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O crash da bolsa de Nova York no final de Outubro de 1929 tem um gráfico do índice Dow Jones que é semelhante, mas menos drástico, do que aquele que vimos a propósito da tulipomania.

Na década de 1930, para responder ao colapso financeiro, surgiram soluções de revitalização da economia, sendo especialmente seguidos conselhos de Keynes, nomeadamente no papel de estímulo intervencionista que Roosevelt adoptou, numa altura em que só o Estado poderia repor a crise de confiança, de fé na economia. 
Keynes advogou a separação entre o ouro e a moeda, algo natural pois a escassez do metal tenderia a não reflectir a expansão da economia. Já mesmo antes da 1ª Guerra Mundial, em situações de crise, o padrão do ouro era abandonado, favorecendo uma impressão de moeda sem referencial fixo, como acontecera com Portugal desde 1891, ou seja, após a bancarrota monárquica.

Em 1924 a impressão de dinheiro vai ser levada ao extremo. Entra em cena o famoso "burlão", Alves do Reis, com um incrível processo de falsificação de notas de 500 escudos (as mais elevadas). Com uma "conveniente" série de cúmplices, e com falsificações de documentos, consegue uma ordem de impressão de notas em Inglaterra. Pela primeira vez, e creio que única, um indivíduo iria substituir-se ao Estado na impressão de dinheiro, usando a mesma casa que o Estado para a impressão de notas falsas.

O esquema era audacioso, porque através do Banco de Angola e Metrópole, que acabara de criar, e de outros expedientes, iria proceder à lavagem de dinheiro. Concedendo empréstimos a juros mais baixos, colocaria as suas notas no mercado, e receberia depois dinheiro "legal", mais juros.
Um esquema semelhante ao que tinha usado para comprar uma grande empresa, a Ambaca... com cheques falsos! Depois de a adquirir, usaria o próprio capital da empresa para cobrir os cheques falsos que tinha passado. Acabou preso, mas por falha processual foi solto em 1924, e avançou logo para o esquema mais audaz - produzir dinheiro. Planeava adquirir o controlo do próprio Banco de Portugal, evitando depois qualquer ordem de investigação. Em 1925 acabou por ser apanhado numa investigação jornalística, e foi depois condenado a 20 anos, só saindo em 1945.

Alves dos Reis, após ser libertado em 1946 (daqui).

Argumentou que apenas tinha procurado colocar dinheiro em Angola para dinamizar a economia dessa colónia. Lembro-me de ter visto um filme antigo, que terminava com ele dizendo: "Ainda me vão pedir para salvar as finanças"... ou algo semelhante, mas caberia a Salazar esse papel, com outra política!

Este caso é bem conhecido, documentado, e é ainda alvo de estudos - os ensinamentos de Alves dos Reis acabaram por fazer escola... 

- Primeiro, nos anos 1980, houve uma recuperação dos bancos nacionalizados no 25 de Abril, em que foram usados praticamente os mesmos expedientes. Gente aparentemente falida teve crédito para comprar bancos e usou depois o próprio capital dos bancos adquiridos para efectivar a compra. Um expediente à Alves dos Reis efectivou a devolução, com os naturais custos e benefícios políticos decorrentes das cumplicidades.

- Segundo, a ideia do esquema de impressão de dinheiro para financiar a economia, podia ser anterior, mas obviamente era apenas autorizada aos estados, e gerava inflação galopante, por se distanciar do padrão do ouro internacional. A inflação na Alemanha, durante a República de Weimar, nos anos 20, foi exemplo disso. O descontrolo era induzido externamente, porque o comércio acabava por aceitar qualquer moeda a um câmbio que arruinava o marco. Quando o marco foi suspenso, em 1930, haveria mais notas antigas nos EUA do que na Alemanha. É claro que a produção de moeda, independente do padrão, só poderia resultar num país que não dependesse do exterior, o que não era o caso alemão, nem português, nos anos 20. Foi só com a consolidação de alguma auto-suficiência e independência, através de regimes ditatoriais, que a crise desses países foi afastada nos anos 30. 
O argumento de Alves dos Reis - o financiamento a Angola - antevia o aspecto keynesiano de investimento numa colónia que dinamizaria uma região auto-suficiente, e os estudos apontam para que a impressão de Alves dos Reis, de 1% do PIB, terá tido pouco efeito na inflação.
Aliás, as notas fabricadas pela 1ª República tiveram um destino tão ou mais incerto do que as recebidas pelo falsário... e se ele emprestava dinheiro a juros baixos, o dinheiro fabricado pelos governantes da república maçónica parece ter-se perdido em investimentos "desconhecidos".

- Terceiro, a capacidade privada de inventar capital, foi levada ao extremo recentemente, com os chamados "produtos tóxicos", essencialmente contratos de futuros das tulipas numa versão menos floral. Não foi inventar notas, mas foi inventar dinheiro... dinheiro que não existia hoje, hipotecando gerações futuras ao pagamento desse capital.
Se a ideia de Alves dos Reis era inventar dinheiro para comprar o Banco de Portugal, a ideia recente parece ter sido  inventar capital para comprar as dívidas soberanas de todo o mundo. A megalomania de Alves dos Reis foi levada à escala global.
Ora, Alves dos Reis sabia que quando controlasse o Banco de Portugal abafaria as suspeitas, e de forma semelhante comprando as dívidas soberanas controla-se a economia dos estados e condicionam-se as suas decisões. Uma vez em controlo, Alves dos Reis poderia argumentar que a culpa do descalabro das finanças era da anterior direcção, da mesma forma que hoje se imputam culpas aos governos dos estados. Com uma boa propaganda é sempre fácil definir o culpado conveniente...
Os contratos de futuro funcionaram como cheques sem cobertura, e tal como no caso das tulipas, quem inventou a valorização, certificada por agências, bolsas, bancos e até universidades, foi quem depois passou para o outro lado, exigindo a sua liquidez, arruinando o seu valor.

Se no caso de Alves dos Reis, o Estado português acabou por conseguir ser indemnizado pela companhia produtora das notas (que foi à falência - escapando incólume o seu gestor, depois Mayor de Londres), o caso actual revelou a sua faceta de resgate. Sob a ameaça de colapso, houve um autêntico rapto da economia internacional, e o pedido de resgate foi validar os contratos feitos com os "cheques falsos"... a maioria estava em bancos privados. Com o pretexto de não arruinar os depositantes e a confiança no sistema bancário, a liquidez seria exigida pela cobertura estatal, ou seja, pelos contribuintes, com aumento de impostos. Também seria expectável que Alves dos Reis, se ficasse em controlo do Banco de Portugal, exigisse a validade das suas notas, sob pena de desbaratar o próprio banco.
O resgate leva à situação caricata de uma dívida mundial colossal, sem que se perceba onde estava afinal o crédito que permitiu o empréstimo... e é simples, estava a germinar nos bulbos das tulipas.

Termino, com umas considerações básicas, mas que são usualmente negligenciadas.
O dinheiro é uma manifestação de fé. Usa-se a palavra crédito como sinónimo.
Uma nota transporta a fé de que aquele papel vale alguma coisa para quem o recebe. Já era assim com o ouro, e não adiantava muito negociar ouro com indígenas que não lhe dessem valor. Todo o sistema financeiro assenta numa base de fé, implantada pela pena, ou em casos mais sérios, pela espada.
A máxima realização possível numa vida terrena é ter crédito infindável, com qualquer interveniente. Por isso, quanto mais for valorizado o dinheiro, mais fácil é obter não apenas o trabalho, mas até a  própria vontade alheia. Os valores humanos, fundados pela educação moral, acabam por ceder ao mural do dinheiro.
Assim, tem-se tornado fácil ver pessoas abdicar da sua compostura moral, e fazerem figuras ridículas a troco de alguns cobres. O reconhecimento social tende assim a ser medido apenas pelo valor do dinheiro, facilitando as negociações. É complicado negociar com pessoas com escrúpulos, e outros detalhes morais, que só atrapalham uma fácil negociação. Os detentores do capital de crédito tornam-se assim em autênticos génios da lâmpada, endeusados, capazes de satisfazer qualquer desejo terreno, desde que possa ser comprado.
Quando a finança endeusada tiver capital e técnica suficiente para tal realização, as restantes divindades tornam-se obsoletas. Objectivamente, grande parte dos desejos mortais cumprir-se-iam através de riqueza financeira... aceite a submissão, uma romaria a Wall Street seria mais eficaz do que a Fátima... O pragmatismo científico procura anular dúvidas sobre o universo, e ridicularizar explicações com intervenção divina, só faltando vencer a barreira da doença e morte para terminar com os medos dessa natureza. Tudo o resto será negociável, desde que a educação cuide de eliminar moralidades.
A educação com valores morais e medos mortais é apenas aplicada a uma população subserviente, como forma de controlo. Impregnar conceitos morais é uma antiga forma de impregnar previsibilidade... pessoas honestas, sinceras, leais, são mais previsíveis e facilmente controláveis. A educação sempre cuidou que houvesse menos perigo de rebelião, incutindo comportamentos correctos e medos nas falhas. As barreiras da moralidade popular são cercas mentais destinadas a encurralar o rebanho, e quase sempre foram negligenciadas pela aristocracia, excepto pela sua compostura externa. O cidadão vulgar preocupa-se em não infringir a lei, enquanto que quem tem crédito procura saber se é mais barato/proveitoso seguir a lei, quebrá-la, ou mudá-la.

Se os diversos países tivessem economias independentes e fossem minimamente auto-suficientes, seria necessário controlar cada um deles individualmente. Ao contrário, uma interdependência entre os diversos países acaba por torná-los mais frágeis. Com o pretexto do preço mais baixo, abolindo protecções, concentra-se a agricultura nuns países, a indústria e a tecnologia noutros. Todos ficam reféns de relações comerciais, sob pena de se verem sem produtos fundamentais. Neste contexto, um país auto-suficiente, como os EUA, passou a ter uma dependência exagerada promovida por uma deslocalização dos seus centros industriais. Contrai actualmente mais dívida num ano do que contraíra antes em cem anos.

No entanto, todas as dificuldades económicas são fictícias, e resultam de manipulações financeiras. Nunca, como agora, se produziu tanto, e tudo com o objectivo de melhorar a vida dos cidadãos... a ciência e a tecnologia cresceram com esse esforço propagandeado. No entanto, os progressos tecnológicos passaram a ficar reféns das opções da política financeira, que condiciona a distribuição de riqueza. Pouco adianta a agricultura ou a indústria renderem 10 vezes mais se os produtos não forem distribuídos e não houver compradores. Pouco adianta a maquinaria retirar o esforço humano, se isso se converter, não em menos trabalho, mas sim em desemprego. Para quem lembrar o Life Aid de 1985, percebe como quase 30 anos depois a situação em África tende a ser de pena perpétua. A Europa pode ter uma grande dívida com África, mas não é a ela que a está a pagar...
O estado social, assegurando reformas e pensões, acabou por jogar nos contratos de futuros. As reformas dos pais seriam pagas pelos impostos dos filhos, por um processo indirecto, gerido pela finança dos fundos de pensões.

O ponto básico para um país ser praticamente auto-suficiente é o de restabelecer a sua produção interna, especialmente agrícola, já que um país faminto nunca será independente. A produção industrial tem igualmente que ser minimamente eficaz, e ainda que não se possa competir sozinho na vanguarda tecnológica, tem que se criar valor que permita essas importações. Tudo isto é rapidamente exequível com moeda própria, onde assenta a soberania financeira. A moeda deve ter um padrão fixo, correspondente à riqueza produzida, ou seja deve ter valor económico. O valor financeiro, resultante da moeda gerar moeda, pela criação artificial de juros e rendimentos, leva a uma transferência de riqueza, da produção económica para a especulação financeira. O excesso de produção leva a uma competição estéril, que desaproveita recursos e abre falências. O valor dessa produção mais sofisticada não fica no produtor, que consegue baixar preços, mas sim no seu financiador.

No entanto, o maior problema será sempre o boicote dos cidadãos, porque em última análise, eles detêm o poder de reduzir o seu consumo ao mínimo, e fazer colapsar o mercado. Até porque o maior problema é de procura e não de oferta. A oferta existe ao ponto de ser gratuita, como é o caso da maioria de serviços na internet.
Só há um ponto em que não há possibilidade de evitar a procura - os bens alimentares, e é por aí que começam os novos problemas. Já é sabido que as sementes mais eficazes e resistentes a infecções são vendidas como estéreis, e assim o agricultor fica sempre dependente da "semente patenteada".
Passos seguintes têm sido dados no sentido de introduzir alimentos geneticamente modificados - todos patenteados nos EUA, especialmente pela Monsanto. A Europa parece ter tentado resistir à sua introdução, e é altamente simbólica a construção do
chamado o Doomsday Seed Vault... (ver também "o cofre do fim do mundo"), e eu diria que não será tanto pelo medo de catástrofes naturais, ou pelo "fim do mundo maia" anunciado para 21/12/12, a menos que...
Digamos que uma praga à escala mundial, poderia danificar irremediavelmente todas as plantas existentes... ao estilo de extinção das alcas e pombos. Ao bom estilo da conspiração, o que poderia salvar a agricultura? - Talvez as sementes geneticamente modificadas? - Bom negócio? - Sim, para quem detiver a patente.
A este propósito é instrutiva a conferência dada por William Engdahl no Vaticano, que para além do "A Century of War", escreveu outro livro, com o nome elucidativo: "Seeds of Destruction".

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publicado às 23:49


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