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Dos bancos, o velar e as pirâmides

por desvela, em 25.09.13
Muito oportunamente recebemos hoje um comentário de Olinda Gil sobre a descoberta de um banco com formato piramidal por um velejador açoriano, Diocleciano Silva, em mais uma reportagem da RTP Açores.

Com base nesse comentário, no blog Portugalliae (de J.M. Oliveira) está já uma compilação que relaciona com outras descobertas subaquáticas na zona dos Açores:
http://portugalliae.blogspot.pt/2013/09/teoria-da-atlantida-no-arquipelago-dos.html

Este é mais um achado, que se junta a outros que têm vindo a merecer atenção sobre os Açores (já aqui falámos das Pirâmides da ilha do Pico, da Grota do Medo, dos hipogeus na Terceira e Corvo, etc., não esquecendo também a estranha formação submarina ao largo da Madeira... agora disfarçada no Google Maps)

Apenas aproveito para complementar com alguma outra informação relacionada.
Começamos por uma informação batimétrica dessa zona, entre a Terceira e São Miguel, onde é muito bem conhecido o Banco de D. João de Castro.
Imagem batimétrica, onde se vê o Banco D. João de Castro (info daqui
e assinalamos com uma seta o outro banco que pode ser a formação pirâmidal mencionada.

A seta preta assinala uma proeminência que se destaca, que parece ter uma forma piramidal pronunciada, e que é a única tão próxima da superfície do mar, sem ser o conhecido Banco de D. João de Castro. Aliás as montanhas submarinas dos Açores têm sido alvo de exploração recente, como mostra o vídeo da Univ. dos Açores:
Vídeo da Univ. Açores sobre montanhas submarinas açorianas.

Portanto, é claro que o velejador Diocleciano Silva não será o primeiro a deparar-se com a estrutura, que será bem conhecida de todos os que realizaram estudos batimétricos na zona da fossa planalto Hirondelle (... andorinha, era o nome do barco do princípe Alberto I do Mónaco).
A página de onde retirei a figura batimétrica é sobre uma outra formação, chamada o Banco do Mónaco, mais a sul, sudoeste de S. Miguel. Trata-se de um vulcão submarino, e é curiosa a menção feita na página de vulcanologia:
The volcano is unusual for a European volcano as it has never been studied.

Os Açores têm destas coisas... há coisas que nunca foram estudadas.
Por isso são naturais as tentativas de descobrir - ou seja de retirar do encobrir, já que Portugal é feito da matéria do Encoberto.

É claro que a questão do velejador seria prontamente resolvida se houvesse informação disponível, mas assim fica encoberta por toda a ausência de informação divulgada. Estes "achados" são assim falados por uns tempos, correm o facebook por um par de dias, e depois aguarda-se que entrem naturalmente no esquecimento.
Como a população tem uma curiosidade não persistente, o assunto merece uma atenção fugaz, já que as pessoas se conformaram a ter uma informação não esclarecida. Rapidamente haverá outro assunto que prenderá a atenção, e o mistério desaparece naturalmente.

No caso em concreto convém notar apenas que a formação pode ser natural, pois o aparelho usado pelo velejador parecia estar no limite da sua resolução, e nessa altura as linhas curvas podem ser apresentadas simplificadamente por quatro linhas, e a forma quadrangular pode sugerir uma forma piramidal (as curvas de nível da montanha do Pico numa má resolução poderiam aparecer da mesma maneira).
De qualquer forma, mais importante do que haver ali ou não uma pirâmide, é não haver logo um esclarecimento ao velejador, e o assunto ser alvo de reportagem como se a Marinha não soubesse, nem se tivesse passado ali com um sonar antes...
Ora, este conhecimento vai mesmo para além dos 100 anos, já que há esses estudos reportados a Alberto do Mónaco, e também ao nosso rei D. Carlos, que foi igualmente um oceanógrafo reconhecido.

Muito antes, no Séc. XVI, o próprio D. João de Castro ficou conhecido pelos seus estudos sobre os baixios.
Nessa altura chamavam-se "baixios" e não "bancos", mas agora é mais fácil associar a riqueza que guardam estes bancos e perceber como pode haver uma crise com a revelação dos segredos dos bancos (... velando pirâmides financeiras).
O significado das palavras serve vários propósitos.

Esses baixios apareciam representados nos Roteiros de D. João de Castro, vice-rei da Índia, como é exemplo na próxima gravura, e visavam evitar problemas de navegação com profundidades baixas.
(Roteiros de D. João de Castro, Biblioteca da Univ. Coimbra)

É claro que esta precisão de contornos dos baixios envolveu uma pesquisa sistemática na navegação.
Na altura seria provavelmente usado o esquema clássico de lançar uma corda ao fundo e medir as braças.
Esta menção aos baixios pode ter sido mais sistematizada por ordem de D. João de Castro, mas já seria encontrada em mapas anteriores.
Alguns baixios em frente da costa de Moçambique já estavam delineados no Livro de Marinharia de João de Lisboa e apareceram designados depois com a referência a D. João de Castro. Por isso, antes da designação desse Banco D. João de Castro nos Açores (vulcão submarino que originou uma ilha temporária em 1720-22) havia outros "bancos de D. João de Castro", na costa próxima de Moçambique, junto às Ilhas Comores.

Costa de Moçambique. Baixios de D. João ... de Castro.
No Livro de Marinharia (c. 1514-60) a menção aos baixios, 
e sua localização no Google Maps (seta amarela).


Repare-se que a menção aos baixios envolve um conhecimento de grande profundidade no Séc. XVI.
E, é literalmente profundo, pois marcas envolvem medições que iriam muito além de várias centenas de metros.

Nota adicional: (12/10/2013) __________________
A Marinha parece ter reduzido o problema à confusão do navegador com o Banco D. João de Castro:

É engraçada a forma de desinformação dos tempos recentes - basta a uns dizerem que sim, e a outros dizem que não.
Um é velejador solitário, o outro é a Marinha com os registos oficiais de maior "sensibilidade".
Não foi preciso confrontação dos dois registos. 
Ficamos a saber que até à comunicação à RTP Açores, o velejador pesquisou durante vários meses sem saber da existência de tal banco, que aparece em todos os mapas. Por outro lado, os repórteres da RTP Açores fazem uma reportagem sem se informarem com mais nenhuma fonte. A Marinha demora 12 dias a concluir uma trivialidade poderia ter sido esclarecida em 5 minutos. 
Uma trapalhada!... uma sucessão de enganos e incompetências, que afectam instituições com algum prestígio - mas é suposto ser normal as instituições darem como perdida a sua respeitabilidade. Haja paciência!

De qualquer forma, já antevendo desfechos deste género como os únicos possíveis num quadro de ocultação, este texto foi feito para ter relevância para além da observação de Diocleciano Silva.
Entre outras coisas, fica claro pelo mapa que apresentámos aqui que há uma estrutura de forma piramidal acentuada, que não é o Banco D. João de Castro, é aquela que está assinalada pela seta a negro, e que mais uma vez não foi mencionada.

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publicado às 07:55


Peças dos Painéis de S. Vicente (4)

por desvela, em 07.01.13

[continuação]
de Peças dos Painéis de S. Vicente (3)
e de Peças dos Painéis de S. Vicente (2) 


13) Santos
Talvez a primeira coisa a notar é que não será fácil encontrar "santos" nesta história. 
Há projectos familiares, heranças, que se disputam pelo interesse patrimonial, indiferentemente de serem grandes terras, um simples cordão de ouro da avó, ou um território de caça de um felino.
Algo completamente diferente é um projecto social, uma solução de convivência com vantagens para os diversos intervenientes, um sistema protector das diversas ameaças.
Os conceitos misturam-se de forma complexa nos conflitos históricos, e se os projectos familiares se apoderaram do projecto social, outras vezes, raras, foram os próprios projectos familiares a cederem face ao futuro do projecto social idealizado. A nobreza é o projecto social, e degenerou pela sua confusão com o projecto familiar... projectos familiares todos têm, mesmo as alimárias. A separação de classes seria uma protecção do modelo da ordem medieval, não tinha benefícios em ser estanque, e isso acabou por perverter o seu sentido, tornando-se num conjunto cada vez mais caótico de projectos familiares.
Um grande pelicano seria capaz de sacrificar a sua carne para alimentar um ideal de sociedade. E isso deixou marcas profundas, de admiração, mas também de indignação.

Não consta ter havido nenhum apuramento especial das circunstâncias "misteriosas" em que ocorreu a morte do príncipe Afonso. Para um rei que puniu exemplarmente eventuais conspirações contra si, seria de esperar um outro tipo de reacção, e não propriamente deixar sem grande investigação o "acidente". Porém, creio que a D. João II não o preocupava especialmente a sua pessoa, mas sim o projecto social - pela lei, pela grei. Mas, pela grei, colocava-se, se necessário, acima da lei. Há um poder executivo que dá relevo ao poder da justiça, e de certa forma à representação do povo (que já existia nas cortes pela figura dos concelhos). Parece-nos um prelúdio de uma separação de poderes, tendo como objectivo o serviço da população e não apenas dos interesses da nobreza.

Dificilmente encontramos outro quadro europeu da época que coloque com destaque semelhante frades e pescadores, reis, navegadores, cavaleiros e sábios. Porque essa sugestão de representação também se encontra no quadro, e motivou as designações popularizadas.
Só por si, essa sugestão, reflexo da ousadia na governação, e não da ousadia arriscada de um pintor, deixaria a datação circunscrita a duas regências - a do Infante D. Pedro, ou mais provavelmente do neto, D. João II.

Quanto aos dois Santos, pareceu-me ver aí uma oposição de destinos na orientação das navegações.

Pelo lado ocidental, abria-se o livro do Novo Mundo e a colonização, não impediria ainda o comércio com o Oriente, evitando o conflito no Índico. Pelo lado oriental, fechava-se o negro pano, dava-se a batuta de comando, e haveria conflito nos mares. Pelo lado oriental, antevia-se ainda uma sangrenta expedição, com o velho motivo da Cruzada templária do Infante, e recordamos de novo as palavras do Cardeal Saraiva:
He portanto fora de duvida, que o sábio Infante levou na gloriosa empreza de seus descobrimentos hum fim mais alto e mais importante do que a mesquinha idéa de colher os Mouros pela retaguarda, idéa da qual se não diz uma só palavra na vida do Infante, nem de seu augusto pai, nem tão pouco em historia alguma dos descobrimentos Portuguezes.
(Cardeal Saraiva, Obras Completas, 1875)
[... e o ficheiro PDF onde coloquei isto, entretanto desapareceu-lhe o link, e terei que repor isso]

Aos Infantes abriam-se duas perspectivas, e ainda que D. João II tenha virado o tio a ocidente, acho que a tal "ideia mesquinha de colher os Mouros pela retaguarda", da qual "se continua a não dizer palavra"... essa ideia oriental, era a parte principal do projecto de D. Henrique.

Nessa perspectiva, procurámos identificar um Santo como Bartolomeu, que marcava a data das novas investidas contra os marroquinos, em Arzila e Tanger. Colocámos outras possibilidades, uma dualidade S. Jorge/ S. Bartolomeu ou S. Vicente/ S. Tomé, ainda a possibilidade de serem duas faces de S. Vicente, e não esquecendo o nome do mosteiro "São Vicente de Fora", admitimos que o nome pudesse resultar desse Santo não estar presente, ou de uma alusão à ocultação dos painéis.
Pois bem, essa questão do Santo estar "de Fora" parece ganhar um novo dado.

Lendo entretanto o site paineis.org, retive este excerto sobre o "manuscrito do Rio", que desconhecia:
Por outro lado, o único testemunho histórico que parece referir de forma inequívoca pelo menos dois dos painéis (os maiores), coloca-os no retábulo das relíquias de S. Vicente na Sé de Lisboa, mas limita-se a descrever de forma vaga cenas que não entende. Trata-se do frequentemente citado manuscrito do Rio de Janeiro, descoberto por Artur da Motta Alves em 1936, onde um autor anónimo faz uma resenha dos retratos de figuras reais existentes em igrejas e mosteiros de Lisboa.
O documento data de fins do séc. XVI, e nele se refere expressamente que os dois painéis, descritos de memória, já não se encontram no local, sendo o seu paradeiro ignorado («... dirão os cónegos onde estão...»).
A forma como o autor recorda os painéis, atribuindo-os a um tal Mota, pintor de D. João II, não identificando uma única das figuras que rodeiam o «santo», e justificando o estranho aspecto efeminado deste último através da identificação do seu rosto com o de um adolescente – o infante D. Afonso, filho de D. João II, nascido em 1475 e falecido aos 16 anos – indica uma estranha ignorância do significado das duas cenas e da identidade dos seus protagonistas, por parte de quem se mostra informado acerca de outros retratos de reis existentes em Lisboa. Note-se que o exame radiográfico indica que a hipotética repintura tardia de um rosto adolescente numa figura adulta, necessária à sua identificação com o do malogrado príncipe, não teve lugar. 
Desta importante informação adicional, que destaquei, fica clara a atribuição que era dada ao quadro no Séc. XVI... como se dúvidas ainda houvesse.
S. Vicente está "de fora", é aí colocado o príncipe D. Afonso. Não é que isto seja determinante na interpretação, as interpretações são múltiplas, mesmo em quadros actuais. Nem será pelo facto de ter feito todo o caminho de dedução para a datação, e contexto envolvente na execução, que as minhas opiniões interpretativas, sejam mais que isso - opiniões pessoais, mas justificadas.

O objectivo destes textos era justificar "melhor" a opinião que coloquei há três anos, não me afectaria muito que ela fosse considerada certa ou errada, interessava-me que ela fosse consistente com a informação que procurei, sem omitir as eventuais fragilidades da tese. Penso ser este o melhor caminho para a procura de uma verdade comum, partilhada.

Bom, pode-se dizer que aqui eu estava errado - é possível, não escrevi a hipótese de D. Afonso ser a figura representada num santo, mas também me lembro que não deixei de considerar essa possibilidade.
Agora, que ela fica mais clara, pela revelação do "manuscrito do Rio", avanço então com a possibilidade "mais profana", no sentido de que seriam elevados a santos outras figuras.

Há duas caras nos santos, e parece claro que não seria por falta de engenho do pintor... foi propositado, e assim haveria dois modelos. Que modelos poderiam ser ali considerados ao nível de "santos"?
Um, como já ficou claro pelo manuscrito, é D. Afonso, e está no 4º painel.
Quem é o outro "santo" que está no 3º painel?
- Santa Joana Princesa, irmã do rei, que cuidou de D. Jorge, como uma mãe... como já o tinha feito com o próprio irmão, órfão à nascença da sua mãe, D. Isabel de Coimbra.

Talvez até estejam as duas Joanas (irmã e tia), na própria representação de mãe, que D. João II nem conheceu, mas sendo já três invocações, continuarei as contas da forma que um célebre reitor/cantor ensinou "... quatro, cinco, seis, é uma história de reis", não deixando por isso de considerar que as dualidades de santos, que escrevi, fazem sentido ainda como parte desta história.

Para quem considerar esta tese, percebe a riqueza da composição, do mau e bom génio de um enorme Rei, e percebe como é complicado aceitar que isto seja ocultado. Perceberá também porque nem gosto muito de recordar o assunto.

Não falei muito da Rainha D. Leonor, mas será uma peça chave no que se seguirá em Portugal.
O seu drama pessoal será enorme.
Depois de ver o seu irmão assassinado pelo marido, tem o filho morto em circunstâncias suspeitas... um filho que o marido considerava fraco, e manifestara as suas dúvidas sobre a sua capacidade de governação. Promovia agora outro filho, em detrimento do seu irmão D. Manuel.
Por esta razão fiz aquela pequena introdução sobre como a dualidade entre o projecto social e o projecto familiar poderiam entrar em profundo conflito na nobreza. Que rei seria capaz de ferir a sua própria carne? O pelicano de D. João II certamente que não ajudaria às interrogações de D. Leonor.
Houve assim suspeitas que não estivesse completamente alheada da cobrança que D. João II sofreu na carne, que o terá envenenado, irremediavelmente, vindo a morrer poucos anos depois (1495).

D. Leonor era de Viseu, D. João assumia a herança de Coimbra, do seu avô, o quadro apontava para terceiros culpados, os Bragança e as ligações a Castela/Espanha... Porém, a colocação das peças no quadro revela o génio, o bom e o mau... Aquele quadro, mas sobretudo o enquadramento da sua intemperança, poderão ter ditado a morte do artista... ou dos artistas, porque pouco mais se soube de Nuno Gonçalves. O seu nome foi até esquecido, e poderá ter sido confundido com outro, não é relevante. Lê-se na Infopedia que o último documento que o menciona em 1492 é já a título póstumo. Pensamos perceber porquê, mas se o "braço artista" do rei foi cortado, também parece ter sido o da pintura, durante alguns anos.
Passados muitos séculos, a sua arte viu a luz, ocultando-se a condução da composição, do rei. Temos dúvidas que Nuno Gonçalves possa ser banido por algum código da nobreza, ele não seria nobre, e pode até ter sido um simples executor de instruções reais, se as entendeu ou não, era irrelevante.
Compreendemos que num estrito formalismo, em que a sintaxe suplanta a semântica, a arte de D. João II seja ainda banida pelos circuitos mais conservadores, "vencedores" da velha querela.
Apesar de ter logo dito
"O clima fúnebre e sinistro do quadro, mantém-se hoje..."
... não esperava que esse tipo de mentalidade ainda estivesse tão activa, mas fui aprendendo.


14) A Relíquia
Não li ainda a obra de Eça de Queirós, mas já deveria ter lido.
Bom, no 6º painel, a que é dado o nome "relíquia", considerei que os personagens principais se tratavam dois sábios da confiança de D. João II, ou seja Mestre Rodrigo de Lucena, médico (ou "físico-mor"), e mais acima Mestre José Vizinho, matemático, de origem judaica.
O escrito anterior reforça essa hipótese e por isso pouco tenho a acrescentar de novo. Noto agora que a existência de dois livros, um em latim, e outro em hebreu, mesmo em segundo plano, poderá ter aberto outro problema - religioso.

A interpretação de que a relíquia se tratava do osso do crânio de D. Afonso mantém-se válida, disse então:
                         A relíquia, o osso craniano, pode ser uma alusão ao defunto Afonso, indicando a fractura da futura cabeça do reino. Falta a relíquia - o cérebro, para ler tudo o que o painel representa. Falta ainda o cérebro para prosseguir a herança do conhecimento de Avis - é essa a relíquia que o Mestre Rodrigo nos mostra.

Só para esclarecer eventuais mal-entendidos que, como sabemos há muitos, quando referi que faltava  "- o cérebro para ler tudo o que painel representa...", estava obviamente a referir ao de um qualquer observador! Não considerei que o intuito do quadro fosse um enigma por resolver, apenas é visto assim pelas condicionantes que se criaram à sua volta.

Não falei da caixa, e nem tinha reparado que se considera outra, preta, no 1º painel. Admito que possa ser o caixão que foi temporariamente aberto para permitir toda a representação, juntando presentes e ausentes (a parte preta seria a sua tampa).

Quanto ao "velho", que nem tem a barba bem feita, trata-se claramente de uma figura popular, talvez quem tenha descoberto "a relíquia", ou levado o corpo do príncipe morto. Por outro lado, será genuinamente a única figura que não frequentava o paço real, o povo distante de Lisboa. A melhor compreensão deste painel passará ainda por identificar os dois personagens nos bastidores, algo que nem sequer tentei.


15) Navegar
O 4º painel, de que pouco falei até aqui, considerei-o dos "navegantes", genericamente.
Adiantei uma possível identificação de Gama, talvez Paulo e não tanto Vasco, não especifiquei, porque creio que Paulo, mais velho, seria o preferido por D. João II, mas para reduzir as explicações ao mínimo, não quis entrar em detalhes, na altura.
Assim sendo, com este nível de incerteza, não valerá muito a pena comparar imagens, mas o excelente quadro de Vasco da Gama atribuído a Gregório Lopes, poderia ser uma comparação possível, e com essa latitude não vejo impedimento que se tratassem de irmãos.

O caminho das Índias seria atribuído aos Gamas, pedido posterior de D. João II a D. Manuel (quando já se afigurava incontornável a sucessão), provavelmente por recompensa de outras navegações notáveis. Lembramos que havia uma "Angra dos Gamas" na Carta ou Portulano do Atlântico Norte, naquilo que poderia ser uma procura da entrada para a Passagem Noroeste, ou seja, outra ligação para a China. Se os Corte-Real a tentaram de novo, pode ter sido porque Paulo da Gama já era morto. Paulo recusara ser o protagonista da viagem de circum-navegação africana, mas acompanharia o seu irmão. Morreu na viagem de regresso e o seu barco, S. Rafael, foi queimado... Apenas resta dizer que, se assim foi, pelo menos a sua memória permaneceu nos painéis.

Do lado sul, convém lembrar que Pigafeta "descai-se" sobre a viagem de Magalhães, dizendo que Magalhães sabia de memória um mapa de Martin Behaim que teria o caminho do estreito... e como já dissemos, Behaim acompanhava Diogo Cão em 1483, quando foi declarada a chegada ao Congo (o suposto grande feito de avançar mais umas tantas milhas na costa africana, cheia de "praias difíceis"!).
Não se conhecem a Behaim muitas mais viagens, ou pretensões de outras navegações. Se Behaim tinha esse mapa, foi porque provavelmente acompanhou Diogo Cão na outra parte dessa viagem ao "Congo" - e pelo caminho descobriu assim a "Cola do Dragão", ou seja, o Estreito "de Magalhães"... em 1483.

A norte, Paulo da Gama, a sul, Diogo Cão, pouco importa, dois hipotéticos protagonistas das passagens americanas, ficariam colocados com um destaque de realeza, tal como Mestre Rodrigo, aliás.

Sendo este "Nuno Gonçalves" o segundo texto da série de sete que apresentava na altura, não iria logo descriminar estes detalhes, que foram aparecendo nos textos seguintes.

A batuta era dada a Paulo da Gama, mas para usar um caminho diferente, e isso justificaria a sua posterior recusa perante a oferta de D. Manuel. O quadro talvez mostrasse uma cedência parcial de D. João II - o caminho seria o oriental, mas não contornando África. Esse caminho teve D. João II muito tempo (7 anos) para o abrir, declarado o Monte Prasso (depois Cabo da Boa Esperança) em 1488, por um certo Bartolomeu Dias, cujo nome nos sugeriu Dia S Bartolomeu.
Esse caminho de S. Bartolomeu, manifestamente não parece ter sido pretendido por D. João II, mas foi depois retomado por D. Manuel, mas já com outro Gama.

Talvez... Paulo da Gama e Diogo Cão

A colocação neste painel de um D. Diogo morto, ou de um D. Manuel, levantaria ainda mais impossibilidades de qualquer aceitação de tal cenário numa corte plena de hostilidade. Mas D. João II não era hostil a D. Manuel, ainda jovem, por isso preferi considerar que poderia estar no 5º painel, dos "cavaleiros". A colocação de D. Diogo naquela posição talvez se referisse ao diferendo que houve entre ambos e que levou ao seu assassinato... era possível que D. Diogo pretendesse aquele protagonismo de descobertas para a nobreza, para si! Se aquele era um rosto similar ao de D. Manuel, poderia constituir um "aviso de navegação", sobre atitudes similares, ou negociatas de partilha de explorações com os espanhóis.

Um pouco mais acima, temos dois personagens em destaque, mas mais difíceis de identificar.
À esquerda, pela sua idade, creio que pensei em Diogo de Azambuja, homem de confiança de D. João II, a quem confiara o Castelo de S. Jorge da Mina (outro santo escolhido), à direita acho que não pensei em nenhum candidato, mas haverá certamente muitos, e entre aqueles cuja história o nome não lembra. Não creio que seja necessariamente um navegador, talvez alguém mais ligado à parte militar.

Acima de todos, surge um arcebispo, que dá nome ao painel. Pensei em D. Pedro de Noronha, não com razões especiais, para além de se poder ajustar... ou ainda em D. Jorge Costa, um arcebispo exilado em Roma, inimigo que considerava morto, e a sua colocação, próximo de Afonso de Bragança, poderia indicar essa hostilidade. Como já foi notado por outros, a sua jóia assenta no "barrete mal cosido" de D. Diogo/ D. Manuel. Isto favorece a dupla representação, já que Roma certamente que apoiaria D. Manuel e não D. Jorge (que tem apenas uma pequena pérola no seu "barrete", contrastando com a magnífica jóia que "acidentalmente" fica no barrete de D. Manuel).

Para compensar aquela figura hostil morta/viva, que se oporia em Roma aos planos de D. João II, procurei saber os bispos que seriam seus eventuais aliados, enumerando Coimbra, Tanger e Algarve, e também o Prior do Crato...
Como é óbvio, tudo isto foram apenas suposições secundárias, com uma escolha de personagens ligeira, com eventuais falhas, mas que em nada afectava a interpretação global já avançada.

Finalmente, é claro, a corda no chão contribuiu bastante para esta associação às navegações.
D. Leonor tem no seu símbolo de camaroeiro uma corda, provavelmente ligada à rede, mas não creio que se tratasse dessa ligação.
Se a ideia do quadro era uma união através daquela corda, há pelo menos uma ponta solta, e até uma sombra rectangular, demasiado errada, parecendo uma emenda.
As cordas farão parte integrante da chamada "arquitectura manuelina", mas já se nota a sua presença em muitas construções, ainda no Séc. XV.


16) Últimos Cavaleiros
Já fui descrevendo porque considerei a ambivalente a possibilidade de D. Manuel estar representado  também neste painel, acima do pai D. Fernando de Viseu, e do seu tio-avô, o Infante D. Pedro.
Esta seria uma linha em que D. João II poderia mostrar à sua mulher, D. Leonor, que a prezava, por aquela ascendência paterna, e não pela sua outra ligação materna, que através de D. Beatriz tocava o "lado Bragança", como mostrava no painel simetricamente oposto. Este seria o painel para uma ligação Coimbra-Viseu, que invocaria o avô/tio-avô D. Pedro, o tio/pai D. Fernando, e o primo/irmão D. Manuel.
Poderia ter considerado o Infante D. João, não fora quebrar a "regra das mãos", e daria seguimento acima, para o "Infante Santo, D. Fernando", onde se vislumbram sinais do seu martírio africano, quer pelo capacete, que já foi entendido, por outros, mostrar em reflexo a "janela de Arzila", da sua cela.
No entanto, podemos considerar a omissão do Infante D. João pelo seu casamento com Isabel de Barcelos, e para mais, remetemos ao comentário sobre o painel dos "pescadores".

Era mais natural ver a seguir a D. Pedro, de que já falámos, D. Fernando de Viseu, um tio que provavelmente D. João II admirava, pela sua faceta de navegador pelas paragens atlânticas, americanas, mais do que pelo simples facto de ser pai de D. Leonor.
D. Fernando de Viseu estava já morto, e desde essa data tinha sido a mulher, D. Beatriz, a dirigir a Casa de Viseu, e não só... tornou-se na única mulher a ser Mestre da Ordem de Cristo, sucedendo assim ao seu marido, e não deixando de financiar expedições a ocidente.

Ora, estando D. Fernando morto, mais uma vez colocava-se o problema "das mãos", que não estavam em sinal de paz, mas por outro lado também não se viam, porque era o único elemento da composição com luvas. Assumi que isso poderia ser entendido como uma excepção, dadas as luvas, e o seu "não descanso"...
Quanto a uma comparação com um retrato conhecido, dificilmente se pode considerar muito favorável.
No retrato mais antigo usa barba, e não são visíveis grandes detalhes do rosto. A linha do nariz não é incompatível, mas está longe de ser convincente. Ainda que o retrato antigo não seja de grande qualidade, os olhos e a ligação ao rosto não parecem condizer.
Poderá ser outro personagem, mas estragaria a lógica deste painel (não dos restantes).
Bom, mas foi com base nessa eventual lógica que prossegui para o seu filho, D. Manuel (talvez trocando feições com D. Diogo), e acima apareceria, algo deslocado, o Infante Santo.
A sua presença teria lógica como um aviso sobre a vontade de Cruzada, que era herdada por D. Manuel pela Casa de Viseu, do Infante D. Henrique.
O que se teria passado com o sacrifício do Infante D. Fernando arriscava a voltar a acontecer com a ideia de Cruzada pelo Índico, em direcção a Jerusalém, pela "retaguarda".

Foi assim que entendi, e preferi a lógica do conjunto à maior ou menor parecença dos retratos.

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Creio que abordei extensamente os diversos pontos que levantei, e alguns que outros levantaram, já que da outra vez fui necessariamente breve nas explicações, que me demorariam todo este tempo e detalhe.
Agradeço ao Clamente Baeta ter despertado de novo o assunto, que estava enterrado, para mim. É tempo de voltar a fechar a tampa do caixão e dar nova paz a este assunto.

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publicado às 07:56


Peças dos Painéis de S. Vicente (3)

por desvela, em 06.01.13
continuação 
de Peças dos Painéis de S. Vicente (2)

9) Camaroeiro
Reduzimos as possibilidades a dois eventos marcantes no reinado de D. João II:
  • (iii) 1484 - Assassínio de D. Diogo de Viseu, irmão da rainha, por D. João II;
  • (iv) 1491 - Morte de D. Afonso, e fica D. Jorge como candidato ao trono;
Na hipótese (iii) não fazia muito sentido um perdão sobre a morte de D. Diogo, se ele aparecesse como um mero personagem no quadro, sem destaque especial. 
A hipótese (iv) teria a favor a questão da "barba rapada", que se estende a todos os elementos de bastidores, sem excepção, tratam-se de 35 pessoas, havendo mesmo apenas 3 com barba pronunciada no conjunto de 60. Uma questão que se levantava: - era isso comum à época?... Ora, sabemos que ao contrário, a barba era normal, que D. João II usava barba, e aproveitamos para comparar retratos conhecidos de D. João II, com o constante dos painéis:
Os outros dois rostos divulgados não são muito semelhantes entre si, e se há algumas semelhanças são também encontradas na imagem dos painéis. Em ambos os casos D.João II tem barba, que usava normalmente, e só cortou pela ocasião da morte do filho.

Porém, aqui também se impõe a pergunta... se houvesse um talento como o de Nuno Gonçalves na corte, teria sido só aproveitado numa ocasião? A corte recorreria a outros pintores inferiores para os seus retratos? Nuno Gonçalves ficaria apenas com 4 ou 5 imagens de santos? 
Há até quem já o faça morto em 1471, esquecendo a datação anterior 1470-80 quando a sua morte era apontada para 1492... Ora, Gonçalves havia muitos e Nunos também. 
Seja quem for, mais nenhum pintor aprendera nada com ele, para melhores retratos reais?

Adiante. Passamos a D. Leonor, cujo símbolo adoptado, após a morte do filho foi o camaroeiro, simbolizando a rede em que Afonso lhe terá sido trazido, por pescadores. 
Há um painel, denominado "dos pescadores" e que tem uma rede... 

Só este pormenor seria razão mais que suficiente para a suspeita imediata, e por isso se houve alguma primeira teoria, creio que terá sido essa. Estou longe de pensar que esta tese de 1491-92 tivesse sido colocada aqui pela primeira vez... muito pelo contrário, terá sido provavelmente a primeira tese, se calhar dos Bordalo Pinheiro, que viram o quadro (1882). Um dos irmãos, Rafael, até se acabou por estabelecer (1884) no local de eleição de D. Leonor - as Caldas, e será uma farpa de Ramalho Ortigão (nascido nas Caldas da Rainha), que retomará o assunto dos painéis, entretanto "esquecidos", de novo. Uma coincidência, certamente...

Na altura de Bordalo Pinheiro não havia exames por Raios X, e parece agora que a rede não será visível a essa inspecção... talvez haja outras redes a serem inspeccionadas. Ora, conforme é bem observado em paineis.org, no exame radiográfico parece que se vêem pelo menos as bóias de cortiça, e portanto, entramos na "mitologia dos exames que dizem coisas". Os exames não "dizem nada", as pessoas é que falam e escrevem. Basta olhar para uma radiografia (paineis.org) e ver que a intensidade pode esbater contrastes, mal permitindo ver os contornos das pessoas nos bastidores. Assim, é natural que não apareça a rede!

Agora, se a radiografia mostrasse um ramo nas mãos de Pedro, aí sim, aí tínhamos espiga!
Tra la spica e la man qual muro e messo...  

Uma coisa é um olhar primevo, e outra coisa é o olhar educado... porque o olhar educado tende a seguir um caminho trilhado, e a procurar onde lhe é sugerido. Ainda que se afaste, já avançou muito no trilho. Só assim consigo explicar que a maioria dos estudiosos nem sequer refira a hipótese de os painéis serem posteriores a 1480. Refiro-me a estudiosos e não a conhecedores - os estudiosos não sabem e procuram saber, ao passo que os conhecedores, porque lhes foi dito, já sabem, e basicamente estudam os estudiosos. Os estudiosos não sabem que os outros sabem... e se quiserem mesmo saber, com alguma cerimónia, podem candidatar-se a "conhecedores".
Este apontamento é dirigido a curiosos e estudiosos, e críticas sérias são bem vindas. 

Adiante. Temos portanto uma rede, um camaroeiro, uma Rainha, Leonor... a data é 1491-92, confirmado pelas deduções anteriores. A rainha parecer-se-à com Leonor?
É dito que Leonor seria alourada, e os cabelos da rainha, ainda que apanhados, sugerem isso.
Quanto ao rosto, vejamos a comparação com um quadro conhecido:
As feições parecem-me razoavelmente semelhantes (à época dos painéis seria bem mais velha), e sobre a curva do "nariz torcido", onde pode levantar-se dúvida, nota-se também uma inclinação vincada no outro quadro. O pescoço nos painéis parece mais comprido. Mas há uma desproporção e uma técnica mais arcaica no quadro mais antigo. Só as mãos estão "melhor" que em Nuno Gonçalves (que não parece dar muita atenção ao desenho das mãos em todo o painel). Se os painéis fossem anteriores ao quadro da rainha (c. 1475), parece pois que Nuno Gonçalves e discípulos andariam ocupados a pintar santos...

Vejamos ainda o ornamento das vestes de Leonor, no quadro mais antigo. Esse será um "padrão da moda", no final do Séc. XV e também o vemos nos painéis. Depois há a questão da manga... é vermelha, tal como nos painéis, e cobre razoavelmente a mão.

Ainda sobre a moda no vestuário, fui reler um pouco, lembrando profundamente os confrades do Vinho do Porto. E falando em barretes, e chapelões, recordei a figura algo caricata de Afonso V, não pelo chapelão, que o tio é que ficou com ele, mas pelos seus sapatos bicudos. Era esse o outro ponto que tinha contra a tal possibilidade do quadro ser de 1445-50, pelo menos. Pelo menos, porque essa moda durou mais de um século, circa 1470 ainda encontramos quadros com esses sapatos, manifestamente já ausentes dos painéis.
Ambas as imagens parecem ter a proveniência de Georg von Ehingen,
que entra ao serviço de Afonso V c. 1460 (a imagem é suposta ser c. 1470 - ver)

É claro que poderíamos estar com uma antecipação de moda (parece que tudo pode mudar para justificar um quadro...), mas o jovem Afonso V cometeu a imprudência de usar outros sapatos, e não as botas, que só entram na moda no final do século XV, e que são usadas nos painéis.


10) A Rede
E quem são os personagens no Camaroeiro de Leonor, ou antes, "apanhadas na rede"?
Aqui começa a ser mais complicado... porque há várias "redes", mas só uma visível no quadro (com ajuda de exames alguns concluiriam que nem essa deveria ser vista...).
Bom, mas a rede visível engloba três personagens, a primeira personagem em destaque dificilmente a vejo como um homem, tudo indica que se tratará de uma "velha senhora", tem feições que sugerem isso. Ocupa um grande destaque em toda a composição. Poderia ser um "modelo indistinto"? Precisaria esse "pescador" de alguém, a seu lado, que parece "conspirar ao ouvido"? E quanto ao homem nos bastidores, que "passou por ser Salazar", quereria ele ver-se no meio daquela rede? Porquê?

A composição tem os painéis alinhados com a perspectiva dos azulejos, e por isso não há nenhuma troca de painéis (como também já foi sugerido). Em paineis.org faz-se ainda notar que a iluminação neste painel é diferente... e nessa boa observação não tinha reparado. Isso ajuda a teoria da "rede", os restantes estão iluminados pelo sol nascente, e os conspiradores pela luz do poente. Não é a mesma luz que os ilumina, e por isso os seus caminhos são outros, desviantes

Compreenda-se que estamos a entrar nos detalhes, e nada tem a ver com a datação... apenas se procura não deixar vazio o restante enquadramento, tentando dar-lhe um maior sentido global.
Poderíamos ser mais "politicamente correctos", e deixar os restantes personagens fora de  identificação. Estão identificados os principais personagens, a data, o motivo (promoção de D. Jorge a sucessor), e poderíamos deixar os pescadores no abstracto, falar numa penitência, nas preces dos frades, etc... Porém, o nosso único cometimento é com a consistência global, verdadeira, e não com uma educação condicionada.  


11) Os fundadores de Avis. 
Vejamos os 1º e 2º painéis, ditos dos "frades" e "pescadores".
No 2º painel, apesar da direcção da luz oposta, há uma sombra mal definida, no outro sentido, junto ao penitente prostrado no chão. 
Apesar de ter sombra (no painel até os santos têm), esse penitente em destaque estará morto pela "regra das mãos"... Ora, estando morto, isso dá uma grande indeterminação para o personagem, é preciso encontrar algum motivo que o coloque em tão grande destaque e em penitência, no painel da "rede".
Tratando-se da época de D. João II, é sabido que o seu maior problema conspirativo é com a Casa de Bragança, a quem fez executar o Duque Fernando, e também com Viseu, assassinando o Duque Diogo.

A origem da Casa de Bragança remonta à união da filha de Nun'Álvares com o filho primogénito de D. João I (porém em casamento anterior ao pai ser rei), ou seja, Afonso feito depois 1º Duque de Bragança. Portanto, poderia ser Afonso, mas num lugar de tão grande destaque, parece ser o próprio D. Nuno Álvares Pereira. Nun'Álvares que se dedicou no final da sua vida a uma reclusão monástica carmelita.

Comparemos os retratos, notando ao mesmo tempo que no 1º painel, em 1ª posição surge uma figura, também com as mãos juntas, cujas feições se podem assemelhar às de D. João I.

Quanto a Nun'Álvares, há uma coincidência fisionómica razoável, a começar pela sua calvíce e longas barbas. Em ambos os quadros o nariz é pronunciado, mais fino no retrato do que nos painéis (e por isso colocamos uma outra pequena imagem, que mostra que o nariz "não seria tão fino quanto isso").
Quanto a D. João I, apesar da imagem antiga não permitir grandes detalhes, há uma considerável semelhança, talvez à excepção do queixo, feito muito delicado na imagem histórica.

Se seguirmos o 1º painel, dos frades, vemos ainda um personagem de longas barbas, tal como D. Afonso V iria usar: 
Isso levou-nos a suspeitar que os "frades" representassem o seguimento da linha de D. João I, tendo pelo meio D. Duarte, e aqui D. Afonso V. Não temos nenhum comparativo com a imagem de D. Duarte (que já foi até visto com a imagem do Infante D. Henrique, numa certa ousadia interpretativa), temos apenas um pseudo-retrato formulado uns séculos depois, e a visita ao túmulo da Batalha não é muito mais eficaz - mas não se vislumbra grande barba:
A eventual imagem de D. Duarte nos painéis (que parece usar uma ligeira barba branca), parece adequar-se à escultura do túmulo (falta imagem melhor), e não tanto à da suposição posterior (creio que do Séc. XVI).
Esta suposição baseia-se mais na procura de coerência na composição, não afectaria muito o restante ser outro personagem.

Assim, este primeiro painel, teria como "frades" falecidos - a sucessão de Avis, anterior a D. João II. Ou seja, começando com D. João I, subindo para D. Duarte, próximo do seu filho D. Afonso V, pai de D. João II. Acima deles estão outros 3 personagens que já não pertencem à realeza... será complicado determinar, talvez os mestres das ordens, não sei, não me parece relevante para a compreensão do conjunto.


12) A pesca 
Passamos de novo ao 2º painel, dos pescadores.
Acima do penitente, que julgamos ser Nun'Álvares, está um grande espaço, parecendo faltar um personagem. A sua sucessão dá-se com D. Afonso de Bragança, que pensámos ter ido parar ao painel seguinte. Porquê?
Porque se não estivesse faltaria alguém do Ducado de Bragança. O pequeno D. Jorge seria já duque de Coimbra, a duquesa de Viseu está presente, e o primeiro duque, D. Henrique, também. Seria formalmente incorrecto deixar de fora o ducado de Bragança, nesse conjunto real. A solução encontrada poderá ter contribuído para a morte dos artistas (há dois... o pintor e o rei que certamente supervisiona).
Aceitando ser o velho Afonso de Bragança que sai do 2º painel para o 3º, vejamos onde ele é colocado... ao nível dos bastidores, acima do Infante D. Henrique. Tem algum destaque, mas é relegado para uma posição que afectaria a sua posição ao nível da nobreza. Especialmente porque no 4º painel, o rei vai chamar ao primeiro plano, semelhante ao real, os seus navegadores. Isto seria uma afronta velada, mas minimamente correcta na formalidade da composição. Por cima de D. Beatriz surgiria provavelmente um outro Bragança, que esconde as mãos... poderá não ter paz, pela execução, poderia ser Fernando, o neto de Afonso, executado por D. João II.

Estaria assim um par, D. Beatriz de Viseu e por cima D. Fernando II de Bragança, e outro par, D. Henrique de Viseu e por cima D. Afonso de Bragança... e teria significado.
Henrique e Afonso foram o primeiro par aliado de Viseu e Bragança derrotando D. Pedro (de Coimbra). Implicitamente, D. João II colocaria aqui Beatriz e Fernando como segundo par aliado de Viseu e Bragança, contra si, que se via como herdeiro do avô D. Pedro de Coimbra.
A confirmar-se esta "solução artística" no painel, iria bater forte, em particular na herança Bragança, sempre questionada pela sua ascendência nobre "meio bastarda".

Deveria ainda haver outra intenção - a sua inclusão ali procurava dar uma outra mensagem, porque D. Jorge também era considerado bastardo (... o rei não poderia admitir outra coisa, e não adianto mais).
Se o velho Bragança se considerava injustiçado, pelo casamento posterior do pai com D. Filipa de Lencastre, que o afastou do trono e afectava a sua nobreza, a questão da sucessão por D. Jorge envolvia conceitos semelhantes. Acresce que o próprio D. João I não seguia da linha directa, e era um bastardo legitimado pela Revolução de 1383-85, onde foi apoiado por Nun'Álvares (ele próprio não primogénito, batendo-se contra o irmão em Aljubarrota).
Estes personagens, pela sua importância, fariam ainda sentido no espaço seguinte a Nun'Álvares, mas seriam colocados no painel principal, para efeitos formais e procurando evidenciar a base moral de legitimação de D. Jorge.

A personagem seguinte acima de Nun'Álvares, tem essa ambiguidade de poder ser vista como um pescador, mas parece-me uma velha senhora, e pela "regra das mãos" estaria morta. Era muito mais fácil encontrar um candidato entre "homens mortos", facilmente colocaria ali D. Fernando II de Bragança. Mas, estando convencido que se tratava de uma mulher, não poderia ser a sua mulher Isabel de Viseu, que era viva, sendo natural aliada da mãe e da irmã contra a pretensão do executor do seu marido, obviamente apoiando o irmão D. Manuel e sendo contra D. Jorge.

Há assim uma ambiguidade, também de género, e permitiria vários candidatos, mas considerei a hipótese de ser uma evocação de D. Isabel de Barcelos, pelas várias ligações. Por um lado, era filha de Afonso e tia de Fernando II de Bragança, por outro lado, era mãe de D. Beatriz, e principalmente porque se retirou para Castela, onde viveu com a Rainha, sua filha, e com a neta, a futura rainha de Espanha, Isabel, a Católica. Quatro ligações a opositores de D. João II e à Casa de Coimbra.

A múltipla ligação atingia ainda vários problemas que induziram conflitos entre Portugal e Espanha. Do casamento da filha de Isabel de Barcelos com D. Juan II de Espanha, surge um problema de sucessão entre a neta D. Isabel e a sobrinha de Afonso V, D. Joana.
D. Joana, neta de D. Duarte,
a "Excelente Senhora" (ou a "Beltraneja").

A pedido do pai, Henrique IV de Castela, D. Afonso V tomará o partido da sua sobrinha Joana, e irá casar-se com ela - seria uma união ibérica com centro em Lisboa, o que não agradava certamente aos castelhanos, pelo mesmo motivo que o oposto não tinha agradado aos portugueses um século antes.

Os castelhanos duvidaram da paternidade chamando-lhe "Beltraneja", e viraram-se para Isabel, a neta de Isabel de Barcelos, que tinha casado com Fernando de Aragão. A Batalha de Toro é decisiva, e a derrota de Afonso V só é compensada pelo auxílio das forças do filho, João II.
Se D. Joana não está presente no quadro, não deixa de estar presente nos motivos do quadro. O seu sobrinho, D. João II, não deixará de considerar a também "madrasta" como "Excelente Senhora", sendo mais uma vítima dos processos cortesãos, de "selecção natural dos espécimes".

Sem Joana no caminho, forma-se a Espanha dos Reis Católicos, que entra em acordos de paz com Portugal de D. João II, através da mediação de D. Beatriz de Viseu, no Tratado de Alcáçovas. A mesma Beatriz, que era mãe da rainha D. Leonor, mas também a tia comum aos reis de Portugal e Espanha, promovendo um novo casamento, agora entre a sobrinha-neta e o neto... e com o neto morto, casaria de novo com o filho, D. Manuel.

Regressamos a D. Isabel de Barcelos, mãe de D. Beatriz e tia de D. Fernando II de Bragança.
Para D. João II, poderia ser natural ver naquela filha de Afonso de Bragança, uma representação de um problema de gerações: - o pai dela estava na causa da morte do seu avô, a neta na derrota do pai, o sobrinho na conspiração contra si, a tudo isto junta a morte recente do filho Afonso... Ou seja, quatro gerações apareciam como vítimas da hostilidade da Casa de Bragança, e da aliança com Viseu.

Falta falar do homem que está ao seu lado (de Isabel de Barcelos), parecendo-lhe segredar algo, e assim virado a ocidente... para efeitos do quadro não é muito importante, acho que não perdi tempo com isso. Está dentro da "rede"... a sua orientação pode já ter a ver com os planos de partilha das descobertas, que seriam oferecidos aos espanhóis através da personagem Colombo. Pode ser D. Álvaro de Bragança, ainda vivo, refugiado em Castela desde a morte do irmão Fernando. É próximo de Isabel, a Católica, que lhe dará posses em Espanha, regressará a Portugal logo após a morte de D. João II. Poderá segredar os planos colombófilos ocidentais à neta de Isabel de Barcelos, também Isabel, assim numa identificação intemporal.

O homem de bastidores, ainda dentro da "rede", poderá ser visto como um executor do "acidente" que vitimou o príncipe Afonso. Se alguém quis ver aí Salazar, dificilmente terá sido o próprio, a menos que ele estivesse convencido da versão "frades, pescadores... e Companhia". Nesse caso estaria talvez a ser vítima de uma piada cortesã, de piadas e boatos que se disseminam como doença, numa sociedade fragilizada pelos códigos e segredos da grande confraria lusitana. Outra possibilidade é que o sistema estivesse tão seguro de controlar educacionalmente a versão oficial, que até a incorporasse como teste...
De qualquer forma, esse "boato" acabou por divulgar ainda mais a existência dos painéis.
E, se nessa época se divulgou a imagem do Infante com uma sustentação sólida, não se usou mais nenhuma, as restantes ficaram como incógnitas. Ao contrário, hoje vemos divulgados rostos associando as caras dos painéis a figuras históricas, com base nas mais frágeis teorias. A próxima geração, como novo teste, terá que perceber adicionalmente que os rostos que lhes eram familiares, eram afinal meras suposições.

[continua]

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publicado às 05:09


Peças dos Painéis de S. Vicente (2)

por desvela, em 03.01.13
Este texto surge na sequência da interessante troca de comentários com Clemente Baeta, a propósito dos Painéis de S. Vicente, e segue também dos textos:

Quando escrevi a hipótese dos Painéis retratarem a questão da sucessão de D. Jorge após a morte de D. Afonso, filho de D. João II e D. Leonor, considerei várias coisas, muitas das quais já nem me lembro. Em compensação, hoje tenho também mais informações. 
Há um site excelente, paineis.org que tem múltipla informação, e avança outras hipóteses. Longe de criticar quem questiona, interessaria que houvesse outros assuntos fundamentais questionados, e não sempre os enigmas "mais popularizados".
Porém, como é óbvio, tenho múltiplas razões para continuar a preferir a teoria de 1491-92, para a execução dos painéis. Se não tivesse, já teria avisado... 
Fica aqui uma síntese, procurando agora mencionar aspectos das outras teorias correntes.


1) Datação pelo quadro 
A datação habitual dos painéis era 1470-80. As análises de datação anteriores tinham sido inconclusivas, até que em 2001 leu-se o número 1445 numa bota. Foi então feita uma análise dendrocronológica às pranchas de suporte que terão revelado ser madeira colhida no Báltico entre 1442-52 (cf. Nuno Crato). 
Cientificamente, isso determinaria uma datação mínima (terminus post quem) e nada diz sobre a datação máxima (terminus ante quem). Por isso, pareceu-me natural fruto de entusiasmo ver pessoas que divulgam rigor esquecerem alguns detalhes, e apressarem-se numa conclusão de datação.
Essa data, como se lerá hoje na wikipedia, colocaria a pintura portuguesa na vanguarda máxima da pintura europeia, saindo do zero, e voltando ao zero... pois não se conhece mais nada de semelhante no Séc. XV português. 
Isso não é impossível, mas seria de um impressionante auto-didatismo.

Sobre a dendrocronologia. Como toda a ciência, os sistemas de datação assentam em hipóteses que não devem ser esquecidas. Um dos problemas é que os processos são calibrados aceitando mudanças "convenientes". Para dar um exemplo, imagine-se que um novo sistema de datação atribuía 1000 anos ao Parténon... ninguém iria duvidar da idade do Parténon, mas sim do sistema de datação! É assim que as coisas funcionam, por isso os sistemas de datação não são ciência pura, são ciência contaminada com convicções prévias.
No caso da dendrocronologia assume-se um crescimento regular dos anéis em anos bons, e pior em anos maus, devido ao clima, ainda afectado pelos ciclos de manchas solares (11 anos). É claro que isto esquece múltiplos factores, que têm a ver com o crescimento da árvore em particular, por exemplo, doenças, insectos, parasitas, etc. 
Assumindo que se tem um registo do clima em todos os anos, pode reduzir-se a procura num intervalo, e ver quando o registo de anéis corresponde ao registo do clima. Obtida a concordância, e como normalmente os anéis crescem um por ano, pode ter-se uma data precisa.
No entanto, isto funciona se: (i) o registo de clima for fiável ano-a-ano, (ii) o número de anéis for adequado, (iii) haver uma outra datação que reduza as possibilidades. 
Os problemas em (i) podem ser reduzidos por calibração (com datas assumidas), e os problemas em (iii) podem ser reduzidos por informação que reduza o intervalo de possibilidades.
Resta (ii), o número de anéis - o que pode ser complicado em tábuas. As tábuas são cortadas na vertical, habitualmente nas partes mais exteriores - ficam poucos anéis, e é difícil "adivinhar" quantos anéis há até atingir o interior (ou o exterior).
Por exemplo, pegando na imagem do link que dei acima, identifico o que seria o perfil de um típica tábua extraída do interior (rectângulo vermelho), e que apenas conteria informação de alguns anéis - o resto tem um pouco de ciência e um pouco de fé... adivinhar partindo da imagem a negro:
  

Ainda assim, admitindo que as tábuas tinham nós suficientes para uma datação precisa, surge o terminus ante quem, que é como quem diz, para um quadro que é suposto durar séculos, ninguém vai pintar sobre madeira fresca... convém dar alguns anos para a maturação da madeira. Seria natural que as madeiras mais antigas se destinassem a quadros mais importantes.

Portanto, a dendrocronologia, que ainda tem muito para provar a si própria, não prova nenhuma datação do quadro, conforme foi pretendido - no máximo arrisca uma data para o derrube das madeiras.


2) Datação pela arte
A pintura de Nuno Gonçalves é importante, independentemente de se datarem mais ou menos anos, e ganhará maior importância admitindo o que representa...
É curioso que a madeira das pranchas tenha vindo do Báltico, porque era também essa a origem dos quadros dos primeiros pintores holandeses. E nesse aspecto convém referir os Van Eyck, pois o "Retábulo do Cordeiro Místico" (1432) tem um Adão e uma Eva com um realismo surpreendente para a data de execução. Este caso de "antecipação" pode favorecer uma tese de 1445, mas a grande diferença, é que no caso da pintura holandesa não é caso único, não surge do zero, nem volta ao zero... 
Noutras paragens, temos outros pintores de vanguarda na técnica, por exemplo, um Konrad Witz (1444) ou um Jean Fouquet (1450), mas é habitual considerar que a maior influência europeia acabou por surgir de Itália. 
Ora é da escola de Squarcione, que temos o notável Andrea Mantegna, que tem um admirável S. Sebastião (c. 1455-60), que aqui comparamos com o "S. Vicente" atribuído a Nuno Gonçalves.
 
Andrea Mantegna (S. Sebastião, 1455-60); Nuno Gonçalves (S. Vicente)

Há várias semelhanças e várias diferenças, mas são as semelhanças que me colocam a hipótese de relação entre as duas composições (p.ex. posição na coluna e chão geométrico). O quadro de Nuno Gonçalves não tem paisagem, nem uma "ilusão"(?!) de Mantegna, com a nuvem:
no S. Sebastião de Mantegna

Mantegna irá fazer outros S. Sebastião (ver) com características diferentes (e se há mais "ilusões" escondidas, não as encontrei mencionadas). Não é de excluir que o atelier de Mantegna tenha influenciado Nuno Gonçalves. No reinado de D. João II havia uma ligação "instrutiva" com Veneza, com Florença e os Medici, conforme vemos na correspondência de D. João II, e essa era uma zona de influência de Mantegna.

Há ainda uma datação pelo vestuário. Não sei quase nada sobre o assunto, mas li nessa altura um artigo de Dagoberto Markl que mencionava os detalhes, praticamente arrasando uma datação de 1445 ou similar.


3) Datação pelos personagens
Vamos aceitar que no 3º painel, dito do Infante, está uma família real, ou seja, Rei, Rainha, e um jovem Príncipe. 

As possibilidades para o jovem príncipe, admitindo uma idade entre 8 e 12 anos, reduzem a datação:
 (i) Afonso V (n. 1432) - datação: 1440-44;
(ii) João II (n. 1455) - datação: 1463-67;
(iii) Afonso (n. 1475) - que morre em Santarém, datação: 1483-87;
incluo uma quarta hipótese, porque D. Jorge é colocado como pretendente ao trono após 13/7/1491:
(iv) D. Jorge (n.1481) - filho de D. João II, datação: 1491-93.

Repare-se que só este aspecto exclui a hipótese tradicional 1470-80.

Falta agora juntar o par real, ao príncipe. As hipóteses de "rei" e "rainha" seriam:

(i) -- D. Pedro (n. 1392), regente, ou uma invocação de D. Duarte (já morto, 1438).
----- D. Leonor de Aragão (viúva exilada, n. 1402).

(ii)-- D. Afonso V (n. 1432), com 23 anos em 1465.
----- D. Isabel de Coimbra (n. 1432, mas morre em 1455)

(iii) - D. João II (n. 1455), com 30 anos em 1485.
------ D. Leonor (n. 1458), com 27 anos em 1485.

(iv) - D. João II (n. 1455), com 36 em 1491.
------ D. Leonor de Viseu (n. 1458), com 33 anos em 1491.

Aqui há um problema de estarem todos vivos à data de execução. 
Em caso afirmativo, exclui-se a hipótese (ii), e a (i) também fica complicada, dado que D. Duarte está morto, e caso fosse D. Pedro, teria cerca de 50 anos. Não é muito verosímil também a inclusão de D. Leonor de Aragão entre 1440-45, pois estava excluída do reino. Excluímos a hipótese de ser a mulher de D. Pedro, pois passaria por provocação régia, face à sucessão do sobrinho, Afonso V. 
Isabel de Coimbra e Afonso V em 1445 tinham 13 anos, por isso associá-los ao par real, é impensável (em 1455 já seria possível, mas o príncipe, D. João II nasce nesse ano e a mãe morre).

Os rostos do rei e rainha são de adultos, podendo estar na casa dos 20 ou 30 anos, dificilmente muito  mais que 40.
Ou seja, admitindo que se trata de uma família real, e que estão todos vivos, as únicas possibilidades restantes são (iii) e (iv) - ou seja, D. Leonor de Viseu e D. João II. 
Relativamente à fisionomia, talvez se ache mais natural a hipótese (iii), colocando os reis na casa dos 30 anos, mas nada impede as idades da possibilidade (iv).


4) Conclusões da datação dos personagens
Por uma simples inspecção dos personagens, admitindo que se trata de uma família real viva, ficamos reduzidos aos reis D. João II e D. Leonor.
É claro que há outras possibilidades - poderia nem tratar-se de uma família real, poderia ser outra nobreza, mas isso é inverosímil, dado todo o contexto envolvente. Os dois elementos principais poderiam não ser rei e rainha, haverá muitas possibilidades, mas também não convincentes.

Também poderiam não estar todos vivos, e isso é uma possibilidade que iremos considerar, mas não para estes elementos em destaque.
É evidente que tratando-se do reinado de D. João II, o Infante D. Henrique já estaria morto.

Um ponto que me parece fulcral é não forçar o global aos detalhes. Os detalhes não podem condicionar o global a algo inverosímil, podem é ajudar a encontrar o contexto correcto. Mas, no final, todos os detalhes devem ser colocados no seu lugar, ou seja, devem aparecer como detalhes, e não como peças principais. 
Não faz sentido colocar a obra como um enigma do pintor. Ainda que o pintor possa ter colocado enigmas no quadro, o quadro fez sentido à época para quem o viu, e é esse aspecto global que interessa encontrar primeiro. Só depois disso é que faz sentido procurar mensagens que o pintor quis deixar implícitas.

Quanto à datação artística, a menos que queiramos admitir um pioneirismo autodidacta de Nuno Gonçalves, tudo aponta para uma influência externa em Portugal. Poderia ter vindo de Konrad Witz, por razão das ligações de Afonso V com a Dinamarca, por volta de 1470, também poderia ter vindo através de Jean Fouquet, ou da Escola de Avignon, pela Borgonha, da Duquesa D. Isabel (filha de D. João I).
No entanto, encontrámos mais semelhanças com Andrea Mantegna, conforme já referimos. Isso por si só não é determinante, mas justifica a possibilidade de influência italiana, razoavelmente posterior a 1460. Não exclui a hipótese (ii) de 1465, mas faltaria justificar tão rápida aquisição de competências.
As semelhanças com Mantegna e as relações de D. João II com Florença parecem apontar para as datas (iii) ou (iv).
Para além disso, vemos que uma datação anterior a 1480, deixaria o seguimento da pintura portuguesa com um enorme espaço em branco. Aí a datação de 1491-93 é mais convincente no sentido da ligação a Grão Vasco, por exemplo.

Sobre a datação dendocronológica, ainda que as tábuas sejam mais antigas, permitindo uma datação mínima de 1442-1452, isso não condiciona a datação máxima, havendo até razões para considerar tábuas mais antigas, que já tivessem resistido a uma prova do tempo.


5) Mortos/Vivos
Quando se coloca uma datação à volta de 1465, ou posterior, temos o problema de estarem mortos o Infante D. Henrique e a Rainha D. Isabel de Coimbra.
Há alguma característica comum que permita identificar que a Rainha e o Infante estão mortos?
Não seria estranho, diria mesmo profano, misturar vivos com mortos, sem nenhum traço distintivo?
À época, creio que sim, e não conheço nenhum exemplo contrário, mesmo nos séculos seguintes.

Por isso, só escrevi a hipótese quando encontrei um factor comum que poderia distinguir mortos de vivos, à data de execução do quadro. 
Esse factor comum seriam as mãos unidas, como encontramos frequentemente nos túmulos antigos.
Poderá pensar-se que uns estão a rezar e outros não, mas não há razão aparente para só alguns estarem em sinal de devoção. 
Há sim uma forte razão para distinguir os que já pereceram, através da evidência das mãos unidas.

Seguindo as razões acima mencionadas, torna-se praticamente hipótese única ser um quadro do reinado de D. João II. 
Poderia ter D. Afonso ou D. Jorge como príncipes, pensados futuros reis.
Iremos abordar essa questão depois.
Primeiro vamos ver se é possível dar sentido aos restantes personagens do quadro, neste contexto.


6) Infante D. Henrique 
A identificação do Infante D. Henrique é erradamente tida como óbvia, porque é a única familiar a todos nós. Porém, se tivessem sido divulgado outras caras como sendo o Rei X, a Rainha Y, etc... então todos os rostos seriam familiares e ninguém colocaria sequer dúvidas sobre o quadro.
Isto é instrutivo para perceber como funcionamos por via da educação... aceitamos coisas como óbvias, sem pensar porquê.

Ora, aquela imagem do Infante D. Henrique foi popularizada durante a ditadura de Salazar, que praticamente a colocou "imortalmente" no  Padrão dos Descobrimentos, na liderança da epopeia.
Por isso, há conotações políticas actuais, e não completa objectividade, em assumir que aquela se trata da efectiva imagem do Infante D. Henrique.
Isso não foi feito com outras imagens dos Painéis, porque se tornara evidente que aquele era o Infante, pela sua semelhança com a imagem existente na Crónica da Guiné de Zurara. Colocamos aqui uma breve imagem que mostra a coincidência de rostos:


Por isso, a utilização da imagem do Infante D. Henrique não foi nenhuma escolha fortuita, foi baseada numa exacta coincidência com uma imagem de outro documento, que continha ainda a sua divisa "talant de bien faire".
Acontece que se duvidou recentemente da autenticidade da própria Crónica de Zurara, porque há uma notória mudança de aspecto entre a primeira e a segunda página.
Curiosamente, parece que não se duvida que o texto tenha sido alterado - obviamente o mais natural (e sabemos bem porquê), mas sim que a imagem fosse outra.

Ora, uma alteração da imagem parece-me algo de arrojada conspiração, e isto dito por mim, parecerá até estranho. Porém, digo isto porque não encontro motivo para substituição de imagens, a menos que fosse alguém que quisesse recolocar D. Pedro no seu devido lugar histórico. Aí tratar-se-ia do Infante D. Pedro e não de D. Henrique... só encontro esse motivo, e posso aceitá-lo. Outro, parece-me difícil.

Há porém uma série de argumentos, que estão resumidos aqui em paineis.org.
Destaco a questão da face esculpida no túmulo da Batalha, porque me parece o mais pertinente.

(i ) Há um rosto que não corresponde ao padrão da escultura da época, tem formas algo simplificadas, que não se ajustam ao outro detalhe. É perfeitamente natural que uma escultura exposta tenha sido danificada quase irremediavelmente, por algum partidário de D. Pedro, e certamente não faltariam candidatos ao trabalho, logo à época, e especialmente no reinado de D. João II.
No entanto, a escultura mantém traços que a ligam ao quadro em Zurara. O corte de cabelo e o lobo da orelha são practicamente iguais. O olhar também poderia corresponder sem dificuldade, é a parte inferior do rosto que tem maior mudança, graças a traços demasiado vincados, que não se coadunam com a malha fina que existe na coroa ornamental da cabeça. Aliás a parte inferior da cara parece ajustar-se de facto à de D. Pedro, talvez por deformação propositada, eliminando o típico bigode.
Por isso, se se considerar uma imagem errada em Zurara, num livro de guarda pessoal, não se pode deixar de considerar uma deformação quase evidente num busto exposto. Acresce que as coincidências notáveis na posição do corte de cabelo, evidenciam tratar-se de D. Henrique. A confusão com D. Pedro só aumenta pela coroa ornamental da cabeça, que é semelhante à que se vê no "retrato" mais jovem de D. Pedro. Talvez o trabalho de escopro tenha sido ao ponto de destruir o chapelão...

(ii) Há uma questão relativa à cor do cabelo, que me parece secundária, e resulta de uma nova proposta de transcrição na leitura do manuscrito de Zurara. Parece-me que pelo menos ambas as interpretações (a de João de Barros, e a nova) são possíveis, e João de Barros teria maior proximidade histórica, e outras fontes. 

(iii) Há depois a questão de uma eventual alteração da divisa com o moto 
"talAnt de bien fAi're".
O problema são os dois A maiúsculos... só que onde é vista uma adulteração, pode ver-se outro sentido. Ou seja, os A maiúsculos deveriam passar para o início das palavras, ficando
Atlant de bien Afri'e,
que é como quem diz "América por bem África"... juntando o moto de D. João I (por bem), e remetendo à questão do paralelismo América-África, notado também pela duquesa Medina-Sidonia.
O "fere" ao invés de "faire" não tinha o "i" conveniente, nem ao "talant" convinha o "e", haveria mais o empenho do talento nos talentos (moeda)... 

Para além disso, se é que interessa alguma coisa, poderia ainda ficar "Atlantide", e o rabisco no d pode não ser bem um rabisco, e mais um mini-mapa com a península da Florida... mas isso são conjecturas.
Como diria Frei Luís de Sousa, tem duas pirâmides dos reis do Egipto... sim, mas tinha uma em cada hemisfério, como se já soubesse que havia outras na América, ou pior, como se já preconizasse uma divisão dos hemisférios pelo meridiano de Tordesilhas. E assim, quem teve que "coser esse barrete", de "duas metades", foi o seu sucessor de Viseu, D. Manuel, mas esse é outro personagem.

(iv) A questão da simetria da cara nos painéis e na crónica... pode até ter uma explicação, mas não creio que seja vendo o quadro como uma "charada".  É uma oposição política. Na crónica de Zurara, o Infante está virado para Oriente, como sempre esteve, e é D. João II, na tentativa de legitimação de D. Jorge, que irá virá-lo para onde lhe convém...

Sobre o Infante D. Henrique acrescento a sua saída (expulsão) da Ordem da Jarreteira, talvez tenha preferido a Ordem do Tosão de Ouro, adoptado o chapelão do borgonhês do "confrade" Filipe, por bem, o Bom, seu cunhado. A dinastia podia omitir o passado bulhão, e a Ida, com os novos talentos, passaria a afrancesar o talento com um sangue afonsinho borgonhês, carimbado oficialmente.


7) Infante D. Pedro
Sobre o Infante D. Pedro, começo com esta descrição de Camões 7§77

(77)...
De um velho branco, aspecto venerando
Cujo nome não pode ser defunto
Enquanto houver no mundo trato humano:
No trajo a Grega usança está perfeita,
Um ramo por insígnia na direita.

78
Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!
Eu, que cometo insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.


A "grega usança" tomo-a como referência às vestes de D. Pedro, nem sei se alguma vez houve outro candidato para esta descrição de Camões. A imagem do jovem Pedro lembra-me os Evzones gregos.
Vemos nos panéis a fivela do cinto da Jarreteira, desapertada, e talvez a blusa evidencie uma "grega usança"... o ramo já não tinha, e se tinha, foi ocultado por uma espada. Essa espada, mal posicionada entre as mãos, e sem continuação notória do gume/baínha, parece ser uma inserção posterior (seria importante ter uma imagem radiográfica desta parte).

Já assinalei possíveis confusões entre as imagens de D. Pedro e do busto de D. Henrique no túmulo da Batalha, que coloco nesta imagem:
A semelhança mais importante é o ornamento da coroa (assinalo as folhas semelhantes com quadrados vermelhos).
Há ainda alguma semelhança na parte inferior do rosto, identificada em paineis.org. Como já referi, pode ter-se tratado de uma adulteração do busto inicial. O Mosteiro da Batalha, longe de estar imune a alterações, sofreu consideráveis mudanças. Relembro, por exemplo, a parte hoje vazia, e atribuída ao "soldado desconhecido". Faz falta uma outra, atribuída aos "navegadores e exploradores desconhecidos".

D. Pedro, estando já morto, cumpre o critério das mãos juntas, tal como D. Henrique, faltará só o ramo nas mãos, que nos parece ter sido substituído pela parte superior de uma espada.


8) D. Beatriz de Viseu e D. Manuel
Uma outra figura importante nos painéis é a da velha senhora, por cima da Rainha, dando uma possível ideia de parentesco, mas não só. As duas mulheres têm um lugar de destaque no conjunto.
D. Beatriz de Viseu, é mãe da Rainha D. Leonor, e é uma peça central na época.
Substitui-se quase ao Papa, como mediadora no Tratado de Alcáçovas, entre D. João II e Isabel de Castela, mantendo os filhos de ambos como reféns, nas Terciarias de Moura.
É portuguesa, mas aparece como "parte terceira", numa questão entre os seus sobrinhos, mas também entre Portugal e Espanha.
O seu filho é D. Manuel, e sucederá a D. João II, que preferia D. Jorge, seu filho "bastardo".

Há semelhanças físicas face a um outro retrato de D. Beatriz, onde aparece mais nova, mas com trajo religioso algo similar.
A figura retratada é religiosa, vê-se o terço, mas nos painéis não está a rezar. No outro quadro, D. Beatriz está a rezar, com as mãos juntas. Nos painéis não pode ter as mãos juntas, porque está viva à época. Nascida em 1430, teria 55 anos na hipótese (iii) de 1485, e 61 anos na hipótese (iv) de 1491. Uma idade próxima dos 60 anos é consistente com a fisionomia do seu rosto.

No outro painel, em posição semelhante, à de D. Beatriz, em oposição ao "príncipe",  aparece outro jovem, com o "barrete cosido" que identificámos antes com D. Diogo. Faço agora uma comparação com D. Manuel, com uns anos e uns quilos de diferença:
O contorno, da sobrancelha ao nariz, é muito semelhante. Nascido em 1469 teria 16 anos em 1485, e 22 anos em 1491.
Porém, há um detalhe, que me obrigou a afastar a hipótese de ser D. Manuel - o jovem parece ter as mãos juntas (só se vê uma mão), e assim, pela regra, estaria morto... Poderia por isso ser o irmão, D. Diogo, assassinado pelo rei em 1484.

A cerimónia em questão, c. 1485, seria assim uma reabilitação de D. João II, prostrado no chão, pedindo perdão à Rainha, sua irmã, e à mãe, D. Beatriz, pelo assassinato do filho.
O quadro seria encomendado para esse efeito...

Essa hipótese de 1485 estava para mim quase como definitiva, pela sua razoabilidade, até reparar num outro detalhe, pouco tempo antes de escrever o texto:
-  todos os personagens tinham a barba aparada, excepto os que tinham as mãos juntas.
Ou seja, os vivos tinham a barba rapada, e isso correspondia a um acontecimento preciso - a morte de D. Afonso, na queda de cavalo em Santarém.
O rei D. João II rapou a barba, e todos fizeram o mesmo, segundo Garcia de Resende.

Poderia haver uma excepção a essa regra, no 5º painel, que presumi ser o Infante Santo, D. Fernando. No entanto, na posição do personagem, a perspectiva não tornaria visíveis as suas mãos. Portanto, não havia uma quebra efectiva de regra, e todo o enquadramento faria sentido.

Faltava recolocar D. Manuel. Uma outra figura no 5º painel tinha algumas semelhanças com outro retrato de D. Manuel, e na altura considerei a hipótese de estar ali representado. No entanto, dadas as semelhanças com este retrato, é possível que estivesse ainda retratado na figura do Duque de Viseu, como duas partes do mesmo projecto.

[continua]

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publicado às 13:24


Encoberto (22/12/2009)

por desvela, em 31.12.12
Depois do "Colombo", coloco aqui o quarto texto da série "Tese de Alvor-Silves", sob o título "Encoberto", conforme foi escrito há três anos. Creio que esta foi a primeira versão lançada em 22/12/2009, mas depois fiz algumas alterações e acabei por concatená-lo com o texto seguinte (denominado "Adamastor"), para suprimir as muitas opinações fruto do estilo que ia assumindo. Com a supressão do Knol, muitas das imagens já nem tinham ligação, e tive que recuperá-las em ficheiros gravados. Ao procurar nos ficheiros antigos, fui recuperando muitas coisas que escrevi e que deixei para trás. A mais interessante é a do mapa de Jorge Aguiar, que vou aqui colocar em breve.

Neste texto há dois detalhes sem grande importância, mas que quero referir, pois envolvem o programa de José Hermano Saraiva, que ainda passava na RTP-2. Foi nesta altura que o vi colocar a interrogação sobre a ideia do Infante D. Henrique no desembarque em Ceuta para um ataque terrestre a Tanger. Essa lenta progressão terrestre tinha sido a principal causa do desastre militar, que veio a sacrificar o Infante D. Fernando, que era quem comandava o ataque naval e não estava em perigo...
- Nessa altura estava bastante convencido (como é visível) de uma oposição política sobre a direcção das descobertas... de um lado o Ocidente oferecia-se a uma colonização, aparentemente mais pacífica, e pelo lado Oriental esperavam-se sangrentas batalhas, para a reconquista de Jerusalém (projecto antigo dos Templários, herdado na Ordem de Cristo). Este ideal da reconquista de Jerusalém prosseguia da Idade Média, passados vários séculos sobre a recuperação liderada por Saladino. Feito o Índico um mar cristão, abriria uma frente de ataque - pela rectaguarda, para entrada pelo Mar Vermelho e reconquista da Terra Santa. Tal plano seria seguido por D. Manuel, e executado admiravelmente por Afonso de Albuquerque, até à sua deposição. Nesta hipótese, a linha de acção da Casa de Viseu, iniciada pelo Infante D. Henrique, concretizada por D. Manuel, seria essa - a da cruzada templária a oriente. Por outro lado, a linha da Casa de Coimbra, iniciada pelo Infante D. Pedro, seria (por hipótese aqui colocada) a oposta... seria a de uma expansão colonial e comercial a Ocidente. A Casa de Coimbra tem o seu principal protagonista em D. João II, e a prova objectiva do seu interesse a Ocidente será o Brasil marcado em Tordesilhas. Preterido D. Jorge a D. Manuel na sucessão de D. João II, a sua Casa de Coimbra vê-se forçada a mudar de nome para Aveiro, e os partidários desse projecto de D. João II, ao governarem a Índia, vão esquecendo o objectivo de cruzada. Finalmente, a Casa de Bragança aparecia na sombra, tal como em Alfarrobeira, claramente opositora de Coimbra, representaria essencialmente a oposição a qualquer iniciativa, manobrando nos bastidores da corte. Acabará tanto por convidar a entrada de Filipe II como ser catapultada para o derrube de Filipe IV.
A ideia de que o Infante D. Henrique estaria mais motivado pela cruzada, do que pelas descobertas, ficou mais consolidada naquele programa, pela questão levantada por José Hermano Saraiva.
- O outro detalhe, ocorreu poucas semanas depois. Tendo mencionado o antigo relógio nas Caldas da Rainha, vi outro programa de José Hermano Saraiva que invocava um ainda mais antigo relógio de Serpa, e apesar deste estar datado de 1440, creio que ele o dava como mais antigo. Apresentava ainda, como curiosidade do Museu de Serpa, um relógio de navegação que, ao seu estilo, avisava ser francês... como se avisasse que tal prodígio não era suposto constar das nossas navegações.

Por outro lado, relendo o texto, devo avisar que a minha suspeita da utilização de um sistema de coordenadas local, zenital, baseado nas direcções que partiam das rosas-dos-ventos, e outros centros, se revelou à época menos promissora do que aparentava... verdade seja dita que também não tive vontade de inspeccionar mais. Ou seja, na altura, pareceu-me estranho que se desenhassem cartas mais imprecisas nos anos seguintes às descobertas, para além de muitas marcações, que estavam claramente erradas. Poderia ser só para despiste, mas tal como virando o Reinel se descobre em África um contorno Mexicano, pareceu-me ser natural que os mapas tivessem outros segredos. A pista de Pedro Nunes seria fundada no modo mais prático de navegação, ou seja seguindo as direcções locais que convinham aos "mareantes" pela sua posição. Poderia ser que escondessem num contorno impreciso do continente europeu, um contorno preciso de outras paragens... Mas a inspecção disso não é fácil, porque não é possível saber o que pretendiam representar, nem há mapas suficientes para o confirmar.
Já coloquei aqui a análise da Carta do Atlântico Norte para dar uma ideia do tipo de coisas que se podem procurar, mas terá pouco valor objectivo... a menos que seja para rebater interpretações mais mirabolantes feitas com outros mapas, nomeadamente o de Piri Reis.

O globo de João de Lisboa (que nos serve aqui de logotipo) é um claro exemplo de uso de coordenadas polares - com um só pólo, o pólo norte:
e já aqui fiz a conversão para aparecer como um planisfério típico:
Para que se perceba o trabalho envolvido nestas coisas, tive que assinalar manualmente cada pontinho na carta, para depois programar automaticamente a conversão que se vê.

Se aceitarmos que se trata de um mapa de 1514 e não uma adição feita até 1560 ao seu Tratado (cf. Cortesão), e já apresentámos várias provas, dará uma ideia parcial do que se sabia 5 anos antes da circum-navegação de Magalhães.

Depois, é claro, estas coisas são esquecidas, e como sabemos que não temos capacidade para coisas complicadas, aparece, passados 134 anos, em 1648, um francês de nome Louis de Mayerene Turquet, com a mesma representação centrada no pólo norte, reclamando a sua autoria:
La Nouvelle maniere de representer le Globe terrestre
... inventée par Louis de Mayerene Turquet 
(1648)

Repare-se que muito provavelmente Turquet não sabia da existência do mapa de João de Lisboa, tal como hoje a maioria dos estudos em cartografia que vemos parecem ignorar olimpicamente a maioria dos mapas constantes na Portugallia Monumenta Cartographica, lançada há mais de 50 anos... enfim, também parece que está esgotada.

Segue o texto, que me recorda o também o dia em que o contador do Knol "decidiu parar", e a que se devem dar os devidos descontos de entusiasmo, de quem tinha acabado de cair "na real":





Encoberto

ou seja, "o Encoberto" é o oposto "ao Descoberto".
 
Colombo pôs a descoberto a América à Europa. É verdade!... Só que des-cobrir não tem o mesmo significado que lhe damos hoje. Quando Colombo chegou, foi por onde os portugueses tinham carreiras regulares... esse foi o perigo da viagem dele - chegar lá sem ser Descoberto no caminho pelos Portugueses! Não conseguiu... de tal forma a coisa estava bem controlada!
Tese de ALVOR SILVES - Parte 4 de 7
22 de Dezembro de 2009


Mapas - Sem erros, mas com segredos
Quando olhamos para a Carta Portulana de Pedro Reinel, de 1484-85, parece ter um mapa de África! Pois parece... mas Pedro Nunes avisa-nos que não é bem assim, e chega mesmo a dizer:

"O outro género de informações é dos que notaram algumas alturas. Mas isto somente fizeram, nos lugares que estavam num mesmo paralelo, e isto também aproveitava pouco. O terceiro genero é o dos mareantes: os quais diz que não sabiam mais que as distâncias dos lugares, que a eles lhes parecia estarem norte-sul donde partiam; e os que estavam leste-oeste sabiam muito malporque isto era outrossim muito incerto (...)" 
Pedro Nunes - Tratado em Defensam da Carta de Marear (1537) 
(publicado depois de Carlos V de Espanha mandar queimar todas as Cartas Náuticas)

Este texto de Pedro Nunes serviu-me para confirmar um ligeiro detalhe que já tinha previamente reparado na carta de Pedro Reinel... voltando-a na direcção leste-oeste e não norte-sul... ou seja, RODANDO-A, obtemos, um contorno que se assemelha à costa Mexicana... até mesmo na zona de latitude onde essa costa deveria aparecer. Assim:
Carta "Pedro Reinel me fez" (1484)
 
(i) Detalhe da mesma Carta, depois de RODAR;  (ii) Costa do México.
Mais uma coincidência!... Mesmo que Pedro Nunes diga para virar a carta? Mas, tem havido quem se apresse a denegrir a capacidade náutica portuguesa, e principalmente até alguns portugueses. Quanto maior a erudição, maior será a inquisidora convicção, e Cortesão foi vítima disso!... Ainda há semanas vi um elogio a um outro artigo dos anos 1970, onde se denegria acentuadamente a capacidade de marcar latitudes e longitudes... É claro que enquanto se pensar que o relógio da Igreja da N. Sr. Pópulo nas Caldas da Rainha é um artefacto decorativo, e que os primeiros relógios mecânicos são certamente coisa de "génios estrangeiros", estaremos bem no nosso caminho!

Há coisas que parecem estar mal no mapa... de facto, para ficar mesmo bem teria que se retirar a Península Ibérica, tirar o contorno de Tunis, etc... Mas depois, quem visse os mapas não iria estranhar não estar a Península Ibérica?

E, ainda, se repararmos, há até bandeiras - que delimitam bem a zona de validade do contorno! E não só, permitem ainda datação... a bandeira moura em Espanha permite datar o mapa como anterior a 1492 - seguramente, e até como anterior a 1485 - data da conquista de Marbella. A datação aceite, e que se mantém (apesar de tentativas nacionais em sentido oposto)... é a de 1484-85. Pois, a informação nos mapas não é apenas decorativa... ou fruto de erro:  
Há um detalhe, que justifica distorções, que só percebi com Pedro Nunes. As cartas usavam coordenadas zenitais, semi-polares e locais... o nome é grande, mas quem for entendido perceberá um pouco do que quero dizer. É algo que eu nunca tinha visto, e usará conceitos mais próprios do séc. XIX, quase XX, na questão da utilização de representação cartográfica seccional. Não posso explicar aqui - todo o Tratado de Defensam da Carta de Marear, serve esse propósito encoberto! É claro que Pedro Nunes tenta argumentar dizendo que a representação planar é pior do que esta, mas é claro que não é compreendido! Ele "não conseguirá"... pois Mercator é que fica com os louros! 
    - As rosas-do-vento servem de pólos, para zénites a descoberto, de onde saem meridianos locais!
    - Há outros centros que servem de pólos, para zénites a encoberto!

Assim, a informação nos mapas, não é apenas a que está a descoberto... 
... há tanto, ou muito mais que está encoberto,
e que foi tomado por erro - é isso que Pedro Nunes tenta explicar! 
É por isso que o Mapa de Cantino (1502) tem deformações e é menos fiável... era apenas uma cópia para Alberto Cantino, um espião a serviço do Duque de Ferrara (... mas que nos foi muito útil).

Como foi possível a Pedro Nunes passar informação, sob olhares minuciosos da Inquisição?
Primeiro, tem a protecção do esclarecido Infante D. Luís, irmão de D. João III, mas depois Pedro Nunes tem mesmo que sair da Corte e de Lisboa! Só regressa, é claro, já com a protecção de Dom Sebastião... e, já velho, morre "naturalmente", logo a seguir à partida de D. Sebastião para o "massacre de Alcazar".

- É assim que é a feita a História de Portugal, de coincidências!
Mas não é só a de Portugal... este mapa apareceu exactamente em 1960, nuns Arquivos da (... Guiné, desculpem-me, Guiene, Aquitânia, ou seja:) Gironde, em Bordéus - numa altura em que a França acabava as suas pretensões colonialistas (na Guiné, cf. notas do Visconde de Carreira, séc. XIX).

- Também há mapas na Torre do Tombo?...Sim, mas mais recentes... por exemplo (& aleluia) existe a Biblioteca Nacional Digital, ainda que incompleta, tem já muita coisa! Aí encontrei outra pérola, chamada Livro de Marinharia. É atribuído a João de Lisboa, a quem são reportadas viagens até 1506, e morte em 1525.


(i) Representação polar semi-clássica

 
Livro de Marinharia - João de Lisboa (morte: 1525)
Note-se que há um quadrante que é vazio, na parte superior... por isso há claras indicações para a união nos 270º restantes, e os nomes coincidem de ambos os lados (p.ex. Japão).

É já muito próximo do que conhecemos hoje?... Pois é!
Ora como o Japão só foi descoberto em 1543, qualquer erudito conclui, que ou foi um bom palpite, ou então que o problema é datação do mapa, ou do autor. Resta justificar tanta clareza em tanta coisa... que só ficou clara muito depois, resta justificar o espaço em branco de 90º, que só torna mais difícil executar o mapa. Vejamos... poderia ser para cortar e fazer um cone? É uma resposta, mas talvez também queira significar que ainda estavam por marcar no globo 1/4 do restante conhecimento, que já se tinha...

E qual era o conhecimento que já se tinha? Deixamos Pedro Nunes falar por nós, pois não saberíamos fazer melhor. Começa logo a obra assim:
Eu fiz senhor tempo ha um pequeno tratado sobre certas dúvidas que trouxe Martim Afonso de Sousa, quando veio do Brasil. (...) Mas queira Deus suceder-me isto de sorte, que não seja necessário outro comento a este comento. Não já para Vossa Alteza [Infante Luís] a quem é tudo claro e tão notório (...)
Não há dúvida que as navegações deste reino, de 100 anos a esta parte são as maiores, mais maravilhosas, de mais altas e discretas conjecturas que as de nenhuma outra gente no mundo. 
Os Portugueses ousaram cometer o grande mar Oceano. Entraram por ele sem nenhum receio. Descobriram novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos e o que mais é novo céu e novas estrelas. 
E perderam-lhe tanto o medo que nem há grande quentura da torrada zona, nem o descompassado frio da extrema parte do sul, com que os antigos escritores nos ameaçavam lhes poder estorvar, que, perdendo a estrela norte e tornando-a a cobrar, descobrindo e passando o temeroso Cabo da Boa Esperança, o mar de Ethiopia, de Arabia, de Persia, poderam chegar à India. 
Passaram o rio Ganges tão nomeado, a grande Trapobana, e as ilhas mais orientais. Tiraram-nos muitas ignorâncias e amostraram-nos ser a terra maior que o mar, e haver aí Antípodas, que até os Santos duvidaram, e não há região, que nem por quente nem por fria se deixe de habitar. E que num mesmo clima e igual distância da equinocial: há homens brancos e pretos e de muitas diferentes qualidades. 
E fizeram o mar tão chão que não há hoje quem ouse dizer que achasse novamente alguma pequena ilha, alguns baixos, ou se quer algum penedo, que por nossas navegações não seja já descoberto. Ora manifesto é que estes descobrimentos de coisas, não se fizeram indo acertar, mas partiam os nossos mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria, que são coisas que os cosmógrafos hão-de andar apercebidos, segundo diz Ptolomeu no primeiro livro da sua Geografia.
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(in Tratado da Defensam da Carta de Marear, 1537)...
para detalhes, transcrição da Revista de Engenharia Militar -1911

Fiz alguns destaques... para que se note mesmo!

(i) Passados muitos anos... "Deus deu-nos a sorte" de ter resistido até hoje! Mesmo assim note-se que Pedro Nunes está sob controlo da Inquisição. O Infante Luís só o protege até onde pode, e nem o Rei Dom João III terá completo controlo sobre o problema... do outro lado está Carlos V e não só!

(ii) Dificilmente se poderá dizer que há um descompassado frio na extrema parte sul de África, mas o mesmo não se poderá dizer da extrema parte sul da América... onde está o Cabo Horn.

(iii) A Trapobana é associada ao Ceilão, a tal ilha que tem Colombo como capital... Será que, quando se nomeia a Índia, se pode falar numa grande Trapobana como sendo o Ceilão... Madagáscar não é maior? Não será mais adequado começar a pensar que Trapobana foi, isso sim, a Austrália?

(iv) Depois, Pedro Nunes, em 1537, reclama um descobrimento absoluto... de toda a Terra, antes desconhecida. Estamos em 1537... e de facto, não é fácil encontrar "grandes descobridores" nomeados e honrados por isso, no Séc. XVI. A questão colocou-se só depois... Depois, tudo o que não constava, explicitamente declarado, era considerado "encoberto", e assim poderia ser "descoberto". Demorou algum tempo, de facto! Pelo menos, até Cook, final do séc. XVIII, e ainda assim temos que excluir as viagens polares, séc. XIX. Demorou a realizar em 300 anos, o que de acordo com Pedro Nunes (eu nem me atreveria a tanto...), tinha sido feito pelos portugueses em 100 anos.
Os ingleses mantiveram parte do acordo de cavaleiros, mas não na memória, só nas terras que consideraram pertencer-lhes. Os dinamarqueses só reclamaram a Gronelândia, que por múltiplas razões lhes deveria pertencer! Quem saberá a estória? Todos os intervenientes... quiçá, excepto nós!

(v) Finalmente, retira aquela ideia propagandeada de que se descobriam coisas acidentalmente.
Não houve nada acidental!

Pelos vistos, estas afirmações não chegam!
Foi publicado oficialmente numa Revista Militar de 1911... estamos já na altura da República!
Há, de facto, outras maneiras, de manter uma História submersa... e acontece ao confiar numa divulgação local e muito controlada.


(ii) Representação da América Central
Ainda, no Livro de Marinharia, encontramos outra pérola. Já é tardia... mas ainda está lá! 
Cabo "Sagre" no Panamá (no quadrado verde),

um detalhe do Mapa maior:
Livro de Marinharia - mapa da América Central (< 1525)

Antes de comentar a questão do Cabo Sagres...
Repare-se que o mapa é antigo, ao ponto de colocar bandeiras, assinalando possessões nacionais.... e em castelos, onde?
- Na Colômbia e no Perú, junto aos Incas!
Coisa estranha??
Não... basta lembrar o Castelo de S. Jorge da Mina.
Recapitulemos:
(i) ... de onde nos chegava o ouro? ... do Benim, do Congo?
(ii) Sim, e onde eram essas terras?
Houve ouro vindo de lá, depois de lá chegarem os espanhóis, por exemplo, com D. João III?
De onde veio o declínio do Império Português?

Ou, será que, com o Tratado de Tordesilhas, tudo acabou... ou melhor, foi acabando. Houve uma transição até 1520... ano em que subitamente os Espanhóis estão preparados para tomar conta das coisas. Dá que pensar?

Então, regressemos ao Cabo Sagres!- Há um Cabo Sagres em Portugal, todos o conhecemos!- Havia um Cabo Sagres em África, menos o sabem, mas era na Guiné-Conacri, e consta noutros mapas oficiais, isso é reconhecido!- Agora há também um Cabo Sagres no Panamá... e não adiantará dizer que é Sangre, ou semelhante despiste, pois foi renomeado "Graças a Dios"... é claro, assim notou-se menos!

- O que é interessante?
(i) os cabos americano e africano estão ~ sobre o mesmo paralelo;
(ii) os cabos português e africano estão ~ sobre o mesmo meridiano;
(iii) aí terminam as "navegações" atribuídas ao Infante D. Henrique.

- Há ainda outros dados, mas ficam para mais tarde, se necessário!
Detalhe: Sagres - Sacro pagão... mas também SACRE >> ACRE (Terra Santa), ACRA (África).

 
Talant de bien faire
O Infante D. Henrique usava esta frase como divisa (antes de Tanger, terá usado IDA... iniciais de Infante Dom Anrique, pela sua vontade de conquistar - Tanger, ou Jerusalém?). Frei Luís de Sousa (séc. XVII) classificou a divisa como "duas pirâmides dos antigos reis do Egipto", e encontram-se no livro perdido de Zurara (só recuperado no séc. XIX, em França...):


Divisa do Infante D. Henrique

Talant de bien faire, significaria vontade de bem fazer, mas o "e" falta em talent, pois não se trataria de talento, nem de vontade.
Há de facto dois hemisférios... poderá ver-se uma pirâmide em cada um deles, e até no topo há quem veja um "olho" na pirâmide oriental - onde é que eu já vi este símbolo (... sem ser na nota de 1 dólar)?
Na pirâmide ocidental, é claro, o "olho" descai para Oriente. E depois, vamos brincar um pouco aos anagramas:
TALANT >>ATLANT
FAI'RE >>AFRI'E
Nada mal? Num hemisfério, uma pirâmide atlântica, no outro uma africana.
Mas, para Henrique, o BIEN, o Bem, é claro... era pelo lado Oriental, pelo lado da Cruzada.

- Ao contrário, o irmão Infante Dom Pedro, deixou uma Balança, uma doce Lira, conforme designa Camões, equilibrada... e um desejo - DÉSIR... e depois surgirão outros, que assim foram "o Desejado"!

- Também D. João II procura o equilíbrio, de um lado, para equilibrar a balança está o seu sangue de Pelicano, que retira do corpo, para alimentar os seus filhos - o povo! Do outro lado, não está nada... deveria de estar qualquer coisa - e passa por ser um Camaroeiro, mas nada está! Nem precisará estar, a balança pende naturalmente para as casas Viseu-Bragança, o lado Coimbra-Aveiro vai pagar sempre por isso!

Como vimos, e note-se bem - isto não é uma questão de herança sanguínea, é uma questão de herança cultural (e de medo)! O Infante D. Luís ou D. Sebastião pertencem claramente à Casa Viseu, e por boa vontade, tentam colocar-se do outro lado da balança... mas só conseguem passar informação, nada mais! Da mesma forma, e não querendo falar desse período mais confuso (Séc. XIX), é perfeitamente verosímil que o rei D. Carlos, dada a proximidade com Eduardo VII de Inglaterra, tivesse perfeitamente compreendido as razões do acordo do mapa-cor-de-rosa... ainda que assim, como poderia ele revelar à nação todo esse encobrimento anterior?


Colômbia
A Colômbia tem uma particularidade interessante... Chegou a ser pensada para a travessia Atlântica-Pacífica, em vez do Canal do Panamá....Porquê? - porque tem no seu Rio Atrato, um rio muito navegável.
No final desse Rio Atrato, encontramos uma cidade, chamada Quibdó, e outra mais pequena chamada "IstMina"... estou a fazer ênfase no "Mina", mas seria possível também fazer no "Istmo" (acompanhando o Rio S. Juan até à foz em Buenaventura).

Mas, vejam-se as coincidências... e estão longe de acabar aqui - há um navegador português chamado Pêro Escobar (há muita gente em Portugal com o nome Escobar?... e na Colômbia?), que está associado às navegações da Mina, e à descoberta de São Tomé, sob o serviço de Fernão Gomes.
Ora esse serviço requeria efectivamente muita mão de obra, de origem africana.
Para trabalhar onde?
Qual é o país do continente americano hispânico que tem mais população de origem africana - a Colômbia (e parte da Venezuela), de longe! Nos restantes países dificilmente sabemos da sua presença.
- O que se terá passado?
Essa mão de obra seria usada no serviço da Mina, e era tanta, que não pode regressar ou sair da Colômbia, fica lá! Depois, houve sempre uma separação entre Portugal e Espanha, e de facto os escravos negros só muito pontualmente foram usados pelos espanhóis noutros locais... falta explicar algumas Antilhas, mas isso é outra estória, ainda anterior.


Os paralelos como referência
O que serve de referência para relatar Descobertas/Encobertas?...Normalmente, nas descrições de Zurara e de Duarte Pacheco Pereira, são os paralelos.Ou seja, a cada descrição em África, corresponde uma descrição na América, mas pode haver sobreposição.

Os termos "mouro", ou "negro" pouco significam... em Portugal era frequente dizer-se, indistintamente, que coisas anteriores à era cristã eram "mouras", sem se referirem a "sarracenos".Da mesma forma "negro" pode ser visto como alguém que não foi iluminado pela fé de Deus, não é tanto negro de cor, mas mais negro de alma... ou seja, poderá não ter religião organizada.Assim, é possível seguir as descrições dos autores, sem preconceitos, ou pré-julgamentos, de localização geográfica. E depois, bate tudo certo! Ou seja, percebe-se o que os autores nos queriam transmitir.

A coisa está de tal forma intrincada, que D. Afonso V achou bem oferecer uma cópia das Crónicas da Guiné de Zurara, ao Rei de Nápoles, seu familiar. Duarte Pacheco Pereira, é mais explícito... mas igualmente intrincado, já que a certa altura é mais difícil perceber quando fala de África ou da América. - Usa uma numeração dos Itens para auxílio...

Depois, é claro, alguns nomes vão mudando... uma designação para Zurara, não é necessariamente a mesma de Pacheco Pereira, pois o nome já é outro. É preciso abstrairmo-nos de preconceitos, pegar num mapa, e ir descendo a Costa Americana, de acordo com as latitudes.Mas, não é assim tão difícil, e é surpreendente!

O problema do Bojador
Ou seja, é mais ou menos fácil perceber que as coisas começam depois de Gil Eanes ter coordenado uma grande expedição - exploratória da América - até 1434, que deve ter demorado quase 12 anos... pelo menos é disso que se queixa Henrique!

Quando os portugueses perceberam que passar o continente não era possível, dentro de latitudes razoáveis, o Infante Dom Henrique terá tido luz verde para avançar com o projecto Oriental, por parte do seu irmão, o Rei D. Duarte.

O problema, o "cabo", Bojador está dobrado! ... ou, dito doutra forma, que sentido faria parar as navegações e atacar Tanger de seguida?

Entre 1435 e 1440 não aparecem outros registos de navegações, é tempo de cruzadas, e do desastre de Tanger, em 1437.
- Apesar de Tanger ser costeira, a invasão vai ser por terra, partindo de Ceuta. Porquê?
Que eu saiba, ninguém tem justificação para esta estratégia do Infante Dom Henrique...Ora, no sentido de ser preparatória à Cruzada (... à IDA), contornando África, ele usa Tanger como simulação para mostrar que será perfeitamente possível, a partir de um ponto terrestre marchar por um terreno difícil, e atingir Jerusalém. Precisa do apoio dos aliados... e assim julgará convencê-los.

Não consegue, é derrotado!... Tem uma escapatória, o apoio por mar do irmão Fernando. É esse que ele escolhe para o substituir como refém, é esse que será o Infante Santo para manter Ceuta.

Há um claro trauma nacional, durante o cativeiro do Infante Santo, e faz-se ainda uma tentativa armada de resgate... mas sem sucesso. Como D. Duarte morre e há um problema na regência, pela menoridade de D. Afonso IV, a mãe aragonesa é rapidamente exilada - teria que ser, havia demasiados segredos em jogo, para qualquer conhecimento de Aragão! Nesse ponto, os irmãos Henrique e Pedro estão de acordo!


Infante Dom Pedro
- O Infante Dom Pedro, mais velho, assume a regência em 1439, e é o primeiro período de ouro, que marcará o que se passará de seguida. Haverá colaboração com Henrique, nesta nova empresa.
É o primeiro período de ouro - literalmente!
É o tempo das caravelas... rápidas na ligação com a América.
Se Gil Eanes se teria preocupado com a ligação ocidental até 1434, sem entrar no continente, navegando pela costa, a partir daí vão começar os contactos.

Logo de início, por Gil Eanes e Afonso Baldaia (1440) - os registos começam aí com Zurara (que escreve "sob orientação científica do Infante Dom Henrique", já depois de Pedro morrer).
Depois, é uma sucessão de nomes em África, que nenhuma importância aí têm, mas que se percebe terem importância - à mesma latitude - na América, por exemplo - o Rio do Ouro (que quase nem é rio, em África).

A costa vai descendo, Arguim, Tider, Ergim, invocando povos em ilhas que não passam de bancos de areia... em África. Do outro lado, na América, é só difícil saber exactamente que ilhas se tratam, em Zurara... já com Pacheco Pereira, é mais fácil.

É aqui que começa a atribuir a chegada do ouro aos "mercadores do deserto"... é a necessidade de fazer uma Feitoria em Arguim. É tempo dos Azenagues! Mas... onde se passará tudo isto? Porque não, do outro lado, no mesmo paralelo, no México, com os Aztecas?

O Infante Dom Pedro pode ter sido um excelente governante (a nível interno e externo), mas também beneficiou desta pequena dádiva de ouro, caída dos céus!

Mas toda essa estória fica para depois... Seguimos usando a descrição de Duarte Pacheco Pereira.

Cabo Verde
Chega-se a Cabo Verde. E a que corresponde o Cabo Verde?
Nada mais nada menos, do que à grande península do Iucatão...Porquê?... Porque a Costa Africana segue, mas à mesma latitude, a Americana não!
Qual é a brilhante ideia?
É que as ilhas de Cabo Verde irão ser associadas a Grandes Antilhas.
Assim, temos seguramente São Tiago = Cuba, depois as restantes, também não é difícil...
É por isso que o Cabo Verde, aparece como um grande Cabo deformado nos mapas... por isso aparece uma rosa-dos-ventos, o zénite, para justificar a distorção polar... e tantas outras coisas, por exemplo, é aqui que se faz a distinção entre Etiópia Superior e Etiópia Inferior... e depois a outra, a Etiópia Sob-Egipto, a que ele considera africana.
- Onde seguimos?
O próximo ponto possível, compatível com outras latitudes no continente Africano é, sem dúvida, localizado nas Honduras, na "Etiópia Inferior". Teremos aí outro ponto de referência.

Nicarágua
O nome mais importante que se segue, é o Rio Canágua... que depois é renomeado convenientemente:

Canágua >> Çanaga >> Senegal
conforme vai constando nas cartas!Do outro lado, o que temos?
Temos, exactamente a Nicarágua... e vejamos, a coisa não fica por aqui!
Como nomeia um chefe local? Trata-se do chefe Nicarao... Nicarao+Canágua ~ Nicarágua estamos ou não próximo de Nicarágua, cuja capital é Manágua? Sim!

Podemos ter mais umas coincidências... certíssimo!!
Mas então olhemos a descrição de um grande lago entrando no Canágua:
Temos uma lagoa com "32 por 12 léguas", falamos de 188Km por 72Km... dimensões exactas para o Lago da Nicarágua....
Não encontramos nada semelhante a isso no Rio Senegal! O lago Guier será de facto uma lagoa comparado com isto!
Convém ainda notar que a resistência à colonização espanhola foi muito prolongada, na zona da Nicarágua, e por isso não terá sido possível uma imediata renomeação...

Panamá e Sagres
Depois, de facto, vamos encontrar uma Serra Leoa... que será Leoa, no correspondente Panamá, pois impedirá a progressão para Ocidente.É a grande cadeia montanhosa do Panamá que liga a América do Sul à do Norte.Mais uma vez a Costa volta a subir, e o contorno americano não acompanha o africano...É tempo dos contornos ocidentais darem lugar aos orientais...

Resumo do paralelismo nas descrições de Duarte Pacheco e Zurara.
(nova inclusão: a 27/12/2009)
É aqui que pode recomeçar o projecto Oriental. É aqui que ficará o Cabo Sagres, conforme referido por Duarte Pacheco Pereira. É aqui que termina a colaboração do Infante Dom Henrique com o irmão Dom Pedro.

Segue-se a luta interna... com um Duque de Bragança a influenciar o jovem Afonso IV.É aqui que esse jovem rei decide humilhar o tio, pai da sua mulher. É tempo de Alfarrobeira, é tempo do Infante Dom Pedro morrer, para dar lugar às novas conquistas para a Cruzada, contra os infiéis. É tempo desse jovem rei conquistar praças africanas, até que o Infante Dom Henrique morre, e há uma nova esperança desejada - chama-se D. João II, acima de tudo, neto de Dom Pedro. Do outro lado, há uma Spera que se acentua, especialmente depois da conquista de Arzila e de Tanger, no tal Dia de São Bartolomeu.


Encoberto e Desejado
O grande feito ocidental foi encoberto e será tempo de esperar pelo primeiro "Desejado", cumprindo o Désir de Pedro.
- Do Pedro que o povo canta e que coloca uma fonte com o seu nome em Coimbra, pelos amores que lhe tem, conforme dirá Camões, que a isso junta ninfas do Mondego;
- Do Pedro, avô de Joane, que Gil Vicente coloca contra o Sapateiro da Candosa, contra o Rachador de Alverca - ou melhor, Alfarrobeira.

É o Pedro, desejado, do sonho ocidental, do sonho americano, colonizador...
Será esse Pedro que o povo amou ao ponto de nos deixar uma infinita melancolia de séculos. Por ser tão amado poderá aparecer, até como um Gigante Adamastor em D. João II, mas também como um Trágico Massacrado em D. Sebastião. Num ponto são comuns, os desejados desaparecem... até não mais aparecerem!

Um Désir, que afinal sempre esperámos depois do séc. XVI, e que o Padre António Vieira tornou claro não ser representado por D. João IV... (... a ser alguém, seria muito mais a sua mulher, a Rainha Luísa de Guzman, descendente de Ana de la Cerda e do português Rui Gomes da Silva "o Rei Gomez", príncipes de Eboli... mas isso é outra estória!)

Mas "o Encoberto" é também o contrário "do Descoberto", é a mensagem que fica presa a um nevoeiro, cada vez mais espesso, onde só nos chegam pequenos sinais... suficientes para uma eterna inquietação, de fantasmas que sepultámos mal, e que pedem que lhes seja honrada a memória!

Há só uma História? Ou há a Estória que deixa registos, que apaga registos, e que às vezes deixa pontas soltas... até que apareça alguém a assinalar, e depois se volte tudo a colar, durante mais alguns séculos. Tem sido assim! Neste momento, o que é preciso é rever o inacreditável, e que haja então quem invente outra Estória, melhor que esta, que cole todas coincidências de forma mais verosímel.




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Encoberto (22/12/2009)

por desvela, em 30.12.12
Depois do "Colombo", coloco aqui o quarto texto da série "Tese de Alvor-Silves", sob o título "Encoberto", conforme foi escrito há três anos. Creio que esta foi a primeira versão lançada em 22/12/2009, mas depois fiz algumas alterações e acabei por concatená-lo com o texto seguinte (denominado "Adamastor"), para suprimir as muitas opinações fruto do estilo que ia assumindo. Com a supressão do Knol, muitas das imagens já nem tinham ligação, e tive que recuperá-las em ficheiros gravados. Ao procurar nos ficheiros antigos, fui recuperando muitas coisas que escrevi e que deixei para trás. A mais interessante é a do mapa de Jorge Aguiar, que vou aqui colocar em breve.

Neste texto há dois detalhes sem grande importância, mas que quero referir, pois envolvem o programa de José Hermano Saraiva, que ainda passava na RTP-2. Foi nesta altura que o vi colocar a interrogação sobre a ideia do Infante D. Henrique no desembarque em Ceuta para um ataque terrestre a Tanger. Essa lenta progressão terrestre tinha sido a principal causa do desastre militar, que veio a sacrificar o Infante D. Fernando, que era quem comandava o ataque naval e não estava em perigo...
- Nessa altura estava bastante convencido (como é visível) de uma oposição política sobre a direcção das descobertas... de um lado o Ocidente oferecia-se a uma colonização, aparentemente mais pacífica, e pelo lado Oriental esperavam-se sangrentas batalhas, para a reconquista de Jerusalém (projecto antigo dos Templários, herdado na Ordem de Cristo). Este ideal da reconquista de Jerusalém prosseguia da Idade Média, passados vários séculos sobre a recuperação liderada por Saladino. Feito o Índico um mar cristão, abriria uma frente de ataque - pela rectaguarda, para entrada pelo Mar Vermelho e reconquista da Terra Santa. Tal plano seria seguido por D. Manuel, e executado admiravelmente por Afonso de Albuquerque, até à sua deposição. Nesta hipótese, a linha de acção da Casa de Viseu, iniciada pelo Infante D. Henrique, concretizada por D. Manuel, seria essa - a da cruzada templária a oriente. Por outro lado, a linha da Casa de Coimbra, iniciada pelo Infante D. Pedro, seria (por hipótese aqui colocada) a oposta... seria a de uma expansão colonial e comercial a Ocidente. A Casa de Coimbra tem o seu principal protagonista em D. João II, e a prova objectiva do seu interesse a Ocidente será o Brasil marcado em Tordesilhas. Preterido D. Jorge a D. Manuel na sucessão de D. João II, a sua Casa de Coimbra vê-se forçada a mudar de nome para Aveiro, e os partidários desse projecto de D. João II, ao governarem a Índia, vão esquecendo o objectivo de cruzada. Finalmente, a Casa de Bragança aparecia na sombra, tal como em Alfarrobeira, claramente opositora de Coimbra, representaria essencialmente a oposição a qualquer iniciativa, manobrando nos bastidores da corte. Acabará tanto por convidar a entrada de Filipe II como ser catapultada para o derrube de Filipe IV.
A ideia de que o Infante D. Henrique estaria mais motivado pela cruzada, do que pelas descobertas, ficou mais consolidada naquele programa, pela questão levantada por José Hermano Saraiva.
- O outro detalhe, ocorreu poucas semanas depois. Tendo mencionado o antigo relógio nas Caldas da Rainha, vi outro programa de José Hermano Saraiva que invocava um ainda mais antigo relógio de Serpa, e apesar deste estar datado de 1440, creio que ele o dava como mais antigo. Apresentava ainda, como curiosidade do Museu de Serpa, um relógio de navegação que, ao seu estilo, avisava ser francês... como se avisasse que tal prodígio não era suposto constar das nossas navegações.

Por outro lado, relendo o texto, devo avisar que a minha suspeita da utilização de um sistema de coordenadas local, zenital, baseado nas direcções que partiam das rosas-dos-ventos, e outros centros, se revelou à época menos promissora do que aparentava... verdade seja dita que também não tive vontade de inspeccionar mais. Ou seja, na altura, pareceu-me estranho que se desenhassem cartas mais imprecisas nos anos seguintes às descobertas, para além de muitas marcações, que estavam claramente erradas. Poderia ser só para despiste, mas tal como virando o Reinel se descobre em África um contorno Mexicano, pareceu-me ser natural que os mapas tivessem outros segredos. A pista de Pedro Nunes seria fundada no modo mais prático de navegação, ou seja seguindo as direcções locais que convinham aos "mareantes" pela sua posição. Poderia ser que escondessem num contorno impreciso do continente europeu, um contorno preciso de outras paragens... Mas a inspecção disso não é fácil, porque não é possível saber o que pretendiam representar, nem há mapas suficientes para o confirmar.
Já coloquei aqui a análise da Carta do Atlântico Norte para dar uma ideia do tipo de coisas que se podem procurar, mas terá pouco valor objectivo... a menos que seja para rebater interpretações mais mirabolantes feitas com outros mapas, nomeadamente o de Piri Reis.

O globo de João de Lisboa (que nos serve aqui de logotipo) é um claro exemplo de uso de coordenadas polares - com um só pólo, o pólo norte:
e já aqui fiz a conversão para aparecer como um planisfério típico:
Para que se perceba o trabalho envolvido nestas coisas, tive que assinalar manualmente cada pontinho na carta, para depois programar automaticamente a conversão que se vê.

Se aceitarmos que se trata de um mapa de 1514 e não uma adição feita até 1560 ao seu Tratado (cf. Cortesão), e já apresentámos várias provas, dará uma ideia parcial do que se sabia 5 anos antes da circum-navegação de Magalhães.

Depois, é claro, estas coisas são esquecidas, e como sabemos que não temos capacidade para coisas complicadas, aparece, passados 134 anos, em 1648, um francês de nome Louis de Mayerene Turquet, com a mesma representação centrada no pólo norte, reclamando a sua autoria:
La Nouvelle maniere de representer le Globe terrestre
... inventée par Louis de Mayerene Turquet 
(1648)

Repare-se que muito provavelmente Turquet não sabia da existência do mapa de João de Lisboa, tal como hoje a maioria dos estudos em cartografia que vemos parecem ignorar olimpicamente a maioria dos mapas constantes na Portugallia Monumenta Cartographica, lançada há mais de 50 anos... enfim, também parece que está esgotada.

Segue o texto, que me recorda o também o dia em que o contador do Knol "decidiu parar", e a que se devem dar os devidos descontos de entusiasmo, de quem tinha acabado de cair "na real":





Encoberto

ou seja, "o Encoberto" é o oposto "ao Descoberto".
 
Colombo pôs a descoberto a América à Europa. É verdade!... Só que des-cobrir não tem o mesmo significado que lhe damos hoje. Quando Colombo chegou, foi por onde os portugueses tinham carreiras regulares... esse foi o perigo da viagem dele - chegar lá sem ser Descoberto no caminho pelos Portugueses! Não conseguiu... de tal forma a coisa estava bem controlada!
Tese de ALVOR SILVES - Parte 4 de 7
22 de Dezembro de 2009


Mapas - Sem erros, mas com segredos
Quando olhamos para a Carta Portulana de Pedro Reinel, de 1484-85, parece ter um mapa de África! Pois parece... mas Pedro Nunes avisa-nos que não é bem assim, e chega mesmo a dizer:

"O outro género de informações é dos que notaram algumas alturas. Mas isto somente fizeram, nos lugares que estavam num mesmo paralelo, e isto também aproveitava pouco. O terceiro genero é o dos mareantes: os quais diz que não sabiam mais que as distâncias dos lugares, que a eles lhes parecia estarem norte-sul donde partiam; e os que estavam leste-oeste sabiam muito malporque isto era outrossim muito incerto (...)" 
Pedro Nunes - Tratado em Defensam da Carta de Marear (1537) 
(publicado depois de Carlos V de Espanha mandar queimar todas as Cartas Náuticas)

Este texto de Pedro Nunes serviu-me para confirmar um ligeiro detalhe que já tinha previamente reparado na carta de Pedro Reinel... voltando-a na direcção leste-oeste e não norte-sul... ou seja, RODANDO-A, obtemos, um contorno que se assemelha à costa Mexicana... até mesmo na zona de latitude onde essa costa deveria aparecer. Assim:
Carta "Pedro Reinel me fez" (1484)
 
(i) Detalhe da mesma Carta, depois de RODAR;  (ii) Costa do México.
Mais uma coincidência!... Mesmo que Pedro Nunes diga para virar a carta? Mas, tem havido quem se apresse a denegrir a capacidade náutica portuguesa, e principalmente até alguns portugueses. Quanto maior a erudição, maior será a inquisidora convicção, e Cortesão foi vítima disso!... Ainda há semanas vi um elogio a um outro artigo dos anos 1970, onde se denegria acentuadamente a capacidade de marcar latitudes e longitudes... É claro que enquanto se pensar que o relógio da Igreja da N. Sr. Pópulo nas Caldas da Rainha é um artefacto decorativo, e que os primeiros relógios mecânicos são certamente coisa de "génios estrangeiros", estaremos bem no nosso caminho!

Há coisas que parecem estar mal no mapa... de facto, para ficar mesmo bem teria que se retirar a Península Ibérica, tirar o contorno de Tunis, etc... Mas depois, quem visse os mapas não iria estranhar não estar a Península Ibérica?

E, ainda, se repararmos, há até bandeiras - que delimitam bem a zona de validade do contorno! E não só, permitem ainda datação... a bandeira moura em Espanha permite datar o mapa como anterior a 1492 - seguramente, e até como anterior a 1485 - data da conquista de Marbella. A datação aceite, e que se mantém (apesar de tentativas nacionais em sentido oposto)... é a de 1484-85. Pois, a informação nos mapas não é apenas decorativa... ou fruto de erro:  
Há um detalhe, que justifica distorções, que só percebi com Pedro Nunes. As cartas usavam coordenadas zenitais, semi-polares e locais... o nome é grande, mas quem for entendido perceberá um pouco do que quero dizer. É algo que eu nunca tinha visto, e usará conceitos mais próprios do séc. XIX, quase XX, na questão da utilização de representação cartográfica seccional. Não posso explicar aqui - todo o Tratado de Defensam da Carta de Marear, serve esse propósito encoberto! É claro que Pedro Nunes tenta argumentar dizendo que a representação planar é pior do que esta, mas é claro que não é compreendido! Ele "não conseguirá"... pois Mercator é que fica com os louros! 
    - As rosas-do-vento servem de pólos, para zénites a descoberto, de onde saem meridianos locais!
    - Há outros centros que servem de pólos, para zénites a encoberto!

Assim, a informação nos mapas, não é apenas a que está a descoberto... 
... há tanto, ou muito mais que está encoberto,
e que foi tomado por erro - é isso que Pedro Nunes tenta explicar! 
É por isso que o Mapa de Cantino (1502) tem deformações e é menos fiável... era apenas uma cópia para Alberto Cantino, um espião a serviço do Duque de Ferrara (... mas que nos foi muito útil).

Como foi possível a Pedro Nunes passar informação, sob olhares minuciosos da Inquisição?
Primeiro, tem a protecção do esclarecido Infante D. Luís, irmão de D. João III, mas depois Pedro Nunes tem mesmo que sair da Corte e de Lisboa! Só regressa, é claro, já com a protecção de Dom Sebastião... e, já velho, morre "naturalmente", logo a seguir à partida de D. Sebastião para o "massacre de Alcazar".

- É assim que é a feita a História de Portugal, de coincidências!
Mas não é só a de Portugal... este mapa apareceu exactamente em 1960, nuns Arquivos da (... Guiné, desculpem-me, Guiene, Aquitânia, ou seja:) Gironde, em Bordéus - numa altura em que a França acabava as suas pretensões colonialistas (na Guiné, cf. notas do Visconde de Carreira, séc. XIX).

- Também há mapas na Torre do Tombo?...Sim, mas mais recentes... por exemplo (& aleluia) existe a Biblioteca Nacional Digital, ainda que incompleta, tem já muita coisa! Aí encontrei outra pérola, chamada Livro de Marinharia. É atribuído a João de Lisboa, a quem são reportadas viagens até 1506, e morte em 1525.


(i) Representação polar semi-clássica

 
Livro de Marinharia - João de Lisboa (morte: 1525)
Note-se que há um quadrante que é vazio, na parte superior... por isso há claras indicações para a união nos 270º restantes, e os nomes coincidem de ambos os lados (p.ex. Japão).

É já muito próximo do que conhecemos hoje?... Pois é!
Ora como o Japão só foi descoberto em 1543, qualquer erudito conclui, que ou foi um bom palpite, ou então que o problema é datação do mapa, ou do autor. Resta justificar tanta clareza em tanta coisa... que só ficou clara muito depois, resta justificar o espaço em branco de 90º, que só torna mais difícil executar o mapa. Vejamos... poderia ser para cortar e fazer um cone? É uma resposta, mas talvez também queira significar que ainda estavam por marcar no globo 1/4 do restante conhecimento, que já se tinha...

E qual era o conhecimento que já se tinha? Deixamos Pedro Nunes falar por nós, pois não saberíamos fazer melhor. Começa logo a obra assim:
Eu fiz senhor tempo ha um pequeno tratado sobre certas dúvidas que trouxe Martim Afonso de Sousa, quando veio do Brasil. (...) Mas queira Deus suceder-me isto de sorte, que não seja necessário outro comento a este comento. Não já para Vossa Alteza [Infante Luís] a quem é tudo claro e tão notório (...)
Não há dúvida que as navegações deste reino, de 100 anos a esta parte são as maiores, mais maravilhosas, de mais altas e discretas conjecturas que as de nenhuma outra gente no mundo. 
Os Portugueses ousaram cometer o grande mar Oceano. Entraram por ele sem nenhum receio. Descobriram novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos e o que mais é novo céu e novas estrelas. 
E perderam-lhe tanto o medo que nem há grande quentura da torrada zona, nem o descompassado frio da extrema parte do sul, com que os antigos escritores nos ameaçavam lhes poder estorvar, que, perdendo a estrela norte e tornando-a a cobrar, descobrindo e passando o temeroso Cabo da Boa Esperança, o mar de Ethiopia, de Arabia, de Persia, poderam chegar à India. 
Passaram o rio Ganges tão nomeado, a grande Trapobana, e as ilhas mais orientais. Tiraram-nos muitas ignorâncias e amostraram-nos ser a terra maior que o mar, e haver aí Antípodas, que até os Santos duvidaram, e não há região, que nem por quente nem por fria se deixe de habitar. E que num mesmo clima e igual distância da equinocial: há homens brancos e pretos e de muitas diferentes qualidades. 
E fizeram o mar tão chão que não há hoje quem ouse dizer que achasse novamente alguma pequena ilha, alguns baixos, ou se quer algum penedo, que por nossas navegações não seja já descoberto. Ora manifesto é que estes descobrimentos de coisas, não se fizeram indo acertar, mas partiam os nossos mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria, que são coisas que os cosmógrafos hão-de andar apercebidos, segundo diz Ptolomeu no primeiro livro da sua Geografia.
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(in Tratado da Defensam da Carta de Marear, 1537)...
para detalhes, transcrição da Revista de Engenharia Militar -1911

Fiz alguns destaques... para que se note mesmo!

(i) Passados muitos anos... "Deus deu-nos a sorte" de ter resistido até hoje! Mesmo assim note-se que Pedro Nunes está sob controlo da Inquisição. O Infante Luís só o protege até onde pode, e nem o Rei Dom João III terá completo controlo sobre o problema... do outro lado está Carlos V e não só!

(ii) Dificilmente se poderá dizer que há um descompassado frio na extrema parte sul de África, mas o mesmo não se poderá dizer da extrema parte sul da América... onde está o Cabo Horn.

(iii) A Trapobana é associada ao Ceilão, a tal ilha que tem Colombo como capital... Será que, quando se nomeia a Índia, se pode falar numa grande Trapobana como sendo o Ceilão... Madagáscar não é maior? Não será mais adequado começar a pensar que Trapobana foi, isso sim, a Austrália?

(iv) Depois, Pedro Nunes, em 1537, reclama um descobrimento absoluto... de toda a Terra, antes desconhecida. Estamos em 1537... e de facto, não é fácil encontrar "grandes descobridores" nomeados e honrados por isso, no Séc. XVI. A questão colocou-se só depois... Depois, tudo o que não constava, explicitamente declarado, era considerado "encoberto", e assim poderia ser "descoberto". Demorou algum tempo, de facto! Pelo menos, até Cook, final do séc. XVIII, e ainda assim temos que excluir as viagens polares, séc. XIX. Demorou a realizar em 300 anos, o que de acordo com Pedro Nunes (eu nem me atreveria a tanto...), tinha sido feito pelos portugueses em 100 anos.
Os ingleses mantiveram parte do acordo de cavaleiros, mas não na memória, só nas terras que consideraram pertencer-lhes. Os dinamarqueses só reclamaram a Gronelândia, que por múltiplas razões lhes deveria pertencer! Quem saberá a estória? Todos os intervenientes... quiçá, excepto nós!

(v) Finalmente, retira aquela ideia propagandeada de que se descobriam coisas acidentalmente.
Não houve nada acidental!

Pelos vistos, estas afirmações não chegam!
Foi publicado oficialmente numa Revista Militar de 1911... estamos já na altura da República!
Há, de facto, outras maneiras, de manter uma História submersa... e acontece ao confiar numa divulgação local e muito controlada.


(ii) Representação da América Central
Ainda, no Livro de Marinharia, encontramos outra pérola. Já é tardia... mas ainda está lá! 
Cabo "Sagre" no Panamá (no quadrado verde),

um detalhe do Mapa maior:
Livro de Marinharia - mapa da América Central (< 1525)

Antes de comentar a questão do Cabo Sagres...
Repare-se que o mapa é antigo, ao ponto de colocar bandeiras, assinalando possessões nacionais.... e em castelos, onde?
- Na Colômbia e no Perú, junto aos Incas!
Coisa estranha??
Não... basta lembrar o Castelo de S. Jorge da Mina.
Recapitulemos:
(i) ... de onde nos chegava o ouro? ... do Benim, do Congo?
(ii) Sim, e onde eram essas terras?
Houve ouro vindo de lá, depois de lá chegarem os espanhóis, por exemplo, com D. João III?
De onde veio o declínio do Império Português?

Ou, será que, com o Tratado de Tordesilhas, tudo acabou... ou melhor, foi acabando. Houve uma transição até 1520... ano em que subitamente os Espanhóis estão preparados para tomar conta das coisas. Dá que pensar?

Então, regressemos ao Cabo Sagres!- Há um Cabo Sagres em Portugal, todos o conhecemos!- Havia um Cabo Sagres em África, menos o sabem, mas era na Guiné-Conacri, e consta noutros mapas oficiais, isso é reconhecido!- Agora há também um Cabo Sagres no Panamá... e não adiantará dizer que é Sangre, ou semelhante despiste, pois foi renomeado "Graças a Dios"... é claro, assim notou-se menos!

- O que é interessante?
(i) os cabos americano e africano estão ~ sobre o mesmo paralelo;
(ii) os cabos português e africano estão ~ sobre o mesmo meridiano;
(iii) aí terminam as "navegações" atribuídas ao Infante D. Henrique.

- Há ainda outros dados, mas ficam para mais tarde, se necessário!
Detalhe: Sagres - Sacro pagão... mas também SACRE >> ACRE (Terra Santa), ACRA (África).

 
Talant de bien faire
O Infante D. Henrique usava esta frase como divisa (antes de Tanger, terá usado IDA... iniciais de Infante Dom Anrique, pela sua vontade de conquistar - Tanger, ou Jerusalém?). Frei Luís de Sousa (séc. XVII) classificou a divisa como "duas pirâmides dos antigos reis do Egipto", e encontram-se no livro perdido de Zurara (só recuperado no séc. XIX, em França...):


Divisa do Infante D. Henrique

Talant de bien faire, significaria vontade de bem fazer, mas o "e" falta em talent, pois não se trataria de talento, nem de vontade.
Há de facto dois hemisférios... poderá ver-se uma pirâmide em cada um deles, e até no topo há quem veja um "olho" na pirâmide oriental - onde é que eu já vi este símbolo (... sem ser na nota de 1 dólar)?
Na pirâmide ocidental, é claro, o "olho" descai para Oriente. E depois, vamos brincar um pouco aos anagramas:
TALANT >>ATLANT
FAI'RE >>AFRI'E
Nada mal? Num hemisfério, uma pirâmide atlântica, no outro uma africana.
Mas, para Henrique, o BIEN, o Bem, é claro... era pelo lado Oriental, pelo lado da Cruzada.

- Ao contrário, o irmão Infante Dom Pedro, deixou uma Balança, uma doce Lira, conforme designa Camões, equilibrada... e um desejo - DÉSIR... e depois surgirão outros, que assim foram "o Desejado"!

- Também D. João II procura o equilíbrio, de um lado, para equilibrar a balança está o seu sangue de Pelicano, que retira do corpo, para alimentar os seus filhos - o povo! Do outro lado, não está nada... deveria de estar qualquer coisa - e passa por ser um Camaroeiro, mas nada está! Nem precisará estar, a balança pende naturalmente para as casas Viseu-Bragança, o lado Coimbra-Aveiro vai pagar sempre por isso!

Como vimos, e note-se bem - isto não é uma questão de herança sanguínea, é uma questão de herança cultural (e de medo)! O Infante D. Luís ou D. Sebastião pertencem claramente à Casa Viseu, e por boa vontade, tentam colocar-se do outro lado da balança... mas só conseguem passar informação, nada mais! Da mesma forma, e não querendo falar desse período mais confuso (Séc. XIX), é perfeitamente verosímil que o rei D. Carlos, dada a proximidade com Eduardo VII de Inglaterra, tivesse perfeitamente compreendido as razões do acordo do mapa-cor-de-rosa... ainda que assim, como poderia ele revelar à nação todo esse encobrimento anterior?


Colômbia
A Colômbia tem uma particularidade interessante... Chegou a ser pensada para a travessia Atlântica-Pacífica, em vez do Canal do Panamá....Porquê? - porque tem no seu Rio Atrato, um rio muito navegável.
No final desse Rio Atrato, encontramos uma cidade, chamada Quibdó, e outra mais pequena chamada "IstMina"... estou a fazer ênfase no "Mina", mas seria possível também fazer no "Istmo" (acompanhando o Rio S. Juan até à foz em Buenaventura).

Mas, vejam-se as coincidências... e estão longe de acabar aqui - há um navegador português chamado Pêro Escobar (há muita gente em Portugal com o nome Escobar?... e na Colômbia?), que está associado às navegações da Mina, e à descoberta de São Tomé, sob o serviço de Fernão Gomes.
Ora esse serviço requeria efectivamente muita mão de obra, de origem africana.
Para trabalhar onde?
Qual é o país do continente americano hispânico que tem mais população de origem africana - a Colômbia (e parte da Venezuela), de longe! Nos restantes países dificilmente sabemos da sua presença.
- O que se terá passado?
Essa mão de obra seria usada no serviço da Mina, e era tanta, que não pode regressar ou sair da Colômbia, fica lá! Depois, houve sempre uma separação entre Portugal e Espanha, e de facto os escravos negros só muito pontualmente foram usados pelos espanhóis noutros locais... falta explicar algumas Antilhas, mas isso é outra estória, ainda anterior.


Os paralelos como referência
O que serve de referência para relatar Descobertas/Encobertas?...Normalmente, nas descrições de Zurara e de Duarte Pacheco Pereira, são os paralelos.Ou seja, a cada descrição em África, corresponde uma descrição na América, mas pode haver sobreposição.

Os termos "mouro", ou "negro" pouco significam... em Portugal era frequente dizer-se, indistintamente, que coisas anteriores à era cristã eram "mouras", sem se referirem a "sarracenos".Da mesma forma "negro" pode ser visto como alguém que não foi iluminado pela fé de Deus, não é tanto negro de cor, mas mais negro de alma... ou seja, poderá não ter religião organizada.Assim, é possível seguir as descrições dos autores, sem preconceitos, ou pré-julgamentos, de localização geográfica. E depois, bate tudo certo! Ou seja, percebe-se o que os autores nos queriam transmitir.

A coisa está de tal forma intrincada, que D. Afonso V achou bem oferecer uma cópia das Crónicas da Guiné de Zurara, ao Rei de Nápoles, seu familiar. Duarte Pacheco Pereira, é mais explícito... mas igualmente intrincado, já que a certa altura é mais difícil perceber quando fala de África ou da América. - Usa uma numeração dos Itens para auxílio...

Depois, é claro, alguns nomes vão mudando... uma designação para Zurara, não é necessariamente a mesma de Pacheco Pereira, pois o nome já é outro. É preciso abstrairmo-nos de preconceitos, pegar num mapa, e ir descendo a Costa Americana, de acordo com as latitudes.Mas, não é assim tão difícil, e é surpreendente!

O problema do Bojador
Ou seja, é mais ou menos fácil perceber que as coisas começam depois de Gil Eanes ter coordenado uma grande expedição - exploratória da América - até 1434, que deve ter demorado quase 12 anos... pelo menos é disso que se queixa Henrique!

Quando os portugueses perceberam que passar o continente não era possível, dentro de latitudes razoáveis, o Infante Dom Henrique terá tido luz verde para avançar com o projecto Oriental, por parte do seu irmão, o Rei D. Duarte.

O problema, o "cabo", Bojador está dobrado! ... ou, dito doutra forma, que sentido faria parar as navegações e atacar Tanger de seguida?

Entre 1435 e 1440 não aparecem outros registos de navegações, é tempo de cruzadas, e do desastre de Tanger, em 1437.
- Apesar de Tanger ser costeira, a invasão vai ser por terra, partindo de Ceuta. Porquê?
Que eu saiba, ninguém tem justificação para esta estratégia do Infante Dom Henrique...Ora, no sentido de ser preparatória à Cruzada (... à IDA), contornando África, ele usa Tanger como simulação para mostrar que será perfeitamente possível, a partir de um ponto terrestre marchar por um terreno difícil, e atingir Jerusalém. Precisa do apoio dos aliados... e assim julgará convencê-los.

Não consegue, é derrotado!... Tem uma escapatória, o apoio por mar do irmão Fernando. É esse que ele escolhe para o substituir como refém, é esse que será o Infante Santo para manter Ceuta.

Há um claro trauma nacional, durante o cativeiro do Infante Santo, e faz-se ainda uma tentativa armada de resgate... mas sem sucesso. Como D. Duarte morre e há um problema na regência, pela menoridade de D. Afonso IV, a mãe aragonesa é rapidamente exilada - teria que ser, havia demasiados segredos em jogo, para qualquer conhecimento de Aragão! Nesse ponto, os irmãos Henrique e Pedro estão de acordo!


Infante Dom Pedro
- O Infante Dom Pedro, mais velho, assume a regência em 1439, e é o primeiro período de ouro, que marcará o que se passará de seguida. Haverá colaboração com Henrique, nesta nova empresa.
É o primeiro período de ouro - literalmente!
É o tempo das caravelas... rápidas na ligação com a América.
Se Gil Eanes se teria preocupado com a ligação ocidental até 1434, sem entrar no continente, navegando pela costa, a partir daí vão começar os contactos.

Logo de início, por Gil Eanes e Afonso Baldaia (1440) - os registos começam aí com Zurara (que escreve "sob orientação científica do Infante Dom Henrique", já depois de Pedro morrer).
Depois, é uma sucessão de nomes em África, que nenhuma importância aí têm, mas que se percebe terem importância - à mesma latitude - na América, por exemplo - o Rio do Ouro (que quase nem é rio, em África).

A costa vai descendo, Arguim, Tider, Ergim, invocando povos em ilhas que não passam de bancos de areia... em África. Do outro lado, na América, é só difícil saber exactamente que ilhas se tratam, em Zurara... já com Pacheco Pereira, é mais fácil.

É aqui que começa a atribuir a chegada do ouro aos "mercadores do deserto"... é a necessidade de fazer uma Feitoria em Arguim. É tempo dos Azenagues! Mas... onde se passará tudo isto? Porque não, do outro lado, no mesmo paralelo, no México, com os Aztecas?

O Infante Dom Pedro pode ter sido um excelente governante (a nível interno e externo), mas também beneficiou desta pequena dádiva de ouro, caída dos céus!

Mas toda essa estória fica para depois... Seguimos usando a descrição de Duarte Pacheco Pereira.

Cabo Verde
Chega-se a Cabo Verde. E a que corresponde o Cabo Verde?
Nada mais nada menos, do que à grande península do Iucatão...Porquê?... Porque a Costa Africana segue, mas à mesma latitude, a Americana não!
Qual é a brilhante ideia?
É que as ilhas de Cabo Verde irão ser associadas a Grandes Antilhas.
Assim, temos seguramente São Tiago = Cuba, depois as restantes, também não é difícil...
É por isso que o Cabo Verde, aparece como um grande Cabo deformado nos mapas... por isso aparece uma rosa-dos-ventos, o zénite, para justificar a distorção polar... e tantas outras coisas, por exemplo, é aqui que se faz a distinção entre Etiópia Superior e Etiópia Inferior... e depois a outra, a Etiópia Sob-Egipto, a que ele considera africana.
- Onde seguimos?
O próximo ponto possível, compatível com outras latitudes no continente Africano é, sem dúvida, localizado nas Honduras, na "Etiópia Inferior". Teremos aí outro ponto de referência.

Nicarágua
O nome mais importante que se segue, é o Rio Canágua... que depois é renomeado convenientemente:

Canágua >> Çanaga >> Senegal
conforme vai constando nas cartas!Do outro lado, o que temos?
Temos, exactamente a Nicarágua... e vejamos, a coisa não fica por aqui!
Como nomeia um chefe local? Trata-se do chefe Nicarao... Nicarao+Canágua ~ Nicarágua estamos ou não próximo de Nicarágua, cuja capital é Manágua? Sim!

Podemos ter mais umas coincidências... certíssimo!!
Mas então olhemos a descrição de um grande lago entrando no Canágua:
Temos uma lagoa com "32 por 12 léguas", falamos de 188Km por 72Km... dimensões exactas para o Lago da Nicarágua....
Não encontramos nada semelhante a isso no Rio Senegal! O lago Guier será de facto uma lagoa comparado com isto!
Convém ainda notar que a resistência à colonização espanhola foi muito prolongada, na zona da Nicarágua, e por isso não terá sido possível uma imediata renomeação...

Panamá e Sagres
Depois, de facto, vamos encontrar uma Serra Leoa... que será Leoa, no correspondente Panamá, pois impedirá a progressão para Ocidente.É a grande cadeia montanhosa do Panamá que liga a América do Sul à do Norte.Mais uma vez a Costa volta a subir, e o contorno americano não acompanha o africano...É tempo dos contornos ocidentais darem lugar aos orientais...

Resumo do paralelismo nas descrições de Duarte Pacheco e Zurara.
(nova inclusão: a 27/12/2009)
É aqui que pode recomeçar o projecto Oriental. É aqui que ficará o Cabo Sagres, conforme referido por Duarte Pacheco Pereira. É aqui que termina a colaboração do Infante Dom Henrique com o irmão Dom Pedro.

Segue-se a luta interna... com um Duque de Bragança a influenciar o jovem Afonso IV.É aqui que esse jovem rei decide humilhar o tio, pai da sua mulher. É tempo de Alfarrobeira, é tempo do Infante Dom Pedro morrer, para dar lugar às novas conquistas para a Cruzada, contra os infiéis. É tempo desse jovem rei conquistar praças africanas, até que o Infante Dom Henrique morre, e há uma nova esperança desejada - chama-se D. João II, acima de tudo, neto de Dom Pedro. Do outro lado, há uma Spera que se acentua, especialmente depois da conquista de Arzila e de Tanger, no tal Dia de São Bartolomeu.


Encoberto e Desejado
O grande feito ocidental foi encoberto e será tempo de esperar pelo primeiro "Desejado", cumprindo o Désir de Pedro.
- Do Pedro que o povo canta e que coloca uma fonte com o seu nome em Coimbra, pelos amores que lhe tem, conforme dirá Camões, que a isso junta ninfas do Mondego;
- Do Pedro, avô de Joane, que Gil Vicente coloca contra o Sapateiro da Candosa, contra o Rachador de Alverca - ou melhor, Alfarrobeira.

É o Pedro, desejado, do sonho ocidental, do sonho americano, colonizador...
Será esse Pedro que o povo amou ao ponto de nos deixar uma infinita melancolia de séculos. Por ser tão amado poderá aparecer, até como um Gigante Adamastor em D. João II, mas também como um Trágico Massacrado em D. Sebastião. Num ponto são comuns, os desejados desaparecem... até não mais aparecerem!

Um Désir, que afinal sempre esperámos depois do séc. XVI, e que o Padre António Vieira tornou claro não ser representado por D. João IV... (... a ser alguém, seria muito mais a sua mulher, a Rainha Luísa de Guzman, descendente de Ana de la Cerda e do português Rui Gomes da Silva "o Rei Gomez", príncipes de Eboli... mas isso é outra estória!)

Mas "o Encoberto" é também o contrário "do Descoberto", é a mensagem que fica presa a um nevoeiro, cada vez mais espesso, onde só nos chegam pequenos sinais... suficientes para uma eterna inquietação, de fantasmas que sepultámos mal, e que pedem que lhes seja honrada a memória!

Há só uma História? Ou há a Estória que deixa registos, que apaga registos, e que às vezes deixa pontas soltas... até que apareça alguém a assinalar, e depois se volte tudo a colar, durante mais alguns séculos. Tem sido assim! Neste momento, o que é preciso é rever o inacreditável, e que haja então quem invente outra Estória, melhor que esta, que cole todas coincidências de forma mais verosímel.




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publicado às 20:34


Colombo (17/12/2009)

por desvela, em 30.12.12
Não me interessa especialmente a pessoa de Colombo, interessa-me mais a personagem. Por isso, é para mim razoavelmente secundário saber onde nasceu, ou a sua filiação biológica. 
"Personagem" hoje tem significado diferente de "pessoa", mas ambas derivam de "persona", que deve decompor-se em "per-sona", no sentido "per"-através, e "sona"-soa... ou seja, que o som vem através de si. É hoje algo estranho associar uma pessoa apenas como veículo de emissão de som, é mais apropriado à figura auxiliar de uma personagem, de um actor.
Uma personagem pode ser interpretada por vários actores, várias pessoas.
Na minha opinião Colombo foi personagem, pouco escreveu no guião que o viria a tornar famoso. A personagem poderia ter tido outro actor, e a as particularidades da pessoa de Colombo têm só interesse para compreender por que razão se tornou "o escolhido".

Recupero aqui o texto com o título "Colombo", que publiquei no Knol em 17 de Dezembro de 2009, e que entretanto desapareceu, devido ao cancelamento do projecto Knol da Google. Aliás, já antes o tinha cancelado, e por isso, a reclusão deste texto foi mais resultado de auto-censura induzida à época.
Ora, apesar de poder justificar as razões que levaram à reclusão de alguns textos, acabo por notar que fazem falta... Fazem falta porque permitem comparar uma opinião "mais entusiasmada" à época, com a distância que o tempo deixou correr. Para além disso, fazem parte da história deste blog, e seria algo contraditório criticar a supressão histórica e fazer o mesmo aqui...
Nem é que tenha mudado de opinião, pelo contrário, relendo os textos até me surpreende nem ter mudado quase nada, simplesmente hoje não exporia assim, para não me expor...
A falta de sentido na vida de muitos, leva-os a procurar retirar sentido à dos outros. Isso é uma característica tipificada na vida de algumas alimárias, que se resume a uma competição territorial, alimentada pela sua biologia. Quando o indivíduo se julga o campeão da carica, ou similar, é a sua biologia competitiva a falar mais alto. Qual o sentido dessa biologia competitiva? - Não é a preservação do indivíduo, porque esse é condenado à morte pela própria biologia celular (nem as bactérias são imortais). Será o apuramento da espécie? - Até que ponto, até que só restasse uma? - Para quê? - Será que se pensa que o universo é uma entidade masoquista que vai criar uma espécie que o dominaria (como se tal fosse possível...), ou será que se pensa que é uma entidade sádica que visa aniquilar as espécies menos aptas? Já sei que nem se pensa uma coisa, nem outra, agora é moda pensar que é tudo fruto do "acaso". O "acaso", tal como Deus, é tido como uma entidade supra-universal, condicionaria o universo, mas não faz parte dele, contrariando a própria definição de universo - que engloba tudo. Não sei se a epistemologia moderna se esqueceu deste "detalhe" de contradição lógica, ou quer fazê-lo passar por esquecido, mas tem feito Escola, e que Escola!
O que me parece evidente é que a humanidade se entretém em criar objectivos num universo artificial, construído por si própria, a que chama "sociedade", e que sob o ponto de vista da competição genética, terá tanto sentido quanto as cortes sexuais feitas pelos pavões - sem dúvida que há muito pavonear digno de admiração.

Bom, como isto já parecerá pavonear filosófico, segue o texto:






Colombo
3ª Parte de 7 - Tese de Alvor-Silves
17 de Dezembro de 2009

Colombo, Ceilão
Começamos por outro nome Colombo, o de uma cidade perto da outra Índia.
Foi interessante ler esta justificação para o nome Colombo, capital do Ceilão (Sri Lanka):

( Wikipedia de 19/3/2008 até hoje, 15/12/2009):
  • O nome Colombo foi introduzido pelos portugueses em 1505. Parece derivado do termo cingalês clássico kolon thota, que significa "porto sobre o rio Kelani". Outra teoria afirma que deriva da expressão cingalesa kola-amba-thota, que significa "porto com árvores frondosas de manga".
A versão que acabo de transcrever - não será fortuita - é generosa, e resultará de algum estudo erudito, suportado por documentação adequada à época.
Estará fora de causa associar o nome Colombo em 1505, ao navegador "genovês"?... que, por mero acaso, nessa altura acabava de navegar para a Colômbia?
Aparentemente, tal associação de homónimos contemporâneos será estranha. Porquê?
Porque Colombo estava ao serviço de Espanha, mas também de uma parte de Portugal.
Essa parte de Portugal, saiu de tal forma vencedora para a História, que apagou grande parte dos traços incriminatórios. No entanto, D. Manuel conseguindo ser rei, teve que conviver durante algum tempo com uma parte de Portugal que não se identificava com o seu projecto... e veria em D. Jorge o legítimo sucessor de D. João II.
Assim, há de facto duas hipóteses que me ocorrem... foi pretendido por D. Manuel honrar o seu suposto "meio-irmão" Colombo (de acordo com uma tese largamente veiculada), ou foi um nome decidido pela "outra parte de Portugal", que conseguiu nomear vários vice-reis da Índia - para deixar mais essa pista na História? Como o Ceilão foi "descoberto" por Lourenço de Almeida, filho de Francisco de Almeida (claramente, um não adepto da cruzada), estou em crer que se tratou de mais um legado!

Não há só uma história de rivalidade entre Portugal e Espanha, há também uma estória por contar, e natural, de grande cumplicidade... O temor é que essa cumplicidade seja vista como traição, já que em certos casos é disso que se trata, e nem sempre é facilmente desculpável em termos de "valores maiores".

Na "estória de Portugal" que nos é contada, há só um "traidor" simbólico, um desgraçado ambicioso, aparentemente um funcionário competente, que dava pelo nome de Miguel de Vasconcelos, e que foi defenestrado (atirado da janela), no dia em que os Duques de Bragança tomaram o Reino de Portugal de assalto aos Espanhóis. Claro, e é suposto acreditar que antes não haveria nomes numa resistência, nem outros nomes num colaboracionismo... e tudo se resume ao tal "Miguel de Vasconcelos e Brito".

Infantes - Dom Henrique... e Dom Pedro
As navegações portuguesas, iniciadas por D. Fuas Roupinho, ganharam um impulso maior com a vinda dos templários no reinado de Dom Dinis, e foram prosseguidas de forma muito activa por D. Afonso IV. Uma comunicação de Afonso IV ao papa Clemente VI, mostra que os portugueses teriam começado a descobrir as ilhas e já passado o cabo Não... (ou Bojador, que é ao lado), antes de 1336. No entanto, imediatamente depois surgem várias cartas italianas e catalãs, relatando a presença exacta das ilhas comunicada ao papa (Canárias, Madeira, algumas ilhas dos Açores)... muito antes da sua descoberta oficial no tempo do Infante D. Henrique! Torna-se claro para Afonso IV que não poderá haver mais fuga de informação, nem tão pouco para o Papa. Começa a grande política de sigilo nacional, cujo episódio mais eloquente é a morte de Inês de Castro. Camões compara-a a Polixena... não é por acaso - ela teria que morrer para que os navios pudessem partir. Toda a estória relacionada com o "amor puro", "a fonte dos amores", etc... é um aproveitamento posterior das tentativas feitas por Garcia de Resende e Camões para transmitirem uma mensagem, que doutra forma ter-se-ia perdido nas chamas inquisitórias... mesmo assim a mensagem não passou, e isso será assunto que abordarei depois.

As navegações que o Infante Dom Henrique declara como "suas" descobertas, têm, pelo menos 100 anos de atraso, graças a essa política de escrupuloso sigilo (com cumplicidade inglesa).
O que era declarado descoberto pertenceria a Portugal, e uma parte do não declarado, e encoberto, iria pertencer à Inglaterra (e outros aliados, como por exemplo a Dinamarca).

A diferença entre o Encoberto e o Descoberto será aproximadamente 100 anos.

Esse prazo foi mais ou menos escrupulosamente cumprido, à excepção de pequenos eventos que podem ter comprometido esse valor (como por exemplo, a passagem do Cabo da Boa Esperança, ou do Trópico de Capricórnio, em 1377, ou a descoberta do Japão, anterior a 1435).

O plano do Infante Dom Henrique, nada tinha a ver com navegações....
O seu plano era arranjar meios para financiar "sózinho" uma cruzada para a conquista de Jerusalém, esse sim, o velho sonho dos templários, do qual D. Manuel (seu "neto", por adopção) foi o grande herdeiro! Só não o prosseguiu mais, pois teve oposições de alguns Vice-Reis da Índia.

Foi por isso, que Henrique, depois que o irmão, Infante Dom Pedro foi morto, tratou de negociar bulas papais para legalizar e reintroduzir a noção de escravatura... noção abandonada há muito na Europa.
Todos os meios justificavam o fim da cruzada.

A contrario desta ideia de Cruzada, surgiu o Infante Dom Pedro (regente de 1439 a 1449), protagonista primeiro de uma ideia completamente diferente, demasiado avançada para a época...

Infante D. Pedro, das "Sete Partidas"

Foi o Infante Dom Pedro o catalizador de todo o modernismo que depois se seguiria na Europa.
Os maiores elogios que são feitos nos Lusíadas, são feitos a ele... mas de forma necessariamente dissimulada. A "fonte dos amores" de Inês, não é mais do que "a fonte de Pedro", deste Pedro, Duque de Coimbra, quase banido da memória nacional.

Ao invés de prosseguir na ideia de Cruzada, o intuito do Infante Dom Pedro era o de colonizar, evangelizar, e dinamizar o comércio. Encontrou poderosos adversários, e acabou morto epicamente na Batalha de Alfarrobeira, numa conjugação de interesses do Ducado de Bragança (através de Afonso, meio-irmão) e de alguma cumplicidade do Ducado de Viseu (através de Henrique, irmão).

Esse projecto do Infante D. Pedro foi seguido pelo seu neto (materno) - D. João II.
O projecto do Infante D. Henrique foi seguido pela "filha adoptiva", a poderosa Dona Beatriz de Viseu, a única mulher que regeu a Ordem de Cristo, e que serviu de mediadora entre Portugal e Espanha no Tratado de Alcáçovas. Dona Beatriz foi a mãe da Rainha Dona Leonor, e do futuro D. Manuel.

Foi por essa razão que D. João II não poderia fazer outra coisa que eliminar duramente os ardis de bastidores, com Castela, e que eram protagonizados pelos duques de Viseu e de Bragança. Nem que para isso recorresse a execuções sumárias ou formais... e mesmo assim, acabou envenenado!


A missão de Colombo
De partida para Espanha, a partir de 1484 (8 anos antes da "descoberta" das Antilhas), não foi apenas Colombo, mas toda uma comitiva nacional, associada aos duques de Bragança e Viseu.
Nessa altura (1484) já D. João II tinha controlado, com uma política draconiana, as tentativas de insubordinação dessas poderosas casas ducais. É assim natural o exílio, e um início de colaboração com Castela e Aragão.
Por matrimónio com Dona Leonor, filha de Beatriz de Viseu, D. João II já foi longe ao assassinar o cunhado, pelo que procurou compensar o seu irmão mais novo... o futuro D. Manuel. Internamente, o objectivo da Casa de Viseu seria ainda pressionar Dom João II a esquecer a América e a concentrar-se no projecto de Cruzada.

É por isso que D. Manuel passa a usar a divisa "Spera". A data constante 1377... indicará que a espera para o ataque surpresa, numa Cruzada pela península arábica durava desde há mais de um século.

A "Spera"
É escusado manter a fantasia de que contornar a costa africana era "muito difícil"...
- Os cabos só seriam importantes numa navegação costeira, e os portugueses, desde o momento em que faziam carreiras constantes para os Açores (pelo menos desde 1432), deixaram de se preocupar com "cabos"!
- Aliás, os únicos Cabos que registamos são simbólicos e políticos... uma vez passados, deixou-se de ouvir falar em "Cabos". O grande Adamastor é um monstro político e Camões conheceu-o na sua fogosa expressão juvenil. Haveria de tornar-se ainda mais eficaz!

A progressão partindo por terra de Ceuta para a conquista de Tanger, plano de Dom Henrique falhara em 1437, com o cativeiro do Infante Santo, D. Fernando. Esse teste mostrou que a capacidade nacional não era suficiente para missões mais ambiciosas, e para a concretização da Cruzada...
Continuava a "SPERA"...

Voltou a estar sobre a mesa, quando o jovem Afonso V foi induzido pelos tios, Duques de Viseu e Bragança, e fez proezas nas conquistas de Céguer, Arzila e Tanger.
No entanto, quando Afonso V ficou sem apoio na sua pretensão ao trono de Castela (tendo que colocar num mosteiro a sua 2ª mulher, "A Excelente Senhora" legítima herdeira), tornou-se ainda mais claro ao seu filho, D. João II, que não poderia ter qualquer compaixão com os adversários (... e mesmo assim, teve alguma)!

É absolutamente inverosímel a estória que o Infante Dom Henrique teria enviado 12 expedições para passar o Cabo Bojador... mesmo assim, a repetição da estória inventada para o Cabo Não, voltou a funcionar "recriando esse novo obstáculo no imaginário".

Sem adiantar outros factos mais explícitos que abordaremos depois... os registos de chegada de pau brasil a Portugal, constam até dos Contos de Canterbury (Chaucer,1386), conforme já notado por outros autores.
Para além disso, o próprio Zurara (1453) refere-se à grande altura de edíficios de Lisboa, o que era permitido pela chegada das novas madeiras (observação do Visconde de Carreira, séc. XIX).

A "ilha Brasil" (ou São Brandão) foi referida por Afonso IV na comunicação ao Papa, e passou também a fazer parte dos sucessivos mapas, durante 200 anos - só acabou com a definição da descoberta do Brasil, após 1500. Foi colocada estrategicamente próximo da Irlanda... o que nem era uma forma incorrecta, como veremos!

Contactos pré-colombianos
À altura da viagem de Colombo, o continente americano era completamente conhecido dos portugueses... e não falamos apenas do Brasil!

Portugal tinha relações comerciais com os Incas e com os Aztecas, desde 1440... esse foi aliás o problema desses povos, julgaram que os espanhóis viriam substituir o comércio com os portugueses!

É claro que também se pode julgar que todo o ouro que chegava a Portugal era resultado de negócios com caravanas berberes na costa dos desertos de África.

Quem achar provável que tal quantidade de ouro, especiarias, etc... passeasse pelos desertos do Saara, ou estivesse em minas de ouro de um reino perdido do Benim, ou de uma cidade fabulosa de Tumbuctu, que nunca existiu, então foi bastante bem convencido.
Conforme registado, o ouro que nos chegava era previamente fundido nas Feitorias, e por isso dificilmente se encontrarão vestígios de artefactos.

O plano que Colombo deveria cumprir: - declarar como descoberta de Espanha um território que minaria as preciosas possessões portuguesas, e forçar novas negociações!


Etiópia e depois Guiné
Acerca destes dois nomes "míticos", Duarte Pacheco Pereira menciona, sobre o Infante D. Henrique:

... & assim descobriu mais por Guinee que antigamente se chamava Ethiopia ...

Esta informação dá-nos a indicação que Etiópia era uma designação anterior de Guiné.... Porquê?

Apesar de serem "atribuídas" mais de 50 expedições só ao Infante Dom Henrique, e de muitas mais navegações (... até privadas por Fernão Gomes, ~1470), num total de centenas de expedições, contando com D. João II, ninguém se teria lembrado de navegar para ocidente?
Ninguém teria tido ensejo de prosseguir o esforço de encontrar a ilha de São Brandão ou a ilha Brasil... Portanto, só Colombo, numa única expedição, se lembraria de propor tal coisa?
O que impedia os portugueses de tentarem? Ah! Os cálculos do diâmetro da Terra!
Um rei pragmático, D. João II, beneficiando de tantas riquezas de terras desconhecidas, em que incluía não apenas ouro, mas também especiarias, e tantos outros produtos, e isto antes de chegar à Índia... não autorizaria nenhuma expedição para essas paragens, porquê? - porque confiava cegamente numas contas sobre o diâmetro da terra!
Alguém ainda acredita nessa estória tão mal contada?
... aparentemente, é conveniente que sim!

Nem se trata de reconhecer nada de especial... Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!

Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Voltando à Etiópia e à Guiné.
A mudança de designação deu-se no tempo dos Infantes Henrique ou Pedro.
De facto, à latitude do Brasil, encontramos a Etiópia, do lado oriental de África.
Se não existisse um continente americano, por circum-navegação terrestre, quem encontrasse o Brasil poderia legitimamente concluir tratar-se da Etiópia!

Portanto a confusão de Colombo com as Índias, é uma velha confusão, que começou com:
- o Brasil ser identificado à Etiópia.

Depois, percebemos que ao tempo do Infante D. Henrique ou melhor do Infante D. Pedro, concluiu-se que não era o mesmo território, havia todo um continente, e essa designação de Etiópia foi progressivamente abandonada, passando a usar-se outro termo, o termo Guiné... que se prestou a outras tantas confusões à época, e posteriormente (p.ex: Guiana, Nova Guiné)!

Note-se que a designação correcta é Guiene, pois surge de nome antigo da província da Aquitânia francesa - que esteve sob domínio inglês, em particular do avô dos Infantes D. Henrique e D. Pedro.
A recuperação desse termo pelos ingleses e franceses não é acidental!

Ou seja, aquilo que conhecemos hoje como América, teve antes os seguintes nomes:
Séc. XIV: Brasil/Etiópia >> Séc. XV: Etiópia/Guiné >> Sec. XVI: Índias Ocidentais/América


Enquadramento político à época
Dona Beatriz de Viseu foi mediadora no Tratado de Alcáçovas-Toledo, 1479-80, negociado entre a sua sobrinha, a Rainha Isabel de Castela, e o seu genro, D. João II.
Ficaram à sua guarda pelas Terçarias de Moura até 1483 os filhos de ambos, os príncipes Afonso e Beatriz, que de facto eram reféns em Moura, para o cumprimento do acordo.

Esse acordo previa a união dos reinos com o casamento que veio a ocorrer em 1490.
Mesmo após a morte do príncipe Afonso em 1491, Castela mostrou que não estava completamente de má fé, pois a princesa Beatriz voltou a casar-se com D. Manuel, havendo um herdeiro Miguel de La Paz, que morreu com 3 anos... inviabilizou-se a união dos reinos, até ao problema de D. Sebastião, resolvido por Filipe II, em 1578, da maneira que já vimos noutro capítulo.

Dona Beatriz de Viseu, pouco considerada na História, assume um papel de relevância extrema, colocada como mediadora entre Portugal e Espanha, num papel normalmente reservado ao Vaticano.

Libertado o seu filho Afonso, em 1483, D. João II trata de resolver os problemas internos, executando exemplarmente alguns cabecilhas dessa conspiração que já havia vitimado o avô, o Infante Dom Pedro. Executa o primo (Duque de Bragança) e mata o irmão (Duque de Viseu) da sua mulher, a Rainha Dona Leonor, mas nunca ousa tocar na mãe, Dona Beatriz.

No entanto, a correspondência entre Isabel de Castela e Beatriz acentua-se, havendo uma útil confusão com a existência de uma outra Beatriz (freira portuguesa, no mosteiro de Toledo... depois santificada).
O projecto é ambicioso, e difícil de descrever em poucas palavras. Inclui um acordo com Génova e Milão, que envolve a eleição do Papa Alexandre VI, a instauração da Inquisição, e o cumprimento de uma visão intolerante - a das Cruzadas - com a cumplicidade do Vaticano (controlado nessa altura por uma ligação Espanhola-Milanesa-Genovesa).

É preciso relembrar a rivalidade Génova-Veneza, para entender que D. João II, virado a Ocidente, tinha em Veneza um aliado, e em Génova um inimigo... ao contrário do que acontecia com os Duques de Viseu, como o Infante D. Henrique, ou D. Manuel - esses teriam em Veneza um inimigo contra o projecto de comércio oriental, e em Génova um aliado.

Surgem assim dois pólos que são simbólicos:
  • (1) Aliança Oriental - Portugal: Beatriz & Espanha:Castela & Génova
  • (2) Aliança Ocidental - Portugal: João II & Inglaterra & Veneza
Não é acidental, a representação esquerda|direita, que invoca os dois lados em questão.

Dom Manuel surge com a sua divisa "Spera" com uma esfera armilar com a eclíptica virada a Oriente, e será essa que irá manter (e se mantém até hoje, na nossa bandeira - o que é relevante).
Dom João II, ao morrer pede para que use duas esferas, uma com eclíptica a Ocidente, outra com eclíptica a Oriente. O seu filho bastardo, Dom Jorge, e os sucessores Duques de Aveiro, irão usar o escudo com um risco virado a Ocidente.

O rei D. Manuel aceita essa duplicidade poucos anos... até consolidar o poder, e definir por completo o seu lado Oriental.

Conseguirá em 3 anos, 1498-1500, definir por completo o território descoberto no seu hemisfério Oriental, após Tordesilhas. Ou seja, o Brasil, a Gronelândia, toda a África Oriental, e a Índia.

Faz mais descobertas em 3 anos, do que os seus predecessores em 200 anos?
E é preciso notar que não são descobertas quaisquer... são quase as mais difíceis - a viagem para a Gronelândia é notável! Basta ver o mapa de Cantino (1502) para ver a precisão com que é apresentada a Gronelândia. Nesse mapa, as outras partes mais acessíveis e apetecíveis têm uma distorção natural que o copista não pode entender...

Só na viagem de Vasco da Gama é feita maior progressão (em mares infestados de embarcações inimigas, a que se adicionam conquistas), do que na soma das progressões anteriores, atribuídas ao Infante D. Henrique e ao Rei Dom João II.
D. Manuel I quererá denominar-se César Manuel... o povo escolheu simpaticamente o Venturoso!
Terminava a "Spera" do projecto oriental dos Viseu... a ruína do reino com a guerra contra os infiéis no Oriente iria começar!

Cabos difíceis... mas só em África!
Nesse aspecto de conquistas, Dom Manuel é muito eficaz.
Muito graças a Afonso de Albuquerque (ao contrário de outros vice-reis, que se mantêm noutro projecto), consegue vitórias em cima de vitórias.
Em 1513 está a estabelecer-se na China. Em 15 anos, não é notável declarar essas "descobertas", é notável a capacidade militar - o Índico é um grande mar português.

A ser verdade a História oficial, nos seus 15 anos de reinado, Dom João II, o "Príncipe Perfeito", basicamente apenas acrescentou como descoberta a parte sul, ocidental de África.
Aí não teve que fazer uma única conquista, o seu grande feito teria sido contornar o Cabo da Boa Esperança, e preparar o caminho? A ser verdade essa História, que caminho?
O caminho para as conquistas na Índia ou o caminho para outros Cabos?
Alguém sabe mais algum nome de Cabo após esse?
Não!... Deixaram de haver Cabos na Ásia, só havia em África?
Deixou de haver problemas na mudança dos ventos no Índico?

Subitamente muda-se das rápidas caravelas, e passa-se de novo para as pesadas naus.
Com essa mudança para uma embarcação mais lenta, aceleram-se as descobertas!
Alguém pode acreditar nesta versão oficial?


A (ir)relevância da estória de Colombo
É nos jogos políticos, entre as alianças europeias estabelecidas, que se definem duas curiosas empresas individuais, envolvendo 3 nações diferentes.

No acordo Viseu-Espanha-Génova, aparece a figura de Colombo.
(i) Colombo será um português, enviado pela casa Viseu, navegando sob bandeira espanhola e sob nacionalidade genovesa. O seu plano é um plano da casa Viseu... tendo sido poupado em Lisboa, é natural que se tratasse mesmo de um "cunhado bastardo" de D. João II.
Mas, não será caso único!
Mais tarde, em 1498, já morto D. João II, é honrado parte do compromisso com a outra aliança!
(ii) Labrador (João Fernandes) é um português, associado a D. João II e à casa Aveiro, navegando sob bandeira inglesa, e sob comando de um veneziano Giovani Cabotto.

Isso dá algumas ideias do que estaria concordado entre D. João II e os ingleses, após Alcáçovas. Toda a América, acima do paralelo das Canárias, ficaria para os ingleses. Acabou por ser cumprido!

Um equilíbrio europeu pensado pacífico por D. João II, foi destruído pela viagem de Colombo e pelo Tratado de Tordesilhas.
Até ao Tratado de Alcáçovas, tudo tinha ficado Encoberto, a partir de Tordesilhas, iria jogar-se a Descoberto, encobrindo tudo o que se tinha acordado anteriormente. O papel de D. João II no Tratado de Tordesilhas é já menor, e mostra como estaria enfraquecido no seu progressivo envenenamento. Terá conseguido deslocar o meridiano, assegurando o Brasil... última terra do sonho ocidental!

Qual era o sonho ocidental?
Após o Tratado de Alcáçovas, D. João II teria "tudo sob controlo":
(a) As Minas - especialmente a Inca, mas também a Azteca, estão abaixo do paralelo das Canárias, e dentro do território português, "da Guiné".
(b) Havia duas possibilidades de atingir a China e a Índia:
    (i) A via da cruz, pela guerra com os otomanos, no Índico - via seguida por D. Manuel;
   (ii) A via da vera cruz, pacífica, contornando a América do Sul - via pretendida por D. João II.

Em 1483-84 Diogo Cão descobre o Estreito de Magalhães, e realizam-se as explorações na costa oeste da América do Sul. Porquê?
Os alemães não tiveram problemas em reivindicar para Martin Behaim a passagem do Estreito... apenas porque Pigafetta relatou que Magalhães teria visto um mapa seu, com essa passagem!
Ora Behaim, estava ao serviço de Dom João II, e viajou com Diogo Cão em 1483-84...

A sustentação da tese de Behaim foi tida como fraca, pois não haveria capacidade de navegação por iniciativa própria... Isso no caso português não se justifica, o problema é que no caso nacional, tudo será sempre insuficiente perante desígnios encobertos ainda latentes.

O sonho ocidental, do Infante Dom Pedro, e de Dom João II, era tão simplesmente um grande mar pacífico - e por isso alguém cuidou que o "Mar do Sul" de Balboa... tenha ficado para sempre
Oceano Pacífico
como provavelmente foi baptizado por D. João II, ao mesmo tempo que do outro lado, em África, anunciava o Cabo da Boa Esperança...

Ao fim de 500 anos, talvez se perceba que Cabo ele tinha que dobrar...
Se o nomeou como Boa Esperança em 1488, num eventual acordo celebrado com a facção representada pelo Dia S. Bartolomeu (ou seja Bartolomeu Dias), rapidamente deverá ter concluído, que viriam aí as verdadeiras Tormentas!

Qual é então o enquadramento da viagem de Fernão de Magalhães?...
Todos os traços de anterior presença portuguesa, fora do hemisfério oriental, não eram convenientes.
Por várias razões...
Tal como o Infante Dom Henrique, Dom Manuel não teve problemas em ostentar a sua vaidade e receber louros de iniciativas para as quais não contribuiu. Pelo acordo com Espanha, e evitando uma grande guerra (com proporções que só D. Sebastião experimentou...) iria manter-se dentro do seu hemisfério.

A missão de Fernão de Magalhães deverá ter tido o duplo acordo de D. Manuel, e também do Imperador Carlos V, rei de Espanha. Seria destinada essencialmente a apagar os traços deixados pelas anteriores navegações portuguesas, na zona após o Rio da Prata, onde os espanhóis tinham acabado de chegar. Por isso, a expedição de Magalhães ficou um ano em terra, com inúmeros pretextos de atrasos, que levaram a motins.

Fernão de Magalhães sabia que a memória iria ser apagada, de uma forma ou doutra... e por isso tinha um plano pessoal diferente. Com cumplicidade de cartógrafos portugueses (Reinel, Faleiro?) terá obtido informações para a travessia do Estreito, dando-lhe indicações cartográficas de como chegar às Molucas.

Havia ainda a aposta na empresa da viagem do Pacífico, para que esse feito não fosse separado da memória nacional... Não será acidental que Magalhães, ao entrar no "Mar do Sul"... o tenha designado Oceano Pacífico, e depois tenha optado por morrer, ao chegar às Molucas!
Não poderia ter outro fim honroso se aceitasse voltar!... Toda esta estória é profundamente trágica!

E... Colombo?
Sobra muito pouco para dizer sobre Colombo... a importância que lhe é dada hoje é conjuntural. No final da sua vida tinha caído em desgraça, pois percebeu-se rapidamente o nível de encobrimento em que os portugueses tinham conseguido manter as descobertas... já nada havia a descobrir!

Até meados do século XVI não houve ninguém com bom senso, que fosse denominado descobridor, isso foi uma reinvenção posterior, especialmente dos séc. XVII e XVIII, quando se percebeu que aquilo que iria valer seria apenas o que se tinha declarado.
Aí, começaram as sociedades secretas, que de alguma forma foram acompanhando os segredos que restavam... quer de descobertas marítimas, quer de descobertas científicas!

Mesmo à "descoberta" de Giovani Caboto em 1498 não foi dada especial importância, nem tão pouco é dada sobre-importância a Walter Raleigh, 1584, que nesse caso "descobriu" para a Inglaterra as primeiras províncias que iriam fazer parte dos EUA, nomeadamente a Virginia e Carolina.

Os portugueses encobriram durante 200 anos as descobertas.
Os europeus iriam fazer o mesmo à memória dos portugueses, dilacerados por lutas cruéis internas que se mantiveram até ao séc. XIX. A partir daí... deverá entrar também o esquecimento forçado e natural.

Será provavelmente difícil atribuir a descoberta do continente americano a alguém, provavelmente a um fenício, ao missionário São Brandão, a um viking dinamarquês... ou a um pescador da Maia?
Aquilo que se sabe é que começaram a chegar produtos exóticos à Europa, através de Portugal, no início do Século XIV, e que aí começam as alusões às ilhas míticas - nomeadamente à Ilha Brasil.

Uma exploração sistemática do continente americano ocorreu especialmente entre 1440-49.
Foi retomada entre 1471-1488.

Quando Colombo chega às Antilhas, já os portugueses tinham terminado a exploração costeira de todo o continente americano.

Valerá a pena falar mais de Colombo?
... ou será de pedir à Ordem da Jarreteira, à Ordem do Tosão de Ouro, já para não falar do Vaticano, e outras organizações, que abram as suas bibliotecas, pelo menos deste período!


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publicado às 04:47


Colombo (17/12/2009)

por desvela, em 29.12.12
Não me interessa especialmente a pessoa de Colombo, interessa-me mais a personagem. Por isso, é para mim razoavelmente secundário saber onde nasceu, ou a sua filiação biológica. 
"Personagem" hoje tem significado diferente de "pessoa", mas ambas derivam de "persona", que deve decompor-se em "per-sona", no sentido "per"-através, e "sona"-soa... ou seja, que o som vem através de si. É hoje algo estranho associar uma pessoa apenas como veículo de emissão de som, é mais apropriado à figura auxiliar de uma personagem, de um actor.
Uma personagem pode ser interpretada por vários actores, várias pessoas.
Na minha opinião Colombo foi personagem, pouco escreveu no guião que o viria a tornar famoso. A personagem poderia ter tido outro actor, e a as particularidades da pessoa de Colombo têm só interesse para compreender por que razão se tornou "o escolhido".

Recupero aqui o texto com o título "Colombo", que publiquei no Knol em 17 de Dezembro de 2009, e que entretanto desapareceu, devido ao cancelamento do projecto Knol da Google. Aliás, já antes o tinha cancelado, e por isso, a reclusão deste texto foi mais resultado de auto-censura induzida à época.
Ora, apesar de poder justificar as razões que levaram à reclusão de alguns textos, acabo por notar que fazem falta... Fazem falta porque permitem comparar uma opinião "mais entusiasmada" à época, com a distância que o tempo deixou correr. Para além disso, fazem parte da história deste blog, e seria algo contraditório criticar a supressão histórica e fazer o mesmo aqui...
Nem é que tenha mudado de opinião, pelo contrário, relendo os textos até me surpreende nem ter mudado quase nada, simplesmente hoje não exporia assim, para não me expor...
A falta de sentido na vida de muitos, leva-os a procurar retirar sentido à dos outros. Isso é uma característica tipificada na vida de algumas alimárias, que se resume a uma competição territorial, alimentada pela sua biologia. Quando o indivíduo se julga o campeão da carica, ou similar, é a sua biologia competitiva a falar mais alto. Qual o sentido dessa biologia competitiva? - Não é a preservação do indivíduo, porque esse é condenado à morte pela própria biologia celular (nem as bactérias são imortais). Será o apuramento da espécie? - Até que ponto, até que só restasse uma? - Para quê? - Será que se pensa que o universo é uma entidade masoquista que vai criar uma espécie que o dominaria (como se tal fosse possível...), ou será que se pensa que é uma entidade sádica que visa aniquilar as espécies menos aptas? Já sei que nem se pensa uma coisa, nem outra, agora é moda pensar que é tudo fruto do "acaso". O "acaso", tal como Deus, é tido como uma entidade supra-universal, condicionaria o universo, mas não faz parte dele, contrariando a própria definição de universo - que engloba tudo. Não sei se a epistemologia moderna se esqueceu deste "detalhe" de contradição lógica, ou quer fazê-lo passar por esquecido, mas tem feito Escola, e que Escola!
O que me parece evidente é que a humanidade se entretém em criar objectivos num universo artificial, construído por si própria, a que chama "sociedade", e que sob o ponto de vista da competição genética, terá tanto sentido quanto as cortes sexuais feitas pelos pavões - sem dúvida que há muito pavonear digno de admiração.

Bom, como isto já parecerá pavonear filosófico, segue o texto:






Colombo
3ª Parte de 7 - Tese de Alvor-Silves
17 de Dezembro de 2009

Colombo, Ceilão
Começamos por outro nome Colombo, o de uma cidade perto da outra Índia.
Foi interessante ler esta justificação para o nome Colombo, capital do Ceilão (Sri Lanka):

( Wikipedia de 19/3/2008 até hoje, 15/12/2009):
  • O nome Colombo foi introduzido pelos portugueses em 1505. Parece derivado do termo cingalês clássico kolon thota, que significa "porto sobre o rio Kelani". Outra teoria afirma que deriva da expressão cingalesa kola-amba-thota, que significa "porto com árvores frondosas de manga".
A versão que acabo de transcrever - não será fortuita - é generosa, e resultará de algum estudo erudito, suportado por documentação adequada à época.
Estará fora de causa associar o nome Colombo em 1505, ao navegador "genovês"?... que, por mero acaso, nessa altura acabava de navegar para a Colômbia?
Aparentemente, tal associação de homónimos contemporâneos será estranha. Porquê?
Porque Colombo estava ao serviço de Espanha, mas também de uma parte de Portugal.
Essa parte de Portugal, saiu de tal forma vencedora para a História, que apagou grande parte dos traços incriminatórios. No entanto, D. Manuel conseguindo ser rei, teve que conviver durante algum tempo com uma parte de Portugal que não se identificava com o seu projecto... e veria em D. Jorge o legítimo sucessor de D. João II.
Assim, há de facto duas hipóteses que me ocorrem... foi pretendido por D. Manuel honrar o seu suposto "meio-irmão" Colombo (de acordo com uma tese largamente veiculada), ou foi um nome decidido pela "outra parte de Portugal", que conseguiu nomear vários vice-reis da Índia - para deixar mais essa pista na História? Como o Ceilão foi "descoberto" por Lourenço de Almeida, filho de Francisco de Almeida (claramente, um não adepto da cruzada), estou em crer que se tratou de mais um legado!

Não há só uma história de rivalidade entre Portugal e Espanha, há também uma estória por contar, e natural, de grande cumplicidade... O temor é que essa cumplicidade seja vista como traição, já que em certos casos é disso que se trata, e nem sempre é facilmente desculpável em termos de "valores maiores".

Na "estória de Portugal" que nos é contada, há só um "traidor" simbólico, um desgraçado ambicioso, aparentemente um funcionário competente, que dava pelo nome de Miguel de Vasconcelos, e que foi defenestrado (atirado da janela), no dia em que os Duques de Bragança tomaram o Reino de Portugal de assalto aos Espanhóis. Claro, e é suposto acreditar que antes não haveria nomes numa resistência, nem outros nomes num colaboracionismo... e tudo se resume ao tal "Miguel de Vasconcelos e Brito".

Infantes - Dom Henrique... e Dom Pedro
As navegações portuguesas, iniciadas por D. Fuas Roupinho, ganharam um impulso maior com a vinda dos templários no reinado de Dom Dinis, e foram prosseguidas de forma muito activa por D. Afonso IV. Uma comunicação de Afonso IV ao papa Clemente VI, mostra que os portugueses teriam começado a descobrir as ilhas e já passado o cabo Não... (ou Bojador, que é ao lado), antes de 1336. No entanto, imediatamente depois surgem várias cartas italianas e catalãs, relatando a presença exacta das ilhas comunicada ao papa (Canárias, Madeira, algumas ilhas dos Açores)... muito antes da sua descoberta oficial no tempo do Infante D. Henrique! Torna-se claro para Afonso IV que não poderá haver mais fuga de informação, nem tão pouco para o Papa. Começa a grande política de sigilo nacional, cujo episódio mais eloquente é a morte de Inês de Castro. Camões compara-a a Polixena... não é por acaso - ela teria que morrer para que os navios pudessem partir. Toda a estória relacionada com o "amor puro", "a fonte dos amores", etc... é um aproveitamento posterior das tentativas feitas por Garcia de Resende e Camões para transmitirem uma mensagem, que doutra forma ter-se-ia perdido nas chamas inquisitórias... mesmo assim a mensagem não passou, e isso será assunto que abordarei depois.

As navegações que o Infante Dom Henrique declara como "suas" descobertas, têm, pelo menos 100 anos de atraso, graças a essa política de escrupuloso sigilo (com cumplicidade inglesa).
O que era declarado descoberto pertenceria a Portugal, e uma parte do não declarado, e encoberto, iria pertencer à Inglaterra (e outros aliados, como por exemplo a Dinamarca).

A diferença entre o Encoberto e o Descoberto será aproximadamente 100 anos.

Esse prazo foi mais ou menos escrupulosamente cumprido, à excepção de pequenos eventos que podem ter comprometido esse valor (como por exemplo, a passagem do Cabo da Boa Esperança, ou do Trópico de Capricórnio, em 1377, ou a descoberta do Japão, anterior a 1435).

O plano do Infante Dom Henrique, nada tinha a ver com navegações....
O seu plano era arranjar meios para financiar "sózinho" uma cruzada para a conquista de Jerusalém, esse sim, o velho sonho dos templários, do qual D. Manuel (seu "neto", por adopção) foi o grande herdeiro! Só não o prosseguiu mais, pois teve oposições de alguns Vice-Reis da Índia.

Foi por isso, que Henrique, depois que o irmão, Infante Dom Pedro foi morto, tratou de negociar bulas papais para legalizar e reintroduzir a noção de escravatura... noção abandonada há muito na Europa.
Todos os meios justificavam o fim da cruzada.

A contrario desta ideia de Cruzada, surgiu o Infante Dom Pedro (regente de 1439 a 1449), protagonista primeiro de uma ideia completamente diferente, demasiado avançada para a época...

Infante D. Pedro, das "Sete Partidas"

Foi o Infante Dom Pedro o catalizador de todo o modernismo que depois se seguiria na Europa.
Os maiores elogios que são feitos nos Lusíadas, são feitos a ele... mas de forma necessariamente dissimulada. A "fonte dos amores" de Inês, não é mais do que "a fonte de Pedro", deste Pedro, Duque de Coimbra, quase banido da memória nacional.

Ao invés de prosseguir na ideia de Cruzada, o intuito do Infante Dom Pedro era o de colonizar, evangelizar, e dinamizar o comércio. Encontrou poderosos adversários, e acabou morto epicamente na Batalha de Alfarrobeira, numa conjugação de interesses do Ducado de Bragança (através de Afonso, meio-irmão) e de alguma cumplicidade do Ducado de Viseu (através de Henrique, irmão).

Esse projecto do Infante D. Pedro foi seguido pelo seu neto (materno) - D. João II.
O projecto do Infante D. Henrique foi seguido pela "filha adoptiva", a poderosa Dona Beatriz de Viseu, a única mulher que regeu a Ordem de Cristo, e que serviu de mediadora entre Portugal e Espanha no Tratado de Alcáçovas. Dona Beatriz foi a mãe da Rainha Dona Leonor, e do futuro D. Manuel.

Foi por essa razão que D. João II não poderia fazer outra coisa que eliminar duramente os ardis de bastidores, com Castela, e que eram protagonizados pelos duques de Viseu e de Bragança. Nem que para isso recorresse a execuções sumárias ou formais... e mesmo assim, acabou envenenado!


A missão de Colombo
De partida para Espanha, a partir de 1484 (8 anos antes da "descoberta" das Antilhas), não foi apenas Colombo, mas toda uma comitiva nacional, associada aos duques de Bragança e Viseu.
Nessa altura (1484) já D. João II tinha controlado, com uma política draconiana, as tentativas de insubordinação dessas poderosas casas ducais. É assim natural o exílio, e um início de colaboração com Castela e Aragão.
Por matrimónio com Dona Leonor, filha de Beatriz de Viseu, D. João II já foi longe ao assassinar o cunhado, pelo que procurou compensar o seu irmão mais novo... o futuro D. Manuel. Internamente, o objectivo da Casa de Viseu seria ainda pressionar Dom João II a esquecer a América e a concentrar-se no projecto de Cruzada.

É por isso que D. Manuel passa a usar a divisa "Spera". A data constante 1377... indicará que a espera para o ataque surpresa, numa Cruzada pela península arábica durava desde há mais de um século.

A "Spera"
É escusado manter a fantasia de que contornar a costa africana era "muito difícil"...
- Os cabos só seriam importantes numa navegação costeira, e os portugueses, desde o momento em que faziam carreiras constantes para os Açores (pelo menos desde 1432), deixaram de se preocupar com "cabos"!
- Aliás, os únicos Cabos que registamos são simbólicos e políticos... uma vez passados, deixou-se de ouvir falar em "Cabos". O grande Adamastor é um monstro político e Camões conheceu-o na sua fogosa expressão juvenil. Haveria de tornar-se ainda mais eficaz!

A progressão partindo por terra de Ceuta para a conquista de Tanger, plano de Dom Henrique falhara em 1437, com o cativeiro do Infante Santo, D. Fernando. Esse teste mostrou que a capacidade nacional não era suficiente para missões mais ambiciosas, e para a concretização da Cruzada...
Continuava a "SPERA"...

Voltou a estar sobre a mesa, quando o jovem Afonso V foi induzido pelos tios, Duques de Viseu e Bragança, e fez proezas nas conquistas de Céguer, Arzila e Tanger.
No entanto, quando Afonso V ficou sem apoio na sua pretensão ao trono de Castela (tendo que colocar num mosteiro a sua 2ª mulher, "A Excelente Senhora" legítima herdeira), tornou-se ainda mais claro ao seu filho, D. João II, que não poderia ter qualquer compaixão com os adversários (... e mesmo assim, teve alguma)!

É absolutamente inverosímel a estória que o Infante Dom Henrique teria enviado 12 expedições para passar o Cabo Bojador... mesmo assim, a repetição da estória inventada para o Cabo Não, voltou a funcionar "recriando esse novo obstáculo no imaginário".

Sem adiantar outros factos mais explícitos que abordaremos depois... os registos de chegada de pau brasil a Portugal, constam até dos Contos de Canterbury (Chaucer,1386), conforme já notado por outros autores.
Para além disso, o próprio Zurara (1453) refere-se à grande altura de edíficios de Lisboa, o que era permitido pela chegada das novas madeiras (observação do Visconde de Carreira, séc. XIX).

A "ilha Brasil" (ou São Brandão) foi referida por Afonso IV na comunicação ao Papa, e passou também a fazer parte dos sucessivos mapas, durante 200 anos - só acabou com a definição da descoberta do Brasil, após 1500. Foi colocada estrategicamente próximo da Irlanda... o que nem era uma forma incorrecta, como veremos!

Contactos pré-colombianos
À altura da viagem de Colombo, o continente americano era completamente conhecido dos portugueses... e não falamos apenas do Brasil!

Portugal tinha relações comerciais com os Incas e com os Aztecas, desde 1440... esse foi aliás o problema desses povos, julgaram que os espanhóis viriam substituir o comércio com os portugueses!

É claro que também se pode julgar que todo o ouro que chegava a Portugal era resultado de negócios com caravanas berberes na costa dos desertos de África.

Quem achar provável que tal quantidade de ouro, especiarias, etc... passeasse pelos desertos do Saara, ou estivesse em minas de ouro de um reino perdido do Benim, ou de uma cidade fabulosa de Tumbuctu, que nunca existiu, então foi bastante bem convencido.
Conforme registado, o ouro que nos chegava era previamente fundido nas Feitorias, e por isso dificilmente se encontrarão vestígios de artefactos.

O plano que Colombo deveria cumprir: - declarar como descoberta de Espanha um território que minaria as preciosas possessões portuguesas, e forçar novas negociações!


Etiópia e depois Guiné
Acerca destes dois nomes "míticos", Duarte Pacheco Pereira menciona, sobre o Infante D. Henrique:

... & assim descobriu mais por Guinee que antigamente se chamava Ethiopia ...

Esta informação dá-nos a indicação que Etiópia era uma designação anterior de Guiné.... Porquê?

Apesar de serem "atribuídas" mais de 50 expedições só ao Infante Dom Henrique, e de muitas mais navegações (... até privadas por Fernão Gomes, ~1470), num total de centenas de expedições, contando com D. João II, ninguém se teria lembrado de navegar para ocidente?
Ninguém teria tido ensejo de prosseguir o esforço de encontrar a ilha de São Brandão ou a ilha Brasil... Portanto, só Colombo, numa única expedição, se lembraria de propor tal coisa?
O que impedia os portugueses de tentarem? Ah! Os cálculos do diâmetro da Terra!
Um rei pragmático, D. João II, beneficiando de tantas riquezas de terras desconhecidas, em que incluía não apenas ouro, mas também especiarias, e tantos outros produtos, e isto antes de chegar à Índia... não autorizaria nenhuma expedição para essas paragens, porquê? - porque confiava cegamente numas contas sobre o diâmetro da terra!
Alguém ainda acredita nessa estória tão mal contada?
... aparentemente, é conveniente que sim!

Nem se trata de reconhecer nada de especial... Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!

Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Voltando à Etiópia e à Guiné.
A mudança de designação deu-se no tempo dos Infantes Henrique ou Pedro.
De facto, à latitude do Brasil, encontramos a Etiópia, do lado oriental de África.
Se não existisse um continente americano, por circum-navegação terrestre, quem encontrasse o Brasil poderia legitimamente concluir tratar-se da Etiópia!

Portanto a confusão de Colombo com as Índias, é uma velha confusão, que começou com:
- o Brasil ser identificado à Etiópia.

Depois, percebemos que ao tempo do Infante D. Henrique ou melhor do Infante D. Pedro, concluiu-se que não era o mesmo território, havia todo um continente, e essa designação de Etiópia foi progressivamente abandonada, passando a usar-se outro termo, o termo Guiné... que se prestou a outras tantas confusões à época, e posteriormente (p.ex: Guiana, Nova Guiné)!

Note-se que a designação correcta é Guiene, pois surge de nome antigo da província da Aquitânia francesa - que esteve sob domínio inglês, em particular do avô dos Infantes D. Henrique e D. Pedro.
A recuperação desse termo pelos ingleses e franceses não é acidental!

Ou seja, aquilo que conhecemos hoje como América, teve antes os seguintes nomes:
Séc. XIV: Brasil/Etiópia >> Séc. XV: Etiópia/Guiné >> Sec. XVI: Índias Ocidentais/América


Enquadramento político à época
Dona Beatriz de Viseu foi mediadora no Tratado de Alcáçovas-Toledo, 1479-80, negociado entre a sua sobrinha, a Rainha Isabel de Castela, e o seu genro, D. João II.
Ficaram à sua guarda pelas Terçarias de Moura até 1483 os filhos de ambos, os príncipes Afonso e Beatriz, que de facto eram reféns em Moura, para o cumprimento do acordo.

Esse acordo previa a união dos reinos com o casamento que veio a ocorrer em 1490.
Mesmo após a morte do príncipe Afonso em 1491, Castela mostrou que não estava completamente de má fé, pois a princesa Beatriz voltou a casar-se com D. Manuel, havendo um herdeiro Miguel de La Paz, que morreu com 3 anos... inviabilizou-se a união dos reinos, até ao problema de D. Sebastião, resolvido por Filipe II, em 1578, da maneira que já vimos noutro capítulo.

Dona Beatriz de Viseu, pouco considerada na História, assume um papel de relevância extrema, colocada como mediadora entre Portugal e Espanha, num papel normalmente reservado ao Vaticano.

Libertado o seu filho Afonso, em 1483, D. João II trata de resolver os problemas internos, executando exemplarmente alguns cabecilhas dessa conspiração que já havia vitimado o avô, o Infante Dom Pedro. Executa o primo (Duque de Bragança) e mata o irmão (Duque de Viseu) da sua mulher, a Rainha Dona Leonor, mas nunca ousa tocar na mãe, Dona Beatriz.

No entanto, a correspondência entre Isabel de Castela e Beatriz acentua-se, havendo uma útil confusão com a existência de uma outra Beatriz (freira portuguesa, no mosteiro de Toledo... depois santificada).
O projecto é ambicioso, e difícil de descrever em poucas palavras. Inclui um acordo com Génova e Milão, que envolve a eleição do Papa Alexandre VI, a instauração da Inquisição, e o cumprimento de uma visão intolerante - a das Cruzadas - com a cumplicidade do Vaticano (controlado nessa altura por uma ligação Espanhola-Milanesa-Genovesa).

É preciso relembrar a rivalidade Génova-Veneza, para entender que D. João II, virado a Ocidente, tinha em Veneza um aliado, e em Génova um inimigo... ao contrário do que acontecia com os Duques de Viseu, como o Infante D. Henrique, ou D. Manuel - esses teriam em Veneza um inimigo contra o projecto de comércio oriental, e em Génova um aliado.

Surgem assim dois pólos que são simbólicos:
  • (1) Aliança Oriental - Portugal: Beatriz & Espanha:Castela & Génova
  • (2) Aliança Ocidental - Portugal: João II & Inglaterra & Veneza
Não é acidental, a representação esquerda|direita, que invoca os dois lados em questão.

Dom Manuel surge com a sua divisa "Spera" com uma esfera armilar com a eclíptica virada a Oriente, e será essa que irá manter (e se mantém até hoje, na nossa bandeira - o que é relevante).
Dom João II, ao morrer pede para que use duas esferas, uma com eclíptica a Ocidente, outra com eclíptica a Oriente. O seu filho bastardo, Dom Jorge, e os sucessores Duques de Aveiro, irão usar o escudo com um risco virado a Ocidente.

O rei D. Manuel aceita essa duplicidade poucos anos... até consolidar o poder, e definir por completo o seu lado Oriental.

Conseguirá em 3 anos, 1498-1500, definir por completo o território descoberto no seu hemisfério Oriental, após Tordesilhas. Ou seja, o Brasil, a Gronelândia, toda a África Oriental, e a Índia.

Faz mais descobertas em 3 anos, do que os seus predecessores em 200 anos?
E é preciso notar que não são descobertas quaisquer... são quase as mais difíceis - a viagem para a Gronelândia é notável! Basta ver o mapa de Cantino (1502) para ver a precisão com que é apresentada a Gronelândia. Nesse mapa, as outras partes mais acessíveis e apetecíveis têm uma distorção natural que o copista não pode entender...

Só na viagem de Vasco da Gama é feita maior progressão (em mares infestados de embarcações inimigas, a que se adicionam conquistas), do que na soma das progressões anteriores, atribuídas ao Infante D. Henrique e ao Rei Dom João II.
D. Manuel I quererá denominar-se César Manuel... o povo escolheu simpaticamente o Venturoso!
Terminava a "Spera" do projecto oriental dos Viseu... a ruína do reino com a guerra contra os infiéis no Oriente iria começar!

Cabos difíceis... mas só em África!
Nesse aspecto de conquistas, Dom Manuel é muito eficaz.
Muito graças a Afonso de Albuquerque (ao contrário de outros vice-reis, que se mantêm noutro projecto), consegue vitórias em cima de vitórias.
Em 1513 está a estabelecer-se na China. Em 15 anos, não é notável declarar essas "descobertas", é notável a capacidade militar - o Índico é um grande mar português.

A ser verdade a História oficial, nos seus 15 anos de reinado, Dom João II, o "Príncipe Perfeito", basicamente apenas acrescentou como descoberta a parte sul, ocidental de África.
Aí não teve que fazer uma única conquista, o seu grande feito teria sido contornar o Cabo da Boa Esperança, e preparar o caminho? A ser verdade essa História, que caminho?
O caminho para as conquistas na Índia ou o caminho para outros Cabos?
Alguém sabe mais algum nome de Cabo após esse?
Não!... Deixaram de haver Cabos na Ásia, só havia em África?
Deixou de haver problemas na mudança dos ventos no Índico?

Subitamente muda-se das rápidas caravelas, e passa-se de novo para as pesadas naus.
Com essa mudança para uma embarcação mais lenta, aceleram-se as descobertas!
Alguém pode acreditar nesta versão oficial?


A (ir)relevância da estória de Colombo
É nos jogos políticos, entre as alianças europeias estabelecidas, que se definem duas curiosas empresas individuais, envolvendo 3 nações diferentes.

No acordo Viseu-Espanha-Génova, aparece a figura de Colombo.
(i) Colombo será um português, enviado pela casa Viseu, navegando sob bandeira espanhola e sob nacionalidade genovesa. O seu plano é um plano da casa Viseu... tendo sido poupado em Lisboa, é natural que se tratasse mesmo de um "cunhado bastardo" de D. João II.
Mas, não será caso único!
Mais tarde, em 1498, já morto D. João II, é honrado parte do compromisso com a outra aliança!
(ii) Labrador (João Fernandes) é um português, associado a D. João II e à casa Aveiro, navegando sob bandeira inglesa, e sob comando de um veneziano Giovani Cabotto.

Isso dá algumas ideias do que estaria concordado entre D. João II e os ingleses, após Alcáçovas. Toda a América, acima do paralelo das Canárias, ficaria para os ingleses. Acabou por ser cumprido!

Um equilíbrio europeu pensado pacífico por D. João II, foi destruído pela viagem de Colombo e pelo Tratado de Tordesilhas.
Até ao Tratado de Alcáçovas, tudo tinha ficado Encoberto, a partir de Tordesilhas, iria jogar-se a Descoberto, encobrindo tudo o que se tinha acordado anteriormente. O papel de D. João II no Tratado de Tordesilhas é já menor, e mostra como estaria enfraquecido no seu progressivo envenenamento. Terá conseguido deslocar o meridiano, assegurando o Brasil... última terra do sonho ocidental!

Qual era o sonho ocidental?
Após o Tratado de Alcáçovas, D. João II teria "tudo sob controlo":
(a) As Minas - especialmente a Inca, mas também a Azteca, estão abaixo do paralelo das Canárias, e dentro do território português, "da Guiné".
(b) Havia duas possibilidades de atingir a China e a Índia:
    (i) A via da cruz, pela guerra com os otomanos, no Índico - via seguida por D. Manuel;
   (ii) A via da vera cruz, pacífica, contornando a América do Sul - via pretendida por D. João II.

Em 1483-84 Diogo Cão descobre o Estreito de Magalhães, e realizam-se as explorações na costa oeste da América do Sul. Porquê?
Os alemães não tiveram problemas em reivindicar para Martin Behaim a passagem do Estreito... apenas porque Pigafetta relatou que Magalhães teria visto um mapa seu, com essa passagem!
Ora Behaim, estava ao serviço de Dom João II, e viajou com Diogo Cão em 1483-84...

A sustentação da tese de Behaim foi tida como fraca, pois não haveria capacidade de navegação por iniciativa própria... Isso no caso português não se justifica, o problema é que no caso nacional, tudo será sempre insuficiente perante desígnios encobertos ainda latentes.

O sonho ocidental, do Infante Dom Pedro, e de Dom João II, era tão simplesmente um grande mar pacífico - e por isso alguém cuidou que o "Mar do Sul" de Balboa... tenha ficado para sempre
Oceano Pacífico
como provavelmente foi baptizado por D. João II, ao mesmo tempo que do outro lado, em África, anunciava o Cabo da Boa Esperança...

Ao fim de 500 anos, talvez se perceba que Cabo ele tinha que dobrar...
Se o nomeou como Boa Esperança em 1488, num eventual acordo celebrado com a facção representada pelo Dia S. Bartolomeu (ou seja Bartolomeu Dias), rapidamente deverá ter concluído, que viriam aí as verdadeiras Tormentas!

Qual é então o enquadramento da viagem de Fernão de Magalhães?...
Todos os traços de anterior presença portuguesa, fora do hemisfério oriental, não eram convenientes.
Por várias razões...
Tal como o Infante Dom Henrique, Dom Manuel não teve problemas em ostentar a sua vaidade e receber louros de iniciativas para as quais não contribuiu. Pelo acordo com Espanha, e evitando uma grande guerra (com proporções que só D. Sebastião experimentou...) iria manter-se dentro do seu hemisfério.

A missão de Fernão de Magalhães deverá ter tido o duplo acordo de D. Manuel, e também do Imperador Carlos V, rei de Espanha. Seria destinada essencialmente a apagar os traços deixados pelas anteriores navegações portuguesas, na zona após o Rio da Prata, onde os espanhóis tinham acabado de chegar. Por isso, a expedição de Magalhães ficou um ano em terra, com inúmeros pretextos de atrasos, que levaram a motins.

Fernão de Magalhães sabia que a memória iria ser apagada, de uma forma ou doutra... e por isso tinha um plano pessoal diferente. Com cumplicidade de cartógrafos portugueses (Reinel, Faleiro?) terá obtido informações para a travessia do Estreito, dando-lhe indicações cartográficas de como chegar às Molucas.

Havia ainda a aposta na empresa da viagem do Pacífico, para que esse feito não fosse separado da memória nacional... Não será acidental que Magalhães, ao entrar no "Mar do Sul"... o tenha designado Oceano Pacífico, e depois tenha optado por morrer, ao chegar às Molucas!
Não poderia ter outro fim honroso se aceitasse voltar!... Toda esta estória é profundamente trágica!

E... Colombo?
Sobra muito pouco para dizer sobre Colombo... a importância que lhe é dada hoje é conjuntural. No final da sua vida tinha caído em desgraça, pois percebeu-se rapidamente o nível de encobrimento em que os portugueses tinham conseguido manter as descobertas... já nada havia a descobrir!

Até meados do século XVI não houve ninguém com bom senso, que fosse denominado descobridor, isso foi uma reinvenção posterior, especialmente dos séc. XVII e XVIII, quando se percebeu que aquilo que iria valer seria apenas o que se tinha declarado.
Aí, começaram as sociedades secretas, que de alguma forma foram acompanhando os segredos que restavam... quer de descobertas marítimas, quer de descobertas científicas!

Mesmo à "descoberta" de Giovani Caboto em 1498 não foi dada especial importância, nem tão pouco é dada sobre-importância a Walter Raleigh, 1584, que nesse caso "descobriu" para a Inglaterra as primeiras províncias que iriam fazer parte dos EUA, nomeadamente a Virginia e Carolina.

Os portugueses encobriram durante 200 anos as descobertas.
Os europeus iriam fazer o mesmo à memória dos portugueses, dilacerados por lutas cruéis internas que se mantiveram até ao séc. XIX. A partir daí... deverá entrar também o esquecimento forçado e natural.

Será provavelmente difícil atribuir a descoberta do continente americano a alguém, provavelmente a um fenício, ao missionário São Brandão, a um viking dinamarquês... ou a um pescador da Maia?
Aquilo que se sabe é que começaram a chegar produtos exóticos à Europa, através de Portugal, no início do Século XIV, e que aí começam as alusões às ilhas míticas - nomeadamente à Ilha Brasil.

Uma exploração sistemática do continente americano ocorreu especialmente entre 1440-49.
Foi retomada entre 1471-1488.

Quando Colombo chega às Antilhas, já os portugueses tinham terminado a exploração costeira de todo o continente americano.

Valerá a pena falar mais de Colombo?
... ou será de pedir à Ordem da Jarreteira, à Ordem do Tosão de Ouro, já para não falar do Vaticano, e outras organizações, que abram as suas bibliotecas, pelo menos deste período!


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publicado às 20:47


Peça por Peça

por desvela, em 18.09.11
- Uma Peça, de Teatro Isabelino: - The Battle of Alcazar, de George Peele (1591)
Peça por outra peça - e do pedido sai nova peça:
- Uma Peça, de Teatro Carolino: - Believe as you list, de Philip Massinger (1631).

Há mais peças... e peça por peça vão colando uma história diversa, neste caso de D. Sebastião.

Em 13 de Dezembro de 2009 foi iniciado o tópico Alvor-Silves com um texto sobre D. Sebastião, que seria o primeiro de sete textos, finalizados a 31... Alguns argumentos colocados nesse texto inicial podiam ser considerados especulativos, e acabei por deixar cair parcialmente o assunto.

Não deixa de ser coincidência que D. João de Áustria desapareça, tal como D. Sebastião, no ano de 1578!
Ambos eram jovens, ver-se-iam como guerreiros no modelo de Aquiles, e o brilhante cometa que apareceu no início desse ano (mais precisamente entre Novembro de 1577 e Janeiro de 1578), concretizaria alguns presságios de sorte funesta.

Sebastião foi levado no coração da batalha, João de Áustria foi levado pelo tifo... mas que necessidade haveria de dissecar o corpo do herói de Lepanto, no transporte para o Escorial, sendo só depois juntadas as partes? Recebia ambos os corpos, Filipe II, irmão de João e tio de Sebastião.

D. João de Áustria, morto em 1578

Acerca de Lepanto, que em 1571 terá catapultado D. João de Áustria para a celebridade, o Grão-Vizir de Selim II, Mahamet Sokulu, terá afirmado:  
- Ao tomarmos Chipre, ficaram sem um braço, enquanto ao derrotarem a nossa armada [em Lepanto], só apararam a nossa barba

Foi desta forma que os Otomanos desvalorizaram o resultado de Lepanto.
A Sagrada Aliança, que reunia o Império Habsburgo Espanhol, Veneza e Génova, a Savóia, Malta e os Estados Papais, tinha vencido os Otomanos, mas dificilmente essa vitória permitira alterar a disposição das peças no terreno... e Chipre teria caído definitivamente.

Numa luta que carregava o epíteto sagrado, seria natural ver um "fervoroso rei católico" juntar as forças nacionais nesse empreendimento pela cristandade. Porém, não será esse rei D. Sebastião, que já governava o reino há três anos. O rei de Portugal não estará representado na coligação naval de Lepanto. Convém notar que o Infante D. Luís (tio de D. Sebastião) tinha estado presente na Conquista de Tunis, em 1535, comandada por Carlos V, pai de Filipe II. Era habitual uma colaboração cristã contra os otomanos...

Quando falha a potência militar, entra em jogo a diplomacia... os acordos em jogos de bastidores.
Se Lepanto não travava a expansão Otomana já consolidada na Europa, por onde poderia ela progredir sem apoquentar mais os Estados Italianos e Austríacos? 
- Um caminho claro seriam os outros estados islâmicos do Norte de África.
Assim, apesar do resultado de Lepanto, três anos depois, em 1574, a cidade de Tunis volta a cair em mãos otomanas.
Será neste contexto que aparece a ameaça de implantação otomana em Marrocos, e consequente perturbação da vizinhança ibérica, não apenas nas navegações, mas até num eventual reeditar de desembarques muçulmanos - a queda de Granada faria em breve um século e seria natural inflamar um espírito de reconquista pelo outro lado.

Se D. Sebastião pareceu preocupado com o problema, a ponto de oferecer ajuda a Mulei Mohamed, já Filipe II pareceu negligenciar a ameaça turca das suas fronteiras a sul.
Convém notar que num avanço dessa forma, os primeiros pontos vulneráveis seriam as possessões espanholas no Norte de África. Tunis fora logo perdida em 1574, mas havia várias outras... antes de chegar aos fortes portugueses, que começavam apenas em Ceuta.

Uma derrota pesada, que envolveu a morte do Rei, deixaria as possessões portuguesas em Marrocos como desígnio apetecível de embalo na reconquista. Porém, com Filipe II no trono português esse perigo muçulmano sob influência turca nunca se efectivou... aliás Filipe II será particularmente expediente na forma como irá tratar de aparecer como parte intermédia na resolução do problema de resgate dos sobreviventes de Alcácer-Quibir.

Os contactos de Filipe II com o lado vencedor na contenda de Alcácer-Quibir são particularmente proveitosos. Às expensas de fortunas enviadas para este intermediário no resgate, regressa alguma da nobreza e fidalguia nacional. Aparece como salvador de famílias dos cárceres dos infiéis, e certamente que tais famílias lhe ficam gratas apesar das somas dispendidas. Um dos prisioneiros resgatados era o Conde de Barcelos, filho do Duque de Bragança... tinha então apenas 10 anos de idade.
Os franceses chamavam a Filipe II "demónio do meio-dia"... mas não foi assim encarado em Lisboa, e a prova disso foi a Monumentalia Filipina - dezenas de grandes Arcos de Triunfo erigidos em Lisboa em 1581 (... dos quais nenhum sobreviveu!). A reacção da fidalguia à invasão filipina foi muito moderada, como pôde constatar o Prior do Crato... que teve entre os portugueses os seus principais amigos de Peniche!

Quando falamos de Filipe II, de D. Sebastião, e de D. João de Áustria, convém não esquecer o problema interno que se desenrolava em Espanha, entre Albistas e Ebolistas!
Esta luta interna, nos meandros da corte espanhola, teve uma clara vitória pelo lado Albista, do Duque de Alba, afinal o vencedor contra D. António. Do lado dos Ebolistas, e como Rui Gomes morre em 1573, será a sua jovem mulher, a notável Ana Mendonza de La Cerda, que procurará liderar o partido do seu marido - um português da Chamusca que, de tutor de Filipe II, ascendeu a Príncipe de Eboli, e Duque de Pastrana.

Ana de Mendonza y de La Cerda, Princesa de Eboli, com o devido olhar.  

A Princesa de Eboli acabou por ser denunciada em conspiração com Antonio Perez, sendo presa em 1579... estavam abertas todas as portas para a anexação portuguesa que o rival Duque de Alba concretizou no ano seguinte. O motivo principal da acusação seria a morte do secretário de D. João de Áustria, em Março de 1578, mas ligava-se primeiro o problema de D. Sebastião e depois o da sucessão,  que envolviam "segredos de estado".  

As versões que dispomos tiveram de sobreviver à forte censura que imperou nos reinados filipinos.
Não apenas nessas regências... afinal é sabido que o Marquês de Pombal fez queimar publicações que evidenciassem um teor sebastianista! 
Foi mesmo um pouco mais longe... sendo claro que o Duque de Aveiro e os Távoras foram protagonistas ao lado de D. Sebastião em batalha, foram também esses as vítimas principais do Processo de 1758, que condenou essas famílias a uma cruel execução pública.
- Coincidência?... Para quem gosta de numerologia, reparará ainda que 1578 e 1758 têm os mesmos dígitos!
Para quem não gosta, é claro que a Casa de Bragança não foi uma escolha consensual na Restauração!
Estaria demasiado ligada ao partido de Filipe II, a quem Catarina de Bragança acabou por abdicar o direito do trono, e essa foi também a Casa que mais beneficiou sob domínio filipino. 
D. João IV teve pois que admitir abdicar num eventual regresso de D. Sebastião. O episódio de Luísa de Gusmão, preferindo ser "Rainha por um dia...", reflecte implicitamente a parte da Casa onde Portugal queria rever-se. Não era na linha do anterior Duque de Bragança - que tomado por febres, se tinha escusado a partir com o Rei.... seria talvez mais na linha de Luísa, a bisneta da Princesa de Eboli.
O Duque de Aveiro ainda era, à época do Marquês de Pombal, um candidato ao trono, pela linha mais antiga... que vinha da descendência de D. João II pelo filho D. Jorge, preterido a D. Manuel.
As três casas ducais formadas por Afonso V, ou seja Coimbra, Viseu e Bragança... tinham-se enfrentado desde a Batalha de Alfarrobeira. 
E se o ducado de Viseu foi vencedor na sucessão de D. João II, obrigando o ducado de Coimbra a mudar de nome para Aveiro; após a extinção da linha com D. Sebastião, a sucessão pela via de D. Jorge permaneceu como ameaça à casa de Bragança até à execução definida em 1758. O problema era de tal forma evidente que o filho do Duque de Aveiro só escapou à morte com a promessa de não ter sucessores. 


Prisioneiro de Veneza
Por isso, é importante encontrar registos um pouco mais longínquos... na Inglaterra!
Há uma excelente compilação de escritos (que encontrei agora), publicada em 1985, pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, do Ministério da Educação:
D. Sebastião na Literatura Inglesa
... e parece ser um dos poucos registos onde se fala das importantes obras inglesas que abordaram o assunto da Batalha de Alcácer-Quibir e do destino de D. Sebastião.

Uma dessas obras é Believe as you list, de Philip Massinger (1631), que foi censurada!
"Acreditem enquanto ouvem" só teve autorização de publicação depois do autor mudar por completo o enquadramento! Ao invés de falar do reaparecimento de D. Sebastião, colocou-o como reaparecimento de Antíoco, rei da Síria no Séc. II a.C.

O motivo da peça era o aparecimento de D. Sebastião enquanto o "Cavaleiro da Cruz", em Veneza, em Junho de 1598. Consegue convencer portugueses aí sediados, e por isso o homem é preso pelo Doge de Veneza em Novembro de 1598, a pedido do embaixador espanhol. É libertado por intervenção do filho do Prior do Crato, e consegue escapar até Florença onde volta a ser preso pelo Duque da Toscana, mais uma vez a pedido do embaixador espanhol. É visitado pelo Conde de Lemos em 1601, mas acaba por ser primeiro condenado perpetuamente às galés e finalmente executado em 1603. 
Esta história contada por Frei José Teixeira e usada por Massinger, está bem documentada no artigo de Isabel Oliveira Martins (ver pág. 121-145), incluso no dito livro de 1985.

É claro que o "Prisioneiro de Veneza"(*) aparenta ser apenas mais um caso de reaparcimento, após os de Penamacor, Ericeira e Madrigal, com desfecho funesto para os pretendentes. Havendo interesses em depor a linha espanhola, também é natural pensar que alguns portugueses alinhassem nesta solução alternativa. O prisioneiro de Veneza, talvez um certo Marco Tulio Catizone, acabou por ter repercursão ao ponto da peça ter sido proibida no reinado de Carlos I, rei inglês que teve depois destino igualmente funesto!


Moluco
Um aspecto que se mantém particularmente intrigante é a designação Mulei Moluco para Abd-al-Malik (ou Abdilmelec), especialmente se o conectarmos a um período em que as Ilhas Molucas estiveram sob disputa no Anti-Meridiano das Tordesilhas, desde D. João III. 
A fundação de Manila após 1571, e subsequente renomeação daquelas ilhas como Filipinas, em honra a Filipe II, mostram que se mantinham questões territoriais a resolver naquela parte oriental, entre Filipe II e D. Sebastião. Essa questão é especialmente notória pela oferta dessas mesmas ilhas como dote da filha de Filipe II, se D. Sebastião tivesse aceite esse casamento! Porém, obstinadamente, D. Sebastião sempre recusou essa proposta de casamento espanhol.
As ilhas eram inicialmente denominadas Malucas, e a conotação do termo "Maluco" só tem um significado de loucura posteriormente. Convém a este propósito referir que, na Jornada de África, Jerónimo de Mendonça diz:
(...) e Mulei Audelmelic, vendo isto se passou ao Gram Turco, o qual vulgarmente se chama Mulei Moluco, porque sendo pequeno era tão afeiçoado aos Christãos, que seu pay lhe mandou fazer huma bragua d'ouro chea de muitas pedras ricas, e lha pôs hum dia chamando-lhe Moluco (como quem diz servo) donde lhe ficou o sobrenome tambem assentado, que muitos lhe não sabem o nome verdadeiro. Andou pois Mulei Molucco em Constantinopla muito tempo, sem poder alcançar socorro do Gram Turco contra seu sobrinho (como tambem del Rey de Espanha , não havia podido alcançar, fazendo primeiro os mesmos ofícios).
O significado de Moluco é assim explicado como sinónimo de "servo", e de forma clara é estabelecida a tentativa de contacto de Mulei Moluco ao rei de Espanha, antes de obter o apoio de Murad III, o Sultão Turco, que lhe concederá uma tropa de janízaros.

Portanto, o combate de D. Sebastião foi contra uma ameaça otomana, entretanto colorida como uma questiúncula interna de legitimidade de sucessão marroquina, por diversas interpretações testamentárias.
Se não há nada que aponte para uma participação espanhola contra a incursão portuguesa em Alcácer-Quibir, há muito que aponta para um combate directo contra uma coligação com forças otomanas em solo de Marrocos, e não apenas contra uma facção do exército marroquino. Pior do que isso, há algumas suspeitas sobre como uma batalha, aparentemente ganha numa primeira fase, e em que o próprio Mulei Moluco morre no seu decurso, se vai desenrolar com uma desastrosa descoordenação posterior, não do lado marroquino, mas sim indiciando problemas internos no lado português.

Foram à época colocadas dúvidas sobre o papel de Filipe II, sobre o conselho ao sobrinho de não participar, sobre a falha de envio de tropas, sobre a oferenda do Elmo que o pai, Carlos V, teria usado na Conquista de Tunis. Ou ainda, sobre o pedido do próprio Mulei Moluco a D. Sebastião, com o compromisso de não usar o apoio turco como ameaça às possessões portuguesas. Essas dúvidas podem fazer sentido, na sequência de acontecimentos, dado que Filipe II obteria vantagens com a vitória de D. Sebastião, ao afastar a ameaça turca... mas também com a derrota, pela sua pretensão à sucessão do trono português.
Porém, a derrota de D. Sebastião não afastaria a ameaça turca...
Onde ficou a ameaça turca após a derrota de Alcácer-Quibir?
Teria sido travada pelos marroquinos?
Pelo partido dos mesmos marroquinos que juravam fidelidade ao Sultão Murad III?
O plano de Filipe II só seria perfeito com uma prévia negociação com os turcos...

De facto, durante o período seguinte a Europa vai entrar numa grande guerra interna, a Guerra dos Trinta Anos... quase esquecendo a ameaça turca, ameaça que parece evaporar-se após Alcácer-Quibir.
Assim sendo, como não pensar num extenso acordo entre os beligerantes de Lepanto?
- Constatado o equilíbrio tácito, há uma certa aceitação da presença turca.
O espírito de Cruzada, de reconquista da Terra Santa tinha sido perdido por completo e a conquista de Jerusalém deixa de ter importância como tema europeu.
Curiosamente, os Otomanos ocupam o papel de Constantinopla... não apenas com a renomeação da capital para Istambul, também porque os seus domínios vão concentrar-se nos domínios do Império Romano do Oriente.
A Europa Ocidental parece assim conformar-se ao império ocidental e deixa o oriental para os Turcos.

O Quinto Império
O Império Ocidental era do tio, Filipe II, mas D. Sebastião ousa pela primeira vez colocar uma Coroa Imperial num rei português.


As coroas dos seus antecessores, mesmo de D. João II ou D. Manuel, tinham sido sempre abertas... em obediência a Roma e ao Sacro-Império, porém a atitude de D. Sebastião parece unilateral.
Tal atitude seria semelhante a uma cisão do Império Romano Ocidental, não passaria facilmente despercebida. Como o Sacro-Império será colocado em causa durante a Guerra dos Trinta Anos, a atitude poderá depois não ser tão notória, e até vista como uma questão de moda... mas o fecho da coroa significava implicitamente não estar sob o Sacro-Império.

A empresa de D. Sebastião é representada pela junção de vários componentes cristãos, que podemos ver na moeda seguinte:
Moeda de D. Sebastião

Há uma vieira sobre um peixe acima do mar, e uma lua (crescente) que abre sobre algumas estrelas (quatro aqui, embora haja quem desenhe 7 invocando a Ursa Maior... poderiam ser ainda as Pleiades).
Este símbolo pode ser encarado como uma reencarnação no seio do amor de Cristo, excepto no que se refere especificamente à configuração da Lua e estrelas.
O moto - Serena Celsa Favent... algo como o esclarecimento (ou a serenidade) favorece a excelência, parece sugerir que D. Sebastião, o Desejado, estava em sintonia com uma filosofia que o veria como executante escolhido para nova missão divina.

Essa mesma ideia de um Novo Império acaba por passar no mito que é gerado em torno do seu desaparecimento.
Conforme notado por alguns autores (ver Lucette Valensi), a batalha de Alcácer-Quibir não será alvo de efusivas comemorações pelo lado marroquino, apesar do seu aparente desfecho glorioso, e é ao contrário um símbolo de união portuguesa, em torno da ideia do Quinto Império.
É afinal uma derrota que parece motivar um desígnio imperial, nunca antes explícito!


Nesta ilustração podemos ver o pensamento dessa saudade sebastianista, nas frases:
Dois retratos vês q são.
Hum velho só na aparência
Do Rey D. SEBASTIÃO.
Repara q têm mistério
Pois a mão da Providência o guarda
Para o V Império
 
SI  VERA  EST  FAMA  SEBASTIUS
O Incoberto. Esperado. Sebastião. O dezejado.
O Quinto Império está alegoricamente representado na incompletude dos degraus da pirâmide... há quatro degraus bem definidos, e um quinto malforme que se parecia desenhar, e onde fica explícita uma intenção de construção ao colocar-se sobre a pedra uma coroa imperial.
Se na mão do jovem Sebastião está aberto o bastão...
... na mão do mais velho o bastão aparece já sem ponta solta.
De bastão passa a bastião, num outro Sebastião!
As figuras estão ainda em reflexão, em orientações opostas, mas exibindo em ambos os casos coroas imperiais, só ligeiramente diferentes.

Importa assim notar que não é um Rei que parte para Alcácer-Quibir, é um assumido imperador.
As pretensões imperiais poderia tê-las tentado D. Sebastião pela união com a filha de Filpe II, seguindo o plano Habsburgo, uma Casa que cumpria as regras, crescendo por casamentos planeados que foram eliminando sucessores até que a família austríaca detivesse a coroa imperial.
Porém, parece claro que D. Sebastião pretendia outra via... um novo Império.
Num mapa do Museu da Marinha, feito em 1970, que já aqui apresentámos, surge uma mistura entre linhas de costa actuais, e símbolos de posse antigos:

O mapa foi certamente inspirado num outro mapa que desconhecemos...
O notável é aparecerem bandeiras portuguesas numa extensão que cobre toda a parte leste da América do Sul, numa área da Argentina, bem como um escudo sobre o Canadá/Labrador/Terra Nova.
Esta pretensão sobre a zona da Terra Nova (aí denominada Terra de Corte-Real) foi claramente assumida por D. Sebastião, pelo que nos parece que este mapa terá inspiração nalgum documento desse período.
D. Sebastião estaria convencido em bastar impor a legitimidade de pretensões territoriais sem uma necessidade de chancela de Roma, e por isso definia-se como imperador por direito autónomo. Isso causaria enormes dificuldades, não apenas contra o Imperador designado, o seu tio Filipe II, mas também contra as pretensões marítimas francesas e até inglesas. Isso colocava Portugal praticamente isolado, conduzindo quase sem alianças um império mundial. Foi uma pretensão elevada, que teve um preço correspondente.
Porém, se o poder centralizado no Sacro-Império Romano acabou por cair definitivamente na Guerra dos Trinta Anos, assinado o Tratado de Vestfália (70 anos depois de Alcácer-Quibir), esta iniciativa de D. Sebastião é a única nacional que segue para além da linha da actuação de Henrique VIII, em Inglaterra (quando os Tudor passam a invocar a coroa fechada), e que marca o início do movimento para um outro Império Europeu, definido por nações independentes do poder central de Roma.



Batalha dos Três Reis
A Batalha de Austerlitz é também conhecida como a Batalha dos Três Imperadores, onde o conceito imperial já se havia difundido, e se confrontam os Impérios Francês, Russo e Austríaco (o que resta do Sacro-Império Germânico após Vestfália havia ficado na linha Habsburgo de Viena). A derrota austríaca vai marcar decisivamente o fim dessa linha imperial que remontava a Carlos Magno. O conceito imperial era já mais difuso, mas não ao ponto da iniciativa imperial de Napoleão que ignora um Papa que é forçado a assistir à sua auto-coroação. Napoleão acaba por sucumbir às suas pretensões de esmagar também o Império Russo e aparecer como imperador único. O ressuscitar de um Sacro-Império Germânico ficará ainda marcado pelas derrotas alemãs nas duas Grandes Guerras do Séc. XX... Porém essa reorganização europeia em torno de um poder centralizador, fazendo reviver o velho império germânico, não deixou de fazer parte da agenda política.

Antes da Batalha dos Três Imperadores, onde não morreu nenhum imperador, a Batalha de Alcácer-Quibir ficou conhecida como Batalha dos Três Reis, quer na nomenclatura marroquina, quer na inglesa.
O nome pretende invocar a morte de D. Sebastião, de Mulei Mohamad, o Rei de Marrocos deposto, e também de Mulei Moluco, o tio que o depôs, um vencedor que morre no decurso da batalha.
Estas três mortes numa batalha foram algo de único, e justificaram o nome adoptado.
É ainda particularmente estranho o monumento marroquino que marca a Batalha dos Três Reis:
À esquerda: Monumento marroquino à Batalha dos Três Reis, 
duas estrelas marroquinas certamente lembrando os Muleis,
e sobre elas uma invocação a Allah, conforme se confirma na figura à direita.
Falta D. Sebastião... ou o que representa afinal o terceiro círculo?
(observação devida a Carlos S. Silva)

Com Lucette Valensi vemos que as comemorações da derrota portuguesa são especialmente celebradas pela comunidade judaica marroquina, expulsa de Portugal... ao ponto de terem visto D. Sebastião como uma ameaça ao nível de um Holocausto:
Disputée entre le monarque et le saint [Sebastião], la mémoire de la bataille des Trois Rois suscite en terre marocaine une pluralité de récits: historiques, hagiographiques, folkloriques. Mais elle ne fait l'objet d'aucune célébration. Seules les communautés juives établies dans le nord du pays et habitées par le ressentiment contre ceux qui les ont expulsées de la Péninsule ibérique fêtent la défaite du roi Sébastien lors du Pûrim de los cristianos, le premier eloul de chaque année. Le texte biblique est mobilisé pour donner la signification de l'événement: la dévastation de la communauté juive de Marrakech par Muhammad al-Mutawakkil est identifiée à la destruction du Temple, le roi Sébastien au Haman du Livre d'Esther qui a décidé l'extermination de tous les juifs, sa défaite et l'exécution de ce dernier. Comme Pûrim célèbre l'éloignement de la menace de destruction qui pesait sur Mardochée et les siens, le nouveau pûrim, institué par les rabbins après la bataille de 1578 (5338 dans le calendrier juif), rend grâce à Dieu d'avoir détourné un péril mortel. (cf. wiki)
Assim, se por um lado se instituiu em Portugal uma visão Messiânica ligada a D. Sebastião, a opinião é absolutamente oposta pelo lado judeu! Para além de um ressentimento difuso, talvez houvesse uma noção de perigo por uma "falsa identificação messiânica", algo explícita no símbolo da empresa de D. Sebastião. Esse perigo seria tanto maior se as comunidades muçulmanas não o vissem como um inimigo cristão, e antes o acolhessem como um novo Messias. Assim, uma infiltração de Sebastião com adesão na comunidade magrebina poderia ter efeitos revolucionários na geografia política.

É conveniente referir que na obra de George Peele transparece claramente que o lado certo, o lado dos deuses, é o lado de Mulei Moluco. D. Sebastião aparece aí como um rei levado no engano, para o mau partido de Mulei Mohamed...
Mulei Moluco tem o apoio de Murad III, que é designado como "deus dos reis terrenos":
Abdil Reyes: Long live my lord, the sovereign of my heart, Lord Abdilmelec, whom the God of kings, The mighty Amurath hath happy made; And long live Amurath for this good deed. 
[Nota: Abdilmelec: Mulei Moluco; Amurath: Murad III]
O poder do Sultão Murad III é sempre enfatizado, colocado ao nível da expressão do poder divino na Terra... e se podemos ver isso como uma natural visão parcial do personagens, a invocação de deuses do panteão Romano, como Júpiter, não sofre da simples crítica de ignorância, que é feita por críticos de Peele, convenientemente ignorantes. Ao colocar nas palavras de Mulei Mohamed:

(...) Be Pluto, then, in hell, and bar the fiends,
Take Neptune’s force to thee and calm the seas,
And execute Jove’s justice on the world (...)

Peele saberia perfeitamente que os mouros não se refeririam aos deuses do panteão romano, mas decidiu inserir esse discurso no Mouro, aliado de D. Sebastião, que assim se rebelava contra o destino que lhe preparavam os deuses do panteão clássico.
Apesar de se pretender reduzir o interesse inglês na batalha à participação de Thomas Stukeley, um personagem controverso na Corte da Rainha Isabel, que alguns diziam ser seu irmão ilegítimo... é óbvio que a Batalha de Alcácer-Quibir só foi desvalorizada por algumas censuras explícitas, mas depois foi-no por censuras muito mais poderosas - as implícitas, que levaram o posterior Shakespeare a aparecer como fundador do Teatro Inglês, esquecendo estas obras de George Peele, aliás supostamente anónimas. Shakespeare emerge como encenador no teatro inglês apenas após a morte de George Peele, e só traz uma particularidade efectivamente nova - o não abordar explicitamente assuntos incómodos nas suas peças.

O argumento estava definido para as peças seguintes:
- a fama seria bondosa com temas abstractos ou ligeiros, mas severa com representações explícitas!
O argumento desta peça... o argumento desta grande peça encontra-se desde então em exibição por todas as salas de teatro, por todas as salas de cinema, por todas as nossas salas através da televisão.


___________
(*) Curiosamente o título "Prisioneiro de Veneza" será depois usado como título numa obra de um soldado metereologista, que decide publicar um "Panfleto sobre a contingência"... obra depois renomeada como "A Náusea", ou seja falamos de Jean Paul Sartre.

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publicado às 07:59


Peça por Peça

por desvela, em 17.09.11
- Uma Peça, de Teatro Isabelino: - The Battle of Alcazar, de George Peele (1591)
Peça por outra peça - e do pedido sai nova peça:
- Uma Peça, de Teatro Carolino: - Believe as you list, de Philip Massinger (1631).

Há mais peças... e peça por peça vão colando uma história diversa, neste caso de D. Sebastião.

Em 13 de Dezembro de 2009 foi iniciado o tópico Alvor-Silves com um texto sobre D. Sebastião, que seria o primeiro de sete textos, finalizados a 31... Alguns argumentos colocados nesse texto inicial podiam ser considerados especulativos, e acabei por deixar cair parcialmente o assunto.

Não deixa de ser coincidência que D. João de Áustria desapareça, tal como D. Sebastião, no ano de 1578!
Ambos eram jovens, ver-se-iam como guerreiros no modelo de Aquiles, e o brilhante cometa que apareceu no início desse ano (mais precisamente entre Novembro de 1577 e Janeiro de 1578), concretizaria alguns presságios de sorte funesta.

Sebastião foi levado no coração da batalha, João de Áustria foi levado pelo tifo... mas que necessidade haveria de dissecar o corpo do herói de Lepanto, no transporte para o Escorial, sendo só depois juntadas as partes? Recebia ambos os corpos, Filipe II, irmão de João e tio de Sebastião. 

D. João de Áustria, morto em 1578

Acerca de Lepanto, que em 1571 terá catapultado D. João de Áustria para a celebridade, o Grão-Vizir de Selim II, Mahamet Sokulu, terá afirmado:  
- Ao tomarmos Chipre, ficaram sem um braço, enquanto ao derrotarem a nossa armada [em Lepanto], só apararam a nossa barba

Foi desta forma que os Otomanos desvalorizaram o resultado de Lepanto.
A Sagrada Aliança, que reunia o Império Habsburgo Espanhol, Veneza e Génova, a Savóia, Malta e os Estados Papais, tinha vencido os Otomanos, mas dificilmente essa vitória permitira alterar a disposição das peças no terreno... e Chipre teria caído definitivamente.

Numa luta que carregava o epíteto sagrado, seria natural ver um "fervoroso rei católico" juntar as forças nacionais nesse empreendimento pela cristandade. Porém, não será esse rei D. Sebastião, que já governava o reino há três anos. O rei de Portugal não estará representado na coligação naval de Lepanto. Convém notar que o Infante D. Luís (tio de D. Sebastião) tinha estado presente na Conquista de Tunis, em 1535, comandada por Carlos V, pai de Filipe II. Era habitual uma colaboração cristã contra os otomanos...

Quando falha a potência militar, entra em jogo a diplomacia... os acordos em jogos de bastidores.
Se Lepanto não travava a expansão Otomana já consolidada na Europa, por onde poderia ela progredir sem apoquentar mais os Estados Italianos e Austríacos? 
- Um caminho claro seriam os outros estados islâmicos do Norte de África.
Assim, apesar do resultado de Lepanto, três anos depois, em 1574, a cidade de Tunis volta a cair em mãos otomanas.
Será neste contexto que aparece a ameaça de implantação otomana em Marrocos, e consequente perturbação da vizinhança ibérica, não apenas nas navegações, mas até num eventual reeditar de desembarques muçulmanos - a queda de Granada faria em breve um século e seria natural inflamar um espírito de reconquista pelo outro lado.

Se D. Sebastião pareceu preocupado com o problema, a ponto de oferecer ajuda a Mulei Mohamed, já Filipe II pareceu negligenciar a ameaça turca das suas fronteiras a sul.
Convém notar que num avanço dessa forma, os primeiros pontos vulneráveis seriam as possessões espanholas no Norte de África. Tunis fora logo perdida em 1574, mas havia várias outras... antes de chegar aos fortes portugueses, que começavam apenas em Ceuta.

Uma derrota pesada, que envolveu a morte do Rei, deixaria as possessões portuguesas em Marrocos como desígnio apetecível de embalo na reconquista. Porém, com Filipe II no trono português esse perigo muçulmano sob influência turca nunca se efectivou... aliás Filipe II será particularmente expediente na forma como irá tratar de aparecer como parte intermédia na resolução do problema de resgate dos sobreviventes de Alcácer-Quibir.

Os contactos de Filipe II com o lado vencedor na contenda de Alcácer-Quibir são particularmente proveitosos. Às expensas de fortunas enviadas para este intermediário no resgate, regressa alguma da nobreza e fidalguia nacional. Aparece como salvador de famílias dos cárceres dos infiéis, e certamente que tais famílias lhe ficam gratas apesar das somas dispendidas. Um dos prisioneiros resgatados era o Conde de Barcelos, filho do Duque de Bragança... tinha então apenas 10 anos de idade.
Os franceses chamavam a Filipe II "demónio do meio-dia"... mas não foi assim encarado em Lisboa, e a prova disso foi a Monumentalia Filipina - dezenas de grandes Arcos de Triunfo erigidos em Lisboa em 1581 (... dos quais nenhum sobreviveu!). A reacção da fidalguia à invasão filipina foi muito moderada, como pôde constatar o Prior do Crato... que teve entre os portugueses os seus principais amigos de Peniche!

Quando falamos de Filipe II, de D. Sebastião, e de D. João de Áustria, convém não esquecer o problema interno que se desenrolava em Espanha, entre Albistas e Ebolistas!
Esta luta interna, nos meandros da corte espanhola, teve uma clara vitória pelo lado Albista, do Duque de Alba, afinal o vencedor contra D. António. Do lado dos Ebolistas, e como Rui Gomes morre em 1573, será a sua jovem mulher, a notável Ana Mendonza de La Cerda, que procurará liderar o partido do seu marido - um português da Chamusca que, de tutor de Filipe II, ascendeu a Príncipe de Eboli, e Duque de Pastrana.
 
Ana de Mendonza y de La Cerda, Princesa de Eboli, com o devido olhar.  

A Princesa de Eboli acabou por ser denunciada em conspiração com Antonio Perez, sendo presa em 1579... estavam abertas todas as portas para a anexação portuguesa que o rival Duque de Alba concretizou no ano seguinte. O motivo principal da acusação seria a morte do secretário de D. João de Áustria, em Março de 1578, mas ligava-se primeiro o problema de D. Sebastião e depois o da sucessão,  que envolviam "segredos de estado".  

As versões que dispomos tiveram de sobreviver à forte censura que imperou nos reinados filipinos.
Não apenas nessas regências... afinal é sabido que o Marquês de Pombal fez queimar publicações que evidenciassem um teor sebastianista! 
Foi mesmo um pouco mais longe... sendo claro que o Duque de Aveiro e os Távoras foram protagonistas ao lado de D. Sebastião em batalha, foram também esses as vítimas principais do Processo de 1758, que condenou essas famílias a uma cruel execução pública.
- Coincidência?... Para quem gosta de numerologia, reparará ainda que 1578 e 1758 têm os mesmos dígitos!
Para quem não gosta, é claro que a Casa de Bragança não foi uma escolha consensual na Restauração!
Estaria demasiado ligada ao partido de Filipe II, a quem Catarina de Bragança acabou por abdicar o direito do trono, e essa foi também a Casa que mais beneficiou sob domínio filipino. 
D. João IV teve pois que admitir abdicar num eventual regresso de D. Sebastião. O episódio de Luísa de Gusmão, preferindo ser "Rainha por um dia...", reflecte implicitamente a parte da Casa onde Portugal queria rever-se. Não era na linha do anterior Duque de Bragança - que tomado por febres, se tinha escusado a partir com o Rei.... seria talvez mais na linha de Luísa, a bisneta da Princesa de Eboli.
O Duque de Aveiro ainda era, à época do Marquês de Pombal, um candidato ao trono, pela linha mais antiga... que vinha da descendência de D. João II pelo filho D. Jorge, preterido a D. Manuel.
As três casas ducais formadas por Afonso V, ou seja Coimbra, Viseu e Bragança... tinham-se enfrentado desde a Batalha de Alfarrobeira. 
E se o ducado de Viseu foi vencedor na sucessão de D. João II, obrigando o ducado de Coimbra a mudar de nome para Aveiro; após a extinção da linha com D. Sebastião, a sucessão pela via de D. Jorge permaneceu como ameaça à casa de Bragança até à execução definida em 1758. O problema era de tal forma evidente que o filho do Duque de Aveiro só escapou à morte com a promessa de não ter sucessores. 


Prisioneiro de Veneza
Por isso, é importante encontrar registos um pouco mais longínquos... na Inglaterra!
Há uma excelente compilação de escritos (que encontrei agora), publicada em 1985, pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, do Ministério da Educação:
D. Sebastião na Literatura Inglesa
... e parece ser um dos poucos registos onde se fala das importantes obras inglesas que abordaram o assunto da Batalha de Alcácer-Quibir e do destino de D. Sebastião.

Uma dessas obras é Believe as you list, de Philip Massinger (1631), que foi censurada!
"Acreditem enquanto ouvem" só teve autorização de publicação depois do autor mudar por completo o enquadramento! Ao invés de falar do reaparecimento de D. Sebastião, colocou-o como reaparecimento de Antíoco, rei da Síria no Séc. II a.C.

O motivo da peça era o aparecimento de D. Sebastião enquanto o "Cavaleiro da Cruz", em Veneza, em Junho de 1598. Consegue convencer portugueses aí sediados, e por isso o homem é preso pelo Doge de Veneza em Novembro de 1598, a pedido do embaixador espanhol. É libertado por intervenção do filho do Prior do Crato, e consegue escapar até Florença onde volta a ser preso pelo Duque da Toscana, mais uma vez a pedido do embaixador espanhol. É visitado pelo Conde de Lemos em 1601, mas acaba por ser primeiro condenado perpetuamente às galés e finalmente executado em 1603. 
Esta história contada por Frei José Teixeira e usada por Massinger, está bem documentada no artigo de Isabel Oliveira Martins (ver pág. 121-145), incluso no dito livro de 1985.

É claro que o "Prisioneiro de Veneza"(*) aparenta ser apenas mais um caso de reaparcimento, após os de Penamacor, Ericeira e Madrigal, com desfecho funesto para os pretendentes. Havendo interesses em depor a linha espanhola, também é natural pensar que alguns portugueses alinhassem nesta solução alternativa. O prisioneiro de Veneza, talvez um certo Marco Tulio Catizone, acabou por ter repercursão ao ponto da peça ter sido proibida no reinado de Carlos I, rei inglês que teve depois destino igualmente funesto!


Moluco
Um aspecto que se mantém particularmente intrigante é a designação Mulei Moluco para Abd-al-Malik (ou Abdilmelec), especialmente se o conectarmos a um período em que as Ilhas Molucas estiveram sob disputa no Anti-Meridiano das Tordesilhas, desde D. João III. 
A fundação de Manila após 1571, e subsequente renomeação daquelas ilhas como Filipinas, em honra a Filipe II, mostram que se mantinham questões territoriais a resolver naquela parte oriental, entre Filipe II e D. Sebastião. Essa questão é especialmente notória pela oferta dessas mesmas ilhas como dote da filha de Filipe II, se D. Sebastião tivesse aceite esse casamento! Porém, obstinadamente, D. Sebastião sempre recusou essa proposta de casamento espanhol.
As ilhas eram inicialmente denominadas Malucas, e a conotação do termo "Maluco" só tem um significado de loucura posteriormente. Convém a este propósito referir que, na Jornada de África, Jerónimo de Mendonça diz:
(...) e Mulei Audelmelic, vendo isto se passou ao Gram Turco, o qual vulgarmente se chama Mulei Moluco, porque sendo pequeno era tão afeiçoado aos Christãos, que seu pay lhe mandou fazer huma bragua d'ouro chea de muitas pedras ricas, e lha pôs hum dia chamando-lhe Moluco (como quem diz servo) donde lhe ficou o sobrenome tambem assentado, que muitos lhe não sabem o nome verdadeiro. Andou pois Mulei Molucco em Constantinopla muito tempo, sem poder alcançar socorro do Gram Turco contra seu sobrinho (como tambem del Rey de Espanha , não havia podido alcançar, fazendo primeiro os mesmos ofícios).
O significado de Moluco é assim explicado como sinónimo de "servo", e de forma clara é estabelecida a tentativa de contacto de Mulei Moluco ao rei de Espanha, antes de obter o apoio de Murad III, o Sultão Turco, que lhe concederá uma tropa de janízaros.

Portanto, o combate de D. Sebastião foi contra uma ameaça otomana, entretanto colorida como uma questiúncula interna de legitimidade de sucessão marroquina, por diversas interpretações testamentárias.
Se não há nada que aponte para uma participação espanhola contra a incursão portuguesa em Alcácer-Quibir, há muito que aponta para um combate directo contra uma coligação com forças otomanas em solo de Marrocos, e não apenas contra uma facção do exército marroquino. Pior do que isso, há algumas suspeitas sobre como uma batalha, aparentemente ganha numa primeira fase, e em que o próprio Mulei Moluco morre no seu decurso, se vai desenrolar com uma desastrosa descoordenação posterior, não do lado marroquino, mas sim indiciando problemas internos no lado português.

Foram à época colocadas dúvidas sobre o papel de Filipe II, sobre o conselho ao sobrinho de não participar, sobre a falha de envio de tropas, sobre a oferenda do Elmo que o pai, Carlos V, teria usado na Conquista de Tunis. Ou ainda, sobre o pedido do próprio Mulei Moluco a D. Sebastião, com o compromisso de não usar o apoio turco como ameaça às possessões portuguesas. Essas dúvidas podem fazer sentido, na sequência de acontecimentos, dado que Filipe II obteria vantagens com a vitória de D. Sebastião, ao afastar a ameaça turca... mas também com a derrota, pela sua pretensão à sucessão do trono português.
Porém, a derrota de D. Sebastião não afastaria a ameaça turca...
Onde ficou a ameaça turca após a derrota de Alcácer-Quibir?
Teria sido travada pelos marroquinos?
Pelo partido dos mesmos marroquinos que juravam fidelidade ao Sultão Murad III?
O plano de Filipe II só seria perfeito com uma prévia negociação com os turcos...

De facto, durante o período seguinte a Europa vai entrar numa grande guerra interna, a Guerra dos Trinta Anos... quase esquecendo a ameaça turca, ameaça que parece evaporar-se após Alcácer-Quibir.
Assim sendo, como não pensar num extenso acordo entre os beligerantes de Lepanto?
- Constatado o equilíbrio tácito, há uma certa aceitação da presença turca.
O espírito de Cruzada, de reconquista da Terra Santa tinha sido perdido por completo e a conquista de Jerusalém deixa de ter importância como tema europeu.
Curiosamente, os Otomanos ocupam o papel de Constantinopla... não apenas com a renomeação da capital para Istambul, também porque os seus domínios vão concentrar-se nos domínios do Império Romano do Oriente.
A Europa Ocidental parece assim conformar-se ao império ocidental e deixa o oriental para os Turcos.

O Quinto Império
O Império Ocidental era do tio, Filipe II, mas D. Sebastião ousa pela primeira vez colocar uma Coroa Imperial num rei português.
D. Sebastião com a Coroa Imperial (coroa fechada)

As coroas dos seus antecessores, mesmo de D. João II ou D. Manuel, tinham sido sempre abertas... em obediência a Roma e ao Sacro-Império, porém a atitude de D. Sebastião parece unilateral.
Tal atitude seria semelhante a uma cisão do Império Romano Ocidental, não passaria facilmente despercebida. Como o Sacro-Império será colocado em causa durante a Guerra dos Trinta Anos, a atitude poderá depois não ser tão notória, e até vista como uma questão de moda... mas o fecho da coroa significava implicitamente não estar sob o Sacro-Império.

A empresa de D. Sebastião é representada pela junção de vários componentes cristãos, que podemos ver na moeda seguinte:
Moeda de D. Sebastião

Há uma vieira sobre um peixe acima do mar, e uma lua (crescente) que abre sobre algumas estrelas (quatro aqui, embora haja quem desenhe 7 invocando a Ursa Maior... poderiam ser ainda as Pleiades).
Este símbolo pode ser encarado como uma reencarnação no seio do amor de Cristo, excepto no que se refere especificamente à configuração da Lua e estrelas.
O moto - Serena Celsa Favent... algo como o esclarecimento (ou a serenidade) favorece a excelência, parece sugerir que D. Sebastião, o Desejado, estava em sintonia com uma filosofia que o veria como executante escolhido para nova missão divina.

Essa mesma ideia de um Novo Império acaba por passar no mito que é gerado em torno do seu desaparecimento.
Conforme notado por alguns autores (ver Lucette Valensi), a batalha de Alcácer-Quibir não será alvo de efusivas comemorações pelo lado marroquino, apesar do seu aparente desfecho glorioso, e é ao contrário um símbolo de união portuguesa, em torno da ideia do Quinto Império.
É afinal uma derrota que parece motivar um desígnio imperial, nunca antes explícito!

Nesta ilustração podemos ver o pensamento dessa saudade sebastianista, nas frases:
Dois retratos vês q são.
Hum velho só na aparência
Do Rey D. SEBASTIÃO.
Repara q têm mistério
Pois a mão da Providência o guarda
Para o V Império
 
SI  VERA  EST  FAMA  SEBASTIUS
O Incoberto. Esperado. Sebastião. O dezejado.
O Quinto Império está alegoricamente representado na incompletude dos degraus da pirâmide... há quatro degraus bem definidos, e um quinto malforme que se parecia desenhar, e onde fica explícita uma intenção de construção ao colocar-se sobre a pedra uma coroa imperial.
Se na mão do jovem Sebastião está aberto o bastão...
... na mão do mais velho o bastão aparece já sem ponta solta.
De bastão passa a bastião, num outro Sebastião!
As figuras estão ainda em reflexão, em orientações opostas, mas exibindo em ambos os casos coroas imperiais, só ligeiramente diferentes.

Importa assim notar que não é um Rei que parte para Alcácer-Quibir, é um assumido imperador.
As pretensões imperiais poderia tê-las tentado D. Sebastião pela união com a filha de Filpe II, seguindo o plano Habsburgo, uma Casa que cumpria as regras, crescendo por casamentos planeados que foram eliminando sucessores até que a família austríaca detivesse a coroa imperial.
Porém, parece claro que D. Sebastião pretendia outra via... um novo Império.
Num mapa do Museu da Marinha, feito em 1970, que já aqui apresentámos, surge uma mistura entre linhas de costa actuais, e símbolos de posse antigos:

O mapa foi certamente inspirado num outro mapa que desconhecemos...
O notável é aparecerem bandeiras portuguesas numa extensão que cobre toda a parte leste da América do Sul, numa área da Argentina, bem como um escudo sobre o Canadá/Labrador/Terra Nova.
Esta pretensão sobre a zona da Terra Nova (aí denominada Terra de Corte-Real) foi claramente assumida por D. Sebastião, pelo que nos parece que este mapa terá inspiração nalgum documento desse período.
D. Sebastião estaria convencido em bastar impor a legitimidade de pretensões territoriais sem uma necessidade de chancela de Roma, e por isso definia-se como imperador por direito autónomo. Isso causaria enormes dificuldades, não apenas contra o Imperador designado, o seu tio Filipe II, mas também contra as pretensões marítimas francesas e até inglesas. Isso colocava Portugal praticamente isolado, conduzindo quase sem alianças um império mundial. Foi uma pretensão elevada, que teve um preço correspondente.
Porém, se o poder centralizado no Sacro-Império Romano acabou por cair definitivamente na Guerra dos Trinta Anos, assinado o Tratado de Vestfália (70 anos depois de Alcácer-Quibir), esta iniciativa de D. Sebastião é a única nacional que segue para além da linha da actuação de Henrique VIII, em Inglaterra (quando os Tudor passam a invocar a coroa fechada), e que marca o início do movimento para um outro Império Europeu, definido por nações independentes do poder central de Roma.



Batalha dos Três Reis
A Batalha de Austerlitz é também conhecida como a Batalha dos Três Imperadores, onde o conceito imperial já se havia difundido, e se confrontam os Impérios Francês, Russo e Austríaco (o que resta do Sacro-Império Germânico após Vestfália havia ficado na linha Habsburgo de Viena). A derrota austríaca vai marcar decisivamente o fim dessa linha imperial que remontava a Carlos Magno. O conceito imperial era já mais difuso, mas não ao ponto da iniciativa imperial de Napoleão que ignora um Papa que é forçado a assistir à sua auto-coroação. Napoleão acaba por sucumbir às suas pretensões de esmagar também o Império Russo e aparecer como imperador único. O ressuscitar de um Sacro-Império Germânico ficará ainda marcado pelas derrotas alemãs nas duas Grandes Guerras do Séc. XX... Porém essa reorganização europeia em torno de um poder centralizador, fazendo reviver o velho império germânico, não deixou de fazer parte da agenda política.

Antes da Batalha dos Três Imperadores, onde não morreu nenhum imperador, a Batalha de Alcácer-Quibir ficou conhecida como Batalha dos Três Reis, quer na nomenclatura marroquina, quer na inglesa.
O nome pretende invocar a morte de D. Sebastião, de Mulei Mohamad, o Rei de Marrocos deposto, e também de Mulei Moluco, o tio que o depôs, um vencedor que morre no decurso da batalha.
Estas três mortes numa batalha foram algo de único, e justificaram o nome adoptado.
É ainda particularmente estranho o monumento marroquino que marca a Batalha dos Três Reis:
À esquerda: Monumento marroquino à Batalha dos Três Reis, 
duas estrelas marroquinas certamente lembrando os Muleis,
e sobre elas uma invocação a Allah, conforme se confirma na figura à direita.
Falta D. Sebastião... ou o que representa afinal o terceiro círculo?
(observação devida a Carlos S. Silva)

Com Lucette Valensi vemos que as comemorações da derrota portuguesa são especialmente celebradas pela comunidade judaica marroquina, expulsa de Portugal... ao ponto de terem visto D. Sebastião como uma ameaça ao nível de um Holocausto:
Disputée entre le monarque et le saint [Sebastião], la mémoire de la bataille des Trois Rois suscite en terre marocaine une pluralité de récits: historiques, hagiographiques, folkloriques. Mais elle ne fait l'objet d'aucune célébration. Seules les communautés juives établies dans le nord du pays et habitées par le ressentiment contre ceux qui les ont expulsées de la Péninsule ibérique fêtent la défaite du roi Sébastien lors du Pûrim de los cristianos, le premier eloul de chaque année. Le texte biblique est mobilisé pour donner la signification de l'événement: la dévastation de la communauté juive de Marrakech par Muhammad al-Mutawakkil est identifiée à la destruction du Temple, le roi Sébastien au Haman du Livre d'Esther qui a décidé l'extermination de tous les juifs, sa défaite et l'exécution de ce dernier. Comme Pûrim célèbre l'éloignement de la menace de destruction qui pesait sur Mardochée et les siens, le nouveau pûrim, institué par les rabbins après la bataille de 1578 (5338 dans le calendrier juif), rend grâce à Dieu d'avoir détourné un péril mortel. (cf. wiki)
Assim, se por um lado se instituiu em Portugal uma visão Messiânica ligada a D. Sebastião, a opinião é absolutamente oposta pelo lado judeu! Para além de um ressentimento difuso, talvez houvesse uma noção de perigo por uma "falsa identificação messiânica", algo explícita no símbolo da empresa de D. Sebastião. Esse perigo seria tanto maior se as comunidades muçulmanas não o vissem como um inimigo cristão, e antes o acolhessem como um novo Messias. Assim, uma infiltração de Sebastião com adesão na comunidade magrebina poderia ter efeitos revolucionários na geografia política.

É conveniente referir que na obra de George Peele transparece claramente que o lado certo, o lado dos deuses, é o lado de Mulei Moluco. D. Sebastião aparece aí como um rei levado no engano, para o mau partido de Mulei Mohamed...
Mulei Moluco tem o apoio de Murad III, que é designado como "deus dos reis terrenos":
Abdil Reyes: Long live my lord, the sovereign of my heart, Lord Abdilmelec, whom the God of kings, The mighty Amurath hath happy made; And long live Amurath for this good deed. 
[Nota: Abdilmelec: Mulei Moluco; Amurath: Murad III]
O poder do Sultão Murad III é sempre enfatizado, colocado ao nível da expressão do poder divino na Terra... e se podemos ver isso como uma natural visão parcial do personagens, a invocação de deuses do panteão Romano, como Júpiter, não sofre da simples crítica de ignorância, que é feita por críticos de Peele, convenientemente ignorantes. Ao colocar nas palavras de Mulei Mohamed:

(...) Be Pluto, then, in hell, and bar the fiends,
Take Neptune’s force to thee and calm the seas,
And execute Jove’s justice on the world (...)

Peele saberia perfeitamente que os mouros não se refeririam aos deuses do panteão romano, mas decidiu inserir esse discurso no Mouro, aliado de D. Sebastião, que assim se rebelava contra o destino que lhe preparavam os deuses do panteão clássico.
Apesar de se pretender reduzir o interesse inglês na batalha à participação de Thomas Stukeley, um personagem controverso na Corte da Rainha Isabel, que alguns diziam ser seu irmão ilegítimo... é óbvio que a Batalha de Alcácer-Quibir só foi desvalorizada por algumas censuras explícitas, mas depois foi-no por censuras muito mais poderosas - as implícitas, que levaram o posterior Shakespeare a aparecer como fundador do Teatro Inglês, esquecendo estas obras de George Peele, aliás supostamente anónimas. Shakespeare emerge como encenador no teatro inglês apenas após a morte de George Peele, e só traz uma particularidade efectivamente nova - o não abordar explicitamente assuntos incómodos nas suas peças.

O argumento estava definido para as peças seguintes:
- a fama seria bondosa com temas abstractos ou ligeiros, mas severa com representações explícitas!
O argumento desta peça... o argumento desta grande peça encontra-se desde então em exibição por todas as salas de teatro, por todas as salas de cinema, por todas as nossas salas através da televisão.


___________
(*) Curiosamente o título "Prisioneiro de Veneza" será depois usado como título numa obra de um soldado metereologista, que decide publicar um "Panfleto sobre a contingência"... obra depois renomeada como "A Náusea", ou seja falamos de Jean Paul Sartre.

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