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Chapéus há muitos...

por desvela, em 30.10.13
... e barretes também!

Um dos barretes que não deixa muitas dúvidas de identificação é o barrete frígio:
  
 
no símbolo da República, nos Estrumpfes, e no culto de Mitra 

Ao ter falado sobre o filme "Nazaré, praia de pescadores", de Leitão de Barros, de 1929, a certa altura não deixei de reparar que ele faz uma observação sobre as silhuetas fenícias. A semelhança pareceu-me estranha, e apenas consegui encontrar uma figura que possa ser enquadrada à época e contexto:

Apesar da expressão "chapéus há muitos..." fazer parte do cinema português da época, não é de nenhum filme de Leitão de Barros, que menciona a silhueta, mas mostra outros chapéus usados pelas mulheres da Nazaré: 

Quando olhei para o mercado, com as mulheres usando aqueles trajes, só me pareceu uma cena boliviana. Os chapéus nazarenos parece que entretanto perderam as abas, e esse detalhe que os tornava próximos dos chapéus bolivianos, perdeu-se. Quando existia era demasiado evidente para não ser notado, e até mesmo uma flor do lado direito pode ser encontrada nalguns chapéus aimaras.
São 4 a 5 as saias (polleras) usadas na comunidade aimara/quechua, mas o valor de 7 saias, tipicamente falado para as nazarenas, também parece pouco fixo, e mais relacionado com o mar, ou com os 7 mares. A manta também perdeu o colorido, e passou a ser presa pelo chapéu.
As cores vivas perdiam-se facilmente na Nazaré... as fatalidades do contexto, em que o mar era apenas um dos visíveis executores, são ilustradas no filme Maria do Mar, também de Leitão de Barros, que o filma logo no ano seguinte, 1930.
Leitão de Barros esclarece que a saída para o mar é decidida pelos "entendidos"... a cena do documentário aponta para dois indivíduos (ver figura seguinte, central). Um apresenta um barrete normal, típico da Nazaré, o outro entendido parece enfiar outro tipo de barrete. Remetendo à comunidade aimara/quechua, podemos encontrar barretes com um berloque semelhante ao do pescador. O que pescador ganhou em comprimento, perdeu na cor e nas abas laterais. Já o barrete do entendido da direita... ou é um saco de batatas, ou remete para outro tipo de barretes (à direita, desfile do KKK nos EUA).

Esta coincidência, entre mulheres que usam chapéu, e homens que usam barrete, vale o que vale, e apenas a quero acrescentar a um outro detalhe sobre a comunidade quechua.

Amaro
Sobre os barretes frígios, o seu uso é extenso, remetido a várias épocas e contextos... ser usado em banda desenhada belga, não tem nada de especial, até porque grande parte da banda desenhada de referência parece ter ganho raízes na Bélgica. 
Waterloo é na Bélgica, e ali caíram as esperanças napoleónicas, mas o liberalismo despontou. Com Leopoldo I, tio da rainha Vitória, começou a construir-se uma nova Bruxelas, e uma outra ordem mundial, de que já falámos.
É por aqui que fazemos ligação de escrita a uma outra pequena coincidência, através do liberalista J. Ferreira de Freitas, um dos muitos portugueses que alinharam pelo exército napoleónico, numa senda de um liberalismo europeu.
"Padre Amaro" foi uma publicação feita por Ferreira de Freitas no exílio londrino.
Quando passado meio século, Eça de Queirós escandaliza com o romance "O Crime do Padre Amaro", estaria ou não a referir-se implicitamente ao autor do jornal com o mesmo nome que saía de Londres? 

Mas, não é pelo Padre Amaro que fazemos uma ligação atlântica, é através de Santo Amaro, que tal como São Brandão é conhecido por uma hipotética viagem atlântica, em direcção a "paraísos terrestres"... ou seja, provavelmente em direcção às Bahamas. É curiosa a sua referência ao Mar Vermelho... que seria início do Atlântico - como já vimos noutros casos. Seguindo depois o curso do Sol, ou seja, em direcção ao Poente, Amaro só poderia chegar à América. Esta história, mais ibérica, parece estar ligada a outras referências irlandesas, não só de São Brandão, mas de outras aventuras (Immram) que também desembarcariam em ilhas paradisíacas.

Porém, o que prenderia os pescadores da Nazaré a terra, perdido o medo do mar? O contexto familiar, certamente, mas também todo o contexto educacional, simbolizado pelos "entendidos". Assim, os pescadores de toda a costa atlântica, mais do que presos pela imensidão do mar, estavam presos a terra pelos laços que circunscreviam a sua acção aos valores herdados e a um pensamento condicionado. Só esses os impediam de progredir na direcção do Sol Poente, onde estavam os paraísos terrestres.

Barreul e Robison
O condicionamento da acção pode ser feito de muitas maneiras, e é mais subtil quando o próprio nem se apercebe que está a ser condicionado. Se isso afecta uns pela consequência, afecta outros pela causa. O predador sabe que tem que comer, mas não sabe o que o obriga a comer. Pode encontrar um nexo, mas não encontra nexo para esse nexo. 

Em 1798, o Abade Barreul, jesuíta, e John Robison, maçon, publicam textos que alertam para um plano de controlo mundial que se instalava a partir da Maçonaria:
Os textos são longos, e apenas li alguns excertos... que não me motivaram muito a prosseguir.
Procuro gerir o meu tempo não olhando demasiado para informação que não me desperta interesse imediato, e que considero ir parar mais aos detalhes, do que propriamente a matéria auto-suficiente.

Os dois textos são mais do que suficientes para mostrar que a chamada "Teoria da Conspiração" é coisa antiga, com pelo menos 200 anos... e terá certamente mais séculos, e até milénios. Serve tanto de argumento para desvalorizar - dizendo que "sempre houve", como de argumento para valorizar - dizendo que "sempre houve", também... pois isso só significa que a conspiração é antiga.

As posições levam sempre à tentativa de baralhação, onde o argumento num sentido, é usado contra o próprio sentido... ao estilo do judo, onde se procura que a investida do adversário seja usada contra ele.
Por isso, não merece muito relevo enquanto jogo de palavras. 
Barreul era jesuíta, e atacava os maçons... por sua vez um maçon escocês denunciava a mesma infiltração Illuminati dentro da Maçonaria. Desde aí, sempre houve acusações de que os jesuítas infiltravam a maçonaria, e de que a maçonaria infiltrava os jesuítas, já para não falar em remeter a culpa para uma terceira entidade - neste caso os Illuminati.

O propósito que constituíam as associações eram sempre os mistérios antigos... no fundo, os segredos milenares, que alguns sabiam que existiam, e poucos saberiam verdadeiramente quais eram. Pior, nem era claro que os que soubessem estivessem seguros de estarem no último degrau da pirâmide, já que a confusão tinha sido de tal ordem que se prestava a todas as confusões. 
Provavelmente, o que se leria no último degrau é que não era claro que aquele fosse o último degrau... e se não leram isso é porque não chegaram ao último degrau!

No entanto, o que é claro é que uma biblioteca de conhecimento não é mais do que uma grande cadeia informativa, que transporta registos do passado, tal como uma cadeia de DNA transporta informação genética para a geração seguinte. Como já mencionei, nessa solução de armazenamento informativo ganham as amebas, e não os humanos! 
As amebas podem ter aprendido a manobrar a sua forma notavelmente, podem guardar cristais bipiramidais surpreendentes, mas a sua compreensão do universo reduz-se a um charco de água. Nos seres multicelulares, as células aprenderam a ser dependentes, a confiar, e a merecer confiança, porque todas as células dependiam do sucesso do conjunto. Com essa colaboração emergiu uma percepção do universo de conjunto, superior a cada célula. Todas as células tinham um propósito, uma função, e eram praticamente indispensáveis para o sucesso desse conjunto. A consciência do organismo pôde emergir acima do corpo, mas não deixou de lhe estar completamente ligada, e essa ligação é cobrada até à morte física - esse é um preço devido à lógica individual de cada célula.


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publicado às 18:54


Cobertura de Anedotos

por desvela, em 28.05.13
Nota de Rodopé (bis)
Começamos com mais uma "Nota de Rodopé"... 
Já tínhamos falado de Rodopé, a propósito da fábulas de Esopo e de Perrault. 

Faltou-nos uma história de "sapatinho rosa-dourado"... de uma escrava grega, que apreciada pelo seu senhor recebe os tais sapatinhos, causando inveja nas outras escravas... que a sobrecarregam de trabalho!
Acontece que o faraó Amásis II convida todos para uma festa em Mênfis, mas a pobre escrava não pode ir... é sobrecarregada com trabalho pelas outras invejosas! 
Lembra uma história de gata borralheira... e enquanto a festa decorre em Mênfis (só faltaria ter a actuação de algum Elvis...), a pobre escrava, ao lavar a roupa, molha os chinelos. 
Pior, quando os deixa ao sol a secar, um pássaro pega num e foge com ele.
Porém, o pássaro era afinal o deus Hórus, que deixa cair o chinelo em frente a Amásis II.
Tomando tal sinal divino evidente, o faraó procura a donzela que tenha o outro chinelo rosa-dourado. Acaba por encontrar a escrava... essa escrava é Cinderela?... Não, é Rodopé!
 
Ponte Diavolski, Bulgaria - Montes Rodopé (Trácia)... e o sapato de Cinderela.

Parecerá de facto, a história da Cinderela, mas de quem? 
De Esopo, de Estrabão, de Perrault, dos Irmãos Grimm, ou de Disney?
Bom, parece que também há uma versão chinesa - com Ye Xian, que perde um sapatinho dourado, e também tem uma madrasta malvada. É sabida a importância que os chineses davam aos pés pequenos, por isso esta história é também antiga - encontra-se numa compilação do Séc. IX d.C. (ver também aqui).

Encontrei, por mero acaso, mais esta "nota de Rodopé". 
Não era sobre isso que queria falar. Mas, aparecendo contada por Estrabão, convirá situar a época. 
Rodopé tal como Spartacus seriam escravos da Trácia. A brutal repressão romana à revolta de Spartacus ainda estaria fresca na memória dos gregos, e não podendo falar de Spartacus, talvez ocorresse a Estrabão falar de Rodopé, enquanto símbolo escravo da vizinha Trácia.
Se o grego Esopo atribuíra a Rodopé uma das pirâmides egípcias, o grego Estrabão iria dar-lhe um pé, que colocaria, através de Hórus, ao lado do poder divino faraónico. 
Se o pé do trácio Spartacus, como o de mais 30 mil escravos, foi pregado numa cruz na Via Ápia, houve poucas décadas depois outro pé onde tal cruz ficou imortalizada, com uma Roma rendida a esse símbolo.

4) O declínio egípcio
Amásis II - o faraó que escolheria o pé de Rodopé - seria o último grande faraó egípcio. A partir daí, de Rodopé ficaria essencialmente um Canto, um canto de arquitectos e poetas. 
Logo a seguir à morte de Amásis II os egípcios iriam cair sob domínio persa, do Império Aqueménida, ficando como uma província (isto, à excepção de um curto período, onde por alguns anos a capital será a cidade egípcia de Mendes - XIX dinastia).

Se a civilização egípcia consegue resistir ao primeiro Império, ou primeira monarquia Assíria, o mesmo já não se passará na transição para o segundo Império, quando Medos, Caldeus e Persas passam o poder da velha capital assíria de Nínive para a Babilónia, e depois Persépolis.
Já falámos da descrição de Figueiredo que fazia a divisão em 7 monarquias em vez de 4 impérios.
Quando se fala na mitologia do "Quinto Império", há em comum a primeira monarquia iniciada com os Assírios, por Nimrod ou Nembroth (associado à Torre de Babel e à capital Nínive).
Após a queda assíria, com Assurbanípal, ou Sardanapalo, o segundo império de Medos e Caldeus, começaria na Babilónia, e ficaria marcado por Nabucodonosor, em particular pelo registo bíblico da deportação hebraica, que terminaria com a ascensão persa de Ciro (560-530 a.C), a quem Figueiredo associa a terceira monarquia, persa, que só seria deposta por Alexandre Magno, marcando também o fim do segundo império. O terceiro império será macedónio-grego, a que se seguiria o quarto, de Roma.

O declínio egípicio, a ascensão de Nabucodonosor, e depois de Ciro, no Séc. VI a.C. vai produzir uma significativa mudança global. É dessa época que nos vão chegar os antigos registos históricos, míticos e religiosos... notando que são contemporâneos, ou posteriores ao "grande" Ciro, os "veneráveis": 
- Sete Sábios Gregos (em particular, Sólon, ou antes Tales de Mileto, 624 a 554 a.C) 
- Buda, ou Sidarta Gautama (563 a 483 a.C), 
- Confúcio, ou Kung Fu Tziu (551 a 479 a.C).

O ponto principal é que é nesta época que se definem os registos que passam para as gerações seguintes.
O caso mais emblemático será a confusão hebraica-judaica. É reconhecido que quando Ciro recoloca hebreus e judeus no mesmo "território de origem" já se teria perdido grande parte da cultura pelo período no cativeiro da Babilónia... onde choraram por Sião. Até a língua hebraica seria estranha aos judeus, pelo que a recuperação bíblica será feita com a ajuda dos magos persas - os seus antigos captores.
Não será assim tão estranho que haja muitos pontos comuns entre os registos míticos babilónicos e aqueles que serão depois adoptados pelos judeus. 

Por outro lado, ainda antes do declínio, fica claro que há uma aproximação entre egípcios e gregos.
Sólon, um dos Sete Sábios Gregos do Séc. VI a.C. procura informações no Egipto... em particular será aí que terá o registo da Atlântida, que depois será contado por Platão. 
O aparecimento da cultura grega não pode ser desligado dessa clara influência egípcia, que assim procura uma oposição à expansão persa. O Egipto acabará por retomar o seu protagonismo através deste investimento, pela importância que a dinastia Ptolomaica de Alexandria assumirá até à queda de Cleópatra. 

A tragédia que envolve Júlio César, Cleópatra, Marco António e Augusto Octávio, é uma história que assinala a luta de poder na transição entre o 3º Império sediado em Alexandria e a passagem para o 4º Império sediado em Roma.
Não será imediata, pois mesmo durante o período romano, Alexandria com a sua Biblioteca continuará a ser o principal pólo de conhecimento da Antiguidade. Será apenas com a chegada de Constantino, e a consagração de Bizâncio, que Alexandria perderia a sua importância como capital oriental, entrando em declinio até à conquista árabe.

Se notamos uma influência egípcia na formação filosófica e científica grega, também podemos ver alguma exportação filosófica para Oriente. Em muitos aspectos encontramos noções da filosofia de Hermes ou de Zoroastro nas reflexões budistas, confucianas ou taoístas.  Nota-se uma mudança significativa na forma, mas há muitos pontos comuns no conteúdo, que passam por quase todas as filosofias e religiões.

5) Beroso - Anedotos e Caldeus
Há vários relatos sobre Beroso, mas a sua história dos Caldeus só teria chegado parcialmente através de alguns relatos de Eusébio. Encontrámos um notável trabalho de Isaac Cory que nos dá uma tradução em inglês das citações de Eusébio, e das passagens atribuídas a Beroso (Berossus).
Começamos por esta:
(...) then Ammenon the Chaldean, in whose time appeared the Musarus Oannes the Annedotus from the Erythrean sea.
Quem era esta abominação "Joanes, Anedoto do Mar Vermelho"? 
- Os anedotos eram homens-peixe!
Parecerá "anedota", mas estes "anedotos" eram apresentados como se estivessem "vestidos de peixe", vendo-se os pés, e a cabeça na posição das guelras, assim:
 
Dois Anedotos - Homens Peixe... (imagem) e um enorme bacalhau (imagem)

Se a ideia era dessa forma passarem por "homens-peixe", parece de facto "anedota", e o nome "anedoto" é apropriado. Para além de "Joanes", ou "Oanes", Beroso refere mais anedotos, sempre do Mar "Eritreu"-Vermelho, um outro teria o nome Odacon.
Num dos relatos é dito que o Anedoto conversava com os homens de dia, não comia, e ao pôr-do-sol mergulhava nas águas, onde ficava toda a noite. Parece que com esta anedota eram convencidos os assírios que ele era anfíbio... 
De qualquer forma, aprenderam dele as letras, ciências e outro tipo de artes, como das sementes e frutos. Teria ainda ensinado-os a construir casas, fundar templos, compilar leis, bem como os princípios de geometria. Os seus conhecimentos eram considerados tão universais que nada mais era necessário, tendo tornado os caldeus mais gentis e humanos.
Ao lado decidimos colocar uma imagem de um enorme bacalhau... para que se torne mais claro o que poderia ser um Anedoto ou uma anedota, um bacalhau ou uma cabala.


Não deixa de ser algo estranha esta reverência dos caldeus a esses homens-peixe, que vindos de um Mar Eritreu lhes teriam transmitido conhecimento fundamental. Já aqui referimos da ambiguidade sobre a designação "Eritreu", e de que o Mar Vermelho já foi tido e achado em lugares diferentes. Em particular, esta pesca de bacalhau poderia corresponder a uma secagem de pele noutras paragens, talvez na zona da ilha Eritreia, colocada na Iberia.

Por outro lado, um símbolo na hierarquia cristã é a Mitra, um barrete que já foi visto como perfil de cabeça de peixe. O nome "mitra" está também associado a uma religião persa que chegou a ter um destaque semelhante ao do cristianismo à época da sua implantação no Império Romano. Porém, o barrete do mitraísmo seria o barrete frígio, e não algo com uma abertura que lembra a boca de peixe, como a mitra papal.
Mitra de João XXIII.

Não é nenhuma novidade que um símbolo cristão é o peixe, mas não é convincente que tal se deva às iniciais ΙΧΘΥΣ que corresponderiam a Iesous Christos Theou Yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador,  sendo Ichtys a palavra grega de peixe)... ou ainda a um "alfa" que tem a forma de peixe.
Se o hábito faz o monge, neste caso parece que há hábitos que vêm de longe, do fundo do mar...

6) Beroso - Dilúvio
No mesmo relato atribuído a Beroso fala-se do dilúvio. A divindade é Cronus, que aparece numa visão ao regente Xisuthrus (ou Sisithrus), avisando-o do dilúvio que destruiria a humanidade. Por isso, ele é encarregue de fazer uma história do mundo que guardaria na Cidade do Sol (ver Heliopolis) em Sippara, e de construir um navio onde levaria quem e tudo o que conseguisse, inclusivé todas as espécies de animais.
Depois, tal como na bem conhecida história de Noé, após o dilúvio, envia pássaros três vezes, até que eles não regressaram - o que significava que tinham encontrado terra firme. Num relato (via Abydenus) diz-se explicitamente que o navio se mantinha na Arménia, onde era ainda costume os habitantes fazerem pulseiras e amuletos a partir da sua madeira! (isto é visto como prova posterior da presença do barco no monte Ararat)

Nesse mesmo relato fala-se da construção de Torre de Babel, feita pelos habitantes da terra para desafiarem as alturas, contra vontade dos deuses, que através de ventos a demoliram caindo sobre os executantes, ao mesmo tempo que misturavam as diversas línguas, havendo antes apenas uma língua universal. Do desacordo teria surgido depois uma guerra entre Cronus e Titan...
A torre é colocada na Babilónia, e é dito que "para confusão é pelos Hebreus chamada Babel"...

Podemos concluir, que a menos de detalhes, e diferença de nomes, estas estórias caldeias-babilónicas do Dilúvio e de Babel são exactamente as mesmas que aparecem depois na tradição judaico-cristã. A grande diferença será o carácter monoteísta que parece associado a Cronus, eliminando referências a outros deuses ou a entidades míticas ou controversas, como o caso dos homens-peixe, os anedotos.

Será que podemos associar estes homens-peixe às figuras de sereias ou ao mito da Atlântida?
Até que ponto é que a questão do desaparecimento de uma potência atlântica não estaria ligada ao próprio mito do dilúvio?
- Afinal, havendo uma Idade do Gelo, quando essa termina para onde iria a água derretida?
- Não faria sentido considerar que o degelo teria provocado um considerável aumento da água do mar, afundando por completo povoações costeiras?
Se os gelos permanentes chegassem até ao Sul de França, como é habitualmente admitido, a retenção de água nesses gelos seria enorme, e a linha de costa seria bem diferente, estendendo-se muitos quilómetros no que hoje é Oceano. Um aquecimento do planeta teria como consequência uma catástrofe diluviana para civilizações costeiras. Só seriam sobreviventes as que assumissem algum carácter marítimo, ou que migrassem para zonas montanhosas. Essa mudança climática provocaria ainda uma mudança civilizacional, arruinando estruturas antigas, deixando perdidas várias tribos, e praticamente tudo teria que ser recomeçado.
Porém, quem sobrevivesse com a herança do passado perdido teria uma grande vantagem civilizacional face a todos os outros sobreviventes desorientados e espalhados por diversas partes, regressando à faceta de homens de cavernas.

Num dos relatos atribuído a Beroso é dito que o mesmo Oanes indicava que no início os homens teriam aparecido também com duas asas, outros com quatro asas e duas caras... podendo ser de homem e mulher.
Haveria ainda figuras humanas com cornos e pernas de cabras, outros pés de cavalo, touros com cabeça humana, etc... toda uma mistura zoológica, que teria sido desenhada no templo de Belus na Babilónia!
Não será assim de admirar que também no Egipto, por altura semelhante, tivessem aparecido representações mistas, que invocavam uma parte humana e outra parte animal... assim se constitui uma boa parte do panteão de divindades egípcias, que também foi exportada para mitos gregos.

Que propósito haveria nestes anedotos, ou nestas anedotas?...
Ou antes, como se manifestaria uma civilização mais avançada no contacto com tribos que estavam praticamente na pré-história? 
Teria paciência para fazer evoluir essas tribos para o mesmo nível? 
Aparecia como elite e tratava os restantes como servos? 
Interviria pontualmente como deuses e deixaria as tribos prosseguir a sua evolução?

Há alguns pontos na mitologia que podem ser encarados como abordagens a estas perguntas.
A civilização preponderante poderia ser encarada como um deus dominante, imortal, que decidiria sobre o futuro das civilizações que nasciam. A diferença de poder seria tal que permitiria intervir para proteger ou aniquilar civilizações emergentes. 
Neste sentido, apenas uma civilização, ou estrutura civilizacional, seria imortalizada... as outras passariam por fados, por jogos de poder, que as levariam a aniquilar-se. Não admitiria filhos... no sentido em que evitaria a competição interna com uma fonte semelhante de poder. 
Estamos perante uma figuração semelhante à de Cronos... que será deposto por Zeus.
O poder com Zeus substituiria essa dominância absoluta de Cronos, partilhando o Olimpo com os seus irmãos, numa oligarquia divina. Figurativamente, seria como substituir uma civilização dominante por uma assembleia olímpica de estruturas civilizacionais dominantes. Seria como se houvesse apenas doze tribos (o número de elementos no Olimpo) que decidissem sobre o futuro das guerras entre todas as outras... 
(ou ainda, seria como um conselho de segurança da ONU, onde cinco estados detêm o poder de veto)

De uma forma, ou de outra, não importa muito, os impérios ou monarquias que dominaram o mundo a partir dos Assírios, parecem ter tido um patrocínio externo, uma influência civilizacional superior que se constituiu como mitologia. Há quem refira os Anunnaki, o que parece ser apenas nome alternativo para a figuração dos Anedotos (um nome por interpretação cuneiforme, o outro das transcrições gregas de Beroso). 



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publicado às 02:09


Torre Vítrea de Nennius

por desvela, em 20.12.12
Um dos relatos mais surpreendentes que li está na 
Historia Brittonum (c. 830 d.C), 
escrita por Nennius, monge galês. Dificilmente se encontram relatos mais próximos do período conturbado que sucedeu à queda do Império Romano do Ocidente (exceptuando Gildas que não é tão informativo).

Turrim vitream in medio mari
No entanto, talvez o que mais surpreende é uma descrição das primeiras tentativas de colonização da Irlanda, que mais uma vez é atribuída a migrações da Hispânia. Eis a parte mais estranha:
After these came three sons of a Spanish soldier with thirty ships, each of which contained thirty wives; and having remained there during the space of a year, there appeared to them, in the middle of the sea, a tower of glass, the summit of which seemed covered with men, to whom they often spoke, but received no answer. At length they determined to besiege the tower; and after a year's preparation, advanced towards it, with the whole number of their ships, and all the women, one ship only excepted, which had been wrecked, and in which were thirty men, and as many women; but when all had disembarked on the shore which surrounded the tower, the sea opened and swallowed them up. Ireland, however, was peopled, to the present period, from the family remaining in the vessel which was wrecked. Afterwards, others came from Spain, and possessed themselves of various parts of Britain.
A menos de efeito alucinogénico de cogumelos, a informação passada como histórica por Nennius descreve algo muito bizarro. Tratava-se de uma "Torre Vítrea" no meio do mar (turrim vitream in medio mare), e no topo haveria homens, que não respondiam aos hispânicos, que tinham chegado à Irlanda em 30 navios.
Depois de procurar mais informação sobre o assunto, verifiquei haver uma interpretação quase tão bizarra quanto a descrição - tratar-se-ia de um iceberg com focas em cima... pelo nível de apuramento da explicação, pode ser coisa oficial.
Tudo bem, vamos admitir que os hispânicos eram ignorantes, nunca tinham visto um iceberg, chamavam-lhe torre vítrea, e achavam que as focas eram parecidas com humanos. Acontece que Nennius diz que demoraram um ano a preparar o ataque... ou seja, o iceberg ficou ali estacionado durante um ano com as focas em cima. Pior, uma vez sitiado o iceberg, desembarcando todos na sua periferia, e cercadas as focas, o conjunto foi todo submergido, desaparecendo tudo.
Antes de ler a versão explicativa com o iceberg e as focas, interpretei abusivamente, e considerei poder tratar-se de um submergível, com uma torre vítrea de comando e observação, que incomodaria os novos colonos, a ponto de eles considerarem a sua abordagem... e quando o fizeram, submergiu!
Porém, como somos ensinados que nenhum desses aparelhos seria possível naquela época, só a versão das focas ao comando do iceberg estacionário é que deve fazer sentido...

A travessia de 40 anos
Este episódio é o terceiro contado por Nennius. Ao que parece os hispânicos insistiam na colonização da Irlanda, que seria meio inóspita para quem está habituado a climas mais temperados, mas a coisa afigurava-se complicada. Da primeira vez tinham saído da Hispânia mil (escotos) sob o comando de Partholomus, e sendo quatro mil ao fim de alguns anos, todos teriam morrido no espaço de uma semana (pode ter sido dos cogumelos)! Da segunda vez teria sido um tal de Nimech, mas teria regressado ao fim de poucos anos com todos os que o tinham seguido. Desta terceira vez, como vimos, foi o problema das focas... mas terá havido sobreviventes, e com a chegada de nova gente da Hispânia, a colonização acabou por se verificar.

Geoffrey of Monmouth na Historia Regum Britanniae (livro III, cap.XII) conta uma versão posterior mais resumida da colonização. Segundo ele, o mesmo Partholoim (pequena variação no nome face a Nennius), com uma frota de 30 navios (o número da 3ª expedição de Nennius), abordara o rei bretão Barbtruc no sentido de lhe dar asilo, pela sua expulsão da Hispânia. Segundo Monmouth, tratavam-se de "Barclenses" - nome demasiado próximo de "Barcelenses" (aludimos a uma possível origem da região de Barcelos, Barcelona, ou ainda Basca - ver a hipótese "Basclense"). Na sua versão, o rei bretão teria cedido, encaminhando-os para a Irlanda, que se encontrava desabitada, e à data de Geoffrey ainda aí viveriam os seus descendentes.

Num ponto está em acordo com Nennius, que também afirma que a Irlanda estava desabitada à chegada dos escotos. Aliás afirma que a Irlanda seria desabitada até à época da travessia do Mar Vermelho pelos Israelitas.
Surge aqui um novo ponto interessante.
Entre os escotos haveria um nobre de origem cita, com grande família, que tinha sido banido, e que tinha tido um percurso notável. Neste ponto a versão de Nennius coincide parcialmente, numa nobreza cita, com a da Declaração de Arbroath mencionada aqui.
O percurso notável desse nobre cita tem semelhanças com o de Moisés...
Após a sua expulsão da Cítia, ter-se-ia refugiado no Egipto, e dado o desaparecimento da nobreza egípcia no Mar Vermelho, os egípcios consideraram que ele poderia tentar apoderar-se do poder, e expulsaram-no de novo. Nennius refere então:
Thus reduced, he wandered forty-two years in Africa, and arrived with his family at the altars of the Philistines, by the Lake of Osiers. Then passing between Rusicada and the hilly country of Syria, they travelled by the river Malva through Mauritania as far as the Pillars of Hercules; and crossing the Tyrrhene Sea, landed in Spain, where they continued many years, having greatly increased and multiplied Thence, a thousand and two years after the Egyptians were lost in the Red Sea, they passed into Ireland, and the district of Dalrieta. 
ou seja, deambulou 42 anos em África, provavelmente no deserto saariano.
O percurso indicado por Nennius mostra a confusão de nomenclatura. O país montanhoso da Síria, seria provavelmente a Tunísia, e o nome "Síria" estaria muito provavelmente ligado à origem fenícia de Cartago. O rio Malva existe - trata-se do actual rio Moulouya, conforme pode ser verificado aqui, já na zona de Marrocos.

Chegam assim aos Pilares de Hércules, estreito de Gibraltar, e vão passar o "Mar Tirreno" para chegar à Hispânia... Percebe-se imediatamente que o nome Mar Tirreno nada tinha a ver com a limitação dada actualmente (que o circunscreve hoje à área entre a Itália, Sardenha e Sicíla). Tratava-se muito provavelmente de todo o Mar Mediterrâneo, ou pelo menos da parte vizinha ao Estreito de Gibraltar.

continuado a 20/12/2012
Aliás, o nome Tirreno pode sugerir outra origem - da colónia fenícia Tiro (ver).
Como é habitual nestas coisas, podemos estar em presença de uma junção de histórias - por um lado a passagem do Mar Vermelho, por outro lado a deambulação de 40 anos no deserto.
Já falámos do Mar VermelhoEbreus do Ebro, e Nennius referindo-se aos filhos de Jafé (Japheth), netos de Noé, diz:
from the fifth, Tubal, arose the Hebrei, Hispani, and Itali.
[quintus Tubal, a quo Hebraei et Hispani et Itali]

Portanto, inclui no conjunto dos filhos de Tubal três populações distintas: Hebreus, Hispânicos e Itálicos (não necessariamente latinos, talvez etruscos). Estabelece-se mais uma ligação explícita entre Hebreus e Hispânia, para além das várias implícitas que já fomos comentando aqui noutros textos.

É claro que todas estas relações são confusas, as informações são (propositadamente?) contraditórias, e é difícil seguir com alguma certeza, apenas vamos estabelecendo algumas relações, que podem formar um corpo mais consistente. Assim, Nennius acaba por falar numa origem britânica que remontaria ao consul romano Brutus, de onde derivaria o nome Britania. Se por um lado seria o mesmo Brutus que passaria o Lima, num tempo demasiado recente, por outro lado esse tempo é anterior, vai até à Guerra de Tróia. Tal como os romanos, também os britânicos procuram uma descedência por algum Eneias troiano.

O texto de Nennius é especialmente conhecido por referir o Rei Artur, sendo talvez o primeiro fazê-lo. Ilustra a tentativa dos britânicos susterem a invasão dos Saxões, frisando em particular o convite ao seu estabelecimento feito pelo Rei Vortigern. Não indo ao aspecto fabuloso de Monmouth, Nennius reporta 12 batalhas vitoriosas de Artur, em particular a de Mount Baden, onde poderá ter exagerado no número de opositores eliminados só por Artur - 960, num só dia.

Traduções, transcrições, e Filisteus
Adiciono um pequeno detalhe instrutivo... no link inicial, que segui, na tradução da Fordham University de Nova York, aparece:
"The twelfth was a most severe contest, when Arthur penetrated to the hill of Badon. In this engagement, nine hundred and forty fell by his hand alone, no one but the Lord affording him assistance. In all these engagements the Britons were successful. For no strength can avail against the will of the Almighty."
Por outro lado, seguindo a versão transcrita em latim aqui lemos apenas:
"Duodecimum fuit bellum in monte Badonis, in quo corruerunt in uno die nongenti sexaginta viri de uno impetu Arthur; et nemo prostravit eos nisi ipse solus, et in omnibus bellis victor exstitit."

Ou seja, a menos que o tradutor tivesse outra versão, há um claro colorido e uma decoração que não está presente na transcrição do latim. Até o número é diferente num caso diz-se 940, noutro 960.
No entanto, estes detalhes não são assim tão importantes. Pode haver alterações, imprecisões, mas o que importa sempre é a visão de conjunto. De qualquer forma, há detalhes que alteram as coisas, e assim retomando o texto anterior, relativo ao mapa, agora em latim lemos:
at ille per quadraginta et duos annos ambulavit per Africam, et venerunt ad aras Filistinorum per lacum Salinarum et venerunt inter Rusicadam et montes Azariae et venerunt per flumen Malvam et transierunt per Maritaniam ad columnas Herculis et navigaverunt Tyrrenum mare et pervenerunt ad Hispaniam usque et ibi habitaverunt per multos annos et creverunt et multiplicati sunt nimis et gens illorum multiplicata est nimis. 
Portanto, temos o Lago Salinarum (em vez de Osiers), e Montes Azariae (em vez de "hilly country of Syria").  Isto muda um pouco as coisas. Já falámos do Lago Tritonis, e à época de Nennius já deveria estar a transformar-se numa enorme superfície salgada, que é hoje o Chott el-Jerid, de onde o nome "Salinarum". Depois dessa região tunisina, há já na Argélia uma cidade, junto à cadeia montanhosa do Atlas que ainda se chama Azaria. Rusicada era também uma cidade romana na zona argelina (foi identificada a Skikda, cidade costeira), e estes locais estão no mapa anterior.
Os Altares dos Filisteus nesta zona (Tunísia/Argélia-Atlas) é ainda mais relevante. Os filisteus deveriam estar na zona de Gaza, junto a Israel... onde desenvolveram lutas com os Hebreus. Porém, se atendermos a que acabámos de realçar a  conexão dos Hebreus com a Hispânia, podemos perceber que o ponto de conflito com os filisteus poderia ocorrer noutro lado - no Norte de África.

Maximus, Ambrósio, Ida e Conan
A Historia Brittonum de Nennius parece ser encarada como meio fantasiosa, e no entanto, não deixam de ali estar alguns acontecimentos que poderiam passar por falsos e não eram, como os referentes a Maximus (de quem falámos no texto anterior), já que a memória desse imperador tinha sido eliminada por decreto romano.
Nennius, como todos os restantes, terá seguido variada documentação. Poderá é ter seguido alguma que não devia... mas na maioria dos "historiadores" da Antiguidade há esse problema, falam de coisas que são hoje desacreditadas. Escolhe-se assim uma parte do que é dito,  que cola com a versão oficial, e o resto é negligenciado. Não sei se há algum historiador antigo que seja considerado fiável, do princípio ao fim, e se há, é porque se tem apenas uma parte histórica muito limitada e particular (o caso de alguns romanos). Ora, não haver nenhum historiador geral da Antiguidade, fiável, do princípio ao fim, é no mínimo um sintoma do problema subjacente há muito tempo.

Tem-se associado a figura do romano Ambrosius Aurelianus à lenda do Rei Artur (e.g. este filme), mas Nennius, como outros, refere-se a Ambrósio de forma distinta de Artur. O ponto comum seria a resistência ao invasor.
Nennius fala depois de Ida, Rei da Bernicia, reino anglo-saxão. Curiosamente esse nome será também o de (Santa) Ida, mãe dos reis de Jerusalém, e mulher do conde do Bulhão, de que já falámos, e que era Eustácio II, um comandante na invasão normanda em Hastings (1066).

Finalmente, regressando à Torre Vítrea, regressamos a Conan... temos numa edição de 1838 da Historia Brittonum, publicada pela English Historical Society, a seguinte observação:

Turrim vitream: Concerning the tower of glass and its frequent occurrence in the early Welsh legends, see Roberts’s Cambr. Antiq. pp. 75, 78, and Davies’s Mythology of the British Druids, p. 212. O’Connor states that this tower was built by a certain Conan upon the island called Tor-Inis, or Tory Island, and refers to a poem written long before A.D. 908, in proof of the antiquity of the tradition, Prolog. I. xxxvi

Ou seja, que a "Torre Vitrea" seria uma antiga lenda galesa, associada a uma torre na ilha de Tory (ver aqui também), construída por um certo Conan...

Ilha de Tory, onde estaria a Torre Vítrea de Conan (em panoramio)

No segundo filme de Conan (Destroyer), encontra-se justamente um episódio no "castelo de gelo do mago Toth-Amon" (ver), reportando talvez essa associação lendária a Conan e por outro lado à migração do cita via Egipto.

Esta descrição da Torre Vítrea pode ser considerada como alegórica, fantasiosa, associada a outras lendas medievais. Por exemplo, Geoffrey Monmouth (livro III, cap. XV) descreve o episódio do tirano Morvidus que teria sido devorado por um "monstro" na costa da Irlanda.
No entanto, a Torre Vítrea dificilmente pode ser enquadrada no tipo de mitos medievais comuns, não há propriamente nenhuma conotação heróica ou religiosa. Há apenas um episódio que é descrito com algum detalhe, sem qualificativos, explicações ou implicações. Se fosse algo que abalasse menos os preconceitos, seria mais facilmente aceite, assim permanece como desafio às explicações mais racionais.
22/12/2012

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:29


Torre Vítrea de Nennius

por desvela, em 19.12.12
Um dos relatos mais surpreendentes que li está na 
Historia Brittonum (c. 830 d.C), 
escrita por Nennius, monge galês. Dificilmente se encontram relatos mais próximos do período conturbado que sucedeu à queda do Império Romano do Ocidente (exceptuando Gildas que não é tão informativo).

Turrim vitream in medio mari
No entanto, talvez o que mais surpreende é uma descrição das primeiras tentativas de colonização da Irlanda, que mais uma vez é atribuída a migrações da Hispânia. Eis a parte mais estranha:
After these came three sons of a Spanish soldier with thirty ships, each of which contained thirty wives; and having remained there during the space of a year, there appeared to them, in the middle of the sea, a tower of glass, the summit of which seemed covered with men, to whom they often spoke, but received no answer. At length they determined to besiege the tower; and after a year's preparation, advanced towards it, with the whole number of their ships, and all the women, one ship only excepted, which had been wrecked, and in which were thirty men, and as many women; but when all had disembarked on the shore which surrounded the tower, the sea opened and swallowed them up. Ireland, however, was peopled, to the present period, from the family remaining in the vessel which was wrecked. Afterwards, others came from Spain, and possessed themselves of various parts of Britain.
A menos de efeito alucinogénico de cogumelos, a informação passada como histórica por Nennius descreve algo muito bizarro. Tratava-se de uma "Torre Vítrea" no meio do mar (turrim vitream in medio mare), e no topo haveria homens, que não respondiam aos hispânicos, que tinham chegado à Irlanda em 30 navios.
Depois de procurar mais informação sobre o assunto, verifiquei haver uma interpretação quase tão bizarra quanto a descrição - tratar-se-ia de um iceberg com focas em cima... pelo nível de apuramento da explicação, pode ser coisa oficial.
Tudo bem, vamos admitir que os hispânicos eram ignorantes, nunca tinham visto um iceberg, chamavam-lhe torre vítrea, e achavam que as focas eram parecidas com humanos. Acontece que Nennius diz que demoraram um ano a preparar o ataque... ou seja, o iceberg ficou ali estacionado durante um ano com as focas em cima. Pior, uma vez sitiado o iceberg, desembarcando todos na sua periferia, e cercadas as focas, o conjunto foi todo submergido, desaparecendo tudo.
Antes de ler a versão explicativa com o iceberg e as focas, interpretei abusivamente, e considerei poder tratar-se de um submergível, com uma torre vítrea de comando e observação, que incomodaria os novos colonos, a ponto de eles considerarem a sua abordagem... e quando o fizeram, submergiu!
Porém, como somos ensinados que nenhum desses aparelhos seria possível naquela época, só a versão das focas ao comando do iceberg estacionário é que deve fazer sentido...

A travessia de 40 anos
Este episódio é o terceiro contado por Nennius. Ao que parece os hispânicos insistiam na colonização da Irlanda, que seria meio inóspita para quem está habituado a climas mais temperados, mas a coisa afigurava-se complicada. Da primeira vez tinham saído da Hispânia mil (escotos) sob o comando de Partholomus, e sendo quatro mil ao fim de alguns anos, todos teriam morrido no espaço de uma semana (pode ter sido dos cogumelos)! Da segunda vez teria sido um tal de Nimech, mas teria regressado ao fim de poucos anos com todos os que o tinham seguido. Desta terceira vez, como vimos, foi o problema das focas... mas terá havido sobreviventes, e com a chegada de nova gente da Hispânia, a colonização acabou por se verificar.

Geoffrey of Monmouth na Historia Regum Britanniae (livro III, cap.XII) conta uma versão posterior mais resumida da colonização. Segundo ele, o mesmo Partholoim (pequena variação no nome face a Nennius), com uma frota de 30 navios (o número da 3ª expedição de Nennius), abordara o rei bretão Barbtruc no sentido de lhe dar asilo, pela sua expulsão da Hispânia. Segundo Monmouth, tratavam-se de "Barclenses" - nome demasiado próximo de "Barcelenses" (aludimos a uma possível origem da região de Barcelos, Barcelona, ou ainda Basca - ver a hipótese "Basclense"). Na sua versão, o rei bretão teria cedido, encaminhando-os para a Irlanda, que se encontrava desabitada, e à data de Geoffrey ainda aí viveriam os seus descendentes.

Num ponto está em acordo com Nennius, que também afirma que a Irlanda estava desabitada à chegada dos escotos. Aliás afirma que a Irlanda seria desabitada até à época da travessia do Mar Vermelho pelos Israelitas.
Surge aqui um novo ponto interessante.
Entre os escotos haveria um nobre de origem cita, com grande família, que tinha sido banido, e que tinha tido um percurso notável. Neste ponto a versão de Nennius coincide parcialmente, numa nobreza cita, com a da Declaração de Arbroath mencionada aqui.
O percurso notável desse nobre cita tem semelhanças com o de Moisés...
Após a sua expulsão da Cítia, ter-se-ia refugiado no Egipto, e dado o desaparecimento da nobreza egípcia no Mar Vermelho, os egípcios consideraram que ele poderia tentar apoderar-se do poder, e expulsaram-no de novo. Nennius refere então:
Thus reduced, he wandered forty-two years in Africa, and arrived with his family at the altars of the Philistines, by the Lake of Osiers. Then passing between Rusicada and the hilly country of Syria, they travelled by the river Malva through Mauritania as far as the Pillars of Hercules; and crossing the Tyrrhene Sea, landed in Spain, where they continued many years, having greatly increased and multiplied Thence, a thousand and two years after the Egyptians were lost in the Red Sea, they passed into Ireland, and the district of Dalrieta. 
ou seja, deambulou 42 anos em África, provavelmente no deserto saariano.
O percurso indicado por Nennius mostra a confusão de nomenclatura. O país montanhoso da Síria, seria provavelmente a Tunísia, e o nome "Síria" estaria muito provavelmente ligado à origem fenícia de Cartago. O rio Malva existe - trata-se do actual rio Moulouya, conforme pode ser verificado aqui, já na zona de Marrocos.

Chegam assim aos Pilares de Hércules, estreito de Gibraltar, e vão passar o "Mar Tirreno" para chegar à Hispânia... Percebe-se imediatamente que o nome Mar Tirreno nada tinha a ver com a limitação dada actualmente (que o circunscreve hoje à área entre a Itália, Sardenha e Sicíla). Tratava-se muito provavelmente de todo o Mar Mediterrâneo, ou pelo menos da parte vizinha ao Estreito de Gibraltar.

continuado a 20/12/2012
Aliás, o nome Tirreno pode sugerir outra origem - da colónia fenícia Tiro (ver).
Como é habitual nestas coisas, podemos estar em presença de uma junção de histórias - por um lado a passagem do Mar Vermelho, por outro lado a deambulação de 40 anos no deserto.
Já falámos do Mar VermelhoEbreus do Ebro, e Nennius referindo-se aos filhos de Jafé (Japheth), netos de Noé, diz:
from the fifth, Tubal, arose the Hebrei, Hispani, and Itali.
[quintus Tubal, a quo Hebraei et Hispani et Itali]

Portanto, inclui no conjunto dos filhos de Tubal três populações distintas: Hebreus, Hispânicos e Itálicos (não necessariamente latinos, talvez etruscos). Estabelece-se mais uma ligação explícita entre Hebreus e Hispânia, para além das várias implícitas que já fomos comentando aqui noutros textos.

É claro que todas estas relações são confusas, as informações são (propositadamente?) contraditórias, e é difícil seguir com alguma certeza, apenas vamos estabelecendo algumas relações, que podem formar um corpo mais consistente. Assim, Nennius acaba por falar numa origem britânica que remontaria ao consul romano Brutus, de onde derivaria o nome Britania. Se por um lado seria o mesmo Brutus que passaria o Lima, num tempo demasiado recente, por outro lado esse tempo é anterior, vai até à Guerra de Tróia. Tal como os romanos, também os britânicos procuram uma descedência por algum Eneias troiano.

O texto de Nennius é especialmente conhecido por referir o Rei Artur, sendo talvez o primeiro fazê-lo. Ilustra a tentativa dos britânicos susterem a invasão dos Saxões, frisando em particular o convite ao seu estabelecimento feito pelo Rei Vortigern. Não indo ao aspecto fabuloso de Monmouth, Nennius reporta 12 batalhas vitoriosas de Artur, em particular a de Mount Baden, onde poderá ter exagerado no número de opositores eliminados só por Artur - 960, num só dia.

Traduções, transcrições, e Filisteus
Adiciono um pequeno detalhe instrutivo... no link inicial, que segui, na tradução da Fordham University de Nova York, aparece:
"The twelfth was a most severe contest, when Arthur penetrated to the hill of Badon. In this engagement, nine hundred and forty fell by his hand alone, no one but the Lord affording him assistance. In all these engagements the Britons were successful. For no strength can avail against the will of the Almighty."
Por outro lado, seguindo a versão transcrita em latim aqui lemos apenas:
"Duodecimum fuit bellum in monte Badonis, in quo corruerunt in uno die nongenti sexaginta viri de uno impetu Arthur; et nemo prostravit eos nisi ipse solus, et in omnibus bellis victor exstitit."

Ou seja, a menos que o tradutor tivesse outra versão, há um claro colorido e uma decoração que não está presente na transcrição do latim. Até o número é diferente num caso diz-se 940, noutro 960.
No entanto, estes detalhes não são assim tão importantes. Pode haver alterações, imprecisões, mas o que importa sempre é a visão de conjunto. De qualquer forma, há detalhes que alteram as coisas, e assim retomando o texto anterior, relativo ao mapa, agora em latim lemos:
at ille per quadraginta et duos annos ambulavit per Africam, et venerunt ad aras Filistinorum per lacum Salinarum et venerunt inter Rusicadam et montes Azariae et venerunt per flumen Malvam et transierunt per Maritaniam ad columnas Herculis et navigaverunt Tyrrenum mare et pervenerunt ad Hispaniam usque et ibi habitaverunt per multos annos et creverunt et multiplicati sunt nimis et gens illorum multiplicata est nimis. 
Portanto, temos o Lago Salinarum (em vez de Osiers), e Montes Azariae (em vez de "hilly country of Syria").  Isto muda um pouco as coisas. Já falámos do Lago Tritonis, e à época de Nennius já deveria estar a transformar-se numa enorme superfície salgada, que é hoje o Chott el-Jerid, de onde o nome "Salinarum". Depois dessa região tunisina, há já na Argélia uma cidade, junto à cadeia montanhosa do Atlas que ainda se chama Azaria. Rusicada era também uma cidade romana na zona argelina (foi identificada a Skikda, cidade costeira), e estes locais estão no mapa anterior.
Os Altares dos Filisteus nesta zona (Tunísia/Argélia-Atlas) é ainda mais relevante. Os filisteus deveriam estar na zona de Gaza, junto a Israel... onde desenvolveram lutas com os Hebreus. Porém, se atendermos a que acabámos de realçar a  conexão dos Hebreus com a Hispânia, podemos perceber que o ponto de conflito com os filisteus poderia ocorrer noutro lado - no Norte de África.

Maximus, Ambrósio, Ida e Conan
A Historia Brittonum de Nennius parece ser encarada como meio fantasiosa, e no entanto, não deixam de ali estar alguns acontecimentos que poderiam passar por falsos e não eram, como os referentes a Maximus (de quem falámos no texto anterior), já que a memória desse imperador tinha sido eliminada por decreto romano.
Nennius, como todos os restantes, terá seguido variada documentação. Poderá é ter seguido alguma que não devia... mas na maioria dos "historiadores" da Antiguidade há esse problema, falam de coisas que são hoje desacreditadas. Escolhe-se assim uma parte do que é dito,  que cola com a versão oficial, e o resto é negligenciado. Não sei se há algum historiador antigo que seja considerado fiável, do princípio ao fim, e se há, é porque se tem apenas uma parte histórica muito limitada e particular (o caso de alguns romanos). Ora, não haver nenhum historiador geral da Antiguidade, fiável, do princípio ao fim, é no mínimo um sintoma do problema subjacente há muito tempo.

Tem-se associado a figura do romano Ambrosius Aurelianus à lenda do Rei Artur (e.g. este filme), mas Nennius, como outros, refere-se a Ambrósio de forma distinta de Artur. O ponto comum seria a resistência ao invasor.
Nennius fala depois de Ida, Rei da Bernicia, reino anglo-saxão. Curiosamente esse nome será também o de (Santa) Ida, mãe dos reis de Jerusalém, e mulher do conde do Bulhão, de que já falámos, e que era Eustácio II, um comandante na invasão normanda em Hastings (1066).

Finalmente, regressando à Torre Vítrea, regressamos a Conan... temos numa edição de 1838 da Historia Brittonum, publicada pela English Historical Society, a seguinte observação:

Turrim vitream: Concerning the tower of glass and its frequent occurrence in the early Welsh legends, see Roberts’s Cambr. Antiq. pp. 75, 78, and Davies’s Mythology of the British Druids, p. 212. O’Connor states that this tower was built by a certain Conan upon the island called Tor-Inis, or Tory Island, and refers to a poem written long before A.D. 908, in proof of the antiquity of the tradition, Prolog. I. xxxvi

Ou seja, que a "Torre Vitrea" seria uma antiga lenda galesa, associada a uma torre na ilha de Tory (ver aqui também), construída por um certo Conan...

Ilha de Tory, onde estaria a Torre Vítrea de Conan (em panoramio)

No segundo filme de Conan (Destroyer), encontra-se justamente um episódio no "castelo de gelo do mago Toth-Amon" (ver), reportando talvez essa associação lendária a Conan e por outro lado à migração do cita via Egipto.

Esta descrição da Torre Vítrea pode ser considerada como alegórica, fantasiosa, associada a outras lendas medievais. Por exemplo, Geoffrey Monmouth (livro III, cap. XV) descreve o episódio do tirano Morvidus que teria sido devorado por um "monstro" na costa da Irlanda.
No entanto, a Torre Vítrea dificilmente pode ser enquadrada no tipo de mitos medievais comuns, não há propriamente nenhuma conotação heróica ou religiosa. Há apenas um episódio que é descrito com algum detalhe, sem qualificativos, explicações ou implicações. Se fosse algo que abalasse menos os preconceitos, seria mais facilmente aceite, assim permanece como desafio às explicações mais racionais.
22/12/2012

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publicado às 21:29


Tarso

por desvela, em 01.07.11
Tarso é um conjunto de ossos do pé, em que se inclui o calcanhar (calcâneo), e em particular estaria aí o Calcanhar de Aquiles, cujo nome ficou associado ao tendão.
Raio-X de fractura do calcâneo no Tarso

Paulo de Tarso
Tarso é ainda a cidade da Ásia Menor na Cílicia considerada como local de nascimento de São Paulo, também conhecido como Paulo de Tarso. É bem conhecida a conversão de Saulo em Paulo, e a influência em tornar o cristianismo numa religião de gentios e não apenas de judeus. Os périplos de S. Paulo começam numa viagem na região da Ásia Menor:
onde podemos ver a confusão de estarem aí nomeadas duas Antióquias no percurso.

Há um ano colocámos aqui a questão crucial, no sentido de Crux, sobre como o aparecimento do cristianismo terminou com as revoltas de escravos simbolizadas nas dezenas de milhar de cruzes da revolta de Spartacus na Via Ápia, e como isso foi um erro de Crasso. 
Com a conversão de Saulo a expansão cristã não fica restrita ao núcleo judaico de Pedro (com quem tem algumas dissensões), e Roma continuará como centro, agora religioso, distante dos símbolos cristãos de Jerusalém. Constantino, também dito Magno, torna o cristianismo religião imperial, e muda o centro do Império para  Bizâncio, mas não para a Terra Santa. A Igreja de Pedro e Paulo ficará em Roma, e o tempo será juliano durante uma boa parte da Idade Média... a marcação a.C/d.C só é iniciada com Carlos Magno e completada com D. João I, em Portugal (é ainda nessa altura que os infantes podem então passar a príncipes). 

Lídia, Targum e Tarsis
No mapa vemos nomeada a Galácia, vizinha da Frígia, da Lídia, e da Lícia.
Interessa-nos a Frígia, pois com uma crux ficaria Frísia, tal como a Lidia (ou Licia) ficaria Lisia, e se tal território não existe, existiu a Lysitania, ou Lusitania. Uma crux é dúbia, mas a informação de que os Lídios se denominam "sfards", transportar-nos à designação dos sefarditas, ibéricos. Sobre a Galácia, e a proximidade com Galícia, até dispensaria qualquer crux.

A Lídia ficou mais conhecida pelo seu último rei Creso, tal como a Frísia pelo rei Midas. Estas fortunas eram associadas ao ouro vindo do rio Pactolo, afluente do Hermo, e já aqui citámos Juvenal:
The man for whose desires yesterday not all the gold which Tagus and the ruddy Pactolus rolls along would have sufficed (...)
que associava os rios Pactolo e Tagus, não mencionando o rio Hermo. Vários autores romanos falaram do ouro existente nos rios da Lusitania, e mencionavam que o ouro do Pactolus e Hermo se deveria ter entretanto extinguido. Apesar da abundância de ouro estar inicialmente associado ao Jardim das Hespérides, e à procura que Hércules vai fazer para além das Colunas (na Lusitania), estes mitos posteriores parecem esquecer isso e colocam o mito aurífero na Ásia Menor!

Creso acabará derrotado pelo persa Ciro, o mesmo que irá reencaminhar os hebreus do cativeiro para Israel, e aí surge um pormenor interessante. Há uma diferença entre os judeus que falavam o aramaico e outros que falavam hebreu, ao ponto de surgirem os Targus (decidi colocar assim o plural de Targum, apesar de ser indicado targumim) - traduções para aramaico do original hebreu. Nota-se por isso que são dois povos separados, juntos na mesma região, o que corre no sentido aqui várias vezes mencionado sobre os Ebreus do Ebro.

A ligação a Tarso, surge agora por via de Tarsis... cujo nome bíblico é Tarshish, e que pode ser associada a Tartesso. Conforme diz William Smith (no Concise dictionary of the Bible. pág. 921):
"Tartessus being merely Tarshish in the Aramaic form"
... entre outras razões para associação entre a Tarsis bíblica e Tartessos na Ibéria, ao mesmo tempo que descarta a natural confusão de Tarso na Ásia Menor com Tarsis (todo o texto de William Smith merece ser lido). Uso ainda aqui uma citação breve, via wikipedia:
De fato, o Rei Salomão tinha naves de Tarsis no mar junto com as naves de Hirão. As naves de Tarsis vinham uma vez a cada três anos e traziam ouro, prata, marfim, bugios e pavões. (I Reis 10: 22)
Se há Tarso, em que de Paulo se sustentará o cristianismo, a Tarsis ibérica sustentava um comércio com paragens distantes (provavelmente africanas e americanas, dada a carga...) a cada três anos. E quando William Smith diz que, no Livro das Crónicas, Tarshish teria ligação ao Mar Vermelho, não precisamos de colocar a localização longe da Hispania, pelas razões que já explicámos nos sinais vermelhos.


Calcanhar de Aquiles
Uma boa parte da nomenclatura anatómica pode ser encontrada em Galeno, médico de Marco Aurélio, que vemos aqui representado com um barrete frígio:
Galeno (129-217 d.C)

Se a associação a Tarso foi casual, feita pela sustentação de Paulo, pela fragilidade na localização de Tarsis, ou por outra razão, pois é tão dúbio quanto uma crux, e podemos seguir várias direcções.
Ao mergulhar Aquiles no rio Estige do Hades, Tétis deixou vulnerável a sustentação do aqueu, o seu calcanhar, o Tarso... talvez uma fragilidade de sustentação dos aqueus acerca do poderio de uma antiga Tarsis, que prolongou a guerra de Tróia. Quem quebrará essas muralhas será um ardil de Ulisses, através do cavalo de Tróia... Ulisses que seguirá depois um caminho atlântico, qual Tarsis.

Para dar um exemplo da utilidade das designações anatómicas, lembramos o cúbito, afinal um osso do antebraço (também chamado ulna), que nos daria uma ideia da antiga unidade de comprimento egípcia, também representada por um antebraço - mas que implicaria antebraços de meio metro... bastante maiores que os actuais, digamos quase de gigantes!

Ficamos por aqui... já que não vamos falar do rádio, outro osso do antebraço, pois a conjunção "Rádio" com "Galeno" parece fortuita. Não encontramos já um motivo não linguístico para o associar ao Rádio de Galena, ainda que essa forma primitiva de Rádio AM seja baseada no Galeno (sulfeto de chumbo), material que foi usado como cosmético entre os egípcios.
Afinal, aprendemos que o desenvolvimento eléctrico, que vai de Alessandro Volta (nomeado conde por Napoleão), até aos rádios de Marconi (ou anteriores), dura menos de 100 anos, e por isso aceitamos ser absolutamente ridículo pensar que os egípcios pudessem ter ideias eléctricas, apesar dos vários milhares de anos de civilização. Digamos que devemos ter ficado mais espertos...

Radius, significa ainda raio, e pode ser explicado pela possibilidade de movimento circular no antebraço, pelo que seria tão gratuito como fazer outras associações linguísticas, seja ao elemento rádio, ou até ao facto de termos começado o texto sobre ossos com uma radiografia! Isso seriam estórias completamente diferentes destas...
Aliás, do tarso não seguimos para o metatarso, pelos cuneiformes, sob pena de invocar ainda as falanges!

[este post estava previsto aparecer em 29 de Junho... porém às vezes as dificuldades no blogger surgem, e compreendemos!]

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publicado às 06:03


Tarso

por desvela, em 30.06.11
Tarso é um conjunto de ossos do pé, em que se inclui o calcanhar (calcâneo), e em particular estaria aí o Calcanhar de Aquiles, cujo nome ficou associado ao tendão.
Raio-X de fractura do calcâneo no Tarso

Paulo de Tarso
Tarso é ainda a cidade da Ásia Menor na Cílicia considerada como local de nascimento de São Paulo, também conhecido como Paulo de Tarso. É bem conhecida a conversão de Saulo em Paulo, e a influência em tornar o cristianismo numa religião de gentios e não apenas de judeus. Os périplos de S. Paulo começam numa viagem na região da Ásia Menor:
onde podemos ver a confusão de estarem aí nomeadas duas Antióquias no percurso.

Há um ano colocámos aqui a questão crucial, no sentido de Crux, sobre como o aparecimento do cristianismo terminou com as revoltas de escravos simbolizadas nas dezenas de milhar de cruzes da revolta de Spartacus na Via Ápia, e como isso foi um erro de Crasso. 
Com a conversão de Saulo a expansão cristã não fica restrita ao núcleo judaico de Pedro (com quem tem algumas dissensões), e Roma continuará como centro, agora religioso, distante dos símbolos cristãos de Jerusalém. Constantino, também dito Magno, torna o cristianismo religião imperial, e muda o centro do Império para  Bizâncio, mas não para a Terra Santa. A Igreja de Pedro e Paulo ficará em Roma, e o tempo será juliano durante uma boa parte da Idade Média... a marcação a.C/d.C só é iniciada com Carlos Magno e completada com D. João I, em Portugal (é ainda nessa altura que os infantes podem então passar a príncipes). 

Lídia, Targum e Tarsis
No mapa vemos nomeada a Galácia, vizinha da Frígia, da Lídia, e da Lícia.
Interessa-nos a Frígia, pois com uma crux ficaria Frísia, tal como a Lidia (ou Licia) ficaria Lisia, e se tal território não existe, existiu a Lysitania, ou Lusitania. Uma crux é dúbia, mas a informação de que os Lídios se denominam "sfards", transportar-nos à designação dos sefarditas, ibéricos. Sobre a Galácia, e a proximidade com Galícia, até dispensaria qualquer crux.

A Lídia ficou mais conhecida pelo seu último rei Creso, tal como a Frísia pelo rei Midas. Estas fortunas eram associadas ao ouro vindo do rio Pactolo, afluente do Hermo, e já aqui citámos Juvenal:
The man for whose desires yesterday not all the gold which Tagus and the ruddy Pactolus rolls along would have sufficed (...)
que associava os rios Pactolo e Tagus, não mencionando o rio Hermo. Vários autores romanos falaram do ouro existente nos rios da Lusitania, e mencionavam que o ouro do Pactolus e Hermo se deveria ter entretanto extinguido. Apesar da abundância de ouro estar inicialmente associado ao Jardim das Hespérides, e à procura que Hércules vai fazer para além das Colunas (na Lusitania), estes mitos posteriores parecem esquecer isso e colocam o mito aurífero na Ásia Menor!

Creso acabará derrotado pelo persa Ciro, o mesmo que irá reencaminhar os hebreus do cativeiro para Israel, e aí surge um pormenor interessante. Há uma diferença entre os judeus que falavam o aramaico e outros que falavam hebreu, ao ponto de surgirem os Targus (decidi colocar assim o plural de Targum, apesar de ser indicado targumim) - traduções para aramaico do original hebreu. Nota-se por isso que são dois povos separados, juntos na mesma região, o que corre no sentido aqui várias vezes mencionado sobre os Ebreus do Ebro.

A ligação a Tarso, surge agora por via de Tarsis... cujo nome bíblico é Tarshish, e que pode ser associada a Tartesso. Conforme diz William Smith (no Concise dictionary of the Bible. pág. 921):
"Tartessus being merely Tarshish in the Aramaic form"
... entre outras razões para associação entre a Tarsis bíblica e Tartessos na Ibéria, ao mesmo tempo que descarta a natural confusão de Tarso na Ásia Menor com Tarsis (todo o texto de William Smith merece ser lido). Uso ainda aqui uma citação breve, via wikipedia:
De fato, o Rei Salomão tinha naves de Tarsis no mar junto com as naves de Hirão. As naves de Tarsis vinham uma vez a cada três anos e traziam ouro, prata, marfim, bugios e pavões. (I Reis 10: 22)
Se há Tarso, em que de Paulo se sustentará o cristianismo, a Tarsis ibérica sustentava um comércio com paragens distantes (provavelmente africanas e americanas, dada a carga...) a cada três anos. E quando William Smith diz que, no Livro das Crónicas, Tarshish teria ligação ao Mar Vermelho, não precisamos de colocar a localização longe da Hispania, pelas razões que já explicámos nos sinais vermelhos.


Calcanhar de Aquiles
Uma boa parte da nomenclatura anatómica pode ser encontrada em Galeno, médico de Marco Aurélio, que vemos aqui representado com um barrete frígio:
Galeno (129-217 d.C)

Se a associação a Tarso foi casual, feita pela sustentação de Paulo, pela fragilidade na localização de Tarsis, ou por outra razão, pois é tão dúbio quanto uma crux, e podemos seguir várias direcções.
Ao mergulhar Aquiles no rio Estige do Hades, Tétis deixou vulnerável a sustentação do aqueu, o seu calcanhar, o Tarso... talvez uma fragilidade de sustentação dos aqueus acerca do poderio de uma antiga Tarsis, que prolongou a guerra de Tróia. Quem quebrará essas muralhas será um ardil de Ulisses, através do cavalo de Tróia... Ulisses que seguirá depois um caminho atlântico, qual Tarsis.

Para dar um exemplo da utilidade das designações anatómicas, lembramos o cúbito, afinal um osso do antebraço (também chamado ulna), que nos daria uma ideia da antiga unidade de comprimento egípcia, também representada por um antebraço - mas que implicaria antebraços de meio metro... bastante maiores que os actuais, digamos quase de gigantes!

Ficamos por aqui... já que não vamos falar do rádio, outro osso do antebraço, pois a conjunção "Rádio" com "Galeno" parece fortuita. Não encontramos já um motivo não linguístico para o associar ao Rádio de Galena, ainda que essa forma primitiva de Rádio AM seja baseada no Galeno (sulfeto de chumbo), material que foi usado como cosmético entre os egípcios.
Afinal, aprendemos que o desenvolvimento eléctrico, que vai de Alessandro Volta (nomeado conde por Napoleão), até aos rádios de Marconi (ou anteriores), dura menos de 100 anos, e por isso aceitamos ser absolutamente ridículo pensar que os egípcios pudessem ter ideias eléctricas, apesar dos vários milhares de anos de civilização. Digamos que devemos ter ficado mais espertos...

Radius, significa ainda raio, e pode ser explicado pela possibilidade de movimento circular no antebraço, pelo que seria tão gratuito como fazer outras associações linguísticas, seja ao elemento rádio, ou até ao facto de termos começado o texto sobre ossos com uma radiografia! Isso seriam estórias completamente diferentes destas...
Aliás, do tarso não seguimos para o metatarso, pelos cuneiformes, sob pena de invocar ainda as falanges!

[este post estava previsto aparecer em 29 de Junho... porém às vezes as dificuldades no blogger surgem, e compreendemos!]

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publicado às 22:03


Sinais vermelhos

por desvela, em 21.06.11
Quando há uns meses colocámos aqui um post com o título Traffic Signs, não estávamos exactamente a pensar no que Estrabo (passarei a usar esta variante do nome, mais apropriada) nos tinha para revelar (Livro 1):
All those who have sailed along the coasts of Libya, whether starting from the Arabian Gulf, or the Pillars, after proceeding a certain distance, have been obliged to turn back again on account of a variety of accidents;
Se tivesse sabido desta passagem de Estrabo, teria sido usada nesse cartoon de Março.
Mas podemos hoje acrescentar algo mais...
Estávamos concentrados na proibição em navegar para além dos Pilares (Estreito de Gibraltar), ao longo da costa de África, e faltou-nos o outro lado... que ele chama o Golfo Arábico, ou seja o Mar Vermelho.

Ao ler a transcrição somos imediatamente confrontados com alguns problemas que se colocaram aos tradutores... digamos que se viram gregos (língua do original, que desconheço largamente), e misturam termos recentes com termos antigos, nomeadamente sobre o Mar Eritreu (Erythraen Sea). A confusão será já própria de Estrabo, que invoca Eratóstenes sobre uma antiga passagem entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, por inundação. Estrabo contesta a inundação argumentando que o nível do mar seria uniforme, pelo contacto entre todos os mares. Com o nível do mar elevado, podemos ver que essa ligação pode ter existido:
Médio-Oriente com o nível do mar elevado
(o Mar Morto seria mesmo um mar, ou baía, 
e a África ficava separada, como uma ilha)

Porém a verdadeira questão é outra... é que o Mar Eritreu também foi designação aplicada ao golfo que se situava no exterior das Colunas de Hércules, na altura em que a ilha Eriteia era situada a oeste dos Pilares, conforme já abordámos a propósito do Lago Tritonis.

Ou seja, havia um Mar Vermelho a Ocidente e outro a Oriente. Só para confusão?
Em parte sim, mas creio que havia outra questão que Estrabo torna clara:
- quem se arriscasse a navegar para além destes pontos, arriscava os mais diversos acidentes!
Acidentalmente, ou o acidental mente... porque os acidentes sistemáticos deixam de ser acidentes.
Se pensámos que o Acidental era Ocidental, Estrabo reporta que também se aplicava às navegações africanas pelo lado oriental.

Onde estavam os Sinais? 
- Um Sinai estava junto ao Mar Vermelho, próximo do Egipto...
- Creio que o outro Sinai estava do outro lado, na península que definia a zona de Tingis, a antiga Tanger, na Mauritania Tingitana.
Tratavam-se de Sinais Vermelhos... a proibição de navegar não poderia passar aqueles mares "vermelhos", em direcção a África.

Porquê?
Pela razão que Aristóteles invocava sobre Cartago... o medo de que os refractários se instalassem nos territórios paradisíacos. Se cidadãos instruídos formassem novas civilizações fora da alçada do controlo central, as colónias passariam a ser uma ameaça para os territórios originais. Dada a extensão africana... e americana, a proibição seria a primeira arma de controlo, caso contrário poderia formar-se um reino suficientemente poderoso que ameaçaria o poder instalado no Mediterrâneo, e os seus segredos sobre as terras virgens ficariam ameaçados. Esse problema teve que ser resolvido na Austrália, antes da sua descoberta oficial por Cook. Digamos que a América, os EUA, foram a primeira experiência autorizada para uma colónia independente dos velhos poderes europeus!

Aliás, se pensarmos bem, só uma política de ocultação justificaria a ausência de contactos reportados entre romanos, indianos ou chineses. Será ridículo pensar que a República Romana não sentiu curiosidade de enviar os seus navios pelo mundo fora, pelo menos na rota de Alexandre Magno... que já o teria feito! Há apenas o incidente relatado por Cornélio Nepote, de que já falámos, e processou-se no sentido inverso, com uma visita à Europa.


A partir daqui fica ainda mais claro que a passagem do Mar Vermelho ou Eritreu, tanto se poderia dar pelo lado oriental ou ocidental, indo no mesmo sentido daquilo que já dissemos sobre o Mar Eritreu e sobre os Ebreus do Ebro.


Aditamento (22/06/2011)
Esqueci-me de tornar explícita a relação com o texto sobre o Mar Vermelho apontado nos mapas do Séc. XVI de Ortelius, Ghisolfi e Agnese:
Os dois mares vermelhos, coloridos no mapa de Agnese, 1544.

O que estes autores pretenderiam colocar em evidência é que havia um novo Sinai Vermelho... a Califórnia! Esta península seria o novo Sinai, onde se colocava um novo Mar Vermelho - as navegações acima da Califórnia ficariam proibidas!
Não admira pois que essa seja o foco de concentração de muitos judeus, especialmente no Séc. XX, tratava-se de assinalar um novo Sinai... na Califórnia.

A estória será esta... Moisés abriu caminho pelo Mar Vermelho, passando o Mar Proibido, sujeitando-se aos Mandamentos divinos, e assim atingiu a Terra Prometida. Conseguiu uma libertação temporária para o seu povo, mas esqueceram o problema de libertação universal... Digamos que os magos de Nabucodonosor fizeram lembrar aos judeus essa universalidade com o preço do cativeiro. Quando Ciro acaba por restituir alguma liberdade aos judeus, volta a estar implementada a restrição universal dos Sinais vermelhos! O que é surpreendente, é que esta restrição é de tal forma poderosa que não podemos olhá-la em termos europeus... nenhuma nação asiática entrou em contacto directo com a Europa, durante milénios.

Primeiro o Infante D. Henrique, e depois Colombo acabam por ter assim papel fundamental na nova autorização de levantar o cobrimento, ou seja, a autorização de descobrimento, dos novos territórios... em certo sentido figurado poderia ser-lhes atribuído um papel messiânico, ao nível de Moisés.

Porém, fica claro que houve uma nova proibição no Séc. XVI, que é ilustrada neste mapa de Agnese, e que já identificámos várias vezes... a Austrália e o Noroeste Americano ficariam proibidos até Cook, que será na mesma linha o próximo a ter autorização para descobrir a parte restante.

Se colocamos demasiado o foco no papel da Hispânia, é porque ele se vai revelando, mas não ignoramos o detalhe da migração judaica para a zona da Etiópia, também aqui marcando a transposição do outro Mar Vermelho. O Obelisco de Psamético na praça de Montecitorio, de que falámos, usado como relógio de Sol por Augusto, é afinal o último marco de conquista egípcia nos territórios núbios a sul. Nesse sentido pode dizer-se que se a alguns judeus foi aberta a passagem para a Etiópia, aos Egípcios ela esteve sempre fechada.

Para quem seguiu ainda o outro blog alvorsilves, saberá que no último dia de 2009 decidimos marcar a passagem para 2010 no fuso californiano, e desde então usámos aqui a hora do Pacific Time.
A estória vai batendo certo, e se isso é algo surpreendente pela positiva, é mais surpreendente pela negativa revelando a dimensão do controlo. Talvez quando houver autorização para passar ao Planeta Vermelho, Marte, nos seja autorizado perceber toda a nossa História!
Até lá, o novo Sinai Vermelho parece ser o planeta nomeado pelo deus da guerra... quanto a Vénus, planeta da deusa do amor, que tanto passou por Lucifer, portador da luz a nascente, como por Hesper, sinal de esperança a poente, Vénus continua proibido a observações!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:33


Sinais vermelhos

por desvela, em 20.06.11
Quando há uns meses colocámos aqui um post com o título Traffic Signs, não estávamos exactamente a pensar no que Estrabo (passarei a usar esta variante do nome, mais apropriada) nos tinha para revelar (Livro 1):
All those who have sailed along the coasts of Libya, whether starting from the Arabian Gulf, or the Pillars, after proceeding a certain distance, have been obliged to turn back again on account of a variety of accidents;
Se tivesse sabido desta passagem de Estrabo, teria sido usada nesse cartoon de Março.
Mas podemos hoje acrescentar algo mais...
Estávamos concentrados na proibição em navegar para além dos Pilares (Estreito de Gibraltar), ao longo da costa de África, e faltou-nos o outro lado... que ele chama o Golfo Arábico, ou seja o Mar Vermelho.

Ao ler a transcrição somos imediatamente confrontados com alguns problemas que se colocaram aos tradutores... digamos que se viram gregos (língua do original, que desconheço largamente), e misturam termos recentes com termos antigos, nomeadamente sobre o Mar Eritreu (Erythraen Sea). A confusão será já própria de Estrabo, que invoca Eratóstenes sobre uma antiga passagem entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, por inundação. Estrabo contesta a inundação argumentando que o nível do mar seria uniforme, pelo contacto entre todos os mares. Com o nível do mar elevado, podemos ver que essa ligação pode ter existido:
Médio-Oriente com o nível do mar elevado
(o Mar Morto seria mesmo um mar, ou baía, 
e a África ficava separada, como uma ilha)

Porém a verdadeira questão é outra... é que o Mar Eritreu também foi designação aplicada ao golfo que se situava no exterior das Colunas de Hércules, na altura em que a ilha Eriteia era situada a oeste dos Pilares, conforme já abordámos a propósito do Lago Tritonis.

Ou seja, havia um Mar Vermelho a Ocidente e outro a Oriente. Só para confusão?
Em parte sim, mas creio que havia outra questão que Estrabo torna clara:
- quem se arriscasse a navegar para além destes pontos, arriscava os mais diversos acidentes!
Acidentalmente, ou o acidental mente... porque os acidentes sistemáticos deixam de ser acidentes.
Se pensámos que o Acidental era Ocidental, Estrabo reporta que também se aplicava às navegações africanas pelo lado oriental.

Onde estavam os Sinais? 
- Um Sinai estava junto ao Mar Vermelho, próximo do Egipto...
- Creio que o outro Sinai estava do outro lado, na península que definia a zona de Tingis, a antiga Tanger, na Mauritania Tingitana.
Tratavam-se de Sinais Vermelhos... a proibição de navegar não poderia passar aqueles mares "vermelhos", em direcção a África.

Porquê?
Pela razão que Aristóteles invocava sobre Cartago... o medo de que os refractários se instalassem nos territórios paradisíacos. Se cidadãos instruídos formassem novas civilizações fora da alçada do controlo central, as colónias passariam a ser uma ameaça para os territórios originais. Dada a extensão africana... e americana, a proibição seria a primeira arma de controlo, caso contrário poderia formar-se um reino suficientemente poderoso que ameaçaria o poder instalado no Mediterrâneo, e os seus segredos sobre as terras virgens ficariam ameaçados. Esse problema teve que ser resolvido na Austrália, antes da sua descoberta oficial por Cook. Digamos que a América, os EUA, foram a primeira experiência autorizada para uma colónia independente dos velhos poderes europeus!

Aliás, se pensarmos bem, só uma política de ocultação justificaria a ausência de contactos reportados entre romanos, indianos ou chineses. Será ridículo pensar que a República Romana não sentiu curiosidade de enviar os seus navios pelo mundo fora, pelo menos na rota de Alexandre Magno... que já o teria feito! Há apenas o incidente relatado por Cornélio Nepote, de que já falámos, e processou-se no sentido inverso, com uma visita à Europa.


A partir daqui fica ainda mais claro que a passagem do Mar Vermelho ou Eritreu, tanto se poderia dar pelo lado oriental ou ocidental, indo no mesmo sentido daquilo que já dissemos sobre o Mar Eritreu e sobre os Ebreus do Ebro.


Aditamento (22/06/2011)
Esqueci-me de tornar explícita a relação com o texto sobre o Mar Vermelho apontado nos mapas do Séc. XVI de Ortelius, Ghisolfi e Agnese:
Os dois mares vermelhos, coloridos no mapa de Agnese, 1544.

O que estes autores pretenderiam colocar em evidência é que havia um novo Sinai Vermelho... a Califórnia! Esta península seria o novo Sinai, onde se colocava um novo Mar Vermelho - as navegações acima da Califórnia ficariam proibidas!
Não admira pois que essa seja o foco de concentração de muitos judeus, especialmente no Séc. XX, tratava-se de assinalar um novo Sinai... na Califórnia.

A estória será esta... Moisés abriu caminho pelo Mar Vermelho, passando o Mar Proibido, sujeitando-se aos Mandamentos divinos, e assim atingiu a Terra Prometida. Conseguiu uma libertação temporária para o seu povo, mas esqueceram o problema de libertação universal... Digamos que os magos de Nabucodonosor fizeram lembrar aos judeus essa universalidade com o preço do cativeiro. Quando Ciro acaba por restituir alguma liberdade aos judeus, volta a estar implementada a restrição universal dos Sinais vermelhos! O que é surpreendente, é que esta restrição é de tal forma poderosa que não podemos olhá-la em termos europeus... nenhuma nação asiática entrou em contacto directo com a Europa, durante milénios.

Primeiro o Infante D. Henrique, e depois Colombo acabam por ter assim papel fundamental na nova autorização de levantar o cobrimento, ou seja, a autorização de descobrimento, dos novos territórios... em certo sentido figurado poderia ser-lhes atribuído um papel messiânico, ao nível de Moisés.

Porém, fica claro que houve uma nova proibição no Séc. XVI, que é ilustrada neste mapa de Agnese, e que já identificámos várias vezes... a Austrália e o Noroeste Americano ficariam proibidos até Cook, que será na mesma linha o próximo a ter autorização para descobrir a parte restante.

Se colocamos demasiado o foco no papel da Hispânia, é porque ele se vai revelando, mas não ignoramos o detalhe da migração judaica para a zona da Etiópia, também aqui marcando a transposição do outro Mar Vermelho. O Obelisco de Psamético na praça de Montecitorio, de que falámos, usado como relógio de Sol por Augusto, é afinal o último marco de conquista egípcia nos territórios núbios a sul. Nesse sentido pode dizer-se que se a alguns judeus foi aberta a passagem para a Etiópia, aos Egípcios ela esteve sempre fechada.

Para quem seguiu ainda o outro blog alvorsilves, saberá que no último dia de 2009 decidimos marcar a passagem para 2010 no fuso californiano, e desde então usámos aqui a hora do Pacific Time.
A estória vai batendo certo, e se isso é algo surpreendente pela positiva, é mais surpreendente pela negativa revelando a dimensão do controlo. Talvez quando houver autorização para passar ao Planeta Vermelho, Marte, nos seja autorizado perceber toda a nossa História!
Até lá, o novo Sinai Vermelho parece ser o planeta nomeado pelo deus da guerra... quanto a Vénus, planeta da deusa do amor, que tanto passou por Lucifer, portador da luz a nascente, como por Hesper, sinal de esperança a poente, Vénus continua proibido a observações!

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publicado às 21:33


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