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Já aqui falámos sobre o Conde D. Henrique, a sua possível ascendência da casa de Bolonha, do Bulhão, e sobre as armas cujos bezantes lembrariam os das quinas. Isto resulta do relato de Damião de Góis, incluso despercebidamente na Crónica de D. Manuel.
Conde D. Henrique (na Epitome, de Faria e Sousa)

É claro que surgiram opiniões diversas, e Manuel Faria e Sousa (1590-1649), na Epitome de las Historias Portuguesas (escrita em espanhol e publicada em Bruxelas, 1677), diz o seguinte:
No se sabia, pues, de Enrique (como del Emperador Claudio Segundo) la patria, ni los padres, si bien le hazian sublime sus virtudes y sus hazañas , ascendencia mayor en todas edades, esplendor raro en qualquier Principe.
Faria e Sousa sintetiza como fabulosas as versões que o colocavam de Lorena (Bolonha, a versão de Damião de Góis), da Hungria ou Constantinopla, e sustém a tese de ser o quarto filho de Henrique, filho do primeiro duque de Borgonha, Roberto.

Muito posteriormente, em 1831, no ano seguinte à independência da Bélgica, a Academia de Ciências faz sair por António d'Almeida um exame das várias teses sobre o Conde D. Henrique. Em particular, é referida a hipótese de Damião de Góis, onde é considerado falso que:
-  o Conde D. Henrique seja segundo filho de Guilherme de Joinville, e por isso não pertenceria à casa dos duques de Lorena.
- pela parte materna seja descendente de D. Ramiro I, rei de Aragão - hipótese que Góis também sustinha.
- lhe tivesse sido dado o Condado de Astorga, ou ainda que tivesse vindo a Hespanha numa armada holandesa.

Basicamente a refutação sustenta que, sendo Guilherme de Joinville o filho mais novo de Eustácio II, então Henrique, o segundo filho de Guilherme, não estaria em condições de combater ao lado de Afonso VI de Leão contra o seu irmão Sancho, em 1072. Note-se ainda que Faria e Sousa coloca o casamento com D. Teresa em 1073. Como os filhos reconhecidos de Eustácio II (~1017-1087), com Ida de Lorena, foram nascidos entre 1056 (Eustácio III) e 1065 (Balduíno), um irmão mais novo colocaria de facto uma clara impossibilidade física.
Porém a questão é mais complicada... seguindo um link (enviado por Calisto) sobre a linhagem de Bolonha, encontramos um casamento prévio de Eustácio, com Goda, princesa de Inglaterra, em 1036, do qual não é suposto haver nenhum filho. Eustácio só teria filhos de Ida, ou possíveis ilegítimos...
Nesse mesmo link, citando um autor Murray (2000), somos levados à existência de um Guillaume, pela Genealogica comitum Boloniensium (séc. XIV), mas agora filho mais velho de Eustácio II. 
Curiosamente, a ordem seria: Guilherme, Godofredo, Balduíno, Eustácio III.
No link é colocada uma certa surpresa na existência deste Guillaume, mencionado por Damião de Góis. Acresce a suspeita de que não seria ilegítimo, pois Geoffrey, um outro bastardo de Eustácio II não é referido.
A participação de Eustácio II em Hastings, 1066 
(tapeçarias de Bayeux) [img]

A história de Damião de Góis faz sentido com uma ligeira alteração.
Do primeiro casamento, com Goda, Eustácio II poderia ter tido Guilherme. Depois, com Ida de Lorena, teria os restantes três. O sucesso dos filhos de Ida, Godofredo ao conquistar Jerusalém, e Balduíno, que se torna Rei de Jerusalém, deixam a posição de Guilherme frágil face aos restantes e em particular a Eustácio III, irmão dos outros dois. Seria assim, o irmão mais novo Eustácio III a herdar o condado de Bolonha - o único filho de Ida que deixaria descendência. 
Para contextualizar, há relatos de histórias que colocavam "Santa" Ida, e a gestação dos seus filhos, em paralelo com Santa Maria. O impacto da reconquista de Jerusalém era enorme, e mesmo um Guilherme filho de uma princesa inglesa (ou outra) apareceria diminuído face a Eustácio III, filho de Santa Ida. 

Este é um possível contexto explicativo para a tese de Damião de Góis, dando-lhe pelo menos o crédito de descobrir um Guilherme filho de Eustácio, entretanto apagado dos registos. No entanto, de acordo com as datas, há razão na crítica de António d'Almeida... um filho mais novo colocaria uma impossibilidade de datação.

Não deixamos de notar uma citação exagerada(?) que António d'Almeida faz sobre o túmulo do fundador da monarquia, com um letreiro de versos em latim, assinalado por Fr. António Brandão, que diria:
"... outro Alexandre jaz aqui, ou Júlio outro"
São ainda referidos os feitos do Conde D. Henrique numa jornada a Jerusalém, em 1103, de onde teria trazido importantes relíquias para Braga, dadas pelo (tio) rei Balduíno I.

Esta ligação a Jerusalém apareceu também referida em termos do brasão com os bezantes.
O nome bezante viria da moeda de ouro do Império Bizantino, que ficou colocado na heráldica de Bolonha, e também do duque da Cornualha (com 15 bezantes). Era uma característica de brasões de quem tinha participado nas Cruzadas.

Um link sobre a heráldica de Bolonha (também indicado por Calisto), mostra pormenores interessantes sobre a evolução dos bezantes no condado de Bolonha.
Primeiro, Eustácio II terá usado quatro bezantes, e o sucessor de Eustácio III já usava 6 bezantes, não parecendo por isso haver um limite, ou um valor fixo. O facto é mencionado como estranho nesse texto, e depois associado às cruzadas, ainda que sem justificação sobre o número.


Condado de Bolonha: 4 bezantes de Eustácio II, 
e 6 bezantes de Etienne du Blois [img]

No caso da monarquia portuguesa, conforme já referimos, houve também um acréscimo de 5 para 11, para que depois se fixasse em 5, na época de D. João II. Aí as quinas foram colocadas em orientação vertical, por uma questão de prestígio... como se algum prestígio tivesse sido recuperado.
A esse propósito, é interessante referir, que não escondendo a sua intenção de atingir Jerusalém, como objectivo final da empresa de Tanger, o infante D. Henrique usa como motto IDA.
A palavra IDA seria associada à "ida" a Jerusalém... mas por outro lado, é impossível ignorar que o nome de Ida estava também presente nos seus filhos, primeiros reis de Jerusalém. A verificar-se esta diferença de linhagem, o Infante D. Henrique talvez procurasse legitimar a linha de Guilherme, com uma nova conquista de Jerusalém. A atitude de D. João II parece indicar que no seu reinado o problema de legitimidade ancestral teria sido finalmente resolvido.

Quanto ao Condado de Bolonha, tal como no caso português, ele acabaria ainda por reduzir e fixar o número de bezantes em três, ao mesmo tempo que adoptava o cisne, associado à lenda do Cavaleiro do Cisne (Lohengrin... já mencionado aqui pela Maria da Fonte), bem ligada a Bolonha e Brabante.
  
Condado de Bolonha: número fixo de bezantes e o cisne [img]

A menção ao reino da Bélgica, fundado em 1830, está relacionada com a sua pretensa ligação ao senhorio do Bulhão, próximo de Bolonha, a que não será alheio o nome Balduíno, que os seus monarcas vieram a adoptar posteriormente.

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publicado às 07:16


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