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A Héron de Alexandria é atribuído o primeiro engenho a vapor
A eólipila de Héron (Séc. I)

(... entre outras invenções), ainda que o mesmo engenho possa ser atribuído um século antes a Vitrúvio, afinal o mesmo homem que muito inspirou Leonardo

O engenho a vapor foi então enterrado ou vaporizado durante 1500 anos, como tantas outras coisas, até que se registou o seu reaparecimento em 1543, em Barcelona, com Blasco de Garay e o primeiro barco a vapor de que há registo.

Conforme consta da publicação "Archivo popular", volume 2, página 411:
No ano de 1543, um oficial da marinha, chamado Blasco de Garay, ofereceu-se a mostrar ao imperador Carlos V uma máquina, por meio da qual se faria andar um navio sem a ajuda de velas ou remos. Não obstante que a proposta se julgasse ridícula, o homem mostrava-se tão certo do que afirmava, que o imperador nomeou uma comissão para examinar, e dar conta do resultado da experiência. Com efeito teve ela lugar em 17 de Junho de 1543, em um navio chamado a Trinidad, do lote de duzentas toneladas, o qual pouco antes havia chegado de Colibre com uma carga de trigo.  
O navio, diz o escriptor, foi visto, no dia aprazado, andar rapidamente, e virar em todos os bordos, segundo se quería, sem ser impelido por velas ou remos, e mesmo sem que se lhe percebesse mecanismo algum, à excepção de uma enorme caldeira com água a ferver, e um certo jogo de rodas e pás. 
A multidão que se achava presente rompeu em gritos de admiração , e o porto de Barcelona ressoou com os seus aplausos. Os comissários do governo participaram do entusiasmo geral, e deram conta favorável ao imperador, excepto um deles, o tesoureiro Ravago. Este homem, por algum motivo que se ignora, declarou-se contra o inventor e a sua máquina: fez toda a diligência por a desacreditar, dizendo entre outras cousas que a invenção não oferecia vantagem alguma, pois que apenas podia fazer andar uma embarcação duas léguas no espaço de quatro horas; que a máquina era dispendiosa, e complicada, e finalmente que apresentava o grande e frequente perigo de arrebentar a caldeira. Acabada a experiência, Garay retírou o seu maquinismo, entregando no arsenal o que aí se fizera, levou o resto para sua casa. 
Apesar das invejosas observações de Ravago, Garay foi aplaudido pelo seu invento. O imperador o protegeu, promoveu-o ao posto imediato, e lhe mandou dar dozentos mil maravis; ordenando mais que o tesoureiro invejoso pagasse todas as despesas da experiência. Mas Carlos V achava-se então muí ocupado com suas expedições militares, e tratando só de devastar a humanidade deixou desaproveitado o novo invento que a podia beneficiar; inventor e invenção ficaram no esquecimento; e a honra que Barcelona poderia ter recebido do aperfeiçoamento desta tão útil descoberta, ficou reservada para uma cidade, que ainda então não havia entrado na carreira da existência.
A invenção do barco a vapor ficaria reservada em nome para Robert Fulton, inventor americano, prezado de Napoleão. O mesmo Archivo Popular faz menção a outros inventores:
-  um italiano Bracas(?), 80 anos depois de Garay, 
- e ao Marquês de Worcester, Edward Somerset, 100 anos depois, com uma utilização engenhosa do vapor... normalmente atribuída a James Watt.

É claro que espanhóis, catalães, mostraram com os registos do Arquivo Geral de Simancas, toda a documentação necessária, e tal foi publicado de forma semelhante no "El Instructor" (1835), mas foi recusado pelos franceses (e Balzac terá feito a sátira Les ressources de Quinola a este propósito).

O que vemos?
Héron de Alexandria propunha logo aplicações para o seu engenho a vapor... mas é claro que ninguém quis "entender", e tudo foi perdidamente ocultado. 
O mesmo se passou com Blasco de Garay, e com todos os sucessores até ao final do Séc. XVIII.
A era industrial só aparece autorizada para o Séc. XIX, e à Hispânia já estava vedada essa competição.

Note-se que Carlos V protegeu a invenção e inventor... mas o verdadeiro poder estaria mais representado por Ravago. Como se percebe da leitura, Carlos V ficou imediatamente ocupado com novas guerras... e a invenção foi "esquecida".

Não basta inventar ou descobrir... é preciso ter autorização para tal, no tempo próprio.
Foi assim com a "reinvenção da roda"...
Que instituição, superior em potência ao imperador Carlos V, decide isto?
É este problema milenar que abordamos... há já algum tempo!

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publicado às 21:21

Gaspar Frutuoso é outra daquelas referências que basta ser invocada pelo título dos seus capítulos:

- Capítulo VIII - 
Em que a Fama pede à Verdade que lhe conte as cousas das ilhas, 
e a Verdade lhe declara umas letras do triângulo que traz...

NÃO creias quanto ouves 
NÃO digas quanto sabes 
NÃO desejes quanto vês 

Gaspar Frutuoso (1522-91) já está a viver nos tempos modernos!
E como a Fama orientará sempre as perguntas sobre Cólon, ou Colombo, há um capítulo indicado: 

Capítulo XXII 
- Em que a Verdade... conta o descobrimento das Antilhas, que agora se chamam Índias Ocidentais...
Quanto ao que das Antilhas ou Índias de Castela duvidais, por esta regra, que já disse, de conceder o lugar a quem primeiro o ocupa, e pode ser também por alguma confirmação do Padre Santo, que eu não alcancei ver nem saber, toda esta conquista do Mar Oceano descobriu e possuiu o Infante D. Henrique, que mandou descobrir estas ilhas dos Açores e por seu falecimento se diz que a deixou à Coroa Real de Portugal, como ao tronco donde ele descendia, a qual tiveram estes reis alguns anos, até que em tempo de El-rei D. João, segundo do nome, se antremeteu um Cristóvam Colon e quis fazer outra navegação diferente daquela, não ao longo da costa da terra firme, mas desviando-se pelo espaçoso mar do ponente, ao qual El-rei não quis dar crédito nem ouvidos, que foi causa de se dividir e partir esta conquista, como agora contarei.
Depois Gaspar Frutuoso apresenta a versão castelhana, que fala no segredo de marinheiros naufragados em Porto Santo, que  morreram às mãos de Colombo
Um homem de nação italiano, genoês, chamado Cristóvam Colon, natural de Cugurco, ou Narvi, aldeia de Génoa, de poucas casas, avisado e prático na arte da navegação, vindo de sua terra à ilha da Madeira, se casou nela, vivendo ali de fazer cartas de marear. Aonde, antes do ano de mil e quatrocentos e oitenta e seis, veio aportar uma nau biscainha, ou (segundo outros) andalusa, ou portuguesa, havendo com tormentas e tempos contrários descoberto parte das terras que agora chamamos Índias Ocidentais ou Novo Mundo.
Aqui a questão da nacionalidade colocava-se mais em termos dos náufragos incógnitos. Depois cita a versão de João de Barros e a de Cardan, e sem nunca colocar em causa a nacionalidade de Colón, e dá conta da sua versão, que é algo pormenorizada:
Era Cristóvam Colon animoso e de altos pensamentos, mas pobre e sem cabedal bastante pera cometer uma cousa de tanta dúvida e custo, pelo qual cuidou que seria bom pedir favor de algum príncipe cristão. E como naquele tempo El-rei de Portugal, D. João, o segundo do nome, estava ocupado em a conquista tão dificultosa e custosa da Índia e El-rei D. Fernando de Castela na guerra de Granada, determinou de se ir a Ingraterra a El-rei Henrique sétimo.
Por não perder tempo mandou lá a Bartolomeu Colon, seu irmão, e como não achou a entrada que quisera, tornou-se sem negociar nada, pelo qual acordou tentar, todavia, a El-rei de Portugal. E foi-lhe tão contrário o licenciado Calçadilha, bispo de Viseu, que não pôde alcançar cousa alguma; antes o tiveram por enganador e mentiroso. Foi-se com isto Colon, meio desesperado, a Castela e em Palos de Moguer comunicou suas imaginações com Martim Fernandes Pinção, grande piloto, e, de conselho deste e de Frei João Perez de Marchena, frade de S. Francisco, grande humanista, morador na casa da Arrábida, do qual levou cartas pera D. Frei Fernando de Talavera, Bispo de Ávila, confessor da rainha, pôs em prática seu negócio com D. Henrique Gusmão, Duque de Medina Sidónia, e depois com D. Luiz de Lacerda, Duque de Medina Celi, que tinham bons portos, que o ajudassem ao descobrimento destas terras novas, os quais fizeram escárneo dele, que certo parecia cousa de zombaria, mormente que Colon andava tão mal tratado e só, que perdiam muito crédito suas razões com ver sua pouca autoridade, porque é isto assi, que a verdade sem mangas compridas é mui mal recebida em qualquer boda e, quase sempre, cada feira vale menos.
Finalmente acordou de se ir à corte de El-rei D. Fernando de Castela, pera quem estava guardada tão boa ventura, em a qual entrou no ano de mil e quatrocentos e oitenta e seis. Aos princípios também zombavam dele ali, como nas outras partes, pelo qual e pelas muitas ocupações de El-rei com a guerra de Granada, não se lhe deu audiência tão asinha. Todavia achou favor em Afonso de Quintanilha, contador-mor, o que fez as leis da Irmandade. Este deu a Colon entrada em casa do Cardeal D. Pero Gonçalves de Mendonça. O Cardeal (que tudo mandava) o pôs com El-rei e da primeira vista tirou boas palavras e esperança de que, acabada a guerra de Granada, se falaria em seu negócio mais de propósito, porque até então não haveria bom aparelho de dinheiro. Antreteve-se com isto Cristóvam Colon na corte perto de seis anos. E quando viu acabada a guerra com tão bom sucesso, tornou a tratar de seu negócio e, por fim, se lhe deu licença pera ir descobrir as terras que dizia e pera que armasse os navios que lhe fossem necessários.
Primeiro, repare-se que é referido que D. João II estava ocupado na "dificultosa e custosa" conquista da Índia, o que é diferente do termo "descoberta da Índia". Depois o irmão chega a falar com Henrique VII, e isto torna-se um relato demasiado detalhado para ser inventado acerca das deambulações de Colombo, e da sua "vida difícil". Um aspecto nas versões alternativas de nacionalidade, é que há um irmão Bartolomeu, que tem um papel importante.
O relato do regresso também é interessante:
E no ano seguinte de mil e quatrocentos e noventa e três, (estando El-rei de Portugal, D. João, o segundo do nome, no lugar de Vale de Paraízo, que é acima do mosteiro das Virtudes, por caso das grandes pestes que nos lugares principais daquela comarca havia) a seis dias de Março, veio ter a Restelo, em Lisboa, este Cristóvam Colon, que vinha deste descobrimento das ilhas de Cipango e Antilhas (como dito é), que, per mandado de El-rei e da Rainha de Castela, tinha descoberto; das quais trazia as ditas mostras das gentes e ouro e outras cousas que nelas havia. E, sendo El-rei disso avisado, o mandou chamar e mostrou, por isso, receber nojo e sentimento, assi por crer que o dito descobrimento era feito dentro dos mares e termos de seus senhorios de Guiné, como porque, o dito Colon, por ser de sua condição alevantado, e no modo do contar das cousas fazia isto em ouro e prata e riquezas muito maior do que era, e acusava El-rei por se escusar deste descobrimento e não no querer mandar a isso, pois primeiro se lhe viera oferecer que aos Reis de Castela, e que fora por lhe não dar crédito. E El-rei foi cometido que houvesse por bem de lho matarem aí, porque, com sua morte, o descobrimento de Castela não iria mais avante por todos terem pera si que estavam aquelas ilhas dentro dos limites da conquista de Portugal, por a pouca distância que havia destas ilhas dos Açores a estas que Colon descobrira, e que, dando Sua Alteza a isso consentimento, se poderia fazer sem suspeita porque, por ele ser descortês e alvoraçado, podiam com ele travar de maneira que cada um destes seus defeitos parecesse a causa de sua morte. Mas El-rei, como era mui temente a Deus, não somente o defendeu, mas ainda lhe fez honra e mercê e com ela o despediu, mandando vestir de grã os índios que trazia.
Nada disto exclui, como é óbvio, outras hipóteses, mas "Saudades da Terra" não deixa de ser um relato pormenorizado da época, que sempre permaneceu "secreto", e sem publicação nacional.

Aquilo que parece ter sido reconhecido a Colón como novidade, terá sido um caminho marítimo novo pelas Canárias, que levou à descoberta das Antilhas. Ou seja, é de considerar que se mantivesse a tradição da navegação costeira, partindo dos Açores e pela Terra do Bacalhau...  até ao Brasil.

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publicado às 20:57

Gaspar Frutuoso é outra daquelas referências que basta ser invocada pelo título dos seus capítulos:

- Capítulo VIII - 
Em que a Fama pede à Verdade que lhe conte as cousas das ilhas, 
e a Verdade lhe declara umas letras do triângulo que traz...

NÃO creias quanto ouves 
NÃO digas quanto sabes 
NÃO desejes quanto vês 

Gaspar Frutuoso (1522-91) já está a viver nos tempos modernos!
E como a Fama orientará sempre as perguntas sobre Cólon, ou Colombo, há um capítulo indicado: 

Capítulo XXII 
- Em que a Verdade... conta o descobrimento das Antilhas, que agora se chamam Índias Ocidentais...
Quanto ao que das Antilhas ou Índias de Castela duvidais, por esta regra, que já disse, de conceder o lugar a quem primeiro o ocupa, e pode ser também por alguma confirmação do Padre Santo, que eu não alcancei ver nem saber, toda esta conquista do Mar Oceano descobriu e possuiu o Infante D. Henrique, que mandou descobrir estas ilhas dos Açores e por seu falecimento se diz que a deixou à Coroa Real de Portugal, como ao tronco donde ele descendia, a qual tiveram estes reis alguns anos, até que em tempo de El-rei D. João, segundo do nome, se antremeteu um Cristóvam Colon e quis fazer outra navegação diferente daquela, não ao longo da costa da terra firme, mas desviando-se pelo espaçoso mar do ponente, ao qual El-rei não quis dar crédito nem ouvidos, que foi causa de se dividir e partir esta conquista, como agora contarei.
Depois Gaspar Frutuoso apresenta a versão castelhana, que fala no segredo de marinheiros naufragados em Porto Santo, que  morreram às mãos de Colombo
Um homem de nação italiano, genoês, chamado Cristóvam Colon, natural de Cugurco, ou Narvi, aldeia de Génoa, de poucas casas, avisado e prático na arte da navegação, vindo de sua terra à ilha da Madeira, se casou nela, vivendo ali de fazer cartas de marear. Aonde, antes do ano de mil e quatrocentos e oitenta e seis, veio aportar uma nau biscainha, ou (segundo outros) andalusa, ou portuguesa, havendo com tormentas e tempos contrários descoberto parte das terras que agora chamamos Índias Ocidentais ou Novo Mundo.
Aqui a questão da nacionalidade colocava-se mais em termos dos náufragos incógnitos. Depois cita a versão de João de Barros e a de Cardan, e sem nunca colocar em causa a nacionalidade de Colón, e dá conta da sua versão, que é algo pormenorizada:
Era Cristóvam Colon animoso e de altos pensamentos, mas pobre e sem cabedal bastante pera cometer uma cousa de tanta dúvida e custo, pelo qual cuidou que seria bom pedir favor de algum príncipe cristão. E como naquele tempo El-rei de Portugal, D. João, o segundo do nome, estava ocupado em a conquista tão dificultosa e custosa da Índia e El-rei D. Fernando de Castela na guerra de Granada, determinou de se ir a Ingraterra a El-rei Henrique sétimo.
Por não perder tempo mandou lá a Bartolomeu Colon, seu irmão, e como não achou a entrada que quisera, tornou-se sem negociar nada, pelo qual acordou tentar, todavia, a El-rei de Portugal. E foi-lhe tão contrário o licenciado Calçadilha, bispo de Viseu, que não pôde alcançar cousa alguma; antes o tiveram por enganador e mentiroso. Foi-se com isto Colon, meio desesperado, a Castela e em Palos de Moguer comunicou suas imaginações com Martim Fernandes Pinção, grande piloto, e, de conselho deste e de Frei João Perez de Marchena, frade de S. Francisco, grande humanista, morador na casa da Arrábida, do qual levou cartas pera D. Frei Fernando de Talavera, Bispo de Ávila, confessor da rainha, pôs em prática seu negócio com D. Henrique Gusmão, Duque de Medina Sidónia, e depois com D. Luiz de Lacerda, Duque de Medina Celi, que tinham bons portos, que o ajudassem ao descobrimento destas terras novas, os quais fizeram escárneo dele, que certo parecia cousa de zombaria, mormente que Colon andava tão mal tratado e só, que perdiam muito crédito suas razões com ver sua pouca autoridade, porque é isto assi, que a verdade sem mangas compridas é mui mal recebida em qualquer boda e, quase sempre, cada feira vale menos.
Finalmente acordou de se ir à corte de El-rei D. Fernando de Castela, pera quem estava guardada tão boa ventura, em a qual entrou no ano de mil e quatrocentos e oitenta e seis. Aos princípios também zombavam dele ali, como nas outras partes, pelo qual e pelas muitas ocupações de El-rei com a guerra de Granada, não se lhe deu audiência tão asinha. Todavia achou favor em Afonso de Quintanilha, contador-mor, o que fez as leis da Irmandade. Este deu a Colon entrada em casa do Cardeal D. Pero Gonçalves de Mendonça. O Cardeal (que tudo mandava) o pôs com El-rei e da primeira vista tirou boas palavras e esperança de que, acabada a guerra de Granada, se falaria em seu negócio mais de propósito, porque até então não haveria bom aparelho de dinheiro. Antreteve-se com isto Cristóvam Colon na corte perto de seis anos. E quando viu acabada a guerra com tão bom sucesso, tornou a tratar de seu negócio e, por fim, se lhe deu licença pera ir descobrir as terras que dizia e pera que armasse os navios que lhe fossem necessários.
Primeiro, repare-se que é referido que D. João II estava ocupado na "dificultosa e custosa" conquista da Índia, o que é diferente do termo "descoberta da Índia". Depois o irmão chega a falar com Henrique VII, e isto torna-se um relato demasiado detalhado para ser inventado acerca das deambulações de Colombo, e da sua "vida difícil". Um aspecto nas versões alternativas de nacionalidade, é que há um irmão Bartolomeu, que tem um papel importante.
O relato do regresso também é interessante:
E no ano seguinte de mil e quatrocentos e noventa e três, (estando El-rei de Portugal, D. João, o segundo do nome, no lugar de Vale de Paraízo, que é acima do mosteiro das Virtudes, por caso das grandes pestes que nos lugares principais daquela comarca havia) a seis dias de Março, veio ter a Restelo, em Lisboa, este Cristóvam Colon, que vinha deste descobrimento das ilhas de Cipango e Antilhas (como dito é), que, per mandado de El-rei e da Rainha de Castela, tinha descoberto; das quais trazia as ditas mostras das gentes e ouro e outras cousas que nelas havia. E, sendo El-rei disso avisado, o mandou chamar e mostrou, por isso, receber nojo e sentimento, assi por crer que o dito descobrimento era feito dentro dos mares e termos de seus senhorios de Guiné, como porque, o dito Colon, por ser de sua condição alevantado, e no modo do contar das cousas fazia isto em ouro e prata e riquezas muito maior do que era, e acusava El-rei por se escusar deste descobrimento e não no querer mandar a isso, pois primeiro se lhe viera oferecer que aos Reis de Castela, e que fora por lhe não dar crédito. E El-rei foi cometido que houvesse por bem de lho matarem aí, porque, com sua morte, o descobrimento de Castela não iria mais avante por todos terem pera si que estavam aquelas ilhas dentro dos limites da conquista de Portugal, por a pouca distância que havia destas ilhas dos Açores a estas que Colon descobrira, e que, dando Sua Alteza a isso consentimento, se poderia fazer sem suspeita porque, por ele ser descortês e alvoraçado, podiam com ele travar de maneira que cada um destes seus defeitos parecesse a causa de sua morte. Mas El-rei, como era mui temente a Deus, não somente o defendeu, mas ainda lhe fez honra e mercê e com ela o despediu, mandando vestir de grã os índios que trazia.
Nada disto exclui, como é óbvio, outras hipóteses, mas "Saudades da Terra" não deixa de ser um relato pormenorizado da época, que sempre permaneceu "secreto", e sem publicação nacional.

Aquilo que parece ter sido reconhecido a Colón como novidade, terá sido um caminho marítimo novo pelas Canárias, que levou à descoberta das Antilhas. Ou seja, é de considerar que se mantivesse a tradição da navegação costeira, partindo dos Açores e pela Terra do Bacalhau...  até ao Brasil.

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publicado às 12:57


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