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Guerra das Laranjas e Marotos

por desvela, em 11.05.14
Este apontamento resulta de várias coisas.
Primeiro, porque fui ver a razão pela qual a corte portuguesa de D. João VI teria tido que vender o diamante "Espelho de Portugal", uma valiosa pedra referida pelo José Manuel e Maria da Fonte, em comentários anteriores. 
Por esse lado, chega-se imediatamente à Guerra das Laranjas, e à perda de Olivença para os espanhóis. 
Porém, não sou daqueles que se satisfaça com um nome desses, quando a estorieta remete para um ramo de laranjeira numa carta que Godoy envia para a rainha espanhola.

Ora, quando se começa a ler outras coisas, começam a aparecer outros personagens, outras estórias, outras ligações... e rapidamente fico com uma dezena de tópicos em aberto. 
Um desses tópicos foi o dos Marotos...
Começa com um relato no jornal Ecco, que compara Maroto a Dumouriez.
Trata-se do espanhol Rafael Maroto
Ser comparado ao "traidor" Ch. Dumouriez não era nada de elogioso, já que apesar de se apresentar como defensor da França Monárquica, exerceu funções importantes na França Revolucionária, mas em segredo colocava-se ao serviço da Inglaterra, onde se acabou por exilar.
Tal como o maneta general Loison ficou entre nós com a expressão associada de "ir para o Maneta", fui ver até que ponto ia a marotice de Maroto.

Maroto aparece discretamente na invasão de Godoy, da Guerra das Laranjas, mas o seu relevo será no movimento carlista, um movimento semelhante ao miguelismo em Portugal. As guerras entre liberais e absolutistas ocorreram praticamente ao mesmo tempo em Portugal e Espanha, porque, como se sabe, estas coisas aos pares compram-se mais barato. 
Vejamos as diferenças... 
- Em Portugal, a guerra civil seria entre o tio absolutista e a sobrinha liberal.
- Em Espanha, a guerra civil seria entre o tio absolutista e a sobrinha liberal.
Pois, não é por aqui que vemos as diferenças. Ah! Os nomes fazem toda a diferença:
- Em Portugal era entre Miguel e Maria filha de Pedro.
- Em Espanha era entre Carlos e Isabel filha de Fernando.
Quantas vezes houve guerras entre tios pretendentes e sobrinhas legítimas? 
Que me lembre, bem conhecidas, foram apenas estas.

Claro que estou a forçar a situação - retirando as semelhanças, as coisas ficam diferentes. Não é sempre assim?
Bom, mas uma das diferenças é que as guerras carlistas se prolongaram - houve 3 guerras. 
A segunda guerra carlista começa em 1846, com novos confrontos entre absolutistas e liberais.
Ora, em 1846, em Portugal, dava-se a revolta da Maria da Fonte, que levou a novos confrontos entre absolutistas e liberais. 
Aos pares é mais barato... mas não há duas sem três. 
E houve uma terceira guerra carlista, em 1872, mas como não há regra sem excepção, a tentativa de revolta de Saldanha tinha ocorrido em 1870.

Esta ligação ibérica não era inocente porque havia mesmo a Quádrupla Aliança, com o direito da Inglaterra e França intervirem em Espanha e Portugal. A ligação era forçada pelo exterior... porém o detalhe de ter coincidido entre tios e sobrinhas já é algo menos fácil de entender. O facto da França, completamente derrotada com Napoleão, ser depois uma útil aliada dos ingleses, sem dívidas de guerra (ao contrário dos estados ibéricos, vencedores), também é algo muito engraçado.
Também não deixa de ser engraçado que, após Waterloo, os estados ibéricos tinham sido forçados a independências das suas colónias americanas. Umas mais naturais que as outras... e como Waterloo foi relembrado em 1974, acabavam-se de seguida as colónias portuguesas em África.
Acabaram-se todas as colónias europeias na América? Quase todas... o Canadá era inglês, com tolerância à francesa Québéc. As restantes colónias, africanas e asiáticas, acabariam só depois da 2ª Guerra, e realmente Portugal em 1974 teimava ainda em não perceber isso. 
Todas? Bom, nem por isso, não é? Franceses e ingleses entenderam-se em Waterloo. Os argentinos perceberam isso nas Malvinas. Havia ainda um amor explosivo nos atóis polinésios. Amor à distância, de difícil separação. E depois do amor?

Voltamos aos Marotos.
Bascos e Catalães apareceram no conflito espanhol, do lado carlista, e Maroto jogou um papel ambíguo, dizendo-se carlista, mas sendo mais hábil a executar os seus rivais generais carlistas do que os inimigos generais liberais. Essa era a razão da tal comparação com Demeuriez, era visto como um traidor infiltrado.
Mereceria isso apenas o epíteto de "maroto"?
Pois, não me convenceu...
Procurei um pouco mais, e encontrei uma referência mais antiga, do Séc. XVI, a uns versos de Maroto, que aparentemente eram algo marotos, satirizando impropriamente passagens bíblicas. 
Quem era este Maroto? 
Era apenas Maroto na transcrição ibérica, o seu nome era Clément Marot, e ainda que seja hoje bem menos conhecido que Rabelais, os seus versos eram muito populares, dado esse carácter profano e humorado.

                    (...) não se ouvia tratar de outro, senão das novelas e contos de "Rabeles", escritos em derisão da honestidade das freiras, e da vida dos religiosos, e em desprezo da Igreja, das suas cerimónias, e das mais coisas sagradas; nem se cantava pelos campos senão os versos de Maroto, plenos também de impiedade, e desvergonha: e assim não foi muito difícil abrir as portas da heresia. Porque estes autores foram imitados por outros (...)


Passamos finalmente à Guerra das Laranjas.
Se Rafael Maroto militava nas tropas espanholas que entraram em Olivença, o personagem principal dessa história parece ser Manuel Godoy.
O ministro espanhol Manuel Godoy, vencedor da Guerra das Laranjas, 
olha a amassada bandeira portuguesa.

Parece ser... porque o nome "Guerra das Laranjas", associado à missiva de Godoy para a "amada rainha", mãe de Carlota Joaquina, parece nem ter sido muito comum no Séc. XIX.

O Ramo dos "Laranjas" tem outro significado.
Qual?... Quando temos uma caricatura de Gillray, as coisas ficam mais simples:

O cupido holandês, repousado nas fatigas de plantação dos ramos, é Willem V, da Casa Oranje-Nassau.
A plantação de muitas laranjinhas similares, vemos passar também por diversos ventres campesinos. 
Bom, mas o principal problema de Willem V foi a França de Napoleão e em 1795 acabou por fugir para Inglaterra. 
A execução de Luís XVI levou a uma declaração de guerra das monarquias europeias contra a França.
Portugal, apesar de não ter exército apto, desde a política do Marquês de Pombal, juntou-se à declaração de guerra, e com a Espanha participou na tentativa de invasão do Rossilhão, a Catalunha francesa.
Só que os tempos eram outros, e os amigos precisavam de pensar em si e em dinheiro.
Como a campanha do Rossilhão não resultou, os espanhóis de Manuel de Godoy, ministro de Fernando VII,  ficam aliados dos franceses, num tratado assinado em Aranjuez em 1801.
O sucesso militar de Napoleão veio na medida das confusões, querendo arrumar os imóveis da Europa noutra disposição. Havia distribuição de reinos, não só pelos familiares, e em particular na Itália que tinha invadido inventou o Reino da Etrúria... para lembrar os Etruscos.
Isso não diria respeito a Portugal, mas pelo Tratado de Fontainbleau, fez nova arrumação e decidiu passar o Rei da Etrúria, um Carlos Bourbon, para Entre-Douro-e-Minho, depois denominada (ao estilo da águia romana afrancesada) Lusitânia Setentrional. 
Bom, estes eram os planos que Napoleão tinha acordado com Godoy, que ficaria com o Principado dos Algarves:
 
De acordo com o plano napoleónico a Lusitânia Setentrional - do Porto ao Minho, 
ficaria com as cores do Rei da Etrúria (curiosamente, o azul e branco listado do FCP).

O falhanço das invasões napoleónicas em Portugal, não concretizou nada disto, ideias que parecem ridículas, mas a dezena de anos de hegemonia francesa na Europa durou o suficiente para ser levada muito a sério. Quando a família real migrou para o Brasil em 1808, o Marquês de Abrantes ainda foi prestar vassalagem a Napoleão, tendo ficado retido com o filho em França até final do conflito. O Marquês de Abrantes passou a ser Junot, o general invasor.

A Guerra das Laranjas passa-se antes, em 1801.
Willem V está exilado na Inglaterra e procura recuperar a Holanda dominada já pelos franceses.
Há uma tentativa de reconquista do território em 1799, uma invasão Anglo-Russa comandada pelo Duque de York, no quadro da Segunda Coligação, onde a Espanha aparecia agora aliada da França.  
Com a mudança espanhola, Portugal ficava encurralado, e recusando a captura dos navios ingleses, ficava pronto a uma invasão conjunta de Espanha e França, comandada pelo próprio Manuel Godoy. 
Essa exigência naval era resultado da ameaça inglesa, após a investida na Holanda. A esquadra espanhola tinha sido destruída antes, em 1797, numa das várias Batalhas no Cabo de S. Vicente, depois a esquadra francesa será derrotada em 1805, em Trafalgar.
Por isso o problema não resultou das laranjas de Godoy, mas mais de Orange, de Willem V de Orange.

Bom, o resto é história, a que não tenho muito a acrescentar... Até que a Inglaterra decida intervir, Portugal dada a sua fragilidade militar herdada do Marquês de Pombal, vê-se forçado a aceitar a perda de Olivença, a perda de parte da Guiana, e de muito dinheiro e joias - inclusivé o tal "Espelho de Portugal", para assinar uma paz com os espanhóis. 
Há certamente muitíssimos mais detalhes, que me escapam, nem me interessam, num período complexo. 
Porém convinha aqui esclarecer este detalhe, mais porque se reporta a um período que antecede as invasões napoleónicas, e que é normalmente ignorado. O "espelho de Portugal", tivesse o que tivesse, foi apenas uma jóia perdida, entre tantos outros despojos, nomeadamente milhares e milhares de vidas que caminharam para um espelho do valor potência militar, valor efémero, mas pretendido eterno... sempre um espelho de morte.

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publicado às 06:42


As Tulipas e os Futuros

por desvela, em 21.11.12
No início do Séc. XVII, a Holanda desenvolveu um particular gosto por tulipas, cujos bulbos podiam até ser comercializados com o valor de moeda. Uma das tulipas, denominada Semper Augustus foi negociada a valor recorde, uma pequena fortuna inalcançável ao normal cidadão holandês.


 
Publicidade ao investimento em tulipas e a famosa Semper Augustus  (wiki).


Esta importância das tulipas foi retomada em romance de 1850, de Alexandre Dumas, "A Tulipa Negra", talvez querendo alertar para o episódio, dado o peso que a especulação financeira retomava no final daquele século.
O fenómeno, que atingiu o pico máximo e o colapso em 1637, é chamado tulipomania, e tem características especulativas muito semelhantes a posteriores crises bolsistas.

(evolução exponencial dos preços entre 1634 e 1637)

Está documentada nesta altura uma forte publicidade e o aparecimento de "contratos de futuros". Estes contratos de futuros eram negociados com expectativas sobre o crescimento económico do valor dos bulbos de tulipas. O aumento dos preços permitia convencer a pagar alto pelo valor de tulipas que se iriam vender no futuro.
Estes mesmos contratos de futuros estiveram na origem da recente crise financeira de 2008, e não são por isso uma invenção recente, conforme é por vezes pensado. São uma arma financeira que permite o enriquecimento rápido de uns poucos, e a ruína abrupta de muitos mais... dito em poucas palavras, permite uma transferência e concentração de riqueza.

Por estranho que pareça, as pessoas parecem alertadas para os esquemas em pirâmide, ou outros contos do vigário, que aparecem aqui e ali (antigamente em cartas, hoje em emails), mas essas cautelas parecem desvanecer-se quando o intermediário aparenta uma credibilidade institucional.

As tulipas chegaram à Holanda originárias da Turquia, numa altura em que a jovem República Holandesa começava a crescer, recebendo o papel de potência marítima, para o qual foi crucial a emigração de muitos judeus, expulsos de Portugal e Espanha. Estes judeus, por sua vez, tinham a mesma origem remota que as tulipas que iriam ser negociadas na Holanda.

Aliás, convirá referir que este espírito capitalista, que desflorava nas tulipas holandesas, não terá tido muito provavelmente a sua estreia na Holanda. O primeiro registo de economia capitalista parece ter sido exercido pelos Khazares, da parte da Tartária contígua ao Mar Cáspio (que inclui as caucasianas Iberia e Albania), onde também surgiram os Otomanos que iriam arrasar Constantinopla.
A extensão do império Khazar até ao Séc. X.

Estes Khazares controlavam grande parte do comércio oriental, feito pela chamada "Rota da Seda", evitando o inicial bloqueio árabe, e a sua conversão ao judaísmo parece ter-se adequado à sua natureza de comerciantes. Sugere-se ainda que os Ashkenazi (basicamente os judeus europeus, de tez mais branca), são descendentes da emigração da Khazaria, que começou com o fim do império Khazar, basicamente desde o Séc. XI, tendo o seu apogeu com o fim da Idade Média, após a queda de Constantinopla. Podemos dizer que saíram da Iberia caucasiana em direcção à Ibéria atlântica, e depois à Holanda, onde foram reencontrar as tulipas nativas.
Bom, e se as tulipas lhes eram especialmente valiosas, por muito que fosse predominante o papel comercial judaico, na Holanda teriam que fazer um reinício, quase do zero. Porém, a nova Republica Holandesa permitia um sistema económico capitalista, que lhes era familiar, e que dominariam particularmente bem. Chegados sem bens notáveis, em breve consumariam uma transferência de riqueza que lhes permitira dominar a sociedade holandesa, em particular através da sua influência na Companhia das Índias Orientais, mas também através destes novos mecanismos especulativos, como foram os contratos de futuros feitos com tulipas.

Um simples bulbo de planta passava em dois ou três anos a valer mais que o ouro, e esta paranóia induzida aos holandeses terá permitido acumular fortunas a quem dominava perfeitamente as nuances do sistema capitalista.

A Holanda acaba por se definir como crucial para os acontecimentos seguintes. Curiosamente são os holandeses que fundam Nova York com o nome Nova Amsterdão, e o seu último governador, Peter Stuyvesant, é quem vai construir uma muralha que deu nome a Wall Street...
Chegada de Stuyvesant a Nova Amsterdão (1647-1664)

Porém esta muralha não resiste à nova Inglaterra de Carlos II (já casado com Catarina de Bragança), e em 1664 os ingleses acabam por conquistar esse território americano. A pequena Holanda não parece conseguir competir com a nova força da Inglaterra.
No entanto, alguns 25 anos mais tarde, em 1689, três anos depois da morte de Carlos II, o novo rei Jaime II, seu irmão, acaba por ser deposto através de uma invasão naval holandesa, comandada por Guilherme de Oranje, na chamada "Revolução Gloriosa". O pretexto que uniu o parlamento inglês ao soberano holandês, contra o rei legítimo, teria sido a crescente tolerância ao catolicismo.
Esta foi a única invasão que a Inglaterra sofreu desde Guilherme I, em Hastings (1066), e curiosamente seria levada a cabo por outro Guilherme. Porém, neste caso não houve praticamente resistência, devido ao apoio do parlamento, pelo que a revolução também traz o epíteto "sem sangue".

O que mais glorioso teve esta invasão de Guilherme III foi o crescimento do país invadido, e o declínio do país invasor. A Holanda acabou por perder o seu aspecto dominante, e a transferência de riqueza, que já se tinha visto ocorrer dos reinos ibéricos para a Holanda, passou da Holanda para a Inglaterra. O mundo financeiro que iria dominar os próximos séculos seria sediado na City de Londres, até passar depois para a muralha de Stuyvesant, Wall Street. A dimensão da Inglaterra permitia uma armada sem rival, para uma política global, algo que seria muito mais difícil de concretizar na frágil Holanda. Um mesmo rei permitiria essa transferência mais comodamente...
As províncias ultramarinas holandesas acabaram por ser anexadas pelos ingleses, mais tarde ou mais cedo. A Austrália manteve-se escondida até à chegada de Cook, bem como a própria Nova Zelândia, que tem o seu nome derivado de Zeeland, a província "conquistada ao mar" pelos holandeses. O facto da ilha ter nome derivado do holandês não parece importar na tentativa de atribuição a Cook.
Assim, a Holanda que sonhou os futuros nos bulbos de túlipa, acabou ver no futuro apenas uma lembrança do seu poder passado.

A mesma esperteza que transformou bulbos de túlipa em ouro, acabou por se manifestar de forma mais contundente na transformação da moeda. A moeda ligava-se ao ouro, que por tradição, desde a Antiguidade, era considerado um elemento valioso. No entanto, no Séc. XX, após a 1ª Guerra Mundial, e especialmente após a 2* Guerra, em Bretton Woods, vai terminar essa ligação ao metal. Já há muito que o gado servira de moeda de troca, e do pecuário saiu a palavra pecuniário, na tradição grega, ou que o sal servira de moeda de troca romana, de onde saíra a palavra salário. Quando se  emitem as primeiras notas de papel, há uma promessa de ligação a um metal depositado, mas essa ligação vai-se desvanecer.
O dinheiro reduz-se a uma troca de confiança assinada em papel de nota, em papel de acções, etc... deixará de ter correspondente em ouro. Tem correspondente em produtos e serviços pela confiança adquirida, mas também há uma "confiança imposta", que serve de "imposto" imperial.

Os bulbos de tulipas caíram porque a sua vulgarização levou a uma inevitável desvalorização, o mesmo ocorreu quando o mercado foi inundado recentemente por "contratos de futuros" sem futuro. Criaram-se perspectivas de fortuna para muitos, como se todos estivessem contentes por ir ganhar a lotaria, sem se dar conta que teriam que dividir o prémio entre si, e que não havia um grande prémio para cada um. Assim, acabamos por ter uma dívida mundial superior em muitas vezes ao produto bruto gerado. Parece importar pouco que o que foi emprestado simplesmente não existia, e que por isso quem o fez, tomou para si, a crédito, o futuro de todos, que não lhe pertencia, diluindo-o nesses contratos.
Assim, as novas gerações acabarão por ver o seu futuro hipotecado pelos contratos de futuros cobrados pelos bulbos de túlipa que a geração anterior contraiu, iludida pelo poder das flores.

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publicado às 07:27


As Tulipas e os Futuros

por desvela, em 20.11.12
No início do Séc. XVII, a Holanda desenvolveu um particular gosto por tulipas, cujos bulbos podiam até ser comercializados com o valor de moeda. Uma das tulipas, denominada Semper Augustus foi negociada a valor recorde, uma pequena fortuna inalcançável ao normal cidadão holandês.


 
Publicidade ao investimento em tulipas e a famosa Semper Augustus  (wiki).


Esta importância das tulipas foi retomada em romance de 1850, de Alexandre Dumas, "A Tulipa Negra", talvez querendo alertar para o episódio, dado o peso que a especulação financeira retomava no final daquele século.
O fenómeno, que atingiu o pico máximo e o colapso em 1637, é chamado tulipomania, e tem características especulativas muito semelhantes a posteriores crises bolsistas.

(evolução exponencial dos preços entre 1634 e 1637)

Está documentada nesta altura uma forte publicidade e o aparecimento de "contratos de futuros". Estes contratos de futuros eram negociados com expectativas sobre o crescimento económico do valor dos bulbos de tulipas. O aumento dos preços permitia convencer a pagar alto pelo valor de tulipas que se iriam vender no futuro.
Estes mesmos contratos de futuros estiveram na origem da recente crise financeira de 2008, e não são por isso uma invenção recente, conforme é por vezes pensado. São uma arma financeira que permite o enriquecimento rápido de uns poucos, e a ruína abrupta de muitos mais... dito em poucas palavras, permite uma transferência e concentração de riqueza.

Por estranho que pareça, as pessoas parecem alertadas para os esquemas em pirâmide, ou outros contos do vigário, que aparecem aqui e ali (antigamente em cartas, hoje em emails), mas essas cautelas parecem desvanecer-se quando o intermediário aparenta uma credibilidade institucional.

As tulipas chegaram à Holanda originárias da Turquia, numa altura em que a jovem República Holandesa começava a crescer, recebendo o papel de potência marítima, para o qual foi crucial a emigração de muitos judeus, expulsos de Portugal e Espanha. Estes judeus, por sua vez, tinham a mesma origem remota que as tulipas que iriam ser negociadas na Holanda.

Aliás, convirá referir que este espírito capitalista, que desflorava nas tulipas holandesas, não terá tido muito provavelmente a sua estreia na Holanda. O primeiro registo de economia capitalista parece ter sido exercido pelos Khazares, da parte da Tartária contígua ao Mar Cáspio (que inclui as caucasianas Iberia e Albania), onde também surgiram os Otomanos que iriam arrasar Constantinopla.
A extensão do império Khazar até ao Séc. X.

Estes Khazares controlavam grande parte do comércio oriental, feito pela chamada "Rota da Seda", evitando o inicial bloqueio árabe, e a sua conversão ao judaísmo parece ter-se adequado à sua natureza de comerciantes. Sugere-se ainda que os Ashkenazi (basicamente os judeus europeus, de tez mais branca), são descendentes da emigração da Khazaria, que começou com o fim do império Khazar, basicamente desde o Séc. XI, tendo o seu apogeu com o fim da Idade Média, após a queda de Constantinopla. Podemos dizer que saíram da Iberia caucasiana em direcção à Ibéria atlântica, e depois à Holanda, onde foram reencontrar as tulipas nativas.
Bom, e se as tulipas lhes eram especialmente valiosas, por muito que fosse predominante o papel comercial judaico, na Holanda teriam que fazer um reinício, quase do zero. Porém, a nova Republica Holandesa permitia um sistema económico capitalista, que lhes era familiar, e que dominariam particularmente bem. Chegados sem bens notáveis, em breve consumariam uma transferência de riqueza que lhes permitira dominar a sociedade holandesa, em particular através da sua influência na Companhia das Índias Orientais, mas também através destes novos mecanismos especulativos, como foram os contratos de futuros feitos com tulipas.

Um simples bulbo de planta passava em dois ou três anos a valer mais que o ouro, e esta paranóia induzida aos holandeses terá permitido acumular fortunas a quem dominava perfeitamente as nuances do sistema capitalista.

A Holanda acaba por se definir como crucial para os acontecimentos seguintes. Curiosamente são os holandeses que fundam Nova York com o nome Nova Amsterdão, e o seu último governador, Peter Stuyvesant, é quem vai construir uma muralha que deu nome a Wall Street...
Chegada de Stuyvesant a Nova Amsterdão (1647-1664)

Porém esta muralha não resiste à nova Inglaterra de Carlos II (já casado com Catarina de Bragança), e em 1664 os ingleses acabam por conquistar esse território americano. A pequena Holanda não parece conseguir competir com a nova força da Inglaterra.
No entanto, alguns 25 anos mais tarde, em 1689, três anos depois da morte de Carlos II, o novo rei Jaime II, seu irmão, acaba por ser deposto através de uma invasão naval holandesa, comandada por Guilherme de Oranje, na chamada "Revolução Gloriosa". O pretexto que uniu o parlamento inglês ao soberano holandês, contra o rei legítimo, teria sido a crescente tolerância ao catolicismo.
Esta foi a única invasão que a Inglaterra sofreu desde Guilherme I, em Hastings (1066), e curiosamente seria levada a cabo por outro Guilherme. Porém, neste caso não houve praticamente resistência, devido ao apoio do parlamento, pelo que a revolução também traz o epíteto "sem sangue".

O que mais glorioso teve esta invasão de Guilherme III foi o crescimento do país invadido, e o declínio do país invasor. A Holanda acabou por perder o seu aspecto dominante, e a transferência de riqueza, que já se tinha visto ocorrer dos reinos ibéricos para a Holanda, passou da Holanda para a Inglaterra. O mundo financeiro que iria dominar os próximos séculos seria sediado na City de Londres, até passar depois para a muralha de Stuyvesant, Wall Street. A dimensão da Inglaterra permitia uma armada sem rival, para uma política global, algo que seria muito mais difícil de concretizar na frágil Holanda. Um mesmo rei permitiria essa transferência mais comodamente...
As províncias ultramarinas holandesas acabaram por ser anexadas pelos ingleses, mais tarde ou mais cedo. A Austrália manteve-se escondida até à chegada de Cook, bem como a própria Nova Zelândia, que tem o seu nome derivado de Zeeland, a província "conquistada ao mar" pelos holandeses. O facto da ilha ter nome derivado do holandês não parece importar na tentativa de atribuição a Cook.
Assim, a Holanda que sonhou os futuros nos bulbos de túlipa, acabou ver no futuro apenas uma lembrança do seu poder passado.

A mesma esperteza que transformou bulbos de túlipa em ouro, acabou por se manifestar de forma mais contundente na transformação da moeda. A moeda ligava-se ao ouro, que por tradição, desde a Antiguidade, era considerado um elemento valioso. No entanto, no Séc. XX, após a 1ª Guerra Mundial, e especialmente após a 2* Guerra, em Bretton Woods, vai terminar essa ligação ao metal. Já há muito que o gado servira de moeda de troca, e do pecuário saiu a palavra pecuniário, na tradição grega, ou que o sal servira de moeda de troca romana, de onde saíra a palavra salário. Quando se  emitem as primeiras notas de papel, há uma promessa de ligação a um metal depositado, mas essa ligação vai-se desvanecer.
O dinheiro reduz-se a uma troca de confiança assinada em papel de nota, em papel de acções, etc... deixará de ter correspondente em ouro. Tem correspondente em produtos e serviços pela confiança adquirida, mas também há uma "confiança imposta", que serve de "imposto" imperial.

Os bulbos de tulipas caíram porque a sua vulgarização levou a uma inevitável desvalorização, o mesmo ocorreu quando o mercado foi inundado recentemente por "contratos de futuros" sem futuro. Criaram-se perspectivas de fortuna para muitos, como se todos estivessem contentes por ir ganhar a lotaria, sem se dar conta que teriam que dividir o prémio entre si, e que não havia um grande prémio para cada um. Assim, acabamos por ter uma dívida mundial superior em muitas vezes ao produto bruto gerado. Parece importar pouco que o que foi emprestado simplesmente não existia, e que por isso quem o fez, tomou para si, a crédito, o futuro de todos, que não lhe pertencia, diluindo-o nesses contratos.
Assim, as novas gerações acabarão por ver o seu futuro hipotecado pelos contratos de futuros cobrados pelos bulbos de túlipa que a geração anterior contraiu, iludida pelo poder das flores.

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publicado às 23:27


Companhias nas Indias

por desvela, em 13.06.11
Num mapa da América do Sul no Atlas Universal de João Teixeira Albernaz, de 1643, podemos ler na região da Patagónia "Terra de Gigantes". 
América do Sul no Atlas Universal, 1643,
de João Teixeira Albernaz (Torre do Tombo)

Fomos encontrar estes mapas com alta definição um ano depois de ter aqui colocado um mapa de menor definição, do mesmo autor, curiosamente ilustrado com um "Santo António e o menino".
Não há propriamente grande novidade neste mapa, à primeira vista, mas nota-se perfeitamente que havia uma barreira entre as cidades coloniais espanholas, seja do Chile ou de Tucuman, que não passavam o paralelo do Rio da Prata. Aliás o foco era colocado na exploração da prata, ilustrada no mapa pelo relevo dado à cidade de Potossi.

Nenhuma cidade estava estabelecida na chamada Terra de Gigantes ou Patagónia... e assim permaneceu até ao Séc XIX. Pode sempre invocar-se o clima mais frio, mas para europeus, estamos ainda em zonas temperadas, em latitudes europeias. Só mesmo a ponta sul na Terra do Fogo exibiria um clima próximo da Escandinávia, e ainda assim habitável.

Não insistimos no tema de gigantes, que já abordámos aqui e várias vezes.
O assunto mais relevante é um Privilégio dado à Companhia das Indias Holandesa em 1621. Colocámos aqui as duas primeiras páginas que encontrámos nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1908, Vol.30). 

É especialmente instrutivo ler-se sobre a absoluta proibição de navegação, a menos de consentimento expresso da Companhia, e ainda que esta restrição praticamente cobrisse todo o globo terrestre, há alguns locais que são mencionados em particular: o Cabo da Boa Esperança, a Terra Nova, os Estreitos de Magalhães e Le Maire até ao Estreito de Anian, bem como "as Terras Austrais (...) que atingem a Leste o Cabo da Boa Esperança e a Oeste a extremidade oriental da Nova Guiné, inclusivé". 
Esta última descrição corresponde a uma efectiva proibição da navegação à Austrália.
A Companhia das Índias queria restringir o contacto com "más" companhias índias... (*)

Se dúvidas ainda houvesse, neste documento oficial de 1621 fica claro que as terras estavam identificadas e a navegação era proibida. Neste caso era proibida pela Companhia das Índias da Holanda, mas o texto revela um poder quase universal, talvez pretencioso, mas também talvez efectivo e que se manifestava num possível acordo com as outras Companhias das Índias, ou no decurso favorável da Guerra dos Trinta Anos. 
Na prática estava estabelecido um código de comércio europeu global. As histórias de descobertas que ouvimos depois disto são meras fantasias de estórias de encantar, com heróis seleccionados.

Em concreto, o Estreito de Anian (no texto escrito "Anjan"), que tantas vezes aparecia nos mapas, e que já aqui falámos várias vezes, é neste documento identificado oficialmente.
Não pode ninguém invocar agora fantasia ou incerteza dos cartógrafos. A descoberta do mesmo estreito por Bering foi apenas uma mera formalidade, talvez honrando uma colaboração entre dinamarqueses e russos na aniquilação do Império Tártaro Siberiano e Anian do Alasca.

Também João Teixeira Albernaz coloca o Estreito de Anian, entre a Tartária Oriental e o reino de Anian (a parte noroeste da América Setentrional), ao mesmo tempo que identifica algumas ilhas acima do Japão, descobertas por D. João da Gama.
Estreito de Anian, no Atlas de João Teixeira Albernaz de 1643

Podemos ainda ver neste mapa, a sequência Cabo de Fortuna, Costa de los Tucayos, Cabo Bravo, V. Honda, Costa de Arboredos, V. baixo, V. de montanhas, etc... uma sequência de nomes em que os dois últimos estão rasurados, e quanto a Honda é um nome que o Japão fez questão de recuperar pela sua indústria automóvel.

Tudo se passava num cenário que foi completamente ocultado, sendo revelados e admitidas algumas chacinas, algumas guerras, em que os heróis e vilões eram seleccionadamente escolhidos para a glória ou repúdio.
Podemos encontrar ainda na mesma Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma relação de consultas do Conselho da Fazenda relativa ao Ano de 1634, onde se lêem alguns aspectos caricatos das nossas explorações. Seleccionamos a vermelho um pedido pagamento de Pedro de Ieter, de um soldo de 648 escudos... relativo à descoberta do Estreito de Le Maire (dito Mayre) por ordem do Marquês de Alenquer:

O Estreito de Le Maire, aqui dito Mayre, é um nome inventado pelo próprio holandês Le Maire, em 1616, com a incumbência oficial de provar que a Terra do Fogo não era um continente... A situação é especialmente caricata porque seria já suposto que Drake tivesse ido pelo Cabo Horn, de onde viria o nome Passagem de Drake... porém depois considerou-se que Drake seguiu o caminho de Magalhães, e afinal uma tormenta é que o mandou para trás... nunca falta imaginação tormentosa!

Sobre Pedro de Ieter não encontrei nada... poderá ter seguido na expedição de Garcia de Nodal, que partiu de Lisboa em 1619, então sob regência do Marquês de Alenquer, Diego de Silva y Mendonza, vice-rei de Filipe III. É este vice-rei o filho dos notáveis Príncipes de Eboli, Ruy Gomes da Silva e Ana Mendonza de La Cerda, de que já falámos, sendo neste período que se sentiu uma maior autonomia portuguesa sob domínio filipino.
Esta expedição espanhola em resposta à holandesa de Le Maire, torna claro como as descobertas eram respostas políticas, muito mais do que empreendimentos de navegação. Pela parte espanhola, foram descobertos territórios sul até às ilhas de Diego Ramirez, mas não se ousou declarar mais do que isso... o "novo estreito de Mayre" incumbido a Pedro Ieter ficou por se saber. A Espanha iria perder a Guerra dos Trinta Anos, e a sua capacidade de reclamar territórios ficaria definitivamente comprometida em Vestfália, 1648 (**).

Quanto aos territórios antárticos, apesar de quase contíguos a toda essa região, ficaram guardados até ao final do Século XIX, princípio do XX. Talvez se aceite isto de forma leve sabendo que os espanhóis não gostam muito de frio... se existiu algum monumento na Antártida, colocado por espanhóis ou portugueses, ele foi certamente destruído para sempre - por algum acidente natural, é claro!

Notas:
(*) Até que ponto o nome Companhia da Índias se relacionaria pela necessária "companhia" nos navios... digamos um autêntico serviço de acompanhantes, destinado a não desencaminhar os navios do seu rumo. Fora desse "escorting service", só funcionariam mesmo os navios piratas...  


(**) O texto escrito em 1621 fala no prazo de 24 anos... revelando um plano de longo curso, que se materializaria em 1645. Isto tem características de "protocolo do Sião" no sentido em que antevê alguns desenvolvimentos que irão materializar o domínio holandês. Vestfália é assinada em 1648 e o erro seria apenas de 3 anos, caso fosse a previsão para a vitória na Guerra dos Trinta Anos. Ao mesmo tempo, 1645 é o ano em que as forças parlamentares de Cromwell ganham um controlo total de Inglaterra, levando o rei Carlos I a fugir para a Escócia, sendo depois executado em 1649. É ainda dentro desse prazo de 24 anos, em 1640, que Portugal se liberta do jugo espanhol... é aqui difícil perceber se a coordenação das rebeliões ibéricas foi um facto lateral ou se efectivamente vinha do objectivo de enfraquecer a unidade espanhola.
Para além do apoio surgido nas guerras da restauração, há um facto que relaciona a Restauração portuguesa e o lado vencedor da Guerra do Trinta Anos... essa guerra começou com um episódio da defenestração de Praga. Haverá sempre um certo desejo de alguma assinatura, que passará por moda da época!

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publicado às 16:49


Companhias nas Indias

por desvela, em 13.06.11
Num mapa da América do Sul no Atlas Universal de João Teixeira Albernaz, de 1643, podemos ler na região da Patagónia "Terra de Gigantes". 
América do Sul no Atlas Universal, 1643,
de João Teixeira Albernaz (Torre do Tombo)

Fomos encontrar estes mapas com alta definição um ano depois de ter aqui colocado um mapa de menor definição, do mesmo autor, curiosamente ilustrado com um "Santo António e o menino".
Não há propriamente grande novidade neste mapa, à primeira vista, mas nota-se perfeitamente que havia uma barreira entre as cidades coloniais espanholas, seja do Chile ou de Tucuman, que não passavam o paralelo do Rio da Prata. Aliás o foco era colocado na exploração da prata, ilustrada no mapa pelo relevo dado à cidade de Potossi.

Nenhuma cidade estava estabelecida na chamada Terra de Gigantes ou Patagónia... e assim permaneceu até ao Séc XIX. Pode sempre invocar-se o clima mais frio, mas para europeus, estamos ainda em zonas temperadas, em latitudes europeias. Só mesmo a ponta sul na Terra do Fogo exibiria um clima próximo da Escandinávia, e ainda assim habitável.

Não insistimos no tema de gigantes, que já abordámos aqui e várias vezes.
O assunto mais relevante é um Privilégio dado à Companhia das Indias Holandesa em 1621. Colocámos aqui as duas primeiras páginas que encontrámos nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1908, Vol.30). 

É especialmente instrutivo ler-se sobre a absoluta proibição de navegação, a menos de consentimento expresso da Companhia, e ainda que esta restrição praticamente cobrisse todo o globo terrestre, há alguns locais que são mencionados em particular: o Cabo da Boa Esperança, a Terra Nova, os Estreitos de Magalhães e Le Maire até ao Estreito de Anian, bem como "as Terras Austrais (...) que atingem a Leste o Cabo da Boa Esperança e a Oeste a extremidade oriental da Nova Guiné, inclusivé". 
Esta última descrição corresponde a uma efectiva proibição da navegação à Austrália.
A Companhia das Índias queria restringir o contacto com "más" companhias índias... (*)

Se dúvidas ainda houvesse, neste documento oficial de 1621 fica claro que as terras estavam identificadas e a navegação era proibida. Neste caso era proibida pela Companhia das Índias da Holanda, mas o texto revela um poder quase universal, talvez pretencioso, mas também talvez efectivo e que se manifestava num possível acordo com as outras Companhias das Índias, ou no decurso favorável da Guerra dos Trinta Anos. 
Na prática estava estabelecido um código de comércio europeu global. As histórias de descobertas que ouvimos depois disto são meras fantasias de estórias de encantar, com heróis seleccionados.

Em concreto, o Estreito de Anian (no texto escrito "Anjan"), que tantas vezes aparecia nos mapas, e que já aqui falámos várias vezes, é neste documento identificado oficialmente.
Não pode ninguém invocar agora fantasia ou incerteza dos cartógrafos. A descoberta do mesmo estreito por Bering foi apenas uma mera formalidade, talvez honrando uma colaboração entre dinamarqueses e russos na aniquilação do Império Tártaro Siberiano e Anian do Alasca.

Também João Teixeira Albernaz coloca o Estreito de Anian, entre a Tartária Oriental e o reino de Anian (a parte noroeste da América Setentrional), ao mesmo tempo que identifica algumas ilhas acima do Japão, descobertas por D. João da Gama.
Estreito de Anian, no Atlas de João Teixeira Albernaz de 1643

Podemos ainda ver neste mapa, a sequência Cabo de Fortuna, Costa de los Tucayos, Cabo Bravo, V. Honda, Costa de Arboredos, V. baixo, V. de montanhas, etc... uma sequência de nomes em que os dois últimos estão rasurados, e quanto a Honda é um nome que o Japão fez questão de recuperar pela sua indústria automóvel.

Tudo se passava num cenário que foi completamente ocultado, sendo revelados e admitidas algumas chacinas, algumas guerras, em que os heróis e vilões eram seleccionadamente escolhidos para a glória ou repúdio.
Podemos encontrar ainda na mesma Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma relação de consultas do Conselho da Fazenda relativa ao Ano de 1634, onde se lêem alguns aspectos caricatos das nossas explorações. Seleccionamos a vermelho um pedido pagamento de Pedro de Ieter, de um soldo de 648 escudos... relativo à descoberta do Estreito de Le Maire (dito Mayre) por ordem do Marquês de Alenquer:

O Estreito de Le Maire, aqui dito Mayre, é um nome inventado pelo próprio holandês Le Maire, em 1616, com a incumbência oficial de provar que a Terra do Fogo não era um continente... A situação é especialmente caricata porque seria já suposto que Drake tivesse ido pelo Cabo Horn, de onde viria o nome Passagem de Drake... porém depois considerou-se que Drake seguiu o caminho de Magalhães, e afinal uma tormenta é que o mandou para trás... nunca falta imaginação tormentosa!

Sobre Pedro de Ieter não encontrei nada... poderá ter seguido na expedição de Garcia de Nodal, que partiu de Lisboa em 1619, então sob regência do Marquês de Alenquer, Diego de Silva y Mendonza, vice-rei de Filipe III. É este vice-rei o filho dos notáveis Príncipes de Eboli, Ruy Gomes da Silva e Ana Mendonza de La Cerda, de que já falámos, sendo neste período que se sentiu uma maior autonomia portuguesa sob domínio filipino.
Esta expedição espanhola em resposta à holandesa de Le Maire, torna claro como as descobertas eram respostas políticas, muito mais do que empreendimentos de navegação. Pela parte espanhola, foram descobertos territórios sul até às ilhas de Diego Ramirez, mas não se ousou declarar mais do que isso... o "novo estreito de Mayre" incumbido a Pedro Ieter ficou por se saber. A Espanha iria perder a Guerra dos Trinta Anos, e a sua capacidade de reclamar territórios ficaria definitivamente comprometida em Vestfália, 1648 (**).

Quanto aos territórios antárticos, apesar de quase contíguos a toda essa região, ficaram guardados até ao final do Século XIX, princípio do XX. Talvez se aceite isto de forma leve sabendo que os espanhóis não gostam muito de frio... se existiu algum monumento na Antártida, colocado por espanhóis ou portugueses, ele foi certamente destruído para sempre - por algum acidente natural, é claro!

Notas:
(*) Até que ponto o nome Companhia da Índias se relacionaria pela necessária "companhia" nos navios... digamos um autêntico serviço de acompanhantes, destinado a não desencaminhar os navios do seu rumo. Fora desse "escorting service", só funcionariam mesmo os navios piratas...  


(**) O texto escrito em 1621 fala no prazo de 24 anos... revelando um plano de longo curso, que se materializaria em 1645. Isto tem características de "protocolo do Sião" no sentido em que antevê alguns desenvolvimentos que irão materializar o domínio holandês. Vestfália é assinada em 1648 e o erro seria apenas de 3 anos, caso fosse a previsão para a vitória na Guerra dos Trinta Anos. Ao mesmo tempo, 1645 é o ano em que as forças parlamentares de Cromwell ganham um controlo total de Inglaterra, levando o rei Carlos I a fugir para a Escócia, sendo depois executado em 1649. É ainda dentro desse prazo de 24 anos, em 1640, que Portugal se liberta do jugo espanhol... é aqui difícil perceber se a coordenação das rebeliões ibéricas foi um facto lateral ou se efectivamente vinha do objectivo de enfraquecer a unidade espanhola.
Para além do apoio surgido nas guerras da restauração, há um facto que relaciona a Restauração portuguesa e o lado vencedor da Guerra do Trinta Anos... essa guerra começou com um episódio da defenestração de Praga. Haverá sempre um certo desejo de alguma assinatura, que passará por moda da época!

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