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Passarolas e Balões

por desvela, em 28.01.11
Com Bartolomeu de Gusmão ocorreu a mais notável e estranha proeza científica nacional... em 1709 teria sido o primeiro a criar uma máquina voadora. Como desde o tempo dos descobrimentos foram sempre muito secretas quaisquer proezas científicas, este é um caso singular.
Começa por ser singular num aspecto raramente mencionado... Gusmão, brasileiro de Santos, teria apenas 24 anos quando construiu a máquina, e a apresentou em Lisboa perante a corte e o povo. A recepção popular granjeou-lhe a fama de voador, já a recepção cortesã só lhe trouxe problemas, e rapidamente se recolheu à Universidade de Coimbra, para a disciplina de Direito Canónico... e só é revisto numa lista de 30 pessoas com que o Conde da Ericeira formou a Academia Real de História. Morrerá aos 37 anos no degredo, escapando à Inquisição, em Toledo.

O espanto foi de tal forma grande que terá permanecido na memória, até ser reabilitado como grande feito... já no início do Séc. XIX, isto porque 75 anos depois, no final do Séc.XVIII, os irmãos Montgolfier seriam reconhecidos como primeiros, com proeza semelhante, no prelúdio da Revolução Francesa.

A proeza de Gusmão levanta enormes dúvidas, e com razão...
Primeiro, as descrições/desenhos encontrados não permitiram nenhuma reprodução que fosse voadora:
Esboços da Passarola, de 1709: em cima, publicado num jornal de Viena,
em baixo, encontrado numa missiva na Biblioteca do Vaticano.

Os conhecimentos que temos de aeronáutica tornam ridícula qualquer ideia de que tal máquina pudesse voar. Fala-se por isso de um mau desenho, e que a obra de Gusmão seria mesmo um balão aerostático vulgar, propulsionado pela impulsão dos mais leves... porém nada indica tal coisa nos desenhos!
Do que se fala nos desenhos é de magnetos, e âmbar... sendo por isso  sugestionada a interpretação de engenho electromagnético. Porém, aqui reside o problema... nada semelhante foi feito desde então.
Uma explicação afinal simples, é encontrada num excelente resumo 
 Revista Brasileira do Ensino de Física (2009, vo. 31, nº3
... e tudo não teria sido mais do que um falso desenho promovido por Gusmão, com a ajuda do jovem 2º Marquês de Abrantes, então com 14 anos. Mencionar o âmbar e os magnetos seria algo que fascinaria a atenção da época... mas também a suspeição.

Acrescenta-se que a inspiração para o despiste, poderá ter origem num outro desenho mais antigo:

É neste desenho de Francesco Terzi de 1670, que um "balão" é desenhado e assim mencionado...

A palavra "balão" tinha outro significado em textos portugueses mais antigos.
(...) pelo que voltou para trás, e houve vista da outra frota, e despediu um balão a Francisco da Sylva de Meneses, com recado em que o avisava que eram as Naus dos Holandeses. Chegado o balão com o recado, ajuntou Francisco da Sylva de Meneses na sua Nau todos os capitães(...)
[Cinco livros da década doze, Diogo do Couto, 1645 (capítulo16)]
Esta nomenclatura "balão" ocorre assim noutro contexto...
Cada nau levaria balões - pequenos botes a remos - para rapidamente expedir mensagens. 
O nome "balão", agora em desuso como sinónimo de bote, tinha um significado apropriado colocado nas pequenas embarcações flutuantes. 

Fica uma dúvida mais legítima... como poderia alguém aos 24 anos, sem nenhum tutor especial, sair-se do zero para uma máquina tão sofisticada, e nunca pensada? Haveria alguma tradição científica que permitisse tal progresso aeronáutico?
Aqui uma resposta é o interessante nome Gusmão - não é o nome original de Bartolomeu Lourenço... é um nome que ele adopta em honra ao seu preceptor e ministro da corte, Alexandre Gusmão.

Bartolomeu Lourenço fará mais algumas invenções interessantes... e conforme é mencionado no artigo da Revista Brasileira do Ensino da Física, de Visoni e Canalle, é muito natural que houvesse uma recuperação de textos antigos de Arquimedes. 
A biblioteca lisboeta era ainda importante em 1709, e só 46 anos mais tarde seria destruída pelo incêndio que arrasou Lisboa, depois do terramoto. Nos seus primeiros anos de reinado, D. João V, com 20 anos, ainda desafiaria com alguma irreverência a corte... depois as coisas complicar-se-iam.
Afinal, o mesmo cardeal que assiste à demonstração de Gusmão na Casa da India será justamente o próximo papa.
A fénix portuguesa não iria renascer... ao contrário iria auto-incenerar-se!
Suponhamos que Nero ao invés de ser conhecido como "aquele que incendiou Roma", seria afinal aquele que a mandou reconstruir depois de um trágico acidente. Acrescente-se a isso que se promulgava, a partir daí, que antes de Nero Roma estava em decadência.
Pois... Portugal após a regência de Pombal não ficou mais próximo dos outros reinos europeus, ao contrário consolidou definitivamente uma margem inalcançável. Foi chamado progresso ao que não se destruiu, e foi pintada uma Lisboa medieval, antes de Pombal. Tudo poderá não ter passado de um maquiavélico plano de propaganda... De D. João V ficaram vários monumentos, e uma tentativa de renascimento, do seu filho D: José e do seu marquês, ficou um terramoto, e uma pressuposta auto-elogiada reconstrução. Nada mais? Uma ditadura sanguinária e uma censura temível...

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publicado às 23:02


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