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Véus (4)

por desvela, em 14.12.15
No extracto seguinte somos levados a uma certa descrição, ou confissão, da mise-en-scène de um certo espectáculo, não apenas destinado aos iniciados, mas especialmente à população. O reforço da ideia de que os deuses da antiguidade tinham sido ídolos de carne e osso, dificilmente serve qualquer argumento de remeter o povo à ignorância. Simplesmente nos remeteria mais à ideia de magos entretidos na encenação de um espectáculo de magia, aproveitando-se da credulidade de uma plateia infantilizada.

A tentativa da procura de prestígio nas heranças da Antiguidade, está muito bem descrita na crítica, fazendo a Maçonaria passar por uma mera esponja que procurava absorver tudo o que lhe pudesse trazer alguma liquidez. Uma organização iniciada no final da Idade Média, seria tão herdeira da Antiguidade, como qualquer grupo pretensioso que o reclamasse sem outra razão.
A situação só seria diferente se tivessem tido o patrocínio de heranças contínuas, legadas sem interrupção... e mesmo assim, se o legado apenas desse para chegar ao Egipto, seria muito pouco. Não seria muito diferente do legado judaico, ou doutros legados mantidos por grupos ou populações ao longo de milénios.  

Também os nazis procuraram uma legitimação por via de uma herança ariana, mas a sua falta de ligação histórica a esse passado, apenas os deixava no papel de adivinhos, encenadores de teatro duma cultura Teutónica inventada, e até crentes em médiuns, que reclamavam ter visões de encarnações no passado. 
Portanto, a qualquer momento na história, um grupo pode deitar-se a adivinhar o passado, e a tirar conclusões sobre ele. Tanto seria assim com os nazis que poderiam iniciar o seu legado no Séc. XX, como com uma maçonaria que o poderia ter definido no Séc. XVII, como com os judeus, afinal a obediência mais obediente, e uma das que reclama maior antiguidade em legado, sem interrupções desde o cativeiro babilónico. O legado feito a partir de um momento ganha o estatuto de verdade para esse grupo, e vive da fé dos crentes... mesmo sendo ridicularizado nos seus relatos contraditórios, impossíveis, ou grotescos. E é normalmente para evitar esse ridículo interno que essas impossibilidades passam do estatuto ridículo, ao estatuto de mistério a desvendar.

Sejamos claros, se alguém se afirmava herdeiro dos Egípcios dificilmente faria grande alarido com a descoberta da Pedra da Roseta, já que não estaria à espera de Champollion para decifrar hieróglifos. Seria quase semelhante a termos a cultura judaica incapaz de ler hebraico. Por outro lado, também parece algo estranho que o Império Bizantino tenha deixado cair no esquecimento as línguas orientais que existiam no seu espaço... e por isso toda esta história tem bizarrias próprias.

A herança natural de toda a Antiguidade mediterrânica deveria ter sido assegurada pela Cúria romana, através da Igreja Católica, que herdou esse poder, substituindo-se a todas as religiões pagãs, e praticamente concentrando os poderes seculares e temporais no Ocidente. No entanto, como os "métodos católicos" visaram a certa altura uma destruição desse passado, é natural que outros espectadores mais silenciosos tenham assumido o papel de assegurar legados. 

Não se vislumbra é nenhuma evidência de que qualquer dos mistérios iniciáticos, seja da maçonaria, seja das religiões mais antigas, gregas ou egípcias, incluísse qualquer informação fidedigna sobre a história antiga da humanidade... Afinal em 1822, quando o texto é escrito, ainda não havia propriamente a ideia de um período Paleolítico, com pinturas rupestres. Nem a Bíblia, nem nenhum dos outros textos antigos, nenhum deles não menciona rigorosamente nada sobre os mistérios das cavernas, algo praticamente suficiente para entendermos que esses registos são apenas versões recentes, ignorantes de coisas muito mais antigas, e completamente submersas à época.

Finalmente, pode parecer algo macabro o costume de beber por caveiras, que é apontado aqui como tradição maçónica, mas talvez por esse lado seja mais fácil estabelecer o elo com o passado, que alguns Druidas ainda conheceriam como legado antigo.
Mas, a situação é mais ridícula. A pretensão de esconder o conhecimento ou ignorância do passado, que pode ser estratégia conveniente a este tipo de grupos, apenas tem uma clara consequência futura - esses registos serão tanto mais irrelevantes, já que o passado só se fecha no cumprimento do futuro.

Os grupos que julgam guardar para si o passado, não guardam rigorosamente nada. Porque, a partir do momento em que a falsidade ganhou corpo, acreditar em legados do passado vive apenas duma fé frágil, que se construiu em cima de mentiras. Assim, o que podemos saber do passado está apenas reservado à objectividade do futuro. Se abrirmos o futuro a uma objectividade racional, cada vez poderemos saber mais do passado... mas sobre o passado contado, guardado em documentos e copiado criteriosamente, esse apenas serve como estória privada temporária, até que a História se imponha. 
Figurativamente, não foi por não existirem referências a pinturas rupestres nos textos antigos, fossem eles gregos, romanos, hebraicos, chineses, etc... que o nosso passado cavernoso não deixou de aparecer aos nossos olhos.

________________________________________________
O Véu Levantado ou o Maçonismo Desmascarado

CAPÍTULO I. 
Origem da Franc-Maçonaria

(continuação)

Sem dúvida era bem necessário que o banquete, que se segue à recepção de um Pedreiro-Livre, fosse também recomendado por uso antigo, a fim de fazer mais verosímil a conformidade, que pretendem estabelecer entre os mistérios do Paganismo e os das Lojas maçónicas. Mas como os banquetes que se fazem na Loja, são alegres e acompanhados de farsas divertidas, há o maior cuidado de os justificar com o que se praticava nas iniciações de Atenas. Continuemos a recitação de Apuleio
«Depois disto o iniciado era conduzido a uma câmara, onde se lhe faziam perguntas simbólicas, a que ele respondia, segundo o que lhe tinham ensinado. O Recipiendario era depois introduzido no santuário do templo, no meio da profunda obscuridade; o horror desta escuridade era aumentada com tudo aquilo, que a industria humana pode imaginar de mais terrível. O trovão rebenta de todas as partes, os relâmpagos brilham, o raio cai, o ar está cheio de figuras monstruosas, o santuário treme, e a terra parece abrir-se em bocas. Mas bem depressa a calma sucede à tempestade, e à desordem dos elementos desencadeados; a cena se desenvolve, e se estende ao longe; o fundo do santuário se abre, e se descobre um prado agradável, onde vão deleitar-se. »
Prazeres puros, e inocentes são as únicas esperanças de que um Pedreiro-Livre deve lisonjear-se de gozar. É isto o que lhe querem fazer entender pelo que se segue: 
«Um templo descoberto e cómodo, construído em um jardim agradável e campestre, cercado e assombrado por árvores, cujos ramos parece perderem-se nas nuvens, era o lugar onde se introduzia o iniciado.» 
Eis-aqui o dogma que os ministros da religião devem contentar-se de ensinar com modéstia, com o receio de se enganarem. Este pedaço é de Mr. Guillemain e descobre todos os seus sentimentos. 
«Os olhos do novo prosélito não eram feridos pelas representações materiais e ridículas dos deuses, que os homens se imaginaram. O brilhante astro que esclarece todos os mortais, o céu de um dia puro e tranquilo, era o que se oferecia a suas vistas, quando as levantava. Os Magos vestidos uniformemente , dispostos em semicírculo (como se está na Loja), tendo seus discípulos no meio, pareciam envergonhar-se do orgulho e da presunção, que até então tinham mostrado. Em sua postura, e em seu olhar se lia, que eles não procuravam senão falar como sábios modestos, que tremem de se enganar, desejando instruir. » 
«Aquele, a quem todos os mais olhavam como sábio, começava por dar provas de que há um Deus único e supremo, motor e conservador do Universo. Demonstrava com raciocínios profundos que a matéria por si mesma não poderia adquirir nem movimento, nem inteligência. Confessava, que aqueles que eram olhados como semi-deuses, não tinham sido senão uns homens célebres por sua sabedoria e conhecimentos, que a série dos tempos tinha deificado no espírito do povo; mas que os sacerdotes , e os iniciados se limitavam a honrar sua memória, e a imitar suas virtudes; que em fim o respeito que lhes tinham não era senão o que se deve a legisladores esclarecidos, tais como aqueles, que eram os fundadores da glória do Egipto.»
«Segundo estas verdades, dizia o Orador, ser-te-ia talvez difícil compreender o motivo que nos faz obrar tão contraditoriamente na sociedade civil. Nós gememos em segredo de profanar a divindade por meio de ilusões, e mentiras; mas temos a fraqueza de querer, que o povo, que vive na ignorância, precisa de imagens sensíveis. Nós o supômos incapaz de adorar um ser impassível, que ele não pode compreender.» 
Se os magos e os ministros da religião que possuíam o segredo dos mistérios dos Egípcios, tinham realmente dado estas instruções aos que se faziam iniciar em seus mistérios, diga Mr. Guillemain a razão por que os Egípcios passavam entre todos os povos pelos homens mais supersticiosos do mundo? Por que razão no tempo de Plutarco havia entre os Egípcios instruções religiosas feitas para a gente arrasoada, e outra para o povo ignorante e grosseiro? Por que, no juízo deste Autor contemporâneo, os Egípcios adoravam, não só a Ibis, e o Ichneumon, que eram animais úteis; mas também o Crocodilo, que comia os homens; prática esta que os fazia ridículos aos estrangeiros? 
«E expunha, diz Plutarco, o culto e as cerimónias da religião ao desprezo e zombaria das gentes sensatas; dava ocasião às ideias mais absurdas, e às acções mais detestáveis; produzia, nos espíritos fracos, a superstição mais extravagante; precipitava os espíritos fortes nos horrores ao Ateísmo, ou ao menos os levava a opiniões, que degradavam ao mesmo tempo a humanidade, e a mesma Divindade, que se achava aviltada pelo culto dos animais. ( Demonstração Evangélica de Leland, ) » 

Eis-aqui, segundo Mr, Guillemain, o que os Pedreiros- Livres devem tomar por modelo: quereria ele trazer-nos à memória o ateísmo ou a idolatria; fazer-nos ridículos aos estrangeiros; e fazer-nos cair nos absurdos, que com razão se repreendem aos antigos filósofos? O certo é, que querendo ele descrever-nos as cerimónias praticadas nos mistérios de Isis ou de Ceres, não nos deu seguramente a origem da Franc-Maçonaria; e se era necessário acreditá-lo sobre sua palavra, nada haveria que fosse muito lisonjeiro para a grande obra que ele quer celebrar; pois que se seguiria de suas descobertas, que a Franc-Maçonaria teve a sua origem no centro da idolatria e a ela chama ou convida aos que se fazem iniciar em seus mistérios. Se nisto é que terminam todos os esforços da nova filosofia, se os que não admitirem os mistério da Religião revelada, são obrigados a adoptar todas as loucuras do paganismo é preciso convir, que o espírito humano, abandonando a suas próprias luzes, é bem fraco, e bem para lastimar. 

Mas convenhamos nisso sinceramente: os Pedreiros-Livres não são todos do voto de Mr.Guillemain, Alguns há, que fazem remontar a origem da Franc-Maçonaria à aparição de Jesus Cristo nas margens do Jordão quando as três Pessoas da Santíssima Trindade renderam testemunho à sua missão divina: é por esta razão que a festa de São João Baptista é tão célebre em toda a Ordem maçónica
Alguns entusiastas se persuadem que a primeira Loja se estabeleceu no Paraíso terrestre, quando Deus apareceu a Adão e a Eva. Os que pertencem à alta maçonaria, e que fazem profissão de cultivar as ciências abstractas , de descobrir os conhecimentos misteriosos, escondidos debaixo das alegorias, e dos emblemas, fazem remontar a origem da Maçonaria a Mézaim ou Menes, a Thot, Hermes, ou Mercúrio Trismegisto; outros aos Druídas ou a Gomer. Pode dizer-se, que os filósofos de nossos dias, tomando emprestado das escolas da filosofia antiga muitos usos, que introduziram nas Lojas maçónicas, a Maçonaria se assemelha, a alguns respeitos, a tudo quanto ela quer, e que é como impossível achar sua verdadeira origem. 

Os Pedreiros-Livres dizem que descendem dos Druidas; porque, como eles, reconhecem o Ser supremo e o honram; porque proíbem, como eles, discutir as matérias de religião e de politica; porque impõem segredo sobre os dogmas, que querem ocultar aos estrangeiros, porque respeitam como eles . os mortos conservando seus crânios, para beberem por eles; prática esta, que os Pedreiros-Livres observam, principalmente a respeito do crânio de Adoniram, seu Grão-Mestre; porque não escrevem nada do que diz respeito à sua doutrina; porque tomam alvas nos dias de cerimónia, como os Druidas que se vestiam de branco para recolherem o visgo; porque têm plumas no chapéu, como as que trazia no seu barrete o sumo Sacerdote Druida

Os Pedreiros-Livres dizem que descendem dos Sacerdotes Egípcios; porque têm, como eles, duas doutrinas, uma exterior, e outra interior. Em suas Lojas imitam o silêncio, que Pitágoras exigia de seus discípulos; e nos seus graus, as provas que este Filósofo requeria dos mesmos antes de lhes permitir que falassem. O mistério de suas cerimónias, e de seus sentimentos figuravam-se no Esphinge que os Sacerdotes de Isis costumavam pôr à porta de seus Templos. Imitando os usos de toda a antiguidade e copiando os sentimentos de todos os filósofos os Pedreiros-Livres poderão chamar-se verdadeiramente cosmopolitas e fazer remontar sua origem até onde quiserem. 

O que se pode notar em todas as suas indagações é que afectam não falarem nunca da Religião Cristã,
nem da sua moral, nem de seus dogmas, nem das virtudes heróicas, que ela ordena, ou aconselha, ainda que por si só ela tem produzido mais virtudes, mais luzes e felicidades, que todas as instituições humanas juntamente. Mas o objecto da Franc-maçonaria não é propor a Jesus Cristo por modelo nem tomar alguma de suas lições. É justo, que marchando sobre os vestígios de Socino, seu fundador trabalhe em apagar, se é possível, o nome de Jesus Cristo no coração de todos os Cristãos. 

(continua)

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