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Ossa Lucefecit

08.06.11
A descrição da origem do nome da ribeira Lucefecit, no post anterior, e a associação à Serra de Ossa, vai levar-nos a uma Estória complicada de contar, pois é uma hipótese que mexe fundo com a nossa nacionalidade "lusitana".
Ribeira de Lucefecit

Recordamos o que dizia o Padre António Carvalho da Costa em 1708:
(...) corre por ele uma ribeira chamada Lucefece, que tomou o nome do que disse um Capitão, o qual dando uma batalha na Serra d'Ossa assim chamada dos muitos ossos, que nela ficaram dos que na batalha morreram, indo-se recolhendo, & chegando a esta ribeira, vinha amanhecendo, disse para os seus "Lucent fecit" que desta palavra tomou o nome. Há neste termo uma Paróquia dedicada a N. Senhora do Rosário com um Cura da Ordem de Aviz, & uma Ermida do Arcanjo S. Miguel perto da Vila de Terena , fundada nas ruínas daquele célebre, & antiquíssimo templo dedicado a Cupido, chamado Endovelico na lingua dos antigos Lusitanos.
Esta descrição é avassaladora... uma batalha ímpar, cujos ossos deram nome a uma Serra, e assim a explicação associada à ribeira fica demasiado simplista, para uma frase cínica de um capitão.
Ao mesmo tempo, mistura-se o culto de Cupido, do Amor, com um nome composto, Endovélico, que para nós se deve ler Endo-bélico, ou seja Guerra Interna. 
Já o tínhamos suspeitado, mas sem outra razão... que agora acrescentamos!

A Estória é esta... Lucefecit será uma pequena corrupção de Lusii fecit, ou algo semelhante, revelando os "Lusos fizeram-no"!

Estamos em 142 a.C, e os Romanos comandados por Quinto Fábio Máximo Serviliano preparavam o assalto final à Iberia. A História conta-nos sobre um herói Viriato, que se rebela, junta tribos e confronta o poderoso exército romano com técnicas de guerrilha e basicamente calhaus. Viriato é depois atraiçoado e a Lusitânia perde a independência, tornando-se província romana.

Muito bem... mas há alguns detalhes que ficaram sempre por explicar.
No sudeste ibérico, havia uma zona atribuída aos Cónios, Turdetanos, ou Tartéssios (podem ser variações do nome consoante os designadores e o tempo de referência), que seria a mais avançada em termos civilizacionais, devido à sua importância costeira e charneira na entrada do Mediterrâneo. Alguns (poucos) registos arqueológicos foram confirmando isso.
É interessante analisar este mapa da wikipedia, que mostra as diferenças em termos de toponímia linguística.

Se reparamos no mapa, confirmando alguma diferença civilizacional, os Lusitanos não chegavam à parte sul, apesar de posteriormente esse território ter sido incluído na Lusitânia.
Essa parte sul seria Cónia, com forte influência fenícia, mas distinta.

Onde ficaram os Cónios, com uma civilização marítima, provável herdeira fenícia, nesta luta de Romanos e Lusitanos? Não aparecem, não constam dos registos de batalhas...
Poderá assumir-se que estavam em colaboração com os Lusitanos, na defesa da parte ocidental, mas seria estranho subvalorizar a participação de um povo marítimo claramente mais avançado face a um suposto herói "pastor das montanhas".

Ora, após a terraplanagem de Cartago, por Cipião Emiliano em 146 a.C. seria bem sabido o destino que os Romanos reservariam às civilizações púnicas e similares. A ordem era destruir por completo... não tinha sido acidental a participação ibérica nas tropas de Aníbal, e toda a Hispânia estava sob ameaça.
Passam 4 anos, resta um pequeno reduto algarvio-alentejano e mais acima um povo Lusitano, provavelmente herdeiro dos Celtas, encerrado no seu reduto montanhoso.
Também sabemos que os Romanos não tinham problemas em fazer e desfazer alianças, colocando os fins à frente dos meios... e é aqui que entra a nossa Estória de traição pelo lado oposto!
Perante a ameaça Romana, os Cónios devem ter convocado os restantes povos para uma resistência, e por outro lado Serviliano deve ter explicado a Viriato que o problema que tinham não era nada com ele. Perante o resultado de Cartago, Viriato e os Lusitanos terão cedido à pressão romana.
Por uma questão de sobrevivência, devem ter simulado aceitar a aliança com os Cónios para os trair...

A batalha determinante desenrolar-se-ia na Serra de Ossa, junto à ribeira de Lucefecit.
Os Cónios terão sido surpreendidos pela traição lusitana do seu lado do campo de batalha, ao mesmo tempo que eram exterminados pelo poderoso exército romano. Encurralados entre dois inimigos, é natural a aniquilação total, de que resultou o nome Serra de Ossa... nem tiveram oportunidade de retirar, pois as saídas teriam sido cortadas do seu lado pelos lusitanos.
Uma outra hipótese mais sinistra depreende-se da afirmação do capitão ser proferida ao amanhecer! A batalha não se poderia ter dado de noite, pelo que se revela uma eventual aniquilação no acampamento das forças Cónias, seja pelos lusos, seja por revelação destes aos romanos.

É assim natural a expressão reveladora do Capitão na ribeira "os Lusos fizeram-no", ou até talvez tivesse sido "faz-se luz", e o nome romano Lusitânia tenha derivado dessa ideia luminosa.
É ainda natural a posterior adoração no local ao Endovélico, que nada mais seria do que um eterno arrependimento a essa Guerra Interna,  perdido num outrora Cupido de amor.
Mais natural é que só nessas condições Viriato tivesse sido reconhecido como rei, e a Lusitânia como estado independente, por acordo com Serviliano. Os Romanos não o fariam noutra circunstância... e em breve voltariam para destituir Viriato. Deixavam um pastor na história, e ocultavam uma civilização avançada.

Conistorga, provavelmente seria arrasada e sobre ela seria erigida a paz, a Pax Julia... mas não imediatamente! A estória não acaba aqui...

Muito provavelmente a parte alentejana foi conquistada e arrasada, resta saber se as montanhas algarvias teriam protegido uma parte significativa dos Cónios. Viriato terá sido depois traído, muito provavelmente resultado da sua traição aos Cónios, e por patrocínio destes.

Para a fase seguinte juntamos dois pormenores: a conquista de Lacobriga é reportada apenas depois de 76 a.C. e de Sertório, com um detalhe sinistro - o nome Ossonoba para Faro!
Ossonoba, literalmente de "Osso-nova" derivará de nova zona de ossos... uma nova Serra de Ossa, ou seja uma nova batalha de aniquilação, posterior mas de data indeterminada.
É natural que os Cónios tenham conseguido resistir mais algumas décadas, ainda que bastante fragilizados, a Lusitânia romanizada afinal resumir-se-ia à parte não algarvia. Parte do sucesso de Sertório pode ter resultado dessa fugaz colaboração com os Cónios. A inclusão de Lacobriga na Lusitânia é reportada apenas após Sertório, e por outro lado é só com Júlio César, duas ou três décadas depois, que se consolida a Pax Julia sobre uma Conistorga desaparecida.
Também destes exemplos podemos perceber como o Egipto de Cleópatra sentia a terraplanagem de civilizações passadas e evoluídas... não era claro qual seria o destino que a nova ordem mundial romana lhes reservaria.

Contamos apenas uma Estória, mas é mais uma daquelas que reúne várias informações, dando consistência e alguma explicação às histórias enfabuladas que foram fazendo a nossa História.

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publicado às 13:24

Ossa Lucefecit

08.06.11
A descrição da origem do nome da ribeira Lucefecit, no post anterior, e a associação à Serra de Ossa, vai levar-nos a uma Estória complicada de contar, pois é uma hipótese que mexe fundo com a nossa nacionalidade "lusitana".
Ribeira de Lucefecit

Recordamos o que dizia o Padre António Carvalho da Costa em 1708:
(...) corre por ele uma ribeira chamada Lucefece, que tomou o nome do que disse um Capitão, o qual dando uma batalha na Serra d'Ossa assim chamada dos muitos ossos, que nela ficaram dos que na batalha morreram, indo-se recolhendo, & chegando a esta ribeira, vinha amanhecendo, disse para os seus "Lucent fecit" que desta palavra tomou o nome. Há neste termo uma Paróquia dedicada a N. Senhora do Rosário com um Cura da Ordem de Aviz, & uma Ermida do Arcanjo S. Miguel perto da Vila de Terena , fundada nas ruínas daquele célebre, & antiquíssimo templo dedicado a Cupido, chamado Endovelico na lingua dos antigos Lusitanos.
Esta descrição é avassaladora... uma batalha ímpar, cujos ossos deram nome a uma Serra, e assim a explicação associada à ribeira fica demasiado simplista, para uma frase cínica de um capitão.
Ao mesmo tempo, mistura-se o culto de Cupido, do Amor, com um nome composto, Endovélico, que para nós se deve ler Endo-bélico, ou seja Guerra Interna. 
Já o tínhamos suspeitado, mas sem outra razão... que agora acrescentamos!

A Estória é esta... Lucefecit será uma pequena corrupção de Lusii fecit, ou algo semelhante, revelando os "Lusos fizeram-no"!

Estamos em 142 a.C, e os Romanos comandados por Quinto Fábio Máximo Serviliano preparavam o assalto final à Iberia. A História conta-nos sobre um herói Viriato, que se rebela, junta tribos e confronta o poderoso exército romano com técnicas de guerrilha e basicamente calhaus. Viriato é depois atraiçoado e a Lusitânia perde a independência, tornando-se província romana.

Muito bem... mas há alguns detalhes que ficaram sempre por explicar.
No sudeste ibérico, havia uma zona atribuída aos Cónios, Turdetanos, ou Tartéssios (podem ser variações do nome consoante os designadores e o tempo de referência), que seria a mais avançada em termos civilizacionais, devido à sua importância costeira e charneira na entrada do Mediterrâneo. Alguns (poucos) registos arqueológicos foram confirmando isso.
É interessante analisar este mapa da wikipedia, que mostra as diferenças em termos de toponímia linguística.

Se reparamos no mapa, confirmando alguma diferença civilizacional, os Lusitanos não chegavam à parte sul, apesar de posteriormente esse território ter sido incluído na Lusitânia.
Essa parte sul seria Cónia, com forte influência fenícia, mas distinta.

Onde ficaram os Cónios, com uma civilização marítima, provável herdeira fenícia, nesta luta de Romanos e Lusitanos? Não aparecem, não constam dos registos de batalhas...
Poderá assumir-se que estavam em colaboração com os Lusitanos, na defesa da parte ocidental, mas seria estranho subvalorizar a participação de um povo marítimo claramente mais avançado face a um suposto herói "pastor das montanhas".

Ora, após a terraplanagem de Cartago, por Cipião Emiliano em 146 a.C. seria bem sabido o destino que os Romanos reservariam às civilizações púnicas e similares. A ordem era destruir por completo... não tinha sido acidental a participação ibérica nas tropas de Aníbal, e toda a Hispânia estava sob ameaça.
Passam 4 anos, resta um pequeno reduto algarvio-alentejano e mais acima um povo Lusitano, provavelmente herdeiro dos Celtas, encerrado no seu reduto montanhoso.
Também sabemos que os Romanos não tinham problemas em fazer e desfazer alianças, colocando os fins à frente dos meios... e é aqui que entra a nossa Estória de traição pelo lado oposto!
Perante a ameaça Romana, os Cónios devem ter convocado os restantes povos para uma resistência, e por outro lado Serviliano deve ter explicado a Viriato que o problema que tinham não era nada com ele. Perante o resultado de Cartago, Viriato e os Lusitanos terão cedido à pressão romana.
Por uma questão de sobrevivência, devem ter simulado aceitar a aliança com os Cónios para os trair...

A batalha determinante desenrolar-se-ia na Serra de Ossa, junto à ribeira de Lucefecit.
Os Cónios terão sido surpreendidos pela traição lusitana do seu lado do campo de batalha, ao mesmo tempo que eram exterminados pelo poderoso exército romano. Encurralados entre dois inimigos, é natural a aniquilação total, de que resultou o nome Serra de Ossa... nem tiveram oportunidade de retirar, pois as saídas teriam sido cortadas do seu lado pelos lusitanos.
Uma outra hipótese mais sinistra depreende-se da afirmação do capitão ser proferida ao amanhecer! A batalha não se poderia ter dado de noite, pelo que se revela uma eventual aniquilação no acampamento das forças Cónias, seja pelos lusos, seja por revelação destes aos romanos.

É assim natural a expressão reveladora do Capitão na ribeira "os Lusos fizeram-no", ou até talvez tivesse sido "faz-se luz", e o nome romano Lusitânia tenha derivado dessa ideia luminosa.
É ainda natural a posterior adoração no local ao Endovélico, que nada mais seria do que um eterno arrependimento a essa Guerra Interna,  perdido num outrora Cupido de amor.
Mais natural é que só nessas condições Viriato tivesse sido reconhecido como rei, e a Lusitânia como estado independente, por acordo com Serviliano. Os Romanos não o fariam noutra circunstância... e em breve voltariam para destituir Viriato. Deixavam um pastor na história, e ocultavam uma civilização avançada.

Conistorga, provavelmente seria arrasada e sobre ela seria erigida a paz, a Pax Julia... mas não imediatamente! A estória não acaba aqui...

Muito provavelmente a parte alentejana foi conquistada e arrasada, resta saber se as montanhas algarvias teriam protegido uma parte significativa dos Cónios. Viriato terá sido depois traído, muito provavelmente resultado da sua traição aos Cónios, e por patrocínio destes.

Para a fase seguinte juntamos dois pormenores: a conquista de Lacobriga é reportada apenas depois de 76 a.C. e de Sertório, com um detalhe sinistro - o nome Ossonoba para Faro!
Ossonoba, literalmente de "Osso-nova" derivará de nova zona de ossos... uma nova Serra de Ossa, ou seja uma nova batalha de aniquilação, posterior mas de data indeterminada.
É natural que os Cónios tenham conseguido resistir mais algumas décadas, ainda que bastante fragilizados, a Lusitânia romanizada afinal resumir-se-ia à parte não algarvia. Parte do sucesso de Sertório pode ter resultado dessa fugaz colaboração com os Cónios. A inclusão de Lacobriga na Lusitânia é reportada apenas após Sertório, e por outro lado é só com Júlio César, duas ou três décadas depois, que se consolida a Pax Julia sobre uma Conistorga desaparecida.
Também destes exemplos podemos perceber como o Egipto de Cleópatra sentia a terraplanagem de civilizações passadas e evoluídas... não era claro qual seria o destino que a nova ordem mundial romana lhes reservaria.

Contamos apenas uma Estória, mas é mais uma daquelas que reúne várias informações, dando consistência e alguma explicação às histórias enfabuladas que foram fazendo a nossa História.

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publicado às 05:24


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