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Teogonias (1)

19.09.10
A Teogonia de Hesíodo (séc. VIII a.C) é talvez um dos relatos mais interessantes da criação do mundo. 
Do Caos, surge a Terra (Geia) e o Céu (Úrano/Celus), mas também alguns deuses primevos mais estranhos, como o Amor (Erébo) que dá origem ao Dia e à Noite... ainda antes da criação do Sol. O relato judaico bíblico da origem da luz, também separa o dia da noite (1º dia), antes da criação do Sol e estrelas (4º dia).
Não havendo registo único e claro da Teogonia grega, nesse tempo inicial Hesíodo considera ainda Pontos (mar primevo) e Tártaro (mundo inferior).
Durante muito tempo ficou a designação de Ponto Euxino para o Mar Negro, ambas as designações sugerindo que o mar primevo seria aquele espaço. A essa visão circunscrita à região, juntamos a designação de Tártaros aos habitantes da região que seria também depois dos Medos. É ainda aí, na Cólquida (vizinha da Ibéria caucasiana), que se situam muitos dos mitos gregos... e também é comum associar aí o mito diluviano (resultante duma eventual abertura do estreito do Dardanelos).

O mapa de Heródoto - reconstrução na Biblioteca do Congresso (Washington DC)
põe em evidência a importância do Mar Negro (Pontus Euxinus), do Mar Cáspio (Kaspion Pelagus/Caspium Mare), e do Mar de Azov (Maiotis Limne/Palus Maeotis), estes últimos considerados mares verdes. 
Notamos que o mar Vermelho (Eritreu) é associado ao Índico e o outro é denominado golfo Arábico; outro facto que se evidencia é a notação Celta, para uma larga região hispânica após as colunas de Hércules.
Talvez o mais importante é notar uma tripla divisão continental: Europa, Ásia e Líbia... o nome África é muito posterior - e nunca foi claro que designasse apenas a África actual (... poderia incluir a América).

Neste primeiro apontamento sobre Teogonias, o que importa deixar claro é que estas efabulações parecem ser ridículas face ao nosso entendimento científico, mas não o são necessariamente.
Porquê? Porque envolvem uma formação progressiva, e não simultânea.

Não há nenhuma razão para dissociar o dia/noite do aparecimento do Sol... isso seria óbvio para qualquer entendimento, por mais primitivo que fosse. Essa separação vai contra o nosso bom senso!
Qual a razão de uma Teogonia que vai contra o mais elementar bom senso? 
- A única razão plausível parece ser reportar-se a uma realidade diferente.
Ou seja, os relatos antigos parecem levar-nos a uma realidade temporal onde poderia haver Luz sem Sol.
Isso não faz nenhum sentido...
- pois, mas também não faz nenhum sentido Deus criar o homem à sua imagem (na versão bíblica), ou falar-se em deuses gregos antropomórficos. 

Tratam-se de mitos claramente antropocêntricos, e colocam necessariamente a Terra na origem da criação. 
Ou seja, a concepção planetária, com a inclusão do Sol, só poderá ser uma versão posterior de uma construção universal, que se inicia na Terra. 
Digamos que a construção divina não teria ficado completa numa única fase...
- talvez numa fase inicial, tivesse havido uma Terra plana, com um mar circundante, e um céu delimitador;
- talvez só numa fase posterior, tivesse sido criado um Sol como fonte de luz;
- só ainda em fase posterior, aparece a presença humana, distinta da presença divina, num mundo essencialmente diferente daquele que conhecemos hoje!
- só numa fase mais recente a Terra foi definida como esférica, e só depois a rotação solar passou a heliocêntrica... e da mesma forma, só posteriormente foram definidas estrelas semelhantes e galáxias.

Em suma, descreve-se aquilo que é normalmente entendido como a evolução da compreensão humana, por deficiência de conhecimento... Mas por força da relatividade do conhecimento, tanto podemos aceitar que isso foi deficiência humana, como poderá ter sido constatação humana, sem deficiência especial. Tudo depende se a crença é científica nos moldes actuais, ou se credita alguns fundamentos míticos.

O outro ponto especial, onde os relatos míticos concordam, sem razão histórica aparente, é na existência de uma "idade de ouro", associado a um tempo de felicidade e imortalidade humana, antes do estabelecimento da Idade do Cobre.
É o tempo de supremacia de Cronos/Saturno, filho de Úrano e Gaia, ceifador da genitália paterna que ao cair no Oceano produz Afrodite. Cronos é implacável para os seus filhos deuses, mas é tido como exemplar para os humanos... os romanos dedicavam a Saturno/Cronos, as Saturnálias - que podem ter motivado a celebração posterior do Carnaval... onde os papéis escravo/senhor eram invertidos.
Prometeu levando o fogo aos humanos.

Associar-se-à o tempo feliz de Cronos a um eventual tempo do Jardim do Paraíso... antes dos mitos da tentação do conhecimento de Eva e de Pandora-Prometeu. Altura em que alguns homens procuraram imitar os deuses, e definindo escravos passaram a assumir o destino destes, quais deuses. 
É nessa terceira fase que aparece o mundo de Zeus, o filho de Cronos, que depõe o pai (Saturno é visto no seu exílio divino como um rei humano do Lácio), e que se inicia a construção do mundo como o conhecemos... um mundo pós-diluviano! 
Os mitos/relatos antigos mantêm-se, mas deixam de fazer sentido na nova construção universal... a Terra deixou de ser plana e rodeada por água! 
Os humanos passam a estar sujeitos aos caprichos do Dodekatheon (o Conselho dos 12 deuses do Olimpo, comandados por Zeus)... as lembranças de Cronos, do Paraíso Perdido, passaram a fazer parte do passado!

Como apontamento final, ligando ao post anterior sobre a Moeda, notamos que não há propriamente nenhum Deus ligado ao dinheiro... o que demonstra de alguma forma que esse aspecto civilizacional, ligado ao aspecto social do comércio, embebeu a sua importância no tempo muito mais recente (após Alexandre).
Mesmo Hermes/Mercúrio, era um deus mais ligado à comunicação, mensagem, conexão que só parcialmente se aplicava no comércio.

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