
De novo coloca-se a questão de Tordesilhas pelo anti-meridiano, e se algo poderia justificar inicialmente um encobrimento, a presença espanhola naquelas ilhas da Melanésia também irá acontecer após a viagem de Magalhães, numa partilha entre o imperador Carlos V e D. João III.

Dado o interesse nas Molucas, que a sul do Mar de Timor têm a Austrália, na zona da cidade de Darwin, parece algo incompreensível o desinteresse. Já sabemos das proibições, nomeadamente da Companhia da Índias Holandesa, dos mapas alterados, de que se queixou Dampier e tantos outros...

Achámos curioso o relato de Manoel Pimentel (Arte de navegar, 1752, pg.440), que diz, acerca da restrição de estar na parte sul de Timor apenas nos três meses de Verão (Fevereiro a Abril):
Este vento Sul é tão impetuoso que colhendo algum navio daquela parte do Sul [de Timor], o faz soçobrar ou dar à costa, mas a natureza acudiu a este perigo com tal providência, que oito, ou nove dias antes da mudança do tempo começam a soar debaixo do mar, da parte donde há de ventar, uns roncos, que os naturais da terra e navegantes têm por certo aviso
Acresce ainda que no seu livro (pág. 439) Pimentel diz que o melhor caminho para Timor seria, é claro, navegando directamente de África após o Cabo da Boa Esperança... indo encontrar rapidamente a Nova Holanda (Austrália), e até mais rapidamente do que indicavam as cartas ("por força das correntes").
Especificamente, indica a latitude de 21 a 22 graus, e que se evitasse o baixio "Trial", indo encontrar a "Terra Nova" a 1350 léguas portuguesas...

Vemos aqui que "Terra Nova" foi designação que se aplicou também à Austrália... como tantas outras já especuladas desde Java-a-Grande, Terra Magalanica, ou mesmo Nova Guiné.
Aconselhamos um livro de G. Collingridge (1895)
Being The Narrative of Portuguese and Spanish Discoveries in the Australasian Regions, between the
Years 1492-1606, with Descriptions of their Old Charts.

que tenta mostrar a presença portuguesa na Austrália. É claro que tentativas destas parecem sofrer o escárnio e maldizer da academia portuguesa, que se preocupa mais em abafar e perder registos históricos.
Assim no final usamos a citação dos Lusíadas de Camões, que refere Sunda (Java, que deu nome ao estreito) e Banda (a sul está a Austrália):

Olha a Sunda tão larga que uma banda
Esconde para o Sul dificultoso

... e foi assim que Collingridge abriu o seu livro - com Camões!


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publicado às 07:59


Taybencos, a que agora chamamos Chins

por desvela, em 23.02.11
Já houve tempos de censura... e hoje estamos a ser conduzidos para tempos de auto-censura.
O exemplo do wikileaks não é tanto um caso de censura, é uma indicação para auto-censura. O que é difundido pelos meios de comunicação tem um propósito. Neste caso, os jornalistas são avisados que devem ser contidos na liberdade de expressão... ou arriscam-se às consequências.
Se os agentes secretos devem estar reservados ao sigilo, pelo seu compromisso profissional, os jornalistas que sabem dessa informação não fizeram nenhum voto de sigilo, para estarem comprometidos a uma efectiva limitação da sua liberdade de expressão.

António Galvão, que é uma nossa fonte preferida, dizia algo bastante instrutivo:
 (,,,)  não podia ser a Terra toda sabida, e a gente comunicada, uma com a outra, porque quando assim fosse se perderia pela malícia e sem justiça, dos habitantes dela.

É um efectivo aviso ao mundo onde começava a viver... um mundo global, sem qualquer alternativa, nunca se livraria da malícia e da injustiça dos homens, seus governantes. 
Mais do que um mundo global, avizinhava-se uma prisão global.
Como é claro, a prisão só é percepcionada por aqueles que viram a altura das paredes que os cercam... todos os outros, que não vislumbram restrições, esses consideram-se livres. Afinal, nunca nenhuma ditadura suprimiu a liberdade de expressão para receitas de culinária e casos de futebol. 
Os limites da liberdade de expressão só são perceptíveis por quem tem algo inconveniente para revelar.

Feita esta pequena introdução conjuntural, continuamos com António Galvão, acerca dos descobrimentos chineses:
E porque os maiores descobrimentos e mais compridos foram por mar feitos, principalmente em nossos tempos, desejei saber quais foram os primeiros inventores disto, depois do Dilúvio. 
Uns escrevem que foram os Gregos, outros dizem que os Fenícios, outros querem que os Egípcios... Os Índios não consentem nisso, dizendo que eles foram os primeiros que navegaram, principalmente os Taybencos, a que agora chamamos Chins... e alegam para isso serem já senhores da Índia até ao Cabo de Boa Esperança, e a Ilha de São Lourenço por ser povoada deles ao longo da praia (...)
O nome Taybencos (Taibencos, ou Tabencos) associado aos Chineses encontro-o exclusivamente na obra de Galvão e nas citações que lhe foram feitas. Seria mais associável à Tailândia, mas Galvão é claro, e as traduções seguem-no.
Há ainda que notar que Galvão usa uma expressão geral de Índios... talvez a única adequada à época. Os índios não seriam mais do que todos os povos de feição oriental. Por isso, haveria as Índias Ocidentais e as Orientais... as feições do povo eram consideradas semelhantes, em partes geográficas distintas.
Também não havia notícia de chineses em Madagáscar (Ilha de São Lourenço)... e porém aqui está o registo do seu povoamento ao longo das praias da ilha.

É sempre preciso colocar António Galvão no seu devido lugar, e para isso é preciso recorrer a autores estrangeiros. Quando o Almirante Charles Bethune reedita a obra de Galvão em 1862, traduzida por Hayklut em 1601, diz claramente que: 
But his deeds were not limited to earthly conquest. Galvano, so intrepid at the head of this troops, might also be seen, with a crucifix in this hand, preaching the Gospel publicly, whereby he became known as the "Apostle" of the Mollucas. (...)
Faria e Sousa sums up his high qualities in these words: "His fame will never perish so long as the world endures; for  neither weak kings, nor wicked ministers, nor blind fortune, nor ages of ignorance, can damage a reputation so justly merited
He spent the latter part of his life in compiling an account of all known voyages, and thus he may be styled the father of historical geography.
Para o Almirante Bethune, Galvão é o Pai da Geografia Histórica, para os portugueses será um completo desconhecido, ausente de qualquer referência condicente na História de Portugal. 
O último registo é a reedição de Miguel Lopes Ferreira, em 1731, dedicada ao Conde da Ericeira, D. Luiz Meneses. O tempo de D. João V irá terminar, e com o Marquês de Pombal, todos os registos vão cair na destruição do Terramoto. 
O livro ficará com o epíteto de "raríssimo" até aos dias de hoje... tão somente porque as mesmas forças que condenaram a figura ímpar de Galvão à mendicidade, nunca deixaram de estar presentes e a comandar os nossos destinos.

Galvão prossegue na descrição:
... e os Jaos [Java], Timores, Selebres [Celebes], Macasares [?], Malucos [Molucas], Borneos, Mindanaos, Luções, Léquios, Japões e outras ilhas, que há muitas, e as terras firmes de Cauchenchinas [Conchinchina, Vietname], Laos, Siamis [Sião, Tailândia], Bremas [Birmânia], Pegus [Birmânia], Arracões [?], até Bengala & além disto, a Nova Espanha, Perú, Brasil, Antilhas e outras conjuntas a elas, como se parece nas feições dos homens, mulheres & seus costumes, olhos pequenos, narizes rombos, & outras proporções que lhe vemos. E chamarem ainda agora a muitas destas ilhas & terras Batochinas, Bocochinas, que quer dizer Terras da China.
Ou seja, Galvão aparenta deduzir pela semelhança fisionómica que todos estes povos [basicamente   a maioria das ilhas do Pacífico, Indico, e toda a América] estavam ligados aos chineses, e eram seus descendentes, por colonização... invocando a designação Batochinas com possessões chinesas.

Mas Galvão acrescenta ainda mais razões para serem os Chineses os primeiros navegadores:
Além disto os nossos escritores deixaram escrito que a Arca de Noé, se assentara da parte norte dos montes da Arménia, que está de 40º para cima [o monte Ararat está a 39º42'], e que logo dali fora a Schytia povoada por ser terra alta e a primeira das águas a ser descoberta. E como a província dos Thaibencos seja uma das principais da Tartaria (se assim é como dizem) bem se mostra serem eles dos mais antigos povoadores e navegadores. Pois neles se acaba aquela terra do levante & os mares são tão bons de navegar como os rios destas partes, por jazerem entre os trópicos onde dias e noites não fazem muita diferença, assim nas horas como na quentura, por onde não há ventos tão destemperados que alevantem as águas, nem as façam soberbas. 
E por experiência o vemos nos pequenos barcos em que navegavam, com um ramo por mastro, & vela, & um remo na mão com que governam, correm muito mar e costa. E assim, nuns paus a que chamam Catamarões, em que se escancham ou assentam & vão com o outro remando. E querem ainda que estes Chins fossem senhores da maior parte da Scithia & que navegassem toda a sua costa, que parece estar até 70º da parte norte. 
Cornélio Nepote referido, assim o aprova, onde diz, que Metelo, colega de Afranio, estando por consul em França, el rey da Suévia lhe mandara certos índios, que vieram pela parte do norte, às praias da Alemanha, & segundo isto devia ser da China, por estar de 20º, 30º, 40º para cima, e tem naus fortes e de pregadura que podeiam sofrer mares e terras tão frias e destemperadas como aquela. 
Se o primeiro argumento está envolto naquilo a que nos habituámos a ver como mito do Dilúvio, os outros argumentos já são de mais difícil contra-argumentação. Por um lado encontramos o primeiro registo aos Catamarãs... designados por Catamarões, e de facto a navegação naquelas partes nada tem a ver com as dificuldades atlânticas. 
Por outro lado, o registo romano de Cornélio Nepote (100-30 a.C), mostra um argumento de navegação organizada, exploratória, que contactou a Alemanha - os Suevos, Suevos que depois se iriam instalar em Portugal e Galiza. Ou seja, esse registo pode não ter sido esquecido dos reis Suevos, ao focarem a sua migração ibérica. Esse registo é tanto mais notável quanto mostraria uma eventual travessia da Passagem Nordeste.

Galvão tem o relato vivido da época. Se os portugueses conquistam o Indico e atingem a China em menos de 20 anos, com D. Manuel, isso mostra um enfraquecimento de qualquer poderio naval, seja dos muçulmanos, seja dos chineses. No entanto, Galvão procura ter o distanciamento suficiente para aceitar que os relatos chineses corresponderiam a efectivas navegações... e essa verdade contrariaria toda a História que se estava a preparar para ser contada durante séculos até hoje!

[Este post surge na sequência do contacto com http://www.redescobrindoobrasil.com.br/   que agradecemos]
.

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publicado às 01:05


António Galvão (2)

por desvela, em 10.12.10
 (continuation from here)

We proceed with the account of Galvano's text:  Tratado dos descobrimentos antigos e modernos (1563)

Chinese sailing. In the beginning of his text Galvão brings the dispute on the first sailing achievements. In 1560 he has no problem in giving some credit to Indians or Chinese (and Taibencos - a name now lost, it may be associated to Thailand and other Southeast Asian cultures). In fact he states that the weather is so warm and the seas are so calm, that even in a canoe discoveries could be made.

Jason and Alceus. Galvão places the legend of Jason (and Alceus) with the Argonauts, around the same time. The voyage was from Crete (or Greece) to the Pontus through St. George to the Euxinus. Then Alceus continued traveling by land until North Germany, and proceed by the coast of Saxonia, Frisia, Nederlands, France, Spain reaching again the Peloponnesus and Tracia - this he calls the “discovery of most part of Europe”.
Jason's voyage to Colchis with the Argonauts - "ancient" names of Caucasian provinces.
... one should ask - an epopee reporting a short voyage - almost a fishing trip! 

Menelaus. Like Duarte Pacheco Pereira, Galvão quotes Strabo (that cites Aristonico) to credit the voyage of Menelaus around Africa (counterclockwise) , and almost offers no doubt about it. He emphasizes that the Mediterranean Sea was called Adriatic, Aegean, or Herculeo... according to different times. Like Pacheco Pereira, it is now Galvão that diminishes this 15th century Portuguese achievement of Gama, crediting it to Menelao, after Troy.
We now have two accounts of ancient sailing… Menelao embarked on a journey around Africa, Ulysses was lost sailing on unknown seas (… probably the Atlantic) at the time of Troy. 
Previously, when Galvão mentions Troy, he says that it was founded (around 800 years after the Deluge) by the Dardanes “who brought from the Indies to Europe spices, drugs, and so many other things that are scarce now”. He also says that their main port was called Arsinoe (complaining that it was renamed Suez), and the trade continued in caravans of camels to the Eastern Sea, to a town called Cazom, all this before Pharaoh Senusret.

Solomon. Galvão gives credit to King Solomon travels, in the years 1300 after the Deluge. Solomon made an army that embarked on a three year sailing journey to lands called Tarcis and Ophir. As they brought many gold, silver, cypress and pine, he then assumes that the only possibility is that they had sailed to Luzon (Philippines: Luções), Okinawa (Japan: Lequios) or China. Galvão deliberately misses to justify the gold… it may seem he is avoiding to identify Tarsis with Spain or to locate Ophir in America, where these materials were common.  

Spanish Carthaginians. Around 600 BC, Galvão also accounts a voyage of Carthaginians merchants that departing from Spain, going west, discovered islands (attributed to be the Antilles), and found land that Gonzalo de Oviedo considered to be Nova España.
This just means that even Gonzalo de Oviedo (1478-1557), the Spanish historian, was diminishing the pioneer voyage of Columbus, crediting a similar accomplishment by Carthaginians 2000 years before… Why?
At the time of Gonzalo Oviedo it was clear that Columbus voyage only served political purposes. Portuguese, had been there before, and it was somehow important to show that Spanish were there even much earlier, even if at the time they were Carthaginians.

Hanno. This is perhaps the most common name associated to Carthaginian sailing. It is reported that him and his brother Himelion were rulers of Andalucía and each one went on separate sailing trips in 440 BC. 
  • Himelion went upwards until France, Germany, probably Sweden and even Iceland. Galvão associates it to the Iceland island Thule (66º N), so cold that he calls it “St. Patrick’s Purgatory”, and describes the volcanoes, one of which was called Ecla (~Katla?). He goes even further, saying that the fish were so big that a church was made from the bones (this might sound not so surprising today, as we are acquainted with whales dimensions… but it could sound bizarre at the time. Reports sound strange and fabulous if you are not familiar with them, and when you are instructed to reject them).
     
  • Hanno went along the Coast of Africa, finding the Fortunate Islands that Galvão associates to the Canaries, and other archipelagos: Dorcadas, Hesperias and Gorgonas. Concerning these islands he just says that others associate them to the Cape Verde archipelago. Like Duarte Pacheco Pereira, both based on Strabo’s account, state that Hanno made the whole tour of Africa until Guardafuy Cape, previously called Aromatic Cape. Of course he says that others pretend that he never went further than Sierra Leona, and that he was followed by Publio only until the Line (?~Equator Line). However Galvão argues that it took 5 years to Hanno to return to Spain, and this would have been too much time for such a travel... probably meaning (in an implicit fashion) that Hanno’s visit to the Hesperides and other islands was in the American continent.

Persians. Galvão also states that previously to Hanno, in the year 485 BC, the Persian emperor Xerxes sent his nephew Sataspis to make the same contour of Africa.

The most impressive conclusion that one gets while seeing all the list made by Galvão is that Atlantic navigations were quite common in all times, and were reported by different civilizations. 
Nowadays, since the celebrated Kon Tiki and other solitary navigations in small boats, it was made clear to the general audience that the major difficulty in ancient sailing was orientation, which was not a problem for sailors with some knowledge of the stars and sun movements... it could be a problem only to produce exact charts. 
  • Despite the evidences, people are led to believe that a short voyage from Greece to the Black Sea could justify the writing of Jason's epopee... knowing that it is more difficult to sail between greek islands.
  • Or even more ridiculous... we are led to believe that the Greeks would gather in a voyage to Troy that it was in the nearby shore, Troy would be closer to Mycenae/Athens than to other greek cities like Miletus...
  • Le coup de grâce, we are led to believe that Ulysses adventure, 10 years lost in the sea, was held in the Mediterranean... as if it was possible to a Greek sailor to be that lost in the Mediterranean.
As a consequence, if we are led to believe in all this, since we were young, it is easy to control our mind and the way we think.

(to be continued)

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publicado às 16:56


António Galvão (1)

por desvela, em 24.11.10
The most astonishing account of the world discoveries that survived to our eyes, is probably the one by Galvão (Antonie Galvano). We cite the 1601 preface to the translation of Discovery of the World, made by Richard Hakluyt, addressed to Robert Cecil, Earl of Salsbury, spymaster at the service of Queen Elizabeth I:
"The work though small in bulk contained so much rare and profitable matter, as I know not where to seek the like, within so narrow and straight a compasse".

Hakluyt seemed truly surprised and marvelled with Galvano's account... in particular he emphasizes the causes of the alterations of courses from East to West, and the ceasing of all traffic by the Goths invasion. This means that this information was kept secret in England, even to Robert Cecil, a spymaster... high rank English officials were starting to discover a completely different story. Some years after this publication, a civil war would be lead against the monarchy, by Cromwell. 

In Galvão you may found a consistent theory with statements of previous contacts between China, Europe and America. Some of these relations are now accepted, but most of them were lost in History books, some are made myths, or simply foolish theories - you pick!

King Tubal. Galvão starts to recall the Hispanic myth of King Tubal that in the year 143 after the Biblical Deluge travelled from the Caucasus to the Iberian Peninsula. This is quite interesting as the Caucasus may be divided in three regions, Colchis, Iberia and Albania. Colchis links to the east part of the Black Sea, Albania to west part of the Caspian Sea, and Iberia was in the middle… Mount Ararat is nearby, in Armenia.
Caucasus Kingdoms: a sketch in the “Atlas of Ancient and Classical Geography” by Samuel Butler

Colchis is associated to the trip of Jason and the Argonauts, searching the Golden Fleece of its King Aeetes (son of the sun-god Helios and of the oceanid Perseis). 
The association of the Caucasian Iberia and the Iberian Peninsula is only kept through this legend? 
It is worth noting also that Albania became a country located west, above Greece. These caucasian lands were later connected to the Alans that invaded the Iberian Peninsula in the 5th century AD. The name Lancaster was written in Portuguese as Alancastro, meaning “Castle of the Alans”… but this is a later story.
Galvão states that navigations already took place by the time of King Tubal. 
The name Tubal was associated to the portuguese city Setubal and nearby Troia (Troy, in portuguese)... until the XIX century. You may think that after the Spanish Inquisition, no such thing exists anymore, or you may wonder if a soft inquisition takes place - secrets are kept with intelligence... and agencies!
A work that is not known is not a menace, you just have to control the damage... if it happens to be known to a larger audience, you descredit them with a respectable academic lobby. You just have to wait, and people will forget about it.

Galvão also talks about the mythical voyage of the amazon queen Semiramis to Ethiopia and the defeat of an Indian King Escorobatis, with a fleet of one thousand ships, near the Hindu river. 

King Hispalo. Galvano continues, stating that by the year 650 after the Deluge, King Hispalo of the Iberian Peninsula sailed up to Cape Verde. He goes even further, saying that Gonzalo de Oviedo (in “Chronicas das Antilhas”) conjectured that Hispalo even went to the Antilles, and this was the reason why Antilles were called Hesperides in ancient times. He then relates in a subtle way the Atlantis account of Plato to the whole America, and goes even further saying that their Kings were at some time the Lords of “our lands”. He goes even further, and the text is worth reading… (for instance, he mentions lost islands of Calex and Frodisias, and that Azores and Madeira Islands were just a part of a whole land. Gibraltar Strait was closed, Sardinia and Corsica were gathered, Sicily and Italy too… ) 

Connecting islands to main lands in ancient times, he also states that Ceylon might have been connected to India, and Sumatra to the Malayan Peninsula, profiting to declare also a connection to a nearby firm land, that he does not name... but it could be seen as a report of Australia (only officially discovered centuries after Galvano’s text). 

Going further on, he reports also a probable connection between Sumatra and Java (named Samatra and Jaoa in the text) and other islands until Borneo. He also mentions a probable ancient connection between China and Hainan (Aynao) island. These explanations were given to justify some difference to Ptolemy maps that he believed that should deserve more credit. 

Pharaoh Senusret. Galvão also reports sailings in Pharaoh Senusret (Sesostres) time, around 900 years after the Deluge, before the War of Troy. He also mentions that Senusret made a channel between the Red Sea and the Nile at the city of Seroum (probably Sharuna). This was made to ease the trade between India with Europe. However he then states that this took no effect “otherwise Africa would be an island”!! Anyhow, from this information, using Google Maps, we noticed a huge valley  going from the Nile into the Red Sea.

(to be continued)

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publicado às 18:40


Cola do Dragão

por desvela, em 21.07.10
Por vezes, convém colocar as coisas nos termos que foram usados, e sobre os quais não restam dúvidas que foram usados, antes das designações actuais.
Já falámos no Estreito de Anian (hoje de Bering), é evidente a designação Monte Prasso (para o Cabo da Boa Esperança), que consta até no mapa de Cantino, e que (conforme reparou KT) é a designação usada na correspondência de D. João II com o Papa.
Falamos hoje da Cola do Dragão, depois Estreito de Magalhães, e para que fique claro, colocamos em mapa estes 3 pontos:

Fazemos a propósito de saudar a edição online da Biblioteca Nacional da obra de António Galvão (1490-1557), trata-se do
Tratado dos descobrimentos antigos e modernos

Ler António Galvão e o prefácio do seu contemporâneo Francisco de Sousa Tavares, é mais um passo para perceber o inexplicável... a razão de tanta omissão, ao longo de tanto tempo. A propósito deste assunto diz António Galvão (pág. 22):
No ano de 1428 diz que foi o Infante D. Pedro a Inglaterra, França, Alemanha, à Casa Santa, e a outras daquela banda, tornou por Itália, esteve em Roma, e Veneza, trouxe de lá um Mapamundo que tinha todo o âmbito da terra, e o Estreito de Magalhães se chamava "Cola do Dragão", o Cabo de Boa Esperança: "Fronteira de África", e que deste padrão se ajudara o Infante D. Henrique em seu descobrimento. Francisco de Sousa Tavares me disse que no ano de 1528 o Infante D. Fernando lhe mostrara um Mapa que se achara no Cartório de Alcobaça que havia mais de cento e vinte anos que era feito, o qual tinha toda a navegação da India, com o Cabo de Boa Esperança, como as de agora, se assim é isto, já em tempo passado era tanto como agora, ou mais, descoberto.
António Galvão diz muito mais... damos um exemplo:
No ano de 1353, em tempo do Imperador Frederico Barba Rossa, diz que foi ter a Lubres, cidade da Alemanha uma nau com certos Indios numa canoa, que são navios de remo, parecem-se aos tones de Cochim, porém esta canoa devia ser da Costa da Florida Bacalhaos, e aquela terra por estar na mesma altura da Alemanha, que os Tudescos ficaram espantados do tal navio e gente, por não saberem de onde eram, nem entenderem sua linguagem, nem terem notícia daquela terra, como agora, porque bem os podia ali levar o vento e água, como vemos que trazem as almadias de Quiloa, Moçambique, Sofala, e Ilha de Santa Elena, que é um ponto de terra que está naquele grão mar daquela Costa, e Cabo de Boa Esperança, tão separada.
Mas não dará todas as respostas...
Fala das origens em Tubal, Ibero, das navegações de gregos, fenícios, cartagineses, egípcios, chineses!
É especialmente notável ele referir viagens chinesas e romanas... completamente esquecidas!

É um herói português de proezas militares ímpares em Maluco que acaba desgraçado num Hospital durante 17 anos... (Maluco - relembramos ser uma zona que incluía as Ilhas Molucas...)
Não é acidental a conotação Maluco, pois isto é um jogo mental que é levado às últimas consequências.

Porquê?
Começamos pelo "Museu dos Coches", ou antes, citamos a Wikipedia sobre o tema Carruagem:
As carruagens surgiram, inicialmente no século XIII a.C, inventado pelos Hititas com uso militar e não civil, posteriormente as carruagens apareceram na Roma Antiga, no séc I a.C.. No entanto não circulavam na sua maioria dentro das cidades, pois o movimento era tanto que iriam gerar muitos problemas. Estas podiam apenas circular durante a noite dentro das cidades para transporte de mercadorias. Após a Queda do Império Romano do Ocidente a técnica de fazer carruagens desapareceu.
Só já no séc.XVI as carruagens começaram a ser utilizadas. As classes mais ricas eram as únicas que se podiam dar ao luxo de possuir um veículo destes. No séc. XVII as suspensões melhoraram e por conseguinte as carruagens também. 
Depois cito o próprio António Galvão:
Depois que os Romanos senhorearam a melhor parte do mundo se fizeram muitos, e notáveis descobrimentos, mas vieram os Godos, Mouros e outros Bárbaros, e destruiram tudo porque no ano 412 AD tomaram a cidade de Roma, (...)  
E no ano de 474 AD se perdeu o Império de Roma e depois disto vieram os Longobardos a Itália no qual tempo andavam os demónios tão soltos pela terra que tomaram a figura de Moisés, e os Judeus enganados foram muitos no mar afogados. E a seita Ariana prevalecia.
E Merlim em Inglaterra foi neste tempo. E no ano 611 AD foi Mahamede e os de sua seita que tomaram por força África e Espanha. 
Assim que segundo parece nestas idades todo o Mundo ardia, por onde dizem que esteve 400 anos tão apagado e escurecido que não ousava nenhum Povo andar de uma parte para outra, por mar, nem terra, tão grande abalo e mudança se fez em tudo que nenhuma cousa ficou em seu ser, e estado, assim Monarquias como Reinos, Senhorios e Religiões, Leis, Artes, Ciências, Navegações, escrituras que disso havia, foi tudo queimado, e consumido segundo consta porque os Godos eram tão cobiçosos da glória mundana, que quiseram começar em si outro Novo Mundo, e que do passado não houvesse nenhuma memória.

Tal como depois D. Sebastião, António Galvão é um herói que procura ir longe de mais... é claro que os portugueses já tinham ido longe de mais no Século XV.

Em nossa opinião, António Galvão tem uma visão parcialmente acertada, mas devemos ir ainda mais atrás para procurar a origem do problema... e não será difícil.
O dragão colou o seu rasto... no post anterior começámos no Império Romano, mas deveríamos ter recuado ainda um pouco mais!

Aquilo que cola o dragão é o seu apego histórico - é por aí que encontramos o registo. 
Tudo foi apagado? 
Qual o registo histórico elevado ao máximo expoente, e nunca beliscado pelos tempos conturbados?
  • Começamos pela Guerra de Tróia?
  • Começamos por Platão, pela "alegoria da caverna", pela Atlântida, ou pelo destino de Sócrates?
  • Começamos pelo discípulo de Aristóteles, Alexandre Magno e pela conquista ocultada da Hispania?
A herança greco-romana, elevada ao máximo expoente por Alexandre Magno, nunca foi beliscada!
Porquê?

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publicado às 06:13


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