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A batalha lendária que está no centro da formação de Portugal, é a batalha que D. Afonso Henriques trava em Ourique, em 1139. Foi carregada de misticismo pela anunciada visão de Cristo, tendo tal visão ficado consagrada de forma marcante no escudo de armas português - as cinco quinas e os 30 dinheiros.
A visão de D. Afonso Henriques - Batalha de Ourique 
(quadro de Domingos Sequeira, 1793)

Que sentido faz colocar a Batalha de Ourique no Alentejo quando nem Santarém, nem Lisboa estavam conquistadas? Como passariam por todas as linhas inimigas, indo fazer uma batalha isolada no Alentejo?
Não faz quase nenhum sentido... e por isso o evento foi declarado mítico, ou então foram consideradas outras localizações para Ourique, em lugares próximos, de Leiria ou Santarém.
Porém essas novas localizações nada trazem de mais extraordinário do que a conquista de Leiria, lembrando que Óbidos terá caído em 1148, após Lisboa. A que ponto a proeza convenceria D. Afonso Henriques da magnitude mística e declarar-se Rei de Portugal.  
Que territórios teriam então ficado consagrados nessa batalha, se Lisboa e Santarém ainda estavam em poder inimigo?

Colocamos uma hipótese, no sentido de viabilizar a versão alentejana.
A principal conquista seria Lisboa, que será marítima, mas para esse efeito seria estrategicamente ousado cortar as comunicações e abastecimentos a Lisboa, pelo sul. 
Uma incursão por desembarque marítimo até Ourique, seria uma táctica da cunha, colocando uma restrição, quer pela via marítima, quer pela via fluvial da bacia do Sado.
Ou seja, a novidade na conquista de Afonso Henriques seria o ataque naval, consolidando os principais pontos costeiros, e depois partindo para o interior. Assim foi com Lisboa, reconhecidamente um desembarque naval, e não há razão para não ter sido isso em Ourique, talvez visando Sines. Diremos que Ourique está bem longe no interior, mas como já vimos não há razão para supor que orografia tenha sido sempre a mesma... aliás sabemos bem que a Holanda ganhou imensa terra ao mar, e também Porto de Mós ou Marinha Grande já terão feito jus aos seus nomes, colocando Leiria no litoral... conforme já aqui abordámos
Se o avanço tivesse sido por terra em direcção a Lisboa, teriam que conquistar pelo menos Porto de Mós ou Óbidos... o que não fizeram! Ambas os castelos caíram só no ano seguinte a Lisboa, em 1148.
Há assim uma clara indicação de que a prioridade era a consolidação de pontos na costa atlântica.
O limite dessa costa atlântica, antes do Algarve, seria justamente a linha do rio Mira. 
Associado à conquista de Odemira, corre a lenda de que a surpresa do ataque de Afonso Henriques teria levado à expressão "Ode, Mira!", da parte da mulher do alcaide Ode...
Qual a razão da surpresa do ataque, se tivesse ocorrido na progressão de Afonso Henriques para o sul?
Nesta hipótese, teria sido pela bacia do Mira que teriam seguido na direcção de Ourique e consolidado aquela posição estratégica.
Há uma outra data que corrobora esta hipótese - Beja é conquistada antes de Évora!

Doutra forma, sem considerar esta conquista feita da costa atlântica para o interior, as datas aparecem desconexas, e sem razão aparente.
Há outro aspecto interessante... a formação de Portugal teria sido naval, a partir do Atlântico!

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publicado às 21:06

Diz Diogo de Couto, na sua Quarta Década da Ásia:
O quinto Arquipélago é o de Amboino, que está ao sul de Maluco, tem muitas ilhas, que se governam por suas cabeças (...) Há muitos povos por estas ilhas, em que os filhos comem os pais como são velhos - têm muitos ritos e costumes bárbaros, que nós não relatamos por fugir proxilidade. (...) A sul de Amboino estão as Ilhas de Banda, e a Leste delas perto de 300 léguas, segundo alguns afirmam, está uma ilha de muito ouro, cujos naturais não passam de 4 palmos de alto, e se assim é, são os verdadeiros Pigmeus.
Pouca gente terá lido as Décadas da Ásia de João de Barros, continuadas por Diogo de Couto, e se chegaram a ler este relato, não terá despertado nenhuma especial atenção... passando por mítico.

Acontece que em 2004 foram descobertos na Ilha das Flores, na Indonésia, restos humanos, agora denominados Homo Floresiensis que comprovam a existência de humanos cuja dimensão rondava 1 metro de altura... os tais 4 palmos de altura, que referia Diogo de Couto. 
comparação entre um crânio floresensis e um crânio humano microcefálico

Para termo de comparação, lembramos que a maioria das crianças com 3/4 anos tem mais de 1 metro de altura! Esta ilha seria uma autêntica Lilliput povoada por pequenos humanos.

Esta informação recentemente colocada no blog Portugalliae despertou-me a atenção nesta leitura do texto de Diogo de Couto. Conforme José Manuel dizia, os portugueses mantiveram lugares chave na sua exploração do Mundo, enquanto puderam. Após invasão parcial, a ilha das Flores acabou por passar a controlo holandês em 1851. Pela influência dos missionários dominicanos portugueses, a população remanescente tornou-se católica até hoje, e a miscenização levou a que fossem chamados "Portugueses Pretos" pelos Holandeses.
These have no Forts, but depend on their Alliance with the Natives: And indeed they are already so mixt, that it is hard to distinguish whether they are Portuguese or Indians. Their Language is Portuguese; and the religion they have, is Romish. They seem in Words to acknowledge the King of Portugal for their Sovereign; yet they will not accept any Officers sent by him. They speak indifferently the Malayan and their own native Languages, as well as Portuguese. 
Texto de W. Dampier, oficial inglês, em 1699
Tudo o que não conhecemos, tem sido epitetado como descrições míticas e fabulosas... e por isso os marinheiros têm tido a fama, ao longo de séculos, de grandes mentirosos. 
Face à mentira instituída, a verdade será sempre mentira.
A única maneira de passar a informação tem sido por vezes sob forma ficcional... é aqui que entra Johnatan Swift e as suas populares Viagens de Gulliver (retomadas no cinema em 2010).
Johnatan Swift e as Viagens de Gulliver

O aspecto tenebroso é a extinção... não há nenhuma razão para duvidar do relato de Diogo de Couto, que é corroborado pelo achado de ossadas na Ilha das Flores. Não é nada claro que Diogo de Couto se referisse às Flores, mas sim a outra ilha nas proximidades, adicionando-lhe a riqueza em ouro.

Fala-se do Dodó, e da sua extinção nas Ilhas Maurícias, sob controlo holandês, em 1681, e um pouco menos do Tigre-da-Tasmânia, em 1937... mas o aspecto do genocídio ter chegado ao ponto da extinção de uma raça humana, em tempos recentes, tem contornos tenebrosos.
Extintos: o Dodó das Maurícias e o Tigre da Tasmânia

É na sequência da extinção do Dodó, que aparece o conto de Lilliput e Gulliver em 1726.

Usa-se o aspecto alegórico, e a comparação entre as guerras anglo-francesas, mas não convém esquecer o aspecto sinistro de uma raça humana ameaçadora Yahoo, nem tampouco o registo da ilha flutuante de Laputa (mais uma vez sinalizamos o blog Portugalliae e a referência à cidade flutuante de Laputa).
Finalmente, sobre o contraponto gigante... os Brobdingnag, poderíamos encontrar a referência mítica aos gigantes da Patagónia... também estes extintos.

Convém notar que nos populares mapas de John Tallis, de 1851, a Patagónia permanecia ainda como território inexplorado... habitado por "índios".  Pouco tempo depois o estado de La Plata daria origem à moderna Argentina com a brutal anexação desses territórios a sul.
A Patagónia, antes da anexação Argentina, em 1851

No final das viagens de muitos Gullivers, menos bem intencionados, os liliputianos ou gigantes desapareceram do nosso registo. Ora é assim que, ao jeito surpresa, se anuncia que somos afinal a única espécie humana sobrevivente. Poderia ter sido diferente?

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publicado às 19:06

Diz Diogo de Couto, na sua Quarta Década da Ásia:
O quinto Arquipélago é o de Amboino, que está ao sul de Maluco, tem muitas ilhas, que se governam por suas cabeças (...) Há muitos povos por estas ilhas, em que os filhos comem os pais como são velhos - têm muitos ritos e costumes bárbaros, que nós não relatamos por fugir proxilidade. (...) A sul de Amboino estão as Ilhas de Banda, e a Leste delas perto de 300 léguas, segundo alguns afirmam, está uma ilha de muito ouro, cujos naturais não passam de 4 palmos de alto, e se assim é, são os verdadeiros Pigmeus.
Pouca gente terá lido as Décadas da Ásia de João de Barros, continuadas por Diogo de Couto, e se chegaram a ler este relato, não terá despertado nenhuma especial atenção... passando por mítico.

Acontece que em 2004 foram descobertos na Ilha das Flores, na Indonésia, restos humanos, agora denominados Homo Floresiensis que comprovam a existência de humanos cuja dimensão rondava 1 metro de altura... os tais 4 palmos de altura, que referia Diogo de Couto. 
comparação entre um crânio floresensis e um crânio humano microcefálico

Para termo de comparação, lembramos que a maioria das crianças com 3/4 anos tem mais de 1 metro de altura! Esta ilha seria uma autêntica Lilliput povoada por pequenos humanos.

Esta informação recentemente colocada no blog Portugalliae despertou-me a atenção nesta leitura do texto de Diogo de Couto. Conforme José Manuel dizia, os portugueses mantiveram lugares chave na sua exploração do Mundo, enquanto puderam. Após invasão parcial, a ilha das Flores acabou por passar a controlo holandês em 1851. Pela influência dos missionários dominicanos portugueses, a população remanescente tornou-se católica até hoje, e a miscenização levou a que fossem chamados "Portugueses Pretos" pelos Holandeses.
These have no Forts, but depend on their Alliance with the Natives: And indeed they are already so mixt, that it is hard to distinguish whether they are Portuguese or Indians. Their Language is Portuguese; and the religion they have, is Romish. They seem in Words to acknowledge the King of Portugal for their Sovereign; yet they will not accept any Officers sent by him. They speak indifferently the Malayan and their own native Languages, as well as Portuguese. 
Texto de W. Dampier, oficial inglês, em 1699
Tudo o que não conhecemos, tem sido epitetado como descrições míticas e fabulosas... e por isso os marinheiros têm tido a fama, ao longo de séculos, de grandes mentirosos. 
Face à mentira instituída, a verdade será sempre mentira.
A única maneira de passar a informação tem sido por vezes sob forma ficcional... é aqui que entra Johnatan Swift e as suas populares Viagens de Gulliver (retomadas no cinema em 2010).
Johnatan Swift e as Viagens de Gulliver

O aspecto tenebroso é a extinção... não há nenhuma razão para duvidar do relato de Diogo de Couto, que é corroborado pelo achado de ossadas na Ilha das Flores. Não é nada claro que Diogo de Couto se referisse às Flores, mas sim a outra ilha nas proximidades, adicionando-lhe a riqueza em ouro.

Fala-se do Dodó, e da sua extinção nas Ilhas Maurícias, sob controlo holandês, em 1681, e um pouco menos do Tigre-da-Tasmânia, em 1937... mas o aspecto do genocídio ter chegado ao ponto da extinção de uma raça humana, em tempos recentes, tem contornos tenebrosos.
Extintos: o Dodó das Maurícias e o Tigre da Tasmânia

É na sequência da extinção do Dodó, que aparece o conto de Lilliput e Gulliver em 1726.

Usa-se o aspecto alegórico, e a comparação entre as guerras anglo-francesas, mas não convém esquecer o aspecto sinistro de uma raça humana ameaçadora Yahoo, nem tampouco o registo da ilha flutuante de Laputa (mais uma vez sinalizamos o blog Portugalliae e a referência à cidade flutuante de Laputa).
Finalmente, sobre o contraponto gigante... os Brobdingnag, poderíamos encontrar a referência mítica aos gigantes da Patagónia... também estes extintos.

Convém notar que nos populares mapas de John Tallis, de 1851, a Patagónia permanecia ainda como território inexplorado... habitado por "índios".  Pouco tempo depois o estado de La Plata daria origem à moderna Argentina com a brutal anexação desses territórios a sul.
A Patagónia, antes da anexação Argentina, em 1851

No final das viagens de muitos Gullivers, menos bem intencionados, os liliputianos ou gigantes desapareceram do nosso registo. Ora é assim que, ao jeito surpresa, se anuncia que somos afinal a única espécie humana sobrevivente. Poderia ter sido diferente?

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publicado às 19:06

Diz Diogo de Couto, na sua Quarta Década da Ásia:
O quinto Arquipélago é o de Amboino, que está ao sul de Maluco, tem muitas ilhas, que se governam por suas cabeças (...) Há muitos povos por estas ilhas, em que os filhos comem os pais como são velhos - têm muitos ritos e costumes bárbaros, que nós não relatamos por fugir proxilidade. (...) A sul de Amboino estão as Ilhas de Banda, e a Leste delas perto de 300 léguas, segundo alguns afirmam, está uma ilha de muito ouro, cujos naturais não passam de 4 palmos de alto, e se assim é, são os verdadeiros Pigmeus.
Pouca gente terá lido as Décadas da Ásia de João de Barros, continuadas por Diogo de Couto, e se chegaram a ler este relato, não terá despertado nenhuma especial atenção... passando por mítico.

Acontece que em 2004 foram descobertos na Ilha das Flores, na Indonésia, restos humanos, agora denominados Homo Floresiensis que comprovam a existência de humanos cuja dimensão rondava 1 metro de altura... os tais 4 palmos de altura, que referia Diogo de Couto. 
comparação entre um crânio floresensis e um crânio humano microcefálico

Para termo de comparação, lembramos que a maioria das crianças com 3/4 anos tem mais de 1 metro de altura! Esta ilha seria uma autêntica Lilliput povoada por pequenos humanos.

Esta informação recentemente colocada no blog Portugalliae despertou-me a atenção nesta leitura do texto de Diogo de Couto. Conforme José Manuel dizia, os portugueses mantiveram lugares chave na sua exploração do Mundo, enquanto puderam. Após invasão parcial, a ilha das Flores acabou por passar a controlo holandês em 1851. Pela influência dos missionários dominicanos portugueses, a população remanescente tornou-se católica até hoje, e a miscenização levou a que fossem chamados "Portugueses Pretos" pelos Holandeses.
These have no Forts, but depend on their Alliance with the Natives: And indeed they are already so mixt, that it is hard to distinguish whether they are Portuguese or Indians. Their Language is Portuguese; and the religion they have, is Romish. They seem in Words to acknowledge the King of Portugal for their Sovereign; yet they will not accept any Officers sent by him. They speak indifferently the Malayan and their own native Languages, as well as Portuguese. 
Texto de W. Dampier, oficial inglês, em 1699
Tudo o que não conhecemos, tem sido epitetado como descrições míticas e fabulosas... e por isso os marinheiros têm tido a fama, ao longo de séculos, de grandes mentirosos. 
Face à mentira instituída, a verdade será sempre mentira.
A única maneira de passar a informação tem sido por vezes sob forma ficcional... é aqui que entra Johnatan Swift e as suas populares Viagens de Gulliver (retomadas no cinema em 2010).
Johnatan Swift e as Viagens de Gulliver

O aspecto tenebroso é a extinção... não há nenhuma razão para duvidar do relato de Diogo de Couto, que é corroborado pelo achado de ossadas na Ilha das Flores. Não é nada claro que Diogo de Couto se referisse às Flores, mas sim a outra ilha nas proximidades, adicionando-lhe a riqueza em ouro.

Fala-se do Dodó, e da sua extinção nas Ilhas Maurícias, sob controlo holandês, em 1681, e um pouco menos do Tigre-da-Tasmânia, em 1937... mas o aspecto do genocídio ter chegado ao ponto da extinção de uma raça humana, em tempos recentes, tem contornos tenebrosos.
Extintos: o Dodó das Maurícias e o Tigre da Tasmânia

É na sequência da extinção do Dodó, que aparece o conto de Lilliput e Gulliver em 1726.

Usa-se o aspecto alegórico, e a comparação entre as guerras anglo-francesas, mas não convém esquecer o aspecto sinistro de uma raça humana ameaçadora Yahoo, nem tampouco o registo da ilha flutuante de Laputa (mais uma vez sinalizamos o blog Portugalliae e a referência à cidade flutuante de Laputa).
Finalmente, sobre o contraponto gigante... os Brobdingnag, poderíamos encontrar a referência mítica aos gigantes da Patagónia... também estes extintos.

Convém notar que nos populares mapas de John Tallis, de 1851, a Patagónia permanecia ainda como território inexplorado... habitado por "índios".  Pouco tempo depois o estado de La Plata daria origem à moderna Argentina com a brutal anexação desses territórios a sul.
A Patagónia, antes da anexação Argentina, em 1851

No final das viagens de muitos Gullivers, menos bem intencionados, os liliputianos ou gigantes desapareceram do nosso registo. Ora é assim que, ao jeito surpresa, se anuncia que somos afinal a única espécie humana sobrevivente. Poderia ter sido diferente?

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publicado às 11:06

Já houve tempos de censura... e hoje estamos a ser conduzidos para tempos de auto-censura.
O exemplo do wikileaks não é tanto um caso de censura, é uma indicação para auto-censura. O que é difundido pelos meios de comunicação tem um propósito. Neste caso, os jornalistas são avisados que devem ser contidos na liberdade de expressão... ou arriscam-se às consequências.
Se os agentes secretos devem estar reservados ao sigilo, pelo seu compromisso profissional, os jornalistas que sabem dessa informação não fizeram nenhum voto de sigilo, para estarem comprometidos a uma efectiva limitação da sua liberdade de expressão.

António Galvão, que é uma nossa fonte preferida, dizia algo bastante instrutivo:
 (,,,)  não podia ser a Terra toda sabida, e a gente comunicada, uma com a outra, porque quando assim fosse se perderia pela malícia e sem justiça, dos habitantes dela.

É um efectivo aviso ao mundo onde começava a viver... um mundo global, sem qualquer alternativa, nunca se livraria da malícia e da injustiça dos homens, seus governantes. 
Mais do que um mundo global, avizinhava-se uma prisão global.
Como é claro, a prisão só é percepcionada por aqueles que viram a altura das paredes que os cercam... todos os outros, que não vislumbram restrições, esses consideram-se livres. Afinal, nunca nenhuma ditadura suprimiu a liberdade de expressão para receitas de culinária e casos de futebol. 
Os limites da liberdade de expressão só são perceptíveis por quem tem algo inconveniente para revelar.

Feita esta pequena introdução conjuntural, continuamos com António Galvão, acerca dos descobrimentos chineses:
E porque os maiores descobrimentos e mais compridos foram por mar feitos, principalmente em nossos tempos, desejei saber quais foram os primeiros inventores disto, depois do Dilúvio. 
Uns escrevem que foram os Gregos, outros dizem que os Fenícios, outros querem que os Egípcios... Os Índios não consentem nisso, dizendo que eles foram os primeiros que navegaram, principalmente os Taybencos, a que agora chamamos Chins... e alegam para isso serem já senhores da Índia até ao Cabo de Boa Esperança, e a Ilha de São Lourenço por ser povoada deles ao longo da praia (...)
O nome Taybencos (Taibencos, ou Tabencos) associado aos Chineses encontro-o exclusivamente na obra de Galvão e nas citações que lhe foram feitas. Seria mais associável à Tailândia, mas Galvão é claro, e as traduções seguem-no.
Há ainda que notar que Galvão usa uma expressão geral de Índios... talvez a única adequada à época. Os índios não seriam mais do que todos os povos de feição oriental. Por isso, haveria as Índias Ocidentais e as Orientais... as feições do povo eram consideradas semelhantes, em partes geográficas distintas.
Também não havia notícia de chineses em Madagáscar (Ilha de São Lourenço)... e porém aqui está o registo do seu povoamento ao longo das praias da ilha.

É sempre preciso colocar António Galvão no seu devido lugar, e para isso é preciso recorrer a autores estrangeiros. Quando o Almirante Charles Bethune reedita a obra de Galvão em 1862, traduzida por Hayklut em 1601, diz claramente que: 
But his deeds were not limited to earthly conquest. Galvano, so intrepid at the head of this troops, might also be seen, with a crucifix in this hand, preaching the Gospel publicly, whereby he became known as the "Apostle" of the Mollucas. (...)
Faria e Sousa sums up his high qualities in these words: "His fame will never perish so long as the world endures; for  neither weak kings, nor wicked ministers, nor blind fortune, nor ages of ignorance, can damage a reputation so justly merited
He spent the latter part of his life in compiling an account of all known voyages, and thus he may be styled the father of historical geography.
Para o Almirante Bethune, Galvão é o Pai da Geografia Histórica, para os portugueses será um completo desconhecido, ausente de qualquer referência condicente na História de Portugal. 
O último registo é a reedição de Miguel Lopes Ferreira, em 1731, dedicada ao Conde da Ericeira, D. Luiz Meneses. O tempo de D. João V irá terminar, e com o Marquês de Pombal, todos os registos vão cair na destruição do Terramoto. 
O livro ficará com o epíteto de "raríssimo" até aos dias de hoje... tão somente porque as mesmas forças que condenaram a figura ímpar de Galvão à mendicidade, nunca deixaram de estar presentes e a comandar os nossos destinos.

Galvão prossegue na descrição:
... e os Jaos [Java], Timores, Selebres [Celebes], Macasares [?], Malucos [Molucas], Borneos, Mindanaos, Luções, Léquios, Japões e outras ilhas, que há muitas, e as terras firmes de Cauchenchinas [Conchinchina, Vietname], Laos, Siamis [Sião, Tailândia], Bremas [Birmânia], Pegus [Birmânia], Arracões [?], até Bengala & além disto, a Nova Espanha, Perú, Brasil, Antilhas e outras conjuntas a elas, como se parece nas feições dos homens, mulheres & seus costumes, olhos pequenos, narizes rombos, & outras proporções que lhe vemos. E chamarem ainda agora a muitas destas ilhas & terras Batochinas, Bocochinas, que quer dizer Terras da China.
Ou seja, Galvão aparenta deduzir pela semelhança fisionómica que todos estes povos [basicamente   a maioria das ilhas do Pacífico, Indico, e toda a América] estavam ligados aos chineses, e eram seus descendentes, por colonização... invocando a designação Batochinas com possessões chinesas.

Mas Galvão acrescenta ainda mais razões para serem os Chineses os primeiros navegadores:
Além disto os nossos escritores deixaram escrito que a Arca de Noé, se assentara da parte norte dos montes da Arménia, que está de 40º para cima [o monte Ararat está a 39º42'], e que logo dali fora a Schytia povoada por ser terra alta e a primeira das águas a ser descoberta. E como a província dos Thaibencos seja uma das principais da Tartaria (se assim é como dizem) bem se mostra serem eles dos mais antigos povoadores e navegadores. Pois neles se acaba aquela terra do levante & os mares são tão bons de navegar como os rios destas partes, por jazerem entre os trópicos onde dias e noites não fazem muita diferença, assim nas horas como na quentura, por onde não há ventos tão destemperados que alevantem as águas, nem as façam soberbas. 
E por experiência o vemos nos pequenos barcos em que navegavam, com um ramo por mastro, & vela, & um remo na mão com que governam, correm muito mar e costa. E assim, nuns paus a que chamam Catamarões, em que se escancham ou assentam & vão com o outro remando. E querem ainda que estes Chins fossem senhores da maior parte da Scithia & que navegassem toda a sua costa, que parece estar até 70º da parte norte. 
Cornélio Nepote referido, assim o aprova, onde diz, que Metelo, colega de Afranio, estando por consul em França, el rey da Suévia lhe mandara certos índios, que vieram pela parte do norte, às praias da Alemanha, & segundo isto devia ser da China, por estar de 20º, 30º, 40º para cima, e tem naus fortes e de pregadura que podeiam sofrer mares e terras tão frias e destemperadas como aquela. 
Se o primeiro argumento está envolto naquilo a que nos habituámos a ver como mito do Dilúvio, os outros argumentos já são de mais difícil contra-argumentação. Por um lado encontramos o primeiro registo aos Catamarãs... designados por Catamarões, e de facto a navegação naquelas partes nada tem a ver com as dificuldades atlânticas. 
Por outro lado, o registo romano de Cornélio Nepote (100-30 a.C), mostra um argumento de navegação organizada, exploratória, que contactou a Alemanha - os Suevos, Suevos que depois se iriam instalar em Portugal e Galiza. Ou seja, esse registo pode não ter sido esquecido dos reis Suevos, ao focarem a sua migração ibérica. Esse registo é tanto mais notável quanto mostraria uma eventual travessia da Passagem Nordeste.

Galvão tem o relato vivido da época. Se os portugueses conquistam o Indico e atingem a China em menos de 20 anos, com D. Manuel, isso mostra um enfraquecimento de qualquer poderio naval, seja dos muçulmanos, seja dos chineses. No entanto, Galvão procura ter o distanciamento suficiente para aceitar que os relatos chineses corresponderiam a efectivas navegações... e essa verdade contrariaria toda a História que se estava a preparar para ser contada durante séculos até hoje!

[Este post surge na sequência do contacto com http://www.redescobrindoobrasil.com.br/   que agradecemos]
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publicado às 01:05

Já houve tempos de censura... e hoje estamos a ser conduzidos para tempos de auto-censura.
O exemplo do wikileaks não é tanto um caso de censura, é uma indicação para auto-censura. O que é difundido pelos meios de comunicação tem um propósito. Neste caso, os jornalistas são avisados que devem ser contidos na liberdade de expressão... ou arriscam-se às consequências.
Se os agentes secretos devem estar reservados ao sigilo, pelo seu compromisso profissional, os jornalistas que sabem dessa informação não fizeram nenhum voto de sigilo, para estarem comprometidos a uma efectiva limitação da sua liberdade de expressão.

António Galvão, que é uma nossa fonte preferida, dizia algo bastante instrutivo:
 (,,,)  não podia ser a Terra toda sabida, e a gente comunicada, uma com a outra, porque quando assim fosse se perderia pela malícia e sem justiça, dos habitantes dela.

É um efectivo aviso ao mundo onde começava a viver... um mundo global, sem qualquer alternativa, nunca se livraria da malícia e da injustiça dos homens, seus governantes. 
Mais do que um mundo global, avizinhava-se uma prisão global.
Como é claro, a prisão só é percepcionada por aqueles que viram a altura das paredes que os cercam... todos os outros, que não vislumbram restrições, esses consideram-se livres. Afinal, nunca nenhuma ditadura suprimiu a liberdade de expressão para receitas de culinária e casos de futebol. 
Os limites da liberdade de expressão só são perceptíveis por quem tem algo inconveniente para revelar.

Feita esta pequena introdução conjuntural, continuamos com António Galvão, acerca dos descobrimentos chineses:
E porque os maiores descobrimentos e mais compridos foram por mar feitos, principalmente em nossos tempos, desejei saber quais foram os primeiros inventores disto, depois do Dilúvio. 
Uns escrevem que foram os Gregos, outros dizem que os Fenícios, outros querem que os Egípcios... Os Índios não consentem nisso, dizendo que eles foram os primeiros que navegaram, principalmente os Taybencos, a que agora chamamos Chins... e alegam para isso serem já senhores da Índia até ao Cabo de Boa Esperança, e a Ilha de São Lourenço por ser povoada deles ao longo da praia (...)
O nome Taybencos (Taibencos, ou Tabencos) associado aos Chineses encontro-o exclusivamente na obra de Galvão e nas citações que lhe foram feitas. Seria mais associável à Tailândia, mas Galvão é claro, e as traduções seguem-no.
Há ainda que notar que Galvão usa uma expressão geral de Índios... talvez a única adequada à época. Os índios não seriam mais do que todos os povos de feição oriental. Por isso, haveria as Índias Ocidentais e as Orientais... as feições do povo eram consideradas semelhantes, em partes geográficas distintas.
Também não havia notícia de chineses em Madagáscar (Ilha de São Lourenço)... e porém aqui está o registo do seu povoamento ao longo das praias da ilha.

É sempre preciso colocar António Galvão no seu devido lugar, e para isso é preciso recorrer a autores estrangeiros. Quando o Almirante Charles Bethune reedita a obra de Galvão em 1862, traduzida por Hayklut em 1601, diz claramente que: 
But his deeds were not limited to earthly conquest. Galvano, so intrepid at the head of this troops, might also be seen, with a crucifix in this hand, preaching the Gospel publicly, whereby he became known as the "Apostle" of the Mollucas. (...)
Faria e Sousa sums up his high qualities in these words: "His fame will never perish so long as the world endures; for  neither weak kings, nor wicked ministers, nor blind fortune, nor ages of ignorance, can damage a reputation so justly merited
He spent the latter part of his life in compiling an account of all known voyages, and thus he may be styled the father of historical geography.
Para o Almirante Bethune, Galvão é o Pai da Geografia Histórica, para os portugueses será um completo desconhecido, ausente de qualquer referência condicente na História de Portugal. 
O último registo é a reedição de Miguel Lopes Ferreira, em 1731, dedicada ao Conde da Ericeira, D. Luiz Meneses. O tempo de D. João V irá terminar, e com o Marquês de Pombal, todos os registos vão cair na destruição do Terramoto. 
O livro ficará com o epíteto de "raríssimo" até aos dias de hoje... tão somente porque as mesmas forças que condenaram a figura ímpar de Galvão à mendicidade, nunca deixaram de estar presentes e a comandar os nossos destinos.

Galvão prossegue na descrição:
... e os Jaos [Java], Timores, Selebres [Celebes], Macasares [?], Malucos [Molucas], Borneos, Mindanaos, Luções, Léquios, Japões e outras ilhas, que há muitas, e as terras firmes de Cauchenchinas [Conchinchina, Vietname], Laos, Siamis [Sião, Tailândia], Bremas [Birmânia], Pegus [Birmânia], Arracões [?], até Bengala & além disto, a Nova Espanha, Perú, Brasil, Antilhas e outras conjuntas a elas, como se parece nas feições dos homens, mulheres & seus costumes, olhos pequenos, narizes rombos, & outras proporções que lhe vemos. E chamarem ainda agora a muitas destas ilhas & terras Batochinas, Bocochinas, que quer dizer Terras da China.
Ou seja, Galvão aparenta deduzir pela semelhança fisionómica que todos estes povos [basicamente   a maioria das ilhas do Pacífico, Indico, e toda a América] estavam ligados aos chineses, e eram seus descendentes, por colonização... invocando a designação Batochinas com possessões chinesas.

Mas Galvão acrescenta ainda mais razões para serem os Chineses os primeiros navegadores:
Além disto os nossos escritores deixaram escrito que a Arca de Noé, se assentara da parte norte dos montes da Arménia, que está de 40º para cima [o monte Ararat está a 39º42'], e que logo dali fora a Schytia povoada por ser terra alta e a primeira das águas a ser descoberta. E como a província dos Thaibencos seja uma das principais da Tartaria (se assim é como dizem) bem se mostra serem eles dos mais antigos povoadores e navegadores. Pois neles se acaba aquela terra do levante & os mares são tão bons de navegar como os rios destas partes, por jazerem entre os trópicos onde dias e noites não fazem muita diferença, assim nas horas como na quentura, por onde não há ventos tão destemperados que alevantem as águas, nem as façam soberbas. 
E por experiência o vemos nos pequenos barcos em que navegavam, com um ramo por mastro, & vela, & um remo na mão com que governam, correm muito mar e costa. E assim, nuns paus a que chamam Catamarões, em que se escancham ou assentam & vão com o outro remando. E querem ainda que estes Chins fossem senhores da maior parte da Scithia & que navegassem toda a sua costa, que parece estar até 70º da parte norte. 
Cornélio Nepote referido, assim o aprova, onde diz, que Metelo, colega de Afranio, estando por consul em França, el rey da Suévia lhe mandara certos índios, que vieram pela parte do norte, às praias da Alemanha, & segundo isto devia ser da China, por estar de 20º, 30º, 40º para cima, e tem naus fortes e de pregadura que podeiam sofrer mares e terras tão frias e destemperadas como aquela. 
Se o primeiro argumento está envolto naquilo a que nos habituámos a ver como mito do Dilúvio, os outros argumentos já são de mais difícil contra-argumentação. Por um lado encontramos o primeiro registo aos Catamarãs... designados por Catamarões, e de facto a navegação naquelas partes nada tem a ver com as dificuldades atlânticas. 
Por outro lado, o registo romano de Cornélio Nepote (100-30 a.C), mostra um argumento de navegação organizada, exploratória, que contactou a Alemanha - os Suevos, Suevos que depois se iriam instalar em Portugal e Galiza. Ou seja, esse registo pode não ter sido esquecido dos reis Suevos, ao focarem a sua migração ibérica. Esse registo é tanto mais notável quanto mostraria uma eventual travessia da Passagem Nordeste.

Galvão tem o relato vivido da época. Se os portugueses conquistam o Indico e atingem a China em menos de 20 anos, com D. Manuel, isso mostra um enfraquecimento de qualquer poderio naval, seja dos muçulmanos, seja dos chineses. No entanto, Galvão procura ter o distanciamento suficiente para aceitar que os relatos chineses corresponderiam a efectivas navegações... e essa verdade contrariaria toda a História que se estava a preparar para ser contada durante séculos até hoje!

[Este post surge na sequência do contacto com http://www.redescobrindoobrasil.com.br/   que agradecemos]
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