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O folclore habitual, repetido a leigos, ensina que a determinação da longitude era um problema quase inultrapassável, até à invenção do cronómetro por Harrison, em 1714, aquando do Longitude Prize...

Três décadas antes, em 1682, no prólogo do seu tratado de Astronomia Metódica, começava assim o padre António Carvalho da Costa:
Se para matéria tão larga te parecer pequeno este livrinho, sabe que não foi nossa tenção escrever volume corpulento, senão doutrina substancial; porque mais queremos aproveitar com a lição breve & clara do que ostentar erudições dilatadas & sempre confusas, nas quais de ordinário com pouco fruto se consome o tempo. (...)  E quando as erudições te façam saudade, aí estão os Ptolomeus, os Copérnicos, os Tichos Brahes, os Longomontanos, os Ricciolios, os de Chales & outros infinitos, onde não só poderás gastar o teu tempo, mas também a paciência. Se este nosso método te agradar, prossegue: que aqui começa a obra; & se não for do teu gosto, fecha o Livro, porque aqui se acaba.
Por isso, logo na página 9, tem um capítulo intitulado:
"Como se achará a diferença de longitude entre quaisquer dois lugares"
Observe-se em cada um dos lugares o tempo, em que se acaba o eclipse da Lua: a diferença entre os dois tempos observados convertida em arco do Equador dará a diferença de longitude buscada.

Não é preciso dizer mais nada... é esta a suposta complexidade inultrapassável, quando na realidade basta uma boa observação lunar. Na realidade, Carvalho da Costa diz mais, ilustrando a relação entre 15º e a diferença de 1 hora, dá um exemplo da diferença de latitude entre Londres e Lisboa para 42 minutos, ou seja 10º30', que era o valor visível em quase todos os mapas da época, mas que terá um erro de 1º face ao actual. Como sabemos, é preferível admitir um excesso de 4 minutos no relógio do que sequer imaginar que a crosta terrestre se pode movimentar 1º em 300 anos.

É claro que cépticos de serviço argumentarão que para efeitos de navegação, ninguém estaria à espera de eclipses lunares para se movimentar... e certamente Carvalho da Costa saberia isso muito bem.
O que interessa é o princípio! 
Ou seja, a partir da afirmação de possibilidade de usar a Lua para determinar a longitude, é quase imediato pensar-se noutros processos eficazes de o fazer em tempo real. Assim que li isto, tornou-se óbvio que se poderia usar a predição da Lua Nova, ou outro conhecimento absoluto sobre o movimento lunar. De facto, se Harrison ganhou o 1º prémio, o 2º prémio foi dado a um método de distância lunar, de Tobias Mayer e de Euler, coisa que também estaria nos planos de Newton.

Como os cronómetros eram raros e caros, durante um século acabou por ser este método de distância lunar a ser usado pela generalidade dos marinheiros, com o auxílio de tabelas lunares. Os detalhes podem ter sido descritos no concurso na proposta de Mayer e Euler, mas a ideia fulcral encontramo-la antes em Carvalho da Costa. Haveria um problema de medição associado à refracção atmosférica... e por isso mesmo, as 8 páginas anteriores são parcialmente dedicadas a esse tema.

A ideia de Carvalho da Costa não se aplicava à navegação, mas era extremamente eficaz para a cartografia. Aquando de um eclipse lunar, bastaria que todos os enviados do reino registassem eficazmente a hora local, para que se soubesse exactamente a longitude desse ponto, com a maior precisão devida à brevidade do eclipse. Isso permitiria desvios inferiores a 1º, se o relógio estivesse operacional. 

Seria esta uma ideia original de Carvalho da Costa? 
Quase de certeza que não. Ele não a propõe, nem a detalha... apenas a indica, já que se trataria de um livro para estudantes ou divulgação. 
Sendo algo simples, um método da distância lunar seria conhecido pelos marinheiros portugueses... e bastará seguir correspondência do reino, para ver se foram reportadas horas exactas de eclipses. Há um livro de Jerónimo Chaves, de 1534, que evidencia o interesse sistemático nos eclipses lunares.

Pela sua simplicidade, o método lunar permitiria a qualquer estado organizado saber as longitudes, de forma tão fácil quanto as latitudes. Seria muito provavelmente conhecido na antiguidade. É claro que é suposto dizer-se que na antiguidade não haveria relógios, mas também sabemos que isso não seria verdade, já que o mecanismo de Antícítera veio mostrar o contrário.

Qual então o Erro na Longitude?
A longitude não seria de tão fácil verificação quanto a latitude (coisa ao alcance de crianças), mas como vimos o método lunar substituiu-se ao cronómetro durante um século, com o uso de tabelas, conforme proposto por Meyer e Euler. Ou seja, não era necessário nenhum mecanismo sofisticado, bastava uma observação astronómica cuidadosa e organizada.
O erro na longitude é um erro induzido nos historiadores, de forma a convencerem-se da extrema dificuldade da navegação e reportá-la apenas a tempos recentes. São iludidos com nomes diferentes para coisas semelhantes, como quadrantes, sextantes, octantes, astrolábios, nónios... aparelhos simples que apenas se destinavam a medir ângulos, fazendo crer numa longa evolução.

O erro na longitude é exagerar-se nas consequências que esse erro traria. É uma forma análoga de trazer monstros, a ideia da terra plana, e outros medos, como justificação para o injustificável.

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publicado às 19:30

Bronze, liga de cobre e estanho, tem pronúncia e escrita semelhante em quase todas as línguas europeias (mesmo no basco, magiar, suomi...), com excepção do grego onde a palavra é bastante diferente - Kratéroma.
Quem leu as traduções que nos passam do relato de Platão sobre a Atlântida, deve ter reparado na referência a um metal quase tão valioso quanto o ouro... o chamado oricalco

Oricalco (Ορείχαλκο) é a palavra grega para a liga de cobre e zinco, ou seja, o latão ou pechisbeque!
Está instalada mais uma confusão... já que as designações para bronze e latão confundem-se em várias línguas.
Por exemplo, em grego, a Idade do Bronze é também chamada Idade do Oricalco.

O disco Nebra. Um artefacto de bronze e ouro, de índole astronómica, 
onde se vê a Lua, o Sol, e provavelmente as 7 Pleiades, entre outras estrelas. 

A transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro parece ter sido devastadora.
É natural que os efeitos dessa devastação ainda se façam sentir hoje, pelas razões que tentamos explicar.
Em quase todas as culturas permaneceu a ideia de que a felicidade se teria perdido nessa transição.
Na cultura greco-romana isso é simbolicamente representado pela deposição de Saturno/Cronos pelo seu filho, Júpiter/Zeus. 
As saturnálias, correspondentes carnavalescas em Roma, pretendiam reviver esse tempo de felicidade popular, ao ponto dos escravos, por um dia, trocarem de lugar com os seus senhores. Este indício de metáfora, talvez signifique ter sido exactamente nessa altura que foi generalizada a escravidão, enquanto sistema social. De qualquer forma, havendo diversos registos megalíticos impressionantes na Idade do Bronze, isso envolveria trabalho necessariamente pesado para uma parte da população.

Há um progresso substancial ao passar do cobre para o bronze ou latão, mais complexos no fabrico das ligas metálicas, do que na consolidação do ferro em aço pela adição de carbono.
Torna-se quase indiscutível que isto levou a uma civilização comercial de cariz global, pelo simples facto de serem raras as minas de estanho, necessário ao bronze. Os pontos de extracção eram tipicamente as ilhas britânicas e também a península ibérica. Há aliás traços claros de uma civilização do Atlântico Ocidental, que ligava toda a costa atlântica, começando em Portugal, indo até às ilhas britânicas e estendendo-se até à Dinamarca ou Noruega, provavelmente.

Cassitérides
As Cassitérides foram tomadas literalmente como Ilhas do Estanho (Κασσίτερος), sendo normalmente identificadas à Grã-Bretanha, havendo porém quem advogue tratarem-se de ilhas na Aquitânia, antes do assoreamento... entre outras teorias. Eram ainda alvo de referência longínqua para os Romanos, e aparentemente não foi dada nenhuma indicação de confusão com a Britânia.

O geógrafo Estrabão (séc. I) coloca as ilhas Cassitérides a noroeste da Hispania, em número de 10 pequenas ilhas, dispostas em forma de anel... Para esta descrição, a única localização que nos ocorre é a do Arquipélago dos Açores, se bem que sendo hoje 9 ilhas, e só o grupo central se poderá considerar disposto em forma minimamente anelar... Para além disso, é claro que não há nenhuma referência a exploração de nenhum minério nessas ilhas (a menos que o chá se dê bem com o estanho).

Os touros de Creta
Os vestígios da civilização minóica, em Cnossos, são um dos mais interessantes monumentos da idade do Bronze. Magníficos murais ilustram uma paixão pelos touros...
... e como bem sabemos são conhecidos os enormes prados com inúmeros touros em Creta! 
Bom, não será bem em Creta... talvez na Grécia, talvez em Itália, talvez na Turquia. 
É escusado, se há local onde sempre se associaram touros, e uma forte tradição taurina, é a Hispania!
Creta dificilmente teria condições para a criação taurina, tal como toda a Grécia, em geral.

A tradição era de tal forma forte que criou a ideia do Minotauro... do rei Minos. Ora, há especificamente um sítio que tem o registo "Minus", desde o tempo dos Romanos - é o Rio Minho!
Será que no palácio dos nossos Vice-Reis na Índia não haveria murais, ou quadros com representações de paisagens portugueses? Ou seja, por que não considerar que estamos na presença de um palácio num entreposto comercial avançado, em Creta, destinado a negociar com os povos próximos - gregos, egípcios, hititas, etc... 
Não restou um único vestígio semelhante na Hispania, é claro!
Da mesma forma que não restaram vestígios identificáveis da presença árabe em Portugal, apesar de ser bem mais recente e ter sido prolongada, com importantes taifas independentes, como a de Silves.
O nível de destruição de registos históricos em Portugal tem aí um exemplo bem ilustrativo.

Na Hispania, só na tradição dos forcados os touros seriam respeitados da mesma forma que vemos no mural. Pela parte da aristocracia, que entretanto se implantou, o espectáculo consistia, e consiste, em cravar o Ferro num símbolo da idade do Bronze. A luta é propositadamente desigual e não se pretende qualquer surpresa para o desfecho. Nesse ponto, os incas tentaram reproduzir o mesmo cenário desigual atando um condor a um touro, procurando desfazer simbolicamente a invasão, na sua interpretação.

O que mais impressiona é a nossa aceitação natural deste cenário de touros em Creta, sem questionar a ausência de vestígios de touros nessas paragens. A própria presença de touros nos registos mesopotâmicos deixa a dúvida da sua original existência nessas paragens, ainda que aí seja mais natural uma extinção, de forma semelhante à que supostamente ocorreu com os leões.

Os povos do mar
O final da idade do Bronze está muito associado à invasão pelos chamados "povos do mar"... desconhecidos que invadiram e pilharam as civilizações clássicas. É o período que se segue ao registo da Guerra de Tróia, e vai fazer a transição de milénio ~ 1000 a.C. introduzindo a idade do Ferro.

Na linha do que aqui temos sugerido, há uma efectiva hipótese de que uma civilização de carácter comercial e marítimo ligasse toda a Idade do Bronze, não apenas na costa atlântica, mas estendendo-se ainda a entrepostos mediterrânicos, nalgumas ilhas, como Malta, Sicília ou Creta.
A Guerra de Tróia poderá ter significado o fim dessa estrutura organizativa, deixando na sociedade fracturada alguns marinheiros, entregues a um novo destino de pilhagem. Ou seja, os "povos do mar" seriam o resto da sociedade que se fracturava com o fim da organização centrada numa Tróia ocidental.
Uma parte significativa desta população ocidental poderá ter levado a uma reorganização em torno de Tiro, e de Sídon... a fénix iria renascer sob o nome Fenícia, e depois em Cartago, mantendo o espírito e a tradição de navegação.

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publicado às 04:25


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