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Batochina e Pulo Cabale

por desvela, em 22.01.14
Na sequência de um comentário sobre Zheng He, navegador chinês popularizado por Gavin Menzies no livro 1421 - ou seja, o ano em que a China tinha percorrido os mares até ao Atlântico, falei numa hipótese de "ameaça chinesa" à Europa, por essa altura.
O José Manuel fez o favor de indicar um bom documentário da televisão ARTE sobre Zheng He:

O documentário estabelece uma ligação entre Zheng He e o conhecimento árabe de navegação, o que teria permitido aos chineses uma aventura, registada pelo menos certamente até às costas africanas, em particular a Madagáscar (chamada Ilha de São Lourenço, pelos portugueses).
Depois, subitamente, tal como rapidamente havia surgido, o interesse chinês pelas navegações parece desaparecer.
Os tempos são demasiado coincidentes para não se estabelecer alguma relação. Se a China avançava no início do Séc. XV em direcção à Europa, e o ano 1421 é marcante... também é marcante no mesmo período para as navegações portuguesas, que em 1418 e 1419 registam o Porto Santo e a Madeira.
Portanto, se uns avançavam numa direcção, outros avançavam na outra - terá havido recontros?
É difícil saber porque à época seria possível registar como "mouro" tudo o que fosse inimigo.
No entanto, não é de excluir que a ameaça asiática estivesse na ordem de partida papal em direcção ao Sul.
O tempo que demora a passagem do "Cabo Bojador" é tão fictício que pode corresponder a várias interpretações, enquanto alegoria de outro facto. Se já estabeleci um paralelismo entre as navegações africanas e americanas, podendo isso corresponder a uma tentativa de descoberta de passagem ocidental para as Índias (ao jeito de Colombo), talvez seja mais verosímil pensar numa autorização de passagem, libertada a ameaça chinesa nas costas africanas.

Numa recensão crítica à obra de Menzies (feita por J. M. Azevedo e Silva), podemos ler:
Em boa verdade, os portugueses começaram a descobrir «mares nunca dantes navegados» em 1434, quando Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, precisamente (pura coincidência?) no ano seguinte ao fim das navegações chinesas do almirante Zeng He (1405-1433).
Portanto, aquelas duas palavras com interrogação "(pura coincidência?)" são uma forma abreviada de sugerir algo semelhante... O Bojador teria sido um "cabo de trabalhos" com vista a libertar a parte ocidental de África da presença chinesa.
Segue-se outro problema, que seria libertar mesmo a parte oriental, e assim permitir o avanço para a Índia, esse cabo de trabalhos seria o da Boa Esperança.
Se esses "cabos de trabalhos" foram apenas diplomáticos ou representaram violentas acções de guerra naval... é algo difícil de estabelecer.
Porquê?
Porque nada justifica os mais de 50 anos entre a passagem do Bojador e a chegada ao Cabo da Boa Esperança... conforme já se disse, era mais rápido ir a pé, pela praia... bastariam 1 ou 2 anos, a caminhar sem grandes pressas - é só fazer contas.
Ao contrário, quando Vasco da Gama entra no Índico, deveria deparar-se com uma poderosa ameaça naval, e essa viagem é feita sem problemas demasiado dramáticos.
Portanto, poderia bem ter ocorrido que a ameaça naval tivesse sido debelada ao tempo de D. João II, deixando o Oceano Índico pacificado para a entrada de Vasco da Gama.

Por outro lado, devemos reparar na história dos descobrimentos que é divulgada, começando na figura de Marco Polo, que visita Kublai Khan, numa viagem de 1271 a 1295.

Tal como Marco Polo se consegue entender com Kublai Khan, também o mestre dos Templários, Jacques de Molay, vai solicitar uma ajuda do Império Mongol na Terra Santa, levando uma ofensiva conjunta contra os mamelucos árabes em 1300.
Em 1305 começam os problemas do rei Filipe, o Belo, com os templários, que por ordem papal são extintos e Jacques de Molay será executado em 1314.

No entanto, os templários têm uma passagem melhor conhecida pelo lado português, e menos bem conhecida pelo lado inglês-escocês, mistificada pela Rosslyn Chapel.
No lado português estabelece-se a Ordem de Cristo, e inicia-se o projecto de D. Dinis.
Pelo outro lado, digamos que o rito escocês é menos explícito com o nome "Soberano Grande Inspector Geral", mas quando o rito de York estabelece como máximo grau "Ordem dos Cavaleiros Templários", não há dúvidas que a herança da Maçonaria remete a essa origem.
É claro que houve duas rosas no confronto Lancaster-York, mas depois Tudor ficou bem juntando as duas com Tosão de Ouro.

Este é o panorama pelo lado europeu. Porém, desde a entrada dos Hunos, a ideia de ameaça mongol deveria permanecer, e os impérios de Tamerlão e Gengis Khan seriam ameaça renovada.
O filho Kublai Khan tenta invadir o Japão, mas a armada é desbaratada pelos ventos Kamikaze (que darão depois origem ao nome dos pilotos). Porém, a frota naval terá sido implementada em grande escala, e é natural que menos de 100 anos depois, ainda não se tivesse perdido a ideia de uma China potência naval.
Esse seria o projecto que levaria Zheng He até África, e muito provavelmente até às Américas, já que parecem existir vestígios, e não só na zona do Pacífico, em Fusang.

Cito aqui o blog Portugalliae do José Manuel (2009):
(...) Gunnar Thompson questiona porque atribuem a descoberta da América a Colombo se romanos e os portugueses já conheciam a Florida? Actualmente ele defende que os chineses também lá iam, eu digo TODA a gente lá ia e voltava, a peste e guerras reduziu substancialmente a população na Europa, portanto não havia interesse de se dar a conhecer territórios vastíssimos no Continente Americano, os mapas que se conheciam eram segredos de comércios, malagueta milho peru drogas metais etc. eram trazidas para as cortes europeias, e egípcias, isto está documentado, só não vê quem não quer.
Ora, este propósito de evitar perda de população - ou pior, perda do controlo da população, era algo que sempre pareceu preocupar os poderes, desde o velho Senado de Cartago (conforme refere Aristóteles), até mesmo os chineses, conforme refere João de Barros.
João de Barros, falando da Batachina - que queria dizer terra da China - mas que era normalmente usada para as Celebes (Batachina do Moro, havendo também a Batachia do Muar), diz explicitamente (Década Terceira da Ásia, Livro V, cap. 5):
Depois que estes Chijs começaram continuar a navegação destas ilhas, e gostaram deste seu cravo, da noz, e massa de Banda, à fama deste comércio acudiram também os Jáos e cessaram os Chijs. E segundo parece foi por razão de lei que os Reis de China puseram em todo seu Reino que nenhum natural seu navegasse fora dele: por importar mais a perda da gente e cousas que saíam dele, que quanto lhe vinha de fora: como já atrás escrevemos, falando das cousas da China e conquista que tiveram na Índia por razão das especiarias.
É especialmente notável o papel que as pequenas 5 ilhas Molucas, juntamente com as minúsculas ilhas de Banda, tiveram no desenvolvimento comercial mundial. Não sei se é coisa maluca ou de ficar de cara à banda, mas o cravo e a noz-moscada ganharam estatuto de preciosidades superior a ouro... algo só com paralelo na Tulipomania!
Havia um mecanismo de produção, que fazia os saquinhos em Gilolo, e as panelas de barro em Pulo Cabale (Pulo seria nome para ilha, e Cabale para panela)... portanto temos um mecanismo de exportação que usava os indonésios (Jáos) para distribuir depois, ou pela China, ou pela Europa, pela rota da Seda até Veneza, antes do aparecimento português.

Bom, e onde estavam situadas estas ilhas especializadas em comércio global?
Exactamente na zona da Oceania ao lado de uma Papua - Nova Guiné ou de uma Austrália, em que ao contrário, os seus habitantes viviam praticamente como no Neolítico. Algo que só ali teria mudado, de acordo com João de Barros, devido à presença chinesa nas Molucas, e provavelmente em toda a zona marítima oriental ao tempo de Zheng He.

Quando os portugueses ali chegam começa novo período de restrições nas descobertas.
Esta difícil conquista das Molucas é levada por António Galvão, de que já aqui falámos... e que depois cairá em desgraça, quando regressado à corte lisboeta, sempre pronta a cortes.
De novo coloca-se a questão de Tordesilhas pelo anti-meridiano, e se algo poderia justificar inicialmente um encobrimento, a presença espanhola naquelas ilhas da Melanésia também irá acontecer após a viagem de Magalhães, numa partilha entre o imperador Carlos V e D. João III.

Dado o interesse nas Molucas, que a sul do Mar de Timor têm a Austrália, na zona da cidade de Darwin, parece algo incompreensível o desinteresse. Já sabemos das proibições, nomeadamente da Companhia da Índias Holandesa, dos mapas alterados, de que se queixou Dampier e tantos outros...

Achámos curioso o relato de Manoel Pimentel (Arte de navegar, 1752, pg.440), que diz, acerca da restrição de estar na parte sul de Timor apenas nos três meses de Verão (Fevereiro a Abril):
Este vento Sul é tão impetuoso que colhendo algum navio daquela parte do Sul [de Timor], o faz soçobrar ou dar à costa, mas a natureza acudiu a este perigo com tal providência, que oito, ou nove dias antes da mudança do tempo começam a soar debaixo do mar, da parte donde há de ventar, uns roncos, que os naturais da terra e navegantes têm por certo aviso
Acresce ainda que no seu livro (pág. 439) Pimentel diz que o melhor caminho para Timor seria, é claro, navegando directamente de África após o Cabo da Boa Esperança... indo encontrar rapidamente a Nova Holanda (Austrália), e até mais rapidamente do que indicavam as cartas ("por força das correntes").
Especificamente, indica a latitude de 21 a 22 graus, e que se evitasse o baixio "Trial", indo encontrar a "Terra Nova" a 1350 léguas portuguesas...

Vemos aqui que "Terra Nova" foi designação que se aplicou também à Austrália... como tantas outras já especuladas desde Java-a-Grande, Terra Magalanica, ou mesmo Nova Guiné.
Aconselhamos um livro de G. Collingridge (1895)
Being The Narrative of Portuguese and Spanish Discoveries in the Australasian Regions, between the
Years 1492-1606, with Descriptions of their Old Charts.

que tenta mostrar a presença portuguesa na Austrália. É claro que tentativas destas parecem sofrer o escárnio e maldizer da academia portuguesa, que se preocupa mais em abafar e perder registos históricos.
Assim no final usamos a citação dos Lusíadas de Camões, que refere Sunda (Java, que deu nome ao estreito) e Banda (a sul está a Austrália):

Olha a Sunda tão larga que uma banda
Esconde para o Sul dificultoso

... e foi assim que Collingridge abriu o seu livro - com Camões!


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publicado às 07:59


As valetas, o Gozo e a Malta

por desvela, em 01.08.13
Há Carris nos Açores... mas menos conhecidos. Teriam outro propósito que não servir para subsidiar rendas, rendilhados, subvenções vitalícias, com que a via direita alimenta a esquerda, e assim conduz os protestos da manada pelos carris programados...

São estas as imagens dos Açores, de carris definidos agora em pedra solidificada, que estão em causa:
Açores: imagens de carris "pré-históricos" - segundo ancient-wisdom.co.uk

Segundo a informação constante do site ancient-wisdom.co.uk

The presence of cart-ruts on the Azores is one of the most unexpected facts to present itself in the search for the first settlers on the Azores. The Portuguese cart-ruts are pre-Christian, as are those on Malta. As we have no record of their being made since the 'official' discovery of the Azores, we must assume that these were made by a people prior to the Portuguese.
... e sim, é tão surpreendente encontrar estes carris, tratando-se de registos "pré-cristãos", tais como os "carris" de Malta.

Serão apenas valetas naturais?
Vamos seguir a Malta, no encalço das valetas... não pela capital La Valeta, porque isso seria um gozo óbvio com a designação. Ao lado, sim, está a Ilha de Gozo... bem conhecida pelos monumentos megalíticos, onde também se encontram estas valetas:
Valetas ou carris, de Gozo, na Malta. 
(mais imagens em ancient-wisdom.co.uk

Estas valetas bem pronunciadas, sugerindo carris, não estão apenas no Gozo, encontram-se espalhadas nos diversos continentes. No mesmo site podemos encontrar registos em:
deixamos aqui a imagem dos que estão no Piódão:

Poderíamos seguir no encalço das espirais que também fazem parte de monumentos, onde?... bom, no Piódão, e não é que também é no Gozo?
  
Espirais no Gozo (Templo de Tarxien), e no Piódão (Vale da Égua).

As espirais não expiram no Gozo ou no Piódão... como é óbvio, encontram-se espalhadas por toda a cultura megalítica da Europa Atlântica (o José-Manuel já fez bastantes vezes referências a elas).

Encontra-se ainda em Gozo, uma referência a uma deusa-mãe:

Duas Estatuetas de deusa-mãe em Gozo. (ancient-wisdom.co.uk/malta.htm)
Estatueta boliviana de Pachamama (obtida em ucl.ac.uk)

Se a primeira figura de deusa-mãe remete para vénus neolíticas, como a de Willendorf, podendo anteceder o culto de Cíbele (deveria escrever-se Cúbele...), já a segunda tem demasiadas semelhanças com Pachamama... na região de Machupichu, para que não se note. 

A língua maltesa não é indo-europeia... e a explicação parece ser o domínio árabe durante 2 séculos.
Se em território nacional estiveram 5 séculos e 8 na Andaluzia... parece que aos árabes só o gato maltês não lhes comeu a língua, já nos outros casos o malte foi bem destilado.
Esta maneira de escrever pode parecer coisa de Puto, de Raia miúda, de Gaiato, invocando algumas piadas fonéticas fáceis... porém como temos visto as coisas são mais complicadas do que parecem.
Podemos falar de coincidências quando não passam a dezena, já é negação fazê-lo acima disso, mas quando as coincidências passam as centenas, como é o caso... então, negá-lo seria simples ocultação deliberada.

Falo ou não falo? Fá-lo ou não fá-lo?
Só havia deusas-mãe, símbolos exagerados de fertilidade?
Por Min, não... mas, já se sabe como foi e é a política de repressão cultural.
 
Culto do falo - deus egípcio Min.
Divindade primordial criadora.

Mais do que uma repressão de carácter sexual, terá começado por ser uma necessidade de repressão religiosa, destinada a erradicar os antigos cultos sexuais de fertilidade, que ofendiam a tradição judaica, tradição que o cristianismo bebeu pelos exageros.
Será de prever que todas as representações e símbolos fálicos explícitos, mais do que ocultados, foram pura e simplesmente destruídos e omitidos. 
Se parece ter-se mantido algum registo primevo na linguagem, parece ter sido remetido para as reprimidas asneiras populares... Gaia em gaja, com os gaiatos, Reia na raia miúda, Cupido como puto, e a mãe Vénus, como Laputa

Não há nenhum gozo no dom dos trocadilhos da língua portuguesa.
"Dom" é manifestação de "senhor" - alguém que exibia o "senho", que escondia uma "senha"... quando se brinca a clubes de Chaves, levando ao fundo de Caves... porque o "Ch" foi adulterado, escrevia-se "Chimera" para se ler "Quimera". 
As regras ortográficas tiveram propósitos notórios - por exemplo, ao fazer ler "cinco" como "sinco", mas não perdemos o "quinto" que nos recorda que deveria ler-se "quinco"... porque a convenção do "ce" se ler "se" ou do "ci" se ler "si" encerra milénios de deturpação e ocultação.

Haveria muito mais a dizer, mas terminamos com a ligação ao lado "Jovem", do Abraçadabra...
Gozo parece ter os monumentos megalíticos mais antigos... que aparecem numa ilha mediterrânica, há mais de 5000 anos. Há uma tradição da população posterior que liga a construtores gigantes... 
Esses construtores surgiram e morreram por ali? 
Ou antes de mais... certamente que os malteses não chegaram a nado a Malta! Teriam barcos.
Bom, a parte "jovem" é no sentido "jovial" de Jove, ou seja de Júpiter, filho de Saturno.
Como referimos no texto Abraçadabra  uma nova cultura haveria de suplantar a cultura pré-existente, e teria a sua germinação nas ilhas mediterrânicas. Tendo os indo-europeus dominado o continente, da Índia até à Europa Atlântica, faltaria o domínio sobre o Mediterrâneo. Cresceriam como potência naval a ocidente, e lançariam um ataque crucial a partir do seu domínio sobre essas ilhas (Malta, Sicília, Creta, Chipre), contra as populações estabelecidas na orla mediterrânica. Esse ataque seria manipulador, não destruiria as civilizações existentes... iria manobrá-las como colónias sujeitas à sua influência. Condicionariam a ascenção e queda dos restantes, procurando manter-se fora dos conflitos. Talvez a excepção tenha sido a até hoje enigmática invasão dos "povos do mar", após a Guerra de Tróia. 
Quando a influência chegou ao ponto de fundar uma colónia nas "barbas" dos aqueus, estes rebelaram-se, perante a ameaça externa... e rumaram em direcção à Tróia original. Aí foi preciso um reínicio que restabelecesse o poder, o poder onde ele sempre esteve... oculto.

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publicado às 07:55


Com chás (3)

por desvela, em 23.07.13
Chá Mate.
O Chimarrão, ou Chá Mate, é uma infusão popular do Sul do Brasil até à Argentina, e também em toda a América do Sul. O recipiente por onde se bebe esta infusão é normalmente a parte inferior de uma cabaça (ou cuia):
Cabaça (cuia) por onde se bebe o chá mate.

O assunto do chá na cabaça parece ser aqui um pouco forçado, por via do título dos textos e tema anterior. No entanto, posso fazer uma ligação simples e interessante, indo parar rapidamente das pampas argentinas à zona sul, à Patagónia, cuja conquista se deu na transição para o Séc. XX. A partir daí, deixou-se de ouvir falar naquela raça de gigantes que enchia a imaginação europeia desde a viagem de Magalhães.
Sim, já falei disto aqui, aquiaqui ou aqui... e sendo certo que não gosto de me repetir, há um ligeiro detalhe que devo adicionar. Repisco a famosa imagem de contacto entre patagões e europeus, e ao lado coloco uma imagem do chinês Yao Ming, a estrela de basquetebol da NBA, que alinhou pelos Houston Rockets:
 
Imagem de Patagões no contacto europeu, e imagem de Yao Ming na NBA
(a ligação mostra ainda outros 5 jogadores de 2,30 m)
... a desproporção é muito semelhante.

Bom, e o que nos diz o "Viajante Universal", antes de falar sobre o Taiti... fala por acaso da "Terra Magallanica", da altura dos patagões, e de como era um mito infundado que fossem "gigantes", porque:
Sua controvertida estatura excede geralmente à dos Europeus: medidos escrupulosamente os mais altos, achou-se que não passavam de 7 pés e 1,25 polegadas (2,17 m); e a comum estatura era de 6,5 até 7 pés (ou seja, entre 2,00 e 2,13 metros). Segundo reflecte Mr. Bougainville não é tão notável seu talhe como sua corpulência, que em alguns chegava a 4 pés e 4 polegadas (1,35m) na circunferência do peito; porém seus pés e mãos não correspondem ao membrudo das outras partes (!) Todos estão cobertos de carne sem poder-se chamar gordos: a tensão de seus músculos manifesta a sua força, e não é desagradável sua figura (...)
Uma estatura que (nos medidos) variava entre 2 e 2,20 metros torna claro que a imagem da ilustração era bem verosímil, e estávamos em presença de um povo quase gigante, em que Yao Ming seria um indivíduo normal, e não uma excepção. Aliás, recordamos, era isso que dizia Buffon (1774-89):
- "As raças de gigantes antigamente tão comuns na Ásia, já aí não subsistem. Por que razão as encontramos hoje na América?"

Como dissemos, a pergunta de Buffon, teria uma actualização no Séc. XX:
- Por que razão desapareceram os gigantes do globo?
Há mercados e mercadorias, e a Argentina muito foi subsidiada pelos "mercados" na sua expansão irracional para o terreno patagão, conhecendo um crescimento económico notável no início do Séc. XX. Ao mesmo tempo os patagões foram aniquilados, e passaram a ser confundidos com os Tehuelche.

Por muito que tente a objectividade, há uma confusão de sentimentos associada ao drama de extinção de um povo que tinha o problema nato de ser diferente... dizia Camões (Lusíadas, Canto X - 141):
Dês que passar a via mais que meia
Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
Düa estatura quási giganteia
Homens verá, da terra ali vizinha;
 
E mais avante o Estreito que se arreia
Co nome dele agora, o qual caminha
Pera outro mar e terra que fica onde
Com suas frias asas o Austro a esconde.
Agora, "Duma estatura quase gigantesca, homens já não verá..." porque a mediocridade assim o exigiu, e continuará a tentar exigir o impossível para que os ratos se possam esconder nos buracos financeiros, sendo certo que serão os primeiros a abandonar qualquer barca infernal que conduzam.

Qual a relação dos patagões com o chimarrão, com o chá mate?
Começa pelo nome dos seus fiéis cães:
- "São tão fieis companheiros destes Índios os cães, que rara vez os vimos sem um grande número deles: sua casta é quase semelhante à que em Buenos Aires chamam Cimarrões, dos quais certamente trazem a sua origem (...)"
Quanto à palavra "mate", talvez o "xeique-mate" tenha sido decidido à hora de Londres do chá, chá mate!
A pequena palha chamar-se bomba, também não remeterá necessariamente a bombear o líquido.
Depois, a história ganha detalhes mais sinistros, porque a própria zona Gaúcha, do Chimarrão, já teria uma imigração das Canárias, onde tinha ocorrido uma aniquilação dos Guanches, tidos também como gigantes, aquando da conquista espanhola... "com suas frias asas o Austro a esconde". Esta palavra "austro", que escondeu a ilha australiana, mostrou a bicéfala asa imperial da casa austríaca.

Infusão.
Poderia ficar por aqui, porque o tema assim se justificava.
Porém, esta relação está longe de ser suficiente para quem não aprecia chá...
Há muitas possibilidades de infusões... sendo que o simples chá de limão poderia ter constituído uma bebida popular. Porém, a própria escassez alimentar de citrinos, associada ao escorbuto, é outro facto que merece menção. O nome das laranjas estar associado ao nome de Portugal, é outro ponto que evidencia algo estranho. As laranjeiras eram árvores ornamentais, pelo menos entre persas e árabes.
Se é dito que o nome laranja vem do sânscrito "naranga", onde variou para "naranja" entre árabes, nós ficámos com essa derivação do nome, enquanto italianos, gregos, turcos, e outros árabes usavam "portocala" para designar a laranja. Portanto, usamos o nome vindo do Médio Oriente, e aí usa-se o nome vindo daqui? Não é isso que me leva a seguir o texto...

Afinal o que se bebia na Antiguidade até à Idade Média?... 
Não seria café, nem chá... nem sequer um cházinho de limão!
Bom, na Europa havia o vinho, as misturas com mel, hidromel, e variantes de cerveja. Porém, entre os árabes, por via religiosa, nem isso seria permitido. Há uma tradição do chá árabe, mas ainda assim parece vir da Pérsia, só no Séc. XV (tal como o café, por via etíope)... ou seja, quase ao mesmo tempo que os descobrimentos vão tomar essa importação de chá vinda da China. Na China seria já popular muitos séculos antes, sendo a sua introdução remetida a um dos 3 míticos soberanos chineses, Shennong.
Shenong faria uma investigação sobre a natureza das plantas, tal como os druídas celtas (simbolizados por Panoramix), ou outros xamãs, também se entreteriam com as suas "poções" e "mézinhas":

Da cabaça passamos ao caldeirão:
... afinal, quem estava associado à confecção de estranhas infusões com particularidades "mágicas"? 
... a livre ideia de ferver plantas colhidas no campo, seria benvinda a uma sociedade onde a apenas alguns estava reservado o direito de fazer "poções"?

Ou seja, para banir veleidades de experiências psicotrópicas com ervas, parecem ter sidos introduzidos bloqueadores morais. Na Idade Média fazer uma infusão num caldeirão seria algo associado à "bruxaria" ou "alquimia". Um simples cozinhado "não convencional" poderia ser conotado com práticas pouco recomendáveis de bruxaria. Se ao tempo dos druidas esses cozinhados estariam reservados a uma classe sacerdotal, com a chegada da Idade Média, nem tão pouco isso iria ser bem recebido.

As classes dirigentes da sociedade nunca viram o livre uso de plantas com bons olhos:
- o aspecto medicinal seria positivo, para alguns... mas o aspecto psicotrópico das drogas causaria um problema social grave. Uma coisa é a cocaína na Coca, outra coisa é o refrigerante Coca Cola.
Por isso, a chegada do chá, do café, coincidiu com uma prática alargada que foi recuperar medicamentos nas selvas tropicais, ou outras paragens remotas, como no caso das Quinas e do quinino.

Subitamente a sociedade admitia de novo a experimentação de plantas para o uso benéfico da população, com a contrapartida de controlar o problema nefasto do seu abuso... Mas, foi paradigmático a China, de onde saíra o simbólico chá, ver-se confrontada com a alienação da população por via da Guerra do Ópio.

Transversalmente, nas mais diversas tribos do globo, aparece uma prática religiosa de xamãs que criam condições de alteração de consciência, seja através de plantas, de venenos em doses toleradas, ou outras. A medicina ligava-se às práticas religiosas neste aspecto, sendo comum o duplo papel - médico e religioso, dos xamãs.
Os xamãs em diferentes culturas (imagem da wikipedia)

Nalgumas tribos índias o ritual de iniciação da adolescência passava por um retiro introspectivo do indivíduo, sujeito a alterações de consciência (plantas, veneno de serpente), que o confrontavam consigo próprio, com os seus medos e fantasmas. Serviria como uma entrada num mundo espiritual, mas não visaria apenas a educação do próprio jovem... serviria também para que desse relevo de realidade a um mundo de espíritos, onde contaria com o seu xamã como guardião.
Peter Gabriel - San Jacinto
(relatando a experiência iniciática de um jovem índio)
I hold the line - the line of strength that pulls me through the fear 
San Jacinto - I hold the line 
San Jacinto - the poison bite and darkness take my sight - 
I hold the line - And the tears roll down my swollen cheek - think I'm losing it - getting weaker 
I hold the line - I hold the line San Jacinto - yellow eagle flies down from the sun - from the sun

Ao contrário de uma sociedade tribal, as civilizações desenvolveram-se numa base de privacidade, onde a individualidade não é respeitada, é condicionada. Numa pequena tribo, os conceitos de privacidade fazem pouco sentido e, por outro lado, conhecendo-se melhor os convivas, os seus problemas serão problemas de todo o grupo. Ao contrário, as civilizações fizeram pagar a privacidade com a desconfiança... sendo permitidos segredos, são todos suspeitos disso mesmo. Por melhores sistemas de vigilância que sejam implementados, a desconfiança serve apenas como chama que se alimenta a si própria.

Os xamãs, e análogos, encontram um mundo alternativo... de universos que se quiseram impor e sucumbiram às próprias contradições. Um caos ausente que encontra uma porta para se manifestar através de irracionalidades presentes... irracionalidades que na sua contradição têm tanto de destruidoras, como de criadoras de belos universos em manifestações artísticas. Um caos presente na iminência destruidora de uma simples sinapse de comando, contra uma ordem regeneradora, que se soube sobrepor à aniquilação. E falo no passado, porque é o passado de todos os universos que falharam, mas que reservaram o direito de se manifestar no único que os poderia albergar. Foi esse o preço da racionalidade albergar a irracionalidade, a beleza, a inocência do amor, as incertezas, e a perversidade hedonista e niilista das suas manipulações... é isso que teremos que transportar em cada presente - todas ilusões e mentiras colapsadas dos "amanhãs que cantariam", e que encontraram maior expressão na única porta que lhes ficou aberta - a irracionalidade e aparente fragilidade humana.


Nota adicional (24/7/2013)
Não sendo o chá, propriamente dito, objecto de análise destes textos que escrevi, não quero deixar de sinalizar uma bela obra: 
(1905)

Começa assim a prosa romantizada de Venceslau de Moraes:
É no Oriente, e em especial no Extremo-Oriente, que as coisas communs da creação ou os usos e costumes triviaes da vida são susceptiveis de merecer um tal requinte de solemnidade sentimental e de praxes de rito, que constituam um verdadeiro culto. No espirito do europeu, despoetizado pela chateza dos ideais da epoca, atribulado pelas multiplices exigencias da vida, pervertido pela febre do negocio, não medram de há muito os cultos. Especializando a observação ao chá, havemos de convir que este artigo de commercio, que de tão longe nos vem, propositadamente adulterado conforme o nosso gosto, no fim de contas se resume n'uma detestavel infusão que entrou em moda no sport social, simples pretexto para repastos pelintras, para reuniões banaes, para palestras vãs. 
Este parágrafo ilustra bem como a generalidade da sociedade ocidental iria tratar a informação... os barões assinalados teriam as suas bibliotecas privadas de espampanantes encadernações... de livros nunca abertos.
As camélias chinesas ou japonesas serviriam um ritual de chá que seria uma encadernação do livro que tinha outro significado quando reportado ao local de origem.
Num pequeno texto, fácil de ler, Moraes coloca muita informação sobre o ritual do chá no Japão, que vai desde mitos, costumes, histórias, até à própria produção, em particular no rio Uji:


O texto de Moraes está decorado com belas e informativas ilustrações japonesas da época, que servem como uma fotografia de tempos passados a Oriente, no quadro duma estabilidade colonial e comercial da belle époque que antecederia as convulsões mundiais do Séc. XX.

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publicado às 06:05


Com chás (2)

por desvela, em 12.07.13
Vieira.
Já aqui tínhamos apresentado uma moeda que tinha o símbolo da empresa de D. Sebastião:

Serena Celsa Favent, era o moto, e se o esclarecimento favorece a excelência, aqui temos uma concha, a vieira venusiana, e um peixe, símbolo cristão, sob uma constelação estelar (Pleiades?) enquadrada com o crescente selene, lunar.
Devemos notar que as conchas estão ligadas ao baptismo, havendo mesmo pias baptismais com essa forma:
 
Pia baptismal - Igreja NªSrª Navegantes (Armação de Pera, imagem)e concha baptismal (imagem)

Portanto, há uma ligação da concha à libertação do "pecado original", da expulsão do Paraíso. 
Bom, e tendo acabado de falar nas ilhas polinésias, do Taiti no texto anterior, de forma algo natural estabelecemos a noção de "ilha paradisíaca"... como se congenitamente o fosse reconhecido naquelas paisagens.


Pelicano.
Para além do peixe, também o pelicano, pelo auto-sacrifício pela prole, é considerado um símbolo de Cristo, tendo sido primeiro adoptado por D. João II como seu símbolo.
Vamos encontrar esse símbolo com um influente conselheiro dos reis ingleses Henrique VII e Henrique VIII, tratava-se de Richard Foxe, bispo de Winchester:

Leito de morte de Henry VII Tudor (1509) com destaque para Richard Fox, Bispo de Winchester, 
vêem-se as quinas portuguesas e o pelicano de D. João II.

O que faria o Bispo de Winchester, o conselheiro mais influente de Henrique VII, e depois de Henrique VIII (até ser substituído por Wolsey), usar armas com quinas e o pelicano, símbolos do já defunto D. João II?
Estava aqui implícito que a política de D. João II teria uma continuação pelo lado inglês?

Richard Foxe vai fundar o Colégio Corpus Christi de Oxford, que ainda hoje usa o símbolo do pelicano:
  
Richard Fox, o pátio central com o Pelicano do Corpus Christi de Oxford, e as armas do colégio,
que incluem ainda as armas de Hugh Oldham (com 3 mochos e rosas vermelhas de Lancaster)

Mais tarde, também Isabel I, filha de Henrique VIII, a rainha que determinará a expansão inglesa, irá adoptar o pelicano como símbolo no seu papel de "mãe" da Igreja Anglicana. A simbologia cristã do pelicano remontará a S. Tomás de Aquino, a sua ligação às quinas portuguesas só fica evidente através de Fox, e da influência que terá tido na regência dos Tudor.

A tomba de Fox está na catedral de Winchester da Santíssima Trindade, que era a mais influente à época, e que curiosamente esteve em perigo de colapso por inundação das fundações, sendo "salva" pelo trabalho contínuo de um escafandrista, William Walker, entre 1906-11, que tem um busto na catedral cuja cripta ainda se encontra imersa em água. 

Catedral de Winchester, o escafandrista Walker, e a cripta inundada (com escultura moderna).

Cordeiros.
Curiosamente, 50 anos antes, outro Bispo de Winchester, Henry Beaufort, ficou famoso por dirigir o processo inquisitório que condenou Joana d'Arc à fogueira. Tratava-se de um meio-irmão de Filipa de Lancastre, sendo um dos muitos filhos de John de Gaunt (com Katherine Swynford, no terceiro casamento que originou a linha Beaufort). 
Henry Beaufort, o inquisidor, e Joana d'Arc... 
um cordeiro entregue à fogueira.

Joana d'Arc tinha sido entregue por Philippe III de Borgonha (casado com Isabel de Portugal, filha de D. João I, sobrinha do inquisidor). Margaret Beaufort, também sobrinha deste Henry, será mãe do rei Henrique VII, que derrota Ricardo III, tornando-se o primeiro dos Tudor. Henrique VII usa a rosa de Lancaster, mas ao casar com uma rosa de York, terminará a Guerra das Rosas com a união.
Um detalhe importante é Henrique VII usar num retrato o colar do Tosão de Ouro, o símbolo da Ordem fundada por Philippe III de Borgonha, aquando do casamento com Isabel de Portugal.
Phillipe III de Bourgogne, fundador da Ordem do Tosão de Ouro (esq.)
Henry VII Tudor, membro da Ordem do Tosão de Ouro (dir.)
Ambos usam o colar da ordem, com o cordeiro sacrificial.

Duque de Kent, chefe da Grande Loja de Londres, com colar da Maçonaria.

Juntei uma imagem de colar da maçonaria porque o compasso, ou o esquadro, descaindo em forma de V invertido, assemelham-se ao cordeiro sacrificial, que vemos nos colares da Ordem do Tosão de Ouro.
Conforme já referi noutros textos, o cordeiro tem vários significados, não apenas ligados à lenda de Jasão e dos Argonautas. É claro que a Ordem surgindo no contexto do casamento da irmã do Infante D. Henrique, carrega um aspecto dos Descobrimentos ligado aos "Argonautas" e ao Velo de Ouro.
Descobrir foi desvelar, tirar véus... na forma Ariana deste carneiro, o Velo seria a pele de Aries, uma pele de Ouro, ou de Oro, forma abreviada de Hórus, o olho vigilante que se pode ligar ao verbo Orar.
Descobrir foi revelar, levantar Velas e não tanto retirá-las. As cara-velas do Infante velaram pelo véus antigos, e a Ordem do Tosão ou "Velo de Ouro", pode ser vista como preservação do "véu de Hórus".
Jasão teve que vencer o Dragão da Cólquida para obter o Velo de Ouro, tal como Hércules teve que vencer o dragão Ládon, que guardava as ocidentais Hespérides, num dos 12 trabalhos (ou 12 Oras...).
Ao mesmo tempo aparecia a Ordem do Dragão, de que fez parte o Infante D. Pedro, e que já ligámos à Dra-cola, ou Cola do Dragão, em que o "Colar" se refere ao pescoço, tal como Coço e Cola se referem à retaguarda, entrelaçada ao pescoço... (sobre o significado antigo de "coço da procissão" ser "atrás da procissão", ler D. Manuel Clemente)

A história do cordeiro tem ainda o aspecto hebraico que remete à Páscoa, ou à paz-côa, quando Abraão é sujeito ao teste de obediência divino, e o seu filho Isaac é substituído pelo cordeiro no sacrifício:
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis... dona nobis pacem
É um bocado complicado falar deste ponto, porque o sacrifício do cordeiro ordeiro envolve aqui um conceito perverso, no outro verso interpretativo. Deus não permitiria o sacrifício do filho eleito, apenas dos cordeiros... e por isso os cordeiros poderiam ser sacrificados, até que Deus se manifestasse em sentido contrário. E quem eram os cordeiros a sacrificar? O sacrifício indiscriminado traria a presença de Deus?
Pois... até que ponto os Árias foram pastores de Aries, cordeiros? Até que ponto os pastores sacrificariam os seus cordeiros para reencontrarem Deus, ou o Messias?
Esta filosofia continha uma aposta tripla 1X2, se Deus não interviesse perante a iniquidade, os pastores beneficiariam do velo de ouro, uma opção hedonista face à ausência divina. De forma oposta, justificariam a sua acção perante o divino, requerendo a sua presença, afinal a sua omnipotência só permitiria o sacrifício dos sacrificáveis. A incógnita X seria a recusa teológica de outras possibilidades... obviamente possível por crença, mas afinal insustentável racionalmente. Azar, este universo foi definido justamente pela racionalidade, e os absurdos levam ao vazio contraditório - o caos irracional fica no seu exterior. O tempo permite o absurdo diferido, temporário, mas não o simultâneo e permanente. Todos os filhos de Gaia são introspectivamente recuperáveis, pela lógica do arrependimento, do reconhecimento de erros, mas não é possível a recuperação dos irrecuperáveis. A persistência eterna no absurdo foi simplesmente excluída, nem tampouco poderia ser humana. Logicamente, não poderia ser doutra forma... os erros podem viver nas ilusões temporárias, que acolhem elementos do caos, mas não o caos completo. Desse oceano caótico importamos a imprevisibilidade, elementos artísticos e sentimentais, mas esses impulsos devem sujeitar-se ao enquadramento racional, sob pena de serem o convite ao estabelecimento do irracional, e à recusa da principal faculdade humana, que nos distingue das alimárias, a racionalidade.

Chapéus...
Há muitos, vários formatos de chapéus. Assim, para além do colar com o cordeirinho sacrificial, também o chapéu usado por Filipe III de Borgonha fez moda, ficou conhecido como "chapéu borgonhês", e resistiu aos tempos, sendo ainda hoje uma indumentária usada pela Confraria do Vinho do Porto:
É claro que no caso da confraria de vinho usa-se no colar uma taça de escanção, para averiguar da cor do vinho, afinal simbolicamente tratado como "sangue de Cristo".
A taça do vinho da Última Ceia foi habitualmente designada como Graal, e houve já quem sugerisse que o nome Portugal encerraria um críptico "por-tu-graal", que assim se complementaria, pela associação de Porto e Gaia, nas caves do famoso vinho, que sozinhas asseguravam as contrapartidas do Tratado de Methuen. Para adivinhos, há outros vinhos... os famosos vinhos da Borgonha, ou de Bordéus, da antiga região da Guiana occitana-basca, entre outros preciosos néctares de um Baco divino di-vinho, cuja preservação de antiguidade necessita do devido arrefecimento em caves bem seladas.

Baptista
Não longe, encontramos a Igreja Matriz de Vila do Conde, cuja a entrada é interessante.
De construção biscainha, apresenta de um lado as armas de D. Manuel (num caso raro, em que ainda aparece a dupla esfera armilar, sugerida por D. João II), e do outro lado temos: a âncora da Póvoa de Varzim, o antigo barco de Vila do Conde, e um outro brazão com uma figura humana que emerge de uma concha (símbolo associado à localidade de S. Pedro de Rates).
Igreja Matriz, de S. João Baptista, em Vila do Conde (imagem).

Como a Igreja é dedicada a S. João Baptista (que aparece no topo da porta), a concha será baptismal, mas também referente à mítica presença do Apóstolo Santiago, que teria ordenado S. Pedro de Rates como primeiro Bispo de Braga (45 a 60 d.C.).
Há assim essa dupla ligação a conchas, cuidando ambas para o simbolismo do renascimento, numa igreja renascentista emanuelina. O homem que sai da concha aparece depois, com D. Sebastião, na forma de peixe, invocando esse Renascimento cristão, que seria o renascimento de Cristo, na forma humana.
O ritual baptista parece remeter para uma origem aquática, pela imersão do baptizado, ou mais simbolicamente vertendo água na sua cabeça.
No entanto, há variações baptistas.
Um outro aspecto de baptismo, era o baptismo com óleo, aplicado na unção de sacerdotes.
Aí podemos ver outro aspecto das vieiras que, virtude dos tempos, são reencontradas no símbolo de uma famosa companhia petrolífera:

A vieira usada como símbolo de petróleo pela Shell.

O petróleo, também designado como "ouro negro", passou a encerrar outros véus, ou velos de ouro negro... mas para essas considerações remetemos para um texto anterior.

Poderíamos ainda falar de outros aspectos interessantes das vieiras, nomeadamente pela sua geometria.
Há uma confluência entre parte de um quadrado e parte de um círculo, podendo ser usado para simbolizar a relação do número Pi na quadratura do círculo.
Por outro lado, as divisões naturais das vieiras (ou outras conchas) poderiam servir para marcar ângulos, constituindo um simples instrumento de posicionamento, semelhante a um vulgar quadrante, para simples uso náutico, em navegações primitivas. Esse seria um aspecto prático de orientação astral para qualquer peregrino, associando a vieira ao cajado do pastor.

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publicado às 22:13


Acordar

por desvela, em 16.07.12
Acordar tem origem latina, de raiz no "cor" de coração, tal como concordar, discordar, recordar...
Quando "Acordar!" é ouvido numa caserna, os soldados saem dos seus sonhos unipessoais e são convocados para um Acordo... o acordo com a realidade comum.
Uns podem discordar, outros concordar, mas do sonho anterior só lhes restará o recordar.

Estas particularidades linguísticas são heranças que passam desapercebidas no nosso uso comum da língua, apesar de estarem ali, óbvias, prontas a serem compreendidas.
A relação com o "cor" de coração já é menos óbvia, e poderíamos ser levados numa "corda" que perdeu o "h" na transliteração de "chorda".

Isto a propósito de uma particularidade interessante na palavra "Quinas".
A transliteração do K tornou semelhante as formas:
Chinas, Quinas, Cinas ou Sinas.
No caso da China isso é ainda notório pela sua declinação latina enquanto "Sínica".

Porém, devido a essa simples alteração, ganha um significado substancialmente diferente falar em
Cinco Quinas / Cinco Chinas / Cinco Sinas

As cinco quinas fizeram parte da identidade nacional, variando apenas o número de bezantes, que acabou por se fixar também em cinco, com D. João II. Falamos da altura em que o nome Índias serviu tanto para territórios a ocidente, quanto a oriente. Aliás, a designação "índios" serviu praticamente para a maioria dos novos povos. Não seria de estranhar talvez uma designação de "Cinco Índias", para ilustrar a diversidade geográfica, mas os índios americanos estavam claramente mais próximos de uma ancestralidade chinesa.
Convém ainda notar que era "Seres" o nome que era usado pelos romanos para os chineses, e que à época dos descobrimentos, o nome mais comum era "Cathay" (a confusão entre Cathay e China manteve-se até à viagem de Bento de Goes). António Galvão faz ainda a referência da mudança de nome de "Taybencos" para "Chins", como sendo coisa recente em meados do Séc. XVI.

A palavra "quina" está ainda ligada a cantos, ou melhor a "esquinas", como quando se refere o Castelo das Cinco Quinas, devido ao formato da torre do Castelo do Sabugal, de que já falámos.
O nome Torre Quinária, referindo-se aos cinco cantos da Torre de Hércules do Castelo de Coimbra, dá ainda uma junção da raiz de "Quinto" com "Quina", dispensando quase a menção de serem cinco, as quinas, ou esquinas. Também já falámos muito desta torre destruída pelo Marquês de Pombal, acrescentamos apenas que se achou por bem destruir o que restava - o chão, no decurso da demolição do Observatório, por volta de 1950:
Demolição do Observatório, que antes servira de pretexto 
para demolir a Torre Quinária de Coimbra, dita de Hércules.

O parecer "erudito" no sentido da completa destruição é, digamos, bastante "traquinas".

Acrescento um documento interessante publicado em 1799, dirigido a D. João VI, sobre uma disciplina denominada "Quinografia Portugueza", de José Mariano Veloso, que se debruçava sobre as 22 espécies de "quinas", plantas que se encontravam no Brasil, e das quais se extraía o quinino... substância eficaz contra as febres, especialmente da malária.
Quina ou Cinchona, de onde se extrai o quinino

É um pouco mais complicado estabelecer se há alguma relação etimológica para o nome da planta, mas se o cravo foi especiaria procurada, a quina resolveu o problema da malária nas navegações.

Quando ainda se discute o Acordo ortográfico, é talvez conveniente não desprezar o legado linguístico, e acordar acordado. 

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publicado às 07:46


Acordar

por desvela, em 15.07.12
Acordar tem origem latina, de raiz no "cor" de coração, tal como concordar, discordar, recordar...
Quando "Acordar!" é ouvido numa caserna, os soldados saem dos seus sonhos unipessoais e são convocados para um Acordo... o acordo com a realidade comum.
Uns podem discordar, outros concordar, mas do sonho anterior só lhes restará o recordar.

Estas particularidades linguísticas são heranças que passam desapercebidas no nosso uso comum da língua, apesar de estarem ali, óbvias, prontas a serem compreendidas.
A relação com o "cor" de coração já é menos óbvia, e poderíamos ser levados numa "corda" que perdeu o "h" na transliteração de "chorda".

Isto a propósito de uma particularidade interessante na palavra "Quinas".
A transliteração do K tornou semelhante as formas:
Chinas, Quinas, Cinas ou Sinas.
No caso da China isso é ainda notório pela sua declinação latina enquanto "Sínica".

Porém, devido a essa simples alteração, ganha um significado substancialmente diferente falar em
Cinco Quinas / Cinco Chinas / Cinco Sinas

As cinco quinas fizeram parte da identidade nacional, variando apenas o número de bezantes, que acabou por se fixar também em cinco, com D. João II. Falamos da altura em que o nome Índias serviu tanto para territórios a ocidente, quanto a oriente. Aliás, a designação "índios" serviu praticamente para a maioria dos novos povos. Não seria de estranhar talvez uma designação de "Cinco Índias", para ilustrar a diversidade geográfica, mas os índios americanos estavam claramente mais próximos de uma ancestralidade chinesa.
Convém ainda notar que era "Seres" o nome que era usado pelos romanos para os chineses, e que à época dos descobrimentos, o nome mais comum era "Cathay" (a confusão entre Cathay e China manteve-se até à viagem de Bento de Goes). António Galvão faz ainda a referência da mudança de nome de "Taybencos" para "Chins", como sendo coisa recente em meados do Séc. XVI.

A palavra "quina" está ainda ligada a cantos, ou melhor a "esquinas", como quando se refere o Castelo das Cinco Quinas, devido ao formato da torre do Castelo do Sabugal, de que já falámos.
O nome Torre Quinária, referindo-se aos cinco cantos da Torre de Hércules do Castelo de Coimbra, dá ainda uma junção da raiz de "Quinto" com "Quina", dispensando quase a menção de serem cinco, as quinas, ou esquinas. Também já falámos muito desta torre destruída pelo Marquês de Pombal, acrescentamos apenas que se achou por bem destruir o que restava - o chão, no decurso da demolição do Observatório, por volta de 1950:
Demolição do Observatório, que antes servira de pretexto 
para demolir a Torre Quinária de Coimbra, dita de Hércules.

O parecer "erudito" no sentido da completa destruição é, digamos, bastante "traquinas".

Acrescento um documento interessante publicado em 1799, dirigido a D. João VI, sobre uma disciplina denominada "Quinografia Portugueza", de José Mariano Veloso, que se debruçava sobre as 22 espécies de "quinas", plantas que se encontravam no Brasil, e das quais se extraía o quinino... substância eficaz contra as febres, especialmente da malária.
Quina ou Cinchona, de onde se extrai o quinino

É um pouco mais complicado estabelecer se há alguma relação etimológica para o nome da planta, mas se o cravo foi especiaria procurada, a quina resolveu o problema da malária nas navegações.

Quando ainda se discute o Acordo ortográfico, é talvez conveniente não desprezar o legado linguístico, e acordar acordado. 

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publicado às 23:46


Conde D.Henrique e as quinas (2)

por desvela, em 19.05.11
Apresentamos mais uma excelente colaboração que Calisto enviou, e que dá seguimento e adicional consistência à tese de Damião de Góis, sobre a origem do Conde D. Henrique, que já abordámos nos posts: Bolhão, Governantes da Lusitania, e no post anterior com o mesmo nome. 
Damião de Góis sustentou que o Conde D. Henrique seria da linha de Bouillon - Bulhão, e portanto a nossa primeira dinastia seria mais propriamente designada Dinastia de Bolonha, de Boulogne-sur-mer, ou ainda de Lorena, dada a conexão ao ducado de Lorena.
Brazão actual de Boulogne-sur-mer

________

Existe o manuscrito de Fissieux (1632), e o manuscrito (recueil) 1054, usados por M Didot mas apresentam-se como uma cópia do de Vassebourg ‘Antiquités de la Gaule Belgique’ (1549) no que concerne a Guillaume de Boulogne, suas alianças, posteridade e as aventuras de Henry na Galiza.

Guillaume, o mais novo dos irmãos morre em 1098, teria a baronia de Jaynville e outros circunvizinhos, tal como o governo do ducado de Lorraine na ausência dos seus irmãos. Teve duas mulheres, Geltrude, filha do conde de Las, e Mathilde, filha de Gerard, duque de Mozellanne. Deixou 3 filhos: Théodoric que sucede no ducado de Lorraine.

Godefroy com a baronia de Jainville (esteve em Jerusalém e tomou parte nos espólios do seu tio Baudoin), pouco depois da morte do tio Baudoin (1119) volta para Jainville que governa até 1128, deixando um filho Godefroy II.

Henry, o mais novo, estando na flor da idade, no ano de 1110 embarca para Marselha, com intenção de chegar à Terra Santa, mas, ou por uma tempestade ou por deliberação daqueles que conduziam os navios foram aportar na Galiza. (o resto da “aventura” encontra-se em ‘Essai sur la genealogie de Joinville’, Didot).

Apesar dos autores dizerem que esta genealogia (Joinville) encerra erros grosseiros, encontram nas notícias dadas por Vassebourg certos detalhes que não são desprovidos de interesse e que tomam por emprestados tradições locais.

Para o autor, o interesse dado à importância histórica ao papel de Guillaume, irmão de Godefroi de Bouillon, propunha a demonstrar, contra toda a razão, que os duques de Lorraine tinham herdado os direitos da casa de Bouillon sobre o reino de Jerusalém como sucessores de Guillaume.
No entanto é de referir que Guillaume não é, ao contrário do que se julgava, uma personagem imaginária. A sua existência é atestada por Guillaume de Tyr, por Lemire.

Fontes: 

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publicado às 06:16


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