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O engenho a vapor que se vaporiza (2)

por desvela, em 22.11.13
Surge hoje uma notícia que vem confirmar a invenção prévia de máquinas a vapor em Espanha:
A Biblioteca Nacional espanhola anunciou hoje ter adquirido um documento datado de Espanha do início do século XVII que faz referência ao que tudo indica ser uma máquina a vapor, 100 anos antes da sua invenção.  ________ Datado de 1600, o documento descreve as ideias do navarro Jerónimo de Ayanz e Beaumont, comendador de besteiros da ordem de Calatrava, sobre o uso "industrial da energia do vapor mediante uma série de engenhos" (...)  

 Ler mais em
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=697830&tm=4&layout=121&visual=49
http://expresso.sapo.pt/documento-espanhol-do-seculo-xvii-faz-referencia-a-uma-maquina-a-vapor-primitiva=f842455

O assunto já tinha sido aqui abordado, com uma documentação ainda mais antiga, relatando não apenas uma invenção de máquina a vapor, mas de um inteiro barco a vapor, apresentado a Carlos V:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/02/o-engenho-vapor-que-se-vaporiza.html

... portanto, não é a mesma notícia, é algo de muito mais suave, mas caminha na direcção certa de desencobrimento da monstruosa cobertura que nos envolve.

Sobre Jeronimo de Ayanz y Beaumont, pudemos ler rapidamente uma descrição constante de um artigo de 2003:
Out of his experience as overseer of mines came not only new assaying techniques but a precision balance, designs for more efficient furnaces, a steam injector to ventilate mines (a priority after his assistant was poisoned by toxic gases), and pumps using pressurized steam to drain flooded mines. He also developed a diving bell and suit for retrieving underwater treasure, shipboard pumps, a submarine, windmills, and sundry other useful machines.
Un inventor navarro: Jeronimo de Ayanz y Beaumont (review), Alison Sandman
 
Imagens da página


Portanto isto não é novidade, como atestam artigos antigos, a novidade é mais o esforço da Biblioteca de Espanha na divulgação.
No entanto, devemo-nos lembrar que as notícias do barco a vapor de Blasco de Garay, contemporâneo a Cortés, Pizarro, (até de Colombo), também as obtivemos em jornais do Séc. XIX, e pouco ou nada adiantaram -- foram simplesmente esquecidas pelas gerações seguintes.

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publicado às 23:10


Quinotauro de Chauvet

por desvela, em 09.09.13
Devo começar por dizer que o título não é meu, vem emprestado de um texto noutro blog :
Rokus blog: The demise of oriental neolithic admixture
juntamente com a figura que o justifica:

Esta representação mista de um touro e de um ventre feminino está na Gruta de Chauvet, e terá perto de 30 mil anos. Estamos portanto na época do Paleolítico, e quando foi descoberta, em 1994, esta gruta teria as pinturas rupestres mais antigas até então. 
Aqui ultrapassa-se claramente a simples representação literal, há uma composição pensada, ao ponto da perna do touro se confundir com a representação da perna feminina.
A questão sobre uma alusão ao mito do Minotauro coloca-se com muitos milhares de anos de diferença!

O nome "Quinotauro" é invocado nesse blog devido a uma lenda francesa antiga, do período merovíngio, do Séc. VII. O rei Meróvis, fundador da linhagem Merovíngia, teria sido gerado por um "quinotauro marinho", de acordo com a Crónica de Fredegar (ou Fredegário). A menção "quino", o número 5, parece dizer respeito a uma representação de Neptuno com o tridente (3) mais os cornos (2). A lenda reportada por Fredegar insere-se numa época suficientemente obscura, e já aqui mencionámos o registo lendário de Fredegunda, Brunilda, bem como o registo que leva à lenda dos Nibelungos, imortalizado pela ópera de Wagner (e também na fantasia do Senhor dos Anéis).
Curiosamente a Crónica de Fredegar parece ter sido continuada por ordem de Childebrand, um filho de Pepino II, que dará origem à linhagem Nibelunga, enquanto um outro filho, Carlos Martelo, será avô de Carlos Magno. A vitória de Carlos Martelo contra os muçulmanos em Poitiers, em 732 d.C., será decisiva não apenas para a circunscrição dos mouros apenas à península ibérica, mas também para terminar com a dinastia merovíngia. Desde Pepino I que os mordomos-mor já eram efectivos regentes, enquanto os reis merovíngios eram considerados reis-mendigos, tal era a sua ausência de poder ou riqueza. A vitória contra os mouros deu apenas o pretexto aos carolíngios para apresentar formalmente o poder real que já se conhecia nos bastidores do palácio, em que os "mordomos" passaram a efectivos governantes.

Bom, mas sobre esta época mítica francesa, já falámos no texto Tabula Peutingeriana.
Interessa aqui voltar à figuração representada, independentemente de ser interessante o mito taurino reaparecer na Creta do rei Minos, ou depois como legitimação mítica da dinastia Merovíngia.
Tendo visto o filme-documentário "Gruta dos Sonhos Perdidos" de Werner Herzog, dedicado em exclusivo à Gruta de Chauvet, o tema das pinturas rupestres regressou com novas interrogações.

Primeiro, o fecho da gruta é aqui acidental, provocado por uma derrocada que tapou a entrada, deixando preservado um museu vivo com 30 mil anos. Depois, esse retrato da vida pré-histórica parece bem diferente do que é comum pensar. Um aspecto notável é que a gruta não servia então para habitação, não se encontram restos humanos, nem vestígios de restos alimentares. Acresce que só havia pinturas em locais remotos, bem no interior da gruta, pelo que a gruta teria um propósito ligado às representações e a eventuais cultos associados. 
Onde habitavam então aqueles pintores? 
A gruta está muito perto de uma notável formação rochosa, denominada Pont d'Arc, e é nessa zona que foram encontrados em escavações alguns vestígios paleolíticos.
Pont d'Arc, a centenas de metros da Gruta Chauvet.

Não me atrevo a dizer se Pont d'Arc é ou não natural... é certamente uma estrutura rochosa notável, com uma enorme abertura arredondada numa espessa rocha. Se aquela abertura não existisse as águas deveriam subir umas dezenas de metros formando cascatas, e a zona jusante estaria sujeita a inundações. Assim, o fluxo do rio ficou regularizado, e as águas de Neptuno penetram a dura rocha da mãe Terra pela abertura.

A gruta permanece fechada ao público, com os compreensíveis argumentos de protecção, mas que são de tal forma exagerados, que Werner Herzog se queixa moderadamente da sua circunscrição a um trilho muito bem definido, e a um efectivo impedimento de filmagens para além do estipulado.

A questão da datação fica aqui difícil de contornar porque algumas pinturas tinham já uma deposição de cristais na parede, por cima das figuras, acusando uma grande antiguidade. Havia estalagmites formadas em cima de caveiras de ursos, mas nada vi que aponte para tantos milhares de anos. Essa conclusão resulta da datação por Carbono 14 e especialmente pelas imagens representadas, com a fauna que deixou de existir - nomeadamente rinocerontes com um unicórnio muito mais proeminente do que o habitual.

Ficam diversas questões. A datação por Carbono 14 apontava diferenças entre as pinturas na mesma parede que podiam ir até 5000 anos... e pergunta-se 5000 anos?
Que civilização mantém 5000 anos de tradição sem um desenvolvimento?
Os arqueólogos da pré-história parecem tratar milhares de anos como se fossem dezenas.
Compreendia-se um intervalo de 50 anos, com muito maior dificuldade de 500 anos... mas 5000 anos?
Estamos a falar de um período que vai desde as primeiras pirâmides egípcias até hoje, não estamos a falar do tempo como um número qualquer. 5000 anos é o tempo da civilização humana conhecida, e o que se passou nesse período não se resumiu a olhar para o curso de um rio e dar um retoque numa pintura.
Acho que tem que haver limites para o ridículo, e devemos ser críticos, com bom senso. 
Ninguém pode dizer, sem se rir, que houve ali uma população que se dedicou à pesca de rio durante 5000 anos, que tinha uma gruta onde alguém fez umas pinturas notáveis, e esperaram milhares de anos para uns retoques e novidades.

Outro problema complicado é a singularidade artística das pinturas. À excepção das grutas não se encontram outros vestígios correspondentes. Mesmo as mais formosas Vénus, encontradas em escavações, têm habitualmente um traço tosco, quando comparado com o que ali se vê em termos técnicos.
Qual a explicação?
A explicação mais convincente parece-me ser uma casta de conhecimento. Ou seja, insisto na ideia de que haveria uma classe sacerdotal, de xamãs, que controlava a população. Essa teria acesso à gruta, e preservaria as representações dos olhares restantes. Há uma pegada de uma criança de 8 anos, que poderia ser um iniciado. 
Durante um número indeterminado de gerações, os xamãs controlariam um conhecimento e deixariam a restante população num estádio muito inferior de desenvolvimento, para mais fácil controlo. Isso explicaria que as esculturas encontradas sejam razoavelmente toscas... são meros artefactos feitos a partir do estádio zero de desenvolvimento, repetidos sem um acumular de conhecimento. O conhecimento acumulado era apenas passado para o novo candidato a xamã, escolhido desde tenra idade, com a missão de preservar o "jardim do paraíso". 
Fariam o papel de deuses, tentando evitar que o progresso destruísse a harmonia que controlavam.
O avanço civilizacional resultou da obstinação de muitos, que quiseram abrir a Caixa de Pandora, apesar de todas as restrições colocadas pelos "deuses de serviço". O maior perigo... a tentação do xamã, a necessidade de preservar o seu estatuto sigiloso. Afinal, ainda que passasse as provações necessárias para a sua fidelidade última, bastaria uma paixão feminina para transformar a cabeça do homem numa besta taurina, deitando a perder uma herança milenar de segredos. Sem o controlo dos xamãs, o que seria daquela herança de deuses, daqueles que prescindiam do seu "eu" para serem "de eus", de todos os "eus"?

Repare-se, se houve pinturas que resistiram em cavernas durante tantos milénios (não importa se foram 30 mil ou apenas 10 mil anos), se se tratasse de uma faculdade popular, por que razão não haveriam de ser comuns os registos de pinturas em tantas grutas que há? Não são comuns, porque se tratava de um conhecimento muito restrito, detido apenas pelos xamãs - não era do conhecimento da tribo inteira. De entre as crianças que mostravam algum génio, eram seleccionados os herdeiros da tradição, e procurava-se reprimir o génio dos outros. Todos os vestígios eram sucessivamente apagados, a memória ficava no xamã, não passaria de pais para filhos, e toda a nova geração era educada como se nada existisse antes.

Uma filosofia destas só pode ter sido imposta após um acontecimento deveras traumático. Ou seja, deveria haver locais precisos, em que se reunissem provas de tal forma contundentes do que se tinha passado antes, que nenhum aprendiz alguma vez ousaria quebrar o protocolo, perante o perigo de nova catástrofe. Ao estilo de Noé, quem sobrevivesse ao "dilúvio" teria feito um compromisso de preservar a civilização do perigo da auto-destruição, e arranjou forma de o fazer por uma tradição estanque, à prova de tentações próprias. Essa seria razão mais que suficiente para uma herança elitista de secretismo. O mais curioso numa estrutura destas é que ninguém terá completa certeza de ser o último na pirâmide de controlo... só poderia aferir isso se ousasse quebrar por completo o compromisso, pondo em risco a própria segurança pessoal.

Como é óbvio, o traço certo e seguro, ou a técnica artística presente em Chauvet, Lascaux, Altamira,  etc... denunciam que estes não teriam sido nem os únicos, nem os primeiros, nem os últimos lugares onde se passou essa herança.

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publicado às 04:42


Pontas da língua (2)

por desvela, em 26.06.13
Partindo de uma raiz comum, o que pode fazer divergir linguagens?
As linguagens passam de pais para filhos, e estando inseridos numa comunidade, numa tribo, com uma linguagem estabelecida, não se justificaria nenhuma nova linguagem.

Há semelhanças entre todas as linguagens, mas isso é uma pura questão filosófica, que deixarei para o outro blog. Aqui interessa-me considerar a grande diferença entre linguagens.

(de amarelo - língua única - caso português; até verde escuro - múltiplas línguas - caso da Índia > 400)

Para vermos como o assunto pode ser desesperante uso uma citação de um artigo de R. Allott (Diversity of languages. Motor theory of language origin, 1994) 
For centuries, men have speculated about the causes of language change. The confusion and controversies surrounding causes of language change ... some reputable linguists have regarded the whole field as a disaster area, and opted out altogether. (Aitchison 1981)
Portanto, houve simplesmente quem tivesse considerado a matéria como uma área desastrosa, e acharam por bem "cair fora".
Isso poderia deixar-nos mais à vontade para especular, mas o problema é que mesmo especulações minimamente credíveis não são fáceis de estabelecer.

Há duas grandes hipóteses. Ou havia uma linguagem comum, ou apareceram separadamente nos diversos grupos populacionais. A primeira hipótese pode ser chamada "Babel", e a segunda não é muito credível... o que faziam as comunidades juntas se não tinham uma forma de comunicação estabelecida?

Por mimetismo darwiniano, há quem insista numa evolução da língua "Babel" original, tal como faz de um "Adão" hominídeo primitivo. Ou seja, haveria variações linguísticas, que depois redundariam em línguas diferentes, sobrevivendo as mais populares. Como em toda a teoria darwiniana faltam muitos "missing links"... aqui os elos entre as linguagens. Tal como em toda a teoria evolucionista tem aspectos triviais que devem ser considerados - ou seja, é óbvio que uma linguagem impopular desapareceria. Mas não só...

Comecemos por reparar no gráfico estimado para a evolução demográfica desde há 10 mil anos (wiki): 

Já sabemos que houve um "boom" populacional nos últimos 200 anos, associado ao desenvolvimento técnico. Já Fibonacci, no Séc. XIV, uns 400 antes de Malthus, sabia que os coelhos tal como as pessoas se podem reproduzir muito depressa, basta que tenham alimento e condições para isso.

Por isso, desde que o génio humano estivesse liberto de restrições, a partir do momento em que passou a viver da agricultura, poderia ter começado a duplicar a população a cada geração. Em África quadruplicou nos últimos 50 anos, nos outros continentes (excepto Europa), basicamente duplicou. Mas, como os Maltusianos sabem bem, há um ovo de Colombo que se parte - o limite populacional tem a restrição da alimentação necessária à sobrevivência.

Segundo estas estatísticas a sociedade agrícola na Idade Média parece ter variado entre 200 e 500 milhões pessoas. Antes da sociedade agrícola, uma sociedade nómada de caçadores, funcionaria ao género de alcateia de lobos. Tendo em atenção o número de 50 mil lobos existentes no Canadá, podemos extrapolar que, antes da revolução do Neolítico, as tribos caçadoras/colectoras pudessem atingir mais de um milhão de pessoas.
Bom, e quanto tempo é preciso, para passar de um casal de humanos para uma população de um milhão de pessoas? Com uma estimativa semelhante à que se verifica em África hoje, bastariam 500 anos, se usarmos como modelo a América do Norte, seriam precisos 1000 anos. Claro, poderia haver doenças, múltiplos problemas, mas bastariam salvar-se alguns, e aguardar por novos 500 anos de condições favoráveis.

O único ponto que interessa salientar é que não seria preciso esperar milhões de anos... bastam poucos milhares de anos, com uma média de natalidade superior a 3 filhos por casal, independentemente das maleitas, guerras. A população só não cresceria se a natalidade fosse muito reduzida, algo que não seria natural, numa época em que não se proclamaria muito o planeamento familiar nem o uso de contraceptivos.

A diferença que se verificava à época dos descobrimentos, entre a população europeia e a asiática, dará para reflectirmos na dimensão das restrições a que estiveram sujeitas as populações medievais. Dificilmente as pestes tiveram dimensão suficiente para explicar a diferença abissal. Mesmo nos confrontos com os muçulmanos, parecia haver sempre uma enorme desproporção, por falta de europeus.
A população europeia só deixou de passar fome quando foi importante equilibrar os números pela necessária presença ultramarina, após os descobrimentos. Olhando para as dimensões das cidades e coliseus romanos, a Europa medieval parece ter sido uma enorme prisão faminta, que regrediu populacionalmente, para além de todas as outras regressões.

Migrações
Para o que interessa, sem demasiadas restrições, a partir do momento em que a população humana teve que migrar, para encontrar novos territórios de caça, o continente africano ter-se-ia revelado insuficiente no espaço de poucos milhares de anos. 
A competição limitava a colaboração. A linguagem servia o entendimento, mas em época de competição ter a mesma linguagem não favorecia tribos competidoras.
Por isso, se interessava o entendimento com os seus, não interessava o entendimento dos outros.
Não seria assim de admirar que uma estratégia de tribo fosse mudar mesmo de linguagem, e isso justifica que justamente em África se tenha uma das maiores concentrações de diferentes linguagens.
Era uma opção dos competidores - mudar a codificação, para comunicarem apenas na tribo. Quem fosse afastado, e tivesse que fazer nova tribo, começava a ver-se como diferente, e não tinha razão para manter a linguagem comunitária anterior.
As migrações apontam justamente para uma saída de África para a zona do subcontinente indiano em direcção à Oceânia, onde mais uma vez se verifica esse fenómeno de multiplicidade de línguas. O caso extremo é o da Papua-Nova Guiné, com 820 línguas... o que pode ter a ver com essa herança de extrema competição (parece haver uma tribo antropofágica cuja palavra para designar as tribos rivais é "comida").

Portanto, a noção que temos de preservação de língua está num contexto diferente. Exemplificando, a tribo de Caim, expulso pela morte de Abel, não teria a mesma ideia de preservar língua do que a tribo de Seth, que ficou como herdeiro de Adão.
O desenvolvimento da linguagem pode ter sido assim um traço distintivo, cuja flexibilidade e evolução também terá melhorado capacidades cognitivas.

O processo inverso, de expansão de uma língua estaria relacionado com o sucesso dessa tribo e dos seus descendentes. Aquando do Neolítico, em que as culturas se começaram a sedentarizar, uma tribo de algumas dezenas de indivíduos atingia muitos milhares, ao fim de poucas centenas de anos. Não haveria expulsões, apenas uma acomodação na hierarquia, conforme a varonia. O sentimento de tribo alargou-se e passou ao sentimento de povo, deixou de ter o mesmo aspecto de tribos migrantes. As velhas línguas solidificaram-se nesses ambientes consolidados.
A competição também passou a ter um aspecto mais letal, e a diferença linguística, a existir, seria elitista... havia interesse de que a elite não fosse entendida pelos outros, mas entendesse o que população dizia.

Hieróglifos
Disraeli (primeiro-ministro inglês do Séc.XIX), sobre os hieróglifos diz o seguinte citando Diodoro (Sículo) e Heródoto:
- os Egípcios usavam dois tipos de letras - umas sagradas e outras vulgares.
As vulgares seriam de conhecimento geral, mas as sagradas eram apenas conhecidas dos sacerdotes, que as teriam aprendido dos Etíopes - mas provavelmente alterando o significado.

Sobre os hieróglifos comuns, Disraeli acrescenta (via Diodoro):
- a escrita não consistia em sílabas juntas, mas em figuras relacionadas com o que queriam exprimir... o falcão significava expedição, porque era o mais veloz dos pássaros. O crocodilo significava malícia; o olho significava um observador de justiça ou um guarda; a mão direita, que estava assegurando a sua subsistência; a mão esquerda fechada, a preservação de algo.
Disraeli argumentava o aspecto alegórico dos hieróglifos, alegorias que serviam de linguagem comum entre estranhos. Segundo Heródoto, quando Dário invadiu a Cítia, os citas enviaram uma mensagem que consistia num pássaro, um rato, um sapo e cinco flechas. Isto significaria que se ele não fugisse rapidamente como um pássaro, se escondesse como um rato, saltasse dali como um sapo, então morreria pelas flechas... 

Desde a "pedra da roseta" tem-se usado também um significado fonético dos hieróglifos.
A ideia de termos no mesmo texto dois significados nunca mais se perdeu... e como vemos remontará pelo menos ao tempo dos Egípcios.
Isso pode ser mais ou menos fácil de identificar... mas quando a mensagem, ou notícia, parece absurda ou irrelevante, pelo significado literal das letras, talvez não seja pior ideia procurar o significado alegórico.

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publicado às 06:59


Abertura genética

por desvela, em 02.06.13
9) Lendas segundo a genética
O desenvolvimento moderno da genética abriu novas perguntas às teorias habituais da migração humana. No entanto, tem-se visto uma tentativa de manter as versões anteriores, que parecem ser inconsistentes com aquilo que a genética tem apresentado. É claro que, como em todas as coisas, há duvidas, e haverá quem as coloque quando as hipóteses não interessam. As teses acabam por ser compromissos comunitários, que mais do que seguirem a verdade, tentam seguir o consenso... para evitar problemas com quem teima na sua intransigência. Mas, para além disso, não é muito claro saber se as populações são mesmo nativas da área, ou quando ali se instalaram. De qualquer forma, há dados razoavelmente credíveis, que já levantam algumas dúvidas.
Esquematizamos num quadro alguns gráficos disponíveis na Wikipedia sobre a distribuição dos haplogrupos-Y, que seguem a linha masculina da ascendência (começou entretanto a investigação sobre os haplogrupos mitocondriais, que seguem pela linha feminina).
Há uma hierarquização genética, que começa nos grupos mais antigos A, até aos mais recentes NOQR, isto sem contar com as múltiplas variações. Sobre as variações em subgrupos mostramos apenas a diferença entre o R1a e R1b.
O resultado geral parece apontar para a chamada teoria "out of Africa"... ou seja, estes estudos parecem confirmar uma origem africana dos nossos ancestrais.

A--E) Dos haplogrupos mais antigos, o E manifesta-se especialmente por quase toda a África, com incidências a atingir os 100% em diversas partes. Essa variação "E" teve grande sucesso no continente africano, onde sempre se manteve e consolidou, a menos de pequenas excepções. 
F-G-H) A variação de que partirá a grande maioria da restante população humana será a F, que terá saído de África. Podemos suspeitar que tenha começado a entrar em territórios Euro-asiáticos, pelas suas variações G e H de que se encontram pequenos registos espalhados na Ásia central, até à India (H) e Europa (G). Variantes do "F" encontram-se ainda hoje entre ciganos e mongóis.

Convém aqui explicar que a forma como estamos a analisar difere do usual. Apesar da esmagadora presença do haplogrupo E em África, há quem sustente que a sua origem é da Ásia (porque a variante "irmã" D encontra-se residualmente em Tibetanos ou em Ainos no Japão).
Porém o ponto mais importante é outro. Há uma espécie de ancestralidade que se manifesta em 10 gerações principais até ao N-O-Q-R. Podemos ver o A como "trisavô" do E e do F, que seriam "primos".
Nas teorias habituais tem-se acomodado que o "trisneto" é mais velho que o "irmão"... e ainda que não seja impossível, parece-nos um exagero de forçar datação às crenças pré-definidas. Assim, é suposto o G ter-se originado há cerca 20 mil anos, mas o "irmão" IJK iria gerar um trisneto "O" que aparecia 10 mil anos antes, ou seja, há cerca de 30 mil anos. Todos sabemos de casos em que o irmão pode ser mais novo que o filho, e em vista de populações seria perfeitamente admissível situações dessas, mas não exageremos...

Por isso, vamos evitar essa "ginástica acrobática de datação", e seguir uma datação genética que seria natural, sabendo que não segue uma datação consensual e suas múltiplas justificações acessórias.

Uma questão antropológica é que a tez negra parece estar ligada aos grupos africanos A, B e E. Assim, o seu aparecimento noutras populações (por exemplo, indianas e australianas), pode ter resultado de uma expansão alargada de um destes grupos (provavelmente o CT, antepassado do E). Quando as novas populações chegavam às mesmas paragens, a sua "confraternização" poderia manter a tez negra materna, e o haplogrupo paterno.

Assim, será de admitir que o grupo original CT possa ter sido o primeiro a propagar-se globalmente atingindo a Europa, Ásia e depois a Oceânia. Uma razão para isso pode ter sido uma primeira "idade glacial", em que os limites continentais eram mais ténues pelo abaixamento do nível marítimo.

As razões para uma significativa diferença de "raças" pode ter a ver com subsequentes aumentos do nível marítimo, que isolavam populações. Ou seja, por um lado a época glacial forçava a uma migração para zonas equatoriais, e a baixa das águas permitiria uma expansão, mas depois essas zonas passavam a ilhas... quando o nível marítimo voltava a subir. Se as populações ficavam isoladas das outras, definiam-se particularidades genéticas distintivas, que levaram à noção de "raça". Isto aconteceria com todos os animais, e não apenas como humanos, como é claro...
Podemos ilustrar isto com um pequeno esquema:
Numa primeira fase, a população vermelha aparece no continente, e numa segunda fase, pela baixa de águas, pode entrar na ilha. Mas numa terceira fase o aumento de águas volta a isolar a ilha, que nesse novo ambiente pode adquirir, numa quarta fase, novas características (a azul) - por exemplo, adaptação ao frio. Um novo abaixamento de águas, numa quinta fase, pode gerar uma competição entre essas populações, que já se vêem como diferentes... e assim sucessivamente.
Assim, a oscilação do nível de águas, provocado por períodos glaciares/diluvianos, pode ter definido diferenças evolutivas significativas.

Voltando aos haplogrupos de que falávamos, podemos admitir uma idade glacial que permitiu a expansão CT, mas que depois, por factor diluviano - aumento de águas, distinguiu as populações, especialmente o F  que separadamente adquiria tez mais clara, do E (que teria evoluído no continente africano).
Acresce a este sinal, os dados que colocam descendentes directos do F na zona do Cáucaso (G) e na Índia (H), ou alguns D no Tibete ou Japão, e os C em paragens semelhantes (que se estendiam também à Oceânia).

Portanto podemos ter aqui uma primeira separação de características.

I-J-K) Da variante IJK "filha" de F, surgem dois grupos separados que ainda são hoje dominantes nas respectivas regiões. O grupo "I" que pode ser visto como "germânico", com incidências até 50% na Escandinávia, Lituânia, e superiores a 50% na zona da Croácia... ou seja, populações com grande estatura.
Por outro lado, o grupo "J" estará mais associado a populações semitas, com concentrações que chegam a 100% na Arábia, estando espalhadas desde o sul ibérico, pela bacia mediterrânica até à India.
Curiosamente haveria um ascendente comum IJ... talvez saindo Cáucaso, com a descida de águas, uns tivessem seguido o frio para norte (I), e outros regressado às paragens quentes a sul (J).

O que aparece como notável é que o outro "neto" do grupo F será um grupo K, de onde irá aparecer a maioria da população mundial - as populações orientais, europeias, nativas americanas e siberianas.
Isso foi o que mais me surpreendeu, já que aparentemente nos vemos mais próximos dos IJ do que dos N, O, ou Q... que são "primos" dos R.

NO-P) Surge assim o problema do K... de como se vai espalhar por todos os continentes.
A sua origem parece ser indiana. Ou seja, se os IJ sairam do Cáucaso, o K parece sair dos Himalaias (devido ao registo L na zona do Indo, mas também pelos vestígios T da Índia até à Ibéria, na zona concorrente com a presença dominante do J).
Parece fixar-se em território euro-asiático, mas surpreendentemente aparecerá no continente americano (talvez pela passagem de Bering, ou alternativamente via Irlanda-Terra Nova).
Quando se dá novo degelo diluviano, mais uma vez as populações teriam ficado isoladas. Só isto justificaria a posterior divisão do K. Por um lado um grupo NO tipicamente asiático, por outro lado o seu grupo "irmão" P que se estende da América até à Europa Ocidental. Em menor escala aparecem os grupos M e S, na Oceânia. A difusão do grupo K parece ter sido global...

Q-R) O isolamento do continente americano definiria a divisão do grupo P nos grupos Q (índios americanos) e R (europeus ocidentais)... enquanto que, pelo outro lado, a inundação do Mar Cáspio até ao Ártico teria definido uma diferença entre N (siberianos) e O (orientais).

A outra surpresa é uma dominância do R em parte dos nativos da América do Norte, especialmente Canadá (onde atinge quase 100%), havendo alguns focos na zona do Brasil e Perú.
No entanto, isso explica-se provavelmente doutra forma - pela cobertura, pela ocultação das viagens marítimas atlânticas, que instalaram populações de origem europeia na Terra Nova e Canadá. Entretanto a essas populações é dado o estatuto de indígena, e aparecem nestas estatísticas como nativos e não como colonizadores.
Normalmente os mapas do grupo R são focados na Europa e Ásia, para evitar mostrar esse "problema" evidente das navegações (há também um registo R na Austrália, mas bem mais pequeno).

R1a,b) Detalho o grupo do R, porque teve uma grande expansão europeia e asiática, mas há uma diferença geográfica razoável entre o R1a e R1b, o que pode indiciar nova separação por aumento do nível marítimo, numa separação do Mar Negro. A parte R1a está essencialmente a leste, estendendo-se até à Índia, enquanto que a parte R1b ficou mais concentrada na zona Atlàntica.

Para a conclusão...
Estes dados, apesar de terem suporte científico (acreditando na informação disponibilizada na Wikipedia), não devem ser sobrevalorizados face às outras informações, inclusivé míticas. Quando as informações vão sendo concordantes, é um sinal de seguir nesse caminho... quando não são, é preciso rever o que está em causa, e quem defende o quê, e porquê! 
Aquilo que coloquei foi a linha racional que encontrei que me pareceu fazer sentido, face aos dados disponíveis. Mesmo sem ter em atenção múltiplos outros factores, já não é muito fácil fazer uma teoria consistente que se limite a englobar estes dados, que parecem descoordenados, a menos que se usem teses mais fantasiosas, mas politicamente correctas.

Para uma conclusão retiram-se algumas novidades, que devem ser agora enquadradas com outros dados, nomeadamente as raízes linguísticas, culturais, os legados arqueológicos, míticos, etc... mas isso fica para outra oportunidade, pela óbvia complexidade.

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publicado às 20:28


Tripas à moda de Macedo

por desvela, em 28.04.13
Começam assim as "Tripas" do Padre José Agostinho de Macedo (1823):
Se quem se mete com rapazes amanhece borrado, como poderia eu ficar muito limpo metendo-me com Tripas! E que tirei eu a limpo de todos os meus combates? Livros, e livros, escritos, e escritos contra a Seita Pedreiral, um denodo, uma valentia a toda a prova na época em que a Veneranda com as mãos de fora, com a faca, e queijo na mão, partia e repartia muito à sua vontade, ataquei esta vil canalha, ou miserável cambada de gaiatos (...)
Macedo escreve as Tripas numa altura de mudanças, de oscilação entre liberais e miguelistas... e ele próprio acabará por oscilar, apesar desta veemência: 
(...) nem os temi, quando os via de dia no Gabinete e de noite na Loja, e com arrojo tal que não há um bom Português, que quer dizer um bom Realista, que não conhecesse que a minha vida andava em perigo, porque ousei ser o mais franco Campeão da Pátria, das Leis, da Religião, do Trono, da virtude, e da verdade. Com tudo isto dei bom burro a dizimo! Acho-me com as mãos atadas. Boa recompensa! Ah Portugal, Portugal! Se eu me tivera lançado no partido infame dos Pedreiros Livres, teria em sua época chegado às honras, e ao fastigio das coisas humanas e menos pateta do que eles, ainda no mais eminente boleo, eu me saberia conservar seguro, e teria cravado hum prego de galiota na roda da fortuna. Mas seja embora o meu jantar uma sardinha, ou sardinha nenhuma, nunca farei nada bom, e nada mau, por paga, ou recompensa humana.
Mas, dificilmente encontramos uma denúncia tão explícita contra a Maçonaria:
Está dito ate à saciedade, e mostrada até evidência, que um dos fitos da Pedreirada é o extermínio da Religião; a terra com os altares (e quando se consertarão muitos que eles agora demoliram?) Eles crêem tanto em Deus, como eu creio neles. Mesmo a frasezinha que trazem sempre no bico — O Supremo Arquitecto, o Grande Arquitecto, é uma irrisão manifesta. Tirado este principio da existência de Deus, e de Deus revelado, que Religião pode ter quem nega seu Divino Autor? Só para os Pedreiros há a Religião do Juramento, sendo um dos preceitos do Decálogo, é cousa para eles de zombaria, porque o anunciador do Decálogo - Moisés; é para os Pedreiros Livres um dos três Impostores, Moisés, Jesus Cristo e Maomé; e sendo para eles galhofa o Juramento, não há cousa em que estes patifes mais tenham insistido. Desde que apontou a Regeneração não temos feito mais que jurar, jurar, jurar, e para quê, ou porquê? 
Porque eles conhecem que a totalidade da Nação é sã, e querem segurar-se com a Religião do juramento que liga a consciência. 
O discurso gira em torno da aprovação da Constituição de 1820 (notando que 24 de Agosto carregava o simbolismo do Massacre de S. Bartolomeu, algo que não teria passado despercebido à tendência jacobina, ateia, influenciada directamente pela Maçonaria Francesa, enquanto que a tendência liberal, teísta, estava mais ligada à Maçonaria Inglesa). Ainda sob o espectro do "reino de terror" jacobino, da Revolução Francesa, continuava José Agostinho de Macedo:
Converteram-se de Procuradores em Déspotas descarados. Proclamaram, a Soberania do Povo; mas este Povo não éramos nós, eram eles. Depois de extorquirem a maior parte das Procurações como nós sabemos, não nos deixaram mais acto algum de soberania, e fizeram irrevogáveis os poderes que lhe concedemos. (...) 
O primeiro sinal do Despotismo, e da nossa desgraça foi a enorme força armada de que se fizeram continuamente cercados nossos Augustos, e Soberanos Procuradores. Com Bayonetas nos trouxeram a quimérica, e ilusória Regeneração, com Bayonetas nos ditam Leis com mais orgulho e soberania que o Sultão aos Eunucos do Serralho. 
Macedo não resiste a personalizar: Ferreira Borges, e em particular Manuel Fernandes Tomás...
Chorai Povos, que morreu Manoel Fernandes! Quem não estoiraria de riso por, baixo, e por cima? Sairmos no outro dia de nossas casas cobertos de dó, alimpando os olhos, e respondendo aos que nos perguntassem porque chorávamos? Morreu o Manoel Fernandes . . . . E quem era esse Manoel Fernandes? Era o Patriarca .... De quem ? Dos patifes.
O discurso do maçon "Manoel Fernandes", dito "patriarca dos patifes"... pois, pois, mas findo o riso de Macedo, 
Manuel Fernandes Tomás acabou mesmo imortalizado no frontispício do parlamento, na Assembleia República.
Macedo, é claro, não se coibiu à época de propor outro epitáfio: 
"Aqui jaz Manoel Fernandes, que escapou de morte de forca, porque morreu de diarreia.
O que devia fazer o Carrasco, fez o Boticário."
Sim, no Séc. XIX, a censura do "politicamente correcto" não estava tão implantada...

Macedo, e muitos outros à época, consideravam que a nossa Constituição era uma variante pobre da Espanhola, mas vai mais longe, acusando mesmo a traição de um projecto de união ibérica (a união de estados europeus sob a mesma lei, consolidaria o projecto maçónico): 
(...) que acarretaram toda a qualidade de males, e desventuras sobre este Reino; que nos reduziram à extrema indigência: que dissolveram todos os vínculos do estado social: que abrogaram todos os foros Nacionais: que nos venderam ou ajustaram vender aos Castelhanos, pois a união à Espanha era o seu ultimo recurso, como eles mesmos sem pejo declararam, não só em seus burricais discursos, mas em seus miseráveis escritos: que nos deram, e nos obrigaram a jurar a Constituição Espanhola mais abrejeirada (...)
É especialmente interessante, e por muitos transponível para um discurso acusatório recente:
 (...) que conceberam projectos de destruição, com especialidade no segundo Club Maçónico chamado, Cortes Ordinárias: que puseram um jugo de ferro a todo o Povo Português, fazendo-lhe a mais escandalosa traição que ainda se viu no mundo; que espoliaram o Real Erário, a que davam o nome de Tesouro Público, aumentando a Dívida Nacional até ao ponto de ser insolúvel por séculos.
Pois, nota-se aqui um problema que parece herdar protagonistas com 200 anos de história, e que continua no modo:
(...) que reduziram à mendicidade inumeráveis famílias, privando os seus respectivos chefes de seus ordenados: que excluíram dos empregos os que legitimamente os tinham, e ocupavam, para introduzirem em seu lugar os adeptos da Maçonaria (...)
É claro que a exclusão de empregos, ou a espoliação do Erário Público, não terão o mesmo correspondente  em termos de método e modo, ao fim de dois séculos, mas não deixa de haver um certo tom profético, até porque no original os verbos aparecem na forma antiga como "reduzirão", "conceberão", "espoliarão", remetendo para um futuro que encontra paralelo no presente, até no club, e na assembleia...  
(...) que atropelaram todos os princípios da Justiça confíscando, prendendo, degradando, e expatriando homens beneméritos, conspícuos, e honrados, só por serem denunciados pelos Espiões, sem outra alguma forma de Processo, e só pela ridícula nomenclatura de Corcundas (...) 
Esta parte é mais radical, mas é instrutiva para compreendermos a noção de "Corcunda", que se projecta figurativamente no "Corcunda de Notre-Dame", de Victor Hugo, é de 1831 (escrito oito anos depois), onde a figura de "corcundas" se aplicaria aos opositores da Revolução de Julho de 1830, que Vitor Hugo apoiaria, após éditos do anterior rei francês, Charles X (que em particular impunham o fim da liberdade de imprensa).
A "Liberdade", de Delacroix, marchando contra os éditos reais franceses de Julho 1830.

É claro que há duas faces nesta moeda. Se Macedo lhe mostra a Cara, havia também a Coroa... como Macedo acaba por reconhecer, as últimas Cortes legislativas eram de 1697. Ou seja, a Lei não era actualizada há mais de 120 anos... mas depois vem o espanto, à época - e a que nós já nos habituámos:
(...) porque tudo quanto se tratou no espaço de anos e meses se podia discutir, e resolver em oito dias (...)
Macedo fala então das célebres Cortes de Lamego, e que "a nossa Legislação civil, e económica, talvez fosse a mais luminosa dos povos civilizados da Europa". Por isso estranha a adulação dos legisladores a Benjamin Constant e a Jeremy Bentham, salientando 
(...) este Gebo Londrino é o ídolo dos Publicistas Regeneradores da infeliz Lusitania, e havia quem exigisse o busto de corpo inteiro, só para ter a feliz ocasião de lhe imprimir todos os dias ardentes beijos em sua parte posterior. Eu não sei o que eles liam de Jeremias Bentham? (...)
Não sabemos se terá ou não escapado ao Padre Macedo que Jeremy Bentham tinha proposto o Sistema Panóptico, de que já falámos... ou seja, o sistema de controlo em que os guardas não são vistos pelos prisioneiros. Se soubesse, talvez não tivesse realizado como isso se poderia aplicar ao controlo de toda a sociedade. Afinal, os legisladores iriam mudar constantemente as leis, sob representação popular, um controlo exercido por guardas, que se sentavam confortavelmente nas assembleias legislativas, recebendo ordens de uma aristocracia invisível na manifestação do seu poder.

Macedo ironiza a verborreia legislativa, com a venda do vinho aos quartilhos:
"- Oh! Questão importantíssima! Oh coluna firmissima da publica prosperidade! Quem há-de vender vinho aos quartilhos?"
E, é claro, depois denuncia uma prática que se revelou secular...
Ah! Mandriões! (...) São Legisladores e encomendam as Leis a outros de fora? (...) Com que a Nação paga 4$800 diários a cada um de vocês para fazerem as Leis, e ainda em cima há-de pagar aqueles a quem vocês as encomendam, pois estão prometendo tantos, e mais quantos de prémios a quem fizer Códigos: e isto quando? Quando a Mãe Pátria anda a ponto de pedir uma esmola, ou em perigos de perder a sua honestidade, e flor, só para lhe meter na barriga a vocês Mandriões de alto bordo!!
Poderia continuar com as citações do Padre Macedo, que pelo seu tom directo, aguerrido, levam-nos a um tempo passado, onde ainda se via uma exposição contundente dos perigos do regime parlamentar que se iria instituir como "o melhor sistema". 
Um sistema de fabrico perpétuo de leis, que baralham os povos pela sua ignorância, e protegem as elites pela sua flexibilidade. Afinal, não podemos invocar o desconhecimento de leis... de leis em constante fabrico, de códigos com alçapões para fuga de um capital e armadilhas para capturar o outro. Um sistema onde as leis são chaves, para manter uns presos, e deixar os outros livres da sua aplicação.

Hoje, o politicamente correcto evita a crítica deste parlamentarismo, convocando todos os demónios que alertam para os perigos doutros regimes... evitando assim a objectiva crítica do sistema actual.
A moeda esconde agora a Cara, e exibe a Coroa, uma coroa que falsamente ilude a população para a responsabilidade de um poder que perdeu, quando foi enfiada numa prisão de espelhos, num Panóptico, que lhe ilude uma liberdade, uma falsa representação, e lhe esconde a face da maioria dos seus carcereiros, que usufruem do trabalho forçado duma população encarcerada.

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Macavencos

por desvela, em 14.04.13
Já aqui falámos brevemente sobre a implantação da República Portuguesa, no texto sob o titulo
Bolonhesa e Carbonara
em que referimos a influência da Maçonaria e da Carbonária na preparação do 5 de Outubro.

Encontrámos uma notícia interessante no jornal Expresso (5/Fev/2010) sobre uma sociedade peculiar com um nome macavenco... os "Makavenkos".
Conforme descreve a autora da notícia:
Entravam bem trajados pela Rua dos Condes, como se fossem para o teatro. Empresários, políticos, artistas, médicos, jornalistas, aristocratas e plebeus, monárquicos e republicanos, maçons, ultraconservadores e revolucionários passavam as bilheteiras sem parar, desciam dois lanços de escada e tocavam à porta da sociedade 'secreta' dos makavenkos... um clube privado lisboeta para polígamos "de todas as qualidades, excepto os vadios", que gostavam de petiscar na mesa e na cama. Ali, cozinhava quem sabia e desfrutava quem podia, sempre em agradável companhia feminina, também aceite sem descriminação de classe, da nobreza à rua, conforme as paixões dos convivas.
À entrada, vestiam o modo de ser makavenkal: o prazer da boa mesa, da "alegre rapioqueira", e a compensação dos 'pecados' com actos de benemerência. Mas, ao fim de 26 anos, quebraram uma das regras. Ou nunca cumpriram essa de não falar de política e religião. No ano de 1910, na Casa dos Makavenkos, onde a prioridade era dar "largas à alegria e elasticidade à tripa", preparou-se a revolução.
Este Clube Makavenko era presidido por Francisco Grandella, um personagem de conto de fadas. De empregado numa retrosaria na Rua dos Fanqueiros, ao fim de alguns anos montara negócio próprio, e alguns anos depois, com os Armazéns Grandella tornava-se num dos homens mais ricos e influentes de Portugal. 
Tal como Grandella, o Clube Makavenko tinha afiliação directa no Partido Republicano e na Maçonaria lisboeta. Porém, estas coisas são o que são... e Grandella punha a nú os mais básicos instintos do Homem - a boa comida e as mulheres boas. O clube terá sido um sucesso, se as ideias republicanas não eram tão apelativas, seriam apelativos os programas dessas noites.
Todos eram iguais perante a sopa, o copo e as makavenkas e nenhum podia namoriscar com a mesma por mais de 15 dias. Findo este período ela seria declarada "praça aberta" e ele, se insistisse, levava o título de "lamechas" e a intimação para pôr fim ao relacionamento em 24 horas.
Em conversas casuais, já me descreveram situações algo semelhantes nas actuais máquinas partidárias... ou seja, na sua vertente de clubes de prestações de serviços, teriam necessidade de recorrer aos préstimos dos mais valiosos colaboradores da noite, entre outros, porteiros de bares, discotecas, ou simples proxenetas. Ao fim de alguns anos, ficavam influentes na concelhia do partido, depois na distrital, e com alguma discrição poderiam até passar a figuras públicas. Objectivamente, são precisos operacionais para este tipo de assuntos mais mundanos, que fazem parte do arregimentar de vontades que movem as organizações. Se o Clube Makavenko já não existe, as vontades não desaparecem, e acabam por levar à existência de clubes similares, festas "bunga-bunga", talvez com protagonistas mais envergonhados que Berlusconi ou Grandella.

Interessante é o símbolo da organização. Diz-se no artigo do Expresso que Grandella usara o moto de Edward III, que ornamenta a Ordem da Jarreteira: "Honi soit qui mal y pense"... pois, maldito quem pensasse mal da liga que caíra à dama que entrara na dança de Edward III, transportava-se no final do Séc. XIX, princípio do Séc. XX, para as ligas das makavenkas.

De dois filhos de Eduardo III, John de Gaunt e Edmund Langley, aparecem duas rosas. A vermelha da Casa de Lancaster e a branca da Casa de York, que vão levar à famosa Guerra das Rosas. Apesar de York ter inspirado a substituição de Nova Amsterdão em Nova York, e Langley ser hoje a sede da CIA, não é pelo lado branco do "rosário" que seguiremos.
O símbolo da rosa vermelha era da Casa de Lancaster, e foi adoptado por muitos Partidos Socialistas, no final do Séc. XX. Em Portugal também, tendo acabado por substituir o símbolo de "punho cerrado" que caracterizou o PS. 
O que é curioso é que vamos encontrar esse "punho-cerrado" no símbolo dos Makavenkos, de forma tão similar como podemos vislumbrar na figura seguinte: 
O PS sempre afirmou o seu legado republicano, e é conhecida a grande identificação ao Grande Oriente Lusitano, a mais antiga organização maçónica portuguesa. Nesses pontos estava em comunhão com o Clube fundado por Grandella, seguia-se a rosa vermelha que remete à Casa de Lancaster, e à Ordem da Jarrateira, coincidindo no moto escolhido por Grandella.
Tudo coincidências? Possivelmente, alguém quererá dizer... porém fica um bocadito mais difícil de aceitar tal coincidência, quando temos um punho-cerrado que se insere bem no círculo de fundo escuro dos makavenkos

Mas isto acontece só com o PS? 
Aqui o leitor vai compreender que apenas posso trabalhar com o material que encontro, a maioria das vezes acidentalmente. Não se trata de opção política, trata-se de opção informativa. Esta associação do símbolo do PS ao clube de luxúria dos Makavenkos é puramente acidental, a filiação política que ambos partilharam, pois isso acrescenta algo mais que um simples acidente no logotipo.
Há antigos símbolos na heráldica que usam um braço (Guerreiro, Horta, Macedo, ...), mas não apenas uma mão fechada... uma espécie de "bate-punho"!
Poderíamos dissertar sobre as setas do PSD, lembrando-nos do selo dos EUA, em que a águia segura 13 setas (eram 13 as colónias-estados originais), mas não há comparação em termos de associação.

Agora, como é óbvio, os partidos reflectem uma forma de poder, mesmo aqueles que aparentemente estão no contra-poder. Sobre o arco-governativo temos experiência ao longo destas décadas, sabemos dos seus compromissos e vícios. Se há um lado mais ligado a esta faceta da maçonaria explícita, há outro lado que se evidencia por ligações mais antigas, aristocráticas. No entanto, convém notar que a face visível remete para uma aristocracia estabelecida essencialmente no final do Séc. XIX. Não se trata das velhas casas aristocráticas... essas submergiram de visibilidade, especialmente após o liberalismo de D. Pedro IV, e da derrota de D. Miguel. Curiosamente, dessa aristocracia antiga, só a Casa Real de Bragança não conseguia evitar o protagonismo que lhe era imposto constitucionalmente... os novos barões, viscondes, esses emergiam politicamente, promovidos pelo regime de burguesia a pequena aristocracia.
No final do Séc. XIX, princípio do Séc. XX, a oligarquia lisboeta que dominava a vida pública aumentava de número e de vícios... o que obviamente levaram a gastos de compromisso, em subsídios, comendas, que arruinaram as finanças públicas e levaram o país à bancarrota de 1896.

Como diria Almeida Garrett: "foge cão que te fazem barão... para onde, se me fazem visconde?" 
Até às migrações provincianas, saloias, que trouxeram uma nova plebe para a região lisboeta, dificilmente já se encontraria alguém na capital que não soubesse traçar convenientemente a sua origem a algum resquício de nobreza, com o intuito de que o nome de família lhe trouxesse vantagem, pelo velho expediente da "cunha".

Nada disso desapareceu, a prole aumentou, teve novos protagonistas. Os expedientes de subsídios, de oportunidades de negócio fabricados por legislação conveniente, de comendas, de pensões, subvenções, etc... de tudo isso passou o Estado a ser devedor, para manter silenciada e satisfeita a enorme prole, resultante de um alargamento da pseudo-aristocracia lisboeta. 
Todos os tostões que se gastam na subsídio-dependência social do Rendimento Mínimo Garantido fazem falta aos outros protagonistas, não apenas a uma oligarquia que procura Rendimento Máximo Garantido, através de negócios privilegiados, mas toda uma plebe de servidores que inveja o mesmo estatuto.

Damos apenas um exemplo ilustrativo... Francisco Joaquim Ferreira do Amaral foi um dos últimos primeiro-ministros monárquicos, e passou do serviço a D. Manuel II para o clube republicano dos Makavenkos, sendo mesmo conhecido como "o Makavenko". Certamente por mera coincidência viemos a ter um político com nome similar, Joaquim Ferreira do Amaral que, após ser Ministro das Obras Públicas (PSD) teve a "sorte" de ser nomeado como administrador da Lusoponte, afinal a empresa que quem foi dado o monopólio das ligações viárias sobre o Tejo. É sabido que os rendimentos de tal negociata são astronómicos.

Há muito que o tecido produtivo foi minado pela verborreia legislativa que entope tribunais.
Por um lado, as leis servem a classe instalada, que procura proteger monopólios e manter impunidades. Por outro lado, as novas ideias, sendo mesmo novas, não podem ser executadas, por ausência de legislação. Tudo precisa de regulamentos, para regular os lamentos instalados, que evitam produção de nova riqueza, o aparecimento de novos ricos, sem a devida autorização e benção das antigas famílias.
As oportunidades de negócio são decretadas por leis feitas nos tradicionais escritórios de advocacia, com as devidas vírgulas que permitem assegurar que a oligarquia se mantém fechada à novidade. A isto acrescem anos de contactos privilegiados entre famílias, que podendo ser rivais, sabem unir-se para sobreviver, e evitar novas ameaças à negociata instalada. 
Quem quiser entra curvado para servir o sistema, quem não quiser fica fora do negócio... e neste tipo de sociedade, tudo não passa de um negócio, porque sempre se habituaram a vergar tudo e todos a essa lógica de ganhos e perdas. 
Há quem não alinhe... claro, há sempre, mas o número é residual, e podem ser ignorados. Aliás, até interessa que existam, e que se mostrem, para apimentar o tédio da corte instalada. Nesta perspectiva, tal como cristãos lançados aos leões, a sua impotência serve para mostrar aos espectadores a inutilidade da resistência perante o poder do império.

Quanto ao nome "Macavencos" é curiosa a explicação dada no artigo do Expresso:
É, aliás, da autoria do despenseiro, por vezes cozinheiro, a explicação 'científica' do nome da sociedade... inventado por Grandella: um povo de origem asiática, das ilhas Curilas, que já habitara na península ibérica, no que é hoje Portugal e no País Basco, muito antes dos gregos, "antes do desaparecimento da Atlântida e tinham uma seita que professava uma espécie de culto pela mulher esbelta, mundana, com quem conviviam e protegiam aproveitando-a mesmo para fins de utilidade geral".
... sim, porque é sempre conveniente dar um toque mítico a este tipo de sociedades, para que haja um qualquer refúgio espiritual num mundo construído por oposição à espiritualidade. Mas, dada a natureza dos intervenientes, é de considerar que o nome fosse apenas uma chalaça silábica de conotação sexual. Acabou por entrar no léxico - macavenco é sinónimo de excentricidade.

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A viagem ao Brasil em 1498

por desvela, em 04.06.12
Ao fim de muito tempo, vi ontem, pela primeira vez em televisão, alguém referir-se à descoberta do Brasil em 1498 por Duarte Pacheco Pereira. Quem o fez foi Miguel Sousa Tavares, respondendo à pergunta final num programa da SIC-Notícias, chamado "Conversas Improváveis".

O incidente é isolado e nada tem de especial, para além de ir completamente contra a versão oficial, que atribui o relato de descoberta à viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500.
A tese deveria ser largamente conhecida desde a publicação do Esmeraldo de Situ Orbis em 1892, por Raphael Basto, conservador da Torre do Tombo. Mais conhecida ainda quando Jorge Couto em 1995 sustentou a tese dessa descoberta anterior, com documentação adicional. Jorge Couto é uma figura reconhecida, tendo sido presidente do Instituto Camões e director da Biblioteca Nacional (2005-2011).
No entanto, apesar disso, que eu saiba, a tese de 1500 nunca foi beliscada em comunicações públicas, para uma larga plateia, por exemplo em televisão. Assim, a demonstração por Jorge Couto da viagem de Duarte Pacheco Pereira, em 1498, passa ao lado do folclore oficial, e de todo o comentário ou discussão, ao longo dos últimos 20 anos. Nada de estranhar, pois já teria passado ao lado da discussão do grande público durante todo o Séc. XX. Afinal, passam já 120 anos desde a publicação por Raphael Basto, que confrontou dois exemplares do Esmeraldo de Situ Orbis. Os exemplares estavam incompletos, sem nenhum dos 16 mapas (vistos na biblioteca dos Marqueses de Abrantes), e aparentemente em Setembro de 1844, para além da lei sobre funerais que originou depois a Revolta da Maria da Fonte, também houve uma portaria que retirou o livro da Biblioteca de Évora.
O detalhe da descoberta do Brasil em 1498, inscrito no livro, não passou obviamente despercebido, pois é referido pelo próprio inspector em 1891, na primeira página.

A afirmação que Duarte Pacheco Pereira dirige a D. Manuel é esta:
(...) alem do que dito é, a experiência que é madre das coisas nos desengana & de toda duvida nos tira & portanto bem aventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro ano de vosso Reinado do ano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte ocidental passando alem a grandeza do mar oceano onde é achada & navegada uma tão grande terra firme com muitas & grandes ilhas adjacentes a ela que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo artico  & posto que seja assaz fora é grandemente pauorada, & do mesmo circulo equinocial toma outra vez & vai além em vinte & oito graus & meio de ladeza contra o polo antartico (...)

Fica completamente claro que Duarte Pacheco Pereira ao referir-se a uma extensão de terra firme que vai da latitude 70ºN (Gronelândia, Norte do Canadá) a 28ºS (Rio Grande do Sul, Brasil), dá logo no ano de 1506 uma informação demasiado detalhada sobre o que se conhecia da América. Aliás, dá informações precisas sobre a parte da América que estaria destinada dentro do Hemisfério português, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Isto praticamente mostra que o conhecimento do continente americano era completo, antes mesmo do nome América ter sido associado a Alberico Vespúcio. Dizer que 1498 é a data da primeira viagem ao Brasil apenas peca por ser tão escasso quanto tudo o que esconde essa afirmação e que Duarte Pacheco Pereira revela.

Quando falei do Esmeraldo de Situ Orbis, em 17 de Dezembro de 2009, no Knol da Google, escrevi o seguinte:

Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!
Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Nessa altura procurei ligar a descrição da Costa de África à descrição da Costa Americana
Paralelismo África-América (Tese de Alvor-Silves, Dezembro 2009)

Vim na altura a saber (pelo José Manuel-CH) que a Duquesa de Medina-Sidonia, Luisa Alvarez de Toledo tinha argumentado no mesmo sentido no livro Africa versus America.

Provavelmente, caso fosse hoje, nem teria escrito nada acerca desse paralelismo... simplesmente porque é difícil sustentar a tese baseando-nos apenas na leitura de textos antigos, já que facilmente se poderá contra-argumentar que se tratam de coincidências interpretativas, sem usar outras provas.
Se usei aqui muitas interpretações, e fui avançando com diversas possibilidades, elas foram sendo sustentadas cada vez mais em citações literais, e factos documentais. Inicialmente não fazia ideia de que existisse tanta matéria "escondida com o rabo de fora", e por isso ainda procurava estabelecer relações fugazes, que pouco a pouco deixaram de ser fugazes... 

Quebrada a confiança com o conhecimento oficial, aquilo que escrevi sofre de toda a incerteza sobre as fontes e sobre a interpretação que fazemos delas. As diversas hipóteses que fui escrevendo resultam de tentativas parciais de encontrar nexo lógico, sem desacreditar tudo o que nos foi transmitido. O formato de blog tem a vantagem de não pretender ser mais do que uma interpretação escrita naquela data, em face da conjugação dos diversos dados acumulados, procurando focar mais no nexo lógico global do que no detalhes contraditórios.
Afinal, o que podemos saber resulta apenas do que nos é dado a saber... nada mais do que isso.
A maioria dos textos a que temos acesso é posterior à Idade Média, e muito tempo terá havido para definir o conhecimento que se divulgaria e o que iria ser ocultado. O povo nasce órfão de informação antiga... mal conhecemos os nomes dos trisavós, e poucas famílias passaram no seu seio histórias anteriores ao Séc. XIX. A partir daí fica só a confiança na cultura comum aprendida na escola formadora de mentes... Mesmo sobre monumentos/livros, devemos contar com reconstruções/ reedições, com a boa-fé dos criadores/autores, etc.
Quebrada a confiança, a grande certeza é a incerteza... e se dela não se livra o povo, órfão de antigos legados familiares, também não estarão muito mais seguros os depositários de conhecimento mais antigo. Afinal, têm que contar que a informação nunca foi alterada, coisa algo difícil de assumir mesmo em casas reais europeias, cujo legado teve múltiplas oscilações, e dificilmente chega ao Séc. X d.C. Indo mais longe, o registo perde-se nos legados religiosos. 
De qualquer forma, esquecendo o encobrimento nas descobertas arqueológicas, não há aparentemente um registo fiável para além das civilizações egípcias ou mesopotâmicas... como se os nossos anteriores antepassados nada nos tivessem querido deixar de importante. 
E, no entanto, em todos os povos parece ter havido a necessidade de transmitir um legado, não tanto uma história factual, mas antes uma tradição cultural religiosa, cujo significado primeiro se perdeu. A excepção parece ser a tradição hebraica, já que o Velho Testamento engloba também uma história do povo.
Vemos assim que o conhecimento que foi passando, não apagado entre gerações, foi uma mensagem religiosa autorizada. As histórias de heróis deveriam ser igualmente populares, mas retirando personagens divinos, poucas ficaram nos mitos, e talvez Hércules seja a excepção humana.
As novas gerações nasciam com conhecimento restrito, com pouco mais do que recebiam dos pais,  quase ignorando os avós. Quando isso acontece a evolução é normalmente pequena, e os jovens arriscam a fazer apenas uma repetição do percurso dos progenitores, sem acumular inovação no conhecimento. Isso seria tanto mais efectivo quanto as imposições religiosas visassem condicionar o progresso do conhecimento. A motivação poderia ser simplesmente manter o maior conhecimento na pequena elite reinante, para facilitar o controlo. No entanto, essa estagnação cultural funciona localmente, permite manter uma elite tribal, pelas condicionantes e proibições, mas não aguenta o embate com outra civilização em que o progresso de conhecimento seja mais valorizado e generalizado. Basta ver que em pouco mais de 200 anos de difusão de conhecimento, passámos de carruagens para aviões e foguetões....
Na tentativa de preservar a ordem, mantendo a habitual distância entre o conhecimento da elite e o conhecimento popular, compromete-se o progresso e a sociedade cairá no vício de estagnação, alimentado por sucessivas imposições e proibições, tal como nas primitivas sociedades tribais condicionadas pela religiosidade e tradição cultural fechada.

No santuário de Delfos haveria a inscrição "conhece-te a ti mesmo"... e sem dúvida que esse é o primeiro passo do homem, mas depois deve ser aplicado aos homens em conjunto, na sua unidade de conhecimento. 
Enquanto não percebermos o que fomos, o que nos condicionou e condiciona, dificilmente podemos definir o que devemos ser, funcionando como uma hidra insana... com múltiplas cabeças não coordenadas, competindo pelo controlo do mesmo corpo.
Temos até um exemplo interno... se os nossos hemisférios cerebrais direito e esquerdo funcionassem isoladamente e competitivamente, desconfiando um do outro, mentindo um ao outro... alguma vez teríamos tido sucesso enquanto organismo?

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A viagem ao Brasil em 1498

por desvela, em 03.06.12
Ao fim de muito tempo, vi ontem, pela primeira vez em televisão, alguém referir-se à descoberta do Brasil em 1498 por Duarte Pacheco Pereira. Quem o fez foi Miguel Sousa Tavares, respondendo à pergunta final num programa da SIC-Notícias, chamado "Conversas Improváveis".

O incidente é isolado e nada tem de especial, para além de ir completamente contra a versão oficial, que atribui o relato de descoberta à viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500.
A tese deveria ser largamente conhecida desde a publicação do Esmeraldo de Situ Orbis em 1892, por Raphael Basto, conservador da Torre do Tombo. Mais conhecida ainda quando Jorge Couto em 1995 sustentou a tese dessa descoberta anterior, com documentação adicional. Jorge Couto é uma figura reconhecida, tendo sido presidente do Instituto Camões e director da Biblioteca Nacional (2005-2011).
No entanto, apesar disso, que eu saiba, a tese de 1500 nunca foi beliscada em comunicações públicas, para uma larga plateia, por exemplo em televisão. Assim, a demonstração por Jorge Couto da viagem de Duarte Pacheco Pereira, em 1498, passa ao lado do folclore oficial, e de todo o comentário ou discussão, ao longo dos últimos 20 anos. Nada de estranhar, pois já teria passado ao lado da discussão do grande público durante todo o Séc. XX. Afinal, passam já 120 anos desde a publicação por Raphael Basto, que confrontou dois exemplares do Esmeraldo de Situ Orbis. Os exemplares estavam incompletos, sem nenhum dos 16 mapas (vistos na biblioteca dos Marqueses de Abrantes), e aparentemente em Setembro de 1844, para além da lei sobre funerais que originou depois a Revolta da Maria da Fonte, também houve uma portaria que retirou o livro da Biblioteca de Évora.
O detalhe da descoberta do Brasil em 1498, inscrito no livro, não passou obviamente despercebido, pois é referido pelo próprio inspector em 1891, na primeira página.

A afirmação que Duarte Pacheco Pereira dirige a D. Manuel é esta:
(...) alem do que dito é, a experiência que é madre das coisas nos desengana & de toda duvida nos tira & portanto bem aventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro ano de vosso Reinado do ano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte ocidental passando alem a grandeza do mar oceano onde é achada & navegada uma tão grande terra firme com muitas & grandes ilhas adjacentes a ela que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo artico  & posto que seja assaz fora é grandemente pauorada, & do mesmo circulo equinocial toma outra vez & vai além em vinte & oito graus & meio de ladeza contra o polo antartico (...)

Fica completamente claro que Duarte Pacheco Pereira ao referir-se a uma extensão de terra firme que vai da latitude 70ºN (Gronelândia, Norte do Canadá) a 28ºS (Rio Grande do Sul, Brasil), dá logo no ano de 1506 uma informação demasiado detalhada sobre o que se conhecia da América. Aliás, dá informações precisas sobre a parte da América que estaria destinada dentro do Hemisfério português, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Isto praticamente mostra que o conhecimento do continente americano era completo, antes mesmo do nome América ter sido associado a Alberico Vespúcio. Dizer que 1498 é a data da primeira viagem ao Brasil apenas peca por ser tão escasso quanto tudo o que esconde essa afirmação e que Duarte Pacheco Pereira revela.

Quando falei do Esmeraldo de Situ Orbis, em 17 de Dezembro de 2009, no Knol da Google, escrevi o seguinte:

Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!
Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Nessa altura procurei ligar a descrição da Costa de África à descrição da Costa Americana
Paralelismo África-América (Tese de Alvor-Silves, Dezembro 2009)

Vim na altura a saber (pelo José Manuel-CH) que a Duquesa de Medina-Sidonia, Luisa Alvarez de Toledo tinha argumentado no mesmo sentido no livro Africa versus America.

Provavelmente, caso fosse hoje, nem teria escrito nada acerca desse paralelismo... simplesmente porque é difícil sustentar a tese baseando-nos apenas na leitura de textos antigos, já que facilmente se poderá contra-argumentar que se tratam de coincidências interpretativas, sem usar outras provas.
Se usei aqui muitas interpretações, e fui avançando com diversas possibilidades, elas foram sendo sustentadas cada vez mais em citações literais, e factos documentais. Inicialmente não fazia ideia de que existisse tanta matéria "escondida com o rabo de fora", e por isso ainda procurava estabelecer relações fugazes, que pouco a pouco deixaram de ser fugazes... 

Quebrada a confiança com o conhecimento oficial, aquilo que escrevi sofre de toda a incerteza sobre as fontes e sobre a interpretação que fazemos delas. As diversas hipóteses que fui escrevendo resultam de tentativas parciais de encontrar nexo lógico, sem desacreditar tudo o que nos foi transmitido. O formato de blog tem a vantagem de não pretender ser mais do que uma interpretação escrita naquela data, em face da conjugação dos diversos dados acumulados, procurando focar mais no nexo lógico global do que no detalhes contraditórios.
Afinal, o que podemos saber resulta apenas do que nos é dado a saber... nada mais do que isso.
A maioria dos textos a que temos acesso é posterior à Idade Média, e muito tempo terá havido para definir o conhecimento que se divulgaria e o que iria ser ocultado. O povo nasce órfão de informação antiga... mal conhecemos os nomes dos trisavós, e poucas famílias passaram no seu seio histórias anteriores ao Séc. XIX. A partir daí fica só a confiança na cultura comum aprendida na escola formadora de mentes... Mesmo sobre monumentos/livros, devemos contar com reconstruções/ reedições, com a boa-fé dos criadores/autores, etc.
Quebrada a confiança, a grande certeza é a incerteza... e se dela não se livra o povo, órfão de antigos legados familiares, também não estarão muito mais seguros os depositários de conhecimento mais antigo. Afinal, têm que contar que a informação nunca foi alterada, coisa algo difícil de assumir mesmo em casas reais europeias, cujo legado teve múltiplas oscilações, e dificilmente chega ao Séc. X d.C. Indo mais longe, o registo perde-se nos legados religiosos. 
De qualquer forma, esquecendo o encobrimento nas descobertas arqueológicas, não há aparentemente um registo fiável para além das civilizações egípcias ou mesopotâmicas... como se os nossos anteriores antepassados nada nos tivessem querido deixar de importante. 
E, no entanto, em todos os povos parece ter havido a necessidade de transmitir um legado, não tanto uma história factual, mas antes uma tradição cultural religiosa, cujo significado primeiro se perdeu. A excepção parece ser a tradição hebraica, já que o Velho Testamento engloba também uma história do povo.
Vemos assim que o conhecimento que foi passando, não apagado entre gerações, foi uma mensagem religiosa autorizada. As histórias de heróis deveriam ser igualmente populares, mas retirando personagens divinos, poucas ficaram nos mitos, e talvez Hércules seja a excepção humana.
As novas gerações nasciam com conhecimento restrito, com pouco mais do que recebiam dos pais,  quase ignorando os avós. Quando isso acontece a evolução é normalmente pequena, e os jovens arriscam a fazer apenas uma repetição do percurso dos progenitores, sem acumular inovação no conhecimento. Isso seria tanto mais efectivo quanto as imposições religiosas visassem condicionar o progresso do conhecimento. A motivação poderia ser simplesmente manter o maior conhecimento na pequena elite reinante, para facilitar o controlo. No entanto, essa estagnação cultural funciona localmente, permite manter uma elite tribal, pelas condicionantes e proibições, mas não aguenta o embate com outra civilização em que o progresso de conhecimento seja mais valorizado e generalizado. Basta ver que em pouco mais de 200 anos de difusão de conhecimento, passámos de carruagens para aviões e foguetões....
Na tentativa de preservar a ordem, mantendo a habitual distância entre o conhecimento da elite e o conhecimento popular, compromete-se o progresso e a sociedade cairá no vício de estagnação, alimentado por sucessivas imposições e proibições, tal como nas primitivas sociedades tribais condicionadas pela religiosidade e tradição cultural fechada.

No santuário de Delfos haveria a inscrição "conhece-te a ti mesmo"... e sem dúvida que esse é o primeiro passo do homem, mas depois deve ser aplicado aos homens em conjunto, na sua unidade de conhecimento. 
Enquanto não percebermos o que fomos, o que nos condicionou e condiciona, dificilmente podemos definir o que devemos ser, funcionando como uma hidra insana... com múltiplas cabeças não coordenadas, competindo pelo controlo do mesmo corpo.
Temos até um exemplo interno... se os nossos hemisférios cerebrais direito e esquerdo funcionassem isoladamente e competitivamente, desconfiando um do outro, mentindo um ao outro... alguma vez teríamos tido sucesso enquanto organismo?

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publicado às 20:43


Bolonhesa e Carbonara

por desvela, em 06.10.11
[reeditado e terminado em 8 de Outubro de 2011]

Não tinha pensado apresentar um texto sobre os 101 anos da implantação da República Portuguesa, mas junto pequenos detalhes que me mereceram alguma atenção.

O primeiro desses detalhes, é o excelente documentário, feito a propósito do centenário: 
"Maçonaria, a conspiração da República", de João Osório, 

Uma figura central da Revolução de 5 de Outubro, é aí bem identificada - Machado Santos, o jovem romântico, à frente das tropas populares da Carbonária, estacionadas na Rotunda.

No entanto, como é claro nestas coisas... uma coisa é ter um papel decisivo, outra coisa é obter o devido reconhecimento. Uma coisa é garantir a vitória militar na Rotunda, outra coisa diferente é determinar que afinal o momento da Implantação da República são uns gritos fotografados na varanda da Camâra de Lisboa:

 
(o elemento que parece ser Machado Santos, é afinal Marinha de Campos).

Os melhores heróis são os mortos... foi o caso do Dr. Miguel Bombarda e do Almirante Cândido dos Reis... todas as cidades viriam a ter uma rua com o nome estes personagens, cujo papel singular face aos restantes, terá sido o seu falecimento politicamente correcto - foram enterrados conjuntamente a 6 de Outubro de 1910.

Dos mortos não se esperam críticas à evolução do movimento... as críticas de Machado Santos.
Faltou, no documentário da RTP2, apontar o destino do herói da Rotunda... e bastava ligar a uma outra excelente mini-série da RTP: a Noite Sangrenta.
O destino de Machado Santos e José Carlos da Maia, heróis incómodos da implantação da República foi traçado pela "camioneta fantasma" que, na Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921, levou para a execução estes antigos heróis da implantação da República, bem como o chefe de governo António Granjo e outros antigos apoiantes de Sidónio Pais.

Após 100 anos, houve finalmente um conjunto de informação transmitida pela RTP, e que tinha sido varrida para baixo do tapete republicano, que sufocou protagonistas, nomeando outros no seu lugar.
Após 100 anos, a informação ainda vem separada... há ainda receio de abrir os armários.
É fácil falar do apagamento de Trotsky nas fotos com Lenine, mas é complicado assumir que Machado Santos foi apagado nas fotos da República, e depois executado a mando de "desconhecidos" que organizam a Noite Sangrenta. Falar em "desconhecidos", ou acusar subalternos, é resultado da falha e condicionamento histórico.
Como contraposição à 2ª República de Salazar, desenvolveu-se uma mitologia própria de branqueamento da 1ª República, estratégia achada apropriada nas décadas pós-25 Abril, procurando definir um único monstro (Salazar) no conto de fadas republicano.
O número de protagonistas assassinados na 1ª República excedeu largamente os do Estado Novo, já para não falar da Monarquia Constitucional. Nos bastidores do "partido único" dito "democrata" de Afonso Costa o que mais se temia eram os verdadeiros democratas, que iam pagando com a vida as suas iniciativas. Assim, quando se fala em partido único, ao tempo de Salazar, importa notar que a grande diferença face ao estado anterior, é que era um novo partido único assumido, e não um regime colorido com vários partidos, em que dominava o Partido Democrático, com poucas políticas assumidas e muitas acções radicais definidas nos bastidores.

Republicanos e maçonaria
É especialmente elucidativo o documentário da RTP2 ao estabelecer a interacção da Carbonária com a Maçonaria na execução do golpe republicano de 5 de Outubro.
Os líderes da Carbonária, no quais se inclui Machado Santos, estão ainda na Maçonaria, e assim de alguma forma o projecto maçónico parece aproveitar-se da estrutura popular da Carbonária, usando-a como um braço armado. Isso parece tanto mais notório pela auto-extinção da Carbonária nos momentos seguintes à revolução. Se a maçonaria aparecia como elitista, era pragmático desenvolver uma estrutura auxiliar de interacção necessária à coordenação das forças populares. São essas forças da Carbonária acusadas da morte do rei D. Carlos, que aguentam a Rotunda, com Machado Santos à cabeça... ou seja, a estrutura que parece protagonizar o sucesso do golpe republicano desaparece com o sucesso da acção.

Porém, a acção é mais complexa, e a resistência de Machado Santos tem muito de simbólica, tal como a de Paiva Couceiro pelo lado oposto. São actores ocasionais que aparecem numa peça escrita nos bastidores. Acabam por aparecer como heróis isolados na luta simbólica que travaram na Rotunda. Irão repetir essa rivalidade no episódio da Monarquia do Norte, de 1919, que é uma reacção monárquica ao assassínio de Sidónio Pais.

O argumento já tinha sido escrito nos bastidores, e por isso Paiva Couceiro vê-se sozinho a defender uma monarquia moribunda. As deslocações do grão-mestre da Maçonaria, para garantir a não intervenção externa, inglesa e francesa, completam o ramalhete... Há uma organização que parece assim coordenar toda a acção, com influência em ambos os lados das tropas. Mas a organização tendo cariz maçónico não se confunde com a Maçonaria... o grão-mestre é candidato a Presidente da República, mas quem define a escolha é o Partido Republicano. O poder usa as diversas estruturas, mas não se identifica exactamente com a hierarquia de nenhuma delas. Assim, as presidências dos órgãos surgem como figurativas, escondendo um poder definido através da cúpula, mas não identificável, gerando a óbvia confusão nos opositores. As várias iniciativas disparavam em diversas direcções, sem conseguirem identificar exactamente a cabeça do poder.

Os republicanos, enquanto partido, tinham obtido uma derrota histórica nas eleições de 1910, que antecederam a revolução armada. Precisaram de restringir o universo eleitoral e suprimir partidos monárquicos para que não houvesse surpresas no parlamento, já que o povo menos informado poderia continuar a votar na "direcção errada". É esta minoria que passará a completa maioria pela via revolucionária...
Curiosamente, durante estes 100 anos republicanos, as constituições votadas ocorrem com Sidónio Pais, e com Salazar. A população é chamada para escolher partidos, mas não a forma de governo. Independentemente de todas as necessárias críticas, a forma ditatorial do Estado Novo foi legitimada por consulta popular na Constituição de 1933, aprovada esmagadoramente. A parte incorrecta surge na não renovação dessa legitimação... passados 20 anos. Passado esse tempo, haveria toda uma geração votante que não se pronunciara sobre o regime. Mas isso não foi defeito ocasional... os regimes actuais, ditos democráticos, têm constituições com mais de 20 anos, que nunca foram sujeitas a nenhum escrutínio desse tipo. Os cidadãos nascem condicionados ao funcionamento do sistema, sem hipótese de se pronunciarem sobre ele.

Os contos e as histórias
Se nos é ensinado que a evolução histórica caminhou no sentido de uma maior consagração da liberdade individual, extensiva a toda a população, também fica evidente que a poderosa ocultação histórica - que está em curso - pode ter falsificado toda a informação que dispomos, e sobre a qual não há testemunhos pessoais fiáveis que ultrapassem o Séc. XX ou o final do Séc. XIX (contando até com os relatos de avós ou bisavós). É claro que isto é um exagero, mas convém atentar, por exemplo, no caso das Colunas de Hércules... que passam por um mito da antiguidade, tendo-se até perdido o registo popular das torres existentes em Cadiz, e que desapareceram apenas no Séc. XVIII ou XIX.

Há teorias com origem na Rússia, que afirmam uma supressão histórica de 1000 anos!
Pode parecer absurdo... mas convirá observar a excessiva ausência de registos da Época Medieval, que comporta esses mil anos. Invoca-se uma estagnação de mentalidades, colorida com uma atribuição de monumentos padrão a esse período, mas o único obstáculo sério a essa hipótese é a necessidade de uma coordenação das diversas culturas na preservação e colaboração do embuste. Mas, à excepção de casos singulares, na aristocracia, onde há algum registo de antepassados que perdura por séculos, a restante maioria da população dificilmente conhece mais do que registos dos seus avós ou bisavós.

A disseminação da Escola, uma conquista da República (que acabou por ser mais efectiva na 2ª República, e que já estava bem presente na Monarquia), levou também a uma quebra da tradição familiar. A história familiar passou a reduzir-se a pequenos episódios pessoais, sem o enquadramento da época. Os pais passaram a negligenciar a transmissão da sua vivência e interpretação dos acontecimentos, confiando à Escola essa transmissão... assumindo que ela seria objectiva e formativa. Porém, é fácil perceber que para a maioria dos filhos, essa vivência vai resumir-se a duas ou três frases aprendidas num livro escolhido. Uma informação complementar simples perde-se nos silêncios familiares, que remetem o conhecimento antigo à escola estatal.
É depois habitual caricaturizar-se isto com o desconhecimento sobre o 25 de Abril... quando os próprios caricaturistas dificilmente sabem que o 5 de Outubro foi também a data da assinatura do Tratado de Zamora, que consagrou a independência nacional em 1143.
Se as iniciativas revolucionárias republicanas começaram a 3 de Outubro, a chancela oficial acabou por surgir apenas depois, num dia que ficaria assim duplamente simbólico. Coincidência?

Carbonara e Bolonhesa
No meio deste processo haverá boas intenções misturadas com intenções castradoras.
O processo republicano aparece assim identificado com a mesma massa, mas com dois molhos:
- A Massa Carbonara - que é feita de molhos de população, liderada pela Carbonária, uma organização ocasional, que surge no Séc. XIX para liderar processos republicanos na Itália, Espanha e Portugal, e cujo nome fica definido pela troca do B pelo V.... ou seja, o nome Carvonária resultaria das reuniões secretas iniciais efectuadas em casas de carvoeiros, na Sardenha. E sobre a Sardenha parece sempre haver muito pouco a dizer... a enorme e paradisíaca ilha mediterrânica parece ter passado pela história despercebida, ao contrário da Sicília ou da Córsega.
- A Massa Bolonhesa - cuja carne é misturada nos molhos de pedreiros livres da Maçonaria. A ligação a Bolonha surge na origem reportada a 1248 da Carta de Bolonha:
Statuta et Ordinamenta Societatis Magistrorum Tapia et Lignamiis
ou seja, os primitivos estatutos e regulamentos da Sociedade dos Mestres Maçons e Carpinteiros.
Esta pasta bolonhesa será da mesma Bolonha italiana que foi primeira universidade, e cujo nome serviu para um tratado de graus universitários europeus (o chamado Tratado de Bolonha).

Afinal, parece que a típica massa italiana, "a pasta", mais característica de Nápoles e Sicília, onde leva apenas azeite, ganhou outros molhos noutras ilhas e paragens, tendo sido exportada com sucesso.

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publicado às 07:58


Bolonhesa e Carbonara

por desvela, em 05.10.11
[reeditado e terminado em 8 de Outubro de 2011]

Não tinha pensado apresentar um texto sobre os 101 anos da implantação da República Portuguesa, mas junto pequenos detalhes que me mereceram alguma atenção.

O primeiro desses detalhes, é o excelente documentário, feito a propósito do centenário: 
"Maçonaria, a conspiração da República", de João Osório, 

Uma figura central da Revolução de 5 de Outubro, é aí bem identificada - Machado Santos, o jovem romântico, à frente das tropas populares da Carbonária, estacionadas na Rotunda.

No entanto, como é claro nestas coisas... uma coisa é ter um papel decisivo, outra coisa é obter o devido reconhecimento. Uma coisa é garantir a vitória militar na Rotunda, outra coisa diferente é determinar que afinal o momento da Implantação da República são uns gritos fotografados na varanda da Camâra de Lisboa:

 
(o elemento que parece ser Machado Santos, é afinal Marinha de Campos).

Os melhores heróis são os mortos... foi o caso do Dr. Miguel Bombarda e do Almirante Cândido dos Reis... todas as cidades viriam a ter uma rua com o nome estes personagens, cujo papel singular face aos restantes, terá sido o seu falecimento politicamente correcto - foram enterrados conjuntamente a 6 de Outubro de 1910.

Dos mortos não se esperam críticas à evolução do movimento... as críticas de Machado Santos.
Faltou, no documentário da RTP2, apontar o destino do herói da Rotunda... e bastava ligar a uma outra excelente mini-série da RTP: a Noite Sangrenta.
O destino de Machado Santos e José Carlos da Maia, heróis incómodos da implantação da República foi traçado pela "camioneta fantasma" que, na Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921, levou para a execução estes antigos heróis da implantação da República, bem como o chefe de governo António Granjo e outros antigos apoiantes de Sidónio Pais.

Após 100 anos, houve finalmente um conjunto de informação transmitida pela RTP, e que tinha sido varrida para baixo do tapete republicano, que sufocou protagonistas, nomeando outros no seu lugar.
Após 100 anos, a informação ainda vem separada... há ainda receio de abrir os armários.
É fácil falar do apagamento de Trotsky nas fotos com Lenine, mas é complicado assumir que Machado Santos foi apagado nas fotos da República, e depois executado a mando de "desconhecidos" que organizam a Noite Sangrenta. Falar em "desconhecidos", ou acusar subalternos, é resultado da falha e condicionamento histórico.
Como contraposição à 2ª República de Salazar, desenvolveu-se uma mitologia própria de branqueamento da 1ª República, estratégia achada apropriada nas décadas pós-25 Abril, procurando definir um único monstro (Salazar) no conto de fadas republicano.
O número de protagonistas assassinados na 1ª República excedeu largamente os do Estado Novo, já para não falar da Monarquia Constitucional. Nos bastidores do "partido único" dito "democrata" de Afonso Costa o que mais se temia eram os verdadeiros democratas, que iam pagando com a vida as suas iniciativas. Assim, quando se fala em partido único, ao tempo de Salazar, importa notar que a grande diferença face ao estado anterior, é que era um novo partido único assumido, e não um regime colorido com vários partidos, em que dominava o Partido Democrático, com poucas políticas assumidas e muitas acções radicais definidas nos bastidores.

Republicanos e maçonaria
É especialmente elucidativo o documentário da RTP2 ao estabelecer a interacção da Carbonária com a Maçonaria na execução do golpe republicano de 5 de Outubro.
Os líderes da Carbonária, no quais se inclui Machado Santos, estão ainda na Maçonaria, e assim de alguma forma o projecto maçónico parece aproveitar-se da estrutura popular da Carbonária, usando-a como um braço armado. Isso parece tanto mais notório pela auto-extinção da Carbonária nos momentos seguintes à revolução. Se a maçonaria aparecia como elitista, era pragmático desenvolver uma estrutura auxiliar de interacção necessária à coordenação das forças populares. São essas forças da Carbonária acusadas da morte do rei D. Carlos, que aguentam a Rotunda, com Machado Santos à cabeça... ou seja, a estrutura que parece protagonizar o sucesso do golpe republicano desaparece com o sucesso da acção.

Porém, a acção é mais complexa, e a resistência de Machado Santos tem muito de simbólica, tal como a de Paiva Couceiro pelo lado oposto. São actores ocasionais que aparecem numa peça escrita nos bastidores. Acabam por aparecer como heróis isolados na luta simbólica que travaram na Rotunda. Irão repetir essa rivalidade no episódio da Monarquia do Norte, de 1919, que é uma reacção monárquica ao assassínio de Sidónio Pais.

O argumento já tinha sido escrito nos bastidores, e por isso Paiva Couceiro vê-se sozinho a defender uma monarquia moribunda. As deslocações do grão-mestre da Maçonaria, para garantir a não intervenção externa, inglesa e francesa, completam o ramalhete... Há uma organização que parece assim coordenar toda a acção, com influência em ambos os lados das tropas. Mas a organização tendo cariz maçónico não se confunde com a Maçonaria... o grão-mestre é candidato a Presidente da República, mas quem define a escolha é o Partido Republicano. O poder usa as diversas estruturas, mas não se identifica exactamente com a hierarquia de nenhuma delas. Assim, as presidências dos órgãos surgem como figurativas, escondendo um poder definido através da cúpula, mas não identificável, gerando a óbvia confusão nos opositores. As várias iniciativas disparavam em diversas direcções, sem conseguirem identificar exactamente a cabeça do poder.

Os republicanos, enquanto partido, tinham obtido uma derrota histórica nas eleições de 1910, que antecederam a revolução armada. Precisaram de restringir o universo eleitoral e suprimir partidos monárquicos para que não houvesse surpresas no parlamento, já que o povo menos informado poderia continuar a votar na "direcção errada". É esta minoria que passará a completa maioria pela via revolucionária...
Curiosamente, durante estes 100 anos republicanos, as constituições votadas ocorrem com Sidónio Pais, e com Salazar. A população é chamada para escolher partidos, mas não a forma de governo. Independentemente de todas as necessárias críticas, a forma ditatorial do Estado Novo foi legitimada por consulta popular na Constituição de 1933, aprovada esmagadoramente. A parte incorrecta surge na não renovação dessa legitimação... passados 20 anos. Passado esse tempo, haveria toda uma geração votante que não se pronunciara sobre o regime. Mas isso não foi defeito ocasional... os regimes actuais, ditos democráticos, têm constituições com mais de 20 anos, que nunca foram sujeitas a nenhum escrutínio desse tipo. Os cidadãos nascem condicionados ao funcionamento do sistema, sem hipótese de se pronunciarem sobre ele.

Os contos e as histórias
Se nos é ensinado que a evolução histórica caminhou no sentido de uma maior consagração da liberdade individual, extensiva a toda a população, também fica evidente que a poderosa ocultação histórica - que está em curso - pode ter falsificado toda a informação que dispomos, e sobre a qual não há testemunhos pessoais fiáveis que ultrapassem o Séc. XX ou o final do Séc. XIX (contando até com os relatos de avós ou bisavós). É claro que isto é um exagero, mas convém atentar, por exemplo, no caso das Colunas de Hércules... que passam por um mito da antiguidade, tendo-se até perdido o registo popular das torres existentes em Cadiz, e que desapareceram apenas no Séc. XVIII ou XIX.

Há teorias com origem na Rússia, que afirmam uma supressão histórica de 1000 anos!
Pode parecer absurdo... mas convirá observar a excessiva ausência de registos da Época Medieval, que comporta esses mil anos. Invoca-se uma estagnação de mentalidades, colorida com uma atribuição de monumentos padrão a esse período, mas o único obstáculo sério a essa hipótese é a necessidade de uma coordenação das diversas culturas na preservação e colaboração do embuste. Mas, à excepção de casos singulares, na aristocracia, onde há algum registo de antepassados que perdura por séculos, a restante maioria da população dificilmente conhece mais do que registos dos seus avós ou bisavós.

A disseminação da Escola, uma conquista da República (que acabou por ser mais efectiva na 2ª República, e que já estava bem presente na Monarquia), levou também a uma quebra da tradição familiar. A história familiar passou a reduzir-se a pequenos episódios pessoais, sem o enquadramento da época. Os pais passaram a negligenciar a transmissão da sua vivência e interpretação dos acontecimentos, confiando à Escola essa transmissão... assumindo que ela seria objectiva e formativa. Porém, é fácil perceber que para a maioria dos filhos, essa vivência vai resumir-se a duas ou três frases aprendidas num livro escolhido. Uma informação complementar simples perde-se nos silêncios familiares, que remetem o conhecimento antigo à escola estatal.
É depois habitual caricaturizar-se isto com o desconhecimento sobre o 25 de Abril... quando os próprios caricaturistas dificilmente sabem que o 5 de Outubro foi também a data da assinatura do Tratado de Zamora, que consagrou a independência nacional em 1143.
Se as iniciativas revolucionárias republicanas começaram a 3 de Outubro, a chancela oficial acabou por surgir apenas depois, num dia que ficaria assim duplamente simbólico. Coincidência?

Carbonara e Bolonhesa
No meio deste processo haverá boas intenções misturadas com intenções castradoras.
O processo republicano aparece assim identificado com a mesma massa, mas com dois molhos:
- A Massa Carbonara - que é feita de molhos de população, liderada pela Carbonária, uma organização ocasional, que surge no Séc. XIX para liderar processos republicanos na Itália, Espanha e Portugal, e cujo nome fica definido pela troca do B pelo V.... ou seja, o nome Carvonária resultaria das reuniões secretas iniciais efectuadas em casas de carvoeiros, na Sardenha. E sobre a Sardenha parece sempre haver muito pouco a dizer... a enorme e paradisíaca ilha mediterrânica parece ter passado pela história despercebida, ao contrário da Sicília ou da Córsega.
- A Massa Bolonhesa - cuja carne é misturada nos molhos de pedreiros livres da Maçonaria. A ligação a Bolonha surge na origem reportada a 1248 da Carta de Bolonha:
Statuta et Ordinamenta Societatis Magistrorum Tapia et Lignamiis
ou seja, os primitivos estatutos e regulamentos da Sociedade dos Mestres Maçons e Carpinteiros.
Esta pasta bolonhesa será da mesma Bolonha italiana que foi primeira universidade, e cujo nome serviu para um tratado de graus universitários europeus (o chamado Tratado de Bolonha).

Afinal, parece que a típica massa italiana, "a pasta", mais característica de Nápoles e Sicília, onde leva apenas azeite, ganhou outros molhos noutras ilhas e paragens, tendo sido exportada com sucesso.

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