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O Pedestal dos Bufos

por desvela, em 03.05.14
O Bufo-Real é a maior coruja:

... e se cismo no sismo, o maior pedestal da capital, orgulho da maçonaria republicana, pseudo-socialista, pseudo-social-democrata, pseudo-patrocinadora-comunista, pseudo-cristã-democrata, pseudo-monárquica-liberal, é este:
... e a razão de tal unanimismo, será esta?



Nota adicional (05/05/2014):
Agradecendo um comentário recente, que remete para a obra de Camilo Castelo Branco:
Perfil do Marquês de Pombal
... onde se dá conta mais detalhada das façanhas do personagem expoente da horrorosa mediocridade elevada ao pedestal da reinação. A par, nessa grande reinação com D. José I, outro que continua montado no Terreiro do Paço. Estivesse Salgueiro Maia melhor informado, e ao menos um tiro inofensivo dum tanque poderia ter rebentado "acidentalmente" com tal desplante monumental.
Como diria Castelo Castelo Branco:
O meu ódio, grande, intranhado e único na minha vida, ao marquez de Pombal, 
não procede de affecto ao padre nem do desaggravo da religião: é por amor ao homem.

... no entanto, não é certamente para mim uma questão de ódio ao homem, mas sim ao personagem montado no seu andor. Facínoras, crápulas, gente com toda a espécie de feitios odiosos, foram-nos trazidos entre personagens na história e personagens de estórias.
Isso não surpreende muito.
Surpreende mais, e muito mais, porque é sinal da podridão que tomou conta da nação até hoje, a forma como foram glorificados por destruições que passam a reconstruções, por crimes passados a justiça necessária, por desastres omitidos, etc... numa panóplia única de recauchutagem de uma figura odiosa e medíocre em personagem iluminada. 
Não interessa a história que há-de vir, ou a de bastidores iluminados pelas trevas, sempre prontos a reinventarem-se em desculpas. Interessa a história que vemos. O personagem foi criado e glorificado, logo se seguiram cópiazinhas imitadoras, como denuncia Camilo Castelo Branco.

No livro citado, algumas páginas faltam. Mas não faltam as páginas que falam de D. Luís da Cunha, como ele instigou e aconselhou o Marquês na sua actuação.
Não faltam as páginas que contam como esse velho tinha amante judia, de nome "Salvador", que se passeava com os trajos da Ordem de Cristo do velho, tal era a relação íntima. 
D. João V e os ministros Cardeal da Motta e Fr. Gaspar nunca prestaram grande attenção aos alvitres de D. Luiz da Cunha. Como elle, já muito velho, doudejava escandalosamente com mulheres, e de mais a mais judias, o rei, aquelle corpo sevado nas graças israelitas de Margarida do Monte, não tinha o seu embaixador em muito serio conceito. Conta o cavalheiro de Oliveira que a judia Salvador, commensal de D. Luiz, usava o habito de Christo em que a investira o seu octogenário amante. Ora isto, a fallar verdade, devia desauthorisar na corte portugueza os avisos do diplomata. 
Há assim conselhos que passam a Conselho, não ao de D. João V, mas ao de D. José I. 
De onde vinham esses conselhos? Parece que há aqui um fio condutor desvelado.

Bom, mas se já escrevi abundantemente sobre os Abalos do Marquês, especialmente no texto:
http://alvor-silves.blogspot.com/2011/10/abalos-de-sebastiao-marques.html
há sempre novas peças que ilustram o ambiente que pairou e traumatizou a população portuguesa.

Já me tinha esquecido de colocar aqui o Incêndio da Trafaria, mas junta-se agora, pela leitura rápida do texto de Camilo, ao Incêndio das Cabanas de Montegordo.

Incêndio da Trafaria - A história resume-se à mediocridade do personagem, no que diz respeito ao exército. Camilo diz que havia sargentos a pedir esmola aos diplomatas estrangeiros. As enormes divisas que Portugal recebia, eram desviadas para parte incerta, e a população passava fome. 
A enfabulação de deitar a culpa a D. João V, é uma história da carochinha ensinada aos petizes.
Houve um desvio de fundos, se foi para financiar a judiaria, a maçonaria, ou a criação dos EUA, pouco importa. Houve um documentado sacrifício imposto à população nacional.
Bom, mas para efeitos do incêndio, quis o Marquês fazer guerras com um exército de esfomeados mal equipados. Houve deserções... e alguns dos desertores refugiaram-se no bairro da Trafaria. Através de Pina Manique 300 soldados cercaram a aldeia piscatória que tinha, segundo Camilo, 5000 habitantes.

Por ordem do Marquês a aldeia foi incendiada, e o facínora mandante foi apelidado por Camilo como "Nero da Trafaria":
            Os desgraçados corriam nus por entre as chamas. Alguns levavam sobraçados os seus doentes, seus velhos e as creanças. D'esses, morreram bastantes que não poderam romper o assedio do fogo, alem do qual estava o assedio da tropa. Muitos salvaram-se porque os soldados compadecidos, transgredindo as ordens do Manique, abriram clareiras por onde escapassem. 

Incêndio das Cabanas de Montegordo - Sobre este episódio não encontrei quase nada... normal, dado o contexto ditatorial, que muda as caras e talvez suavize os modos, mas não muda o instinto censor. Porém, num breve apontamento de Alice Vieira vem uma estória contada pela "avó Licínia" que fala de uma população piscatória que refaz a vida nas cabanas de Monte Gordo, após "tempestades de ondas gigantescas por volta de 1600". O Marquês teria feito Vila Real de Santo António, e requeria a passagem dos habitantes, que se recusaram a obedecer. O Marquês decidiu incendiar as cabanas, e os habitantes foram... não para Vila Real, mas para Ayamonte.

Camilo refere ainda os pormenores atrozes da execução do italiano Pellé... João Baptista Pelle teria sido acusado de tentativa de assassinato do Marquês e foi exemplarmente esquartejado e ainda vivo queimado, algo com requintes próprios do iluminismo do Séc. XVIII, e para constar num manual de horrores, em anexo à execução dos Távoras. Não foi caso único, as execuções públicas eram frequentes com tal iluminismo, que depois também iluminou as guilhotinas francesas.


No Séc. XIX, após banida a pena de morte, os escritores perguntavam-se como teria sido possível tal barbárie há tão pouco tempo... e o Séc. XX veio contar novas barbáries, já não com Pombal, mas com outros personagens da mesma escola.

Para uma população que regista em expressões populares alguns acontecimentos marcantes, chegando ao remoto Erro de Crasso... parece algo estranho que só Camilo tivesse usado a expressão "Nero da Trafaria", e que não se associe nada mais ao evento. Sobre o de Montegordo, pouco se sabe, talvez só indo a Ayamonte... mas pela proximidade a Lisboa, o evento da Trafaria seria muito falado.
Isto mostra como as memórias populares são muito mais induzidas do que geradas espontaneamente.
O declínio da anedota popular, que passava de boca em boca, quase automaticamente, reflectindo crítica actual, é outro aspecto desse condicionamento, após a entrada na U.E. 
A máquina manipuladora só é usada por alguns, para determinados fins. Fora disso, não tem uso.
A Trafaria foi esquecida, o "ir fazer a barba a Cacilhas" ainda se ouvia há uns anos.

Salazar, quis homenagear Pombal... e fez parir tal monumento central à cidade, talvez para simbolizar como era meigo face ao homenageado. A maioria das estátuas erigidas por Salazar caíram aquando do 25 de Abril... mas a do Marquês não! Alto lá... ali ficava então o símbolo do maior déspota, incólume a todo um movimento anti-despótico do MFA. Bravo. Óscar.

Nota adicional (06/05/2014):
Num comentário, Amélia Saavedra esclarece que houve aparente desconforto de Salazar à execução da obra, que não terá comparecido à inauguração.
Acresce o relato:
            Em 1882 surgiu pela primeira vez a ideia de erguer um monumento ao Marquês de Pombal, por ocasião das comemorações evocativas do centenário da sua morte. No entanto a agitação politica da época impediu a continuação do projecto. Este é retomado em 1913 com a abertura de um concurso público. 
           A 1ª pedra foi colocada por duas vezes, em 15 de Agosto de 1917 e novamente a 13 de Maio de 1926. Só oito anos depois a estátua era colocada sobre o fuste (12 de Dezembro de 1933) e inaugurada em 1934.

Se 1882 é a data do manuscrito de Camilo, as datas de 1917 e 1926 para a tentativa de lançamento da primeira pedra, não deixam de ser coincidentes com revoluções marcantes.
Em Dezembro de 1917 a de Sidónio Pais, e em Junho de 1926 (um mês depois à pedra de 13 de Maio... de 1926), será a de Gomes da Costa, que dará origem à 2ª República.

Ilustração adicional (09/05/2014):
Mitologia macavenca
(quadro clássico de Pombal, propaganda de Afonso Costa... heranças que o PS quis serem suas) 

Na rotunda esteve Machado dos Santos, os outros estiveram nos bastidores,
de onde, em reconhecimento, lhe enviaram a carrinha fantasma

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publicado às 15:06


Gazetas, Tesauros, Tesouros e Tesouras

por desvela, em 20.04.14
Há uma diferença de género entre "O Tesouro" e "A Tesoura".

A Gazeta de Lisboa foi uma publicação periódica entre 1715 e 1820, e que de alguma forma tem como sucessor o actual Diário da República. Passou por diversos nomes, podendo ser ligada à Gazeta da Restauração, logo publicada em 1641, como forma de propaganda a D. João IV.
Durante esse longo período, essa publicação periódica de informação aos cidadãos, foi só suspensa pela Mesa Censória do Marquês de Pombal, entre 1762 e 1778... tendo mesmo sido mantida pelos franceses durante a sua ocupação.

O nome Gazeta é sistematicamente remetido a Veneza, onde a moeda "gazzetta" servia para comprar a leitura da informação publicada no periódico, desde 1563.

Refere-se ainda a presença do símbolo de uma pega, pássaro cujo nome italiano é gazza. Afinal os mesmos pássaros que decoram o tecto de uma sala do Palácio de Sintra, com a menção "Por Bem", moto de D. João I... e se as pegas foram pretendidas ser outras, o rei poderia argumentar com o "honi soit qui mal y pense", invocando a ascendência Lancastre, já que foi o primeiro rei estrangeiro a pertencer à Ordem da Jarreteira.
Podemos ler outra origem, algo mais elaborada, que aponta "gaza" como "tesouro" (Rönsch), indo ao latim gazetum, e à origem persa. Este tesouro seria no mesmo sentido de "tesauro" (thesaurus), uma corrupção de tesouro, que passou a designar os dicionários de sinónimos e antónimos. 

Bom, mas não interessa dispersar.
A notícia da Gazeta de Lisboa (nº45) é de 6 de Novembro de 1755 e diz apenas o seguinte:
O dia 1º do corrente ficará memorável a todos os séculos pelos terramotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade; mas tem havido a felicidade de se acharem na ruína os cofres da fazenda real e da maior parte dos particulares. 
A Gazeta era conhecida por ser sucinta... mas tanto? 
Então e o famoso Maremoto?
Esta informação está numa análise pertinente feita por André Belo:

A Gazeta de Lisboa e o terremoto de 1755: a margem do não escrito
Análise Social, n° 151-152, vol. XXXIV, Inverno 2000, pp. 619-637.

As interrogações sucedem-se, e bem. Citamos agora directamente André Belo:
Na semana seguinte, a 13 de Novembro, a Gazeta continuava na mesma linha, escrevendo:
"Entre os horrorosos efeitos do terremoto, que se sentiu nesta cidade no primeiro do corrente, experimentou ruína a grande torre chamada do Tombo, em que se guardava o Arquivo Real do Reino e se anda arrumando; e muitos edifícios tiveram a mesma infelicidade". (GL, n° 46, 1755)
Lacónico sobre os efeitos do terramoto em Lisboa, o periódico foi incluindo neste mesmo número descrições bastante mais pormenorizadas sobre o impacto do sismo em Córdova, Cádiz e Sevilha. Das oito páginas da edição, cerca de seis foram preenchidas com informação sobre o sismo na Andaluzia, enquanto Lisboa merecia apenas as seis linhas citadas.
Não acompanhamos depois a sua tese de que a informação sobre Lisboa não interessava aos leitores lisboetas. Os poucos exemplares que encontramos na internet têm destinatários noutras paragens do país, e mesmo estando em Lisboa, a informação ou ausência dela é até mais relevante.

Ainda que a informação da Gazeta seja escassa, é suficiente para abrir brechas no divulgado.
A Torre do Tombo teria "experimentado ruína", mas "andava-se arrumando" o Arquivo do Reino... e portanto duas semanas depois não se reportam nenhumas perdas devidas a terramoto ou incêndio.

As Gazetas europeias tinham por hábito apanhar as notícias umas das outras... mas não foi certamente com estas linhas sucintas que Voltaire ficou traumatizado com o Abalo do Marquês.
Se dúvidas houvessem sobre a manipulação e distorção informativa no período pombalino, e especialmente sobre a sua preservação nestes 250 anos, pelos acólitos maçons, aqui está mais uma prova. 
O Marquês proíbe a publicação em 1762 porque tem a descer o Tejo o exército espanhol do Conde de Aranda... a sua força de repressão era interna - externamente revelava uma debilidade total, em Portugal e especialmente no abandono das possessões ultramarinas.

Então e o Maremoto, o maior tsunami jamais registado? 
Pois... um maremoto ocorreu provavelmente em 1531, quando foi decidida a construção do Bairro Alto.
Afinal, após um maremoto fazia sentido insistir na construção da "baixa" pombalina?... não seria mais indicado uma "alta" pombalina - por muito baixos que fossem os modos desta gente?

Pois, a certa altura deixei de reportar detalhes aqui... por causa disto.
Basta fazer uma pequena pesquisa e sucedem-se informações, umas atrás das outras...
Como já disse, é indiferente ter 1000 provas, 1001 ou 1 milhão... o número é indiferente quando se embate contra uma parede de obstinação insana.

Qual a razão da obstinação?
A Tesoura faz O Tesouro...

Primeiro, da forma evidente. 
O cargo de Censor era já um cargo romano importante, e pelos cortes, pelas censuras, se definia um poder imenso. A tesoura cortava a pedra no papel das regras do jogo. O secretismo era alma para tal negócio que embrulhava qualquer pedra na papelada da engrenagem.

Segundo, da forma menos evidente, mas superior à anterior.
Pois, mas sobre essa já falei, e é um problema de arquitectura. 
O ouro encanta a vista, mas não é visão... com o tesouro tens ouro, mas t'és ouro? 
E, queiramos ou não, as palavras estão aí para serem associadas na aura do Tesauro.
- És tu ouro?... no restauro, na rés tauro, no signo do Touro... és tu ouro?
- Ah, ris... do signo Aries, dos sacrificados carneiros da paz côa, filtrada, paz cal, pintada de branco. 
- Temes investir no encarnado, e apostas na reencarnação.

A arquitectura na tesoura visava o tesouro. 
Apresentava ouros evidentes, para criar outros diferentes.
Apresentava o temporário para, pela negação, encontrar o eterno. 
É terno? É ter-nos.

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publicado às 05:33


Santelmo

por desvela, em 04.08.13
Por mero acaso, hoje, que se comemoram 435 anos sobre a batalha de que deixou Portugal suspenso, encontrei este vídeo, da TvL Odivelas, sobre o Elmo de D. Sebastião, numa entrevista a Rainer Daehnhardt:

Perspectivas : O Elmo de Dom Sebastião- Rainer Daehnhardt

O elmo de D. Sebastião, segundo R. Daehnhardt.
Programa Perspectivas da TvL.

falei muitas vezes sobre D. Sebastião, e não terei muito mais a acrescentar. 
Já conhecia esta história do Elmo, apresentado há dois anos, numa fugaz participação que tive no facebook, mas não conhecia o vídeo, que é posterior, e onde Daehnhardt detalha as suas conclusões sobre o elmo.
Em particular, depois de explicar as razões que levam à suspeita que foi um dos elmos usado em batalha, dirige as suas conclusões para a violência dos impactos sobre o elmo. Talvez a parte mais interessante é a sua conclusão de que o portador do elmo estaria vivo, e teria rechaçado os inimigos (em número que aponta até mais de 70)... nessa altura, ao abrir a viseira seria atingido por um lança granadas, a curta distância, que teria levado à morte... do rei?
- Rainer Daehnhardt admite a hipótese de ser já um escudeiro a lutar com a armadura do rei. De qualquer forma, o disparo de granada visaria a morte do rei, e sairia por traição, de entre as tropas nacionais.
A outra hipótese leva à diversa especulação de que o rei não teria morrido, nomeadamente à hipótese do Prisioneiro de Veneza...

A expansão otomana complicara o equilíbrio de forças no Mediterrâneo, e após a perda da Ilha de Rodes em 1520, a Ordem dos Hospitalários de S. João fica sem terras, e vai receber a oferta Carlos V sobre as Ilhas de Malta e Gozo, bem como a cidade de Tripoli (em poder espanhol desde 1510).
Em troca, a Ordem, agora chamada Ordem de Malta, entregaria simbolicamente um falcão anualmente... o chamado Falcão Maltês (tributo que esteve na origem do filme Maltese Falcon), o que fez até à intervenção militar de Bonaparte em 1798. Com essa intervenção e a inglesa, os domínios da Ordem de Malta reduziram-se desde então a uma propriedade em Roma...

Esta Ordem militar hospitalária que construíra o Crac dos Cavaleiros, recebera o espólio dos Templários aquando da sua supressão e condenação francesa, acabou mais dedicada ao corso, devido à perda dos territórios na Terra Santa.
O seu renascer como Ordem Malta associava-se ao grande êxito militar quando o grão-mestre La Valette, do Forte de Santo Elmo, consegue segurar o Cerco de Malta, feito pelos otomanos, em 1565.
La Valeta e o Forte de Santo Elmo
(onde La Valette segurou a invasão otomana em 1565).

Nessa altura, o sucesso cristão na Batalha de Lepanto teria como contraponto a perda de Chipre, e a perda definitiva de Tunis em 1576, colocava um acentuado domínio otomano sobre o Mediterrâneo.
É assim simbólico que Filipe II decline o apoio ao sobrinho, mas ofereça a D. Sebastião o Elmo de Carlos V, que ele levara na conquista de Tunis... onde o galeão Botafogo teria servido como peça fundamental.

Não é o Elmo de Carlos V o que é exposto por Daehnhardt, que fala na utilização de 3 diferentes armaduras por D. Sebastião em batalha. O elmo em causa aparenta uma resistência superior, capaz de resistir às armas convencionais, mas não a uma granada europeia disparada a curta distância.

Santo Elmo aparece como designação alternativa para São Erasmo de Fórmia, padroeiro de navegantes, parecendo algo forçada a redução do nome Erasmo para Elmo... ou Telmo (sendo ainda associado a um frade dominicano Pedro Gonzalez).

O Fogo de Santo Elmo, estranho fenómeno em tempestades, era descrito pelos marinheiros portugueses como "fogo de corpo santo". Tal fenómeno é descrito no Canto V (17-18) dos Lusíadas:

Os casos vi, que os rudos marinheiros, 
Que têm por mestra a longa experiência, 
Contam por certos sempre e verdadeiros, 
Julgando as cousas só pola aparência, 
E que os que têm juízos mais inteiros, 
Que só por puro engenho e por ciência 
Vêm do mundo os segredos escondidos, 
Julgam por falsos ou mal entendidos. 

Vi, claramente visto, o lume vivo 
Que a marítima gente tem por santo, 
Em tempo de tormenta e vento esquivo, 
De tempestade escura e triste pranto. 
Não menos foi a todos excessivo 
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto, 
Ver as nuvens, do mar com largo cano, 
Sorver as altas águas do Oceano. 


 
Ilustração do fogo de santelmo, e ilustração do Séc. XVI de Santo Elmo 

Camões não nomeia o "fogo de santelmo", apenas disserta sobre a incredulidade dos sábios face às descrições dos "rudes marinheiros". Dado o aspecto de fuzis que disparavam cargas eléctricas partindo dos mastros dos veleiros, a então nova capacidade dos elmos resistirem a esses disparos, conforme explica Daehnhardt, justificaria a invocação da mesma protecção simbólica para os navegantes.
Acresce que o nome Santelmo vai aparecer na mitologia Filipina... nas ilhas de Filipe II, em disputa com D. Sebastião. Aparece aí como uma monstruosidade capaz de emitir bolas de fogo... e não necessariamente granadas convencionais.

A principal curiosidade é que este tipo de elmo e armadura eficaz contra projécteis teria o seu fim exactamente nesta época. O elmo completo de D. Sebastião talvez tenha sido dos últimos usados em batalha... a partir dessa data, usar-se-ia apenas um capacete, em tropas especializadas, como couraceiros ou dragões. Apesar da aparente infalibilidade protectora, o aumento de poder de fogo, e especialmente o "pragmatismo", acabariam por condenar a capacidade de salvação do Elmo.
Os reis e generais ficariam habitualmente fora da primeira linha dos cenários de guerra. A reposição do material humano, carne para canhão, seria afinal mais económica do que financiar um equipamento pesado, protector da soldadesca...

É ainda interessante Daehnhardt referir como foram tratados os restos das cotas de malhas de ferro... no Séc. XIX o liberalismo cuidou de reduzir essa memória à dilaceração para esfregões de panelas! Vêem-se mesmo alguns tachos que usavam partes de armaduras.
Mais do que reciclagem de material... a ideia seria sempre a reciclagem da memória!

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publicado às 19:58


Arco da Memória

por desvela, em 25.07.13
O arco da memória é uma ligação que une dois pontos - passado e presente.
O arco da memória é a definição do tempo absoluto.
Uma estrutura sem memória não pode saber o que é o tempo. Tempo e memória confundem-se em noções diferentes, porque a experiência da ordem universal nos presenteia com a continuidade do movimento.
Os pequenos organismos reagem ao movimento, mas raramente têm memória. 
A memória só é útil a organismos complexos, capazes de a analisar. Um típico ser reactivo dispensa a memória. Entroniza a reacção, não a analisa. Um simples processo de compreensão vê um padrão e dele extrai uma noção. Ao repetir-se o padrão, conta com previsibilidade semelhante. Porém, quando as coisas se complicam, todas as noções contam num entendimento alargado. 
O arco da memória não é completo... tal como o arco do cajado de um caminhante, tem uma grande ponta fixa que assenta no presente, e uma pequena curva que vem do passado. Porquê? Porque substituímos o grande espaço necessário a uma memória completa por algo bem mais simples - as noções que se formam através dela. A falência da memória tem menos importância do que a falência das noções. A memória serve essencialmente para educar, testar e consolidar noções abstractas. Uma compreensão com noções abstractas alargadas dispensa o peso de uma grande memória.
Tudo isto se conjuga de forma admiravelmente lógica, indubitavelmente clara... mas algo extemporânea de ser entendida por uma sociedade que se formou pelo sucesso imediato dos processos reactivos simples.
A mesma sociedade que cuida ocultar a memória, por forma a educar espíritos infantilizados, lavrando sulcos de cultura distorcida por palavras que não são próprias, essa mesma sociedade é afinal ignota do propósito que serve a memória, e é assim também infantil... não no conhecimento, mas na sua compreensão.

Adiante...
Dia 13 de Maio, na Serra dos Candeeiros, é feita uma promessa.
Poderia estar a falar de 1917 e da Cova da Iria, mas a data e o local são diferentes. 
Para melhor evidência, cito o Archivo Pittoresco (1863, volume 7, pag. 336):
Indo el-rei D. Affonso o primeiro de Portugal para ganhar Santarem, fez neste proprio lugar hum voto a Christo, de dar tudo quanto via com os olhos d'alli até o mar á Ordem de Cister, se ajudado com os merecimentos de N. P. S. Bernardo ganhasse a.villa. E alcançando-lhe o Santo o que pedia, cumprio el-rei seu voto, donde resultou a fundação do Real Mosteyro de Alcobaça; o Senhorio do qual começa d'este lugar, e se acaba na praia do mar. Acontecerão estas couzas todas no anno de 1147, aos 13 de Maio em uma quinta feira.
Esta "lenda" associada à fundação do Mosteiro de Alcobaça estabelecia marcos de domínio da Ordem de Cister, cedidos por D. Afonso Henriques, que ficaram definidos por um Arco da Memória, encimado com a estátua do Rei fundador:
Arco da Memória (perto de Rio Maior) 
gravura no Archivo Pittoresco, e fotografia antes da "ira republicana" [imagem daqui]

Acontece que a promessa de D. Afonso Henriques era suposto ocorrer até que durasse monarquia. 
Três meses volvidos sobre a Implantação da República, em 12 de Janeiro de 1911, as concessões da monarquia já não faziam sentido... e o monumento foi destruído por republicanos.
É claro que, desde o tempo do Marquês, parece também haver uma versão conveniente de colapso por abalo sísmico... mas acresce a coincidência do aproveitamento imediato das pedras da derrocada para a estrada de ligação de Caldas da Rainha à Benedita. 
A história está bastante bem descrita em 
http://rio-maior-cidadania.blogspot.pt/2010/04/arco-da-memoria.html
e inclui um curioso detalhe... restava a estátua do rei - e o popular que a foi restituir acabou multado!
A estátua de D. Afonso Henriques está agora junto ao Castelo de Leiria:
 
Estátua de D. Afonso Henriques. Reconstrução do Monumento em 1981. [imagens daqui]

Passados 70 anos, em 1981, por iniciativa do pároco dos Vidais, com o apoio da população, o Arco da Memória foi finalmente reconstruído. Como é óbvio, o Estado Português tem sido socorrido por populares com sentido de estado, quando falta sentido de estado aos seus dirigentes, ou quando esses dirigentes estão visivelmente a soldo de interesses externos.

Há muitas notas a acrescentar a este monumento oficialmente ignorado pela República Maçónica.
(1) Do que é possível apurar, pelo menos a estátua será fabrico ao tempo de D. Sebastião (who else?). Pela simples observação do escudo, é fácil ver que se tratam das armas posteriores a D. João II.
(2) A localização é ambígua, tal como já seria pela imprecisão da descrição de Frei Francisco de Santa Clara, que remete para uma Serra de Albardos, que já foi dita como Serra de Alvados.
(3) Ora, parte da Serra dos Candeeiros, a Serra de Alvados, será depois remetida para uma localização contígua a Cova de Iria - Fátima. 
Podemos falar na coincidência da data simbólica do 13 de Maio... a 1ª República estava apostada em banir a influência do poder eclesiástico, e a queda deste monumento terá estado nesse movimento. É significativo que, como aparente resposta, apareça na mesma data, 13 de Maio, uma manifestação católica em Fátima que iria suplantar as expectativas de qualquer republicano... que de bom grado reporia o monumento face ao significado que ganharam as ocorrências da Cova de Iria. Aliás, essa ligação foi uma suspeita imediata dos republicanos, que chegaram a prender os "pastorinhos", evitando a presença a 13 de Agosto de 1917.
(4) A situação fica ainda menos clara, porque há outro Arco da Memória, também na Serra dos Candeeiros, mais próximo da Serra de Alvados, mas que não teria nenhuma estátua real:
Arco da Memória perto de Arrimal, Serra dos Candeeiros

Este outro Arco da Memória não parece ter o mesmo registo histórico do anterior, mas foi também ligado à marcação dos domínios de Cister do Mosteiro de Alcobaça. 
Com inúmeros muros de pedra, que ornamentam grandes extensões da Serra, fazendo lembrar os muros açorianos, os monumentos singulares, atribuídos a uma marcação dos domínios de Cister, não seriam afinal outro tipo de monumentos, de outros tempos, depois aproveitados para outras "estórias"?
(5) Se não parece haver dúvidas sobre a estátua de D. Afonso Henriques ser do Séc. XVI, é significativa a frase constante no texto do Archivo Pittoresco:
Entre os povos da localidade e circumvisinhanças, é inteiramente desconhecido o nome da serra de Albardos, dando-lhe o de serra de Rio Maior, por ficar não mui distante desta villa, e das suas celebres bocas, das quaes ainda tenciono fallar. Chamam elles a este arco o rei da memoria, nutrindo fabulosas opiniões, filhas da sua ignorancia, e dão interpretações vagas e até absurdas sobre a origem d'este monumento.
Portanto a população não corroborava por completo a lenda de D. Afonso Henriques, ou chamava-lhe "rei da memória", estando associada a "fábulas" de "ignorantes", segundo opinião do autor do texto, P. C. Sequeira, em 1863. Como o autor não especifica as fábulas, fica a questão se remeteriam de novo a Hércules, como era frequente em Portugal e Espanha.
(6) É ainda notável o artigo do Archivo Pittoresco ser seguido de outra opinião, do editor Silva Tullio, que critica o autor do texto, dizendo que faltaria mencionar a investigação histórica que remetia a concessão de D. Afonso Henriques como sendo uma "invenção dos frades bernardos" do Mosteiro de Alcobaça, para reivindicarem aquelas terras. Esta questiúncula levaria depois à destruição do monumento.

O que se conclui desta pequena análise?
Que as acusações de ignorância podem ser sempre repartidas, procurando apenas validar um tipo de conhecimento... "politicamente correcto", adequado aos propósitos dos acusadores. Se os houver, os detentores de uma história mais completa, não se livram dessa ignorância, que passa por não perceberem qual o propósito do conhecimento que guardam para si.

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publicado às 15:01


Com chás (2)

por desvela, em 12.07.13
Vieira.
Já aqui tínhamos apresentado uma moeda que tinha o símbolo da empresa de D. Sebastião:

Serena Celsa Favent, era o moto, e se o esclarecimento favorece a excelência, aqui temos uma concha, a vieira venusiana, e um peixe, símbolo cristão, sob uma constelação estelar (Pleiades?) enquadrada com o crescente selene, lunar.
Devemos notar que as conchas estão ligadas ao baptismo, havendo mesmo pias baptismais com essa forma:
 
Pia baptismal - Igreja NªSrª Navegantes (Armação de Pera, imagem)e concha baptismal (imagem)

Portanto, há uma ligação da concha à libertação do "pecado original", da expulsão do Paraíso. 
Bom, e tendo acabado de falar nas ilhas polinésias, do Taiti no texto anterior, de forma algo natural estabelecemos a noção de "ilha paradisíaca"... como se congenitamente o fosse reconhecido naquelas paisagens.


Pelicano.
Para além do peixe, também o pelicano, pelo auto-sacrifício pela prole, é considerado um símbolo de Cristo, tendo sido primeiro adoptado por D. João II como seu símbolo.
Vamos encontrar esse símbolo com um influente conselheiro dos reis ingleses Henrique VII e Henrique VIII, tratava-se de Richard Foxe, bispo de Winchester:

Leito de morte de Henry VII Tudor (1509) com destaque para Richard Fox, Bispo de Winchester, 
vêem-se as quinas portuguesas e o pelicano de D. João II.

O que faria o Bispo de Winchester, o conselheiro mais influente de Henrique VII, e depois de Henrique VIII (até ser substituído por Wolsey), usar armas com quinas e o pelicano, símbolos do já defunto D. João II?
Estava aqui implícito que a política de D. João II teria uma continuação pelo lado inglês?

Richard Foxe vai fundar o Colégio Corpus Christi de Oxford, que ainda hoje usa o símbolo do pelicano:
  
Richard Fox, o pátio central com o Pelicano do Corpus Christi de Oxford, e as armas do colégio,
que incluem ainda as armas de Hugh Oldham (com 3 mochos e rosas vermelhas de Lancaster)

Mais tarde, também Isabel I, filha de Henrique VIII, a rainha que determinará a expansão inglesa, irá adoptar o pelicano como símbolo no seu papel de "mãe" da Igreja Anglicana. A simbologia cristã do pelicano remontará a S. Tomás de Aquino, a sua ligação às quinas portuguesas só fica evidente através de Fox, e da influência que terá tido na regência dos Tudor.

A tomba de Fox está na catedral de Winchester da Santíssima Trindade, que era a mais influente à época, e que curiosamente esteve em perigo de colapso por inundação das fundações, sendo "salva" pelo trabalho contínuo de um escafandrista, William Walker, entre 1906-11, que tem um busto na catedral cuja cripta ainda se encontra imersa em água. 

Catedral de Winchester, o escafandrista Walker, e a cripta inundada (com escultura moderna).

Cordeiros.
Curiosamente, 50 anos antes, outro Bispo de Winchester, Henry Beaufort, ficou famoso por dirigir o processo inquisitório que condenou Joana d'Arc à fogueira. Tratava-se de um meio-irmão de Filipa de Lancastre, sendo um dos muitos filhos de John de Gaunt (com Katherine Swynford, no terceiro casamento que originou a linha Beaufort). 
Henry Beaufort, o inquisidor, e Joana d'Arc... 
um cordeiro entregue à fogueira.

Joana d'Arc tinha sido entregue por Philippe III de Borgonha (casado com Isabel de Portugal, filha de D. João I, sobrinha do inquisidor). Margaret Beaufort, também sobrinha deste Henry, será mãe do rei Henrique VII, que derrota Ricardo III, tornando-se o primeiro dos Tudor. Henrique VII usa a rosa de Lancaster, mas ao casar com uma rosa de York, terminará a Guerra das Rosas com a união.
Um detalhe importante é Henrique VII usar num retrato o colar do Tosão de Ouro, o símbolo da Ordem fundada por Philippe III de Borgonha, aquando do casamento com Isabel de Portugal.
Phillipe III de Bourgogne, fundador da Ordem do Tosão de Ouro (esq.)
Henry VII Tudor, membro da Ordem do Tosão de Ouro (dir.)
Ambos usam o colar da ordem, com o cordeiro sacrificial.

Duque de Kent, chefe da Grande Loja de Londres, com colar da Maçonaria.

Juntei uma imagem de colar da maçonaria porque o compasso, ou o esquadro, descaindo em forma de V invertido, assemelham-se ao cordeiro sacrificial, que vemos nos colares da Ordem do Tosão de Ouro.
Conforme já referi noutros textos, o cordeiro tem vários significados, não apenas ligados à lenda de Jasão e dos Argonautas. É claro que a Ordem surgindo no contexto do casamento da irmã do Infante D. Henrique, carrega um aspecto dos Descobrimentos ligado aos "Argonautas" e ao Velo de Ouro.
Descobrir foi desvelar, tirar véus... na forma Ariana deste carneiro, o Velo seria a pele de Aries, uma pele de Ouro, ou de Oro, forma abreviada de Hórus, o olho vigilante que se pode ligar ao verbo Orar.
Descobrir foi revelar, levantar Velas e não tanto retirá-las. As cara-velas do Infante velaram pelo véus antigos, e a Ordem do Tosão ou "Velo de Ouro", pode ser vista como preservação do "véu de Hórus".
Jasão teve que vencer o Dragão da Cólquida para obter o Velo de Ouro, tal como Hércules teve que vencer o dragão Ládon, que guardava as ocidentais Hespérides, num dos 12 trabalhos (ou 12 Oras...).
Ao mesmo tempo aparecia a Ordem do Dragão, de que fez parte o Infante D. Pedro, e que já ligámos à Dra-cola, ou Cola do Dragão, em que o "Colar" se refere ao pescoço, tal como Coço e Cola se referem à retaguarda, entrelaçada ao pescoço... (sobre o significado antigo de "coço da procissão" ser "atrás da procissão", ler D. Manuel Clemente)

A história do cordeiro tem ainda o aspecto hebraico que remete à Páscoa, ou à paz-côa, quando Abraão é sujeito ao teste de obediência divino, e o seu filho Isaac é substituído pelo cordeiro no sacrifício:
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis... dona nobis pacem
É um bocado complicado falar deste ponto, porque o sacrifício do cordeiro ordeiro envolve aqui um conceito perverso, no outro verso interpretativo. Deus não permitiria o sacrifício do filho eleito, apenas dos cordeiros... e por isso os cordeiros poderiam ser sacrificados, até que Deus se manifestasse em sentido contrário. E quem eram os cordeiros a sacrificar? O sacrifício indiscriminado traria a presença de Deus?
Pois... até que ponto os Árias foram pastores de Aries, cordeiros? Até que ponto os pastores sacrificariam os seus cordeiros para reencontrarem Deus, ou o Messias?
Esta filosofia continha uma aposta tripla 1X2, se Deus não interviesse perante a iniquidade, os pastores beneficiariam do velo de ouro, uma opção hedonista face à ausência divina. De forma oposta, justificariam a sua acção perante o divino, requerendo a sua presença, afinal a sua omnipotência só permitiria o sacrifício dos sacrificáveis. A incógnita X seria a recusa teológica de outras possibilidades... obviamente possível por crença, mas afinal insustentável racionalmente. Azar, este universo foi definido justamente pela racionalidade, e os absurdos levam ao vazio contraditório - o caos irracional fica no seu exterior. O tempo permite o absurdo diferido, temporário, mas não o simultâneo e permanente. Todos os filhos de Gaia são introspectivamente recuperáveis, pela lógica do arrependimento, do reconhecimento de erros, mas não é possível a recuperação dos irrecuperáveis. A persistência eterna no absurdo foi simplesmente excluída, nem tampouco poderia ser humana. Logicamente, não poderia ser doutra forma... os erros podem viver nas ilusões temporárias, que acolhem elementos do caos, mas não o caos completo. Desse oceano caótico importamos a imprevisibilidade, elementos artísticos e sentimentais, mas esses impulsos devem sujeitar-se ao enquadramento racional, sob pena de serem o convite ao estabelecimento do irracional, e à recusa da principal faculdade humana, que nos distingue das alimárias, a racionalidade.

Chapéus...
Há muitos, vários formatos de chapéus. Assim, para além do colar com o cordeirinho sacrificial, também o chapéu usado por Filipe III de Borgonha fez moda, ficou conhecido como "chapéu borgonhês", e resistiu aos tempos, sendo ainda hoje uma indumentária usada pela Confraria do Vinho do Porto:
É claro que no caso da confraria de vinho usa-se no colar uma taça de escanção, para averiguar da cor do vinho, afinal simbolicamente tratado como "sangue de Cristo".
A taça do vinho da Última Ceia foi habitualmente designada como Graal, e houve já quem sugerisse que o nome Portugal encerraria um críptico "por-tu-graal", que assim se complementaria, pela associação de Porto e Gaia, nas caves do famoso vinho, que sozinhas asseguravam as contrapartidas do Tratado de Methuen. Para adivinhos, há outros vinhos... os famosos vinhos da Borgonha, ou de Bordéus, da antiga região da Guiana occitana-basca, entre outros preciosos néctares de um Baco divino di-vinho, cuja preservação de antiguidade necessita do devido arrefecimento em caves bem seladas.

Baptista
Não longe, encontramos a Igreja Matriz de Vila do Conde, cuja a entrada é interessante.
De construção biscainha, apresenta de um lado as armas de D. Manuel (num caso raro, em que ainda aparece a dupla esfera armilar, sugerida por D. João II), e do outro lado temos: a âncora da Póvoa de Varzim, o antigo barco de Vila do Conde, e um outro brazão com uma figura humana que emerge de uma concha (símbolo associado à localidade de S. Pedro de Rates).
Igreja Matriz, de S. João Baptista, em Vila do Conde (imagem).

Como a Igreja é dedicada a S. João Baptista (que aparece no topo da porta), a concha será baptismal, mas também referente à mítica presença do Apóstolo Santiago, que teria ordenado S. Pedro de Rates como primeiro Bispo de Braga (45 a 60 d.C.).
Há assim essa dupla ligação a conchas, cuidando ambas para o simbolismo do renascimento, numa igreja renascentista emanuelina. O homem que sai da concha aparece depois, com D. Sebastião, na forma de peixe, invocando esse Renascimento cristão, que seria o renascimento de Cristo, na forma humana.
O ritual baptista parece remeter para uma origem aquática, pela imersão do baptizado, ou mais simbolicamente vertendo água na sua cabeça.
No entanto, há variações baptistas.
Um outro aspecto de baptismo, era o baptismo com óleo, aplicado na unção de sacerdotes.
Aí podemos ver outro aspecto das vieiras que, virtude dos tempos, são reencontradas no símbolo de uma famosa companhia petrolífera:

A vieira usada como símbolo de petróleo pela Shell.

O petróleo, também designado como "ouro negro", passou a encerrar outros véus, ou velos de ouro negro... mas para essas considerações remetemos para um texto anterior.

Poderíamos ainda falar de outros aspectos interessantes das vieiras, nomeadamente pela sua geometria.
Há uma confluência entre parte de um quadrado e parte de um círculo, podendo ser usado para simbolizar a relação do número Pi na quadratura do círculo.
Por outro lado, as divisões naturais das vieiras (ou outras conchas) poderiam servir para marcar ângulos, constituindo um simples instrumento de posicionamento, semelhante a um vulgar quadrante, para simples uso náutico, em navegações primitivas. Esse seria um aspecto prático de orientação astral para qualquer peregrino, associando a vieira ao cajado do pastor.

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publicado às 22:13


Fernão de Oliveira

por desvela, em 08.06.13
A primeira gramática portuguesa impressa, conhecida, é a "Grammatica da lingoagem portuguesa", de 1536, de Fernão de Oliveira, que obteve o merecido destaque na página da Biblioteca Nacional:
Começa assim:
"Esta he a primeyra anotação que Fernão doliveira fez da lingua Portuguesa. Dirigida ao mui manífico senhour nobre fidalgo o senhor dom fernando Dalmada."

Esta "anotação" tem menos de 80 páginas, mas terá matéria para muita conversa.
Em primeiro lugar, só queremos realçar que apesar das regras de escrita serem algo diferentes, não prejudicam a fonética. Talvez seja mais complicado identificar os caracteres góticos do que perceber as palavras pela sua sonoridade. "Magnífico" realça-se que foi escrito sem ler o "g", apenas como "Manífico"... assim como encontrámos, noutras obras, "manho" em vez de "magno", ou seja, é-nos dito que pode haver uma leitura de "magnas" nas "manhas". 

A escrita influenciou a fonética, assim como a fonética influenciou a escrita.
Nunca tivemos uma escrita igual à fonética, e ainda assim podemos constatar que, sem grande esforço, poderíamos entender o que dizia um português do Séc. XVI. Ou seja, ao longo das últimas 20 gerações, os pais ensinaram os filhos a falar de forma semelhante à sua... e pasme-se! - não começaram a falar diferente.
É claro que há artistas que nos gostam de convencer que a "língua evolui"... 
Claro que sim, especialmente à pancada, por imposição do poder às populações... ou então, mais subtilmente, por "modas" dos infernos, do Hades:
- ui, ui, veja-se só aquele pacóvio diz "hádes" em vez de "hás-de"!
- "hádem" esquecer-se!... 
E é claro, já todos se esqueceram de Ádem, da presença portuguesa naquela meia cratera de vulcão extinto. Na página da wikipedia a única menção à presença portuguesa em Ádem está neste quadro
... porque os barcos que a protegem têm no seu pavilhão a bandeira das quinas!

Faço esta pequena introdução, porque há artistas que vão a compasso de foice, esquadrilhando e martelando tudo com o seu escopro de pedreiro, e já tentaram demasiadas vezes perturbar a nossa língua. Enfiaram-lhe e tiraram-lhe vogais ou consoantes, consoante lhes convinha à vinha, que alimenta a embriaguez demente, da mente. Não é difícil suspeitar que até na ajuda de agentes psicotrópicos, estas gentes procuram ver o além, mas assim só "hádem" ver o aquém que transportam consigo, o "hádes".

Adiante, há ainda quem lute contra a imposição de maior caos linguístico... ainda bem! 
Porque, a pretexto de imitar a fonética, aparecem neste "novo acordo ortográfico" autênticos atentados que não servem nenhuma uniformização, apenas servem maior confusão fonética. 
Querem a "adoção" em vez da "adopção", mas só a nossa Pública Ré, dita República, que visa o ideal de ter uma Rês Pública, pronta para abate, foi na "Adoção". Adoçam agora a língua dos outros lusófonos no "adotar" das suas "adoções", por mais contra-natura que sejam.

O que sentirá um grego que olha para um texto que pode ler bem, e que terá mais de 2 mil anos?
Sentirá que ao longo de 100 gerações, de pais para filhos, a perturbação que houve pelo domínio estrangeiro das suas terras não fez com que os pais abdicassem da herança que lhes foi legada, mesmo que umas palavras tivessem caído fora de moda, e outras as tivessem substituído.

O romano já não poderá dizer o mesmo... onde estão os romanos que falavam latim?
Qual foi a geração de romanos que decidiu ensinar aos filhos uma língua diferente daquela que os pais lhe tinham ensinado? Que godos chegaram a Roma e obrigaram o povo a falar "italiano", ao mesmo tempo que obrigariam a que as missas fossem recitadas em latim?
O que era afinal o latim? 
Talvez pouco mais que uma construção erudita baseada nas línguas latinas, ensinada aos patrícios, mas que não seria a língua popular. Uma espécie de "esperanto", que tem sofrido o mesmo destino... sem base de tradição popular as línguas, por mais científicas e simples que sejam, não se enraízam nas populações.

Assim, a menos que houvesse um castigo por falar a língua nativa, o natural seria as línguas manterem-se sem grandes alterações ao longo de inúmeras gerações. Porque o natural é ensinar a mesma língua que se fala na comunidade, e a evolução pouco mais será que umas palavras que entram na moda e outras que saem.
É pois natural que seja possível ler textos com 500 anos sem nenhum estudo, e sem nenhuma dificuldade especial. Ora, nestes últimos 500 anos, de grande mudança, de grande contacto entre civilizações, em que muitas palavras entraram e saíram, as mudanças linguísticas foram pequenas. O que dizer dos 500 anos anteriores? Tudo depende do tipo de comunidade e das influências que sofreu. Comunidades rurais, mais isoladas, é natural que tenham mantido mais naturalmente a sua língua primitiva, mas também podem ter sido aliciadas pelas "modas" ou imposições citadinas, numa vontade de não serem discriminadas por serem diferentes. Isso nota-se nos imigrantes, que abandonam o cuidado de passar aos filhos a língua de origem, preferindo que eles se adaptem à língua dominante, na ausência duma comunidade. Porém, quando essa comunidade existe, e não estão isolados, a língua materna vai passando.
O caso dos bascos é paradigmático... a sua língua não é nenhuma variação de vizinhança, é uma passagem de uma língua original, ao longo de muitas gerações, favorecida pelo espírito comunitário, apesar das potências vizinhas que os influenciavam e os controlaram politicamente. Nem terão sido permeáveis a nenhuma influência de línguas latinas, mesmo durante o período romano, onde já era notado que aquela população teria uma língua completamente diferente das restantes.

Talvez a maior mudança linguística se tenha dado exactamente com a difusão da imprensa, porque a palavra escrita passou a marcar o compasso fonético. Haveria menos variações entre regiões, menos dialectos, e a inclusão de uma ou outra consoante, a mudança do seu valor fonético, poderiam alterar a pronúncia, como se veio a verificar.

Fernão de Oliveira dizia que só usávamos as cinco vogais latinas, mas que poderiam distinguir-se muitos sons para a mesma vogal. E, é claro que não usámos a tradição de acentuar tudo, muito ficou implícito.
Olhamos para "sem" e o valor de "e" passa a um breve "" pois lemos "saín". Alguma acentuação fazia-se com as consoantes "mudas", e por isso "detecta" podia ser escrito "detéta", mas escrever "deteta" retira esse valor fonético, e haverá uma tendência futura a ler-se "detêta". 
A escrita foi usada para replicar a fonética, mas depois foi modificada para a deturpar.

"GAIVS IVLIVS CAESAR", é habitual passar o "I" de "Iulius" para "Julius", mas ninguém ousa escrever "Gajus", e escreve antes "Caius". Além disso, o "Caesar" foi usado pelos alemães em "Kaiser", ou pelos russos em "Czar", passou nas línguas latinas a "César", modificando por completo a fonética com raiz no mesmo nome... devido à regra imposta que o "e" e "i" fariam o "c" ler-se como "s".
Há inúmeros exemplos destes, e houve claramente um propósito de confusão, porque tratando-se de traduções de termos eruditos, vindos do latim e grego, não estavam presos à tradição popular. 
A letra "G", pela confusão de no alfabeto grego o "gama" aparecer como terceira letra, serviu também como "C", e vice-versa.

Só depois de escrever isto, se pode entender algumas coisas que Fernão de Oliveira irá dizer.
A propósito do nome Portugal critica Duarte Galvão, que remetia a origem de Portocale ao Porto de Gaia (seria mais à romana Cale, que seria mesmo o Porto). Ou seja, criticava a associação que é ainda hoje tida como boa. Reclamava pois que a origem vinha dos povos, da mistura entre Turdulos e Galos:
Turdulos + Galos = Turdugal daria por corrupção, Portugal
... enfim, já vi pior, eu até já usei a fonética Por Tubal para escrever um texto... por isso nada há a censurar, é mais uma hipótese com algum sentido. 
Fernão de Oliveira fala também do nome Lisboa que diz vir de "Libisona", por referência a Hércules Líbico - o herói mítico teria escolhido morrer na Ibéria. Na mesma linha mítica, fala de Luso, dizendo que não foi grego, teria nascido aqui, filho de Sicileo (ele escreve Ciçeleu que, está-se a ver... nessa mitologia aparecia ligado à Sicília). Curiosamente associa o nome Dionísio a Dinis - ligação que nunca me ocorrera, mas que também tem todo o sentido.


Nota-se a referência aos reis míticos, pela moda resultante de Anio de Viterbo, que transcreveu uma obra de Beroso. Porém, essa transcrição foi alvo de acusações de falsificação. No entanto, até ao Iluminismo, as acusações de falsificação não vingavam, e essa mitologia durou vários séculos... basicamente de 1500 até 1800. Muito se escreveu com essa base "Viterbense", apoiada pelos sectores católicos. 
O Iluminismo acabaria por fazer uma selecção interessante - alguns mitos pagãos sobreviveram como lendas, mas os registos que acrescentavam descendências a Noé, e assim iam além da Bíblia, esses foram proscritos, e nem sequer como lendas passaram para o Séc. XX. Não seria uma questão científica, era uma questão de inviolabilidade e exclusividade do antigo testamento, muito cara aos protestantes... e aos judeus.

Porém, Fernão de Oliveira vai bem mais longe. Argumenta que antes de gregos e latinos, os primeiros a falar viveram cá nesta terrinha, quer dizer, na Península! Para isso recorre a Vitrúvio, que tinha dito que a origem da língua resultara de necessidade entre os homens, por razão de um grande fogo. Citando:
"(...) primeiro souberam falar os da nossa terra. Porque Vitrúvio diz no 2º livro dos seus Edifícios que, ajuntando-se os homens a um certo fogo, o qual por acerto com grande vento se acendeu em matos, e ali, conversando uns com os outros, souberam formar vozes e falar. E não dizendo ele onde foi esse fogo, conta Diodoro Siculo, no 6º livro da sua Biblioteca, que foi nos Montes Pirinéus (...)"

Ou seja, Fernão de Oliveira remete a origem da línguagem humana à região dos Pirinéus, e não há dúvida que nos últimos séculos sempre houve quem visse na língua basca uma excepção que poderia justificar a sua maior ancestralidade. 
É suficientemente ambíguo, porque ele nem fala disso, vai argumentar apenas que a língua portuguesa seria mais antiga que o grego ou o latim, algo depois melhor sustentado pelo Cardeal Saraiva, que separou o português de uma raiz latina.
Acrescenta Oliveira que a língua não teria inicialmente cuidados gramaticais, e esses sim teriam sido implementados no grego e no latim, e depois importados para adaptação na nossa língua. 
Segundo ele, a língua portuguesa só teria o devido cuidado linguístico no reinado de D. Dinis, porque antes teríamos estado sempre demasiado ocupados em guerras. Recusa todo o papel da nobreza Goda na protecção da Ibéria, e diz que foi devido aos vícios dos Visigodos que a península teria sido invadida pelos árabes... mas, é claro, nem toda a península! Portugal tinha ficado sempre com uma parte resistente.

Para isso argumenta com a lenda do Abade João de Montemor, que viveu c. 850 d.C., em Montemor-o-Velho (Mosteiro de Lorvão) e que tinha ficado conhecido por se opor aos mouros na Estremadura. Ora, diz ele, se ele vivia em Montemor-o-Velho, isso significava que essa zona não tinha ficado sob domínio árabe.
Podemos acrescentar que houve sempre registos de Bispos de Coimbra. Porém, diz-se, que isso era uma posição no exílio... ou que as investidas islâmicas iam e vinham. Umas vezes subiam o Mondego, outras vezes ficavam abaixo dele. Parece-nos que, pelo menos algum papel deverá ter tido Vímara Peres, cujo nome ficou ligado a Guimarães (e aos vimaranenses), e que viveu no mesmo século que o Abade João. No entanto, Vimara Peres é suposto ter apenas chegado ao Porto e a Gaia.

A obra teria muito mais assuntos a discutir... mas já nos alongámos muito.
Deixo mais uma observação instrutiva, conforme é citada por Teófilo Braga:
Fernão de Oliveira também nota as alterações da moda: «Nem os lavradores de Entre Douro e Minho entendem as novas vozes que este ano vieram de Tunes com suas gorras». E o mesmo: «o costume novo traz à terra novos vocábulos: como agora pouco há, trouxe este nome picote, que quer dizer burel; do qual, porque de fora trouxeram os malgalantes o costume, ou para melhor dizer, o desdém de vestir o tal pano, trouxeram também o nome com esse costume: e alquice tão-pouco é vestido da nossa terra, por isso também traz o nome estrangeiro consigo.» A pragmática de 3 de Junho de 1535 proibia o trazer luvas perfumadas aos homens.
É preciso introduzir o poderoso galeão português Botafogo para perceber o que ali está escrito:
Galeão Botafogo no cerco a Tunis (1535).
Os seus 366 canhões tornavam-no o navio mais temível dos mares.

O que é dito é que os "nomes da moda" reflectiam questões políticas, de forma implícita.
Carlos V queria impor-se com uma grande proeza militar - a conquista de Tunis, que realizou em 1535, um ano antes de Fernão de Oliveira escrever o que escreveu. Os lavradores de Entre-Douro e Minho não sabiam dos mexericos cortesãos, e não perceberiam a razão dos nomes usados nas suas vestes, mas Oliveira sabia, Teófilo Braga também...

Sabia que Carlos V tinha pago a expedição a peso de ouro, o peso que Pizarro pedira pelo resgate de Atahualpa, o Inca feito prisioneiro, que prometera encher uma sala de ouro, em troca da sua vida.
De nada valeu a Atahualpa presentear Pizarro com imenso ouro, foi executado...
O ouro já tinha outro destino, serviria para as imensas despesas da expedição de Carlos V contra os turcos de Barbarrosa. Para isso requisitara uma armada Genovesa, e outra Portuguesa, em que entrava o poderoso  galeão Botafogo. Esse galeão era comandado pelo Infante D. Luís, irmão de D. João III, e foi com ele que se rebentaram as correntes de ferro que protegiam o porto de Tunis. Depois, os seus 366 canhões (provavelmente para anos bissextos), ajudaram a destruir por completo a frota de Barbarrosa.
Carlos V requisitara especificamente a presença desse galeão, por ser o maior e mais temível, alguma vez construído - ainda hoje, no Rio de Janeiro temos um bairro do Botafogo, e à frente, a ilha chamada Galeão.

Adequa-se também esta referência à outra parte da história... afinal os franceses, 20 anos mais tarde tomaram o Rio de Janeiro durante uns anos, onde pensavam que iriam formar a sua França Antártica. Como diria um cronista inglês, ao tomarem a baía de Guanabara chamaram-lhe Antártica com a pretensão de que tinham tomado posse de todo o continente austral.

Onde entram os franceses na história de Tunis? 
Carlos V também pedira o apoio francês, mas sem grande sucesso. Quando entrou em Tunis, verá balas de canhão com a chancela da "flor-de-lis" francesa. Os Otomanos de Barbarrosa tinham o apoio dos franceses contra as forças cristãs. A aliança entre franceses e otomanos veio mesmo a ser oficializada pouco depois.

A história cheirava mal, luvas perfumadas adequariam-se à moda. 
Os ingleses não usaram a asneira "picote", mas depois derivaram a palavra "bureau", usado para divisão governamental, da palavra francesa "burel", que designava um pano de má qualidade para cobrir a secretária, ou os negócios maltrapilhos feitos à secretária. Não sei como se chamaram os gorros...

Quando em 1574 os Otomanos reconquistam Tunis, os franceses tinham já perdido a sua França Antártica, e haviam de lembrar-se do Botafogo.
D. Sebastião alerta Filipe II para o perigo da ameaça turca, que de novo se aproximava dos limites ibéricos.
Porém Filipe II já deveria ter percebido o significado do "bureau", ou do "picote" francês, em troca do Botafogo oferece-lhe o elmo que Carlos V teria usado na conquista de Tunis.
O resto da história, ou parte dela, já sabemos... D. Sebastião parte para combater a ameaça turca em Laracha, e terá o seu destino traçado junto à antiga cidade Lixo às margens do rio Loucos, numa batalha que ficou afinal com o nome de Alcácer Quibir... comemorada efusivamente pelos judeus como o "Purim dos Cristãos".

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publicado às 07:55


Noites de insomnia (Camilo)

por desvela, em 27.06.12
Durante algum tempo fiz algum esforço de procurar material histórico que me permitisse compreender o problema que levou a tão pesada ocultação e ao persistente condicionamento educacional, até aos dias de hoje. Já deixei de fazer isso, pois a justificação que aqui fui deixando, e elaborando, está basicamente concluída.
Penso ainda colocar aqui alguns documentos relevantes, uns que acabei por esquecer, outros que encontro acidentalmente, como será esta posta de Camilo Castelo Branco e a sua resposta.

Para o que interessa em termos de conclusões, releva o encobrimento dos descobrimentos. Essa é a parte mais extensa, iniciada com aquilo a que denominei a "Tese de Alvor-Silves", há dois anos e meio. Podem haver mais detalhes, mas o importante são as óbvias contradições históricas, mesmo sem abandonar o "registo oficial". Às contradições históricas acrescentam-se as contradições lógicas, e de bom senso.
Interessa ainda o material adicional, etiquetado como "Questão Gaia", que mostra que o encobrimento histórico foi algo mais profundo, tendo raízes na Antiguidade... ou seja, desde que há "História". O mundo antigo ocidental ficou com fronteiras condicionadas à periferia do Mar Mediterrâneo, e isolado das restantes civilizações, sem que haja razão objectiva que justifique isso, excepto um condicionamento imposto.

Ilustrando como é irrelevante adicionar demasiados detalhes, é bom mencionar o apontamento que Camilo Castelo Branco introduz no nº1 nas suas "Noites de insomnia", num texto denominado "Problema Histórico a Prémio". Criticando o livro de Miguel Dantas (*) que enumera os "falsos D. Sebastião", aparece com três documentos de três papas (Clemente VIII, Paulo V e Urbano VIII).
(*) Também aparece como Miguel d'Antas. A este Dantas seguir-se-à outro Dantas, 
Júlio Dantas, contra quem Almada Negreiros será bastante virulento.

Abreviando, citamos a missiva de Urbano VIII, que menciona as anteriores:
«Urbano VIII por Divina Providencia Bispo de Roma, Servo dos Servos de Deus. A todos os Arcebispos e Bispos e pessoas constituidas com dignidade que vivem debaixo do amparo da Igreja Catholica, em especial aos do Reyno de Portugal e suas conquistas, saude e paz em Jesus Christo nosso Salvador que de todos é verdadeiro remedio e salvaçaõ: Fazemos saber que por parte do nosso filho D. Sebastião Rey de Portugal nos foi aprezentado pessoalmente no Castello de Sancto Angelo duas sentenças de Clemente Outavo e Paulo Quinto nossos antecessores, ambas encorporadas, em que constava estar justificado largamente ser o proprio Rey e nesta conformidade estava sentenciado para lh'o largar Felipe 3.o Rey de Hespanha, ao que não quiz nunca satisfazer; pedindo-nos agora tornassemos de novo a examinar os processos, e constando ser o proprio o mandassemos com effeito investir da posse do Reyno, pois tinha filhos e mulher, e não podia perder seus direitos, que prejudicava a seus herdeiros, o que mandamos brevemente e por extenso vêr como convinha em cazo de tanta importancia; e considerando como nos convem julgar e detreminar a cauza dos Principes christãos, mandando dar vista a Felipe Quarto que hoje vive, cometendo a cauza ao Imperador, e a ElRey de Inglaterra e a ElRey de França, com o que se passou e se resolveu que lhe desse posse do Reyno de Portugal; e hora por parte do dito Rey D. Sebastião nos foi pedido pozessemos o cumpra-se na sentença, e mandassemos passar nosso Breve Appostolico com excommunhão rezervada a nós para que nenhum fiel christaõ lhe impida sua posse, nem tome armas offensivas contra elle e seus soldados e Ministros; e vendo nós com os nossos Cardiaes do nosso Conselho sua justiça, com maduro conselho lh'o concedemos: pelo que vos mandamos que depois da notificação desta a nove mezes primeiros seguintes que assignamos pelas trez canonicas admoestaçoens, dando repartidamente trez mezes por cada canonica admoestaçaõ, termo peremptorio, tanto que vos for apresentado e da minha parte mandado, façaes por vossos religiosos assim Seculares como Regulares publicar-se nos pulpitos das egrejas e praças publicas que ...[parte ilegível pela humidade do original]. Dada em esta Curia Romana sob o signal do Pescador aos 20 de outubro de 1630.»
Deixamos as outras duas missivas papais em comentário a esta posta, assim como a resposta de um leitor, publicada no número seguinte. Essa resposta anónima é bastante irónica, podendo até conjecturar-se uma autoria do próprio Camilo. Citamos uma parte elucidativa do tom:
Os documentos pontificios que vossê apresentou resistiriam á critica de João Pedro Ribeiro e Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous homens que n'este seculo tem achado as melhores peças historicas. Vossê achou as sentenças a favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a carta de Ayres Barbosa a André de Rezende. Eu achei a vossês, os dous, dous odres de sciencia em que espero exercitar o meu intellecto como os touros exercitam a força nos ôdres de vento. Creio que está dada a solução do problema historico. Mande-me o premio pelo portador.
Independentemente dos mimos, que o correspondente estende não apenas a Camilo e a Teófilo Braga, mas também a Guerra Junqueiro, Eça e Ortigão, "conferencistas de Casino" e "demais socialistas"... as referidas missivas papais foram entretanto "desacreditadas". 
Essa "desacreditação" encontrei como inscrita em nota na Sebástica (pág. 39), de Vitor Amaral Oliveira (2002):
A propósito do falso D. Sebastião de Veneza, que Miguel D'Antas dá como tendo sido enforcado em 1603, Camilo possuía uma "sentença" de vários Papas que viram este falso rei e emite a hipótese de um 5º falso D. Sebastião.
É a transcrição dos três "Breves" fictícios de Clemente VIII (1598), Paulo V (1617), e Urbano VII (1630), já desmascarados como sendo talvez obras dos Jesuítas a favor de D. João IV.
A intervenção pombalina foi particularmente bem sucedida em desacreditar a documentação dos Jesuítas, e facilmente se desenvolveram apreciações automáticas. No caso em concreto, parece-me "demasiada fruta" a existência de 3 breves papais, com conteúdo tão sucinto e contundente. Apesar de não descurar a hipótese da sobrevivência de D. Sebastião, e um nefasto tratamento subsequente, não apostaria na validade destas missivas papais, e creio que Camilo Castelo Branco também não fez questão disso... procurou mais revelar a sua existência, negligenciada no livro de Dantas. Por vezes é pior caminho negligenciar a documentação do que revelar razões plausíveis para a sua implausibilidade. Aqui o favorecimento a D. João IV é razoavelmente dúbio, já que o monarca se viu obrigado a condicionar a sua legitimidade a um eventual reaparecimento de D. Sebastião. Estas "provas de vida" de D. Sebastião condicionariam essa mesma legitimidade de D. João IV, caso se apresentasse algum herdeiro legítimo...

No entanto, e como há sempre algo mal explicado, relembramos a gravura constante na Biblioteca Nacional (ref. 669807) que tem como título:

"Morte del Re di Portogalli condanatta dall'Inquisizione l'anno 1628"

Conforme dizia Camilo: "Não podia ser o rei da Ericeira, nem o rei de Penamacor, nem o pasteleiro do Escurial, nem Marco Tullio Catizone. Os quatros impostores eram já mortos. Então quem era?".
De facto, em 1628, não poderia ser nenhum destes, de acordo com o apurado...
Mas então em 1630, a breve do Papa Urbano VIII não faz sentido, estando este "D. Sebastião" morto em 1628, por julgamento da Inquisição, conforme ilustrava a gravura da época. Não há nenhum registo de impostor tão verosímel (ao ponto de merecer gravura como "Rei de Portugal"), condenado apenas em 1628...
Ora, há uma história fácil de contar, que engloba estes dados. Admitindo a sobrevivência de D. Sebastião, e o empenho de alguns fiéis patriotas, houve diligências junto dos papas para estas missivas. Tanto Clemente VIII, como Paulo V, podem ter acedido a estas "breves" diligências, perante alguma incomodidade de pressões na Igreja, se o caso fosse de clara legitimidade do defensor da fé, D. Sebastião.
Convém lembrar que a clara oposição de Filipe III ao papa Leão XI (sucessor de Clemente VIII) talvez não se possa desligar dos seus curtos 26 dias de papado.
E se o sucessor, Paulo V envia a missiva em 1617, também devemos perceber que no ano seguinte se inicia a Guerra dos Trinta Anos, e não seria tempo de cisões no lado católico, face à "ameaça protestante".

A situação no final do pontificado de Paulo V, depois com Gregório XV, e especialmente com Urbano VIII já é completamente diferente... ou seja, a ligação entre os Habsburgo e Urbano VIII era de clara cumplicidade. Por isso, não seria tanto de estranhar que Urbano VIII terminasse em 1628 com o incómodo "D. Sebastião" num julgamento inquisitório, e ao mesmo tempo enviasse uma missiva, em tom semelhante às dos seus predecessores, atestando a presença, de um fantasma, em 1630. Consta haver um provérbio romano sobre Urbano VIII (Mafeo Barberini): "o que os bárbaros não fizeram, fez Barberini", relativamente a grandes destruições ocorridas em Roma no seu pontificado, que ocultaram o legado romano. Por isso, dada a índole, não seria propriamente surpreendente que o próprio Barberini decidisse enviar uma missiva de despiste, relativamente à sua actuação na condenação de 1628.

Enquanto episódio no contexto global, não é demasiado relevante saber se D. Sebastião morreu em Laracha ou se foi vítima de posteriores larachas inquisitórias. Serve apenas como episódio de dúvida adicional no secretismo de que se alimentam os poderes fugazes. Podem até vir a ser encontrados outros documentos, num sentido ou noutro... mas, sem vontade de verdade, o erro será tentar impor argumentos a quem criou automatismos para os rejeitar. 
Pelas suas contradições evidentes e mal explicadas, a História não passa de uma história, escrita por contadores de contos, e propalada pelos bardos de serviço que a cantam oficialmente às criancinhas. Não vale a pena discutir os factos de uma história quando ela mistura a ficção com a realidade... é apenas uma criação artística, de qualidade e bom gosto muito discutíveis.

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publicado às 16:55


Noites de insomnia (Camilo)

por desvela, em 27.06.12
Durante algum tempo fiz algum esforço de procurar material histórico que me permitisse compreender o problema que levou a tão pesada ocultação e ao persistente condicionamento educacional, até aos dias de hoje. Já deixei de fazer isso, pois a justificação que aqui fui deixando, e elaborando, está basicamente concluída.
Penso ainda colocar aqui alguns documentos relevantes, uns que acabei por esquecer, outros que encontro acidentalmente, como será esta posta de Camilo Castelo Branco e a sua resposta.

Para o que interessa em termos de conclusões, releva o encobrimento dos descobrimentos. Essa é a parte mais extensa, iniciada com aquilo a que denominei a "Tese de Alvor-Silves", há dois anos e meio. Podem haver mais detalhes, mas o importante são as óbvias contradições históricas, mesmo sem abandonar o "registo oficial". Às contradições históricas acrescentam-se as contradições lógicas, e de bom senso.
Interessa ainda o material adicional, etiquetado como "Questão Gaia", que mostra que o encobrimento histórico foi algo mais profundo, tendo raízes na Antiguidade... ou seja, desde que há "História". O mundo antigo ocidental ficou com fronteiras condicionadas à periferia do Mar Mediterrâneo, e isolado das restantes civilizações, sem que haja razão objectiva que justifique isso, excepto um condicionamento imposto.

Ilustrando como é irrelevante adicionar demasiados detalhes, é bom mencionar o apontamento que Camilo Castelo Branco introduz no nº1 nas suas "Noites de insomnia", num texto denominado "Problema Histórico a Prémio". Criticando o livro de Miguel Dantas (*) que enumera os "falsos D. Sebastião", aparece com três documentos de três papas (Clemente VIII, Paulo V e Urbano VIII).
(*) Também aparece como Miguel d'Antas. A este Dantas seguir-se-à outro Dantas, 
Júlio Dantas, contra quem Almada Negreiros será bastante virulento.

Abreviando, citamos a missiva de Urbano VIII, que menciona as anteriores:
«Urbano VIII por Divina Providencia Bispo de Roma, Servo dos Servos de Deus. A todos os Arcebispos e Bispos e pessoas constituidas com dignidade que vivem debaixo do amparo da Igreja Catholica, em especial aos do Reyno de Portugal e suas conquistas, saude e paz em Jesus Christo nosso Salvador que de todos é verdadeiro remedio e salvaçaõ: Fazemos saber que por parte do nosso filho D. Sebastião Rey de Portugal nos foi aprezentado pessoalmente no Castello de Sancto Angelo duas sentenças de Clemente Outavo e Paulo Quinto nossos antecessores, ambas encorporadas, em que constava estar justificado largamente ser o proprio Rey e nesta conformidade estava sentenciado para lh'o largar Felipe 3.o Rey de Hespanha, ao que não quiz nunca satisfazer; pedindo-nos agora tornassemos de novo a examinar os processos, e constando ser o proprio o mandassemos com effeito investir da posse do Reyno, pois tinha filhos e mulher, e não podia perder seus direitos, que prejudicava a seus herdeiros, o que mandamos brevemente e por extenso vêr como convinha em cazo de tanta importancia; e considerando como nos convem julgar e detreminar a cauza dos Principes christãos, mandando dar vista a Felipe Quarto que hoje vive, cometendo a cauza ao Imperador, e a ElRey de Inglaterra e a ElRey de França, com o que se passou e se resolveu que lhe desse posse do Reyno de Portugal; e hora por parte do dito Rey D. Sebastião nos foi pedido pozessemos o cumpra-se na sentença, e mandassemos passar nosso Breve Appostolico com excommunhão rezervada a nós para que nenhum fiel christaõ lhe impida sua posse, nem tome armas offensivas contra elle e seus soldados e Ministros; e vendo nós com os nossos Cardiaes do nosso Conselho sua justiça, com maduro conselho lh'o concedemos: pelo que vos mandamos que depois da notificação desta a nove mezes primeiros seguintes que assignamos pelas trez canonicas admoestaçoens, dando repartidamente trez mezes por cada canonica admoestaçaõ, termo peremptorio, tanto que vos for apresentado e da minha parte mandado, façaes por vossos religiosos assim Seculares como Regulares publicar-se nos pulpitos das egrejas e praças publicas que ...[parte ilegível pela humidade do original]. Dada em esta Curia Romana sob o signal do Pescador aos 20 de outubro de 1630.»
Deixamos as outras duas missivas papais em comentário a esta posta, assim como a resposta de um leitor, publicada no número seguinte. Essa resposta anónima é bastante irónica, podendo até conjecturar-se uma autoria do próprio Camilo. Citamos uma parte elucidativa do tom:
Os documentos pontificios que vossê apresentou resistiriam á critica de João Pedro Ribeiro e Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous homens que n'este seculo tem achado as melhores peças historicas. Vossê achou as sentenças a favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a carta de Ayres Barbosa a André de Rezende. Eu achei a vossês, os dous, dous odres de sciencia em que espero exercitar o meu intellecto como os touros exercitam a força nos ôdres de vento. Creio que está dada a solução do problema historico. Mande-me o premio pelo portador.
Independentemente dos mimos, que o correspondente estende não apenas a Camilo e a Teófilo Braga, mas também a Guerra Junqueiro, Eça e Ortigão, "conferencistas de Casino" e "demais socialistas"... as referidas missivas papais foram entretanto "desacreditadas". 
Essa "desacreditação" encontrei como inscrita em nota na Sebástica (pág. 39), de Vitor Amaral Oliveira (2002):
A propósito do falso D. Sebastião de Veneza, que Miguel D'Antas dá como tendo sido enforcado em 1603, Camilo possuía uma "sentença" de vários Papas que viram este falso rei e emite a hipótese de um 5º falso D. Sebastião.
É a transcrição dos três "Breves" fictícios de Clemente VIII (1598), Paulo V (1617), e Urbano VII (1630), já desmascarados como sendo talvez obras dos Jesuítas a favor de D. João IV.
A intervenção pombalina foi particularmente bem sucedida em desacreditar a documentação dos Jesuítas, e facilmente se desenvolveram apreciações automáticas. No caso em concreto, parece-me "demasiada fruta" a existência de 3 breves papais, com conteúdo tão sucinto e contundente. Apesar de não descurar a hipótese da sobrevivência de D. Sebastião, e um nefasto tratamento subsequente, não apostaria na validade destas missivas papais, e creio que Camilo Castelo Branco também não fez questão disso... procurou mais revelar a sua existência, negligenciada no livro de Dantas. Por vezes é pior caminho negligenciar a documentação do que revelar razões plausíveis para a sua implausibilidade. Aqui o favorecimento a D. João IV é razoavelmente dúbio, já que o monarca se viu obrigado a condicionar a sua legitimidade a um eventual reaparecimento de D. Sebastião. Estas "provas de vida" de D. Sebastião condicionariam essa mesma legitimidade de D. João IV, caso se apresentasse algum herdeiro legítimo...

No entanto, e como há sempre algo mal explicado, relembramos a gravura constante na Biblioteca Nacional (ref. 669807) que tem como título:
"Morte del Re di Portogalli condanatta dall'Inquisizione l'anno 1628"

Conforme dizia Camilo: "Não podia ser o rei da Ericeira, nem o rei de Penamacor, nem o pasteleiro do Escurial, nem Marco Tullio Catizone. Os quatros impostores eram já mortos. Então quem era?".
De facto, em 1628, não poderia ser nenhum destes, de acordo com o apurado...
Mas então em 1630, a breve do Papa Urbano VIII não faz sentido, estando este "D. Sebastião" morto em 1628, por julgamento da Inquisição, conforme ilustrava a gravura da época. Não há nenhum registo de impostor tão verosímel (ao ponto de merecer gravura como "Rei de Portugal"), condenado apenas em 1628...
Ora, há uma história fácil de contar, que engloba estes dados. Admitindo a sobrevivência de D. Sebastião, e o empenho de alguns fiéis patriotas, houve diligências junto dos papas para estas missivas. Tanto Clemente VIII, como Paulo V, podem ter acedido a estas "breves" diligências, perante alguma incomodidade de pressões na Igreja, se o caso fosse de clara legitimidade do defensor da fé, D. Sebastião.
Convém lembrar que a clara oposição de Filipe III ao papa Leão XI (sucessor de Clemente VIII) talvez não se possa desligar dos seus curtos 26 dias de papado.
E se o sucessor, Paulo V envia a missiva em 1617, também devemos perceber que no ano seguinte se inicia a Guerra dos Trinta Anos, e não seria tempo de cisões no lado católico, face à "ameaça protestante".

A situação no final do pontificado de Paulo V, depois com Gregório XV, e especialmente com Urbano VIII já é completamente diferente... ou seja, a ligação entre os Habsburgo e Urbano VIII era de clara cumplicidade. Por isso, não seria tanto de estranhar que Urbano VIII terminasse em 1628 com o incómodo "D. Sebastião" num julgamento inquisitório, e ao mesmo tempo enviasse uma missiva, em tom semelhante às dos seus predecessores, atestando a presença, de um fantasma, em 1630. Consta haver um provérbio romano sobre Urbano VIII (Mafeo Barberini): "o que os bárbaros não fizeram, fez Barberini", relativamente a grandes destruições ocorridas em Roma no seu pontificado, que ocultaram o legado romano. Por isso, dada a índole, não seria propriamente surpreendente que o próprio Barberini decidisse enviar uma missiva de despiste, relativamente à sua actuação na condenação de 1628.

Enquanto episódio no contexto global, não é demasiado relevante saber se D. Sebastião morreu em Laracha ou se foi vítima de posteriores larachas inquisitórias. Serve apenas como episódio de dúvida adicional no secretismo de que se alimentam os poderes fugazes. Podem até vir a ser encontrados outros documentos, num sentido ou noutro... mas, sem vontade de verdade, o erro será tentar impor argumentos a quem criou automatismos para os rejeitar. 
Pelas suas contradições evidentes e mal explicadas, a História não passa de uma história, escrita por contadores de contos, e propalada pelos bardos de serviço que a cantam oficialmente às criancinhas. Não vale a pena discutir os factos de uma história quando ela mistura a ficção com a realidade... é apenas uma criação artística, de qualidade e bom gosto muito discutíveis.

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publicado às 08:55


Laracha, Lixo, Loucos, Maluco

por desvela, em 02.04.12
Há uma obra que já fiz aqui referência:
Jornada de África, de Jerónimo de Mendonça (1607)

e talvez mereça uma menção (que nem sei bem como adjectivar) haver uma obra homónima, de Manuel Alegre, o nosso contemporâneo poeta, político e assumido maçon. Apesar de mencionar a obra original, a usurpação do mesmo título "Jornada de África", por Manuel Alegre, pouco mais parece servir do que contribuir para uma conveniente confusão.

A obra de Jerónimo de Mendonça relata a expedição de D. Sebastião a Alcácer-Quibir, e surge em pleno domínio de Filipe II de Espanha. Portanto todo o enquadramento é condicionado por uma escrita aparentemente subserviente a esse domínio filipino, tendo a necessária consciência de qualquer outra abordagem não seria autorizada.

Tornou-se comum usar a expressão "Larachas" para designar palavras sem sentido, mas ao que pude constatar esta expressão só se tornou habitual em textos já na segunda metade do Séc. XIX.
Diz Jerónimo de Mendonça:
           "porque de uma maneira ou doutra melhorava no partido; pois tomando el Rey Dom Sebastião Larache segurava os Reynos de Espanha, e morrendo na demanda ficava seu herdeiro"

... é claro que esta confortável posição de Filipe II não é denunciada por Mendonça, mas sim repudiada por ele, tentando defender acusações que circulavam. Uma maneira sagaz de dizer o que não podia ser dito...

Larache, ou Laracha (também aparece assim designada), aparecia como o destino estratégico de conquista na jornada de África de D. Sebastião. 
O nome Quibir associado à batalha acaba por substituir um verdadeiro objectivo anunciado - Laracha!
Larache - gravura de J. Ogilvy (1670)

Será elucidativo associar-se depois à palavra Laracha um significado distinto, de índole jocosa.
Esta suposta coincidência... ou que quer que seja, não está isolada. 
Já mencionámos várias vezes o problema Maluco... das ilhas Malucas, depois designadas Molucas.
Para além de serem um problema no anti-meridiano (prometidas como dote a Sebastião, tivesse ele querido o casamento espanhol), as Malucas eram a essência da especiaria!
Acresce que, como sabemos, o Mulei inimigo de Sebastião era também designado Mulei Moluco...

Podemos ignorar isto, evitar a expressão "Malucos" e passar a "Loucos"...
... curiosamente isto não resolve bem o problema porque a batalha dá-se ao pé do Rio Loukos.

Às margens deste Rio Loukos, encontravam-se as ruínas de Lixo (cidade antiga que antecedeu Laracha):
Lixo - ruínas, Loucos - rio

Para dia 1 de Abril, parece-me bem maluca esta Laracha, que veio de Lixo, e é claro - rio de Loucos.
Não rio da laracha, mas rio de loucos fazendo lixo.

De origem latina, o Lixo tem mais raiz no lixar, traduzido directamente de Queimar... é lixado, mas já a palavra Lixo enquanto "depósito de desperdício" parece-me ter entrado apenas nos nossos textos posteriormente.

Ainda indo aos tempos em que o "calendário de Rómulo" começava em Abril, sendo depois substituído pelo "calendário de César" que passou a começar em Janeiro, honrando Janos das duas faces, parece que esta cidade de Lixo era a última cidade habitável admitida, a partir dali o resto seria... lixo, ou talvez ficassem lixados... queimados!

Minas no Séc. XVI
O texto de Jerónimo de Mendonça fala de minas...
Que o texto de Manuel Alegre pudesse falar das minas na guerra de África... é algo normal e trivial.
Porém, de que minas fala Mendonça?... Não é certamente das Fortalezas das Minas.
Vejamos o texto, logo no final do prólogo "ao leitor":

       E quando trata del Rey Phelippe nosso senhor segundo deste nome, na Cidade de Lisboa diz, que correu nela dois grandes perigos de vida, porque duas vezes foram descobertas minas que os portugueses fizeram nos paços Reais, e na igreja onde costumava ouvir Missa, e se isto senão descobrira, fora el Rey arruinado, ou nos paços, ou na igreja, e que os Autores desta maldade foram gravemente castigados (...)

Se isto não é uma descrição de uma tentativa de atentado, com minas explosivas, colocadas para serem detonadas na presença de Filipe II, não sei que outra laracha pode ser inventada para justificar este texto.

Portanto trata-se de um relato de minas explosivas, com detonamento programado, e seja de que forma fosse, é um claro sinal de que a tecnologia era suficientemente sofisticada para ser dissimulada e usada num atentado. Para além de raras experiências e relatos chineses, até ao Séc. XIX não há propriamente registo da utilização de minas explosivas, especialmente com o intuito de atentado.

Se esta iniciativa portuguesa tinha origem numa ideia chinesa, ou não, pouco importa, pois este é um dos raros casos em que compreendemos que houvesse alguma necessidade prática em evitar a divulgação destas ideias literalmente explosivas.

Não deixa de ser curioso que a palavra Mina, originalmente ligada ao minério, tanto se vai associar depois à riqueza do minério como ao explosivo... no fundo, a uma riqueza explosiva.

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publicado às 07:35


Laracha, Lixo, Loucos, Maluco

por desvela, em 01.04.12
Há uma obra que já fiz aqui referência:
Jornada de África, de Jerónimo de Mendonça (1607)

e talvez mereça uma menção (que nem sei bem como adjectivar) haver uma obra homónima, de Manuel Alegre, o nosso contemporâneo poeta, político e assumido maçon. Apesar de mencionar a obra original, a usurpação do mesmo título "Jornada de África", por Manuel Alegre, pouco mais parece servir do que contribuir para uma conveniente confusão.

A obra de Jerónimo de Mendonça relata a expedição de D. Sebastião a Alcácer-Quibir, e surge em pleno domínio de Filipe II de Espanha. Portanto todo o enquadramento é condicionado por uma escrita aparentemente subserviente a esse domínio filipino, tendo a necessária consciência de qualquer outra abordagem não seria autorizada.

Tornou-se comum usar a expressão "Larachas" para designar palavras sem sentido, mas ao que pude constatar esta expressão só se tornou habitual em textos já na segunda metade do Séc. XIX.
Diz Jerónimo de Mendonça:
           "porque de uma maneira ou doutra melhorava no partido; pois tomando el Rey Dom Sebastião Larache segurava os Reynos de Espanha, e morrendo na demanda ficava seu herdeiro"

... é claro que esta confortável posição de Filipe II não é denunciada por Mendonça, mas sim repudiada por ele, tentando defender acusações que circulavam. Uma maneira sagaz de dizer o que não podia ser dito...

Larache, ou Laracha (também aparece assim designada), aparecia como o destino estratégico de conquista na jornada de África de D. Sebastião. 
O nome Quibir associado à batalha acaba por substituir um verdadeiro objectivo anunciado - Laracha!
Larache - gravura de J. Ogilvy (1670)

Será elucidativo associar-se depois à palavra Laracha um significado distinto, de índole jocosa.
Esta suposta coincidência... ou que quer que seja, não está isolada. 
Já mencionámos várias vezes o problema Maluco... das ilhas Malucas, depois designadas Molucas.
Para além de serem um problema no anti-meridiano (prometidas como dote a Sebastião, tivesse ele querido o casamento espanhol), as Malucas eram a essência da especiaria!
Acresce que, como sabemos, o Mulei inimigo de Sebastião era também designado Mulei Moluco...

Podemos ignorar isto, evitar a expressão "Malucos" e passar a "Loucos"...
... curiosamente isto não resolve bem o problema porque a batalha dá-se ao pé do Rio Loukos.

Às margens deste Rio Loukos, encontravam-se as ruínas de Lixo (cidade antiga que antecedeu Laracha):
Lixo - ruínas, Loucos - rio

Para dia 1 de Abril, parece-me bem maluca esta Laracha, que veio de Lixo, e é claro - rio de Loucos.
Não rio da laracha, mas rio de loucos fazendo lixo.

De origem latina, o Lixo tem mais raiz no lixar, traduzido directamente de Queimar... é lixado, mas já a palavra Lixo enquanto "depósito de desperdício" parece-me ter entrado apenas nos nossos textos posteriormente.

Ainda indo aos tempos em que o "calendário de Rómulo" começava em Abril, sendo depois substituído pelo "calendário de César" que passou a começar em Janeiro, honrando Janos das duas faces, parece que esta cidade de Lixo era a última cidade habitável admitida, a partir dali o resto seria... lixo, ou talvez ficassem lixados... queimados!

Minas no Séc. XVI
O texto de Jerónimo de Mendonça fala de minas...
Que o texto de Manuel Alegre pudesse falar das minas na guerra de África... é algo normal e trivial.
Porém, de que minas fala Mendonça?... Não é certamente das Fortalezas das Minas.
Vejamos o texto, logo no final do prólogo "ao leitor":

       E quando trata del Rey Phelippe nosso senhor segundo deste nome, na Cidade de Lisboa diz, que correu nela dois grandes perigos de vida, porque duas vezes foram descobertas minas que os portugueses fizeram nos paços Reais, e na igreja onde costumava ouvir Missa, e se isto senão descobrira, fora el Rey arruinado, ou nos paços, ou na igreja, e que os Autores desta maldade foram gravemente castigados (...)

Se isto não é uma descrição de uma tentativa de atentado, com minas explosivas, colocadas para serem detonadas na presença de Filipe II, não sei que outra laracha pode ser inventada para justificar este texto.

Portanto trata-se de um relato de minas explosivas, com detonamento programado, e seja de que forma fosse, é um claro sinal de que a tecnologia era suficientemente sofisticada para ser dissimulada e usada num atentado. Para além de raras experiências e relatos chineses, até ao Séc. XIX não há propriamente registo da utilização de minas explosivas, especialmente com o intuito de atentado.

Se esta iniciativa portuguesa tinha origem numa ideia chinesa, ou não, pouco importa, pois este é um dos raros casos em que compreendemos que houvesse alguma necessidade prática em evitar a divulgação destas ideias literalmente explosivas.

Não deixa de ser curioso que a palavra Mina, originalmente ligada ao minério, tanto se vai associar depois à riqueza do minério como ao explosivo... no fundo, a uma riqueza explosiva.

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publicado às 23:35


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