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Bi-disco & Cong

por desvela, em 04.01.16
Tinha pensado ainda colocar este postal antes do final do ano, mas nem sempre se arranja tempo entre bolos, filhós e espumante. Por via de um comentário que envolveu a palavra Congo, pareceu-me adequado recentrar a discussão.

Há uns objectos, chamados pedras de Dropa (Dropa Stones), que estão ligados a um certo folclore da teoria alienígena, e que não me interessam muito (quem quiser pode ler o link anterior que remete para a Wikipedia, ou ainda ver outros detalhes em crystalinks.com/dropa.html).

Estes objectos são obviamente desconsiderados por quem não acredita em visitantes alienígenas, e seguem-se controvérsias de falsificação, etc... 
Pior, têm também um efeito colateral, que é misturar no mesmo assunto, outros objectos, que são perfeitamente aceites, mas que assim têm tido muito menos atenção ou consideração, por poderem ser juntos no mesmo rol.

Tratam-se dos Discos bi (... parece que também se pode ler pi):
Discos Bi - de 3400 a.C. até à dinastia Han
(Ambas as imagens são da dinastia Han, cerca 200 a.C.)
Atendendo a que espessura destes discos de jade pode ser inferior a meio centimetro - na primeira imagem 0.4 cm, com diâmetro de 13 cm - estamos basicamente a falar do formato de CD ou DVD - que têm 12 cm de tamanho standard, e 0.12 cm de espessura (ou seja, o bi-disco tem a espessura de 3 CD's). 
Ok, não cabem num normal leitor de CD/DVD, mas enganam bem!


Estes objectos têm uma proveniência muito específica, de uma "pequena" região na China (... e que, por mero acaso, visitei no ano passado), próxima de Xangai. Estão associados à transição do período Neolítico na Cultura de Liangzhu, onde também se encontram outros objectos, igualmente curiosos, uns tubos de jade, denominados cong (também se poderá ler tsung).

 
Cong - tubos de jade

Os tubos cong nalguns casos poderiam dar para vários discos bi, sendo cortados longitudinalmente... mas normalmente há um envólucro quadrado que circunda o tubo.
A função dos cong parece ser ainda menos conhecida do que a dos discos bi, mas ambos foram associados a símbolos sociais, considerando-se que os discos bi de uma tribo eram entregues como acto de submissão, após derrota em guerra. Outras considerações vêem os cong como símbolos da terra (quadrado), enquanto os discos bi seriam apenas símbolos do céu (círculos).
Um vídeo é sugerido na Wikipedia, e merece de facto ser visto:
Cong & Bi - Liangzhu Culture (vídeo da Khan Academy)
  
Há várias questões levantadas sobre a execução destes objectos, que começam a aparecer datados de circa de 3000 a.C., numa altura onde não se encontram aí ferramentas metálicas capazes de trabalhar facilmente com a dureza do jade. 

Um ponto nesta questão é que as chamadas pedras de Dropa (que se misturam ainda com o mais surreal disco de Lolladoff - que tem figuras com ETs), apareceram nos anos 1950 e 60, tendo sido mesmo divulgadas em Moscovo, nessa altura, por um certo Vyacheslav Zaitsev (havendo entretanto um famoso costureiro, ou um voleibolista, exactamente com o mesmo nome - deve ser um nome do tipo "João Silva"). 
Esta data de aparecimento antecede a primeira patente do CD que é submetida em 1966 e aceite em 1970. Ou seja, quando em 1964-65 aparecem vários artigos em revistas OVNI sobre os discos Dropa, ainda não se pensava em CD's, que só iriam aparecer no mercado nos anos 1980. 
De qualquer forma, para afastar a ideia de que uma coisa pudesse ser associada à outra, nada melhor que uma história inventada para confundir. Da mesma forma que se quisermos descredibilizar um indivíduo, uma maneira é descredibilizar o grupo a que pertence (neste momento, quantos aceitariam emails de vantajosas propostas de negócio nigerianas?).

Convém assim estar mais atento a legados perfeitamente aceites, e não contestados na origem, do que ir atrás de focos de atenção, que puxam quase sempre para meia-dúzia dos mesmos exemplos, uns menos claros que outros. Simplesmente assim, aos legados oficiais não é dada a devida atenção, e estão de alguma forma arrumados numa arrecadação de um museu, ou num sítio da exposição sem grande foco para o turista.

Um dos grandes trunfos do ilusionista é manipular a atenção do espectador para outro foco!
Convém não esquecer que estamos, quase desde o princípio dos tempos, a lidar com Magos.

Afinal, se nos deparássemos com um bi-disco, agora de vidro, como este:
Bi-disco da dinastia Han (circa 200 a.C.)
no Metropolitan Museum of Art
... seria talvez mais fácil entendê-lo como um CD estragado duma edição pimba da Vidisco, do que como um Bi-disco como mais de 2 mil anos.

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publicado às 04:31


Theatrum Mundi Sinico

por desvela, em 08.07.11
Pelo lado chinês, encontramos uma versão sínica de um mapa muito semelhante ao Theatrum Mundi de Lavanha, ou de Ortélio, denominada Wanguo Quantu, e datada c. 1620:
Wanguo Quantu, mapa do jesuíta Giulio Aleni (c. 1620)

É justificado o mapa pela colocação central do Império do Meio, evitando assim a tradicional colocação europeia nessa posição central. Podemos ver que os chineses não pareciam ter problemas em aceitar um mapa que evidenciasse o Estreito de Anian (dito de Bering), ao contrário do que foi depois referido por Carvalho da Costa (ver texto sobre Nova Zimla). Aliás o contorno americano, ou da costa russa, parece reflectir o conhecimento geral dessa zona, tal como já tinha sido verificado nos outros "theatrum mundi".

Antes, teria aparecido no tratado Sancai Tuhui um outro mapa, o Shanhai Yudi Quantu (1606, com base em Matteo Ricci), que mostrava uma concepção mais próxima dos primeiros mapas europeus do Séc. XVI (como o de Waldseemuller):
Mapa Shanhai Yudi Quantu (1606), aqui com tradução de Roderich Ptak.

Na tradução deste mapa é possível ver algumas legendas curiosas:
  • Um Mar Vermelho "oriental" na península californiana, conforme mencionado aqui nos Sinais Vermelhos e anteriormente. Aparece também o habitual Mar Vermelho "ocidental" na África.
  • Yawaima - no noroeste americano, que corresponderia à zona de Fusang (o nome Yawai pode sugerir alguma conexão a Hawai).
  • Mar de Keluotuo - que poderá ser a Baía de Hudson.
  • Na Europa apenas a França é nomeada... enquanto que na zona ibérica é escrito "mais de 30 reinos", podendo referir-se a toda a Europa! Parece ainda haver uma confusão entre o Mar Negro e o Cáspio (o que não nos surpreende).
  • A Líbia é a África, e na zona do Atlas é colocada a legenda "montanhas mais altas da Terra"
  • A sul, a Magellania refere já a confusão de concatenação da Austrália com a a Antártida - de um lado fala-se em "terra de papagaios", e do outro na Terra do Fogo e "picos brancos". A legenda dirá ainda que "poucos teriam chegado a essas paragens a sul".
Se o outro mapa tem a clara marca do cartógrafo ocidental (Giulio Aleni), neste mapa reflectem-se mais as influências na concepção e nomenclatura, especialmente pela referência a Magalhães. Não se parece notar nenhuma cartografia própria dos chineses, mantendo as mesmas restrições/mitos ocidentais, especialmente sobre a parte sul na "Magellania". O "mar gelado" aparece apenas mencionado a norte do Canadá...

Sendo expectável que os chineses tivessem conhecimento, pelas grandes navegações que teriam feito, de outras paragens, como por exemplo a Austrália, estes mapas mostram uma grande sintonia no que era transmitido a Ocidente e a Oriente(*)... sugerindo a existência de uma única ordem global dominante!

Nota:
(*) Esta concepção restritiva é ainda visível em mapas coreanos, mesmo do séc. XIX.

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publicado às 09:34


Seres e DaQin

por desvela, em 08.07.11
Tendo mencionado os Seres, designação que os Romanos usariam para os Chineses, é interessante notar que em português o significado de "seres" adequa-se ainda hoje a uma noção abstracta para um povo indefinido.
A grande vantagem da wikipedia é a partilha de conhecimento ainda pelo outro lado... e assim podemos chegar ao contraponto - os Chineses designariam o império Romano por DaQin, e a visão do mundo pelo lado chinês, seria representada num mapa denominado Sihai Huayi Zongtu, em que colocámos algumas legendas, para dar seguimento à ideia de que o Oceano Ocidental para os chineses seria definido pela extensão do Mar Cáspio, conforma mapa já apresentado
Mapa Sihai Huayi Zongtu e o mapa com o Cáspio enquanto mar.

Apesar de estar datado para o Séc. XVI, o mapa chinês ao referir a designação DaQin aponta claramente para tempos de memória do contacto com o outro império, o Qin ocidental, o DaQin.

Pela extensão de água que se prolongaria do Mar Cáspio até à Sibéria, justifica-se que Da Qin, o império Romano, fosse considerado para além do Oceano Ocidental, o prolongamento do Cáspio. Apesar de estar representado um oceano circundante, notamos que sem uma efectiva visita por territórios já dominados por Romanos e Partos-persas, seria delicada a confirmação da ligação terrestre feita apenas na zona persa.

É reportada a especial embaixada de Zhang Qian às zonas ocidentais logo no Séc II a.C., no início da dinastia Han. Na wikipedia é ainda referida a descrição do historiador romano Florus no tempo de Augusto:
Even the rest of the nations of the world which were not subject to the imperial sway were sensible of its grandeur, and looked with reverence to the Roman people, the great conqueror of nations. Thus even Scythians and Sarmatians sent envoys to seek the friendship of Rome. Nay, the Seres came likewise, and the Indians who dwelt beneath the vertical sun, bringing presents of precious stones and pearls and elephants, but thinking all of less moment than the vastness of the journey which they had undertaken, and which they said had occupied four years. In truth it needed but to look at their complexion to see that they were people of another world than ours.
A última frase "... para ver que eram povos de um mundo diferente do nosso" aplica-se não só aos Seres, mas também aos Indianos, Citas, Sarmácios. A jornada de algumas embaixadas teria chegado a durar quatro anos.

Um ponto que já tinha merecido a nossa atenção, e que volta a estar presente neste excerto, é a importância que era dada aos indianos que "habitavam zonas debaixo do Sol vertical". A inexistência de sombra que podia ocorrer nestas paragens era considerada como algo excêntrico. 
Ora, estando a India bem acima da linha equatorial, esta observação só faz sentido como referência à linha definindo o Trópico de Cancer... ou seja, conforme já mencionámos é possível que na época de Augusto este Trópico estivesse bem abaixo do ponto actual, abaixo da conhecida Arabia Felix e acima do sul da India... ou seja, perto dos 10º de latitude.

Catigara vietnamita
Nas referências às paragens orientais, aparece Catigara (ou Kattigara), enquanto o porto mais oriental do Mar Índico, e que já foi identificado com a zona do Delta de Mekong, mais propriamente com Oc Eo
O Vietname tem uma particularidade interessante que é ser praticamente o único país asiático que adoptou o alfabeto latino (ver colocação no mapa dos alfabetos), supostamente por influência dos missionários portugueses no Séc. XVI e XVII. É aliás no Delta de Mekong, na zona de Catigara, que Camões teria salvo a nado os seus Lusíadas!
Aparentemente terão sido recuperados achados romanos nessa zona do Delta do Mekong... o que pode dar um significado bem mais antigo à presença do alfabeto latino nessas paragens! Teria sido depois disfarçado pela presença e influência europeia posterior...

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publicado às 07:54


Theatrum Mundi Sinico

por desvela, em 08.07.11
Pelo lado chinês, encontramos uma versão sínica de um mapa muito semelhante ao Theatrum Mundi de Lavanha, ou de Ortélio, denominada Wanguo Quantu, e datada c. 1620:
Wanguo Quantu, mapa do jesuíta Giulio Aleni (c. 1620)

É justificado o mapa pela colocação central do Império do Meio, evitando assim a tradicional colocação europeia nessa posição central. Podemos ver que os chineses não pareciam ter problemas em aceitar um mapa que evidenciasse o Estreito de Anian (dito de Bering), ao contrário do que foi depois referido por Carvalho da Costa (ver texto sobre Nova Zimla). Aliás o contorno americano, ou da costa russa, parece reflectir o conhecimento geral dessa zona, tal como já tinha sido verificado nos outros "theatrum mundi".

Antes, teria aparecido no tratado Sancai Tuhui um outro mapa, o Shanhai Yudi Quantu (1606, com base em Matteo Ricci), que mostrava uma concepção mais próxima dos primeiros mapas europeus do Séc. XVI (como o de Waldseemuller):
Mapa Shanhai Yudi Quantu (1606), aqui com tradução de Roderich Ptak.

Na tradução deste mapa é possível ver algumas legendas curiosas:
  • Um Mar Vermelho "oriental" na península californiana, conforme mencionado aqui nos Sinais Vermelhos e anteriormente. Aparece também o habitual Mar Vermelho "ocidental" na África.
  • Yawaima - no noroeste americano, que corresponderia à zona de Fusang (o nome Yawai pode sugerir alguma conexão a Hawai).
  • Mar de Keluotuo - que poderá ser a Baía de Hudson.
  • Na Europa apenas a França é nomeada... enquanto que na zona ibérica é escrito "mais de 30 reinos", podendo referir-se a toda a Europa! Parece ainda haver uma confusão entre o Mar Negro e o Cáspio (o que não nos surpreende).
  • A Líbia é a África, e na zona do Atlas é colocada a legenda "montanhas mais altas da Terra"
  • A sul, a Magellania refere já a confusão de concatenação da Austrália com a a Antártida - de um lado fala-se em "terra de papagaios", e do outro na Terra do Fogo e "picos brancos". A legenda dirá ainda que "poucos teriam chegado a essas paragens a sul".
Se o outro mapa tem a clara marca do cartógrafo ocidental (Giulio Aleni), neste mapa reflectem-se mais as influências na concepção e nomenclatura, especialmente pela referência a Magalhães. Não se parece notar nenhuma cartografia própria dos chineses, mantendo as mesmas restrições/mitos ocidentais, especialmente sobre a parte sul na "Magellania". O "mar gelado" aparece apenas mencionado a norte do Canadá...

Sendo expectável que os chineses tivessem conhecimento, pelas grandes navegações que teriam feito, de outras paragens, como por exemplo a Austrália, estes mapas mostram uma grande sintonia no que era transmitido a Ocidente e a Oriente(*)... sugerindo a existência de uma única ordem global dominante!

Nota:
(*) Esta concepção restritiva é ainda visível em mapas coreanos, mesmo do séc. XIX.

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publicado às 01:34


Seres e DaQin

por desvela, em 07.07.11
Tendo mencionado os Seres, designação que os Romanos usariam para os Chineses, é interessante notar que em português o significado de "seres" adequa-se ainda hoje a uma noção abstracta para um povo indefinido.
A grande vantagem da wikipedia é a partilha de conhecimento ainda pelo outro lado... e assim podemos chegar ao contraponto - os Chineses designariam o império Romano por DaQin, e a visão do mundo pelo lado chinês, seria representada num mapa denominado Sihai Huayi Zongtu, em que colocámos algumas legendas, para dar seguimento à ideia de que o Oceano Ocidental para os chineses seria definido pela extensão do Mar Cáspio, conforma mapa já apresentado
Mapa Sihai Huayi Zongtu e o mapa com o Cáspio enquanto mar.

Apesar de estar datado para o Séc. XVI, o mapa chinês ao referir a designação DaQin aponta claramente para tempos de memória do contacto com o outro império, o Qin ocidental, o DaQin.

Pela extensão de água que se prolongaria do Mar Cáspio até à Sibéria, justifica-se que Da Qin, o império Romano, fosse considerado para além do Oceano Ocidental, o prolongamento do Cáspio. Apesar de estar representado um oceano circundante, notamos que sem uma efectiva visita por territórios já dominados por Romanos e Partos-persas, seria delicada a confirmação da ligação terrestre feita apenas na zona persa.

É reportada a especial embaixada de Zhang Qian às zonas ocidentais logo no Séc II a.C., no início da dinastia Han. Na wikipedia é ainda referida a descrição do historiador romano Florus no tempo de Augusto:
Even the rest of the nations of the world which were not subject to the imperial sway were sensible of its grandeur, and looked with reverence to the Roman people, the great conqueror of nations. Thus even Scythians and Sarmatians sent envoys to seek the friendship of Rome. Nay, the Seres came likewise, and the Indians who dwelt beneath the vertical sun, bringing presents of precious stones and pearls and elephants, but thinking all of less moment than the vastness of the journey which they had undertaken, and which they said had occupied four years. In truth it needed but to look at their complexion to see that they were people of another world than ours.
A última frase "... para ver que eram povos de um mundo diferente do nosso" aplica-se não só aos Seres, mas também aos Indianos, Citas, Sarmácios. A jornada de algumas embaixadas teria chegado a durar quatro anos.

Um ponto que já tinha merecido a nossa atenção, e que volta a estar presente neste excerto, é a importância que era dada aos indianos que "habitavam zonas debaixo do Sol vertical". A inexistência de sombra que podia ocorrer nestas paragens era considerada como algo excêntrico. 
Ora, estando a India bem acima da linha equatorial, esta observação só faz sentido como referência à linha definindo o Trópico de Cancer... ou seja, conforme já mencionámos é possível que na época de Augusto este Trópico estivesse bem abaixo do ponto actual, abaixo da conhecida Arabia Felix e acima do sul da India... ou seja, perto dos 10º de latitude.

Catigara vietnamita
Nas referências às paragens orientais, aparece Catigara (ou Kattigara), enquanto o porto mais oriental do Mar Índico, e que já foi identificado com a zona do Delta de Mekong, mais propriamente com Oc Eo
O Vietname tem uma particularidade interessante que é ser praticamente o único país asiático que adoptou o alfabeto latino (ver colocação no mapa dos alfabetos), supostamente por influência dos missionários portugueses no Séc. XVI e XVII. É aliás no Delta de Mekong, na zona de Catigara, que Camões teria salvo a nado os seus Lusíadas!
Aparentemente terão sido recuperados achados romanos nessa zona do Delta do Mekong... o que pode dar um significado bem mais antigo à presença do alfabeto latino nessas paragens! Teria sido depois disfarçado pela presença e influência europeia posterior...

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publicado às 23:54

  
Os balões do São João no Porto e Zhuge Liang...  [imgimg]

A cultura ocidental tem muito poucas referências orientais, sendo normalmente mais conhecidas as ligadas à mitologia e religiosidade. Aqueles que são seduzidos pelo misticismo oriental fazem um processo curioso, que teria um recíproco engraçado... analogamente poderíamos ter gurus da religião greco-romana juntando grupos esotéricos de empresários ou artistas chineses ou indianos. As religiões, ou mesmo as filosofias, têm um enquadramento histórico, e a história chinesa ou indiana está longe de ser familiar à maioria dos ocidentais que são adoptados e depois adeptos dessas tendências ocidentais supostamente baseadas no misticismo oriental.

Lanternas de Kongming
A tradição do São João junta o salto à fogueira, o fogo de artifício e uns curiosos balões de ar quente, chamados balões de São João... estando atrasado uns dias, noto que o S. Pedro ainda não acabou!
Retirando a parte do salto à fogueira, o fogo de artifício e os balões de ar quente podemos encontrá-los como manifestação quase directa de tradições chinesas em território nacional. 
Afinal é admitido que a pólvora tem a sua origem na China, tal como o papel... 

Durante muito tempo (até há poucas décadas) foi contada a estória que os chineses não teriam desenvolvido os seus conhecimentos pirotécnicos para fins militares, e que estes se resumiriam a distracções cortesãs.
Não vamos aqui redescobrir a pólvora, mas convém notar que esta é reportada à Dinastia Han, uma dinastia florescente do Séc II a. C. ao Séc. II d. C., quatrocentos anos de desenvolvimento.
O fim da Dinastia Han tem um herói Han, denominado "Dragão Adormecido" ou Kongming, de nome Zhuge Liang.

A Zhuge Liang é creditado a invenção dos balões de papel e ar quente, também ditos Lanternas de  Kongming... e que são os balões de São João (alguns chamam balões venezianos)!

Segundo a "lenda", estando cercado, as Lanternas teriam sido usados por si para sinalização ao seu exército.  Há outras invenções surpreendentes que lhe são creditadas.

Batalha dos Penhascos Vermelhos
O seu nome vai ficar mais ligado à Batalha mítica da História chinesa: 
- a Batalha dos Penhascos Vermelhos,
que antecede o fim da Dinastia Han. 

 
Sinal da Batalha dos Penhascos Vermelhos, o seu local é incerto, 
mas é marcado há muitos séculos em Chibi, no Rio Yangtzé. 
Embarcação usada em batalha.

Trata-se de uma batalha com larga componente naval, mas que é colocada no Rio Azul, o Yangtzé, com o Sinal dos "Penhascos Vermelhos"... e que reporta já a divisão dos Três Reinos, período de convulsão na China que marca o final da Dinastia Han (em 220 d.C) até à Dinastia Jin (em 280 d.C).

As invenções chinesas
Os ocidentais reconhecem quatro invenções importantes aos chineses:
- papel, bússola, pólvora... e imprensa (apesar de Guttenberg)
... havendo outras invenções em lista de espera, com a reconhecida oficial paciência chinesa.
Os argumentos para a Lanterna de Kongming são simples... oficialmente os chineses inventaram o papel, e saberiam produzir fogo. Porém, como já percebemos, as evidências contam pouco para a academia ocidental e os mais reputados sinologistas remetem para o magister dixit considerando relatos inconvenientes como apócrifos. Nada de surpreendente, ligado ao ambiente religioso que afinal definiu as universidades no contexto medieval...

Um excelente artigo de Annette Yoshiko (2009), da Univ. Pensilvânia, esclarece como foi difícil aos europeus admitir uma história chinesa registada antes das civilizações clássicas:
Hegel famously proclaimed that the Indians were a people without history, living apart from the evolving spirit of rationality that shaped "the West". To this Leopold Von Ranke soon protested. Nevertheless, von Ranke expressed a similar view of India, which he extended to China as well. These two "oriental" peoples had long chronologies, but their antiquity was, in his view, merely a "fable"; neither had any active role in shaping world history.
Estamos a falar do início do Séc. XX, e a afirmação de Hegel poderá também ser vista como uma irónica crítica à própria estória ocidental que passava por História...
Yoshiko relaciona ainda os antigos relatos gregos não apenas dos indianos (Indoí), mas também dos Sêres, a que se ligava já o registo da Seda. 
Os Sêres desconhecidos seriam por isso os chineses... vai ainda mais longe, considerando o registo cristão dos Actos de Tomás (S. Tomás que foi ver para crer), que falam no Reino de Mazdai (afinal um veículo que de Mazda nos levaria ainda a Zaratrusta...), todo o artigo é aconselhado e tem um registo que não nos deixa sozinhos no meio de uma academia de herança medieval.


Severo, do lado Romano
Ao mesmo tempo que se dava a Batalha dos Penhascos Vermelhos, Sétimo Severo estendia o Império Romano para Oriente, atingindo os Pártos da Pérsia, inserindo definitivamente a província de Osroena e indo mais longe, na recuperação das antigas fronteiras do reino Seleucida de Edessa.
Para continuar um pouco da nossa Estória, vamos recuperar o mapa que colocaria ainda o Cáspio como mar...
A expansão de Severo colidiria com algum reino chinês?
Até que ponto faz sentido uma batalha naval que ocorre no contexto do Rio Yangtzé? Ainda que seja um grande rio, as proporções habituais de forças em batalhas chinesas (aqui fala-se em quase 1 milhão do lado de Cao Cao) colocariam as embarcações a cobrir o rio...
Até que ponto não estariam os Romanos envolvidos numa disputa de influência sobre território chinês, apoiando um dos lados da contenda?
Como Yoshiko salienta no seu artigo, entre a China e os Romanos havia o Reino Parto-Persa, que funcionava como charneira, sendo reconhecidas influências/contactos chineses directos com os partos.

Contemporâneo da queda da Dinastia Han é o envio de uma delegação indiana em 220 d.C. ao imperador Heliógabalo, acto oficial singular, que demonstra talvez a preocupação ou o reconhecimento global com o poder Romano no Oriente... Pelo menos era claro que quer Sétimo Severo ou Caracala tinham tomado o assunto da guerra com o Partos, que também eram vizinhos da India.

Sob um ou diferente nomes, a antiquíssima civilização Persa dos magos manteve-se com uma independência quase constante, só interrompida brevemente por Alexandre Magno, já que a invasão otomana foi dada dentro de um contexto religioso e cultural comum. Noutra ocasião falaremos sobre as Colunas de Alexandre...
Não se passou exactamente o mesmo com a China... pois se a pólvora foi invenção chinesa, é certo que os ocidentais em breve copiaram os mecanismos de destruição ao longo da Idade Média, e quando Nobel "inventa" a dinamite, poucos anos depois uma enorme aliança ocidental esmaga a Revolta dos Boxer na passagem de 1900, arriscando a presença de grandes contigentes na Batalha de Pequim (que terá ainda servido para apagar as memórias de Fusang e da Tartária):

Os balões de São João
As lanternas de Kongming aparecem como tradição festiva em Veneza e no Porto. Não sabemos quando foram introduzidas no Carnaval ou em festas populares. A tradição junina semelhante no Brasil coloca-as longe no tempo... provavelmente bem anteriores às experiências dos irmãos Montgolfier.
Se os chineses já consideravam colocar uma embarcação balão enquanto passarola, capaz de transportar pessoas... pois é uma hipótese que surge logo a partir do momento em que se vê o modelo feito com papel. Talvez por isso a actuação de Sétimo Severo e Caracala se tornasse tão urgente nas paragens orientais em "polvorosa".

Será preciso saltar por cima do fogo que consumiu e apagou todos registos... mas é complicado!

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publicado às 06:41

  
Os balões do São João no Porto e Zhuge Liang...

A cultura ocidental tem muito poucas referências orientais, sendo normalmente mais conhecidas as ligadas à mitologia e religiosidade. Aqueles que são seduzidos pelo misticismo oriental fazem um processo curioso, que teria um recíproco engraçado... analogamente poderíamos ter gurus da religião greco-romana juntando grupos esotéricos de empresários ou artistas chineses ou indianos. As religiões, ou mesmo as filosofias, têm um enquadramento histórico, e a história chinesa ou indiana está longe de ser familiar à maioria dos ocidentais que são adoptados e depois adeptos dessas tendências ocidentais supostamente baseadas no misticismo oriental.

Lanternas de Kongming
A tradição do São João junta o salto à fogueira, o fogo de artifício e uns curiosos balões de ar quente, chamados balões de São João... estando atrasado uns dias, noto que o S. Pedro ainda não acabou!
Retirando a parte do salto à fogueira, o fogo de artifício e os balões de ar quente podemos encontrá-los como manifestação quase directa de tradições chinesas em território nacional. 
Afinal é admitido que a pólvora tem a sua origem na China, tal como o papel... 

Durante muito tempo (até há poucas décadas) foi contada a estória que os chineses não teriam desenvolvido os seus conhecimentos pirotécnicos para fins militares, e que estes se resumiriam a distracções cortesãs.
Não vamos aqui redescobrir a pólvora, mas convém notar que esta é reportada à Dinastia Han, uma dinastia florescente do Séc II a. C. ao Séc. II d. C., quatrocentos anos de desenvolvimento.
O fim da Dinastia Han tem um herói Han, denominado "Dragão Adormecido" ou Kongming, de nome Zhuge Liang.

A Zhuge Liang é creditado a invenção dos balões de papel e ar quente, também ditos Lanternas de  Kongming... e que são os balões de São João (alguns chamam balões venezianos)!

Segundo a "lenda", estando cercado, as Lanternas teriam sido usados por si para sinalização ao seu exército.  Há outras invenções surpreendentes que lhe são creditadas.

Batalha dos Penhascos Vermelhos
O seu nome vai ficar mais ligado à Batalha mítica da História chinesa: 
- a Batalha dos Penhascos Vermelhos,
que antecede o fim da Dinastia Han. 

 
Sinal da Batalha dos Penhascos Vermelhos, o seu local é incerto, 
mas é marcado há muitos séculos em Chibi, no Rio Yangtzé. 
Embarcação usada em batalha.

Trata-se de uma batalha com larga componente naval, mas que é colocada no Rio Azul, o Yangtzé, com o Sinal dos "Penhascos Vermelhos"... e que reporta já a divisão dos Três Reinos, período de convulsão na China que marca o final da Dinastia Han (em 220 d.C) até à Dinastia Jin (em 280 d.C).

As invenções chinesas
Os ocidentais reconhecem quatro invenções importantes aos chineses:
- papel, bússola, pólvora... e imprensa (apesar de Guttenberg)
... havendo outras invenções em lista de espera, com a reconhecida oficial paciência chinesa.
Os argumentos para a Lanterna de Kongming são simples... oficialmente os chineses inventaram o papel, e saberiam produzir fogo. Porém, como já percebemos, as evidências contam pouco para a academia ocidental e os mais reputados sinologistas remetem para o magister dixit considerando relatos inconvenientes como apócrifos. Nada de surpreendente, ligado ao ambiente religioso que afinal definiu as universidades no contexto medieval...

Um excelente artigo de Annette Yoshiko (2009), da Univ. Pensilvânia, esclarece como foi difícil aos europeus admitir uma história chinesa registada antes das civilizações clássicas:
Hegel famously proclaimed that the Indians were a people without history, living apart from the evolving spirit of rationality that shaped "the West". To this Leopold Von Ranke soon protested. Nevertheless, von Ranke expressed a similar view of India, which he extended to China as well. These two "oriental" peoples had long chronologies, but their antiquity was, in his view, merely a "fable"; neither had any active role in shaping world history.
Estamos a falar do início do Séc. XX, e a afirmação de Hegel poderá também ser vista como uma irónica crítica à própria estória ocidental que passava por História...
Yoshiko relaciona ainda os antigos relatos gregos não apenas dos indianos (Indoí), mas também dos Sêres, a que se ligava já o registo da Seda. 
Os Sêres desconhecidos seriam por isso os chineses... vai ainda mais longe, considerando o registo cristão dos Actos de Tomás (S. Tomás que foi ver para crer), que falam no Reino de Mazdai (afinal um veículo que de Mazda nos levaria ainda a Zaratrusta...), todo o artigo é aconselhado e tem um registo que não nos deixa sozinhos no meio de uma academia de herança medieval.


Severo, do lado Romano
Ao mesmo tempo que se dava a Batalha dos Penhascos Vermelhos, Sétimo Severo estendia o Império Romano para Oriente, atingindo os Pártos da Pérsia, inserindo definitivamente a província de Osroena e indo mais longe, na recuperação das antigas fronteiras do reino Seleucida de Edessa.
Para continuar um pouco da nossa Estória, vamos recuperar o mapa que colocaria ainda o Cáspio como mar...
A expansão de Severo colidiria com algum reino chinês?
Até que ponto faz sentido uma batalha naval que ocorre no contexto do Rio Yangtzé? Ainda que seja um grande rio, as proporções habituais de forças em batalhas chinesas (aqui fala-se em quase 1 milhão do lado de Cao Cao) colocariam as embarcações a cobrir o rio...
Até que ponto não estariam os Romanos envolvidos numa disputa de influência sobre território chinês, apoiando um dos lados da contenda?
Como Yoshiko salienta no seu artigo, entre a China e os Romanos havia o Reino Parto-Persa, que funcionava como charneira, sendo reconhecidas influências/contactos chineses directos com os partos.

Contemporâneo da queda da Dinastia Han é o envio de uma delegação indiana em 220 d.C. ao imperador Heliógabalo, acto oficial singular, que demonstra talvez a preocupação ou o reconhecimento global com o poder Romano no Oriente... Pelo menos era claro que quer Sétimo Severo ou Caracala tinham tomado o assunto da guerra com o Partos, que também eram vizinhos da India.

Sob um ou diferente nomes, a antiquíssima civilização Persa dos magos manteve-se com uma independência quase constante, só interrompida brevemente por Alexandre Magno, já que a invasão otomana foi dada dentro de um contexto religioso e cultural comum. Noutra ocasião falaremos sobre as Colunas de Alexandre...
Não se passou exactamente o mesmo com a China... pois se a pólvora foi invenção chinesa, é certo que os ocidentais em breve copiaram os mecanismos de destruição ao longo da Idade Média, e quando Nobel "inventa" a dinamite, poucos anos depois uma enorme aliança ocidental esmaga a Revolta dos Boxer na passagem de 1900, arriscando a presença de grandes contigentes na Batalha de Pequim (que terá ainda servido para apagar as memórias de Fusang e da Tartária):

Os balões de São João
As lanternas de Kongming aparecem como tradição festiva em Veneza e no Porto. Não sabemos quando foram introduzidas no Carnaval ou em festas populares. A tradição junina semelhante no Brasil coloca-as longe no tempo... provavelmente bem anteriores às experiências dos irmãos Montgolfier.
Se os chineses já consideravam colocar uma embarcação balão enquanto passarola, capaz de transportar pessoas... pois é uma hipótese que surge logo a partir do momento em que se vê o modelo feito com papel. Talvez por isso a actuação de Sétimo Severo e Caracala se tornasse tão urgente nas paragens orientais em "polvorosa".

Será preciso saltar por cima do fogo que consumiu e apagou todos registos... mas é complicado!

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publicado às 22:41


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