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Há demasiados pequenos detalhes a registar, talvez não substanciais cada um deles, mas acumulam para um texto diversificado. Alguns destes tópicos foram abordados nos comentários e daí o nome...

1. Leão dos Jerónimos
É apenas um detalhe, mas não deixa de ser interessante que também o leãozinho na fonte do Claustro dos Jerónimos tem o cabelo liso e a cauda a cair nas costas (como acontecia com os de Évora):

Seria este leão feito de raiz para o Mosteiro, indo basear-se nos antigos encontrados pelos campos, ou seria este um dos leões encontrados pelos campos, que foi ali colocado?

Leões de juba com o cabelo escorrido e cauda nas costas, não são fáceis de encontrar. 

Dei com um par deles na Catedral de S. Lourenço em Génova, mas como se perceberá o aspecto é bastante mais sofisticado, e com efeito são já reportados ao Séc. XIX.

No entanto, não indo longe, e procurando ao lado, em Espanha, encontramos outros, na Catedral de Ávila (em baixo, esq.), na Catedral de Ourense, ou ainda em Baños de Ebro (em baixo, dir.).


Não me parece ser possível concluir muito com esta informação, mas este estilo de leões parece ter feito sucesso na península, poderá ter vindo na Antiguidade (assim foi a opinião do Museu de Évora), sendo eventualmente recuperado na Idade Média, mas não deixa de evidenciar uma raiz mais antiga e singular.


2. Condomínio no Castelo de São Jorge?
Procurando saber um pouco mais sobre a editora Mattos Moreira & Cª (que editou os volumes de Pinho Leal, e também algumas obras de Camilo) fui parar a esta imagem no blog restos de colecção:


Ao que um leitor aí perguntou:
- "Que prédios são aqueles dentro das muralhas do castelo?"
tendo obtido a resposta:
- "Aquartelamento e prisão desde 1807 até cerca de 1940".

Apesar de ter sido iniciativa do General Junot de modificar o espaço, instalando aí o seu quartel-general, o Castelo de S. Jorge já não era Paço Real desde o Séc. XVI, quando passou a existir o Paço da Ribeira. As instalações foram mesmo passando por aquartelamento e prisão, até ao funcionamento da Casa Pia (entre 1780 e 1807). De qualquer forma as obras de Junot devem ter sido razoáveis, porque só com um governo nacionalista, é que conseguiram deitar abaixo a memória invasora. 
Fotos desta lembrança de Lisboa não são (agora) fáceis de encontrar.

3. Relógio do Convento de Cristo
Digamos, se tivéssemos que escolher os monumentos históricos mais emblemáticos do país, só faltaria mesmo a Torre de Belém aparecer com duas torres, ou algo do género.
Por esse lado, não encontrei nenhuma modificação importante, mas, com efeito, havia um relógio no Convento de Cristo, em Tomar.
Foto (1928) em tomaradianteira.blogspot.com

Segundo é contada a história no blog Tomar a dianteira o relógio esteve a funcionar até 1937, altura em que especialistas alemães (dada a época, nazis) tiraram o relógio, anunciando problemas estruturais, mas deixaram ficar o mostrador, que foi definitivamente retirado depois de 1974.

José Manuel Oliveira tirou fotografias ao mecanismo, que se encontra guardado (ver postal sobre o assunto), e poderia ser relógio do Séc. XVI (segundo esse blog), tem no entanto um mecanismo de escapamento em âncora, que é só típico em relógios posteriores a 1650.


4. Relógio da Sé de Lisboa
D. Fernando é um dos reis mais controversos, pois ao mesmo tempo que edificou construção notável... e tentou anexar Castela, acabou por casar a filha única com o rei castelhano. Ao que consta, em desespero de causa tentava que um seu neto viesse a ser rei em Portugal. Tudo isso originou a crise 1383-85, que levou o meio-irmão bastardo, D. João I e a sua Dinastia de Avis ao trono.

Terá sido D. Fernando a reedificar as torres da Sé de Lisboa, e a juntar-lhe o relógio, que à época era o primeiro em Portugal. Assim se lê, na Monografia sobre a "Egreja matriz de Lisboa" escrita pelo Abade Castro e Sousa em 1875, no nº 5 do Boletim Architectonico e de Archeologia (pag.67).

Ainda neste capítulo de relógios, há uma boa série de imagens na tese de mestrado Guardiães do Tempo, de Lúcia Marinho - FLUL (2010). Com algum destaque:
(i) D. João III apresenta um relógio que tem 2 ponteiros (horas e minutos), o que seria grande novidade em 1540 (data do suposto retrato), mas o quadro e é de Carlos Falch, circa 1650, e já não é grande novidade... ainda que me pareça provável que este retrato post-mortem de Falch seja baseado num outro quadro original da época (até porque o rei está em pose), mas ainda assim não é claro que o desenho do relógio fosse o mesmo, e os 2 ponteiros podem ser entendimento de Falch.
(ii) Catarina de Bragança terá um relógio num pequeno pendente. Uma miniatura, talvez mais pequena do que os Pomander de Peter Henlein.

5. Erros nas transcrições dos originais
Um dos elementos principais dos historiadores, é que raramente são caligrafistas e têm que recorrer a técnicos especializados no assunto.
Há duas maneiras de entender o assunto - ou corre bem, ou corre mal...

Num comentário de Djorge sinalizando uma obra de Duarte Barbosa que estava transcrita e da qual também se tinha o original, foi possível detectar imediatamente a liberdade com que estas transcrições são feitas (neste caso a transcrição seria de 1946.

- Por exemplo, na página 211 da transcrição aparece "Ilhas de Bandão", quando no manuscrito está apenas "banda". 

Mais se nota que logo de seguida é transcrito:
  • E mais ao diante deixando a ilha de Timor, estão cinco ilhas...
enquanto no manuscrito parece estar:
  • Passada esta ilha de Timor, mais pelo norte, estão 5 ilhas...
Ora não é importante este detalhe, mas parece-me que podem ser os seguintes.
Com esta liberdade de transcrição qual é a confiança que podemos depositar nesta malta?
- Zero ou quase...

Não interessa verificar se a minha transcrição está bem, o que é seguro é que a transcrição feita pelo especialista está mal, porque não é literal quando o poderia ser. Eu diria mais, foi feita com o descuido de quem estava confiante de que não iria ser censurado por fazer o que fez.

6. Manifesto de navegação
Convém fazer aqui uma pequena divagação filosófica, porque me parece útil e esclarecedora.
Não sou historiador, nem burocrata estatal.

Contesto as contradições, que sendo conscientes, são vergonhosas mentiras, alimentadas ao longo de séculos e até milénios, mas por fazer isso não tenho qualquer mínima obrigação de apresentar uma história alternativa. Mas tenho o direito social de exigir uma reparação aos historiadores e burocratas estatais de serviço. Porque dessas mentiras conscientes ou incompetentes, alimentadas pelos próprios responsáveis estatais, nasceram lucros monstruosos e pobreza monumental.

Pessoalmente, é-me absolutamente indiferente que os documentos que vão sendo disponibilizados sejam verdadeiros ou falsos. Acredito que na sua maioria são verdadeiros, apenas por preguiça e incompetência. Ou seja, pelo simples facto de que o sistema social teria que debitar e acumular informação, e não conseguiria processar falsidade em toda ela. Mesmo com todos os incêndios, roubos, adulterações, pretensas falsificações, etc, o sistema não conseguiria aguentar-se num vácuo histórico, e por isso tem algumas bases verdadeiras.
No entanto, e porque a panela começa a acumular demasiada pressão pelo acumular de falsidades, o que vai interessando é relativizar a verdade, e procurar que os cidadãos sejam comprados pelo conforto e segurança, e ao invés de se apoquentarem com certezas absolutas, se vão entretendo com memórias temporárias, cada vez mais curtas.

Quando os cidadãos de um estado não conseguem obter informação verdadeira desse estado (e não estamos a falar de segredos de estado actuais, estamos a falar de coisas que se passaram há séculos), então estão a ser discriminados como estrangeiros ou como indígenas colonizados, pela própria pátria.
Se numa monarquia tal ideia ainda pode ser considerada, porque se assume que os plebeus não têm os mesmos privilégios que os nobres, numa república, essa noção é ultrajante.

Interessou-me então perceber (há 10 anos atrás) se era possível que isto continuasse indefinidamente assim, sem que houvesse nunca possibilidade de tirar o véu que vai cobrindo a nossa vivência.
Pode dizer-se que "a verdade vem sempre ao de cima", mas o sistema vive da sua intolerância, maquinação e corrupção. A intolerância permite fazer crer que "todos têm algo a esconder", e a maquinação assegura que se não houver, arranja-se. Finalmente, se alguma vez alguém vier a saber, a corrupção encontra maneiras de abafar ou silenciar o assunto.
Portanto, não parece nada claro que o sistema não possa resistir assim mais uns séculos, mais vários milénios, etc. 
Aliás, se já o fez antes, porque não haveria de continuar a conseguir fazê-lo?

No entanto, há um pequenino detalhe.
Um sistema que continue a fabricar uma fantasia, estará a viver num sonho.
Um sonho, ainda que consiga convencer toda a malta, não convence a natureza... que é implacável com alucinações. Daí a grande pressão científica, que para além de permitir maior controlo, permitiria fugir à imprevisibilidade natural.
Se o homem controlasse a natureza, ao ponto de não temer nem doenças, nem catástrofes naturais, só teria que temer outros homens... e quanto a esses, o sistema só precisaria de mantê-los sem memória, como crianças, para ficarem facilmente manobráveis por adultos. Em vez de doces, estas crianças recebem cacau, alguma impunidade, luxo e luxúria.
Outro problema, é que este sistema só funciona com uma reduzida liderança, que em segurança, por medo de traições e surpresas, se reduz a uma única pessoa - o próprio.
Mas não é por aí que o sistema colapsará, o sistema vai colapsar pela ineficiência na objectividade de uma estrutura falsária.
É indiferente se falta muito ou pouco, simplesmente irá ruir por completo, até se erguer de novo, voltar a cair, e esta repetição vai ocorrer várias vezes, como já aconteceu num passado muito distante.

Por isso, mais do que qualquer outra coisa, estes apontamentos servem de manual de navegação, num mar de mentiras. O objectivo não é acertar na rota da verdade, o objectivo é evitar os remoinhos de contradições que vemos levarem os batéis com estrondo contra os recifes. Mantendo-nos à tona.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:59

Há demasiados pequenos detalhes a registar, talvez não substanciais cada um deles, mas acumulam para um texto diversificado. Alguns destes tópicos foram abordados nos comentários e daí o nome...

1. Leão dos Jerónimos
É apenas um detalhe, mas não deixa de ser interessante que também o leãozinho na fonte do Claustro dos Jerónimos tem o cabelo liso e a cauda a cair nas costas (como acontecia com os de Évora):

Seria este leão feito de raiz para o Mosteiro, indo basear-se nos antigos encontrados pelos campos, ou seria este um dos leões encontrados pelos campos, que foi ali colocado?

Leões de juba com o cabelo escorrido e cauda nas costas, não são fáceis de encontrar. 

Dei com um par deles na Catedral de S. Lourenço em Génova, mas como se perceberá o aspecto é bastante mais sofisticado, e com efeito são já reportados ao Séc. XIX.

No entanto, não indo longe, e procurando ao lado, em Espanha, encontramos outros, na Catedral de Ávila (em baixo, esq.), na Catedral de Ourense, ou ainda em Baños de Ebro (em baixo, dir.).


Não me parece ser possível concluir muito com esta informação, mas este estilo de leões parece ter feito sucesso na península, poderá ter vindo na Antiguidade (assim foi a opinião do Museu de Évora), sendo eventualmente recuperado na Idade Média, mas não deixa de evidenciar uma raiz mais antiga e singular.


2. Condomínio no Castelo de São Jorge?
Procurando saber um pouco mais sobre a editora Mattos Moreira & Cª (que editou os volumes de Pinho Leal, e também algumas obras de Camilo) fui parar a esta imagem no blog restos de colecção:


Ao que um leitor aí perguntou:
- "Que prédios são aqueles dentro das muralhas do castelo?"
tendo obtido a resposta:
- "Aquartelamento e prisão desde 1807 até cerca de 1940".

Apesar de ter sido iniciativa do General Junot de modificar o espaço, instalando aí o seu quartel-general, o Castelo de S. Jorge já não era Paço Real desde o Séc. XVI, quando passou a existir o Paço da Ribeira. As instalações foram mesmo passando por aquartelamento e prisão, até ao funcionamento da Casa Pia (entre 1780 e 1807). De qualquer forma as obras de Junot devem ter sido razoáveis, porque só com um governo nacionalista, é que conseguiram deitar abaixo a memória invasora. 
Fotos desta lembrança de Lisboa não são (agora) fáceis de encontrar.

3. Relógio do Convento de Cristo
Digamos, se tivéssemos que escolher os monumentos históricos mais emblemáticos do país, só faltaria mesmo a Torre de Belém aparecer com duas torres, ou algo do género.
Por esse lado, não encontrei nenhuma modificação importante, mas, com efeito, havia um relógio no Convento de Cristo, em Tomar.
Foto (1928) em tomaradianteira.blogspot.com

Segundo é contada a história no blog Tomar a dianteira o relógio esteve a funcionar até 1937, altura em que especialistas alemães (dada a época, nazis) tiraram o relógio, anunciando problemas estruturais, mas deixaram ficar o mostrador, que foi definitivamente retirado depois de 1974.
José Manuel Oliveira tirou fotografias ao mecanismo, que se encontra guardado (ver postal sobre o assunto), e poderia ser relógio do Séc. XVI (segundo esse blog), tem no entanto um mecanismo de escapamento em âncora, que é só típico em relógios posteriores a 1650.


4. Relógio da Sé de Lisboa
D. Fernando é um dos reis mais controversos, pois ao mesmo tempo que edificou construção notável... e tentou anexar Castela, acabou por casar a filha única com o rei castelhano. Ao que consta, em desespero de causa tentava que um seu neto viesse a ser rei em Portugal. Tudo isso originou a crise 1383-85, que levou o meio-irmão bastardo, D. João I e a sua Dinastia de Avis ao trono.

Terá sido D. Fernando a reedificar as torres da Sé de Lisboa, e a juntar-lhe o relógio, que à época era o primeiro em Portugal. Assim se lê, na Monografia sobre a "Egreja matriz de Lisboa" escrita pelo Abade Castro e Sousa em 1875, no nº 5 do Boletim Architectonico e de Archeologia (pag.67).

Ainda neste capítulo de relógios, há uma boa série de imagens na tese de mestrado Guardiães do Tempo, de Lúcia Marinho - FLUL (2010). Com algum destaque:
(i) D. João III apresenta um relógio que tem 2 ponteiros (horas e minutos), o que seria grande novidade em 1540 (data do suposto retrato), mas o quadro e é de Carlos Falch, circa 1650, e já não é grande novidade... ainda que me pareça provável que este retrato post-mortem de Falch seja baseado num outro quadro original da época (até porque o rei está em pose), mas ainda assim não é claro que o desenho do relógio fosse o mesmo, e os 2 ponteiros podem ser entendimento de Falch.
(ii) Catarina de Bragança terá um relógio num pequeno pendente. Uma miniatura, talvez mais pequena do que os Pomander de Peter Henlein.

5. Erros nas transcrições dos originais
Um dos elementos principais dos historiadores, é que raramente são caligrafistas e têm que recorrer a técnicos especializados no assunto.
Há duas maneiras de entender o assunto - ou corre bem, ou corre mal...

Num comentário de Djorge sinalizando uma obra de Duarte Barbosa que estava transcrita e da qual também se tinha o original, foi possível detectar imediatamente a liberdade com que estas transcrições são feitas (neste caso a transcrição seria de 1946.

- Por exemplo, na página 211 da transcrição aparece "Ilhas de Bandão", quando no manuscrito está apenas "banda". 

Mais se nota que logo de seguida é transcrito:
  • E mais ao diante deixando a ilha de Timor, estão cinco ilhas...
enquanto no manuscrito parece estar:
  • Passada esta ilha de Timor, mais pelo norte, estão 5 ilhas...
Ora não é importante este detalhe, mas parece-me que podem ser os seguintes.
Com esta liberdade de transcrição qual é a confiança que podemos depositar nesta malta?
- Zero ou quase...

Não interessa verificar se a minha transcrição está bem, o que é seguro é que a transcrição feita pelo especialista está mal, porque não é literal quando o poderia ser. Eu diria mais, foi feita com o descuido de quem estava confiante de que não iria ser censurado por fazer o que fez.

6. Manifesto de navegação
Convém fazer aqui uma pequena divagação filosófica, porque me parece útil e esclarecedora.
Não sou historiador, nem burocrata estatal.

Contesto as contradições, que sendo conscientes, são vergonhosas mentiras, alimentadas ao longo de séculos e até milénios, mas por fazer isso não tenho qualquer mínima obrigação de apresentar uma história alternativa. Mas tenho o direito social de exigir uma reparação aos historiadores e burocratas estatais de serviço. Porque dessas mentiras conscientes ou incompetentes, alimentadas pelos próprios responsáveis estatais, nasceram lucros monstruosos e pobreza monumental.

Pessoalmente, é-me absolutamente indiferente que os documentos que vão sendo disponibilizados sejam verdadeiros ou falsos. Acredito que na sua maioria são verdadeiros, apenas por preguiça e incompetência. Ou seja, pelo simples facto de que o sistema social teria que debitar e acumular informação, e não conseguiria processar falsidade em toda ela. Mesmo com todos os incêndios, roubos, adulterações, pretensas falsificações, etc, o sistema não conseguiria aguentar-se num vácuo histórico, e por isso tem algumas bases verdadeiras.
No entanto, e porque a panela começa a acumular demasiada pressão pelo acumular de falsidades, o que vai interessando é relativizar a verdade, e procurar que os cidadãos sejam comprados pelo conforto e segurança, e ao invés de se apoquentarem com certezas absolutas, se vão entretendo com memórias temporárias, cada vez mais curtas.

Quando os cidadãos de um estado não conseguem obter informação verdadeira desse estado (e não estamos a falar de segredos de estado actuais, estamos a falar de coisas que se passaram há séculos), então estão a ser discriminados como estrangeiros ou como indígenas colonizados, pela própria pátria.
Se numa monarquia tal ideia ainda pode ser considerada, porque se assume que os plebeus não têm os mesmos privilégios que os nobres, numa república, essa noção é ultrajante.

Interessou-me então perceber (há 10 anos atrás) se era possível que isto continuasse indefinidamente assim, sem que houvesse nunca possibilidade de tirar o véu que vai cobrindo a nossa vivência.
Pode dizer-se que "a verdade vem sempre ao de cima", mas o sistema vive da sua intolerância, maquinação e corrupção. A intolerância permite fazer crer que "todos têm algo a esconder", e a maquinação assegura que se não houver, arranja-se. Finalmente, se alguma vez alguém vier a saber, a corrupção encontra maneiras de abafar ou silenciar o assunto.
Portanto, não parece nada claro que o sistema não possa resistir assim mais uns séculos, mais vários milénios, etc. 
Aliás, se já o fez antes, porque não haveria de continuar a conseguir fazê-lo?

No entanto, há um pequenino detalhe.
Um sistema que continue a fabricar uma fantasia, estará a viver num sonho.
Um sonho, ainda que consiga convencer toda a malta, não convence a natureza... que é implacável com alucinações. Daí a grande pressão científica, que para além de permitir maior controlo, permitiria fugir à imprevisibilidade natural.
Se o homem controlasse a natureza, ao ponto de não temer nem doenças, nem catástrofes naturais, só teria que temer outros homens... e quanto a esses, o sistema só precisaria de mantê-los sem memória, como crianças, para ficarem facilmente manobráveis por adultos. Em vez de doces, estas crianças recebem cacau, alguma impunidade, luxo e luxúria.
Outro problema, é que este sistema só funciona com uma reduzida liderança, que em segurança, por medo de traições e surpresas, se reduz a uma única pessoa - o próprio.
Mas não é por aí que o sistema colapsará, o sistema vai colapsar pela ineficiência na objectividade de uma estrutura falsária.
É indiferente se falta muito ou pouco, simplesmente irá ruir por completo, até se erguer de novo, voltar a cair, e esta repetição vai ocorrer várias vezes, como já aconteceu num passado muito distante.

Por isso, mais do que qualquer outra coisa, estes apontamentos servem de manual de navegação, num mar de mentiras. O objectivo não é acertar na rota da verdade, o objectivo é evitar os remoinhos de contradições que vemos levarem os batéis com estrondo contra os recifes. Mantendo-nos à tona.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:59

Há várias representações notáveis de Hércules, muitas delas com uma maça e uma maçã.

Talvez menos conhecido seja o enorme monumento feito em 1714, em Kassel (Alemanha), exclusivamente dedicado ao herói, em estilo mação.

Hércules surge aí no topo de um edifício maçónico octogonal que termina em forma piramidal, numa pose que é bem mais antiga, chamada Hércules de Farnese, nome do cardeal que tratou de ficar com a estátua recuperada:

Esta estátua será romana, e provavelmente cópia de uma outra estátua bastante mais antiga, de origem grega.

Em Sevilha, no parque Alameda de Hércules, feito em 1571, encontram-se duas estátuas, em cima de altas colunas, uma é uma cópia do Hércules de Farnese, e a outra é de Júlio César, tidos como fundadores da cidade.


As duas colunas vieram de Hispalis, a versão romana de Sevilha, havendo duas outras colunas a norte do parque, que já são construção recente, tal como os leões que as encimam, ainda mais recentes, com os escudos de Sevilha e de Espanha.

Em Portugal, apesar de não ser muito divulgado, existe em Alhandra uma coluna com um Hércules que comemora a resistência à invasão napoleónica e vitória nas Linhas de Torres em 1810.
Non Ultra - Linhas de Torres. Monumento em Alhandra (1883) - Serra de S. Lourenço.

As placas brancas que se vêem na foto eram de bronze e foram roubadas em 2017, mas a inscrição "Non Ultra", é uma espécie de "Não passarão!", significando a disposição das linhas defenderem o avanço das tropas napoleónicas. Refere-se ao mítico "non plus ultra" que estava nas colunas de Hércules, em Cadiz, proibindo (ou desaconselhando) a navegação além daquele ponto.

Protótipo de super-homem, antes de este ser enunciado por Nietzsche, ou de vestir uma capa com S no peito, Hércules foi servindo de mito e de pretensiosa auto-comparação como neste caso (figura ao lado), em que Cómodo se auto-retratou nas vestes do herói, numa estátua que é datada de 192 d.C.
Cómodo é o imperador romano, filho de Marco Aurélio, que foi retratado talvez de forma exageradamente perversa no filme Gladiador, mas que ao que consta teria efectivamente um estranho gosto do combate com gladiadores.

Temos os elementos identificadores de Hércules:
- maça numa mão;
- maçãs na outra;
- cabeça de leão.

Normalmente, a maça na mão direita, as maçãs na esquerda.
As maçãs, de ouro, são as que sacou das Hespérides, no 11º trabalho, enquanto o leão de Nemeia foi o 1º trabalho. 
A maça era, desde o início, a arma de eleição do herói.


Noutras representações clássicas, Hércules aparece apenas ligado à maça e à maçã, como na figura ao lado (estátua de bronze no Museu Capitolino, em Roma, Séc II a.C.).

O Hércules ibérico assemelha-se de forma ligeira ao Hércules greco-romano, assim chamado Hércules Tebano. Na realidade na "Monarquia Lusitana" o "nosso" é chamado Hércules Líbico, pelo facto de vir de África, do Egipto.

É aqui que a "mitologia ibérica" se torna mais interessante, porque associa Hércules a Hórus, filho de Osíris. 
Por sua vez Osíris é associado a Júpiter, fazendo assim a associação de Hércules ser filho de Júpiter.
Terem colocado os deuses da mitologia enquanto reis sujeitos ao fado humano já Camões denunciava no Canto IX (91):

Não eram senão prémios que reparte
Por feitos imortais e soberanos
O mundo com os varões, que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos.
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
Ceres, Palas e Juno, com Diana,
Todos foram de fraca carne humana

Esta mitologia ibérica, foi completamente destruída com a queda da influência ibérica no mundo, e banida com a ascensão da maçonaria. É certo que teve uma influência de interesse do império espanhol, em criar uma certa mitologia conjunta agradável a lusos e castelhanos, quando as coroas estavam juntas. Mas, o problema é que os escritores antigos, gregos e romanos, e não só Viterbo, falavam do mesmo... ou ainda pior, como se queixava Gaspar Barreiros, era também o povo que atribuía tudo a Hércules. 
Em alternativa, historiadores posteriores, foram passando tudo o que puderam para "obra de Trajano", algo que o próprio também terá feito, e não seria novidade de actuação na Antiguidade e depois.

Em Coimbra, os campos ao longo do Mondego eram "campos hercúleos", havia uma torre pentagonal com a placa "Quinaria turris Herculea fundata manu" até que o Marquês de Pombal mandou abaixo, com o pretexto de um Observatório Astronómico, que nunca construiu.
As Torres de Hércules, em Cadiz, desapareceram igualmente, depois do "terramoto" de 1755, e a Torre de Hércules na Corunha, ou o Arco em Mérida, passaram a ser coisas de Trajano.
Deixo as ligações, porque é escusado falar de novo sobre o assunto.

Homem da maça (versus) homens da massa
Queria recordar, no entanto, aquela que me parece ser a única estátua antiga de Hércules existente em Portugal, e que é denominada o "Homem da Maça", e que continua a estar ao semi-deus dará...

Homem da Maça com o Leão (ou similar) - daqui.

O conjunto está catalogado, mas não tem qualquer protecção como monumento. 
É referido ser medieval e propriedade eclesiástica, mas a Câmara de Matosinhos também o menciona. Aponta-se polémica de identificação, que só existe, porque está tudo entregue à bicharada, e com isto não me refiro ao "bicho", e nem sequer se mencionam os argumentos da polémica. Nos tempos que correm, o homem da maçã é Steve Jobs, falando assim da pré-história dos computadores.

Por que razão é óbvio ser Hércules, apesar da ignorância nacional?
Porque antes de ter os dois braços partidos, tinha na mão uma maça e foi assim entendido como Hércules por Pinho Leal, que no seu Portugal Antigo e Moderno escreve:
CRUZ DO BISPO (Santa) ... Em um sêrro, entre as capellas de Nª Srª do Livramento e de S. Sebastião, se achou uma estátua de pedra, de Hercules, a que o vulgo chama o homem da maça, pela que tem na mão. A seus pés se vê o leão.
Acrescenta ainda que Santa Cruz do Bispo se chamaria Santa Cruz da Maia...

A Câmara de Matosinhos tem o bom senso de pelo menos disponibilizar o único documento credível que a Direcção Geral do Património cita, ou seja Rocha Peixoto (1908) em Portugália, já que os outros dois são um guia de Portugal e do Porto, de 1985 e 86. 
Esperava encontrar uma grande contestação a Pinho Leal, por parte de Peixoto, mas não. É motivado pelo escrito de Pinho Leal, mas diz apenas que em 1908 a estátua já não tem os dois braços, que não lhe parece ser estátua culta nem bárbara, que será rude mas mais trabalhada que outras esculturas dos antigos lusitanos, e que a tradição das meninas agarrarem-se às pedras seria proto-histórica.
Ou seja, uma opinião vulgar, feita por qualquer um com uma certa cultura, e dificilmente comparável a Pinho Leal. 

Portanto, a Direcção Geral, que omite Pinho Leal (é claro), andará a basear-se em guias de cidade para decidir a classificação monumental nacional. Qualquer dia passam ao Guia Michelin.

Hércules e César 
A colocação de César ao lado de Hércules mítico, em Sevilha, não deixa de ser algo notável, sendo especialmente lisonjeiro para a figura de Júlio César... já que Hércules continuaria a pertencer ao mito e César não era propriamente um local, como era Trajano (nascido em Hispalis).

Porém não é caso único, e surge aqui a sequência deste postal com o anterior:
- O Mosteiro dos Jerónimos.
Na fotografia seguinte sinalizo a vermelho duas figuras que ladeiam a entrada no Mosteiro, bem como uma inscrição que falta no topo superior. 
- Quem são? O que lá estava escrito?


É instrutivo dizer que encontrar uma foto desta entrada não é assim tão fácil. 
Experimentem procurar... há milhares de fotos do Mosteiro, pois mas são quase todas iguais, da porta principal, que está à direita. Por estranho que pareça, quase ninguém publica a foto da frente!
Só para fazer notar que procuramos... mas a maioria das vezes, nem sequer em frente vemos, vemos onde orientam o olhar!

Bom, as personagens são César e Hércules, conforme em Sevilha!
No topo, onde está a cruz azul, e agora não se lê coisa nenhuma, estava:
Extitit Alcydes gentis dominator iberae,
Froenavit Caesar gallica regna jugo,
Rex pi.os Emmanuel victor supereminet iunges,
Solis adviq. ortum qui tulit imperium.
Que é como quem diz: Existiu Alcides (Hércules) que dominou as gentes ibéricas, César que pôs a Gália sob seu jugo, e depois apareceu aqui o Manel cujo império vai até onde o Sol nasce. A última parte jocosa é apenas porque escapa ao que consigo traduzir, e não encontrei traduzido... mas a ideia não andará longe disso.

O Abade Castro e Sousa (Descripção do Real mosteiro de Belém, 1840) acrescenta:
E aos lados das ombreiras, sobre umas pequenas janelas, há dois bustos; um de Hércules, e outro de Júlio César, lendo por baixo pintados os seguintes dísticos :
Debaixo do busto de Hércules
    Hoc lapide ante fores, depicta Alcydis imago,
    Regalis firmum denotai aedis opus. 

Do de Júlio César 
    Caesaris, incisco praesens in marmore vulteis,
    Induat augustae limina fausta domus. 
Como o Abade achava que todos sabiam latim, não traduziu, mas aproximadamente seria:
Hércules - Esta lápide antes da porta representa a imagem de Alcides. Rei com firme obra edificada
César - A divisa de César pretende estar no mármore. Que os augustos limites favoreçam esta casa.

Pode-se perguntar... por que razão haveriam de apagar aquilo?
Ou ainda... por que razão ninguém pergunta o que está ou falta ali?
Mas esta última pergunta, nem tento responder, cada um saberá. Até aqui também não notei, mas não escrevi sobre os Jerónimos, e ainda assim acho que já me pareceu estranho faltarem legendas.

Quanto à primeira pergunta, responde-se com o que está dentro da Sala do Capítulo.
Imagem de 1937 do túmulo de Alexandre Herculano (o recente jazigo, em redor do túmulo, foi demolido em 1940).

O problema era simples... antes de Alexandre Herculano, a História de Portugal começava sabe-se lá onde. A maioria dos frades começavam com a Criação, o Dilúvio, etc.
Por vezes, mais abreviadamente, tentavam passar logo a Túbal, mas vinha a sucessão de reis ibéricos (agora proibidos de serem pronunciados ou balbuciados sequer) até à chegada dos fenícios.
Quando o Iluminismo começou a singrar no Séc. XVIII, houve alguns historiadores mais modernaços que queriam começar logo com os Cartagineses, o que era um escândalo para a Igreja.

Os franceses mandavam para aqui tudo o que era instruções da maçonaria para acabar com aquela pouca-vergonha, livros com as versões francesas da História de Portugal, e acabaram mesmo por vir em força com Napoleão... pelo que a presença de Hércules a comemorar a sua derrota é excelente!

Chegamos assim à Guerra Civil entre Miguelistas e Pedreiros, aliás Pedristas, que levou ao completo genocídio cultural e histórico, que foi a extinção das Ordens Religiosas em 1834. Mata-frades terá sido apenas alcunha de Joaquim António de Aguiar, mas a sua implementação do decreto fez desaparecer da vista milhares de documentos únicos, deixando mosteiros, conventos e igrejas à disposição do saque da população. As perdas foram só semelhantes às do sismo e incêndio (a que chamam Terramoto de 1775), e é claro quem perdeu destas rapinas maçónicas, foi só o povo, porque estava na forja uma outra história.

A historiazinha, que começa nas desavenças entre filho e mãe, ou seja entre D. Afonso Henriques e D. Teresa, e manda tudo o que está para trás disso para o estatuto de "lenda", foi a grande iniciativa de Herculano.
Maçon convicto, recusou algumas honrarias estatais, mas acabou em pompa nos Jerónimos.
A sua actividade histórica é boa, mas também não passa do sofrível, onde Herculano se destaca é na  completa intolerância às fontes eclesiásticas.
Passa por fundador da história portuguesa, etc, etc, porque foi esse o refrão que a maçonaria tratou de ensinar aos petizes nas décadas seguintes. Comparado com Frei Bernardo de Brito, o cronista real banido de menção hoje, este merece-me mais simpatia. Porquê? Simples... Brito trouxe-nos perguntas disfarçadas de certezas, enquanto Herculano o que nos trouxe foi uma arca de lixo documental.
Fez escola, porque se chama "ciência" à burocracia documental.
Herculano foi um burocrata, ao serviço de um ideal político, como foram tantos outros na URSS.
É claro que também agradou à nobreza e realeza, porque a história selectiva foi sempre um negócio.

Assim, o nome de Hércules foi banido dos Jerónimos, mas ficou o nome na variante Herculana... nisso, pelo menos a maçonaria parece ter algum sentido de humor negro.


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Comentário Adicional (10.06.2020)
Em dia de Portugal, e porque foi aqui mencionado e não tem o destaque devido, junto na barra lateral uma ligação directa para os 12 volumes da obra Portugal Antigo e Moderno, de Augusto Pinho Leal. São mais de 7500 páginas, reunindo informação dispersa e interpretação inteligente.
Em prejuízo do seu próprio bem estar, Pinho Leal foi publicando durante onze anos, onze volumes da única obra que conheço (antes e depois) que reúne as histórias de cada cidade, vila e aldeia nacional. 
Em suma, procurava reunir uma verdadeira história de Portugal, e é uma das suas melhores fontes.
Morreu em 1884, pelo que o último volume já foi feito pelo Abade de Miragaia.
Camilo Castelo Branco foi fulcral para conseguir a publicação da obra. A wikipedia tem um bom resumo biográfico.
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publicado às 06:13

Há várias representações notáveis de Hércules, muitas delas com uma maça e uma maçã.

Talvez menos conhecido seja o enorme monumento feito em 1714, em Kassel (Alemanha), exclusivamente dedicado ao herói, em estilo mação.

Hércules surge aí no topo de um edifício maçónico octogonal que termina em forma piramidal, numa pose que é bem mais antiga, chamada Hércules de Farnese, nome do cardeal que tratou de ficar com a estátua recuperada:

Esta estátua será romana, e provavelmente cópia de uma outra estátua bastante mais antiga, de origem grega.

Em Sevilha, no parque Alameda de Hércules, feito em 1571, encontram-se duas estátuas, em cima de altas colunas, uma é uma cópia do Hércules de Farnese, e a outra é de Júlio César, tidos como fundadores da cidade.


As duas colunas vieram de Hispalis, a versão romana de Sevilha, havendo duas outras colunas a norte do parque, que já são construção recente, tal como os leões que as encimam, ainda mais recentes, com os escudos de Sevilha e de Espanha.

Em Portugal, apesar de não ser muito divulgado, existe em Alhandra uma coluna com um Hércules que comemora a resistência à invasão napoleónica e vitória nas Linhas de Torres em 1810.
Non Ultra - Linhas de Torres. Monumento em Alhandra (1883) - Serra de S. Lourenço.

As placas brancas que se vêem na foto eram de bronze e foram roubadas em 2017, mas a inscrição "Non Ultra", é uma espécie de "Não passarão!", significando a disposição das linhas defenderem o avanço das tropas napoleónicas. Refere-se ao mítico "non plus ultra" que estava nas colunas de Hércules, em Cadiz, proibindo (ou desaconselhando) a navegação além daquele ponto.

Protótipo de super-homem, antes de este ser enunciado por Nietzsche, ou de vestir uma capa com S no peito, Hércules foi servindo de mito e de pretensiosa auto-comparação como neste caso (figura ao lado), em que Cómodo se auto-retratou nas vestes do herói, numa estátua que é datada de 192 d.C.
Cómodo é o imperador romano, filho de Marco Aurélio, que foi retratado talvez de forma exageradamente perversa no filme Gladiador, mas que ao que consta teria efectivamente um estranho gosto do combate com gladiadores.

Temos os elementos identificadores de Hércules:
- maça numa mão;
- maçãs na outra;
- cabeça de leão.

Normalmente, a maça na mão direita, as maçãs na esquerda.
As maçãs, de ouro, são as que sacou das Hespérides, no 11º trabalho, enquanto o leão de Nemeia foi o 1º trabalho. 
A maça era, desde o início, a arma de eleição do herói.


Noutras representações clássicas, Hércules aparece apenas ligado à maça e à maçã, como na figura ao lado (estátua de bronze no Museu Capitolino, em Roma, Séc II a.C.).

O Hércules ibérico assemelha-se de forma ligeira ao Hércules greco-romano, assim chamado Hércules Tebano. Na realidade na "Monarquia Lusitana" o "nosso" é chamado Hércules Líbico, pelo facto de vir de África, do Egipto.

É aqui que a "mitologia ibérica" se torna mais interessante, porque associa Hércules a Hórus, filho de Osíris. 
Por sua vez Osíris é associado a Júpiter, fazendo assim a associação de Hércules ser filho de Júpiter.
Terem colocado os deuses da mitologia enquanto reis sujeitos ao fado humano já Camões denunciava no Canto IX (91):

Não eram senão prémios que reparte
Por feitos imortais e soberanos
O mundo com os varões, que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos.
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
Ceres, Palas e Juno, com Diana,
Todos foram de fraca carne humana

Esta mitologia ibérica, foi completamente destruída com a queda da influência ibérica no mundo, e banida com a ascensão da maçonaria. É certo que teve uma influência de interesse do império espanhol, em criar uma certa mitologia conjunta agradável a lusos e castelhanos, quando as coroas estavam juntas. Mas, o problema é que os escritores antigos, gregos e romanos, e não só Viterbo, falavam do mesmo... ou ainda pior, como se queixava Gaspar Barreiros, era também o povo que atribuía tudo a Hércules. 
Em alternativa, historiadores posteriores, foram passando tudo o que puderam para "obra de Trajano", algo que o próprio também terá feito, e não seria novidade de actuação na Antiguidade e depois.

Em Coimbra, os campos ao longo do Mondego eram "campos hercúleos", havia uma torre pentagonal com a placa "Quinaria turris Herculea fundata manu" até que o Marquês de Pombal mandou abaixo, com o pretexto de um Observatório Astronómico, que nunca construiu.
As Torres de Hércules, em Cadiz, desapareceram igualmente, depois do "terramoto" de 1755, e a Torre de Hércules na Corunha, ou o Arco em Mérida, passaram a ser coisas de Trajano.
Deixo as ligações, porque é escusado falar de novo sobre o assunto.

Homem da maça (versus) homens da massa
Queria recordar, no entanto, aquela que me parece ser a única estátua antiga de Hércules existente em Portugal, e que é denominada o "Homem da Maça", e que continua a estar ao semi-deus dará...

Homem da Maça com o Leão (ou similar) - daqui.

O conjunto está catalogado, mas não tem qualquer protecção como monumento. 
É referido ser medieval e propriedade eclesiástica, mas a Câmara de Matosinhos também o menciona. Aponta-se polémica de identificação, que só existe, porque está tudo entregue à bicharada, e com isto não me refiro ao "bicho", e nem sequer se mencionam os argumentos da polémica. Nos tempos que correm, o homem da maçã é Steve Jobs, falando assim da pré-história dos computadores.

Por que razão é óbvio ser Hércules, apesar da ignorância nacional?
Porque antes de ter os dois braços partidos, tinha na mão uma maça e foi assim entendido como Hércules por Pinho Leal, que no seu Portugal Antigo e Moderno escreve:
CRUZ DO BISPO (Santa) ... Em um sêrro, entre as capellas de Nª Srª do Livramento e de S. Sebastião, se achou uma estátua de pedra, de Hercules, a que o vulgo chama o homem da maça, pela que tem na mão. A seus pés se vê o leão.
Acrescenta ainda que Santa Cruz do Bispo se chamaria Santa Cruz da Maia...

A Câmara de Matosinhos tem o bom senso de pelo menos disponibilizar o único documento credível que a Direcção Geral do Património cita, ou seja Rocha Peixoto (1908) em Portugália, já que os outros dois são um guia de Portugal e do Porto, de 1985 e 86. 
Esperava encontrar uma grande contestação a Pinho Leal, por parte de Peixoto, mas não. É motivado pelo escrito de Pinho Leal, mas diz apenas que em 1908 a estátua já não tem os dois braços, que não lhe parece ser estátua culta nem bárbara, que será rude mas mais trabalhada que outras esculturas dos antigos lusitanos, e que a tradição das meninas agarrarem-se às pedras seria proto-histórica.
Ou seja, uma opinião vulgar, feita por qualquer um com uma certa cultura, e dificilmente comparável a Pinho Leal. 

Portanto, a Direcção Geral, que omite Pinho Leal (é claro), andará a basear-se em guias de cidade para decidir a classificação monumental nacional. Qualquer dia passam ao Guia Michelin.

Hércules e César 
A colocação de César ao lado de Hércules mítico, em Sevilha, não deixa de ser algo notável, sendo especialmente lisonjeiro para a figura de Júlio César... já que Hércules continuaria a pertencer ao mito e César não era propriamente um local, como era Trajano (nascido em Hispalis).

Porém não é caso único, e surge aqui a sequência deste postal com o anterior:
- O Mosteiro dos Jerónimos.
Na fotografia seguinte sinalizo a vermelho duas figuras que ladeiam a entrada no Mosteiro, bem como uma inscrição que falta no topo superior. 
- Quem são? O que lá estava escrito?


É instrutivo dizer que encontrar uma foto desta entrada não é assim tão fácil. 
Experimentem procurar... há milhares de fotos do Mosteiro, pois mas são quase todas iguais, da porta principal, que está à direita. Por estranho que pareça, quase ninguém publica a foto da frente!
Só para fazer notar que procuramos... mas a maioria das vezes, nem sequer em frente vemos, vemos onde orientam o olhar!

Bom, as personagens são César e Hércules, conforme em Sevilha!
No topo, onde está a cruz azul, e agora não se lê coisa nenhuma, estava:
Extitit Alcydes gentis dominator iberae,
Froenavit Caesar gallica regna jugo,
Rex pi.os Emmanuel victor supereminet iunges,
Solis adviq. ortum qui tulit imperium.
Que é como quem diz: Existiu Alcides (Hércules) que dominou as gentes ibéricas, César que pôs a Gália sob seu jugo, e depois apareceu aqui o Manel cujo império vai até onde o Sol nasce. A última parte jocosa é apenas porque escapa ao que consigo traduzir, e não encontrei traduzido... mas a ideia não andará longe disso.

O Abade Castro e Sousa (Descripção do Real mosteiro de Belém, 1840) acrescenta:
E aos lados das ombreiras, sobre umas pequenas janelas, há dois bustos; um de Hércules, e outro de Júlio César, lendo por baixo pintados os seguintes dísticos :
Debaixo do busto de Hércules
    Hoc lapide ante fores, depicta Alcydis imago,
    Regalis firmum denotai aedis opus. 

Do de Júlio César 
    Caesaris, incisco praesens in marmore vulteis,
    Induat augustae limina fausta domus. 
Como o Abade achava que todos sabiam latim, não traduziu, mas aproximadamente seria:
Hércules - Esta lápide antes da porta representa a imagem de Alcides. Rei com firme obra edificada
César - A divisa de César pretende estar no mármore. Que os augustos limites favoreçam esta casa.

Pode-se perguntar... por que razão haveriam de apagar aquilo?
Ou ainda... por que razão ninguém pergunta o que está ou falta ali?
Mas esta última pergunta, nem tento responder, cada um saberá. Até aqui também não notei, mas não escrevi sobre os Jerónimos, e ainda assim acho que já me pareceu estranho faltarem legendas.

Quanto à primeira pergunta, responde-se com o que está dentro da Sala do Capítulo.
Imagem de 1937 do túmulo de Alexandre Herculano (o recente jazigo, em redor do túmulo, foi demolido em 1940).

O problema era simples... antes de Alexandre Herculano, a História de Portugal começava sabe-se lá onde. A maioria dos frades começavam com a Criação, o Dilúvio, etc.
Por vezes, mais abreviadamente, tentavam passar logo a Túbal, mas vinha a sucessão de reis ibéricos (agora proibidos de serem pronunciados ou balbuciados sequer) até à chegada dos fenícios.
Quando o Iluminismo começou a singrar no Séc. XVIII, houve alguns historiadores mais modernaços que queriam começar logo com os Cartagineses, o que era um escândalo para a Igreja.

Os franceses mandavam para aqui tudo o que era instruções da maçonaria para acabar com aquela pouca-vergonha, livros com as versões francesas da História de Portugal, e acabaram mesmo por vir em força com Napoleão... pelo que a presença de Hércules a comemorar a sua derrota é excelente!

Chegamos assim à Guerra Civil entre Miguelistas e Pedreiros, aliás Pedristas, que levou ao completo genocídio cultural e histórico, que foi a extinção das Ordens Religiosas em 1834. Mata-frades terá sido apenas alcunha de Joaquim António de Aguiar, mas a sua implementação do decreto fez desaparecer da vista milhares de documentos únicos, deixando mosteiros, conventos e igrejas à disposição do saque da população. As perdas foram só semelhantes às do sismo e incêndio (a que chamam Terramoto de 1775), e é claro quem perdeu destas rapinas maçónicas, foi só o povo, porque estava na forja uma outra história.

A historiazinha, que começa nas desavenças entre filho e mãe, ou seja entre D. Afonso Henriques e D. Teresa, e manda tudo o que está para trás disso para o estatuto de "lenda", foi a grande iniciativa de Herculano.
Maçon convicto, recusou algumas honrarias estatais, mas acabou em pompa nos Jerónimos.
A sua actividade histórica é boa, mas também não passa do sofrível, onde Herculano se destaca é na  completa intolerância às fontes eclesiásticas.
Passa por fundador da história portuguesa, etc, etc, porque foi esse o refrão que a maçonaria tratou de ensinar aos petizes nas décadas seguintes. Comparado com Frei Bernardo de Brito, o cronista real banido de menção hoje, este merece-me mais simpatia. Porquê? Simples... Brito trouxe-nos perguntas disfarçadas de certezas, enquanto Herculano o que nos trouxe foi uma arca de lixo documental.
Fez escola, porque se chama "ciência" à burocracia documental.
Herculano foi um burocrata, ao serviço de um ideal político, como foram tantos outros na URSS.
É claro que também agradou à nobreza e realeza, porque a história selectiva foi sempre um negócio.

Assim, o nome de Hércules foi banido dos Jerónimos, mas ficou o nome na variante Herculana... nisso, pelo menos a maçonaria parece ter algum sentido de humor negro.


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Comentário Adicional (10.06.2020)
Em dia de Portugal, e porque foi aqui mencionado e não tem o destaque devido, junto na barra lateral uma ligação directa para os 12 volumes da obra Portugal Antigo e Moderno, de Augusto Pinho Leal. São mais de 7500 páginas, reunindo informação dispersa e interpretação inteligente.
Em prejuízo do seu próprio bem estar, Pinho Leal foi publicando durante onze anos, onze volumes da única obra que conheço (antes e depois) que reúne as histórias de cada cidade, vila e aldeia nacional. 
Em suma, procurava reunir uma verdadeira história de Portugal, e é uma das suas melhores fontes.
Morreu em 1884, pelo que o último volume já foi feito pelo Abade de Miragaia.
Camilo Castelo Branco foi fulcral para conseguir a publicação da obra. A wikipedia tem um bom resumo biográfico.
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publicado às 06:13

Conforme assinalámos num postal anterior, sobre o computo pascal, apareciam na Bíblia dos Jerónimos ilustrações de relógios, e portanto aos hieronomitas não seria estranho o artefacto, que aliás era já comum nas torres das nossas igrejas.
Vejamos uma peça escrita em 1853, em que começa assim o 6º capítulo:
Acaba de soar a sexta hora da tarde no relógio do convento dos Jerónimos em Belém, no dia 6 de Novembro de 1640, quando num velho palácio (...)
Esquecendo o enredo, onde está o relógio do Mosteiro dos Jerónimos?
Ora, o Mosteiro dos Jerónimos não apresenta nenhum relógio... agora!
Com efeito, há fotografias do Mosteiro dos Jerónimos com o relógio, que perdeu há 150 anos:
Foto do Mosteiro ou Convento dos Jerónimos, em 1872, com o relógio (ao centro, à esquerda).

A informação relevante está num blog 
https://paixaoporlisboa.blogs.sapo.pt/mosteiro-dos-jeronimos-acervo-73486
que publicou parte do acervo fotográfico de Eduardo Portugal (1900-58), constante da Câmara Municipal de Lisboa.
Pode-se ler que os cenógrafos italianos do São Carlos, vão propor "demolir a galilé e a sala dos reis, construir os torreões do lado nascente do dormitório, a rosácea do coro alto, e substituir a cobertura piramidal da torre sineira por uma cobertura mitrada".
O problema foi que em 1878 dá-se a derrocada do corpo central do dormitório, que tinha o relógio, a reconstrução só é finalizada pouco antes das comemorações dos 400 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia, ou seja, em 1894-98.

O projecto de reconstrução fez alterações consideráveis, e tinha outra ambições:
digamos, que não foi só desaparecer o relógio...

Vemos aqui outra foto em que é possível ver o relógio, e as obras na parte superior, que levaram à subsequente derrocada:


Note-se que antes disto, a torre da igreja tinha a tal cobertura piramidal, conforme vemos na figura seguinte, e que foi substituída por um torreão mais alto, dita mitrada. Vemos ainda os alicerces para fazer os torreões do dormitório, junto à igreja (conforme os temos hoje):


Note-se ainda, aqui num esboço mais antigo, como os barcos chegavam praticamente até ao mosteiro (numa altura em que estes barcos à vela poluíam muito, e faziam aumentar o nível do mar... imagine-se o raspanete que a Greta não lhes teria dado).

O que se sabe disto?
Pois, o que é conhecimento público geral é que derrocou a parte central do Mosteiro, conforme está atestado em diversas outras fotografias.
Digamos que não será um assunto secreto... talvez sirva para surpreender uns iniciados na maçonaria, mas pouco mais que isso. 

Conhecendo os bichos que temos, não é nenhuma informação de espantar!
Tão facilmente alterariam o Mosteiro dos Jerónimos, quanto esconderiam os coches antigos de D. Afonso Henriques e de D. Dinis... e foi praticamente na mesma altura.
As fotos terem por vezes escrito "reservado", reportar-se-ia certamente a uma mesa na Trindade.

Agora, se o relógio dos Jerónimos estava lá desde o início, pois isso já é mais complicado saber... até porque houve ainda o Sismo de 1755. Sendo que como se sabe que caiu o Carmo e a Trindade, e não propriamente a Sé e os Jerónimos, é natural que aí o Marquês se tenha dedicado ao espectáculo dos seus horrores no campo ao lado, o chamado Chão Salgado.
Pelo menos, o autor da peça, António Aragão, acreditava que em 1640 estava lá o relógio.

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publicado às 06:54

Conforme assinalámos num postal anterior, sobre o computo pascal, apareciam na Bíblia dos Jerónimos ilustrações de relógios, e portanto aos hieronomitas não seria estranho o artefacto, que aliás era já comum nas torres das nossas igrejas.
Vejamos uma peça escrita em 1853, em que começa assim o 6º capítulo:
Acaba de soar a sexta hora da tarde no relógio do convento dos Jerónimos em Belém, no dia 6 de Novembro de 1640, quando num velho palácio (...)
Esquecendo o enredo, onde está o relógio do Mosteiro dos Jerónimos?
Ora, o Mosteiro dos Jerónimos não apresenta nenhum relógio... agora!
Com efeito, há fotografias do Mosteiro dos Jerónimos com o relógio, que perdeu há 150 anos:
Foto do Mosteiro ou Convento dos Jerónimos, em 1872, com o relógio (ao centro, à esquerda).

A informação relevante está num blog 
https://paixaoporlisboa.blogs.sapo.pt/mosteiro-dos-jeronimos-acervo-73486
que publicou parte do acervo fotográfico de Eduardo Portugal (1900-58), constante da Câmara Municipal de Lisboa.
Pode-se ler que os cenógrafos italianos do São Carlos, vão propor "demolir a galilé e a sala dos reis, construir os torreões do lado nascente do dormitório, a rosácea do coro alto, e substituir a cobertura piramidal da torre sineira por uma cobertura mitrada".
O problema foi que em 1878 dá-se a derrocada do corpo central do dormitório, que tinha o relógio, a reconstrução só é finalizada pouco antes das comemorações dos 400 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia, ou seja, em 1894-98.

O projecto de reconstrução fez alterações consideráveis, e tinha outra ambições:
digamos, que não foi só desaparecer o relógio...

Vemos aqui outra foto em que é possível ver o relógio, e as obras na parte superior, que levaram à subsequente derrocada:


Note-se que antes disto, a torre da igreja tinha a tal cobertura piramidal, conforme vemos na figura seguinte, e que foi substituída por um torreão mais alto, dita mitrada. Vemos ainda os alicerces para fazer os torreões do dormitório, junto à igreja (conforme os temos hoje):


Note-se ainda, aqui num esboço mais antigo, como os barcos chegavam praticamente até ao mosteiro (numa altura em que estes barcos à vela poluíam muito, e faziam aumentar o nível do mar... imagine-se o raspanete que a Greta não lhes teria dado).

O que se sabe disto?
Pois, o que é conhecimento público geral é que derrocou a parte central do Mosteiro, conforme está atestado em diversas outras fotografias.
Digamos que não será um assunto secreto... talvez sirva para surpreender uns iniciados na maçonaria, mas pouco mais que isso. 

Conhecendo os bichos que temos, não é nenhuma informação de espantar!
Tão facilmente alterariam o Mosteiro dos Jerónimos, quanto esconderiam os coches antigos de D. Afonso Henriques e de D. Dinis... e foi praticamente na mesma altura.
As fotos terem por vezes escrito "reservado", reportar-se-ia certamente a uma mesa na Trindade.

Agora, se o relógio dos Jerónimos estava lá desde o início, pois isso já é mais complicado saber... até porque houve ainda o Sismo de 1755. Sendo que como se sabe que caiu o Carmo e a Trindade, e não propriamente a Sé e os Jerónimos, é natural que aí o Marquês se tenha dedicado ao espectáculo dos seus horrores no campo ao lado, o chamado Chão Salgado.
Pelo menos, o autor da peça, António Aragão, acreditava que em 1640 estava lá o relógio.

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publicado às 06:54

Um filme muito interessante de 2009, intitulado "Mr. Nobody", começa por abordar uma questão comportamental de pombos, que foi associada à nossa ideia de superstição. As experiências foram começadas por volta de 1948 por Burrhus Skinner, e envolviam a cognição de pombos.
Mr. Nobody (filme de 2009) - Pigeon Superstition

A primeira sequência de imagens são de uma experiência diferente - Robert Epstein em 1984 apresentou um pombo que resolveu o chamado "problema da caixa e banana", cuja resolução era suposta ser exclusiva da macacada. No caso, empurrar uma caixa para lhe permitir alcançar a banana (conforme já vimos os corvos suplantam estas proezas).
No entanto, as imagens seguintes, já com locução, explicam a associação dos pombos a acções que levavam à abertura da portinhola com comida, como o simples premir de um botão com o bico.
Só que Skinner reparou em algo diferente... ao não associar nada à abertura da portinhola, era o próprio pombo que associava algum dos seus movimentos a essa abertura. Conforme é dito, o comportamento do pombo passava a ser aquele que fizera antes da porta abrir. Se batera as asas, vai bater as asas, acreditando que isso irá abrir a portinhola.
Quando o pombo bicava o botão da porta, havia uma causalidade efectiva, engendrada pelos promotores da experiência. Porém, depois, o que o pombo fazia (como bater asas) não se relacionava em nada com a abertura da portinhola... mas o pombo repetia o movimento, acreditando numa causalidade, e que assim não seria mais do que simples superstição.

No título coloquei o epíteto "colombina" não apenas por se relacionar com pombos, mas porque vou associar este episódio ao navegador Colombo... mas poderia associar-se a muito mais gente.

Interessa que as interacções que temos com o mundo são interpretadas no sentido de influenciar o resultado... procuram-se relações de causa-efeito, para que, com mais ciência ou mais fé, ao repetir as mesmas causas, se preveja o mesmo efeito.

Uma inteligência primária é associada a quem conhece causas que influenciam resultados. Essa inteligência primária é científica quando a comunidade constata (ou aceita) essa causalidade, e vai ao ponto de falar em "leis". À ciência aplicada pouco interessa entender a causalidade... constatando que existe relação, aceita-a como "lei da natureza".
Nesse sentido, o que o pombo fez quando bicou no interruptor, ou quando bateu as asas, foi o mesmo tipo de associação primária entre esse acto e o abrir da portinhola. A interpretação de que bicar o interruptor é ciência, e o bater de asas é superstição, não pertence ao entendimento do pombo, pertence ao entendimento de quem faz a experiência.

Não existe apenas esta inteligência primária... há ainda uma inteligência secundária, que manipula a inteligência primária. A inteligência secundária pode dispensar o entendimento primário, fazendo uso indirecto dele, vendo os primários como "patos" a serem usados ou caçados.
A sociedade apenas estimula o desenvolvimento da inteligência primária, já que a outra forma é simples arte do jogo, do trafulha, do especulador, do manipulador, que normalmente detém o poder.
Por exemplo, a um jogador de póquer interessa fazer crer ao opositor a previsão do seu jogo, para depois o surpreender em contrário, quando a quantia em jogo for apreciável.
Ou seja, uma inteligência secundária parasita as inteligências primárias, fomentando a sua credulidade num entendimento previsível, para tirar partido disso. Em muitos aspectos, essa inteligência secundária é uma inteligência feminina, porque as mulheres, afastadas de um protagonismo directo, aprenderam a influenciar os parceiros para agir de acordo com os seus interesses, sem o mostrar. Digamos que se o pombo tinha que perceber que movimento fazia abrir a portinhola, a pomba teria apenas que usar o seu charme para o convencer a partilhar a comida.
O mesmo padrão matriarcal acabou por ser seguido depois no controlo das civilizações. A elite, tal como a bela pomba, apenas precisava de se mostrar como apetecível, ou desejável, para receber presentes de agrado dos pombos. Claro que em casos extremos, também convinha à elite poder ser ameaçadora... não por si, mas compensando elementos agressivos nesse sentido, ou seja, uma tropa.
Porém, a forma mais subtil de prender um sábio ao seu orgulho, é desafiá-lo a construir a melhor prisão, e colocá-lo dentro como último teste... enfim, evadindo-se, seria por falha do projecto - a prisão inviolável.

Para a elite, ao tempo de Colombo, a América era um segredo de Polichinelo. Mas, por oclusão, o prato forte do jogo era apenas a Índia, a China ou o Japão, relatados por Marco Polo... e foi nesse sentido que o pombo colombino seguiu o caminho de oriente pelo ocidente. Enquanto o pombo colombino batia as asas, visitando a cada vez a sua Índia, chamando "índios" aos nativos americanos, a real pomba espanhola recebia os novos territórios sem esforço. E se o pombo colombino caiu em ridículo com a evidência da ilusão, os benefícios desse erro não tardaram a render em ouro à nobreza espanhola.

Ocorre, por demasiadas vezes, a manipulação duma inteligência primária que, em troca de pequenos prémios, aceita dar tudo o que tem, a promotores secundários, que visam os mesmos objectivos, mas sem para isso fazerem esforço algum. No entanto, quer na situação primária, quer na situação secundária, a inteligência visa usufruir do mesmo resultado, apenas usando meios diferentes. Quer o rei, que manda construir, quer o sábio que constrói, ambos visam a construção da mesma prisão inviolável, independentemente de um visar colocar lá o outro.
A inteligência secundária funciona como predadora da primária, tal como em trocas energéticas de sobrevivência, os carnívoros se alimentam de herbívoros... e é mais ou menos neste nível que se coloca a acção das agências de "inteligência", ditas de espionagem.
A competição a nível superior não é no nível dos super-canívoros, é simplesmente uma reflexão sobre o próprio uso da inteligência. Ou seja, um terceiro nível é apenas final se reflectir sobre o próprio uso da inteligência, sobre o seu propósito. Este terceiro nível não visa os mesmos objectivos, não se interessa sobre a matéria produzida, mas sim pela razão global que une as duas concepções anteriores, tipicamente locais e limitadas.

Por exemplo, nas mitologias clássicas os deuses não se tornaram deuses por nenhuma razão lógica... simplesmente nasceram deuses. O que os cientistas tentaram fazer durante estes tempos foi construir razões mais lógicas, mais sustentáveis, para terem poderes sobrenaturais, e acima disso, quem fomenta o desenvolvimento científico, usa esses poderes a seu belo prazer, com o intuito de a eles ter direito, sem quase nada fazer por isso. A um terceiro nível interessa saber se esta relação, se esta circunstância de desenvolvimento e relacionamento, tem algum sentido global acima desse propósito básico de supremacia local e limitada. Interessa entender qual a consistência global e final de um universo que se envolve no desenvolvimento destas diversas conexões.

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Camara obscura

03.05.17
Quem já esteve num quarto completamente escuro, com a luz a entrar apenas por uma pequena frincha, poderá ter observado o fenómeno da "câmara escura" - ou seja, vemos reflectido numa parte do tecto ou da parede do quarto, o que se passa na rua... mais do que isso, passa-se como um filme a cores!

O princípio base de qualquer aparelho fotográfico, inclusive das actuais câmaras digitais, é esse princípio da câmara escura... que estranhamente não é muito divulgado, mas que muito provavelmente seria do conhecimento pré-histórico.

Para ilustrar o assunto, usamos as experiências que Abelardo Morell fez recentemente nalguns quartos, com paisagens que são por si esclarecedoras do local onde foram feitas.
Abelardo Morell - Camera Obscura (longa exposição em quartos escuros) 
- quarto no Hotel Frantour em Paris (1999), e quarto no Hotel Loews em Filadélfia (2014).

A questão que se pode colocar, para quem desconhece fotografia, é a de como as paisagens exteriores acabam por ficar tão nitidamente reflectidas no interior das paredes do quarto escuro?
- Bom, esse é o princípio da câmara escura...
... a luz entra dentro da câmara (do quarto) por um pequeno orifício, as imagens aparecem invertidas, e apresentam melhor definição quando o buraco é mais pequeno... tendo por outro lado a desvantagem de que se entrar menos luz, ver-se-à muito pior a imagem exterior. Quando o buraco aumenta de dimensão, ainda que entre mais luz, as imagens acabam por ficar muito mais desfocadas.
No caso das experiências feitas por Abelardo Morell, como ele visou uma grande definição, o orifício deveria ser pouco maior que o buraco de uma agulha, o que implicava tão pouca luz, que as fotos que vemos em cima tiveram entre 5 e 10 horas de exposição.

Interessa aqui notar que este tipo de fenómeno é perfeitamente natural e visível em múltiplas situações, não sendo necessária exposição exagerada. A wikipedia tem uma página muito boa sobre a câmara escura, onde é ilustrado um exemplo visível no sótão do castelo de Praga:
Sótão de Castelo em Praga faz câmara escura com imagem do Palácio no exterior. (wikipedia)

Interessa que independentemente de se conseguir registar a imagem numa película, ela seria visível desde tempos imemoriais, especialmente em cavernas.
Por exemplo, na Idade do Gelo, devido ao frio, se os homens tentassem tapar a entrada, um simples buraco nessa cobertura iria provocar o efeito de câmara escura nas paredes da caverna...
Isso permitiria, por outro lado, que as paredes da caverna (próximas do exterior) servissem como telas prontas a uma cópia do desenho projectado naturalmente - ainda que de forma invertida.
Tanto mais, quanto aos pedreiros foi possível com tijolos tornar quartos escuros, e notar que uma pequena abertura de luz permitiria ver o exterior reflectido nas paredes, como uma imagem fotográfica. Assim, tais técnicas estariam ao dispor desde o tempo das primeiras construções.

Portanto, a ideia subjacente à fotografia existia há milénios. Se Platão na Alegoria da Caverna falava em sombras projectadas, o seu discípulo Proclo no Séc. V, comentava o assunto em termos do efeito de reflexão que pode ser visto na câmara escura.

O processo foi usado muito certamente para fazer desenhos, ou para treinar o traço, sobre a imagem desenhada. Não é assim de excluir que alguns desenhos, até pré-históricos, tenham sido feitos acompanhando o traço visível na parede rochosa.
Os quadros romanos mais realistas, como os retratos de Fayum, podem ter sido elaborados usando esta técnica, colocando a pessoa retratada no exterior, e o pintor no interior de uma câmara escura.
É pelo menos reportado que alguns quadros holandeses do Séc. XV, e seguintes, podem ter sido produzidos desta forma, e é assumido que se tratou de uma técnica de pintura até ao aparecimento das primeiras fotografias no Séc. XIX.
Ou seja, a grande novidade no Séc. XIX foi apenas o conseguir-se fixar a imagem, usando uma emulsão de prata muito sensível à luz... mas nem será de excluir que existissem outras substâncias que reagindo à luz, como a fotossíntese, permitissem um registo da imagem vista.

Um exemplo assumido da técnica da Camara Obscura é visto nas pinturas de Canaletto, nomeadamente nas suas paisagens de Veneza. Além disso, pelo simples uso de uma lente prismal, temos o princípio da Camara Lucida (ou câmara clara) que permite a projecção do que se vê numa mesa de pintura.
A tese de que este tipo de técnicas permitiu a grande diferença entre as pinturas pré-renascentistas e as pinturas realistas seguintes foi defendida por Hockney e Falco.
Convém notar que com o aparecimento e divulgação da fotografia, ficando mais clara a facilidade de fazer quadros realistas, isso levou ao aparecimento das técnicas alternativas de pintura - que se seguiram, desde o impressionismo até aos estilos completamente abstractos e desligados da realidade.

Como mágicos que não gostam de revelar os seus segredos, com medo do público achar menos fascinante o seu trabalho de ilusão, também os pintores não gostaram de ser associados a estas técnicas de simplificação, que usavam o auxílio da câmara escura, da câmara clara, ou outros artifícios com espelhos ou lentes... 
Sempre que existiu uma diferença significativa entre o conhecimento do mago e a ignorância do espectador foi possível iludir plateias. Se algumas destas ilusões eram assumidas como tal, para conforto do espectador, muitas outras foram usadas como simples truques de magia visando captar uma credulidade religiosa... e isso seria tanto mais facilitado quando se visava impressionar crianças, ou camponeses menos instruídos, sendo ainda claro que não foi preciso muito para iludir um desaparecimento da Estátua da Liberdade perante uma plateia incrédula.

Finalmente, só uma pequena nota acerca da palavra "câmara"... que, como se poderá ler no Vocabulário de Bluteau, trata-se "da casa em que se dorme", ou melhor, a "câmara" é onde está a "cama", portanto um local privado, com pouca luz. Desse significado antigo, aos outros significados que se lhe seguiram, que foram desde "camareiro" (moço que assistia o senhor na câmara), a "camarata" ou "camarada", na partilha de camas, até às "câmaras" municipais, foi apenas um pequeno passo de privacidade.

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publicado às 04:38

Adiciono um comentário de David Jorge que nos chegou por email.
Respeita a uma bandeira que se pode ver num atlas otomano de 1551, e onde figura bem destacada sobre Istambul. Curiosamente essa bandeira é muito parecida com o padrão português das quinas - talvez apenas com a diferença do uso das cores estar invertido.
Quinas habituais no Séc. XV 
- vermelho circunda o fundo azul com as quinas (brancas ou pretas)

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Mais uma vez lhe escrevo para lhe divulgar um mistério que me deixou algo perplexo.
Recentemente adicionei mais um atlas "arabe" à biblioteca:
1551 - Mohammmad, Ali ibn Ahmad ibn  - Atlas Portulano do Mediterrâneo - الصفاقسى

A Galica coloca-o por meados de 1551.

A maioria das cartas estão orientadas por meio de setas que "tudo indicaria" apontam para Norte.
Como exemplo coloco as seguintes imagens:



... etc. Até aqui não há nada de invulgar. 
A única carta que não tem a seta a apontar para Norte, apontando ela para ESTE, tem uma bandeira muitíssimo estranha sobre Istambul.


É uma bandeira com 5 besantes "azuis" sobre fundo vermelho.

Há semanas que procuro, sem sucesso, qualquer indicio histórico do império otomano que possa justificar esta bandeira.

Terá havido algum erro clínico na pintura desta bandeira especifica que levasse a uma má interpretação?
As restantes têm o mesmo padrão "entrelaçado" (desenhado muito fino talvez a lápis) no centro, no entanto apenas têm 4 pintas não 5 como esta.
As únicas bandeiras otomanas que encontrei até agora com a forma idêntica a esta são completamente vermelhas com texto a dourado, (o conteúdo é semelhante ao da bandeira antiga da dinastia Nasrid de Granada).


No entanto nenhuma destas bandeiras tem o que quer que seja a ver com a bandeira nessa carta.

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Email de David Jorge  (21 de Abril de 2017)
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Ver também a misteriosa bandeira com 5 quinas apresentada em Jerusalém no Livro de Marinharia:

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publicado às 04:19

A Guerra da Crimeia (1853-56) foi o primeiro grande conflito a ter documentação fotográfica, uma boa parte pelo fotógrafo inglês Roger Fenton, e sendo particularmente célebre a fotografia que ficou conhecida como "Valley of the Shadow of Death" (invocando o Salmo 23 do Velho Testamento):
Guerra da Crimeia - Valley of the Shadow of Death, por Roger Fenton

O único factor que identifica tratar-se de uma foto de guerra são as balas de canhão dispersas, acumuladas numa estrada, num vale da Crimeia, onde se deu a desastrosa "carga de cavalaria ligeira".

Num conflito que consta com centenas de milhares de mortos, nas fotografias de Fenton não se vê um único... e esse é um ponto interessante, não se conhecerem fotografias das vítimas. Fenton regista poses em campo de comandantes, de soldados, a disposição de navios, e até ilustra mesmo a sua caravana fotográfica, mas o mais que se lhe conhece é a foto de um ferido a ser assistido:
Roger Fenton: Um zuavo (francês argelino) ferido é assistido, pose das tropas, 
caravana fotográfica de Fenton, e inúmeros navios no porto de Balaclava 

Coloca-se então a questão - havia alguma proibição efectiva à divulgação de fotos de mortos?
Certamente que não seria muito conveniente ver a parte desgraçada, onde do heroísmo restavam apenas um empilhar de mortos em poses tenebrosas. A questão seria mais de saber se se tinha tratado de uma opção circunstancial, ou generalizada... 

Na década de 1850 as fotografias davam os seus primeiros passos, após os primeiros daguerreotipos, inventados duas décadas antes, e eram já vários os fotógrafos que se aventuravam pelo mundo, como o caso de Felice Beato, que divulgou as primeiras fotos da China e Japão. 

Em 1860, aquando da 2ª Guerra do Ópio, Felice Beato mostra a incursão anglo-francesa nos Fortes Taku, com toda a crueza do resultado em morte dos defensores chineses:
Felice Beato (1860) - tomada dos Fortes Taku na 2ª Guerra do Ópio.

Portanto, ainda que houvesse alguma tentativa de contenção, Felice Beato terá arranjado forma de fazer chegar e divulgar as suas fotografias na Europa.
Já antes, em 1859, no decurso da 2ª Guerra de Independência Italiana, na batalha de Melegnano, aparecera uma fotografia dos corpos mortos em combate.
Cemitério de Melegnano após a batalha (1859) - imagem da foto estereoscópica

É significativa a abundância de fotos estereoscópicas, visíveis em perspectiva a 3 dimensões, logo no início das próprias imagens fotográficas. A técnica não sendo complicada, acabou por ser progressivamente abandonada, nas décadas seguintes - mas ainda hoje poderia ser facilmente retomada (como uma novidade com mais de 150 anos...)
Outro aspecto curioso, que se pode ver nas fotografias de Felice Beato, era a sua pintura posterior, como neste exemplo, das suas muitas fotografias do Japão:
Felice Beato - Samurais japoneses - fotografia pintada (imagem).

Finalmente, o aspecto menos glorioso da guerra acabou por ser espelhado nos fotógrafos da Guerra Civil Americana, nomeadamente Mathew Brady, Alexander Gardner ou Timothy O'Sullivan, que focam particularmente a carnificina ocorrida, nos momentos históricos mais significativos - como no caso da Batalha de Gettysburg (1863):
Timothy O'Sullivan (1863) Batalha de Gettysburg - corpos de soldados unionistas (imagem)

Há uma diferença significativa entre o que se passa nos últimos 150 anos, e antes disso...
A partir de 1850 as técnicas fotográficas generalizam-se muito rapidamente, e desde aí todos os acontecimentos relevantes, que não foram apenas episódios muito pontuais, em sítios remotos, foram fotografados. Se as fotografias foram tornadas acessíveis ou não... pois isso já é um assunto diferente, dado que continua a haver um profundo secretismo histórico que compromete heranças de estados e nações. Mas é claro que há uma diferença muito significativa entre os quadros encomendados, com um certo cariz heróico na guerra, e a crueza da realidade que é captada por uma máquina fotográfica, como se vê bem neste último exemplo de Gettysburg, que fotografa os vencedores... mortos no campo de batalha.

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publicado às 07:48


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